SERA QUE É ELA? - Sérgio Dalla Vecchia


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SERA QUE É ELA?
Sérgio Dalla Vecchia

Conheço aquela moça na fila do açougue não sei de onde! - Pensava Cássia.
Havia muito movimento no Supermercado, era uma quarta-feira, dia de promoções.

Priscila pegou o pacote de carne e veio em direção a Cássia,  encabulada desviou o olhar apressadamente.

Priscila sentiu a mesma sensação de conhecer Cassia, duvidosa também desviou os olhos.

As duas continuaram comprando até que chegaram simultaneamente à fila de frios. Ficando Cássia logo atrás de Priscila.

A curiosidade das duas era intensa, as memórias trabalhavam em busca de locais, nomes, escolas e tantas outras opções. Nada!

Precisavam de apenas uma pista por menor que fosse!

De repente o balconista gritou:

—Dona Priscila, o que a senhora vai querer hoje?

Pronto, surgira a espoleta para deflagrar a memória de Cassia.

Como pude não lembrar! É ela, a moça que conheci no Hotel Fazenda!

Não se contendo de satisfação, aproximou-se e sussurrou no ouvido de Priscila:

Como vai querida, lembra-se de mim lá do Hotel Fazenda?

Ela virou-se e surpresa disse:

—Sim claro, como poderia esquecê-la!

—Você é a Cássia que trapaceava no jogo de tranca, não é?

—Claro, sou eu mesma, dando uma gargalhada!

—Aproveitava enquanto você se distraia paquerando meu marido e roubava mesmo! – Abrindo outra gostosa gargalhada.

—Por falar nisso, como vai o bonitão do seu marido, continua paquerando todas que encontra?

O diálogo continuou nesse tom até que os alfinetes acabaram.

Despediram-se com beijinhos e promessa de próximas visitas!











A vida nos ensina - Fernando Braga


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A vida nos ensina
Fernando Braga

Há alguns anos, tivemos um congresso, realizado no Hotel Casagrande em Guarujá. Muitos participantes, muitos convidados estrangeiros.

Certa noite, três destes participantes, um da Austrália, outro indiano e um escocês, se juntaram ao nosso grupo, para irmos a um dos bons restaurantes da cidade. Éramos seis.

 A noite estava deliciosa, uma melancia doce, lua brilhando no céu, refletindo-se no mar, o restaurante ainda, com poucos clientes. Sentamo-nos próximo à janela que estava aberta, de onde  tínhamos visão para a praia da Enseada, sentindo a brisa morna penetrando, acariciando nossas faces.

O ambiente entre nós era muito cordial, junto àqueles amigos, que fazia tempo não víamos. Tornou-se ainda mais amigável e festivo após a primeira caipirinha e a segunda.

O restaurante, como sabíamos, servia pratos fartos. Assim, para os seis, escolhemos três pratos. Vieram filés de pescada à dorê, namorado cozido, com molho de tomate e camarões à grega, com muito arroz, batatas fritas e cozidas, verduras diversas, que satisfez plenamente a todos. Cerveja rolando!

Elogios dos colegas estrangeiros ao nosso país, à nossa comida, à alegria e simpatia dos brasileiros, nos comoveu. Um deles, enfatizou:

— Que privilégio, viverem em um pais como este, com este sol, esta temperatura, esta praia, esta comida e...  Caipirrinha!

— Confessamos que nunca comemos peixes e camarões tão gostosos como estes. Levantaram os copos para brindar e saudar seus queridos amigos brasileiros.

Mas, aconteceu um fato...

Quando estávamos bem animados, aguardando a chegada da comida, chegou um casal de idosos, uma atraente moça, dando a mão a uma criança e um rapaz jovem, alto, boa aparência, sentando-se na mesa ao lado, a única restante no restaurante, agora lotado. Sentou-se ele de frente para nós, ao lado do provável sogro, as duas mulheres com a criança, de costas para nossa mesa.

 Ao olharmos naquela direção, observamos que o rapaz não tinha os dois braços, representados apenas por dois pequenos apêndices (abraquia). Pensamos: - Provavelmente, mais uma vítima do uso da talidomida, ingerida por sua mãe naquela época. Sãos os chamados filhos da Talidomida, má formação da década de 60. 

