HERANÇA QUE CAI DO CÉU OU NÃO!
Sergio Dalla Vecchia
A noite espreguiçou-se lentamente. Era hora da troca de turno com o dia!
Dora foi bruscamente despertada pelo canto de um galo. Aquele som desafinado bateu como um martelo nas bigornas delicadas dos seus ouvidos, habituados a músicas seletas. Assim terminou a primeira noite na casa herdada do tio, por conta de seu falecimento repentino.
Enquanto esfregava os olhos, ansiosos pensamentos invadiram seu cérebro.
Que fazer com torneiras pingando, portas sem tranca e a arrumação interna daquela casa desabitada, não se sabe há quanto tempo.
Ela, desenrolada que era, não pensou duas vezes, pôs-se em pé e saiu em busca de encanador, chaveiro e diarista.
No mesmo dia, conseguiu pôr em ordem as pendências de manutenção, com muito esforço da equipe liderada por ela.
Enfim, casa limpa e corpo moído. Era hora do banho reconfortante.
Nua dentro do box, agasalhou-se com o manto de água quente formado por gotas espargidas pelo chuveiro recém-instalado.
Olhos cerrados, prazer e mente limpa aproveitavam aquele momento terapêutico.
Eis que, do nada, o deleite foi cortado pela interrupção repentina da água.
Dora, ainda ensaboada, embrulhou-se rapidamente na toalha e saiu em busca da causa da pane hidráulica.
Não entendia, pois o encanador, antes de sair, fez todos os testes necessários e tudo funcionava.
Já saindo pela porta do banheiro, de súbito a água voltou ao normal!
Aliviada, voltou para o box e, mal retomou o banho, e lá se foi a água novamente.
Desesperada, entrou enrolada na toalha, casa adentro.
Foi para a cozinha direto na torneira da pia, abriu e zás. Água jorrando!
Não é possível, pensou ela!
Esperta, acabou tirando o sabonete do corpo na canecada, ali mesmo.
Durou pouco tempo e o jato logo foi interrompido.
Verificou registros em outras torneiras e acontecia o mesmo: no início, água; depois, secura!
Pensando em algo, resolveu ligar o som do minissistema que existia na sala e que também foi testado pelo eletricista e funcionava bem na véspera.
Apertou o botão on e logo ouvia-se o Fantasma da Ópera. Justine; tan, tan, tan, tan!
Mas como? O CD estava na minha mala, dentre outros. Alguém o colocou! Mas não entrou ninguém na casa desde ontem.
Conforme Dora foi ficando nervosa, mais o volume crescia. Justine; tan, tan, tan, tan!
Agora, já não era mais o som; sim, quadros que se mexiam nas paredes e portas que batiam!
Dora não suportou, acabou surtando, fugindo em desespero e nunca mais voltou!
Vendeu a casa e não soube de nenhum relato do novo morador sobre os eventos ocorridos com ela.
Com o tempo, ela foi esquecendo e, ao mesmo tempo, pesquisou e descobriu que existe o fenômeno paranormal ou psicológico chamado de Poltergeist, caracterizado por perturbações físicas inexplicáveis, como movimentação ou arremesso de objetos, ruídos altos, luzes e portas batendo. A palavra vem do alemão e significa espírito que faz barulho. Muitas ocorrências podem estar ligadas ao estado emocional de um indivíduo específico no local.
Dora também entendeu que pode ter sido ela o canal para a ocorrência dos fenômenos, pois na época estava emocionalmente instável.
Nunca mais teve problemas.
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