Johannes Vermeer, autor do quadro Moça com
Brinco de Pérola, foi o maior pintor holandês do século XVII. Esse quadro
singular serviu de inspiração para um filme de mesmo nome
AINDA
NÃO.
Mario Augusto Machado Pinto.
Foi revendo fotos antigas, dessas tiradas
por lambe-lambe nos nossos passeios pelas praças da cidade que me interessei
por fotografia. Só havia filmes para fotos em preto e branco o que me ocasionou
a descoberta do chiaro – oscuro, bianco –
nero. Ganhei uma pequena Kodak de
plástico e foco fixo e saí pelo mundo fotografando tudo e a todos. Ficou caro conseguir
fotografar certo o corpo inteiro das pessoas, mas consegui.
Autodidata, descobri os estúdios
fotográficos e o fotógrafo Rosen, que me acolheu e ensinou a usar a máquina
fixa no tripé (não me lembro do nome), e a usar a iluminação. Alemão, alto,
magro e reto qual pinheiro da Floresta Negra, “trabalhava” as fotos de fim de
ano, das formaturas, em grupos e individuais. Eu ajudava. Estas eram as que eu
mais gostava. Experimentava poses, ângulos, gastando mais bases do que o necessário, mas Rosen
fingia que não notava.
Nas fotos individuais focava mais o rosto,
de perfil ou de lado com a cabeça um pouco abaixada e inclinada e voltada para
a máquina. Minha inspiração foi o quadro “Moça com brinco de perola”, de
Vermeer. Cuidava muito dos olhos e do olhar. Com muita habilidade utilizava o
claro – escuro no preparo da iluminação e na revelação. Respirava e suava fotos
e ácidos
Reconhecidamente usava o ampliador com
maestria. Tratava as jovens como
verdadeiras estrelas. As fotos ficavam muito boas deixando entusiasmadas as
mocinhas que não eram lá muito bonitas. Essa habilidade passou pelo boca a boca
e de repente me vi fotógrafo requisitado marcando hora e cobrando. Cobrando! O dinheiro entrava com a facilidade de um
ginasta na minha carteira, e de lá não saia tal qual mão de mico apanhando ovo
na armadilha.
Apesar da insistência do Rosen nunca
participei de concursos. Preferia inventar maneiras de melhor apresentar as boas
particularidades de alguns rostos salientando seus olhos, ou a boca, os
cabelos, o perfil. Não procurava a alma de cada um, mas o seu interior buscando
a chave para abrir a caixa de segredos de cada um.
Foi com uma moça que veio fotografar para
presentear o namorado com sua foto que utilizei pela 1ª vez o brilho nos
cabelos e nos lábios: nos cabelos, passei um pouquinho de óleo de mamona e escovei
até secarem, ficarem soltos e brilhantes; nos lábios, passei um pouco de vaselina
liquida. Foi enorme sucesso, o que fez com que Rosen me dissesse que eu estava
pronto para voar sozinho e ter estúdio com salas próprias. Andorinha sozinha
não faz verão, sei disso. Vou fazer voar o gavião que tenho aqui dentro.
Melhorei minha técnica com Rosen ajudando.
Comprei uma Leica M 3 com todos acessórios, uma Roleiflex, uma Haselblad e
material para iluminação. Tornei-me perito no uso da sombrinha, do flash e
difusor nas fotografias coloridas. O tempo me fez notado, requisitado e
solicitado cada vez mais pelas agencias de publicidade. Fiz uma foto de minha mãe
que pode figurar em qualquer exposição internacional. Há quem me considere com
longa vida no metier.
As modelos sempre procuravam ficar no alto
da minha lista usando todo seu arsenal para me atrair e eliminar colegas
concorrentes.
Claro que aproveito ocasiões, afinal não
sou nenhum São João Apóstolo. Algumas vezes vivi situações de “saia justa”, mas
o balanço demonstra que o resultado vale o trabalho, e como dão trabalho!
Aí ela apareceu, poema silencioso mascarado
com mistérios, procurando o que e quem os resolva. Ela me ensinou como trabalhar
as cores do seu corpo, sua imagem interior a ser entrevista só por aqueles que
entendem o poema de seus gestos e poses de gata feiticeira, faceira e manhosa.
Trabalhamos juntos cada vez mais ligados
como orquídeas nas arvores da nossa floresta, cada qual formando o outro, perfumes
aspirados sempre lembrados, mas o homem de Geraldine não sou eu. Ainda não.
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