AMOR A MODA GAÚCHA - Carlos Cedano


AMOR A MODA GAÚCHA
Carlos Cedano

Primeiro olhou demoradamente a frente da casa, logo a contornou e viu que todas as paredes eram iguais: tabuas largas de madeira pintadas de cinza na parte de cima e laranja em baixo. A porta da entrada era de tabuas menos largas, mas de feitura mais caprichada. Por fora a casa era toda muito bonita em estilo típico gaúcho. Adorou!

Com certeza os moradores tinham saído ninguém atendeu seus chamados. Sentou-se do lado de fora bem na frente a uma janela com cortinas de renda. No parapeito interno dormia um gatinho tranquilamente. Fora da casa também dormia um cachorrinho branco e preto, manchado de tinta vermelha. Pensei, se os bichos estão tão tranquilos os donos devem voltar logo. Mas quanto tempo?

Aproveitei e olhei mais detidamente os detalhes, sobre tudo a bonita decoração pintada na parte superior das paredes em volta de toda a casa. Os proprietários podem ser pessoas simples porem de bom gosto!

De repente o cachorro levantou-se, ficou inquieto e o gato também, pronto, será que...?  De fato, um cavaleiro se aproximava a pleno galope, detêm o cavalo, desce e diz:

        ― Buenas Tchê, em que posso servi-lo?

        ― Vim pelo anuncio que publicou vendendo sua casa.

        ― Vamos entrar por favor, vou amansar um mate pra nos. Meu nome é Genésio e o seu?

        ― Francisco e venho de São Paulo. Vou me casar com uma moça gaúcha e morar por aqui. Desculpe, mas no anuncio você diz que a venda é de porteira fechada, é isso mesmo?

        ― Sim, isso mesmo.

Aproveitando que o dono preparava o mate o paulista percorreu a pequena e aconchegante casa.

Todos os móveis em madeira, leves e bonitos, até pareciam sem uso: mesa, estantes, cama de casal e armários. As janelas com delicadas cortinas de renda igual aos enfeites sobre a mesa e estantes. A mão de uma mulher aparecia em cada detalhe. Isto é o que eu estava procurando ― pensou nosso visitante ― uma pequena joia, Ana Maria vai gostar!

Enquanto o gaúcho entregava a cuia a Francisco lhe perguntou:

― Gostou tchê?

― Muito Genésio!  Mas permita-me uma pergunta, você ia casar?

― Sim! Como você adivinhou guri?

― Não foi difícil, a casa parece um “ninho de amor” com detalhes delicados e de bom gosto, o ambiente ideal para uma permanente vida a dois. Minha noiva vai achar isto o paraíso!

Enquanto o paulista falava o gaúcho sentou, ficou com o rosto triste e algumas lágrimas afloraram a seus olhos. Ficou quieto alguns minutos, se recompus e falou:

        ― Agradeço suas palavras meu amigo, você está certo e me abriu os olhos, ia fazer uma barbaridade! Vou reatar com minha prenda e sinto muito, você ficou sem casa, não vou vendê-la mais!

Só agora Francisco percebeu seu erro: tinha perdido a oportunidade de ficar calado, falou demais! Como um sonambulo levantou da cadeira, abriu a porta, saiu, ligou o carro e desapareceu no horizonte!

Se eu tivesse um filho que fosse exatamente igual a mim.- Luísa Helena R. Alves


Se eu tivesse um filho que fosse exatamente igual a mim.
Luísa Helena R. Alves


Quando  a olhei no palco, declamando aqueles versos, levei um susto! É como se estabelecesse uma ligação que pela primeira vez me possui;  ela de bebê quase não chorava; é que eu não lhe dava esse tempo, mal abria os olhinhos me via bem perto dela observando...O que será que ela quer?        

Está com fome, está com frio? Foi uma criança muito desejada, eu não poderia sequer pensar na hipótese de perde-la. Tinha acontecido num acidente com a primeira, na hora do parto então essa segunda-tão amada,  era velada dia e noite! Quando cresceu um pouco, risonha e esperta, acompanhávamos suas gracinhas, embevecidos... Tiramos mil fotos de todos os seus passos: comendo, falando, correndo, brincando. Tem uma foto eu e ela, que é igual a ela com a filha hoje. Passaram os anos e cada vez mais, seu modo de pensar, os gostos o jeito calmo de encarar o mundo, uma disposição para acolher a todos se identificava com meus valores... 

Escolhe a mesma profissão que a minha mas  larga no fim do primeiro ano, para se dedicar a atuar num teatro  de bonecos. Via claro também algumas de minhas dificuldades espelhadas nela: dificuldade de valorizar o dinheiro, valorizar primeiro a vontade dos outros do que a sua... Só que hoje, eu é que aprendo com ela, a simplificar a vida tentando torna-la mais alegre e a pensar de uma maneira própria, racional e sensível ao mesmo tempo. Vejo afinal que ela me superou; foi mais longe na grande arte que e a vida! 

Vive intensamente cada momento e escrevendo textos profundos como eu nunca consegui! 

