CARNAVAL. - MÁRIO A. MACHADO PINTO.



Grande Hotel - Guarujá - http://www.novomilenio.inf.br/guaruja/gfoto019b.htm


CARNAVAL.
MÁRIO A. MACHADO PINTO.



Dá para imaginar como paisagem, pintura feita pelo mestre de todos os mestres, digna de figurar entre os locais paradisíacos deste mundo afora: areia branca e solta como a inocência das crianças, mar azul para combinar com o céu aberto, escancarado, abrigando o sol dardejando seu raios claros beijarem desavergonhadamente as carnes de todos nós, turistas branquelos provindos de uma cidade cinza no seu todo, habitada por entes que correm atrás de alguma coisa que não  sabem ao certo qual é e justificam: esta cidade não  pode parar; é crescer e crescer para acomodar gente vinda aos magotes; não importa donde. Vem, ficam, correm e cansam. Para eles não vale o ditado: quem corre por gosto não cansa. Cansavam, sim, e cansados iam descansar nas praias comendo com os olhos as carnes que andavam ao redor, saboreando peixes, camarões, cervejas que bebiam devagar, golinho após golinho que ninguém é de ferro (ali não enferrujava). Nos fins-de-semana a ferveção era sentida no ar acariciando nossos corpos. Não tínhamos muito a fazer.

Durante a semana o ambiente ficava calmo e nós, crianças e jovens podíamos correr e jogar à vontade na areia branca escaldante.

Nossa casa no Guarujá ficava ao pé da areia cujo jardim e gramado verde selvagem ultrapassava a cerca de madeira que pretendia limitar nosso território. Obedecida a limitação, nós a quebrávamos fincando um guarda-sol além da fronteira. Era tudo muito seguro: acontece que na época nosso vizinho era o governador do Estado.

Corria o mês de fevereiro, tudo em paz até que começou a chegar o som das marchinhas do carnaval que se aproximava.  Lembro-me da primeira letra e música que ouvi:

“Alála-ô, ôôôô/ Mas que calor/ ôôôôô/ Viemos do Egito e muitas vezes nós tivemos que gritar Alá, Alá, mande água pra  Yôyô, mande água pra Iaiá, Alá, meu bom Alá”.

Cantávamos em coro no jardim de casa para o menino que trazia as marmitas com nosso almoço/jantar que para evitar o calor ardente da areia caminhava entre as rendas de espuma feitas pelo mar irrequieto. Não era por preguiça não, mas cozinhar, limpar, lavar e passar o que faziam as doze pessoas na nossa apelidada “Pensão da Da. Estela” e mais,  estando grávidas nossa dona e a cozinheira, eram tarefas demais suficientes. Nada de folga, queriam tudo dentro da maior ordem juvenil. Cada um que se virasse sem choradeira e sem brigas com dentadas. Às vezes, agindo como verdadeiro bando de selvagens, a ameaça do chinelo acalmava tudo rapidinho.

Imbuídos do espirito de verdadeiros súditos do Rei Momo, nós – os maiores de doze anos – íamos passeando até o Grande Hotel pra espairecer e ver o pessoal fantasiado dançando, fazendo poses para fotos na entrada do cassino. Riamos muito, porém na verdade o que sentíamos era inveja por não poder entrar e gozar das delícias do ambiente.

Nossas primas pulavam de alegria ao ver alguma fantasia que agradava. Os elogios gritados chegavam a deslumbrante, fantástico, linda, lindo; o máximo era querer ter igual. Nós, meninos, queríamos era ver as pernas das moças, coquetes, sabiam disso e as mostravam como se por acaso entre as franjas das saias de ráfia.  Que gostosura, que delícia, carinhosas serpentes a se enroscar e apertar nossos corpos. Eta coisa boa!

O Guarujá foi se transformando, deixou de ser bucólico (imagina); a travessia da balsa passou a verdadeiro suplicio e muita gente foi se retirando em busca de novas praias, nós, entre todos. Não fomos mais. Somos sedentários, temos outros amigos chamados TVHD, Celular, email e outras coisas que não nos divertem. Gostamos de ver como nossos netos vibram com elas. Brinco com eles dizendo que seus filhos terão orelhas de abano e olhos de peixe.

Hoje, pela TV a cores vemos o Carnaval reduzido a desfiles das Escolas de Samba, multidões se balançando, suando em bicas, se esfregando e gritando enquanto comem pipoca com groselha e maçã do amor. As crianças acham uma chatice fazer castelos na areia, foguear o Vesúvio e ficar coberto até ao pescoço por areia molhada. Preferem jogar no celular “smart” ou “iphone”. Situação esquisita a atual: a mocidade diz que o Carnaval é uma droga, e toma dela, todas.

