Presente de Natal - José Vicente J. Camargo

 

4º colocado

CONCURSO DE NATAL 2020






Presente de Natal                                                       

José Vicente J. Camargo

 

Vou driblando o corona vírus passando a pandemia na minha casa de praia revezando as caminhadas pela  natureza pujante com a novidade do Home Office, despreocupado com eventual contágio, uma vez que o local está isolado no meio da  Mata Atlântica, abraçado ao mar aberto e despovoado de outros semelhantes a não ser minha esposa, o que me leva a supor que dificilmente o corona me achará.

Nesta manhã ouço surpreso, vindo do silêncio da mata, os primeiros acordes do canto melodioso e forte do sabiá laranjeira, a anunciar que a primavera chegou e que ele está à procura de uma companheira para dar continuidade a sua espécie. Minha mente dá um estalo! Primavera, Já? Cada ano passa mais rápido...e esse pensamento leva a outro: “Então significa que o Natal está chegando. Não demora muito e já estaremos festejando! ” Minha mente estala novamente, Festejando? Em plena pandemia? Estão proibidas as aglomerações!

Meu consciente que reluta em não aceitar esta imposição, dá um mergulho no passado e traz lembranças, desde a infância, de tantos Natais festejados entre as famílias parentes quando era costume se assistir primeiro a Missa do Galo – pontualmente a meia noite para depois ter a ceia comemorativa que reunia, na maior casa do clã, todos os pais, avós, tios, primos e amigos. Lembranças saudosas destas festas ainda trago comigo que me incentiva, na terceira idade, repeti-las no âmbito da minha família com a presença dos filhos, noras, genros e netos que chegam em casa hoje a missa foi antecipada para antes da comemoração abraçados a pacotes de papéis e laços coloridos espalhando-os ao redor da árvore de natal para depois, bebericando as borbulhas do champagne, iniciar o “diz que diz” das novidades e fofocas aguardando o chamado da Vó para se sentar à mesa aromatizada de apetitosos e fumegantes quitutes, que serão degustados após a oração pelas graças recebidas neste e as desejadas para o próximo ano.

Mas, e o Natal deste ano com o Corona vírus ainda solto fazendo vítimas, como fica? Com o tal “distanciamento social” sem abraços nem beijinhos, entrará para a história assim como o ano, perdido, triste, que poderia ser arrancado da folhinha que não faria falta. Porém Natal significa esperança que renasce com o Menino Deus, que traz nova luz a iluminar nossos caminhos, a orientar-nos e, portanto, deve ser festejado com alegria e confraternização. Para amenizar a situação do “não deixei passar em branco”, vou ligar para meus três netos e perguntar o que querem de presente de Natal. Pelo menos não sentirão tão abandonados do espírito natalino pois, o presente do avô é, segundo eles, o melhor de todos (pudera, sempre pergunto antes o que querem ganhar e nunca falho, apesar das broncas da avó que acha que os acostumo mal).

Enquanto procuro o número dos celulares penso: “ainda bem que gostam de tudo que é de última geração, pois assim posso comprar pela internet e pedir para entregarem na casa deles. Creio que vão pedir o novo celular 5G ou o último jogo eletrônico que acaba de estrear no mercado. A neta, que quer estudar astronomia, acho que vai querer um telescópio eletrônico, bem mais potente do que o último que lhe dei. Ainda bem que meus dois filhos economizaram na linha sucessória permanecendo nesses três netos, senão meu décimo terceiro não daria para cobrir o desejo da avó de fazer um cruzeiro de navio no réveillon ...

O resultado dos três telefonemas foi inesperado! Quando os indaguei sobre minhas sugestões de presentes, foram unânimes na resposta, parece até que combinaram:

“Vô! Que adianta novo celular, jogo eletrônico, vasculhar a Via Láctea atrás do rabo do cometa se não tenho com quem compartilhar, torcer, brincar. Com distanciamento social não dá! Não há presente que substitua o convívio dos amigos, o “cara a cara, peito a peito”! Portanto o que mais quero de presente de Natal é:

“A Maldita Vacina!” Não importa de que país venha, mas tem de ser o mais rápido possível para liberar minhas energias e principalmente o rosto dessa porcaria de máscara, não aguento mais ficar sem fazer esporte, academia e de dar meus abraços e beijinhos na galera ansiosa...”

Bem! Dever de avô eu cumpri, perguntando! O presente desejado, que é o de toda a humanidade, vai ter de esperar as complexidades dos poderosos. Eu, particularmente, não sou Santo pra fazer milagres...

DUAS CRIANÇAS - Suzana da Cunha Lima




DUAS CRIANÇAS

Suzana da Cunha Lima

 

Ele nasceu há mais de dois mil anos em Belém, uma cidadezinha da Palestina, e foi colocado, recém-nascido, numa manjedoura.  Ainda bebê, precisou se refugiar no Egito, para fugir da sanha infanticida  dos soldados do Rei Herodes.

Quando o perigo acabou, voltou para sua terra onde cresceu, pobre e analfabeto. Morreu aos trinta e três anos, nas mãos dos carrascos de seu próprio povo.

Ele era Jesus de Nazaré, um Rei cujo reino não é deste mundo, porém o Poder transformador de sua Palavra e de sua Verdade permanece vivo até hoje.

