COMEÇOU NOVA TURMA DO ESCREVIVER !

GENTE NOVA CHEGANDO


Nesta semana iniciamos nova turma com presenças adoráveis. Um grupo que já chegou contando histórias!

Foram recebidas por Vera Lambiasi, Luisa Helena Rodrigues Alves e Mario Tibiriçá.

Os alunos novos ainda são apenas 3, mas em breve seremos muitos!

FERNANDA MARIA VAZ DE LIMA CODORNIZ
MARIA AMELIA B. FAVALE
LAERCIO BENETTI
OSWALDO LOPES

Vamos criar muitas histórias juntos!

Sejam benvindos à Oficina de textos EscreViver!

SAMIR - Vera Lambiasi

 

SAMIR                                                 
Vera Lambiasi


Samir, brasileiro, 40 anos, bancário, bem-apessoado, conseguira, afinal, suas inalcançáveis férias.

Decidira, de antemão, ir ao Nepal, e para tal empreitada, dispensou esposa e filhos.

—    Vocês não caminham nada, que fiquem em casa. Resmungou, sem contestação.
Sujeito grosseiro, causou certo alívio na família, partindo solitário.

Seu pai é assim mesmo, explicava dona Graça aos rebentos, quando cisma de fazer loucuras, não há quem o demova da ideia de jerico.

Já de folga, abandonou o terno, deixou a barba por fazer uma semana, e embarcou rumo ao Everest.

Classe turística apertada, amaldiçoou vinte anos de trabalho e miséria.

Fedido, maltrapilho, na escala em Doha, foi interpelado por dois oficiais de aeroporto.

Levaram-no à uma sala abafada, onde Samir tirou da desbotada sacola seu passaporte.

Policiais vasculharam sua minguada bagagem, xerocaram seus documentos, e fizeram perguntas em um inglês que ele deveria ter estudado.

Horas passadas com fome, num cubículo fervente, vagava por indecisões.

Decidiu continuar. Alimentou-se, tomou um banho, e vestiu roupas limpas.

Bem disposto, olhando-se no espelho, constatou que a barba o fizera terrorista. E raspou-a.

Em Kathmandu, comprou uma nova mochila, mais apropriada ao trekking que pretendia fazer. E encontrou o grupo da expedição. Eram profissionais de escaladas, e Samir sentiu-se envergonhado. Sua academia de fim de tarde não lhe garantiria o preparo físico necessário. Suas roupas e botas eram grotescas.

Minha mulher tinha razão, pirei com esta viagem. Admitia, acabrunhado.

Levado às compras pelos novos colegas de exercícios, estourou o cartão de crédito.

—    A Patroa vai me matar! Gargalhava da inexperiência.

Samir foi se tornando humilde diante do desafio da subida. Respeitava a todos, homens, mulheres e os jovens. Sabia que poderia precisar deles para sobreviver.

A montanha muito o ensinou, sua falta de educação não seria perdoada. Colaboração era a palavra de ordem.

Suas pernas aguentaram, foram ficando firmes durante a caminhada.

Seu coração duro, amaciando, tamanha belezura da natureza e a amizade dos companheiros. O ar não lhe faltou.

Chegou ao Base Camp inebriado pela paisagem do Everest. Rezou em Tengboche, meditou no Monkey Temple, e recebeu uma benção no Mosteiro de Boudhanath.

Para embarcar de volta, caprichou no visual. Mais uma estocada no cartão quase falido. Calça caqui, mocassins, blazer escuro, banho e barba. Nunca mais seria confundido com um terrorista.

Ganhou um upgrade. Classe executiva.

—    Not bad! Arranhava Samir.

Chorou despudoradamente ao abraçar Graça e os meninos, na chegada.
Rudeza, egoísmo e desleixo, foram deixados pelo caminho.


Impulso Charmoso - José Vicente Jardim de Camargo


Impulso Charmoso
José Vicente Jardim de Camargo


Ele está aborrecido! Já lhe tinha dito varias vezes para se conter com aquele ato irresponsável.

Nada adiantou! Novamente ela se deixa levar pelo impulso, entra numa loja e compra meia dúzia de pares de sapatos.

Sim! Eu sei, você já me disse que são de modelos e cores diferentes. Não é isso que me incomoda, mas sua falta de vontade em se conter:

- Você quebrou sua promessa que me fez!

