SE TE VI - Mario Augusto Machado Pinto.

 

SE TE VI
Mario Augusto Machado Pinto.


O hotel é o SE TE VI, assim, pra gerar comentários. Bem antigo, em Pederneira, alemão de origem. A construção tem o conforto atual que amamos usufruir. Cada hóspede é tratado como se fora cortesão de um reino ali instalado. Vimos, aqui há muitos anos.

Edificado em local privilegiado, permite o melhor visual proporcionado por paisagens  deslumbrantes de cores como que jorrando de cornucópias em todas as direções. O pôr-do-sol nas montanhas é digno de um Matisse. À noite, a lua cheia brilha iluminando o caminho do ET à procura do São Jorge lutando com o dragão. É diferente. Ótimo! Relaxante.

Mal chegamos e já estou no bar com meus cunhados, sempre alegres, cantando, contando piadas e rindo. Eles são uns gozadores de marca. É a turma do SER VENTRE SEMPRE LIVRE. Eu policio as brincadeiras recheadas com humor nada conservador, mas não agressivo, porém rico e generoso que a todos conquista. 

Sem nada a fazer, estamos jogando conversa fora, inventando coisas e provocando o pessoal.

Lorico quis saber do recepcionista Jacinto Leite quem fundou o hotel. Só podia ser ele, o fuxiqueiro da turma, a perguntar isso.  Não tendo resposta, procurou outro possível informante.

-Vem cá Brito. Quem foi?

- Foi o Bona. Parte dele e uma parcela do Le, o Pardo.

- Pardo?

- É que ele era moreno.

- Tá. Obrigado

Depois de batidas e trombadas a conversa segue mais jocosa.

Notamos a falta do Armando “Boa Pinta”, o gozador mór.

- O Capitão, sumiu?

- Tá fazendo suco de pitanga.

- E o Porcão, donde tá?

- Tá no quarto traseiro,   informou o Barbosa.

- Fazendo o quê?

- Arrumando e servindo o Muu, respondeu rindo.

- O Muu? Servindo o quê?

- O Porcão tá servindo o Muu que faz ceninha, pois além de ter comido um frango, tinha um pato e um ganso de reserva.

- Barbaridade! O MUU vai comer tudo isso?

- Já comeu. Foi petisco! respondeu gargalhando.


Concordamos:  Impagável.


AMOR BESTA - Oswaldo Lopes



AMOR BESTA
Oswaldo Lopes

        Arredio. Circunspeto. Ensimesmado. Fechado. Introspectivo. Enfim um homem que, embora de feições simpáticas, se comunicava mal, muito mal!

        Ela uma moça jovem. Bonita! Charmosa! Alegre! Exuberante! Enfim, uma mulher com toda graça que a mulher pode ter, e tem.

        Ele passava e ela na janela. Que estará ela pensando? Me viu passar? Notou que existo? Preciso falar com ela, mas não consigo.

        Aquilo parecia não ter fim. Pelo menos para ele que continuava arredio, fechado, cara amarrada. Ela era jovem e tinha outros interesses, por exemplo, o novo e jovem juiz da cidade, galante, simpático e falador.

        Não deu outra! Namorou o juiz e noivou. Uma bonita festa de noivado. A cidade toda estava lá, inclusive o arredio.

        Só que ele carregava um 38 cano curto (desses que a gente em filme noir) e foi direto ao assunto:

        Aproximou-se do casal e disparou a queima-roupa, matando os dois!


1º de Abril - Dulce Azevedo


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1º de Abril
Dulce Azevedo

Gostaria que esse dia nunca tivesse existido.

         1º de Abril, dia da mentira!

          Foi neste dia que descobri que estava apaixonado. É! Um simples encontro de olhares entre eu e uma linda jovem fez com que eu planejasse a nossa vida conjugal. Sonho, grande sonho.

Ao encontrar novamente os jovens olhos senti o total desconforto dela. Nossa! Como pude ser tão ingênuo com essa situação cotidiana...


          Nada como dormir e acordar em outro dia, neste caso 2 de abril, para descobrir que o amor é um sentimento recíproco e não unilateral.

O VELHO E O CÉU - Carlos Cedano




O VELHO E O CÉU
Carlos Cedano

O cair da tarde era o melhor momento do dia para o velho Martin. Deitado na relva esperava que a noite o cobrisse como um manto delicado. Olhava o céu e as estrelas que lhe sorriam e o alegravam como velhas conhecidas.