Aylan Kurdi nasceu dois mil anos depois, em Korbana, na Síria, e morreu,  ainda criança, coberta de espuma e sal, nas praias de Ali Hoca, em Bodrun, Turquia.  Levada pelas ondas, como um dejeto qualquer, é um símbolo trágico do desespero migratório, que tem sepultado tantas vidas e tantos sonhos.

 Aylan Kurdi também precisou fugir do longo braço dos soldados de sua própria pátria, esfacelada pela guerra civil e por um perverso fanatismo que não obedece a nenhuma regra ou convenção humana civilizada.

Ele morreu, porém sua voz ressurge no grito e indignação dos povos e, quem sabe, consiga tocar, com sua inocência, os corações dos que possuem poderes para conter o Mal.

Há uma verdadeira e profunda ligação entre estas duas crianças: ambas fugiam da opressão de seus governos totalitários, ambas buscavam um espaço de liberdade para viver seus sonhos e cumprir sua missão.

O mundo caminha entre o Bem e o Mal desde que o primeiro homem pisou neste planeta.  O Mal se impõe pela violência e o Bem age pela paz.

Estamos nesta encruzilhada, é o que me vem à mente nesta época em que celebramos o nascimento de Jesus, cada vez mais angustiados e desesperançados diante da extrema crueldade como o Mal se manifesta.

Será que chegou a hora de nós, homens e mulheres do Bem, nos levantarmos contra a barbárie e desembainharmos também nossas espadas?

 Espadas de coragem e inconformismo, oferecendo o que temos de melhor, nossos talentos, nossa voz e nossa arte, para que não aconteça mais outros Aylans Kurdi.





(Texto baseado em fatos reais - reapresentação) 

UM NATAL SUIGENERIS - Ledice Pereira

 




UM NATAL SUIGENERIS

Ledice Pereira

 

Minhas lembranças de Natal são sempre com a família reunida. Uma das primeiras reuniões de natal de que me lembro, foi na casa de uma irmã do meu pai. Eu devia ter uns cinco para seis anos. Meu tio era um agregador. Gostava de juntar a gente para juntos, comemorarmos. Meus primos eram mais velhos uns oito ou nove anos. Eu os admirava. Até hoje eu os admiro e amo muito. Nesse ano, quando voltamos para casa, papai Noel havia deixado presentes no meu quarto. Mal consegui dormir de tanta felicidade. O bom velhinho não havia esquecido de mim, mesmo eu estando fora de casa.

Acostumei-me com essas festas passadas com tios e primos. Desde a adolescência, procurei manter essa tradição. Incentivava minha mãe a reunir pessoas queridas e eu a ajudava na arrumação da casa e no preparo dos quitutes.

Ao me casar, a ceia de fim de ano passou a ser na minha casa. Foram muitos anos. Com as crianças então era sempre muito divertido. Só parei, quando minhas então velhinhas se foram. Aí, me senti liberada das minhas funções de anfitriã natalina. Desde então, temos passado cada natal num lugar diferente.

Neste 2020 atípico, fico a pensar como será o encontro de Natal. Será virtual, pelo Zoom, Skype, whatsapp? Até lá, nossa “quarentena” será na verdade de quase três centenas de dias de reclusão. E o nosso pedido para o bom velhinho é que ele nos traga a esperada vacina e muita, mas muita, SAÚDE!

 

Um conto de Natal - Paulo Abrahmsohn

 

 


Um conto de Natal

Paulo Abrahmsohn

 

- Acho que o Papai Noel vai trazer todos os presentes que pedi, disse Toninho.

- Nada disso, respondeu a irmã Camila. Papai Noel não existe e não vai trazer nenhum presente para você.

- Crianças, chega com essa discussão, todo ano é a mesma coisa. Hoje é véspera de Natal. São quase 11 horas e está na hora de todo mundo ir dormir.

Camila acordou no meio da noite por causa de um barulho que vinha da sala. De novo! Pensou ela. Deve ser aquele ratinho que nos visita de vez em quando. Mas hoje vou dar um jeito nele. Levantou-se e, pé ante pé, saiu do quarto com cuidado para não fazer nenhum ruído. Primeiro foi até a cozinha pegar uma vassoura. Vou ensinar umas coisas para este ratinho nunca mais voltar.

Chegou à sala de vassoura em punho, pronta para dar um jeito no intruso, mas em vez disso sentiu a presença de alguém. Assustada, olhou melhor, arregalou os olhos e gaguejou:

- Quem é o senhor? Parece o Papai Noel?  

- Sim, sou eu mesmo, Camila.

- Mas, mas... É o Papai Noel de verdade?

- Sou o Papai Noel de verdade.

- Eu pensei que o senhor não existisse, disse Camila. Está entregando presentes para todos?

- Não, eu não entrego nenhum presente. Pense bem Camila. Como seria possível entregar presentes para todo mundo?

- Então o que o senhor faz, Papai Noel?

- Eu entro em todas as casas e espalho um pouco de sentimentos de Fé, Esperança e Solidariedade. O Espírito do Natal. E torço para as pessoas praticarem isto todos os dias até o próximo Natal.  

- Sim, Papai Noel, o mundo seria muito melhor se todos fizessem isto.