Ela argumenta que sapatos são o motivo de sua existência. Que ele não deve vê-los como objetos de uso, mas sim algo de si mesma.

- Se são partes integrantes de você e para que não fique mudando de  personalidade quando os usar, sugiro que os doe para uma instituição de caridade.

Ela pensativa reponde:

- Bem, concordo, mas com uma condição!

-Que eu possa repor o estoque e pedir emprestado de vez enquando...


Gal Costa - Meu Bem, Meu Mal - CONOTAÇÃO



A composição Meu bem, meu mal - de Caetano Veloso está toda escrita com CONOTAÇÃO.


Meu Bem, Meu Mal
Caetano Veloso


Você é meu caminho
Meu vinho, meu vício
Desde o início estava você
               
Meu bálsamo benigno
Meu signo, meu guru
Porto seguro onde eu vou ter

Meu mar e minha mãe
Meu medo e meu champanhe
Visão do espaço sideral

Onde o que eu sou se afoga
Meu fumo e minha ioga
Você é minha droga
Paixão e carnaval

Meu zen, meu bem, meu mal


Dia dos pais - Luisa Helena Rodrigues Alves


Dia dos Pais
Luisa Helena Rodrigues Alves

        Com a modernidade, a tarefa paterna passou a ser maior. Trocar fraldas, dar a mamadeira, embalar o sono das crianças. Tudo o que só era tarefa feminina de estende até eles.

        Trabalho fora de casa partilhado, tarefa doméstica também partilhada. E com isso, a humanidade se enriquece.

        Os pais adquirem maior sensibilidade e capacidade para demonstrar seu afeto. Afeto que sempre sentiram, mas que muito dificilmente podiam demonstrar.
        Dá gosto ver essa geração mais nova cuidando dos filhos. A alegria se estampa nos rostinhos sorridentes das crianças.

        Aquele pai severo que só educava e dava ordens está em extinção. Lógico que regras e limites também têm que ser dados, mas elogios e carinho não podem faltar. 

        Assim, creio poderá ser criada uma nova geração de seres humanos melhores, mais sensíveis, mais fortes, mais carinhosos e, por isso mesmo, mais humanos.


        “Gentileza gera gentileza”. E vivam os novos pais e seu dia merecido!

Voando para Berlim em 1989 - Oswaldo Romano



Voando para Berlim em 1989
Oswaldo Romano                                                              
       
 Corria o ano de 1.989.

        O avião era um Tupolev, vôo comercial, famoso de fabricação Russa. Éramos três casais, orgulhosos passageiros da famosa viagem. Passava pela nossa mente o esforço Americano na fantástica ponte aérea enfrentada para abastecer sua parte de Berlim ocidental no fim do conflito.

        Estava feliz por mais essa aventura quando senti começo de pressão no ouvido. Lembrei de que certa vez um médico “muito amigo” tenista, o lancetou. Alegava resolver um zunido que me incomodava. A partir de então passei a sentir mais desse lado o horror da despressurização de avião.  Em segundos, encolhia-me de dor.

        Eis senão quando, justo no momento que serviam os lanches, entra uma inesperada turbulência, e eu com o ouvido que mal resistia, tive que controlar a dor e o tremor. Um comissário que portava bandejas sobrepostas não conseguiu manter o equilíbrio e as soltou por todos os lados. As nossas, há pouco servidas, foram atiradas pelo chão. O Chico nosso companheiro que sentava à nossa frente com a esposa, soltou a sua bandeja, caindo sobre nós. Ele penava há muito com um permanente cacoete. Eu pálido de medo olhando-o, vi que pulava no assento, balançava muito a cabeça, pondo-me confuso o que era e o que não era normal.
Na terrível queda em vácuo da aeronave, eu seguro pelo resistente cinto, assustei quando vi aquele comissário flutuando, quase grudado no teto,  descontrolado.    
Foi o pior que vi.

A nave mal se estabilizava, e pude ver o Coelho pouco a frente, ao lado da Zica sua mulher,  não sei como, ele já estava em pé. Ele tremia como vara verde e estranhei porque ria de chorar. Ao cruzar nossos olhos apontava para o chão do corredor. Era uma sujeira só. Mostrava apontando o dedo e levantando as sobrancelhas, algo, alguns metros atrás.

        Olhei. Também não me contive.