Ao observar que olhávamos em sua direção, fez um leve cumprimento com a cabeça, sorriu e continuou sua conversa na mesa. Quando estávamos quase terminando de comer, o garçom trouxe a comida daquela mesa vizinha, servindo os pratos de cada um.

Neste instante, o rapaz desencostou um pouco sua cadeira, tirou o pé direito do sapato, levantou-o e com os dedos pegou o garfo, levando-o ao prato, colocando a comida na boca. Deu para observar que seu pé era de pele bem clara, muito limpo e seus movimentos precisos, eumétricos.

Deparamos aquilo, nada comentamos, mas certamente cada um de nós teve um pensamento. De minha parte:

— Quão sabia é a natureza, quão perfeito é o corpo humano, que faz os cegos verem com as mãos, surdos ouvirem com os movimentos dos lábios daqueles que falam, os abráquicos, pintarem com os pés ou com a boca e agora, mais este testemunho de alguém se alimentando com o pé.

Ao sair, cumprimentamos aquela família que parecia feliz, com aceno especial ao rapaz, que não demonstrava nenhum complexo pela falta dos braços, exibindo a grande habilidade nos pés para aquele ato, indispensável à sua vida.

Na volta ao hotel, o australiano enfatizou que uma feita, vira uma pequena garota de 12 anos, sem os braços, apresentar-se a uma plateia para cantar, tocando ela mesma o piano com os pés. O escocês disse:

— Temos um conterrâneo, que sem pernas e sem braços, atravessou o Canal de Mancha a nado. Tudo é possível!

O indiano complementou:

— Por isso foram criados os jogos Paraolímpicos. É a própria superação!

Vivre la vie!


O MOTIM DA CHIBATA - Sérgio Dalla Vecchia

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O MOTIM DA CHIBATA
Sérgio Dalla Vecchia

Branco era um rapaz de espirito rebelde, desempregado perambulava pelo cais do Porto, na cidade do Rio de Janeiro em outubro de 1910.

Enquanto olhava os arredores deparou-se com a imponência de dois couraçados; o MINAS GERAIS e o SÃO PAULO. Logo adiante havia uma placa convidando para os jovens se alistarem na Marinha.

Chegando junto à placa, um oficial logo lhe entregou um papel para assinar. Impressionado com a grandeza dos navios, assinou sem pensar. Seria a saída para a sua condição de desempregado.

No governo de Afonso Pena (1906-1909), a Marinha brasileira tornara-se muito poderosa pelos investimentos, pela aquisição de vários navios, dentre eles dois couraçados fabricados em estaleiro na Inglaterra.

Acontece que os métodos de conduta aplicados pela Marinha eram retrógrados e muito rígidos, não evoluíram como as das outras Marinhas pelo mundo afora.

Maus tratos e castigos físicos eram muito contundentes.

Sem conhecer, Branco entusiasmado embarcou no couraçado SÃO PAULO.

Os trabalhos a bordo eram intensos, os oficiais prepotentes, rudes ao extremo. No terceiro dia, Branco já foi castigado por não ter lavado a escada como o oficial queria.

Mesmo por falhas banais, os marinheiros eram penalizados sem piedade!

O castigo mais severo consistia em se aplicar chibatadas.

Uma corda grossa embebida em água, transpassada por agulhas, era a chibata utilizada para rasgar a pele do infeliz condenado!

Por conta disso o moral da turma era muito baixo. Trabalhavam com ódio no coração!

A rotina era a mesma até que um marinheiro do MINAS GERAIS por ter sido acusado de um ato injustamente, desacatou o oficial.

O fato foi considerado gravíssimo e a pena a ser aplicada foi de dezenas de chibatadas perante toda a tripulação.

Houve uma comoção total entre os marinheiros.

Cada chibatada aplicada era sentida por todos, os gritos de dor ecoavam pelo vazio do mar.

Foi o estopim que deflagrou um motim sangrento no MINAS GERIAS.

Rapidamente a notícia chegou ao SÃO PAULO.

Branco inconformado, utilizando seu espirito rebelde, com muita astúcia conseguiu silenciosamente programar um motim simultâneo nos dois couraçados, para a noite de 22 de novembro de 1910.