Escambo - Ises de Almeida Abrahamsohn


Mulher Sentada Cadeira Espelho Pintor Johnson 

Escambo
Ises de Almeida Abrahamsohn


De uma citação de Thomas Mann – em “José e seus irmãos”


        Lisboa, março de 1946. Pela terceira vez eu entrava no casarão na Baixa, sede do Serviço de Inteligência dos aliados. Buscava a autorização para embarcar de volta ao Brasil. Na ultima vez um arrogante coronel inglês reteve  meu passaporte, já com o visto brasileiro. Nas entrevistas ele não ocultara a suspeita de que eu era uma espiã alemã tentando escapar. Esperei a chamada pelo nome e um soldado escoltou-me pela longa escada e corredor assoalhados de madeira escura.  "Espere aqui, o coronel chegará em alguns minutos" disse, indicando a cadeira à frente da enorme escrivaninha no escritório vazio.

        Voltei a pensar que uma vez mais poderiam adiar ou mesmo negar a autorização. A demora do coronel seria de mau agouro? Eu já tinha a passagem para um navio que zarparia em uma semana. No silencio do casarão começou a infiltrar-se no meu cérebro o ruído de passos subindo as escadas: tat/tat/ta-tá; tat/tat/ta-tá.  A memória me levou ao passado ..... Eu já ouvira alguma vez aquele pisar compassado.

        Era em outro pós-guerra, 1923.  Vinte e três anos antes em Essen, onde morávamos sob a ocupação pelo exercito francês.  As cenas, qual filme, surgiram em meu cérebro. A campainha da porta soando estridente... O soldado francês ordenando em alemão que abrissem a porta e forçando o seu corpanzil para dentro do vestíbulo. Minha mãe, miúda, frente ao oficial que lhe recitava em francês: "em nome das forças de ocupação eu requisito esta casa para moradia..."  Mamãe, respondendo-lhe em francês algo como: "Oui,  Monsieur Captain, já que não nos resta alternativa, vamos tentar acertar uma convivência sem atritos".

         O jovem oficial estabeleceu que ocuparia um quarto e a mansarda era para o ordenança. Este prepararia as refeições na nossa cozinha; o banheiro seria ocupado aos sábados pela manhã. Durante os seis meses de ocupação francesa no vale do Ruhr, convivemos com o capitão Etienne Monget oriundo de Andernay na Lorena, filho de um médico do exército. Era muito alto, teria uns 28 anos e ostentava um pequeno bigode castanho bem cuidado. Era um homem bastante atraente, mas tinha a perna esquerda mais curta; a pesada bota corretiva o fazia mancar com um andamento musical em compasso ternário: tat/tat/ta-tá, tat/tat/ta-tá, mais acentuado ao galgar as escadas.

        A alimentação racionada do pós-guerra era um problema para todos. Nossa família conseguia algo extra de um sítio onde havia algumas cabras e galinhas e  uma horta. Manteiga ou queijo, só no mercado negro. Por outro lado, os oficiais franceses recebiam farta ração de queijo, manteiga e vinho, mas quase nenhum alimento fresco. Logo na segunda semana o capitão, ao ver o nosso horrível desjejum de margarina e chicória sugeriu que seu ordenança poderia "arrumar” alguma manteiga. Estabeleceu-se a partir daí, entre mamãe e o ordenança, um escambo entre ovos e verduras negociados por manteiga e queijos.

        Ao final da ocupação, o jovem capitão se despediu polidamente e nunca mais ouvimos falar dele.

        O ruído da porta do escritório acordou-me da viagem ao passado. Levantei-me e cumprimentei em inglês com um genérico "Bom dia, coronel" . Era ele mesmo, ainda muito atraente e tinha ainda o mesmo bigodinho agora levemente grisalho. Não me reconheceu. Sentou-se e em português com forte sotaque comentou: Cá está o seu dossiê, vamos ver... Deseja embarcar para o Brasil....  Após alguns minutos, disse em voz alta, primeiro em francês: "profond est le puits du passé".  A seguir, em um português algo hesitante: "profundo é o poço do passado" como escreveu o seu conterrâneo, Mademoiselle Fest.  E acrescentou meio sorrindo: Troco meio queijo Munster por meia dúzia de ovos.  


        Saí de lá com a minha autorização de embarque assinada pelo Coronel Monget, membro do comando francês no escritório das forças aliadas em Portugal.

A Espera -Suzana da Cunha Lima



A Espera
Suzana da Cunha Lima

Depois de muitos anos ele, afinal, chegou à casa. Sua casa! Onde nascera e vivera até o fim da adolescência, casa  onde escondia seus sonhos, atrás da janela, sempre à espera. A cortina branca, muito alva, balouçava a menor brisa, e lá ficava ele, enrolado nela e nos seus sonhos.  Seu olhar se alongava para além do portãozinho de ferro e ia célere até a curva da estrada velha. Mas aquele alguém tão sonhado nunca apareceu.

Lembrava-se ainda da construção da casa: seu pai e seu tio levantando os mourões, alisando as tábuas, envernizando e colocando as telhas. As eiras foram trabalhadas em ferro por seu pai, grande serralheiro.  Os mais velhos desejavam que a casa tivesse a mesma aparência dos chalés de sua distante terra natal.

E quando ficou pronta, a casa se assemelhava muito às lindas construções da Estônia, de onde tinham vindo, pequenos de altura e grandes de esperança.

Ela se destacava das outras em volta, por ser muito personalizada, muito elegante e com um ar acolhedor, até mesmo pelo doce cheiro de bétula que rescendia ao sol.