Recentemente tinha descoberto o encanto de olhar para elas. Quanto tempo perdido! Pensou. Falava com a lua também sobre historias que só com ela compartia.


O velho homem adormeceu, seus olhos se fecharam como se apagam as luzes das estrelas quando chega o dia. Morreu com o rosto sereno e sorridente como o primeiro sorriso de um recém-nascido!

MÃOS ao ALTO! - Dulce Azevedo


MÃOS ao ALTO!
Dulce Azevedo

             Li um artigo no jornal que comentava sobre uma foto jornalística postada por um fotógrafo turco. Nesta foto uma criança síria estava com as mãos acima da cabeça.

Esta  fotografia foi amplamente divulgada e discutida recebendo diversos títulos. Me ajudem”,  “Ela foi rendida. Apenas uma criança, e muitos outros”.

Através dessa imagem fotográfica diversas interpretações foram feitas em várias partes do mundo dando maior ênfase na emoção de acordo com o estado de espirito do repórter.
             
Na verdade, a foto foi tirada em um campo de refugiados sírios com uma teleobjetiva (máquina fotográfica de grande alcance e boa resolução), que tem uma lente comprida. A criança vendo aquela lente levantou as mãos em sinal de rendição.


Um simples gesto que muda o contexto  da imagem...

EMOÇÃO - Jeremias Moreira


EMOÇÃO
Jeremias Moreira

Em Serrinha do Alambari, vilarejo próximo a Visconde de Mauá,  criou-se uma escola noturna de alfabetização de adultos. Pessoas com quarenta e tantos anos, e até alguns com mais de setenta, com sede de aprender. Falar sobre as aulas virou assunto do dia a dia,  e até fizeram disso motivo de brincadeiras uns com os outros.

Ataíde  com cinquenta e três, desde que perdeu a mulher, há três anos, tem levado  vida de eremita no sítio onde mora. Viu nesse curso uma forma de espantar a solidão.  

Nesse povoado, cinema, teatro, biblioteca, são coisas que só conhecem de ouvir falar. A professora Elaine, que é extremamente dedicada e motivadora, ao saber que ninguém ali nunca tinha ido a um cinema, pediu à prefeitura um ônibus para levá-los até a cidade de Resende, o cinema mais próximo.  O filme escolhido, numa votação, foi "O Menino da Porteira". Assistiram ao filme como crianças maravilhadas naquele ambiente mágico que só o cinema consegue. Era o primeiro filme que assistiam na vida. Alguns deles são violeiros e as músicas do filme viraram repertório das rodas de viola. E o filme, por muito tempo, fez parte das conversas daquela gente. Ataíde ficou impressionado com o realismo da cena em que o menino, personagem título da história, é morto por um “boi sem coração”. Trouxe-lhe lembranças da Rita, sua mulher.


No dia seguinte, ainda sentia-se comovido. Foi para a roça, mas não conseguiu se concentrar no trabalho. Deitou-se na relva, teve um acesso de choro e depois adormeceu. Sonhou com um universo festivo, onde os astros se perfilavam para receber o menino do filme, que subia ao céu amparado por sua amada Rita.   


PORQUE OU POR QUE?







Como devo escrever o "porque" na pergunta?





Se é pergunta: SEPARE.
Se é resposta, JUNTE.

UM CLÁSSICO! - Suzana da Cunha Lima


UM CLÁSSICO!
Suzana da Cunha Lima

Encontrei-o no bar bebericando seu Campari, um ar beatífico, sorrindo para si mesmo.

-Vida boa, hein?    Desconfio que tem novidade no pedaço.

Ele esboçou um riso e mandou-me sentar, aquela aura de felicidade em volta.
- Tem razão, é  grande novidade e das boas. Daquelas que  não se encontram aí, a três por dois.

- Muito bem, vamos ver quanto tempo vai durar. Está me lembrando daquela francesinha. E a idade?  20, 30,  50 anos ou o quê?

- A francesinha foi uma paixonite de verão, não tem nada a ver -  tomou um gole devagar, saboreando cada gota- – Não é novinha,  mas não quer dizer que seja  velha nem decrépita, pelo amor de Deus! Classuda, isso sim!  - suspirou – Pernas torneadas, rijas, dessas que não caem por qualquer coisa.  E que cor! Bronze, amigo, desses que não se vê mais.

- Você diz bronzeada de sol?