- E agora, Camila, preciso ir às outras casas. Boa noite, vá dormir.

- Boa noite, Papai Noel.

Camila acordou mais tarde naquela manhã e quando chegou à mesa do café todos já estavam reunidos, conversando sobre o dia de Natal. A mãe perguntou:

- Camila. Feliz Natal. Já perguntei para o Papai e para o Toninho. O que faz esta vassoura aqui na sala? Você sabe?

- Não mamãe, não tenho ideia, respondeu Camila muito séria e pensativa.


FULO – O DRAGÃO E OS LIVROS - Antonia Marchesin Gonçalves

 

 


FULO – O DRAGÃO E OS LIVROS

Antonia Marchesin Gonçalves

       

 

                Nona (vovó em italiano), conta uma historia. Alê,  é hora de almoço não de dormir. Mas meus pais sempre contam na hora das refeições para que eu coma tudo. Então, vou pegar um livro. Não nona tem que ser inventada na hora, e de preferência de ação. Pensei comigo, tô ferrada. Bom, era uma vez um dragão, grande, com o rabo comprido, asas e braços fortes, um corpanzil, quer dizer, um corpo grande. Dava medo, mas era domesticado, o nome dele era FULO e diziam os antigos escritos que ele era guardião dos livros. Muito antigamente poucos sabiam ler, então não davam valor aos livros. Naquela época só os ricos aprendiam a ler e escrever, e os padres também.

                Voltando ao FULO, ele era muito inteligente, tinha superpoder, soltava fogo pela boca. Isso não é superpoder nona, todos os dragões soltam fogo pela boca, até eu sei. Para poder salvar os livros do mundo, ele tinha um ouvido poderoso, por mais longe que fosse, ouvia quando as pessoas jogavam fora os livros, então ele os recolhia, guardando em sua caverna. Mas a caverna já estava tão cheia que ele começou a guardar em volta dela, e os cobria com folhas de palmeiras para proteger da chuva e do sol. Por que ele guardava, dragão não sabe ler? Ah,  Alê, aí que está outro superpoder, ele sabia ler.

                O seu padrinho, a pessoa que o criou, era um cientista que estudava os animais, afirmando que não eram irracionais, quer dizer, que não eram inteligentes e não pensavam. Educou FULO para se expressar com os braços e facial para ser entendido, o ensinou a ler para mostrar ao mundo a sua teoria. O mundo, o chamava de cientista maluco, FULO era o seu modelo.

Mas um dia Norberto, o cientista maluco, ficou doente, ele ficou desesperado e foi chamar o médico da aldeia, mas quando chegaram nada mais podia ser feito, Norberto já estava morto. O desespero tomou conta de FULO, ele nunca matou sequer uma mosca, ele era vegetariano, só comia frutas, verduras e legumes, foi difícil entender que Norberto nunca mais cuidaria dele.

                Muito triste voltou para sua caverna ficando isolado lendo principalmente sobre a morte. Entendeu que todos um dia iriam ter o mesmo fim do Norberto, inclusive ele. Dali por diante, FULO preciso aprender a se defender, e a cultivar sua própria comida. Aprendeu a caçar pequeno animais e já voava para distâncias maiores.

 

Um dia, numa floresta que ele ainda não conhecia, escutou um barulho de asas se mexendo e ao olhar numa clareira. Era um dragão fêmea.  Ela era simpática tinha asas lilases, dentes alvos, e corpo quase retilíneo coberto por cintilantes escamas de fêmea. FULO se apaixonou, e foram morar juntos na caverna e FULO. Ele ensinou NOLA a ler e tiveram vários filhotes. Alguns livros tiveram que sair de dentro da caverna para que a família de FULO tivesse espaço para habitá-la.  E lá naquela caverna viveram felizes para sempre.

 

Gostou? Não gostei do final, coisa mais de menina, nem uma luta entre machos, ou ele ter ajudado algum rei na guerra, isso sim seria emocionante. Bom, nona, já comi tudo, vou brincar.

               

A importância dos livros - Ledice Pereira

 






A importância dos livros

Ledice Pereira

 

 

Aquela biblioteca da escola era o lugar onde Junior gostava de se esconder. Adorava ler aqueles livros desenhados, cheios de figuras coloridas que o faziam divagar pelos caminhos da leitura, levando-o a reinos distantes e misteriosos.

A professora agora já sabia onde encontrá-lo. Toda vez que o menino não voltava para a classe, depois do recreio, era só procurá-lo na biblioteca. Às vezes, o encontrava sentado no chão, imerso na leitura. Outras vezes, o achava dormindo entre vários exemplares abertos.

Ao mesmo tempo que ela o admirava por sua preferência, preocupava-se, pois, ele perdia as outras aulas, principalmente as de exatas.

Resolveu falar com os pais do menino. Esperou que um deles viesse buscá-lo para abordá-lo. Fernando era jornalista e explicou que, desde pequeno, o menino se interessara pelos livros.

Marli explicou que era ótimo isso, mas que não podia deixar que ele perdesse as outras matérias, tão importantes também.

Fernando então resolveu que contaria ao filho uma história. Junior não dormia sem ler uma. Naquela noite, Fernando o chamou e começou a contar:

“Era uma vez um belo dragão chamado Fulo, que foi encarregado de tomar conta dos livros de uma biblioteca. Ninguém podia pegar o livro que queria sem ter que pedir autorização a Fulo.