Na varanda da frente, com bela parede de madeira envernizada havia sempre uma cadeira, feita pelas hábeis mãos do tio marceneiro, que pontificava: “as varandas devem ter sempre uma cadeira para o amigo que chegar.”.

Mas ele nunca vira ninguém ali sentado. Foram anos de uma longa e vã espera, esperando um alguém que nunca apareceu.  Os jovens vão embora, os velhos morrem e as famílias se dissolvem, pois quem saiu raramente volta.

Ele tinha voltado, na louca esperança de encontrar alguém ali sentado, à sua espera.

Mas embora tão bela e tão bem conservada, a casa de sua infância não acolhera ninguém durante todo aquele tempo.


Nem mesmo aquele alguém por quem esperara a vida inteira.

O Dilema do Impressionismo - José Vicente J. de Camargo

Vinhedo Vermelho - Van Gohg - única obra que foi vendida em vida.


O Dilema do Impressionismo
José Vicente J. de Camargo


Vida de artista é ingrata, principalmente se for de artes plásticas, pintor!

Veja o caso de Van Gogh que vendeu um só quadro enquanto vivo ─ ao seu irmão que era marchand de arte ─ e hoje cada um vale milhões de dólares! O valor de um só quadro daria, não só a ele, mas a todos os demais pintores impressionistas da sua época, por sinal todos pobres ─ uma vida de milionários. 

A importância deles na pintura só foi reconhecida depois de suas mortes, já que o impressionismo é considerado a porta de entrada para o modernismo. Os impressionistas abandonaram os recintos fechados das academias para a liberdade do espaço aberto da natureza, integrando o homem e demais seres vivos neste cenário vibrante de luz e cor. É a luz atuando na transfiguração das formas, na substituição das linhas e contornos por traços de pinceladas de cores fortes ou simplesmente por pontilhados, todos refletindo embevecidos a luz ambiente.

Amadeu ouvia com atenção as palavras do professor da aula de artes plásticas da última série do segundo grau. Sua intensão era de prestar exame para a faculdade de engenharia, embora sua inclinação estivesse nas artes plásticas, justamente na pintura. Todos diziam, vendo seus desenhos em grafite ou guache, que tinha dom. Mas relutava em fazer disso sua profissão principal ─ como hobby tudo bem. Sentia a dúvida da sobrevivência, da incerteza do sustento necessário, da dificuldade do reconhecimento do seu talento em vida, pois esse negócio de honras póstumas não lhe interessava nem um pouco. E a aula do professor só vinha a reforçar suas suspeitas e justamente no estilo que mais o atraia e pretendia seguir: o Impressionismo...

O sinal de término da aula soa e inicia-se o corre-corre apressado para aproveitar o curto tempo de pausa até a próxima aula. Sentada ao seu lado, desde que se conheceram e se confidenciaram que estavam “ficando”, Lina o apressa para irem à lanchonete do recreio.

─ Vai indo que antes quero dar umas palavrinhas com o professor, diz Amadeu.
Passado um tempo, ele a encontra mastigando seu lanche preferido.

─ Puxa, como você demorou! Agora vai ter de engolir sua coxinha, diz Lina.

─ É que as palavras do professor na aula de hoje, me ressuscitou o dilema se faço a faculdade de  plásticas ou a de engenharia ─ responde ele. E no meu bate-papo com ele, me disse que essa questão é muito pessoal e que a tenho de resolvê-la sozinho.

─ Dê uma de Van Gogh! Retruca Lina. Você tem talento, gosta de pintar e basta! Faça artes plásticas e curta a natureza.

─ É, mas na hora de por a comida na mesa, como faço?

─ Faça como ele deve ter feito! Admire as naturezas mortas que de tão belas, dão a impressão de serem verdadeiras de saciarem os olhos e, por consequência, a barriga... Depois, hoje existem as redes sociais e de solidariedade, que não deixam nenhum artista morrer de fome. E a medicina está super adiantada.  Com certeza você vai viver muitos anos e vender muitos quadros e, conclui ela:


"Vamos aproveitar os milhões de dólares, mas nada de impressionismo! Na realidade mesmo”...

Ele queria ser Deus! - Luiz Guilherme Martins Sales da Cruz


Ele queria ser Deus!
Luiz Guilherme Martins S. Cruz

Vasta cabeleira e barba totalmente brancas, olhos tão azuis que pareciam refletir o azul do céu ainda, ereto  nos seus setenta e cinco anos e alguns meses,  tinha orgulho de escutar bem e enxergar sem o auxilio de óculos.  Perdera a esposa há mais de treze anos, morava com o filho e nora. Sua figura inspirava bondade, confiança  e segurança. Assim era Miguel.

 Gabriel oito anos seu  único neto, filho de seu único filho, era irrequieto como um sagui, falante e inquisidor, atento a tudo e a todos como uma coruja. Tinha  também os  olhos azuis , cabelos alourados, uma pele branca que se avermelhava ao sol. Transbordava energia por todos os poros e  tinha no avô seu companheiro para tudo: Jogar bola, assistir desenhos e filmes na Tv, sair a passeio, andar pelo parque, assistir às missas aos domingos, etc. O menino via no avô um ídolo, a quem confiava cegamente.

Certo dia, a mãe de Gabriel conversando com o sogro, achou que era hora de o filho fazer a 1ª comunhão. Miguel ficou muito contente, pois  se dizia católico, apostólico e romano.