- Nada disso, nem por bronzeamento artificial. Cor dela mesmo. Com nuances sutis, que só um “expert” como eu para descobrir. Ela é toda bem proporcionada, sabe? Braços meio gordinhos, como eu gosto, costas largas e o resto, bem, tudo no seu lugar e na medida certa. Muito bem conservada, nada que demonstre sua idade, absurdamente natural - virou-se para mim, enlevado.
 - É o sonho de consumo de qualquer marido: chegar em casa  cansado e  encontrá-la  esperando-o, linda e acolhedora, sem nada a pedir ou reclamar.
- É difícil  mesmo encontrar algo assim hoje, natural e belo,  sem um pingo de silicone ou outros enchimentos -  retruquei  meio incrédulo. -  A gente acaba ficando sem referências de como era antes... – rimos - Parece que desta vez você está mesmo apaixonado – falei com um pouquinho de inveja. – Mesmo tendo um coração nômade como o seu, eu lhe pergunto; Vai ficar com essa para sempre?
- O tempo que for possível, amigo.  Mas sou realista, sei que vai ter muita gente de olho, gente com mais cacife que eu,  que vai querê-la a qualquer custo - suspirou - não é para um dono só, sei bem disso, pelo menos não é para mim, que, como qualquer mortal, tenho que pagar minhas contas e viver.
- Bom, e quando posso ver esta maravilha? Está escondida em algum lugar secreto? Perguntei bastante curioso.

- Quase, por enquanto eu quero usufruir dela o que puder. – levantou-se e me chamou -  Brincadeira, vamos lá em casa que eu a apresento.  Depois tomamos um cafezinho e você me diz sua impressão.

Entramos na casa dele, sempre atulhada de móveis e quadros.  A luz da tarde se insinuava pelo lindo vitraux da janela e a sala tinha aquela aparência de solidez que as coisas antigas nos despertam. Sente-se o  acuro e beleza com que foram feitas e como chegaram íntegras até nós, mesmo com o passar dos anos. 

- Bom, onde anda sua preciosidade? Está se enfeitando para me conhecer? Brinquei.

- Mas que enfeite que nada, ela é maravilhosa assim mesmo ao natural. Veja, está ali.

- Ali aonde? Perguntei intrigado.

-  Puxa, não sabe distinguir uma obra de arte quando a vê? Eu lhe apresento essa esplêndida poltrona Bergère, legítimo século 18, uma raridade. 

E ante meu estupor, começou a descrever a peça que eu via à minha frente:

- Você sabe que a primeira poltrona, foi feita para algum faraó do Egito.  Mas essa aí, do jeito que está, surgiu no período Luiz XV, chamada cadeira Fauteuil.  Característica importante da Bergère é ser ampla e confortável, utilizada principalmente para leituras. É uma peça nobre, que frequentou alcovas e palácios.  Sorriu para mim, completamente enlevado:

- Um clássico!

ESCOLHA CERTA - Dulce Azevedo




ESCOLHA CERTA
Dulce Azevedo

      Era um domingo maravilhoso, cheio de sol e cores para todos os lados!

Desperto, de repente quando um desses fachos de luz bateu em em meus olhos.

Foi um susto! Mas logo me aprontei para ser a melhor escolha da loja!

Ao meu lado existiam Lírios, Bromélias, Copos de Leite, mas nada chamava mais atenção  que o meu vermelho vibrante e o perfume marcante. Sim, eu era a "Rosa Uruguaia"!  


E, conquistei rapidamente um jovem e apaixonado casal. Eles se beijavam carinhosamente e demonstravam grande harmonia. A sintonia era perfeita, se não fosse uma exuberante morena tropeçar em frente deles e despertar no rapaz o instinto de proteção, acolhendo-a em seu colo.  Pronto! Um simples gesto terminou com toda  minha expectativa de me divertir na delícia do domingo de sol...

O professor que surtou nas cordas! - Oswaldo Lopes



O professor que surtou nas cordas!
Oswaldo Lopes

Todo mundo na Universidade achava o Professor normal. Talvez um pouco esquisito, mas só isso. Afinal, com quase quarenta anos, ainda  era solteiro, pouco chegado a festas e quase sempre inventava desculpas esfarrapadas para não ir.

É, misógino era uma boa palavra, embora nem todos soubessem o significado.

Como isso poderia piorar? Pois é piorou.

