O buquê do noivo 1948 - Carla Di Sessa

 


O buquê do noivo

1948


— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto…

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não…

— A mim e a elas — explicou vivamente ele.

A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.

— Vejo fortuna, dinheiro… Mas, ainda vejo… Poder!

Camilo olhou firme para a cartomante e disse:

— Isso vale para qualquer um, fama, poder, fortuna! Muito vago, a senhora vai ter que ser mais específica.

A cartomante olhou bem para ele, começando a se irritar. Galinho pomposo, como ousava duvidar de suas cartas?

Embaralhou as cartas novamente, pediu que Camilo cortasse o monte em três, transpôs os montes, juntou tudo e começou a estendê-las novamente. 

— Aqui, está vendo? Novamente, fama, poder, muito dinheiro.

Mas, desta vez, algo chamou a atenção da cartomante.

— Mas, vejo aqui — continuou ela, batendo com o dedo em uma das cartas —, há uma condição.

Camilo riu, claro, não podia deixar de haver um porém…

— Prossiga — disse ele.

— Você recebeu uma proposta que, se aceitar, lhe trará tudo o que já lhe disse: fortuna, poder, etc. 

— Sim, sim, que mais?

A cartomante olhou bem as cartas e finalmente disse:

— As cartas estão dizendo que a condição é você se esquecer de suas flores… Estranho, mas é isso mesmo, você vai ter que abrir mão de suas flores, completamente e para sempre.

O coração de Camilo deu um salto e se encolheu dentro do peito. Suas flores… nunca!

Camilo foi embora andando vagarosamente. O Barão iria à sua casa naquela noite com o contrato do casamento. Camilo se casaria com a filha dele, Angelica, uma moça sem graça, meio ausente, um tanto confusa, cercada de muitos mimos e atenção. O pai a cercava de cuidados, ciente de que sua filha possuía limitações, e se preocupava com o que aconteceria a ela quando ele faltasse. Os horrores da guerra começavam a tenuemente se dissipar, mas haviam mostrado a ele que a vida é imprevisível e impiedosa. Por isso decidira que Angelica deveria se casar e seu marido receberia muitas benesses em troca de cuidar sempre dela, com gentileza e carinho. Depois de muito procurar, decidiu-se por Camilo. O contrato foi redigido e, naquela noite, Camilo iria assiná-lo para então o casamento poder acontecer. 

Mas, pensou Camilo, sem suas flores?

Begônia e Petúnia, suas paixões. 

Begônia, delicada e pequena, carnuda e aveludada, discreta e sedutora. Petúnia, grande e angulosa, olhos de gata faminta, espalhafatosa e exigente. 

Como abrir mão de um paraíso?

No entanto, naquela noite, durante a visita de seu provável futuro sogro, ao ler o contrato, Camilo se deparou com a seguinte cláusula: 

“Como condição para a celebração do matrimônio, a parte beneficiária fará jus, nos termos da legislação aplicável e dos instrumentos patrimoniais que vierem a ser formalizados, à fruição e aos benefícios decorrentes do patrimônio, dos bens e dos direitos de titularidade da outra parte.

Em contrapartida, a parte beneficiária compromete-se a cessar, de forma definitiva, quaisquer relações de natureza afetiva, amorosa ou íntima mantidas com as Sras. Begônia Dalle e Petúnia Gris, abstendo-se, igualmente, de estabelecer ou manter com ambas qualquer vínculo de qualquer natureza durante a vigência do matrimônio.”

Camilo leu o contrato de cabo a rabo duas vezes e se esforçou muito para manter o semblante neutro. Por fim, falou:

— Muito bem, vamos assinar.

E assim Camilo se tornou o poderoso marido de Angelica Buonaventura e, como diziam as cartas, recebeu fama, poder e muito dinheiro.

Todas as semanas, quando visitava ora uma, ora outra de suas flores, Camilo cumpria à risca a cláusula que o proibia de ver Begônia Dalle e Petúnia Gris. Essas mulheres não existiam, Begônia era, na verdade, Greta Weber e Petúnia, Raquel Memetz, um segredo guardado a sete chaves desde os tempos em que a guerra trazia pessoas que deveriam passar a ser sombras e viver apagadas, sem chamar a atenção. Seus registros e documentos estavam muito bem escondidos, mas poderiam aparecer no caso de Camilo ter que provar ao sogro que não havia descumprido o acordo.

E assim Camilo continuou cuidando de suas flores com paixão e sofreguidão enquanto cuidava de Angélica com muito desvelo. 

 


(Releitura com emprego de trecho do conto “A cartomante” — Machado de Assis)


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