Assim,  avô e neto iam a pé para a Igreja que ficava a 5 quarteirões de onde moravam. Percorriam a distância, sempre brincando. Miguel, muito conhecido e querido no bairro, principalmente pelos frequentadores da igreja, pois festeiro que era fazia questão de sempre participar das quermesses e bingos realizados na paróquia,  durante o  trajeto parava muitas vezes para dar uma palavrinha rápida com os conhecidos.

Na  hora de espera, o homem aproveitava para ir até a padaria na frente da igreja, onde encontrava ficava jogando damas e conversa fora até o tempo de apanhar o garoto e juntos voltarem para casa.

Muitas vezes, ao chegarem das aulas, o menino comentava com o avô  o que havia aprendido no catecismo. As discussões eram muitas vezes calorosas, pois todas as vezes que se tocava no assunto Deus, o neto afirmava categoricamente para ao avô que o Deus dele era o avô. Pensamento que era repelido pelo ancião, que tentava sem sucesso explicar ao garoto  que Deus era único.  Vira e mexe o menino vinha com o mesmo assunto sobre Deus, pois sendo Deus invisível como lhe explicaram nas aulas de religião, ele achava que não existia, elegendo seu avô como o seu Deus e não se discutia mais sobre o assunto.

Naquela tarde de sexta feira, que já se prenunciava agourenta, o sol não deu sua cara e nuvens cinzentas cobriam o céu movimentavam-se ameaçadoras. Mantendo o mesmo ritual dos outros dias de, saíram em direção à igreja devidamente agasalhados e prevenidos para o temporal que se avizinhava. Como de costume no trajeto, o avô parou diversas  vezes e se deteve por mais tempo a fim de cumprimentar com um caloroso abraço o seu amigo de barraca nas festas da igreja, o Genésio. O menino  seguiu em frente sem perceber que o avô havia parado. Por obra do destino, no momento em que o garoto  ia atravessando a rua,  surge um ônibus completamente desgovernado que o atinge, esmagando-o de encontro a parede de uma casa. Morte instantânea diagnosticada posteriormente.

O barulho foi tão forte  que chamou a atenção de Miguel e de seu amigo,  que juntos correram  até o local a tempo de verem alguns passageiros atordoados e sangrando descendo do ônibus, bem como veem  o  motorista de cabeça caída  e inerte ao volante. Não se dando conta de que o neto fora a maior vítima daquele terrível acidente, Miguel saiu a passos largos até a igreja, imaginando que o menino tinha ido até lá sozinho. Lá chegando constatou ele não apareceu. Apreensivo retornou ao local do acidente. Percebeu atônito, que Genésio, vinha ao seu encontro e muito  consternado, dizendo:

O Gabriel! E mostra – lhe o garoto entre as ferragens.

Desesperado e chorando copiosamente é amparado pelo amigo. Sem que os que ali estavam atinassem pelo motivo, Miguel  começou a dizer em voz alta:  


Gostaria  de ser o Deus que  achava que eu era, pois assim eu poderia tê-lo salvo!

Lições de física à mesa de um boteco no Leme - Ises de Almeida Abrahamsohn


Lições de física à mesa de um boteco no Leme
Ises de Almeida Abrahamsohn

          O bar era o do português Abílio, no Leme, em frente à praia, com suas mesinhas de mármore e cadeiras dobráveis na calçada. Era ponto de parada obrigatório aos domingos quando voltávamos da praia lá pelo meio dia. A nós, crianças, era concedido o direito de escolha do refrigerante que, qualquer que fosse, era servido na chamada "temperatura ambiente" que, àquela hora, já beirava os 40 graus. Mas, logo depois - oh ! injustiça ! - vinha o Abílio com as garrafas de Brahma geladíssimas a serem servidas aos adultos nas tulipas também geladas. Nós, suados e invejosos víamos as garrafas marrons se recobrirem de gotículas, pérolas transparentes e geladas que se fundiam e escorriam lentamente formando riozinhos frios no mármore. Às vezes a tentação era maior e um ou outro de nós abraçava com as mãos a garrafa suada e deliciosamente gelada até que algum adulto estrilasse. Nas palmas das mãos refrescadas, restava um vago cheiro de queijo ou bolor.

          Foi assim, ao pé das mesas de mármore do Abílio, que eu e meus primos desenvolvemos a nossa teoria: a cerveja transpirava pelas garrafas enquanto que os nossos refrigerantes não suavam com o calor.  A teoria ganhou força além das nossas observações tácteis e olfativas: o vidro das garrafas de cerveja era marrom e, portanto, obviamente diferente das garrafas de refrigerantes, verdes ou incolores. O argumento final de peso foi inspirado pelos cartazes da Oktober Fest de Munique nas paredes do bar. A cerveja era de origem alemã e, vinda de um clima frio, nada mais lógico que suasse e, especialmente, suasse frio no alto verão carioca. 

          Passamos assim a maior parte do verão, resignados aos nossos guaranás mornos que jamais suariam em suas garrafas verdes mornas. Até que a filha de uma prima de minha mãe veio nos visitar, vinda da Alemanha para onde se mudara há anos. Chegado o domingo, levamos a Elke à praia e, em seguida, como de praxe, ao Abílio. Mas Elke queria voltar a tomar guaraná e pediu um, bem gelado. E então, o primeiro grande abalo na nossa teoria: a garrafa verde de guaraná começou a suar.... Tivemos que nos segurar para não avançar na garrafa da Elke para conferir a natureza das gotinhas que se formavam na superfície.