Foi visto mais de uma vez falando sozinho pelos corredores. Às vezes virava para a parede e ralhava com ela como se fosse um ser humano, embora ninguém conseguisse entender o que  dizia. Deu o que falar quando chutou uma grande cesta de lixo que por sorte estava vazia.

Como trabalhava com física teórica e esses tipos são sempre esquisitos, aquilo parecia apenas natural. Mas não era!

            Teve o caso da secretária do Departamento:

            - Professor sua correspondência chegou.

            - Que correspondência? Da Academia Sueca? Só a deles me interessa.
A coisa não evoluiu para “Está esperando o Prêmio Nobel” com um sorriso maroto, porque ela percebeu os olhos vermelhos dele e achou melhor ter cuidado com o próprio pescoço. Podia ser só um artigo científico, nem tudo na Academia Sueca era Prêmio Nobel.

Teve também a do aluno que em classe perguntou se em vez de oito cordas na teoria quântica não podiam ser nove.  

Podiam - respondeu o professor - serviriam para enforcar alunos IDIOTAS como você, ou para puxar burros que estão, certamente, no curso errado. Dito isso pediu ao aluno que saísse e fosse comer alfafa em outro lugar.

Bem, alunos assim sempre existiram e existirão, mas ele não era dado a esse tipo de reação. A famosa gota d’água veio com o pipoqueiro que sempre ficava no pátio. Tipo muito jeitoso que fazia sempre ali seu ponto de vendas. Caiu na besteira de falar ao professor a quem conhecia de longa data.

-E ai professor perdido em pensamentos? Que tal uma pipoquinha?

            Foi o bastante. Ele se aproximou do carrinho e sem dizer uma palavra, virou-o com a maior facilidade.

Não, não saiu na grande imprensa, mas o Jornal do Campus (feito pelos alunos da ECA) que não perdoou, deu de manchete:


            PROFESSOR SURTA NAS CORDAS!

SUSPENSE NO VOO DO PP-VDA DA “VARIG.” - Mario Augusto Machado Pinto.


SUSPENSE NO VOO DO PP-VDA DA “VARIG.”
Mario Augusto Machado Pinto

Na minha vida, que já é longa, sustos tive até de arrepiar os cabelos do pescoço. Verdade. Ao dizer dos argentinos, foram cozas del bandoneon.  Talvez, mas aconteceram.

Passei suspense mesmo três vezes: uma com 3 bandidos invadindo nossa casa e nos acordando, eu com a ponta do cano de uma pistola Mauser encostada na minha testa; duas, em aviões: um em viagem internacional, outro em viagem nacional.

Entrei na internet para assuntar o que aparecesse que me ajudasse a descrever o que poderia me causar suspense. Por exemplo: quais os pensamentos de um passageiro num voo como aquele apresentado na 1ª estória do filme argentino Relatos Selvagens.

Insistia na busca pela internet e encontrei então notícia que me provocou grande surpresa, um verdadeiro choque. Não é exagero, não; fiquei olhando a manchete da notícia e não acreditava! Ali estava a descrito o final do voo que em 15 de agosto de 1.957 me levou pela primeira vez aos EE.UU. Foi pela Varig que, lamentavelmente, teve encerradas suas atividades há alguns anos.
Começou assim: durante o curso de administração de empresas da “GV” nossa turma pediu à Diretoria que ao término preparasse um roteiro de visitas a empresas norte-americanas, tantos eram os exemplos que ouvíamos de seus espetaculares sucessos. Queríamos - todos - “conferir” o que nos diziam os mestres norte-americanos da Michigan State University (as aulas eram em inglês com tradutor para quem necessitasse). Seria viagem de dois meses e meio. Plano feito, estudado, debatido, concluído.  Bem, da turma só fomos quatro.

Tudo arranjado, lá fui eu a New York com o novíssimo G Super Constellation Intercontinental da VARIG. Que avião! Sua forma esguia lembrava o corpo de golfinhos. Pra mim, era lindo, o máximo. Seus quatro motores impunham respeito e segurança.

Já havia viajado anteriormente com outras empresas, mas me surpreendeu o que ví. Para dar uma ideia: a capacidade original no avião era para 99 passageiros, mas na configuração Varig era de 53; havia mais assentos na 1ªclasse (38) do que na turística (15). Havia uma saleta de observação da paisagem com 10 poltronas giratórias e guia. Os assentos eram distantes uns dos outros permitindo esticar plenamente as pernas no suporte retrátil. Eram quase espreguiçadeiras.

Era uma festa viajar nessas condições.