Pedrinho gostava de ler apenas histórias de bichos. Fulo ficava bravo e soltava labaredas avermelhadas quando o menino insistia no estilo. Só concordava em liberar livros que falassem de outros assuntos. De tanto temer a ira de Fulo, o garoto resolveu variar nos temas, descobrindo que havia um mundo infinito a ser desbravado. Descobriu a mitologia, o suspense, o mundo das fadas e dos duendes, a história das guerras e dos povos oprimidos, as biografias dos músicos e dos artistas plásticos e com isso teve conhecimento de que os números apareciam sempre com muita importância e que sem os números, as operações matemáticas e a ciência, nada existiria. Por isso, a importância de se navegar em todas as esferas da cultura: das que tratavam da humanidade e as que tratavam das ciências exatas.”

Junior achou que o pai inventou uma história muito legal, apesar de não crer nem um pouquinho em dragão. Afinal, não era mais tão bobo para acreditar em história de carochinha. De qualquer forma e por isso mesmo, concluiu que já estava na hora de ampliar seus conhecimentos, dedicando-se às outras matérias. Estava com quase 13 anos, não podia se comportar mais como um garotinho.

Marli, mal pôde acreditar quando, no dia seguinte, não precisou ir atrás do aluno. Encontrou-o entre os outros alunos, explicando fórmulas matemáticas como se sempre tivesse participado das aulas.

De certa forma, a leitura tinha aberto aquela cabecinha, deixando-a pronta para o conhecimento. Apenas Junior não tinha se dado conta.

      

Chiquinha Gonzaga - Uma mulher à frente de seu tempo - Ises A. Abrahamsohn

 


Chiquinha Gonzaga -  Uma mulher à frente de seu tempo

 Ises A. Abrahamsohn

 

 

Eu conhecia Chiquinha Gonzaga como pianista compositora do “Abre Alas, que eu quero passar” carnavalesco e de músicas de grande sucesso popular na virada e início do século vinte. Não sabia mais que isso até fazer um curso à distância promovido pela revista Concerto sobre mulheres compositoras. Fiquei empolgada ao saber sobre a extraordinária vida e obra dessa compositora. A maior parte do que vou escrever encontra-se na Internet e no livro Chiquinha Gonzaga uma História de Vida de Edinha Diniz. Francisca Edwiges Neves Gonzaga nasceu em 1847 no Rio de Janeiro, filha de um militar do Império e de mãe de origem muito pobre, filha de escrava. Foi declarada como filha legítima embora o casamento só tivesse sido legalizado em 1860. Mas o pai educou-a para casar-se na melhor sociedade. Teve aulas de francês, boas maneiras e de piano com o tio que era flautista. E foi uma criança prodígio. Aos 11 anos dominava o piano e apresentou sua primeira composição. Aos 16 anos o pai arrumou o casamento com um oficial da marinha mercante de família rica, Jacinto Amaral. Teve logo dois filhos em 1863 e 1864 e, apesar da oposição do marido, continua a se dedicar ao piano e a compor. O marido, para afasta-la do instrumento, a carrega consigo em várias viagens de navio que leva suprimentos às tropas que lutam na guerra do Paraguai. Chiquinha se revolta contra o tratamento dado aos escravos alforriados. Ao voltar ao Rio, continua a compor e tenta tocar apesar da proibição do marido. Até que, após várias brigas, o marido lhe dá o ultimato: “ A música ou eu!” . Chiquinha escolhe a música, se separa do marido em 1869, grávida do terceiro filho e vai viver sozinha levando o filho mais velho consigo. Seu pai e mãe, que ficaram com a filha, a repudiam e a declaram como morta. Em 1870 Chiquinha passa a viver com o engenheiro João Batista de Carvalho e arca com processo de separação por abandono do lar e adultério. Para se sustentar ela dá aulas de piano e publica sua primeira composição, a polca Querida por todos, com o sucesso moderado passa a tocar como pianista num conjunto de choro e a se apresentar como musicista profissional. Em 1877 publica “Atraente”, um grande sucesso e se separa de Carvalho. Chiquinha está com 30 anos e durante toda a sua vida até os 87 anos nunca parou de compor. Apresentava-se como pianista e dava aulas de piano. Conseguiu se manter e comprar imóveis. Foi a primeira maestrina brasileira a reger uma grande orquestra.  Em 1934, com 87 anos Chiquinha Gonzaga escreveu seu último trabalho, a partitura da opereta "Maria". Como maestrina, atuou em 77 peças teatrais, óperas e operetas, é autora de 2.000 composições. Foi cercada dessa glória que Chiquinha Gonzaga viveu em companhia de João Batista seu último companheiro, ela aos 52 anos ele com 16, a quem adotou como filho. Chiquinha Gonzaga batalhou para receber os direitos autorais, depois de encontrar em Berlim várias partituras suas, reproduzidas sem autorização. Foi a fundadora, sócia e patrona da SBAT - Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, ocupando a cadeira n.º 1. Chiquinha Gonzaga faleceu no Rio de Janeiro, no dia 28 de fevereiro de 1935.   