          Elke teria uns 18 aninhos, loiríssima, linda e esbelta, em nada se parecendo com as garçonetes dos cartazes da Oktober Fest e percebeu a nossa cobiça pelo guaraná gelado. Aí eu lhe disse, meio encabulado, que nunca tínhamos visto uma garrafa de guaraná transpirar, só as de cerveja ... Ela então encomendou ao garçom para cada um de nós uma garrafa de guaraná gelado, sob os olhares desaprovadores de meus pais, é claro, e para si pediu uma cerveja "sem gelo", escandalizando o  Abílio. E, assim, tivemos lá mesmo a nossa lição de física dos estados da água dada por Elke: o vapor de água contido no ar ao encontrar uma superfície mais fria sofre condensação e muda para o estado líquido.

          Elke voltou anos mais tarde ao Rio e eu, já adulto, descobri que ela era uma loura nada gelada, que no calor carioca transpirava deliciosas gotinhas salgadas.

Apatia Positiva - José Vicente J. de Camargo

 

 Apatia Positiva
José Vicente J. de Camargo

Foi essa a sensação que tive ao avistar a casinha de madeira simples, mas aprazível ao pé do morro dos macacos. Estava a praticar um dos meus passatempos prediletos ─ o de caminhar no campo ao entardecer ─  quando me deparei com ela. Transmitia um ar de paz e harmonia que me obrigou a parar para observá-la.

Logo minha imaginação se desperta do marasmo rural e me bombardeia com perguntas:

─ O cachorro bem tratado, com jeito de ser de raça, deitado no alpendre, meio apático, pois não abanou o rabo ao me ver, de olhar tristonho e vago,  está a espera da volta do dono, ou sente a tristeza de uma ausência prolongada?

─ E a cadeira vazia, lustrosa, encostada a soleira da porta, está à espera de quem?

─ E o piso de cimento recém encerado e as paredes ainda transpirando a tinta fresca, indicam os preparativos para a acolhida de um ente querido retornando de uma longa ausência, ou são sinais de cuidado e asseio de antepassados europeus?

─ Me intriga o vulto de um segundo cachorro, mirando com tranquilidade o forasteiro curioso, através da vidraça fechada e semicoberta por uma cortina alva de tafetá rendado. Estará ele fazendo companhia para um dono curtindo a sesta após um dia de trabalho árduo na lavoura, ou de castigo por ter brigado com seu par deitado na varanda?


Meu espírito se acalma e me cutuca satisfeito para prosseguirmos a caminhada levando as dúvidas da imagem da casinha que para mim tem sabor de  “Saudades que o tempo não consome”...

UMA MARIA POBRE - Oswaldo U. Lopes



UMA MARIA POBRE 
Oswaldo U. Lopes

         Maria era uma mulher pobre, muito pobre não seria exagero. Vivia com e como os “povos de rua”, mas era um pouco diferente ou muito diferente dependendo do olhar do observador. Não porque não tivesse família, tinha e era de classe média alta o que acarretava a existência de parentes que, no entanto nunca via, como alias muitos dos que constituem os povos de rua. Não falava deles de modo a se subentender que não os procurava nem ansiava por vê-los.

        Não tivera filhos e era implícito que não mais poderia  te-los; tivera, isso sim, uma educação do  tipo que chamaríamos esmerada, primorosa. Lera, entre muitos outros, Machado de Assis e como ele poderia dizer: “não leguei a ninguém minha miséria nem minha angústia abissal.”

        Maria era então pobre, singular, maltrapilha e convivia com os povos de rua. Conviver é uma boa palavra, pois, implica em viver com, viver junto, andar em grupo. Não implica partilhar, pertencer ou solidarizar-se, pelo contrário, era viver em solidão andando em bando. Até ai temos uma mulher chamada Maria, pobre e que vivia na rua com outros semelhantes. Como eles era errante, indo de uma parte da cidade a outra, dormindo ao relento ou embaixo de viadutos, pouco falando de si ou de seu passado que , no entanto, brotava de observações e gestos que fazia como que a lembrar que a aniquilação total só viria com a morte.

        Bem agora Maria esta ficando diferente, única. Mas, como diferente? Seus companheiros de caminhada viviam ensimesmados, por vezes, muitas vezes, falando sozinhos, demonstrando pouco ou nenhuns apreço pelos circunstantes, mesmo para com aqueles que os ajudavam. Maria, torno a repetir, era diferente, interessava-se pelas pessoas, fossem elas povos de rua, gente que ajudava, gente que atrapalhava, gente que distribuía sopa ou simplesmente gente que passava.

        Tinha o dom ou traço do calor humano. Sabia olhar as pessoas e ver nelas o positivo que havia na sua condição de ser único, miserável ou glorioso. Ela era diferente porque falava e enxergava esses traços, mesmo quando nada parecia aflorar daqueles passantes.

        Mistério intrigante? Farrapos errantes que ondulavam sem nexo? Milagre das vestes de estopa e aniagem? Não! No mundo da miséria os milagres são raros. Maria era de classe média abastada, bem nascida e bem criada, estudara muito e fora aluna brilhante de psicologia. Formara-se com louvor e elogios pela sua intuição clínica e  capacidade de observação. Tivera, como profissional, atuação marcante e rapidamente distinguira-se dos colegas de mesma idade. Até o nome não era simplesmente Maria, era Maria Eugenia.

