Uma casa velha demais - Yara Mourão




Uma casa velha demais

Yara Mourão


Dora passou por cada cômodo, entre satisfeita e incerta. O ar antigo do mobiliário enchia os ambientes de uma certa familiaridade, lembranças da infância, túnel do tempo. Sabia que a casa precisava de reparos, mas isso ficaria para os dias seguintes, pois tudo o que queria agora era descansar da mudança.

Retirou-se para o quarto, aconchegante e silencioso. Acendeu o abajur, a lâmpada bruxuleou; ela arrumou o criado, a jarra de água, o porta-retrato.  Olhou longamente a fotografia. Um conhecido estremecimento a percorreu, vendo o sorriso esmaecido de seu filho que se fora, há anos, no fundo de um lago lamacento. Cerrou os olhos. Melhor dormir, pensou.

Mas, por alguma fresta, entrou um vento frio que, roçando as cortinas, levantou um ruído úmido e distante. “Talvez chova; já ouço uns pingos no telhado.”

Ao fechar a porta do banheiro, viu que era o vazamento de um cano que, gota a gota, lavava o piso de registros tão antigos.

Dora se deitou. O sono se esvaiu por debaixo da porta. Ela ansiava pela manhã. Mas um ruído se espalhou pela sala, pelos móveis, tapetes. Tateando pelas paredes, foi até o hall de entrada, buscando coragem na penumbra desconhecida. “De certo este ruído vem daqui de dentro.” Presságio e medo levaram suas mãos até a porta da cozinha e, abrindo-a num movimento brusco, ouviu-a ranger num miado embargado.

Não vendo nada ali, voltou rapidamente para o quarto. Assim que deitou de novo, um som mais forte junto à porta de entrada a fez tremer e suar frio. “Certamente há alguém lá fora querendo entrar aqui!”

Considerou as chances de haver alguém que precisasse de ajuda, àquela hora da noite, naquele lugar distante e sem respaldos.

Dora buscou coragem entre medos ancestrais e pesadelos antigos. Cobriu-se com um xale, calçou as pesadas botas e, apesar da pouca luz, esgueirou-se até a entrada. Abriu a porta de um lance rápido e foi logo dizendo: “Me perdoe, senhor ou senhora, mas eu estava quase dormindo e mal a escutei, arranhando a minha porta como um pássaro ferido, ou batendo compassadamente, fugindo da noite fria!”

 Ninguém lá fora…

Dora voltou-se trêmula, sem saber mais. No quarto, bebeu da jarra quase toda a água, molhou o rosto. Mirou o retrato do filho, fez uma prece.

O ruído continuava. Ela retornou à sala e, ligando os passos aos espaços da tarde da mudança, chegou frente a um armário de portas pesadas, o qual ainda não havia arrumado.

Quando puxou um dos ferrolhos, a portinhola de baixo se abriu e de lá saíram, famintos e agitados, dois grandes animais de olhos negros, fucinhos longos e rabos rajados, rosnando, rastejando ruidosos pelo piso irregular da casa. Rapidamente se acomodaram no tapete em frente à lareira, grunhindo estranhamente.

Dora se esquivou, subiu num móvel e encarou os bichos à meia-luz: “que seriam? De onde vieram?” 

Buscou as bolachas na gaveta do móvel e atirou o pacote para os bichos. Enquanto se entretinham comendo, ela correu até a porta, abriu-a totalmente e, atirando-se aos berros sobre o sofá ao lado dos bichos, conseguiu espantar os invasores.

“Nada mal para uma primeira noite!”, pensou.

Voltou para o quarto, deu um beijo no retrato; Dora soube, então, que esta casa velha seria uma caixinha de surpresas.

Deitando no silêncio que se fez, agora, então, como há tempos não acontecia, Dora pode dormir em paz.


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