Assim aconteceu!

Os marinheiros tomaram agora também o SÃO PAULO, alguns oficiais foram chacinados, Branco assumiu o comando geral e mandou que apontassem os canhões em direção ao centro do Rio de Janeiro.

O Marechal Hermes da Fonseca havia recém empossado como novo Presidente do Brasil, dia 15 de novembro de 1910.

Nessa noite de 22 de novembro ele assistia à uma ópera, quando a apresentação foi interrompida pelo estrondo de uma bomba!

Logo o presidente recebia as reivindicações dos amotinados:

Fim da chibata e de outros castigos físicos, melhores condições de trabalho, aumento do soldo e anistia.

Foi estipulado um prazo de poucas horas para atendê-los ou a cidade seria bombardeada.

A população entrou em pânico!

Os políticos e Forças Armadas após intensos debates, aceitaram as condições impostas.

Os oficiais sobreviventes, os substitutos reassumiram o comando dos couraçados, a ordem foi restabelecida.

Com a conquista alcançada, Branco sentiu-se como um herói.

A paz voltou a reinar nos navios, mas não no batalhão de fuzileiros navais da Ilha das Cobras.

Os fuzileiros se amotinaram, mas o Governo já precavido, abafou a rebelião rapidamente com muita violência.

Ainda aproveitou com pretexto desse novo motim cancelar a anistia assinada anteriormente sob mira de canhões.

Os primeiros revoltosos foram presos, torturados, alguns assassinados e outros encaminhados para trabalhos forçados na Amazônia.

O herói Branco foi um dos primeiros a ser vingado com a morte.

Houve quem dissesse que o Governo ganhara a revanche!

  

Conto de ficção baseado no livro, História do Brasil de Raymundo Campos, página 170, A REVOLTA DA CHIBATA.

Lançamento do livro da Maria Luiza Malina - No Consulado



Parabéns Maria Luiza!
Sua apresentação foi muito boa, emocionante.
O evento estava perfeito, muito bem servido.
Parabéns para você, e para os organizadores.

Vendo o filme que foi apresentado sobre a tragédia de Lídice, cenário de sua história, vi que você situou muitíssimo bem seus personagens. Que houve muita realidade na ficção que você escreveu.
Parabéns.






NUMA NOITE DE CINEMA - Carlos Cedano


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NUMA NOITE DE CINEMA
Carlos Cedano

O filme foi muito elogiado pela mídia e amigos. Nosso grupo até marcou no Bar do Mario para comentá-lo.

Estava ansioso pelo seu inicio, o cinema lotado, mas o lugar a meu lado parece que ficará vazio, melhor assim, vou poder sentar-me a vontade. Oh!...Falei cedo demais, vejo uma moça entrando apressada na minha fileira, só pode ser a dona do lugar, levanto-me para facilitar sua passagem ao me dizer: com licença. Pois não, respondo. Ela senta, agradece. Mas seu lindo rosto adornado por dois belos olhos e sorriso sedutor paralisa minha resposta, as luzes declinam e... a porra do filme tem que começar justo agora?

Trato de concentrar-me no filme, não consigo. Pior ainda, não encontro posição confortável na poltrona, essa mulher me perturbou e invadiu meus pensamentos. Preciso bolar um jeito de abordá-la quando o filme acabar, já sei, farei a pergunta clássica: você gostou do filme?  Se ela sorrir, deixa o resto comigo. Não, não! Isso está muito batido. Penso noutras maneiras de fazê-lo, nenhuma me satisfaz, minha imaginação esta a zero! Volta ao filme Ricardo você estava tão ansioso por vê-lo! Sim, me esforço, mas não consigo, minha cabeça foge para esse rosto que me cativou, mas ela está imóvel concentrada, nem se mexe. Me ignora ou me despreza? Cruel dúvida!

Continuo pensando como me aproximar dela. O filme? Ah! Quero que se f... ! Nisso escuto uma voz delicada que diz: com licença, por favor, o filme já acabou! É ela, me levanto rapidamente, procuro seu olhar, ela passa por mim sem mirar-me. Não vou desistir, emparelho com ela na caminhada pelo corredor que leva à saída e pergunto: O que achou da direção de Stanley Kubrick? Continua sem me olhar, algo atrai sua atenção, o que será? Acelera o passo e se lança aos braços de um rapaz que a espera sorridente e diz-lhe: meu amor o filme, longe de você, não foi a mesma coisa, precisava de seu ombro! Eu sei, responde o garotão, precisamos chegar cedo ao cinema se não queremos sentar separados novamente, e se beijam intensamente!