        O mistério não era sua capacidade de entender e falar com as pessoas, de ver nelas aspectos tão bonitos e positivos. O mistério era porque se tornara povo de rua.

         O MISTÉRIO DE MARIA

         Maria Eugenia era psicóloga clínica respeitada e atuante, com reputação consolidada no que fizera e futuro promissor no que prometia fazer. Desde o curso na PUC, manifestara muito interesse pelos jovens e pelas questões de gênero. Essas questões que hoje frequentam as primeiras páginas e as manchetes não eram assim tão faladas num tempo que já se fez antigo. Maria ainda lembrava de uma matéria que lera, quando era aluna, na revista Realidade e que versava sobre: “Há 17 sexos qual é o seu?”

        Essas questões de gênero a encaminharam, para não dizer a empurraram para os adolescentes que desde sempre buscam sua identidade ou identificação, na feminilidade ou na masculinidade ou no intervalo dos 17 sexos. A expressão bullying (do inglês bully = valentão, esta hoje disseminada entre nós e logo estará nos dicionários; poderia ser trocada por assédio, mas o vocábulo inglês já ficou corriqueiro), não era ainda de uso corrente, mas sua prática era comum como, alias sempre foi na história da humanidade.

        O mistério de Maria tinha nome, sobrenome, endereço, CPF e RG. Chamava-se Joaquim de Sanctis Tavares, morava no Jardim Paulista, como Maria era de classe média abastada e como tal já fora a Dysneilândia e por ter passaporte tinha também CPF e RG. Tinha traços muito bonitos, quase femininos e ali nascia o problema ou os problemas. Era o quarto irmão de três irmãs mais velhas e por tanto rodeado de belas roupas, tecidos suaves e sensuais. Já se arriscara a olhar no espelho com as roupas da mãe e já fora surpreendido pelas irmãs.  A coisa brotou, para desespero do pai que queria um filho másculo e promiscuo e via um jovem tímido e de finos traços.

        Renegado pelo pai, Joaquim mais e mais se internizava, fugindo de todos e de tudo. Colocado num colégio só de meninos o bullying começara e tornara-se violento. Por sugestão de amigas a mãe o encaminhou para Maria Eugenia. Gostava de ir e gostava dela. Maria Eugenia achava que Joaquim não tinha nada de bicha, apenas era um adorador, admirador das mulheres. Seria um eterno gostador e amador delas, seus hábitos suas roupas e seus gestos.

        Algo, porém deu errado. As relações com o pai azedaram de vez e o cerco no colégio descambou para a brutalidade. Joaquim voltou para casa de  roupa rasgada e olho inchado. Não suportando tanta pressão, buscou uma corda da cortina e enforcou-se pendurado no lustre do quarto.


        Mareia Eugenia recebera a noticia em casa. Em verdadeiro estado de choque saiu pela porta com a roupa que estava. Nunca mais voltou nem para casa nem para o consultório. Recuperou aos poucos a consciência e seus sentimentos mais íntimos, mas tentou e tentava apagar tudo. Tornara-se a Maria dos povos de rua.


A GRANDE NOTICIA - Carlos Cedano



A GRANDE NOTICIA
Carlos Cedano

Pedro Luís se formou arquiteto e sempre trabalhou como decorador de interiores com clientes, geralmente de alta renda, possuidores de obras de arte consagradas que despertaram nele o desejo de conhecer melhor sobre suas técnicas e estilos. Devorava livros, visitava tudo quanto era galeria e exposições!

Numa escola particular de arte aprendeu e desenvolveu as técnicas do desenho e reproduzia os estilos de seus pintores favoritos, particularmente os surrealistas. Enquanto sua pintura, pouco a pouco melhorava, germinava na sua cabeça a ideia de dedicar-se exclusivamente à pintura.

Um de seus professores lhe sugeriu fazer sua primeira exposição numa coletiva de novos talentos. Preparou três quadros nos quais incorporava conceitos abstratos de Kandinsky e da fase do surrealismo fantástico de Joan Miró.  As críticas foram terríveis e devastadoras, desdenharam radicalmente o uso de materiais inéditos como a colagem de pequenas peças de madeira coloridas. Miró? Nada a ver. Kandinsky? Menos ainda!

Ficou chateado, porém ele não era de desistir! Decidiu ir para Nova York e se instalou no Soho, que desde os anos setenta era o centro mais badalado da nova vanguarda da pintura, particularmente o pop art. Também foi atraído pelas grandes obras do expressionismo abstrato de Jackson Pollock, ficou apaixonado pelas técnicas inusitadas que usava na sua pintura com resultados fantásticos, de difícil compreensão, porem fascinantes!

Nunca perdeu as esperanças nem o otimismo em obter sucesso como artista; com enorme força de vontade já tinha conseguido inserir-se no contexto artístico nova-iorquino. Com o passar do tempo os amigos começaram a perceber aspectos originais nos seus quadros que o estimulou a aperfeiçoar suas técnicas, e intensificou sua dedicação ao trabalho!

Inesperadamente, começou a receber convites para expor seus trabalhos em conhecidas galerias. Com cuidado selecionou três delas seguindo conselho de amigos mais experientes e enviou três diferentes quadros a cada uma delas, feito isso decidiu viajar com a esposa para uma praia, estava verdadeiramente esgotado e tenso!