Os homens de terno e gravata o tempo todo. As mulheres, vestidos adequados, penteadas, maquiadas, sapatos de salto alto, cheirosas. Muitas delas usavam chapéu e luvas. Era um chiquê só. Dava gosto. Era o fino, como dizem hoje.
Ah, para nos comunicarmos, cada viajante recebia lista com os nomes dos passageiros. Era permitido fumar. Charuto e cachimbo, não.

O tratamento de bordo era um show de tão fantástico: não tinha competidor. Nenhuma companhia aérea mundial possuía a qualidade do serviço de bordo comparável ao da VARIG. Era espetacular.

Lembro muito bem: havia cardápio impresso; comida previamente escolhida servida em pratos de louça japonesa Noritake ou Meissen alemã; bandejas com toalhas e guardanapos de linho; copos de cristal para água e vinho; talheres de prata Christoffel; sobremesas feitas por patissier. Serviam champagne e vinhos estrangeiros; os aperitivos eram pessoalmente elaborados por barista uniformizado. Foi a 1ªvez que tomei vinho francês: lembro que foram o tinto Chateau Neuf du Pape e o champagne Veuve Clicquot Ponsardin. As garrafas ficavam à disposição do passageiro. A ser usada durante ou após o voo, cada passageiro recebia uma nécessaire com produtos estrangeiros Hermès, Caléche.

Era uma festa viajar nessas condições.

Os aperitivos, a comida e o calorzinho ambiental mais o ronronar dos motores faziam efeito: os passageiros logo dormiram menos o dégas aqui. Estava excitadíssimo, mas dormitei.  Lembro que acordei de sopetão, respiração ofegante. Estava na janela do lado esquerdo. Minha 1ª reação foi olhar pra asa e, assustado, vi que o motor número dois estava com a hélice embandeirada. Sabia que era ruim, o comandante buscaria aeroporto mais próximo para pouso de emergência? Daria tempo? E se...nem queria pensar, mas a ideia do pior veio e ficou. Depois de uns minutos chamei a aeromoça e indiquei o motor parado. Com o dedo fez sinal de silêncio, deu um sorriso amarelo e fechou a cortininha da janela.

O interessante, se assim posso dizer, é que meus companheiros nada perceberam. Nada comentei. Tranquilamente tomaram o café da manhã. Pra mim foi um esforço apesar da fartura e qualidade.

Tive medo do pior. Emocionado, assustado, tenso, transpirava em bicas. Não conseguia sustar o tremor nervoso que me dominava nesse terrível suspense até o pouso em Ciudad Trujillo. Pensei em que? Não me lembro.

Ali pousados a situação se acalmou: era escala prevista. Disseram a verdade: um dos motores apresentara defeito e o reparo seria demorado. O voo prosseguiria em outro equipamento. Não me lembro qual foi. Carros colocados à disposição, fizemos um tour pela cidade e pelas praias.

Permaneci tenso e calado o tempo todo.

Transcrevo “ipsis litteris” o relato da tripulação conforme exibido na internet:

“VARIG 1957 – Perder três motores na rota Rio – New York foi demais.
O PP-VDA, primeiro dos G Super Constellations da Varig, fazia um voo para Nova York quando aterrissou em Ciudad Trujillo na manhâ do dia 16 de agosto de 1.957, com o motor número 2 (motor interno do lado esquerdo) parado e com hélice embandeirada. O pouso ocorreu sem problemas, mas não havia motor reserva disponível. Os passageiros foram embarcados em outros voos, e o comandante resolveu fazer um traslado trimotor, para reparar o avião em Nova York, com uma escala em Miami, com peso reduzido e só com os tripulantes. Às 11:16 h, hora local, o avião decolou, com 3 motores (1, 3 e 4), para Miami, com 11 tripulantes a bordo. Cerca de 50 minutos depois, a hélice do motor nº 4 disparou. A tripulação não conseguiu sanar o defeito a tempo, e, com o esforço excessivo no eixo, a hélice acabou por se separar do motor, atingindo a hélice vizinha, a de nº 3. A tripulação foi obrigada a embandeirar o motor 3, e o único motor disponível era o nº 1, na ponta da asa esquerda. Com um motor só, a tripulação não conseguiu manter o avião voando, e acabou pousando no mar, paralelamente à costa, ao largo de Puerto Rico, República Dominicana, a apenas 500 metros da praia. O pouso foi bem sucedido, mas um comissário, que não sabia nadar, morreu afogado. O avião afundou, alguns minutos depois, em uma profundidade de 40 metros, e nunca mais foi resgatado, seus restos ainda estão lá, 50 anos depois.”