Situação nada diferente é a das jovens hoje matronas que agora escondem as pernas com varizes. É difícil conseguir algo que as agrade. Aos homens jovenzinhos dantanho é mais fácil: bebem e “enchem a cara” e rindo relembram as boazudas da juventude e não lamentam a barrigona, o nariz inchado, a careca. Tem consolo fazendo troça de si mesmos lembrando suas “patroas” que   
É DOS CARECAS QUE ELAS GOSTAM MAIS.


CADÊ? - MARIO AUGUSTO MACHADO PINTO



https://super.abril.com.br/mundo-estranho/existe-mesmo-a-danca-da-chuva/



CADÊ?
MARIO AUGUSTO MACHADO PINTO

Já estava acordado quando o celular tocou. Era o Mano dizendo que recebeu telefonema de um dos guardas florestais avisando que algo estranho estava acontecendo na Reserva Carolá: os índios estavam reunidos cantando e dançando ritos destinados a demonstrar descontentamento. Não sabia porquê. Nesse instante a linha caiu e perdeu contato, por isso não tinha mais detalhes, mas mesmo assim considerava preocupante a situação. Respondendo à sua pergunta disse que iria com ele e o ajudaria dentro de limites.   
      
 Eu sabia que essa ida do Mano à Carolá refletiria no seu programa de visitas projetadas para o segundo trimestre, mas ele não se aborreceu: não era a primeira mudança nem seria a última a acontecer. Em todo caso, ajudaria a quebrar a pasmaceira em que havia se transformado seu casamento. Bizuca (pelos meus caracóis, que apelido!) botou na cabeça que Mano estava tendo caso com uma das mulheres da tribo. Conheci a jovem – imagina só: cara de malandrinha, bonitinha, 22 aninhos, quase nua e com tudo no lugar certo! pitéu dos deuses! A verdade é que Mano não tinha envolvimento, dizia que relacionamento com mulheres da tribo acabaria com sua autoridade fator fundamental no exercício da sua função. Pra ele não era caso encerrado pois nunca existiu, mas mudou seu comportamento de alegre pra meio sorumbático. Em sua casa não se ouvia mais aquele zum zum de colmeia de abelhas nem era mais o porto seguro onde atracava o navio da vida diária. Já não fazia mel pra Bizuca.

Bem, em todo caso disse que com minha ajuda – não sei até que ponto - poderia adiantar a programação anual, o que lhe permitiria gozar férias antecipadas. Conversamos sobre o assunto e no final das contas pareceu-me animado com a perspectiva.

Após café corrido, montamos na perua e lá fomos nós, ele dirigindo como numa disputa de rally. Era o seu normal. Não conversava. Ficava em silêncio por longos intervalos e depois cantava. O interessante é que cantava canções que eu conhecia, mas não mais me lembrava. Era como volta ao passado. Importante é que as canções passavam pelo tempo, das mais “idosas” às mais recentes e cantava, cantava com sua bela voz e dizia: é show da Broadway para os índios escutarem e saberem que estou chegando alegre e contente. Isso os deixa mais à vontade, sem animosidade. Apesar da explicação notava que Mano estava tenso, gestos rígidos, fala atropelada, feições a contrastar com a aparência exuberante do meu amigo de infância. O que estava pra acontecer era a pergunta que eu me fazia e que não queria calar.

Pigarreou forte e iniciou o show com musiquinhas que se aprendem no lar-escola:

“A, É, I, Ó, U, DABLIÚ, DABLIÚ DA CARTILHA DA JUJU, JUJU”* repetia e já voltava ao silêncio.

Sabendo do procedimento, sempre aproveito pra admirar a paisagem, a mata exuberante, lindas aves, sons que só os iniciados conhecem quem os emite. Esse conjunto quando me atinge causa-me arrepios. Razão tinha o poeta ao dizer que as aves que lá gorjeiam não gorjeiam como as de cá.  Cada pio faz o canto; o cantor apresenta sua assinatura e toma posse no espaço que lhe cabe.
Assim sem mais nem menos Mano diz bem alto:

“UM, DOIZ, FEIJÃO COM ARROIZ, TRES, QUATRO, FEIJÃO NO PRATO *, etc..... Silêncio novamente e uma pergunta:

— Tô enchendo o picoá?

— Não. por que essa cantoria toda? Tem destino certo?

— Claro. Foi pra aprender a contar. Eles conhecem de cor. Há outras 3 ou 4 que vou cantar. Servem pra conseguir reunir todos na praça da aldeia. Também aviso que eu quero comer com eles. É pra preparar uma queixada. É pra dizer que  que tá tudo bem. Você será convidado. Tá?

— Tá.