Dois dias depois de sua chegada a Miami recebeu uma ligação de um colega. Era a grande noticia que todo artista sempre sonha em receber! Uma das galerias o convidava para apresentar suas obras numa exposição exclusiva! As críticas tinham sido calorosas, unânimes e cheias de elogios, já estava com cinquenta anos, mas o sucesso é sempre bem-vindo, né? Abraçou fortemente a esposa, que sempre o apoiou, e como crianças choraram a alegria deste esperado momento!





O que eu faria se... - José Vicente J. de Camargo



O que eu faria se...
José Vicente J. de Camargo


A pergunta me é feita para uma resposta rápida, escrita ou oral, num desses testes de psicologia que as pessoas fazem para a disputa de uma vaga em um serviço público ou numa empresa. Creem que com isso vão aumentar a eficiência de seus funcionários ou garantir uma maior competitividade de seus produtos.

Procuro pensar na rapidez exigida!

Mas tudo me parece tão vago, sem sentido, longe da realidade que gosto de ter: palpável, objetiva, realizável. O que ganho com essa interpretação forçada do meu ser? Ficarei mais rico, mais feliz, bondoso, vil, viril? São meras hipóteses que o pensamento como um rodamoinho em segundo desfaz.

Não seria melhor gastar a energia pensante em algo concreto? Realizável? Que com maior ou menor esforço de minha parte, pode amanhã ou depois, em um prazo factível, se cumprir?

Nesse empurra – empurra das ideias se embolando em conjecturas, sem uma resposta convincente, outras vozes emergem da mente com perguntas atrevidas:

─ Por que você segue esse rumo desconfortável de pensamento que dificilmente o levará a uma conclusão satisfatória? Deixe isso para os eruditos, filósofos, que passam anos a pensar e a pesquisar porque o rabo do porco é torto ou se os fatos revelados nos sonhos vão acontecer ou é ficção? Deixe a imaginação criar fantasias que te levem a outras paragens de “faz de conta”, de “nem tudo que reluz é ouro” ─ como já diz o velho ditado. Faz bem ao espírito, deixa-lo voar e construir seus castelos de areia...
E nessa disputa da imaginação versus a realidade, o tempo se escoa, o sino bate, minha resposta é solicitada.

De papel em branco, olhar vago, mas mente borbulhando de senões se abraçando e se rechaçando respondo via oral:

─ O que faria se... Me obrigassem a pensar rapidamente?


─ “Que hoje é hoje, amanhã é amanhã... Hoje quero esse emprego, amanhã não sei”...

CORCOVILA EXISTE – PARA CRER É NECESSÁRIO VER - Oswaldo U.Lopes


CORCOVILA EXISTE – PARA CRER É NECESSÁRIO VER
Oswaldo U.Lopes

        Hoje é dia de aniversário da cidade de Corcovila, fora dela ninguém notou, dentro dela todos lembraram. Corcovila é de tamanho médio, como a grande maioria das cidades do Brasil, fica num vale entre montanhas o que a traz para fora do nordeste e do centro oeste, para não falar que é fora da Amazônia, por falta d’água em sentido literal e figurativo, quer dizer só chove no verão e às vezes chove pouco.

        A população não é grande, mas também não é diminuta. É cidade mesmo e não distrito, tem juiz, promotor, pároco, delegado e destacamento policial. Espalha-se pelo vale que é largo e amplo e se ergue ligeiramente nas encostas que a cercam. O casario é bonito, a maioria das casas tem parede na rua e janelas envidraçadas com cortina branca na janela. A enorme maioria dos telhados é de telha colonial, pouquíssimos ostentam telhas francesas o que da a Corcovila um ar antigo que é bonito, mas não é fato.

        Corcovila é do século XIX e sua origem esta ligada a estrada de ferro. Começou lá atrás como parada de trem, aquela que os trens faziam para pegar água e o chefe da estação que acumulava as funções de sinaleiro, foi seu primeiro habitante. Daí foi juntando gente, pequeno hotel, loja do tipo armazém que tem de tudo, uma pequena mercearia que era conhecida como empório. O dono chamava-se José e como era português logo, logo começou a oferecer pão. Até hoje, tendo mudado de dono, mas não de origem o empório-padaria do Seu Jose, na mais rica tradição portuguesa só fecha e, portanto não faz pão no Natal e na Sexta-Feira Santa.

        A economia, bem a economia era o que de mais tradicional podia haver. Entreposto comercial, gado leiteiro, laticínios e congêneres, gado de corte na parte do vale mais aberta lá embaixo, pequena indústria de transformação, fábricas de calçado prosperando pra valer e um rico comércio onde se achava de tudo que era falado na televisão ou nas revistas.

        Tinha dois clubes o popular e o grã-fino, dois agrupamentos políticos um mais liberal ligado a indústria e ao comércio e outro mais conservador ligado a atividade agrícola. Esta era quase que exclusivamente de manejo de gado, ou seja, vaca pra leite ou carne. O algodão chegara bem e o café fino fugindo do frio e das geadas do sul tava indo maravilhas nas encostas.