Após quase 58 anos e por mero acaso soube do final desse voo.

Não mais viajei com o modelo da Lockheed. Foram vendidos ao exterior e não se falou mais deles.

Em muitas outras ocasiões outros equipamentos nunca apresentaram defeito.

É de salientar:

1 - os profissionais da aviação consideravam não confiáveis os motores Curtiss Wrigth turbo e as hélices utilizadas nos G Super Constellations. Anteriormente a esse acidente já houvera outro ocasionado pelos mesmos motivos;
2 – tecnicamente qualificada, a alta direção da empresa devia ter conhecimento dos comentários atinentes dos defeitos apresentados pelos aparelhos e confiou na sorte;
3 – na ocasião do nosso retorno foi utilizado o mesmo equipamento e nós passageiros nada sabíamos a respeito do acidente acontecido;
4 – a agencia da Varig em Nova York evidentemente sabia dos acidentes e procedia como se coisa alguma jamais tivesse acontecido. Era sua obrigação.


Fica a pergunta: até onde o interesse corporativo público ou privado se sobrepõe ao dos usuários?

CRIME PERFEITO! - Carlos Cedano



CRIME PERFEITO!
Carlos Cedano

A reunião seria tensa! Presentes o Doutor Pena, Diretor Geral da Policia recentemente empossado no cargo, o Chefe Geral da Policia Científica, Doutor Saraiva, o Legista Doutor Ramos e o responsável da investigação, Delegado-Chefe Marcio e dois de seus assistentes.

— Como é possível Marcio? - perguntou o Doutor Pena  - Como é possível que nos quase onze anos de investigação, 05 mortes que têm como principal suspeita dona Cynthia Soares, não tenhamos nem provas ou motivos? E olha que são cinco maridos da mesma viúva!  Isso não é coincidência! Difícil de engolir!

— Pois é doutor Pena, revisamos todos os indícios e documentos existentes, entrevistamos novamente possíveis testemunhas e não conseguimos provas consistentes.

— Os testes forenses deram negativos, consideramos uma gama muito grande de narcóticos, venenos, alucinógenos, remédios e produtos químicos e nada, absolutamente nada! As próprias famílias realizaram por conta própria exames e testes e mesmo resultado, nada foi encontrado! reclamou o Doutor Saraiva.

— E as provas físicas e circunstanciais? Retrucou o Diretor Geral.

— Não houve traumatismos cranianos nem físicos. Dois maridos morreram no leito conjugal de infarto, outro de depressão profunda meses depois que foi internado. O quarto também foi infarto num hospital da Suíça onde tinha ido a fazer exames e o quinto suicidou-se durante um cruzeiro para o Caribe, a esposa estava ausente nessa viagem, resumiu o legista.

— E quanto à esposa, o que diz o inquérito?  Herdeira de 05 heranças. Isso chama a atenção da opinião pública e da imprensa. Como ela é chamada? Retrucou novamente o Diretor Geral!

— A feiticeira – respondeu Marcio – formosa mulher de rosto exótico que atrai a atenção de todos os homens, um perigo onde estiver! Quando casou pela primeira vez ela já era rica, herança de seu pai, um alemão que tinha sido casado com uma bela mulata.  Todos seus casamentos foram feitos em comunhão de bens, o cônjuge sobrevivente, neste caso a viúva, tomaria posse das fortunas.

— Algo mais a ser dito? Perguntou o Doutor Pena.

— Sim! - disse um dos assistentes – também investigamos uma senhora preta, guia espiritual de dona Cynthia, chamada Mãe Salomé. Muitos diziam ser sua avó e tinha fama de fazer despachos e enfeitiçar pessoas e tinha sido sua professora! Morava numa casa muito bem arrumada, mas além de algumas imagens do panteão ioruba e velas não achamos nada suspeito. Pouco tempo depois morreu!

— Muito bem senhores, como vocês sabem, as famílias das vitimas possuem muita influência nos meios políticos e agora estão unidas pressionando fortemente as “altas esferas”; eu pergunto aos senhores - disse o Diretor Geral - que vamos fazer daqui pra frente?

— Doutor Pena, analisamos duas alternativas para o inquérito: ou arquivamento ou auxilio de Mister Paul Jones, psiquiatra mundialmente conhecido por lidar com casos que envolvem “assuntos sobrenaturais”. É famoso por ter resolvido casos como o nosso.