        No chão estava o comissário escarrapachado, mal sentado, esperava passar o susto. Ou talvez não pudesse se levantar.

        Felizmente o Putolev muito atrasado, chegou ao seu destino – Berlim,  e seu trágico muro. Também, não lembro a que horas meu ouvido se normalizou.

        O povo descontava no que sobrava do muro. Alguns ajoelhados agradeciam, outros o chutavam. Foi quando aceitei a marreta que me ofereceram.

        Dois dias depois, para levantar a mala, senti o braço. Doía, mas não dava para esquecer a marreta.

O presente - Luisa Helena Rodrigues Alves




O presente
Luisa Helena Rodrigues Alves

        Eram horas de entardecer, não sei se cinco ou seis. Desci para ver o jardim. Estava florido e perfumado.

        O sol se pondo no horizonte fazia colorir o céu de um rosáceo bem forte, parecia pintado por giz de cera.

        Uma paz profunda invadia toda a Natureza. Havia harmonia em tudo.

        É um breve momento de “epifania” como diria Clarice Lispector.

        Momentos onde sentimos que saímos do nosso “eu” e fazemos uma comunhão com algo maior, o próprio Cosmo, interagindo com tanto equilíbrio e ritmo.

        Sai o sol, entra a Lua e as estrelas, o vento sopra suave e, lentamente, o manto noturno cai sobre a cidade.


        Feliz quem sabe olhar e ver o encanto que nos é oferecido. Por que brigar e guerrear se a Natureza é de todos? Assim, ao mesmo tempo que sinto paz e amor, me vem profunda tristeza: o ser humano, o mais alto elemento da Natureza, não consegue respeitar essa perfeição e o milagre diuturno que a Natureza nos dá.

O VOO TOQUE DE MIDAS - M.luiza de C.Malina



O VOO TOQUE DE MIDAS
M.luiza de C.Malina

A mudança nas delicadas e elegantes feições dos passageiros da primeira classe, misturava-se ao incessante toque nos botões cravados na angustia pelo auxílio da salvadora Comissária.  A finesse do sofrimento, assemelhava-se a uma sala de velório, acompanhada do sonido de um réquiem elaborado em agudas notas musicais, acompanhando os tons da aeronave, que, repentinamente subia e descia.

Na categoria do voo comercial, o descontrole da pressurização era percebido pelos mil bocejos do leão da MetroGoldwynMeyer e, no  mascar de chicletes. Os pobres botões de chamados à Comissária já haviam há tempos embaralhados e travados  no desespero dos viajantes que, os manuseavam ao toque de Midas que jamais chegaria.

Apertados no horror, não atentavam ao aviso de apertar cintos. Apenas a Comissária seguia ordens rígidas, grudada em sua minúscula poltrona, com os protetores de ouvidos sufocando a audição dos altos e baixos palavrões dos passageiros que se mesclavam aos que rezavam e outros ruídos provenientes da seção “estripa micos”. 

Puxavam o pequeno saco de emergência, que mais vomitava o material recebido do que ajudava o passageiro,  de bocas gigantescas recheadas de material amarelado, que não era ouro.

O caos instaurara-se.

O Voo Toque de Midas, nunca vira nada parecido. Deliciava-se surfando nas nuvens, entremeando cambalhotas para espiar o céu azul abaixo das nuvens e num raio voltava acima das mesmas. Foi um dia de tobogã.

Os pilotos gargalhavam, afinal era o Dia do Aviador.


A calma foi instaurada.     

A gente brasileira - Luisa Helena Rodrigues Alves



A gente Brasileira
Luisa Helena Rodrigues Alves

Era setembro. O tempo urgia, mas os rostos aparentavam cansaço e desânimo.

        Muitos partiriam, desistindo do sonho dourado. As mãos calejadas pelo insistente ofício de escavar eram as mesmas que diriam adeus na Primavera.

         Com o desastre provocado pela implantação do gaseoduto pela Petrobrás, o produto colhido pelas marisqueiras ficou prejudicado. Mariscos eram considerados venenosos pelo gosto de gás.

        Dona Raimunda, Mundinha para os próximos, estava muito triste. Como sustentava a casa e os filhos,  colhia os mariscos como sua mãe lhe ensinara, fazia pratos deliciosos e, junto com o marido,  vendia num pequeno bar que construíra. Ele se encarregava da pesca  e das bebidas. As filhas mais velhas ajudavam no cozimento dos pratos e serviam as mesas.

