O segredo das três cartas - Isabella Brancher

 





O segredo das três cartas

Isabella Brancher


— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto…

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não…

— A mim e a ela — explicou vivamente ele. — Rita quis me acompanhar nessa visita.

A cartomante não sorriu: disse-lhes só que esperassem. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso. Rita divagava.

Enquanto ela baralhava as cartas, Camilo roía as unhas vigorosamente, aqueles minutos de espera o estavam consumindo. Vários pensamentos preenchiam a sua mente.

A sala tinha um aspecto sombrio que causava ainda mais apreensão em Camilo e Rita. As cores, apesar de vivas, preenchiam tanto o ambiente que deixavam em ambos uma sensação de falta de ar. Aquelas últimas semanas, marcadas por tantos acontecimentos inesperados, tornavam tudo ainda mais desconfortável.

A cartomante começou a balbuciar algumas palavras e a mente de Camilo começou lentamente a se acalmar. 

Começou a dispor as cartas sobre a mesa. Surgiu a primeira: a imperatriz. Ela arqueou as sobrancelhas e soltou uma interjeição leve: “ohhh”. Veio a segunda: a sacerdotisa, uma nova interjeição escapou de seus lábios. Então apareceu a terceira: a estrela. A mulher congelou. Perplexa, ficou algum tempo a observar essas três cartas juntas e, num leve sobressalto, como se surpreendentemente fosse algo quase impossível de acontecer, murmurou: 

— Não!

Camilo, que já estava assustado o suficiente, com o coração disparado, perguntou: 

— O que foi? O que aconteceu?

A face da vidente empalideceu e ela permaneceu pensativa, como se estivesse buscando a melhor forma de transmitir o que via. Camilo sentiu um leve tremor percorrer seu corpo, a mente voltou a turbinar pensamentos. Rita levou a mão à barriga, não vinha se sentindo bem havia alguns dias. A ansiedade, os bilhetes, tudo a fazia sentir-se profundamente enjoada.

Ela continuou a apresentar as cartas na mesa, mas a cada carta a tensão crescia. 

Seu semblante tornava-se cada vez mais estranho, como se aquilo desafiasse toda a experiência adquirida em anos de ofício.

Camilo sentiu a boca secar.

— Pelo amor de Deus, mulher, diga logo o que viu!

Finalmente, como num vômito, a cartomante, rindo de nervoso, diz: — Ela está grávida de trigêmeos! 


Nota:

A Imperatriz: é o símbolo máximo da fertilidade, da criação e da gestação próspera.

A Sacerdotisa: indica o início de tudo, o momento misterioso da concepção e do desenvolvimento interno.

A Estrela: traz esperança, renovação e a bênção de uma nova vida.



(O texto acima é uma releitura do conto A CARTOMANTE/MACHADO DE ASSIS, com aproveitamento do primeiro parágrafo do autor)


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