— O Doutor Pena ponderou por um minuto a situação e disse: temos investido muito tempo e dinheiro – e logo disse – mas tomem as providências necessárias para trazer esse senhor!

O perito chegou e foi logo pedindo a documentação dos casos. Seu esforço principal concentrou-se nos laudos técnicos: cenas das mortes, exames médicos, exames toxicológicos, perfis psicológicos das vítimas e laudo psiquiátrico de dona Cynthia a quem interrogou exaustivamente.

O doutor Jones trabalhou duro com ajuda da equipe técnica local. Durante esse tempo não fez nenhum comentário, se pedia informações adicionais falava estritamente o necessário para obtê-las. Na última semana preparou a agenda para apresentação de suas conclusões.

No dia do informe a sala de reuniões se impregnou de uma atmosfera, misto de expectativa e ansiedade. O Diretor disse, dirigindo-se a Mr. Jones, a palavra está com o senhor.

Ele disse curto e grosso:
Trata-se sim, de cinco assassinatos! A arma utilizada em todos eles é bastante conhecida e antiga: a palavra! Porem é uma palavra que fala diretamente ao inconsciente da vítima visando seus medos, conflitos e fraquezas!

Quando comparamos as vitimas vimos que tinham em comum, riqueza e conforto, sem desafios, sem perspectivas próprias e uma imensa falta de vontade de lutar por algo. Esse tipo de personalidade é facilmente manipulável, particularmente nas garras de Cynthia Soares, mistura de brilhantismo satânico e beleza, que fazia de suas vítimas marionetes, através de rumores, fofocas ou de palavras ditas ao ouvido no êxtase de uma alcova!

Vocês já perceberam que se trata de um crime difícil de ser provado. Não há provas circunstanciais e pior ainda, não temos provas materiais, nem testemunhos presenciais. No mundo racional que vivemos a lei não deixa espaço para crenças sobrenaturais ou argumentos fantasiosos. Não achei nenhuma brecha! Sinto muito meus senhores! Crime perfeito.


Silencio geral entre os presentes que foram retirando-se lentamente com a decepção marcada nos seus rostos.

UMA ROSA É SÓ UMA ROSA? - Oswaldo Lopes


UMA ROSA É SÓ UMA ROSA?
Oswaldo Lopes

As rosas são parceiras constantes dos homens e das mulheres. As latino-americanas são muito famosas. As colombianas são grandes, bonitas, mas não têm perfume. As uruguaias, pelo contrário, são recatadas, mas perfumosas.

E é de uma dessas que estamos falando. Ela estava olhando o casal e pensando no casal que a contemplando, perguntava que nome teria.

Podia ser outro? - pensava a rosa.  Uma rosa com outro nome teria o mesmo perfume que aquela uruguaia? Sim é claro ensimesmou a rosa uruguaia, lembrando de Romeu e Julieta, do seu amor intenso e do seu triste fim.

Bem, o fim foi meio triste, mas não por culpa de um Mercúrio qualquer, mas de uma morena de tez escura, que passando por acaso, atraiu a atenção do rapaz, colocando a escanteio a pálida Julieta.


É verdade, uma rosa contemplativa, numa vitrine de floricultura, vê muito mais que os figurantes que a contemplam. Observa, mesmo sendo observada, e faz suas conjeturas, desvenda mistérios que outros e outras não enxergam nem entendem.

Espelho , espelho meu.... - Flávia Smith


Espelho , espelho meu....
Flávia Smith

Certamente todos vocês já se depararam com os mais diversos tipos de espelhos:  ovais num banheiro de estrada, bisotados num restaurante elegante, minimalista numa discoteca descontraída, infinitamente horizontais em toilettes de clubes,  e assim vão desfilando formas, tamanhos , molduras, estilos, mas todos com a missão de refletir a imagem de quem  por eles passa.

Um dia, fiquei  observando,  enquanto lavava as mãos num dos tantos “reservados femininos”, a disputa insana frente a este acessório indispensável para o universo das “damas”: rechonchudas, anoréxicas, esguias , atarracadas, desengonçadas, graciosas,  umas  fazendo  bocas, outras levando o cabelo de cá para lá, espichando o corpo, a blusa, a saia,  para projetar uma imagem mais esbelta,  mas todas querendo se sentir belas.