        Mistura boa só no jogo de pôquer do sábado à noite. Parecia reza, começava sempre igual. Numa mesa pároco, juiz, promotor, e médico, na outra delegado, padeiro (o dono do Empório), o coronel dono do gado, Seu João farmacêutico e seu Pedro (Pedrão como era conhecido, por causa do tamanho avantajado). Com o correr da noite havia saídas, do médico para atender parto, do padre para atender quase defunto, do padeiro por causa das pizzas, novidade do armazém e do farmacêutico para aviar receitas que os funcionários não conseguiam. Com isso as mesas acabavam se misturando.

        Havia novidades no ar que um pouco incomodavam, um pouco traziam orgulho pelo crescimento da cidade, o pessoal dos cafezais havia criado um bairro residencial do tipo condomínio, murado e seguro e isso atraiu outros inovadores jovens. O delegado achava ridículo dado o índice de criminalidade baixíssimo em termos de Brasil.

Havia bancos e gerentes de bancos, dinheiro e crédito rolavam de um lado para o outro. Não dava para ir mal nos negócios, todo mundo conhecia todo mundo de modo que a ficha de cada um era absolutamente pública. Está certo que a telefonia agora já era automática o que bloqueava a telefonista de saber da vida de todo mundo, mas de resto, com uma só farmácia, um colégio estadual de muito boa qualidade, mas único, duas sorveterias Corcovila ainda era uma pequena cidade do interior.

        Como era dia de aniversário tudo fechou e tudo abriu. Explico o comércio abriu para aproveitar as vendas a padaria e a sorveteria idem. O que fechou foi a indústria e agro-pecuária. Às 10 da manhã houve desfile. Isso era característico de Corcovila, dois desfiles por ano. O de 7 de setembro é claro e o do aniversário da cidade. Eram iguais, mais independentes. Por sorte o aniversário era em abril.

        O desfile era notável e meio que extraordinário. Tinha palanque de autoridades com juiz, promotor, médico, pároco, delegado etc. Abria o desfile o colégio com sua belíssima fanfarra que tocava uma beleza, seguia-se o destacamento policial e depois, bem depois acredite, leitor as duas escolas de sambas da cidade a popular e a grã-fina que desfilavam como que a repetir o carnaval.

        É Corcovila era sui-generis, ia resistir por quanto tempo? Já havia investidores procurando terreno para construir shopping, era só uma questão de tempo. Não ia dar para resistir, progresso é progresso. Muitos lembravam quando começara a iluminação com lâmpadas de chapéu e o sucesso que fora.


        Como seria Corcovila no próximo aniversário e daqui a dez anos, cincoenta? Perderá o encanto ou não?

ISSO É IMPRESSIONISMO - Jeremias Moreira



ISSO É IMPRESSIONISMO
Jeremias Moreira

À distância ele percebeu uma falha no último A de PRIMAVERA. Então, aproximou-se do toldo, molhou o pincel na têmpera branca e fez o retoque. Enquanto pintava o letreiro CASA DE CARNES PRIMAVERA, na franja do toldo do açougue, Philemon deixou alguns quadros que pintara, enfileirados ao rés do chão da parede do estabelecimento, na esperança de despertar o interesse de alguém.

Nessa hora, Dona Zezé saiu do açougue, se deparou com as pinturas e pôs-se a examiná-las. De repente se deteve no quadro que retratava uma mulher nua e metralhou indgnada.

− Olha aqui, ô rapaz! Além de fazer uns borrões que ninguém entende, você tem a cara de pau de exibir essa pornografia!

Surpreso com a repreensão da senhora, Philemon tentou contemporizar:

− Não, dona Zezé, isso é um nú artístico. Não tem nada de pornográfico.

− Não tem pra você que é um desregrado, mas para nossas crianças tem, sim!

A essa altura já se juntara seu Orlando, o jornaleiro, dona Geralda, que também saira do açougue, o taxista que esperava dona Nenê e a própria dona Nenê que igualmente chegou esculhambando com as pinturas:

− Nossa, que coisa mais grotesca!

− Isso é Impressionismo, dona Nenê! − falou seu Orlando, com ar de entendido. − Lembro da coleção da Folha que vendi na banca há alguns anos.

− Que mané Impressionismo, isso é sacanagem, isso sim! – insistia dona Zezé.

Pilemon se apressou a corrigir:

− É Arte Contemporânea, seu Orlando!

− Pra mim não passa de um monte de borrões! − insitiu dona Nenê.

Vendo o jovem Philemon em apuros, Zé do Boi, o dono do açougue, foi em seu socorro e o chamou para acertar o letreiro recém pintado.
Philemon é auto-didata e seu sonho é viver de pintura. Enquanto o mar não dá peixe ele faz uns bicos como letrista.

Zé do Boi pagou o serviço e aconselhou Philemon a guardar seus quadros antes que as mulheres tumultuassem mais.

Philemon voltou, encontrou a rodinha acalorada, aproveitou o momento e guardou os quadros no fusquinha. Quando se preparava para sair, sentiu dona Zezé se aproximar:

− Desculpe a franqueza, moço! Mas, não troco a folhinha da farmácia, lá de casa, por um desses quadros!  



Preferências - Dulce Azevedo


      


       Preferências
       Dulce Azevedo

       Saíam á noite
       Mas preferiam o dia
       Gostavam do fundo
        Mas pulavam no raso
        Caminhavam em turma
        Mas fascinante seria só os dois
        Entravam em grandes comícios
        Mas preferiam os duetos
        Eram objetivos e
        Andavam com alternativos
        Desistiram de tudo

        Porque viram que não ia dar em nada