        Era uma vida simples, mas feliz.

        Moravam numa casinha na praia e não passavam necessidades, mas agora...

        Mundinha pensou bem, empregou-se na casa dos turistas ricos, fazendo faxina e cozinhando até as coisas melhorarem.

        Devota de Nossa Senhora ou Iemanjá, herança da crença religiosa dos seus bisavós africanos, não perdia a esperança: dias melhores virão...

        Juntou-se com duas três amigas, comadres e vizinhas desde a infância, e procuraram o advogado local. Entraram com um pedido de indenização, mas o resultado disso levaria tempo.

        A vida segue, pensava ela enquanto trabalhava na casa de Dona Mirtes. Casa de temporada de burgueses de Salvador, com piscina, móveis caros, roupas finas e joias raras. Lá tratavam bem Mundinha, mas não era a sua casa, sua cama, seu fogão a lenha.

        Ela esperou um ano e mais um, até que chegou a notícia: a indenização foi liberada e formariam um núcleo cooperativo com o dinheiro.

        Com esse dinheiro foram feitos cursos de aperfeiçoamento dos pratos e da forma de administrar o restaurante. Mundinha estava feliz e outra vez cantava pela casa, e acendia velas para agradecer à santa.

        O núcleo das mariscadeiras começou desse evento: faziam farinha, feijoada de marisco, moqueca de baiacu, sardinha frita, caruru, e todas especiarias que encontramos  até hoje em torno da Baia de Todos os Santos em Salvador.


        Nada como preservar nossas origens africanas e indígenas. Esse pessoal mantém nossa cultura miscigenada e fraterna, compondo a brava “gente brasileira”.

A viagem aérea inesquecível - Fernando Braga



A viagem aérea inesquecível
Fernando Braga

Uma das viagens que fizemos há trinta anos, tornou-se realmente inesquecível, não pela beleza dos lugares visitados.

Fomos conhecer Aruba e Curaçao, nas costas da Venezuela e na volta paramos em Manaus, onde ficamos por três dias. Às 11 horas da noite embarcamos rumo a São Paulo,  após uma hora de viagem ainda estávamos sobrevoando a nossa floresta amazônica. Neste momento, nos foi avisado pelo piloto e logo em seguida, pela aeromoça, que iríamos atravessar uma turbulência por uns vinte minutos, e que devíamos apertar os cintos e permanecermos sentados, evitando mesmo a ida ao banheiro. Ao nosso lado estava  um casal obeso, certamente alemães pelo aspecto físico e fala, cujo marido se apresentava com a cara cheia de bebida, muito alegre, falava alto, cantava músicas da Bavária,  como se estivesse aproveitando muito sua viagem pelo Brasil. Logo, os movimentos do avião se intensificaram. Chacoalhava muito,  percebia-se que estávamos entrando em uma tempestade forte, com clarões de raios, e a luz do avião apagando e acendendo.

O piloto anunciou também, com grande tranquilidade que naquele momento estávamos atravessando a floresta, ainda no estado do Amazonas Parecia gozação!! Mas, em seguida, o fato é que a turbulência atingiu um ponto máximo, o avião caindo subitamente uma grande altura, subindo em seguida e jogando muito dos lados. Se não estivéssemos amarrados no assento, certamente bateríamos a cabeça no teto. As portas de três, quatro bagageiros, próximos ao teto, se abriram e muitas maletas e pacotes se precipitaram ao chão, após baterem em muitos passageiros. A situação tornou-se muito complicada, todos se seguravam, gritavam e já imaginavam a queda do avião, amparado pelas grandes arvores de nossas matas, e talvez enfrentassem lá embaixo, cobras e lagartos, caso houvesse sobrevida.  

O casal de alemães estava muito agitado, se seguravam, gritavam, tocavam a campainha, O alemão havia vomitado  na roupa, estava todo molhado e sujo. Mas, ninguém se levantava para ajudar. Eles pediam socorro, e davam grandes gargalhadas ao mesmo tempo. Certamente de medo.  Eu e minha mulher, não entendíamos mais nada, nos grudávamos, nos beijávamos, como estivéssemos nos nossos últimos momentos. Não tínhamos escolha. Era torcer para não cair e rezar para Santa Bárbara, para que os raios cessassem. Passava toda vida em nossas mentes, nossos quatro filhos, órfãos, sem os pais. Meu Deus, o que será!
Para todos nós, a sensação era de que a turbulência estava durando duas horas. Mas, quando passou, realmente apenas quinze minutos havia decorrido. O sofrimento sempre dura muito mais que o real.