O CADERNO E O CELULAR - Sérgio Dalla Vecchia

 



 








O CADERNO E O CELULAR

Sérgio Dalla Vecchia

 

Dispostos sobre uma mesa, lá estavam o caderno e o celular.

Foi a primeira vez que se puseram frente a frente. Logo o sereno caderno puxou conversa:

—Olá celular, registro textos. Estava ansioso na busca de ouvidos companheiros que escutassem as tantas histórias que vivenciei. 

— Ora, caderno, eu lá quero saber das suas histórias. Eu sou o presente, não tenho histórias para contar, quando quiser saber algo ponho meu buscador para trabalhar e Zaz! Tenho os fatos de imediato, em cores e em tempo real. Sou apenas o máximo. – Respondeu com arrogância o celular.

Pois é meu caro, modéstia é que não lhe falta, não? - Retrucou o caderno.

— Sou onisciente, digito todo tipo de texto, tiro fotos, sou uma enciclopédia, falo todas as línguas, converso com todos os grupos de amigos, informo tudo que acontece no mundo, sou a tecnologia de ponta e portanto sou a ferramenta essencial para o homem.- Replicou o celular.

Veja como fala, seu petulante aglomerado de chips! Antes de você pensar em existir eu já registrava todos os documentos do mundo. Desde a mais rudimentar grafia até a mais refinada. Já fui pedra, papiro, pergaminho, diários de bordo dos mais valentes encouraçados até dos gigantescos transatlânticos. Já me escreveram com carvão, penas de aves até com as mais luxuosas canetas da moda. Sou eu quem registra os trechos de maior importância sublinhados pelos alunos, nas aulas e palestras. Um aluno atento não renuncia da minha presença, esteja onde estiver, mesmo tendo um simples você enfiado em um dos bolsos traseiros das calças jeans, coladinho nas nádegas.- Desabafou o caderno.

— Veja bem registrador de textos, essa conversa já deu o que tinha de dar, portanto vou me desligar por um tempo e você sentirá na pele a minha falta.- Desligando ...

O caderno não esperava tal atitude, mas atento, aguardou paciente a chegada dos efeitos colaterais do fato.

Após algum tempo eles se reencontraram, já mais calmos, conversaram bastante sobre a coexistência e arranjaram o seguinte pacto:

Ao caderno coube à nostalgia e sentimentos da alma.

Ao celular a pujança do progresso e toda frieza que ela exige.

Assim o pacto vigorou harmonioso por vários séculos, até que o mundo obsoleto perante o Universo, acabou invadido por outro celular alienígena anos luz mais eficiente!  

 

 

 

       

AMIZADE - ANTONIA MARCHESIN GONÇALVES

 



AMIZADE

ANtonia Marchesin Gonçalves

 

                Muita gente se considera uma pessoa influente e de sucesso, por ter muitos “amigos” um numero enorme de seguidores pelo Instagram e outros. Poucos entendem a profundidade dessa palavra amizade, que simboliza um sentimento que todos os seres vivos necessitam e dependem dela. Até os animais de qualquer espécie sentem a necessidade de companheiros para crescer, trabalhar, como as abelhas. Cansei de receber vídeos lindos de bichos que por natureza deveriam se inimigos mortais, convivendo como amigos inseparáveis. Até na hora de morrer, alguns se isolam como os elefantes e águias, esperando a sua hora, os outros respeitam e sabem eles que serão assim também.

                Tive um gato Simba por ser bem rajado, cinza e preto, pego recém-nascido na rua pela minha filha. Sujo e cheio de micose, que até passou para ela, foi tratado e tornou-se uma bela espécie, grande forte e corajoso, andava pela beirada da sacada da varanda sem nunca ter caído. Só que era arisco, detestava ser pego no colo, chegava a morder as pessoas, nem com a idade perdeu essa característica. Pois bem, quando estava para morrer e eu não tinha a menor idéia disso, não estava doente, passou a sondar as minhas pernas, subia no meu colo, ronronando pedindo carinho, quinze dias depois, o encontrei em sua caminha morto lindo, enroladinho com semblante em paz, parecendo até um gato de pelúcia na sua cestinha.

                Nós seres humanos, racionais a maioria, acho que alguns não são, precisam de amigos íntimos, não no sentindo de namoro e sexo, mas a necessidade de alguém para contar nas horas difíceis e também nas felizes. Minha filha caçula, por exemplo, todos os colegas ou de escola, mais tarde no trabalho, rapidinho tornavam-se seus melhores amigos. A facilidade de fazer amizade realmente conquistava essa alegria de ter amigos por mais de trinta anos, apesar de morar no Chile, ela tem contacto ainda e muitos novos lá. Mas muitos preferem certo isolamento, faz parte da característica de cada um. Eu sou uma pessoa sociável, mas tenho a necessidade de ficar sozinha nem que seja um dia, para o meu equilíbrio. Mais nova achei que tinha amigas e fui traída, não uma, mas varias, se faziam amigas e usavam a minha espontaneidade e logo a fofoca corria solta e meu nome envolvido como a geradora da confusão, até que aprendi a selecionar as amizades.