Xi!... Agora vou encontrar-me com a turma e logo falar sobre o filme, e virá um monte de perguntas que não vou saber responder a nenhuma. Sabe de uma coisa, meu amigo? Vou ligar e dizer que não estou me sentindo bem, que estou indo para casa. Fiquei doente, por que será?

Aventuras e desventuras de ser (ou não ser) lido - Jurandir Renovato




Nossa amiga ISES enviou esta crônica que foi publicada no Jornal da USP. em  02/06/2017


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Aventuras e desventuras de ser (ou não ser) lido
Jurandir Renovato


Italo Calvino, em Se um viajante numa noite de inverno, converte o leitor em protagonista de seu romance mais famoso e original. Assim, o personagem que estabelece o enredo e a condução da narrativa é o mesmo que, do outro lado, mas não de modo passivo, usufrui dela em sua leitura. Como isso é possível?

Primeiro, devido à maestria e genialidade de Italo Calvino; segundo, porque ele leva às últimas consequências os recursos da metaliteratura, daquilo que Roland Barthes chamou de máscara que se aponta com o dedo; e, por último, porque ele adota uma postura de extremo respeito àquele que é a razão primeira de ser de qualquer texto escrito.

Talvez esse livro de Calvino, a sua obra-prima, seja a maior homenagem já prestada pela literatura à figura do leitor. Calvino deu um rosto e uma voz a ele, perscrutou-o intimamente no silêncio de seu ato de ler – o que certamente é o sonho de todo aquele que escreve, seja romancista, poeta, blogueiro ou resenhista.

Flagrar o leitor (o seu leitor) no momento mesmo de sua inadvertida leitura é de fato coisa rara de acontecer. Mas não impossível. Em proporções bem mais modestas – fique claro – tal se passou comigo em meados dos anos 90.

Eu estava dentro de um ônibus saindo da Cidade Universitária em direção a Pinheiros quando uma mulher, sentada ao meu lado, pôs os óculos e abriu a bolsa, de onde tirou uma desgastada folha de jornal. Após desdobrá-la cuidadosamente, eis que vejo brotar entre seus dedos um artigo que eu havia publicado duas semanas antes neste mesmo Jornal da USP, ainda nos tempos de sua exclusiva versão impressa.

(Era uma resenha do livro do Fernando Sabino sobre a Zélia Cardoso de Mello, ex-ministra da Fazenda do governo Collor. Um livro que, na época, causou bastante polêmica, até mais do que deveria. No artigo eu refletia em tom bem-humorado sobre as motivações do escritor mineiro para escrever tal livro, e usava para isso a correspondência que ele mantivera durante muitos anos com o modernista Mário de Andrade.)

Flagrar o leitor (o seu leitor) no momento mesmo de sua inadvertida leitura é de fato coisa rara de acontecer. Mas não impossível. Em proporções bem mais modestas – fique claro – tal se passou comigo em meados dos anos 90.

Pois bem. Para não chamar a atenção nem ser inconveniente com minha vizinha de banco, fiquei observando-a furtivamente pelo reflexo do vidro da janela, naquele sutil interstício entre a luz e a sombra, na confluência das imagens de dentro e de fora que quase se confundem numa coisa só; sorrateiramente espreitando as suas expressões, como se olhasse a rua.

Na mesma medida em que ela parecia estar gostando do texto, o que podia ser confirmado pelos risinhos e sinais de concordância com a cabeça, eu sentia aumentar em mim a vontade de me apresentar. Mas me contive. Esperei-a parar de ler, guardar a folha de volta na bolsa – agora de forma não tão cuidadosa –, levantar e sair do ônibus.

Até hoje fico imaginando que talvez ela tenha descido alguns pontos além do seu destino só para terminar a leitura do meu texto. Porém isso é pouco provável e de qualquer forma eu nunca vou saber. O certo é que eu, sim, fiz isso, atrasando dois ou três quarteirões, até vê-la desaparecer no torvelinho das seis da tarde da Teodoro Sampaio.