Silêncio de novo. Desta vez foi mais longo com a explicação da serventia: o que faria era uma visita de amigo para amigos e, mudando um pouco a letra, cantou:

— A CANOA VIROU, POR DEIXÁ-LA VIRAR, FOI POR CAUSA DA INDIRA QUE NÃO SOUBE REMAR, PIRIRIM PRAQUI, PIRIRIM PRA LÁ*.

— E essa aí, pra que serve?

Explicou:

— É pra dizer que eu vou fazer as coisas certas. Sabe, pra eles Indira é o meu serviço. Este contato é um agrado enorme pra eles.

E assim foi cantoria por todo o caminho.
Ao chegarmos, notei que todo pessoal da tribo estava reunido na lapa que alcançava a cachoeira. Andaram passando por detrás da queda d´agua cada um voltava começando a dançar. Mano parou a perua, desligou o motor e murmurou:
— Tá mais sério do que eu pensava. Você fica; se precisar eu chamo.
E a cantar, lá se foi ele encontrar o pessoal; recebeu e deu abraços, ensaiou uns tantos poucos passos de dança e, afinal, passou pela queda d´agua. Cantava. Dava pra ouvir o eco da sua cantoria:
A ROSA FICOU DOENTE, O CRAVO FOI VISITAR, A ROSA DEU UM SUSPIRO E O CRAVO PÔS-SE A CHORAR. PIRILIM PRAQUI, PIRILIM PRA LÁ...*.
O grupo rodava em círculos, batia os pés no chão de terra levantando poeira que aumentava de intensidade ao sabor da música cantada. Depois de certo tempo deu para ouvir Mano ainda a cantar.
Silenciou-se a cantoria. Só se ouvia o bater dos pés no chão a levantar cada vez mais poeira que aos poucos foi ficando branca. De repente estourou a voz do Mano a gritar a plenos pulmões:
— I DID IT MY WAY**  a repetir só essas palavras, a voz ecoando cada vez mais fraca.
Só havia a agitação da dança, o bater dos pés no chão e mais forte se fez ouvir
— VOU PARTIR, BAIXO ASTRAL, VOU PRA PORTO ALEGRE, TCHAU, TCHAU...***.
Entoou muitas vezes até voltar à agitação que se seguiu ao silêncio. Todos se retiraram a entoar cantoria dodecafônica.
Nunca mais ninguém viu o Mano e os Iapurá diziam que ele sumiu na nevoa da boca da gruta da queda d´agua.
Foram feitas expedições, inquéritos, processos, buscas pessoais e coletivas: nada, nadinha foi encontrado. Prestei dezenas de depoimentos, consolei, chorei e quase me perdi de saudades e dor. Nada!
Concretizando o que me prometi, hoje estou cá. O local está abandonado. Os Iapurá se foram. Só há uma trilha. Fiz o mesmo caminho, cantei os versos das mesmas músicas, dancei o ritual pra passar por detrás da queda d´agua. Fiquei surpreso ao encontrar na entrada da gruta dois pilares antigos, lascados, escrevinhado no maior:
                  VOCÊ QUE VAI ENTRAR, VAI VOLTAR?   

Já estavam ali? Sim! Não! Desde quando? Como foram escritos? Quem escreveu? Mano leu? A pergunta permanece: Se foi, onde está? Cadê ele? Cadê? Cadê?

Nadin, seu filho de quase dois aninhos tem a resposta:
O GATO COMEU.


CARNAVAL - Sérgio Dalla Vecchia




CARNAVAL
Sérgio Dalla Vecchia

Carnaval, festa brasileira alegre, descontraída, festejada por todos os Estados. Cada um com suas características folclóricas, entrosadas nos blocos e desfiles de rua, onde o colorido das fantasias em ritmo de samba formava um cenário mágico, transformando foliões em almas isentas de todas as agruras da vida.

No estado de São Paulo, especialmente a cidade litorânea de São Vicente foi onde desde menino em férias participei de inúmeros eventos carnavalescos.

Hoje avô, não considero mais minha festa preferida, quando recordo nitidamente dos bailes nos primórdios do Ilha Porchat Clube na década de 60. Do corso nas avenidas costeiras Presidente Wilson e Vicente de Carvalho, onde havia troca de serpentinas, confetes, talco e até farinha.

Muitos carros abertos, jipes e caminhonetas parados no trânsito permitiam que os foliões descessem e circulassem pela avenida trocando alegrias com os foliões vizinhos.

Lembro do ponto máximo da animação na confluência da av. Ana Costa, onde existia o Parque Balneário de Santos e o Clube XV.

Era só alegria, não havia excesso de bebidas e não se percebiam drogas.