                Quantos casamentos terminaram em função dos melhores amigos, gerando a separação e tudo que nela acarreta. Por isso quando penso na palavra amizade, não tem nada que se compare com a de nossos pais e nós pais por nossos filhos, isso é o verdadeiro significado da palavra. E agora com o isolamento dessa pandemia é que sentimos o quanto nos faz falta, parentes, as reuniões, mesmo quando com pequenas alterações numas conversas inflamadas, esta fazendo falta, só quando se perde essa liberdade de convívio é que a valorizamos a “amizade”.

               

Conflito de gerações - Ises A. Abrahamsohn

 




Conflito de gerações 

Ises A. Abrahamsohn 

 

Neusa entrou no quarto e se atirou na cama. Ficou lá mesmo, largada, sem tirar os sapatos e olhando sem ver o teto. As mãos ainda tremiam depois da briga com a filha.  Não chegou a chorar, apenas os olhos úmidos das poucas lágrimas. Veio-lhe um grande cansaço. Chutou os sapatos para longe. Se pudesse chutaria também os pensamentos. Sentiu os braços e pernas amolecerem e continuou imóvel até que a escuridão invadisse o quarto. Olhou o relógio. Sete da noite. Irritou-se consigo mesma por essa lassidão. Acendeu o abajur e alcançou o copo no criado mudo. A água descendo fria na garganta a acalmou. Levantou-se sem procurar os chinelos. Devagar andou pelo corredor do pequeno apartamento até a cozinha. A porta do quarto da filha, fechada. A música escapava pela fresta da porta. Bastou para lhe amargar de novo a boca, enquanto a raiva tomava de novo conta do cérebro.

Vou ficar com dor de estômago, preciso de um antiácido. Cadê o frasco?

Achou um resto do líquido branco que misturou com água antes de tomar pelo gargalo mesmo. Sentou-se à mesa da cozinha, preparou um sanduiche de queijo e um copo de leite. Mastigava devagarinho cada bocado.

A doidivanas da filha a deixava fora de si.

Tanto esforço para dar uma boa educação e agora essa  idiota desperdiça tudo. Sim. Sou de outra geração, como ela fez questão de me dizer antes de me chamar de velha. Velha, eu ? Com quarenta e cinco anos ? Eu a criei , sozinha, sem o pai que se escafedeu quando ela tinha dois anos. Vai largar a faculdade para ir atrás do cara. Músico de talento, ela diz. Besteira. O cara só sabe é fazer essa coisa que chamam de funk. Não é música é barulho. E além disso as letras. Ela diz que são de gozação e de protesto. Eu , hein? O que ouvi só serve para abusar das mulheres. É horrível não sei como ela não percebe. O sujeito não tem onde cair morto. E não estuda música, nem nada, nem tem emprego. Ela diz que vai morar com ele. Vão viver do que ?

Neusa não percebeu quando a filha entrou na cozinha.

Já acalmou, mãe? Tem alguma coisa pra comer no jantar? Não vai fazer comida hoje? Tô vendo que tá no sanduíche. Faz mal. O Marcos é vegano, sabe. Sem leite, carne, ovos. É mais saudável. Eu vou amanhã para o ape dele. Só comida saudável. Viu. Vou fazer a mala e sair daqui. Dessa vidinha de merda. E você enchendo o saco. Ele diz que é bobagem continuar com a facul, ficar pagando sem gostar. Vou arrumar um emprego.

A garota postou-se à frente da mãe, desafiadora, encostada ao fogão. À espera. À espera da resposta que demorou a vir.

Neusa levantou-se devagar, a raiva de novo tomando conta do seu corpo. De novo as mãos tremiam e sentia uma friagem indefinida no corpo e na alma. Os olhos castanhos tomados por uma dureza que ela mesma desconhecia escrutinaram o rosto de Marlene. Sua filha . Única filha. Deu a volta à mesa até ficar frente à frente com a jovem que empalideceu. Nunca vira a mãe nesse estado.

Neusa ergueu o braço para dar a bofetada. Deu um suspiro enquanto baixava lentamente o braço e deu um passo para trás.

Vai minha filha. Vai viver a sua vida! Pode ir embora agora se quiser. Virou-se e voltou ao seu quarto.

OUTROS CARNAVAIS - Antonia Marchesin Gonçalves

 

 





OUTROS CARNAVAIS

Antonia Marchesin Gonçalves

 

 

                Minha primeira experiência com o carnaval foi quando ao chegar ao Brasil em 1951, após um ano de nossa chegada teve inicio a festividade do carnaval brasileiro, eu só com seis anos e morávamos no bairro de Pinheiros, especificamente na Teodoro Sampaio não tinha a menor idéia do que acontecia, mas tenho total lembrança do movimento e a multidão que ocupavam a rua e calçadas. O sobrado tinha uma bela varanda de frente para a rua. Lembro dos corsos, chamados assim os carros sem capotas, cheio de jovens fantasiados elegantes vestidos de marinheiros, as mulheres de odaliscas ou de baianas com turbantes cheios de frutas, pulseiras e colares coloridos, todos lindos.

                A rua ficava lotada de gente a pé, todos munidos de serpentina, confete e lança perfume, que eram jogados uns nos outros e todos cantando as marginhas carnavalescas num coro só, que são cantadas até hoje nos salões. Eram românticas com letras decorosas de amor, por exemplo, Bandeira Branca e outras. Depois fiquei sabendo que a concentração acontecia na Av. Paulista onde os carros saiam dos casarões que lá existiam e desciam a Teodoro, mas interessante não ficavam a noite toda, provavelmente subiam a Av. Rebouças até voltarem para o local de origem, continuando a festa em suas casas, acho eu.