Sem dúvida, foi uma das maiores experiências da minha vida. Mas como tudo que é sólido se desmancha no ar, como diz o outro, não demorou muito para voltar à nua e crua realidade. E justamente quando julgava estar indo em direção ao melhor dos mundos possíveis.

O fato é que meu amigo Valter José, na época doutorando em filosofia na FFLCH, havia me alertado sobre sempre ter um texto meu fixado no mural da pós-graduação das Letras. “Parece que você tá formando um fã-clube, hein, Renovato?!”, ele me provocava naquele seu jeito entre brincalhão e malicioso. E antes que eu começasse a vislumbrar um grupo de jovens estudantes histéricas empunhando cartazes com minha foto e cadernos para colher o meu autógrafo – antes disso, esbocei o que seria um gesto blasé e mudei de assunto.

Algum tempo depois, tendo ido fazer uma pesquisa iconográfica na biblioteca da Faculdade de Letras para uma das edições da Revista USP, reparei num senhor calvo e com um rosto estranhamente familiar sentado numa das mesas. Enquanto conversava com a bibliotecária, esse sujeito levantou-se e veio na minha direção. Reconheci-o de imediato. Era o seu Carlos, meu professor de português da oitava série!

Ele contou que após se aposentar resolvera fazer mestrado. Disse também que costumava ler as coisas que eu escrevia no jornal; e pareceu bastante orgulhoso disso. Matei a charada na hora: ali estava o “meu fã-clube” bem diante do meu nariz!

Não obstante a alegria de rever um antigo e querido mestre, um pensamento de certo modo mesquinho me impedia de desfrutar completamente daquele agradável momento de reencontro. Eu me sentia desapontado, essa é a verdade. Afinal, o entusiasmo em relação a um texto nosso vindo da parte de um ex-professor de português equivalia, em termos de credibilidade e isenção, à opinião da mãe da gente sobre o quanto somos lindos e inteligentes.

O fato é que meu amigo Valter José, na época doutorando em filosofia na FFLCH, havia me alertado sobre sempre ter um texto meu fixado no mural da pós-graduação das Letras.

Aquilo foi um golpe daqueles, confesso, na minha pretensa vaidade de resenhista superstar. Mas nada comparado ao que ainda estava por vir, quando certa vez, após ter acabado de chegar ao antigo prédio da Coordenadoria de Atividades Culturais da USP, precisei, antes de subir até a sala da redação, dar uma passadinha no banheiro, que ficava estrategicamente atrás do elevador do térreo.

Foi um péssimo negócio. Mal atravessei a porta pude ver, no cesto ao lado do vaso sanitário, uma folha de jornal amarrotada e “usada”, de onde distinguia-se parcialmente o título de uma resenha minha sobre o Estorvo, do Chico Buarque, cuja foto, diga-se, também se encontrava bastante prejudicada.

Será que o usuário do banheiro, fã do cantor então recém-estreado nas letras, se revoltara com as ressalvas que eu fazia ao primeiro romance do seu ídolo? Ou quem sabe pegara o jornal – disponível na época num escaninho junto ao elevador – já mal-intencionado e, nesse caso, nem se dera conta do que levava, muito menos o trabalho de escolher o conteúdo da matéria para a sua necessidade.

Esta última hipótese, mais plausível no contexto de um leitor, para todos os efeitos, tão pouco exigente, deu-me certo alento diante daquela situação. E enquanto eu permanecia lá, vertendo a água atrigada dos joelhos e contemplando horrorizado a degradação escatológica do meu artigo – que de fato nem era lá aquelas coisas –, imaginei um tempo futuro, igual a este atual, em que os textos eletrônicos, mesmo sendo despretensiosas resenhas, jamais teriam tão ignóbil e triste fim.


MAGNETISMO - Silvia Helena de Ávila Ballarati - (Vinha)


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MAGNETISMO
Silvia Helena de Ávila Ballarati - (Vinha)

Hurra!! Hurra!!!