Do banho da Dona Doroteia, onde um bloco de homens fantasiados de mulheres sambando entrava no mar brincando com as ondas.

Dos bailes de salão nos conhecidos Clube XV, Tênis Clube, Saldanha da Gama em Santos, Tumiarú e Ilha Porchat Clube em São Vicente.

Da minha maioridade pulando as quatros noites no Ilha Porchat Clube, onde a frequência era de famílias dali mesmo, proprietários de apartamentos na praia do Itararé. Da pausa para descanso no terraço com vista para o mar na companhia agradável de uma bela moça.

Daquele ambiente familiar, onde tudo corria bem e novas amizades sempre surgiam. Do cansaço gostoso de pular literalmente o carnaval até onde as pernas aguentassem.

Entretanto, sendo saudosista mesmo, observo nos dias atuais a distância das famílias, a percepção das drogas, intolerâncias diversas, glamour dos desfiles cada vez maiores e luxuosos. Carros alegóricos de tão grandes enroscam-se e se partem nas diversas passarelas dos sambas das grandes cidades.

Toda essa ostentação, luxo e os meios que a viabilizam, transformaram o carnaval mágico da alegria espontânea, em uma felicidade teatral, diante das câmeras de tv e arquibancadas.

Por isso, feliz, recordo do sucesso da minha simples fantasia de bermudas, camiseta e sandálias. O esplendor era só meu, não precisava de mais nada, apenas o coração alegre, uma garota e pés frenéticos.


ENGENHARIA E O PARAÍSO - Sérgio Dalla Vecchia



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ENGENHARIA E O PARAÍSO
Sérgio Dalla Vecchia

Há mais de vinte anos conheci umas terras lá pelos lados de Avaré SP. Apresentavam uma topografia suave, que se iniciava às margens da represa de Jurumirim elevavam-se em rampa discreta, quase uniforme até o ponto mais alto, onde havia divisa de propriedades.

O cenário não era dos melhores, sinais de semiabandono eram evidentes. O que mais chamou atenção foi a quantidades de tocos e raízes remanescentes de uma vasta plantação de pinheiros.

Entretanto alcançando uma região mais alta, em meio aos restos de pinheiros, o céu descortinava uma paisagem esplendorosa, tendo a represa e o horizonte como pano de fundo. Parecia que ela com seus olhos brilhantes nos dava boas vindas e ao mesmo tempo clamava por cuidados no seu jardim de entorno.
Foi nesse instante que meu companheiro de viagem, engenheiro, empresário da construção e empreendedor por excelência vislumbrou ali o projeto da sua vida e decidiu adquiri-la. Ele já procurava terras há algum tempo e agora empolgado as encontrou.

Atitude de coragem e convicto da sua capacidade empresarial encarou a árdua tarefa de formar algumas centenas de alqueires a partir do zero.

Passando férias na fazenda do tio, conviveu com o manejo de gado e agricultura, quando assimilou as primeiras letras do alfabeto do agronegócio.
O sonho de Luiz era um dia ter sua própria fazenda. Esse dia chegou!

Almoçamos lá mesmo, as três horas da tarde o melhor café com leite do mundo, acompanhado de pão caseiro com manteiga e retornamos à São Paulo.
O tempo foi passando e aos poucos o entusiasmado Luiz enfrentou o trabalho penoso do destocamento das áreas. Correção dos minerais do solo e formação de pastos. O projeto inicial era engorda de bois.

Currais foram construídos e montou a infraestrutura essencial para o inicio do agronegócio, incluindo uma modesta sede.

Investiu em tecnologia moderna para a engorda de bois em escala, instalando vários pivôs de irrigação de pastos, baseado no sistema francês de Pastoreio Racional Voisin.

Era gratificante ver a produção da fazenda escoar em várias carretas repletas de bois prontos para o abate.

Mais alguns anos passaram e o mercado induziu Luiz buscar melhores resultados na agricultura, onde confiante investiu plantando girassol, feijão, milho e soja.

As colheitas foram prósperas, os negócios bem organizados tinham vida própria e iam muito bem. Chegou o momento de construir uma sede compatível com a grandeza da propriedade.

Camila sua esposa, cobrava há anos a construção da nova sede e o cauteloso Luiz esperou o tempo oportuno para então poder atendê-la.

O local escolhido foi próximo as águas, num platô onde do terraço projetado ter-se-ia uma vista de 180º de toda a represa, complementada de um sol poente centrado no pitoresco cenário.

Com projeto feliz de arquiteto famoso, a casa colonial térrea foi muito bem construída, ampla em todos os cômodos, consumindo com bom gosto proporções da grande área disponível.

Camila, com seu perfil simples, porém sofisticado, soube como ninguém atuar na construção e na decoração do casarão com um mobiliário de estilo e tecidos em tons pasteis.