                Não me lembro de ter visto nessa época tumulto ou brigas feias, eram três dias de união e alegria independente de cor ou nível social, só os casais de namorados que o homem ficava mais atento com seu par. Gostoso, pois eu e minha família assistíamos de camarote, até participando com o tempo, jogando confete e serpentina que meu irmão comprava. Minha mãe contava que em Veneza, nossa cidade de origem era diferente daqui, constatei isso quando voltei numa época de carnaval, as fantasias eram todas originarias ou novas imitando a idade media, e jogavam água perfumada e as mascaras escondiam todo o rosto, por ser uma festa mundana, a traição acontecia, sem saber com quem, após os três dias tudo voltava normal e voltavam a assistir a missa para expiar os pecados.

                Acreditem o que eu mais amava no carnaval eram os bolinhos fritos com uva passa dentro. Típicos de Veneza, chamados Friteles e aqui minha mãe continuou a tradição, todas as casas te recebiam com café, delicia.

               

Tem coisa mais bonita do que uma Escola de Samba? - Ledice Pereira

 




 Tem coisa mais bonita do que uma Escola de Samba?  

Ledice Pereira

 

Tenho o maior respeito e admiração pelos integrantes de uma Escola de Samba, que se dedicam de corpo e alma, durante o ano todo, a começar pelos inspirados compositores que precisam falar de um tema escolhido em forma de verso, o que não é fácil. E o pior, ou melhor, de forma que o som cative a multidão e o estribilho ressoe pela passarela.

A partir daí, começa a saga do Carnavalesco. Ir atrás do que retrata o samba com criatividade, conhecimento do assunto, pesquisa, ousadia.

O desenho das fantasias das várias alas têm que corresponder ao enredo. E cabe às costureiras torná-las visíveis, reais e fiéis ao solicitado.

E as alegorias, imaginem o que passa pela cabeça do carnavalesco na hora de criá-las. E nas mãos dos artesãos, de executá-las exatamente como foram arquitetadas?

É um trabalho de equipe, de integração, de profissionalismo e sobretudo de amor, amor à Escola, amor ao carnaval.

O trabalho do Mestre da Bateria merece nossos aplausos. Reunir os apaixonados músicos num aprendizado e treino de impecável ritmo que não pode falhar. E mais, tem que surpreender talvez com paradinhas em momentos específicos. É preciso muito ensaio e intensa dedicação de todos os integrantes.

E então entram os coreógrafos, não só da Comissão de Frente, mas de cada ala. É preciso comprometimento de todos os participantes. Não pode haver erros.

A Ala das Baianas nem se fala. Algumas com mais idade rodando suas lindas e coloridas saias, cheias de orgulho e responsabilidade.

O puxador e seus assistentes têm que cuidar da voz, que durante todo o percurso de apresentação não pode falhar. Têm que estar bem coordenados e afinados assim como Mestre Sala e Porta Bandeira, sempre dando aulas de elegância e competência.

Por último, aqueles incógnitos que dirigem ou empurram os carros alegóricos escondidos da multidão mas com o coração batendo descompassadamente, enquanto a voz ecoa no compasso do samba.

Todos numa comunhão, transparecendo alegria e orgulho de pertencer àquela escola, pela qual entregam seu tempo, seu trabalho, sem exigir nada em troca, a não ser que a escola ganhe o título de campeã. Vocês já tinham pensado nisso?   

A importância do reviver - Ledice Pereira

 

 



                                     A importância do reviver

Ledice Pereira

Ali, o tempo parece não importar. As imagens conversam entre si sem que haja defasagem.

Crianças, velhos, famílias, grupos musicais, tudo junto e misturado numa completa harmonia.

Momentos vividos que não esqueceremos jamais e cujas figuras nos ajudam a relembrar diariamente.

Uma maneira de reviver pedaços da vida. Gosto muito.

Estou falando desse painel fotográfico que se encontra à minha frente e que contém fotos das crianças, dos filhos em várias idades, do meu conjunto musical, de amigos queridos, de uma festa em que dancei ao lado de uma passista de Escola de Samba. Existe coisa melhor?   

A MÁSCARA - A FRUSTRAÇÃO - Antonia Marchesin Gonçalves

 

                           

 


A MÁSCARA

Antonia Marchesin Gonçalves

 

                Gente que sucesso eu estou fazendo!

                Quem está falando, vocês perguntam?

                Sou a máscara. Nunca tive tão em alta.

                Sou de todas as cores e estampas.

                Todos não podem sair de casa sem mim.

                Tem gente que está ganhando me confeccionando.

                Já fui máscara de bandidos, para carnaval e o de

                Veneza então. Muito sofisticado, coisa de luxo mesmo.

                Mas agora estou sendo protetora da saúde das pessoas.

                Minha função é não deixar o bandido do vírus invadir,

                Os corpos humanos viventes na terra.

                Estou orgulhosa da minha missão, viu boca e nariz.