Comecei a fantasiar,  e vi o espelho se retorcendo e rindo sorrateiramente, como se fosse aquele espelho côncavo e convexo dos parques de diversões distorcendo as figuras refletidas,  e repentinamente os olhos   fascinados  esbugalharam-se medindo em pânico a silhueta, frente trás, verso novamente verso, trás , frente e o espelho  achando muita graça desta sua nova  rotina  ponderava que sim a vaidade é algo inerente ao ser humano e desejável, mas  que estava cansado de sentir que ela ia dia a dia  superando a própria pessoa.


Sequei as mãos, dei uma piscadinha para o espelho e sai... Mas, não sem antes dar uma rápida e boa olhadela no meu reflexo!

Explicando a Catacrese - Maria Amélia Favale




Explicando a Catacrese
Maria Amélia Favale

No fim da tarde fui pegar minha filha na escola. Ela tem sete anos e está no primeiro. Sempre voltamos para casa andando e conversando. Pergunto como foi seu dia, como foram as aulas.

De repente Sofia parou de andar, chamou minha atenção: Mãe, hoje a professora explicou algumas expressões e tem um nome esquisito: Catacrese!

Disse que o livro tem orelhas, que a boca tem céu, a cabeça de alho tem dentes e outras que não me lembro. O pior foi dizer que a noite tem boca. Mãe, vamos andar depressa se não a noite vai nos comer.

Minha filha fez-me dar muita risada. Não conseguia parar de rir.

Calmamente expliquei que são expressões em termos figurados, que por falta de outro nome para explicar, chama-se catacrese. Por exemplo: pé de cadeira.

Sofia ficou pensativa, tentou entender. Então catacrese é isso? Tudo foi inventado? A boca da noite não vai nos engolir?

Pareceu que Sofia ficou decepcionada, além de confusa. Foi como se tivesse que abandonar um mundo magico, interessante e voltar para a realidade.

 Moral da história- a infância é a melhor idade.  

Sonhos não se compram - Flávia Smith


Sonhos não se compram
Flávia Smith

Numa pequena cidade do interior, daquelas que quando passa um forasteiro os habitantes transbordam de curiosidade. Era um daqueles tantos domingos que transcorrem lentamente, quando aparece um “vendedor de sonhos”.

Dona Raimunda, honesta mulher, mas  a mais abelhuda e bisbilhoteira do povoado, logo percebe o estranho indivíduo e aproxima-se dele:

-  Bom dia senhor! Veio por conta do quê neste vilarejo parado feito água estagnada?

-  Vim realizar sonhos, para trazer vida, a este marasmo que vejo por aqui!
- Ah! E como?

- Simples, diga qual é o seu desejo, e preparo um elixir.

Dona Raimunda - mulher honesta, mas abelhuda e bisbilhoteira -  querendo ser a primeira de todos e com exclusividade a receber tamanha maravilha leva-o até sua casa.

- Senhor, diz ela -  quero encher todos meus bolsos de dinheiro. E rápido!

Ele abre sua maleta, tira dela algumas ervas, faz um xarope pede para Dona Raimunda se acomodar na cadeira de puída  balanço,  dá-lhe a poção para beber, e a hipnotiza.

Em poucos minutos ela já entorpecida sai calmamente pela porta de casa, aproveitando a hora da missa, entra nas casas vazias: abre gavetas, rouba nas latas enferrujadas dinheiro, moedas,  os poucos objetos de valor.  Sorrateiramente, vai de uma casa à outra, sente-se feliz, canta, dá risadas descontroladas, os poucos passantes cumprimentam-na, mas ela segue indiferente seu caminho.

Chegando em sua casa, com os bolsos abarrotados de bens saqueados, e ainda inconsciente entrega tudo ao “vendedor de sonhos” que ansioso a esperava com a maleta aberta,  e que  a encheu num pestanejar, partindo a galope, rasgando o vento.

Dia seguinte manchete no diminuto jornal da cidade: “enquanto o povo rezava, após um sermão que falava em gratuidade e doação, fatos estranhos ocorreram na nossa cidade, o diabo deve ter se aproveitado do sentimento de benevolência dos fiéis e recolhido a sua própria “esmola”,   e pior é que Dona Raimunda, a famigerada  “zeladora” do povoado, tornou-se silenciosa e recatada”


Mas... Conforme palavras do “vendedor de sonhos” a apatia do lugar é substituída por um grande alvoroço e união à procura de uma aclaração!