A casa ficou pronta, linda, imponente avistada de longe pelos navegadores da represa, servindo como ponto de referência da Fazenda Campininha.

Houve a grande festa de inauguração, a capela e a primeira missa.

Mais uma etapa de vida concluída por Luiz, agora com a Camila radiante com a tão almejada sede.

Logo em seguida mais um projeto, agora sofisticado. Luiz ingressou no time dos seletos criadores de gado Nelore, onde a engenharia genética é aplicada com excelência. Participou dos grandes leilões, onde a Fazenda Campininha se consolidou no mercado com seus belos exemplares.

Nesse tempo todo e com tantas conquistas, Luiz e Camila construíram a maior delas, o sólido casamento, onde nasceram os filhos José e Stella, que geraram os netos Tomas, Camila, Helena e Julia respectivamente, mais ainda os que estarão por vir.

O casal se consagrou como ótimos anfitriões, recebendo amigos e parentes nos grandes feriados, sempre com conforto, fartura e as brincadeiras do bem-humorado Luiz.

Cá estamos nós aqui em Avaré, eu e minha família nesse primeiro dia de 2019.
Enquanto o sol ia se pondo, em pé, no meio da varanda eu observava aquele ocaso deslumbrante, enquanto somava-se a paisagem, familiares e convidados divertindo-se na piscina com risos de alegria.

Sentia-me muito bem, havia paz naquele momento. A felicidade pousara naquele local encarnando nas pessoas, nas plantas, pássaros e na atmosfera.

Com a câmera do celular registrei um por do sol magnífico, quando o sol, brincado comigo, escondeu-se atrás das palmas de um coqueiro, deixando à mostra apenas sua grande aura para canonizar aquele instante.

Nesse momento de reflexão veio à mente o histórico do empreendimento, onde o devoto de Nossa Senhora Aparecida, com vontade, perseverança e técnicas de engenharia, conseguiu a façanha que seu amado agronegócio se fundisse com o Paraíso.

Tal sucesso, acredito piamente ter sido uma retribuição dos céus por Luiz ter atendido com brilho, o clamor da represa para que cuidasse bem dos jardins do seu entorno.

À PROF. ANA MARIA E COLEGAS - ANTONIA MARCHESIN GONÇALVES


                   



À PROF.  ANA MARIA E COLEGAS

                   Ana Maria e colegas, resolvi tomar a liberdade de escrever estas singelas palavras, para poder expressar o sentimento com relação ao curso e a inclusão do meu convívio com vocês.

                   Sempre fui apaixonada por leitura desde jovem e a medida que a idade avançou sentia a necessidade de por no papel as experiências, tristes ou alegres, que considero um enriquecimento na minha vida.
                   Sendo sócia do clube há bastante tempo, frequentava muito pouco, por uma serie de circunstâncias que um dia contarei na minha biografia, o meu sonho. Agradeço a vocês todos por aceitarem a intrusa nesse grupo seleto e criativo, de escritores férteis, romancistas, poetas, que são um exemplo para me espelhar, e uma professora, que não pensei encontrar com tanta competência.
                   Mas o principal é que o meu sentimento, apesar de estar há pouco tempo, sinto como se fizesse parte desde o começo. Numa fase difícil de vida, vocês, professora e colegas talentosos, estão sendo um bálsamo e uma grande descoberta e a forma perfeita de enriquecimento pessoal, que não imaginava. Família não se escolhe, se aceita, amigos não, são incluídos em nossas vidas pelas mãos divinas, às vezes por toda uma vida por total afinidade.
                   Obrigada querida professora e a vocês queridos colegas e amigos, até fevereiro.

A NOIVA E O ANJO - Antonia Marchesin Gonçalves




A NOIVA E O ANJO
Antonia Marchesin Gonçalves

                   Bernadete, após dois anos de namoro e noivado, como mandava as condutas morais em torno de 1950, ia se casar. No dia do casamento posou para a foto da posteridade com um ar angelical, sorriso moderado, toda de branco, recatado, segundo a moda da época.  Feliz, foi à igreja para a cerimônia religiosa, sendo a sua família católica e o futuro marido também.

                   Durante todo o evento religioso, via-se certo desconforto da parte dela, mas todos imaginavam que seria o nervosismo normal de noiva. Após a festança, os noivos foram viajar em lua de mel para Foz de Iguaçu e se hospedaram na cidade de Cascavel, que na época era uma cidade com poucos recursos, mas era perto das cataratas e tinha um hotel razoável. Durante dois dias não saíram do quarto nem para as refeições, as faziam no quarto, lua de mel pensava o gerente, normal.