A plateia veio abaixo, ovacionando o inusitado formando. Tinha sido uma verdadeira batalha conseguir que a faculdade, às pressas, adaptasse o anfiteatro para cadeirantes. O laureado daquele ano era tetraplégico e se expressava lentamente. Terminava o curso de jornalismo com honras e louvores. Marcelo Lobato, fruto dos mais improváveis finais felizes, era o orador da turma de 2016 por indicação de Gabriela.

Dr. Francisco e Dra. Ana, ambos pediatras, acostumados à rotina hospitalar, às vicissitudes da profissão, super zelosos com seus pacientes, sentiram-se estapeados pela vida ao gerarem um filho com paralisia cerebral. Parou tudo! A vida deles se congelou! Não pensavam, não se falavam, não comiam, não viviam. Foi assim por muito tempo até digerirem o incontestável. Marcelo, um bebe observado desde a concepção, cujo desenvolvimento fora acompanhado mês a mês pelos pais médicos, nascera doente. A medicina? Às vezes ela não serve pra nada, parece que faz de proposito.

Imaginem vocês! Ruíram os planos familiares. Os pais rejeitaram o filho. Queriam amá-lo, viviam uma dualidade de sentimentos.  Choraram com ele, por ele, choraram de cansaço, de remorso, choraram muito. O fato surpreendeu a todos, avós, tios, amigos próximos que fizeram de tudo para consola-los, mas a dor era deles, de mais ninguém, pensavam.

Passado o período do choque, eles se viram à frente de uma verdadeira epopeia. A casa transformou-se num mini-hospital, psicólogos, fisioterapeutas, enfermeiras entravam e saiam diariamente. Mas os pais se achavam os únicos verdadeiramente capazes de fazer algo por Marcelo. Decidiram dar o melhor que podiam a uma criatura tão indefesa, privada de todos os passos naturais da evolução do ser humano. Fizeram as pazes com a medicina e mergulharam fundo em estudos e pesquisas na área.

Marcelo reagia muitíssimo bem aos estímulos, dava algumas esperanças de andar, falar, etc. Os pais jamais desistiram. Quantas festas, viagens deixaram de fazer para estar com ele. Traduziam suas ideias aos interlocutores, disputavam jogos inteligentes, nadavam sistematicamente para fortalecer a pouca musculatura que havia sido preservada. Deixaram de viver como um casal normal para se dedicar integralmente a ele. Marcelo tornou-se uma causa!

Passou no ensino fundamental, no colegial. No vestibular ficou numa sala especial por nove horas, ele e seu tabuleiro magnético de letras e números. Já não tinha interpretes, comunicava-se pelo tabuleiro.  Senhor Deus dos Paraplégicos! Dê-me mais tempo! Pedia Marcelo sempre que se via aflito para cumprir horários.

Na faculdade criou um pequeno circulo de colegas, que lhe eram fieis. Graças a eles fez todas as tarefas em grupo, expôs os trabalhos à banca dos professores, progrediu quase como um aluno normal. Dentre os amigos destacava-se Gabriela. Ela tinha verdadeira afeição por ele, seus cuidados chegavam ao de uma cuidadora. Foi dela o tema células-tronco para o discurso de formatura. Cuidadora, amiga, eventualmente mulher, sonhava Marcelo em seus longos devaneios.

A plateia, atenta à cerimonia, ouvia o fim do discurso. “E finalmente, agradeço aos meus pais pela minha existência como e hoje, agradeço aos colegas que pegavam pecinhas do tabuleiro magnético pelo chão, aos professores que perderam vários almoços me esperando terminar atrasado, agradeço aos pesquisadores que aprovaram os transplantes de células-tronco.


E um agradecimento especial. Minha nova vida, que começará a partir de agora, terá um componente maravilhoso. Além de jornalista, em breve serei um homem casado. Obrigado Gabriela, meu único amor.” .