        A FRUSTRAÇÃO

 

 O sentimento que gera uma grande frustração é você fazer de tudo para

 seu ente querido, quando se descobre que esta com Alzheimer. Por doze anos cuidei de minha mãe e assisti a degradação física e mental dela.  Sentia angustia com o coração apertado, sentia a minha impotência perante tal doença.  O maior sentimento foi quando ao falecer foi a de missão cumprida, me dando paz. 


       

 

CARNAVAIS - Sérgio Dalla Vecchia

 



CARNAVAIS

Sérgio Dalla Vecchia

 

Já foram tantos!

Mas o primeiro é inesquecível.

Dias mágicos para ativar os sentidos inocentes das crianças.

Recordo-me perfeitamente da minha estreia em um clube no interior paulista.

Estava eu, molecote, fantasiado com trajes típicos do folião brasileiro; bermudas, camiseta e sandálias. Mamãe eu Quero, foi a música de abertura, na entrada triunfal daquela minha primeira matinê.

O movimento das pessoas, os varais de serpentinas coloridas e os borrifos de confetes, transmitiam o vírus da alegria. Eu estava maravilhado.

Vez ou outra sentia o aroma refrescante do lança perfume, acompanhado de gritinhos da vítima atingida.

Com samba nos pés, atento observava o passar das meninas, fadas, cinderelas, romanas e tantas outras desfilando à minha frente seguindo o ritmo da percussão.

A atmosfera do salão estava ótima, até que do nada, recebi uma golfada de confetes no rosto!

Quando abri os olhos, deparei com uma piratinha de sorriso maroto olhando para trás e dançando à toda energia.

Foi o empurrão providencial que eu carecia para destravar minha coragem!

Destemido corri atrás da agressora. Logo alcancei-a, dei o troco, segurei-a firme pelas mãos e só consegui libertá-la na Quarta Feira de Cinzas.

Ah, que saudades dos puros tempos!

 

 

 

CRÔNICA DA IMPOTÊNCIA DA VIDA DIANTE DA DOENÇA - Antonia Marchesin Gonçalves

 



CRÔNICA DA IMPOTÊNCIA DA VIDA DIANTE DA DOENÇA

Antonia Marchesin Gonçalves

 

 

        No mundo de hoje estamos afinal em 2020, lutando com um vírus criado, em minha opinião, em laboratório, mesmo por descuido, que o extermínio é tão grande, que podemos equiparar a uma terceira guerra mundial. Países do mundo inteiro lutando para encontrar a cura, mas o mais importante é quem será o primeiro descobrir a vacina para tentar imunizar o maior número possível de seres humanos do planeta. Sendo feita ás pressas, vergonhosamente disputadas pelas grandes potências mundiais, ou destruindo as mesmas para surgirem outras mais perigosas, tanto quanto.

        Após o susto inicial atônita assisto o pânico generalizado, a falta de escrúpulos usados pelas disputas políticas, sem que, em nenhum momento pensassem na humanidade, sem dó nem piedade. Quantas doenças até hoje por interesses financeiros de muitos, não foram encontradas as curas, com tanto dinheiro usado nessa disputa. Como por exemplo, HIV, esclerose múltipla, câncer, Alzheimer, etc.. Todas elas, o paciente ou morre ou definha anos a fio. Os familiares impotentes usando todos os recursos, até os que não possuem, se sujeitando ao atendimento num total descaso, ou convênios que se paga por anos e ao precisar de uma opinião mais confiável, paga-se o especialista particular.

        A experiência que tive nesta parte é a mais frustrante, no meu caso, pai morreu de câncer e mãe com Alzheimer vivendo ela por doze anos sofridos, até se tornar um ser vegetativo, ligada em tubos. Diagnosticada com a doença, trouxe minha mãe para minha casa, eu na época com três filhos e marido, além de todo o trabalho que isso acarreta.

Certo dia eu acompanhava meu marido num evento, quando minha filha liga desesperada, estava levando minha mãe ao hospital de emergência, pois ela estava sufocando pelo refluxo do mingau oferecido pela acompanhante.  Chegando à emergência a médica me pergunta se eu queria que ela fosse entubada e que na opinião dela era contra. Espantada perguntei se era para deixar morrer sufocada? Decidi usar todos os recursos. Durante as visitas na UTI, os plantonistas diziam que ela não iria voltar a respirar sozinha mais. Após dois meses saiu do hospital respirando sozinha e andando. Durante os doze anos todos os recursos foram usados, de acompanhantes malucas, até musicoterapia. Até o último ano de vida após onze anos, aí sim ficou dependente de maquinários, ou seja, tubo de alimentação direto no estomago e oxigenação direto na garganta.

        O meu sofrimento como filha do meio, sem parentes no Brasil, foi pesado. Apesar de tudo não me abstive dessa missão. Confesso que foi muitas vezes angustiante ter que tomar sozinha as decisões, mas tenho a alegria da consciência leve e a felicidade de saber que durante esse período, os meus filhos amaram ter a nona deles em casa, apesar de ter mudado toda a rotina, tiveram que deixar de receber amigos à noite, pois se ela acordasse gritaria a noite toda.

Mas agradeço a acompanhante que ficou onze anos e meio conosco, e minha empregada e a faxineira, foram todas, os meus braços direito e esquerdo, tornando minha casa, apesar de tudo, uma família feliz.