                   No terceiro dia tudo mudou, ela liga para a portaria aos gritos dizendo que o marido havia morrido dormindo e aos prantos pedia ajuda. O gerente encontra realmente o marido dela morto, precisou chamar a policia para a constatação da morte e depois liberar o corpo para que voltassem a São Paulo. Mas o delegado achou estranho ele estar de olhos arregalados, boca aberta com expressão de susto, resolveu por sua conta chamar também o detetive Faro Fino seu amigo, em inicio de carreira, era uns dos primeiros casos. Iniciou a investigação fazendo uma varredura no quarto, olhando todos os detalhes que pudessem ter algum indicio do porque da expressão do morto.

                   Bernadete contou que estavam já dormindo quando o marido aparentemente teve um pesadelo e acordou muito assustado, suando muito e que ela lhe deu um copo de água com açúcar e voltaram a dormir, só de manhã que ela percebeu que ele não se movia. O detetive achou Bernadete muito pálida como se fosse de cera,  mas aparentando uma certa frieza nas atitudes, como se tentasse se mostrar politicamente correta, tendo um atitude falsa em demonstrar dor. Desconfiado resolveu acompanhar a viúva de longe, pois seu instinto dizia, aí tem coisa. A viúva e o corpo após dois dias foram liberados e o féretro seguiu para São Paulo, chegando lá todas as duas famílias unidas desconsoladas efetivaram o enterro.

                   Faro Fino acompanhou todo o processo e já em São Paulo resolveu continuar a sua investigação e passou a seguir a viúva, fazendo tocaia perto da casa. Durante os dois meses ela pouco saia, quando num fim de semana junto com os pais ela foi para a praia. Faro Fino resolveu ir também e se hospedou numa pensão perto o suficiente para continuar com sua investigação. Na primeira noite o luar estava maravilhoso, pois era lua cheia e seu reflexo no mar era estupendo. Estava ele fumando,  admirando a lua, quando vê um vulto sair da casa onde Bernadete se encontrava, rapidamente seguiu esse vulto, que andou até a praia, mas foi para a parte mais deserta onde haviam morrinhos com vista para o mar maravilhosa.

                   Escondeu-se  ele atrás de um desses morrinhos a espreitar com a certeza de que era a Bernadete, ficou perto o suficiente e para o seu espanto total aparece um ser alado ao lado dela e imediatamente ela o reverencia com a um rei. Ele vê os dois se comunicarem como verdadeiros conhecidos e ouviu que o chamou de Lúcifer. Não acreditando e com medo, pensou, achei que fosse um anjo, mas não, ela tem pacto com o Demo! Num certo momento o alado olhou em sua direção e ele pode ver os olhos vermelhos, pensou fui descoberto sentiu um arrepio pelo corpo todo, mas aliviado viu Lúcifer voltar a cabeça para Bernadete, esperou o alado ir embora e sorrateiramente voltou para sua casa. Voltando para S.P. no dia seguinte foi ver quais eram as atividades de Bernadete fora de casa, e descobriu que era frequentadora do templo da Seita do Satã.

                  Conseguiu descobrir através de escuta telefônica, que eles  a tinham instruído para que usasse a porção de veneno fornecida pela Seita para demonstrar a sua devoção e obediência, e que no nervosismo exagerou na dose.  O detetive alegando suspeita de assassinato mandou exumar o corpo e foi comprovada a causa morte. Dizia ela que tinha que mostrar para a Seita e o Lúcifer, que podia obedecer às suas ordens. Réu confessa, foi condenada e presa.

                   Mais um caso do detetive Faro Fino resolvido, agora sabia o motivo da expressão de susto do defunto, ele havia visto a esposa fazendo ritual demoníaco no meio da noite.

De baiana, não! - Ises de Almeida Abrahamsohn



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De baiana, não!
Ises de Almeida Abrahamsohn

Marialva adora carnaval. Vai se preparando de um ano a outro. Arranja fantasia, treina a coreografia como se fosse a coisa mais importante da vida. Desfila em várias escolas, é passista e faz parceria com o Grilo...

Eu não tenho ciúme, não. Ela e o Grilo se conhecem desde a infância. Os filhos é que não gostam de ver a mãe já com 45 anos rebolando pelo asfalto vestida só de biquíni e plumas coloridas.

Nesse dezembro, Marialva já sabia de cor o samba das escolas preferidas. Na quadra da Portela, mostrava a coreografia perfeita ensaiada com o Grilo.

Era um sábado antes do Natal quando ela me ligou lá da quadra. A coitadinha chorava, e como chorava. Mal podia explicar o porquê entre os soluços. Fui correndo pra lá...  Sentada a uma mesa era consolada pelo Grilo e por algumas colegas.