Cuspir marimbondos e a proclamação da Independência - Ises de Almeida Abrahamsohn


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Cuspir marimbondos e a proclamação da Independência
Ises de Almeida Abrahamsohn

Quando se fala na Independência, o costume é lembrar a imagem pintada por Pedro Américo, tempos depois, onde aparece a comitiva reluzente, montada em cavalos brancos, uniformes de gala e espadas desembainhadas. Nada disso aconteceu. Nem o grito, ainda que importe menos. Porque, mesmo de guarda-pó, o imperador separou o Brasil de Portugal.
Iam os viajantes de farda de gala, uniformes brancos, condecorações, medalhas e capacetes luzindo ao sol? Nem pensar. O traje era o mais tosco possível: calças largas, camisas folgadas e, sobre elas, um camisolão chamado de guarda-pó, que se era branco no início da viagem, tornava-se marrom logo nos primeiros dez quilômetros. Também chapelões de palha, com vastas abas.
Cuspindo marimbondos por conta dos intestinos e da pressão portuguesa, fala diversas vezes em independência, que a partir daquele momento estava caracterizada. Manda os soldados arrancarem dos chapéus os laços com as cores da coroa portuguesa, verdes e vermelhos. Alguém indaga como fazer se os batalhões portugueses oferecerem resistência e ele, entre vocábulos menos castiços que praticava, retruca que irá à batalha, até a morte, se for o caso, mas jamais se submeterá às ordens de Lisboa.”  Carlos Chagas. http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0175b.html

       
Pois é nesse relato que apareceria  o Chalaça (companheiro pessoal de Dom Pedro) ao qual atribuo  um papel ainda que pequeno na história como se passou.

        Vinham todos montados em mulas, com os traseiros já castigados da viagem anterior do Rio a São Paulo e a Santos e agora retornavam a São Paulo. Dom Pedro havia se entupido de comer no banquete da noite anterior em Santos e ao iniciar  o trajeto pela calçada do Lorena os intestinos se rebelaram. A comitiva subindo pela íngreme vereda era obrigada a parar a cada quinze minutos para o comilão se aliviar atrás de algum arbusto. Porém, nessas horas difíceis o Chalaça era de serventia. Estendia ao príncipe lenços molhados (o papel higiênico ainda não havia sido inventado). Homem precavido, o companheiro de farras aplicava-lhe  um unguento perfumado à base de cera de abelhas e óleo de oliva para sossegar o traseiro escalavrado.

        Os cuidados do Chalaça  talvez  permitiram que o nosso Dom Pedro chegasse  ao planalto  ainda em condições de mesmo cuspindo marimbondos*  proclamar  a independência de Portugal.

* irritado, nervoso, estressado. Fulano  está cuspindo marimbondos de raiva.


A entrevista - Silvia Helena de Ávila Ballarati - (Vinha)


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A entrevista
Silvia Helena de Ávila Ballarati - (Vinha)

Apenas quatro cadeiras na sala envidraçada. Na secretaria da pequena escola de português para estrangeiros bate forte o sol das quinze horas. Melina muda de lugar duas vezes. Senta-se de frente para o outro candidato. É a última vaga de professor que ambos almejam.  Algumas revistas, música de fundo, celulares, cigarro. Assim ficam quarenta minutos. Sem se falar, pouco se olhando, muito se examinando. Aguardam a saída do candidato anterior.

Às vezes em que seus olhares se cruzam, desviam-se rapidamente. Eles se conhecem de entrevistas anteriores.  Melina sabe que não basta viajar, conhecer outras culturas, outras línguas. Para ensinar, tem que saber muito bem o português. Isso Christian domina. Estuda Letras no Brasil, filho de mãe argentina, pai francês, morou em Londres. Tem todas as prerrogativas para o cargo. Por que, então, lá esta ele de novo? Como não tem, já, o emprego?

Sempre teve vontade de perguntar. Christian a intimida. Tão vivido, viajado, impecável no trajar, discreto no celular. O pouco que sabe dele é uma secretaria ou outra que conta. Nas entrevistas também se informa. Com ele mesmo, nunca falou.

Christian também sente o sol forte refletindo nas vidraças. Levanta, bebe agua, mexe no celular. Não aguenta mais a musica. Olha pra Melina, esboça um meio sorriso. Admira sua figura descontraída. Parece que da ultima vez em que se viram ela estava idêntica. O mesmo coque solto, calças largas arrastando no chão, echarpe. Será que não está com calor?

Tem vontade de conversar, nada sabe dela. Impacienta-se com o sol, com a demora. Com o silêncio principalmente. Resolve. Vai perguntar-lhe se não está com calor quando a porta se abre. Sai o concorrente, aparece a secretaria:
Melina!