Môr... me despacharam.... tô acabada.... soluçava inconsolável minha passista.

Demorou meia hora para ela contar. No meio tempo, entre choro e acusações expulsou o Grilo da mesa.

Pois é ... O diretor de coreografia, sem atinar o dano, tinha transferido Marialva para a ala das baianas. E ainda teve o desplante de lhe apresentar a substituta. Uma tal de Taísa, dezoito aninhos, com tudo no lugar e mais um par siliconado de esbugalhar os olhos. E pior, o Grilo, babando e deslumbrado, foi logo se achegando na garota para mostrar os passos da coreografia.

 O que fazer?  Apenas consolar... O tempo não perdoa mesmo.

Eu gosto mesmo das celulites da Marialva, contei isso pra ela, e mais, que ela ainda tem um corpão de fazer inveja.

E sabe o que aconteceu? Não falou comigo por uma semana por causa da história da celulite!!! E disse que, de baiana, não sai nem morta.

DAUPHINI O PRIMEIRO CARRO - Antonia Marchesin Gonçalves



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DAUPHINI O PRIMEIRO CARRO
Antonia Marchesin Gonçalves

O carro ainda esta guardado na garagem do Frits Shuber, ele tem um carinho enorme pelo seu primeiro carro. Nos idos dos anos 20, 30 ele havia chegado ao Brasil com a promessa de que chegaria com direito a um lote de terra para iniciar e desenvolver o cultivo de uva na região do interior do Rio Grande do Sul.
Ao chegarem, conta ele com a esposa Berta, o encantamento deles sobre a cidade foi enorme, ficaram admirados que apesar da depressão financeira no mundo, a pujança parecia inabalável no país, não era bem assim, não sabia da quebradeira dos barões do café. Mas como eles não falavam sequer uma palavra em português a admiração era grande. Acompanhado de Berta foram recebidos e já enviados para o seu destino, aonde seria a sua terra, estavam junto com eles outro grupo de alemães cada um teria o seu lote.

Lá chegando a decepção foi total, pois não eram lotes de fazendas planas e sim montanhas totalmente sem estrutura nenhuma e total mata. Unidos os grupos de alemães derrubaram arvores, construíram seus casebres e isolados, foram aos poucos formando a vila, se tornando com o tempo uma cidade prospera e ele também. Construiu uma casa maior de alvenaria e madeira, prosperou com sua cultura de uvas, adquiriu vacas de leite e vendia os seus queijos, assim criou e estudou seus filhos.

Quando conseguiu nos anos 50 comprar o primeiro carro, o Dauphini, até então usava carroça puxada a burro, foi o maior presente que poderia se dar, foi um motivo de orgulho. Tem agora uma camionete mais potente para ir a cidade no dia a dia, mas nos dias de comemoração anual que a cidade faz, com danças, roupas e comidas típicas, ele lustra bem o seu carrinho e participa do desfile pelas ruas com sua Berta ao lado, feliz e orgulhoso.





Promessa não paga - Ises A. Abrahamsohn



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Promessa não paga
Ises A. Abrahamsohn


No meio dos foliões vi, num relance, o Bino.  O Bino! A fantasia e a pintura do rosto disfarçavam bem, mas era ele mesmo, eu o reconheci. Não creio que me viu. Também não cheguei a ver com quem ele estava no baile. Aqui do camarote posso ver as pessoas pulando lá embaixo, mas o perdi em meio à folia.    

Já se passaram tantos anos... A gente morava na mesma rua da Mooca.  As casas modestas, todas iguais, de pedra cinza, com uma veneziana e porta abrindo para a calçada. A maioria dos moradores era italiana, vidreiros de profissão. Nas pequenas oficinas do bairro a massa incandescente ainda era moldada a sopro e pelas hábeis mãos dos imigrantes do Vêneto.  

A criançada brincava na rua, onde apenas vez por outra aparecia uma caminhonete para retirar as encomendas. Formávamos um bando de umas quinze crianças. Ao escurecer as mães, tias ou avós gritavam os nomes chamando para o jantar.

Lembro que o nome dele era Mário. O apelido veio de como a mãe o chamava, “Bambino”, e assim ficou sendo Bino. Frequentamos a mesma escola de bairro. O Bino aos quatorze anos destoava dos companheiros. Era o mais alto, muito magro, tímido e bem educado.  Não fazia parte da turma que assobiava e dirigia gracejos indecentes às meninas. Durante alguns meses ele vinha à minha casa para estudarmos juntos. Era bom em latim e francês, matérias do chamado ginásio. Nós líamos muito; livros emprestados da biblioteca central. Conversávamos bastante sobre as leituras. A família do Bino era muito religiosa. Nas poucas vezes que fui lá buscar algum livro, olhava fascinada o altar montado sobre o aparador com os santos, velas e sempre, sempre flores frescas. Ao entardecer em frente ao altar rezavam o rosário acompanhando a transmissão do rádio.

Quando terminei o ginásio, meu pai anunciou que iríamos mudar para Santo Amaro onde eu cursaria o científico no colégio estadual. 

Ao me despedir do Mário, pareceu-me muito abatido. Por fim, contou.  Os pais não tinham mais como sustentar seus estudos e aos seus quatro irmãos menores. Ele teria que trabalhar como aprendiz ou, se quisesse estudar, teria que ir para um seminário e tornar-se padre. Havia uma tia rica disposta a lhe custear os estudos. Tinha a ver com a promessa feita pela tal tia a algum santo de ter um sobrinho ordenado padre. Ele, agoniado, me confessou ter escolhido o seminário. Fiquei chocada. Conhecia meu amigo bastante bem e de nossas conversas sabia das dúvidas que então já tinha sobre a doutrina. Mas o que poderia lhe dizer? Apenas o abracei e disse que promessas feitas para alguém outro cumprir não deviam agradar aos santos nem ser levadas a sério.

Nunca mais o vi até há pouco. Nove anos se passaram. Desci do camarote para tentar encontrá-lo em meio aos foliões. Logo avistei o seu chapéu de pierrô. Chamei: Mário! Bino!  Após um minuto de hesitação, me reconheceu.

  Cecília! Vamos para longe do barulho.

Contou que decidiu sair quando estava no terceiro ano do seminário. Os pais e a tia fizeram de tudo para ele ficar, mas em vão. Foi expulso de casa. Conseguiu um emprego de vendedor durante o dia e entrou direto no curso de direito na São Francisco. O ensino no seminário era muito bom. Morava numa pensão e iria se formar em dois anos. A tia nunca o perdoou. Há poucos meses fizera as pazes com os pais. A moça com quem dançava era colega e namorada. Queriam casar-se ao final do curso.

Deixei-lhe meu número de telefone. Ao se despedir disse:

― Nunca esqueci o que me disse quando nos despedimos. Me ajudou a tomar a decisão correta e abandonar o seminário.

Sonho de Carnaval - José Vicente J. Camargo



Sonho de Carnaval
José Vicente J. Camargo


Carnaval já foi minha festa preferida. O último de que me lembro de ter participado entusiasticamente, foi aquele em que conheci Verinha comprimida num colante cravejado de lantejoulas. Me enlaçou com serpentinas e me fisgou definitivamente com um jato de confetes na boca ao abri-la para perguntar seu nome. Me puxou para o meio do salão e, cada volta que dávamos, a flechada ia me conquistando sem resistência. As marchinhas tocadas pela banda estridente se embaralhavam na minha cabeça misturando as letras de uma com as outras, mas todas louvando aquela visão a minha frente de colombina com traços de jardineira e odalisca, atiçando meus desejos por aquelas formas perfeitas cobertas de lantejoulas. Sob o calor sufocante da arena, atropelado pelos cordões delirantes dos foliões, percebi que ia aos poucos entrando em delírio:

Allah meu bom Allah
Mas que calor, ô ô ô, ô ô ô
Mande água pra ioiô, mande água pra iaiá...

Se você for sincera, Verinha
Diga logo que me quer, Verinha
Terminamos no meu lindo apartamento
Com ar refrigerado pra curtir o nosso amor...

Abre alas pessoal que eu quero passar
E com Verinha, nem penso em parar
Juntinhos vamos até o sol raiar...

Verinha eu quero, Verinha eu quero te amar
Me dê um beijo, me dê um beijo
Senão eu vou chorar
Não vai dar, não vai dar não?
Então eu bebo até não poder mais
Me dá, me dá oh
Me dá um beijo aí

Se você pensa que meu amor é falso
Ele não é falso não
Ele vem do coração
E o falso, daquele malandrão...

Olha o rebolado da Verinha
Será que ela é, será que ela é
Será que ela é bossa nova
Será que ela é Maomé
Parece que é maravilha
Mas isso, eu tenho que provar...

Oh musa, porque estás tão triste
O que foi que te aconteceu
Foi este cravo que caiu ao solo, deu dois gemidos e depois cansou
Não fiques triste esta noite é toda tua
Você é muito mais fogosa
Que este cravo que murchou …
E a noite vai rolar
Desejo ardente eu não quero ver sobrar
Eu passo a mão no sorriso da Verinha
E beijo até me afogar
Deixa a noite rolar...


Acordo suado, agitado e tento me encontrar na penumbra do quarto.
A ficha cai! Grito:
Mãe! O carnaval este ano que dia cai...