Minha mulher garantiu que nunca mais andaria de avião, mas após um ano lá estávamos novamente voando.

Turbulência é turbulência, e nos enfrentamos. Nóis é macho!


ADELAIDE - M.Luiza de C.Malina


ADELAIDE
M.Luiza de C.Malina

Já não era sem tempo! Adelaide deveria entrar em contato com a família. Isto a encarcerava à angustia do viver em contraste às lembranças da pequena cidade interiorana.

Os dias voam em direção das tarefas inacabadas. Enumera-as no compasso dos passos, sem perceber o trânsito a sua volta, as cotoveladas, e os ensurdecedores pedidos de desculpa dos transeuntes.

Não caminha. Não voa. Levita em seus compromissos. O forte som de uma buzina a estancou.

Estarrecida julga-se incapaz de aceitar o que os olhos lhe apontam. Um atropelamento! O atropelamento das ideias a conduz à realidade  que esmaga  sua própria vida, pela decisão precipitada de um casamento desfeito.


Sem retroceder os passos do caminho da vida, passa pelos dias aclarando-os em devaneios compassados para não sentir as cotoveladas da vida!

Jesus e o mendigo - Oswaldo Romano



Jesus e o mendigo
Oswaldo Romano

Zé era um mendigo que todos os dias ao meio dia, ia à igreja. Ajoelhava-se aos pés do altar por um momento, e ia embora.

O Padre começou a observa-lo, pois na igreja havia muitos objetos de valor.

Um dia o Padre se aproximou, e perguntou:  
— Por que o senhor mal chega, ajoelha-se, olha o altar, e já se vai?

O pobre homem respondeu:

— Eu não sei rezar, então venho aqui, me ajoelho como o Padre vê, e digo: “Oi Jesus, tudo bem? Eu vim te visitar...”

— É tudo filho? Também vale – Disse o Padre retirando-se.

Um dia o Zé foi atropelado e foi parar num hospital.

Sua ausência na igreja levou o Padre a querer saber do ocorrido, e resolveu visitá-lo. Recebido pela enfermeira, esta contou  que ele não recebia visitas, mas estranhava ele fazer questão de manter uma cadeira ao lado da cama. Contou também que o ambiente daquela sala tinha melhorado muito desde a sua chegada.

O Padre ao vê-lo quis saber:  

— Se você não recebe visitas por que faz tanta questão dessa cadeira?

Então ele respondeu com aquele brilho no olhar:

— A enfermeira se engana. Todos os dias ao meio dia eu recebo minha visita.

— Quem?


— Jesus.  Ele senta ai e diz: “Oi Zé, tudo bem? Eu vim te visitar”.

VOAR? É TRANQUILO - Mario Augusto Machado Pinto



VOAR? É TRANQUILO.
Mario Augusto Machado Pinto

Os passageiros sofriam com a pressurização. Os ouvidos zuniam. De súbito a aeronave subia e descia, provocando fortes solavancos. Uns aflitos apertavam de maneira insistente o botão de chamada da comissária. Outros rezavam, parecia. Mas, ele gargalhava.

Era cômico e ao mesmo tempo trágico ver e participar desse momento que mesmo os mais experientes em viagens aéreas imaginavam ter sério perigo à vista.

Um passageiro imóvel em sua poltrona fazia sinais como quem perguntava: que passa, que há de tão engraçado? O outro respondia fazendo o gesto de positivo com o polegar.

Quando se ajustava aos solavancos seu jeitão parecia o dos peões de boiadeiro. Com uma das mãos segurava-se na poltrona qual carrapato e girando o outro braço no ar, gritava: “aiô brinco, aiô” e ria- se convulsivamente.

Largou-se da poltrona, jogou-se sobre um homem caído que na hora deu-lhe um safanão: Sai pra lá; tá pensando o que?

Malas caiam sobre os passageiros. Sanduíches voavam por toda parte jogando fatias de queijo e salames nas suas faces. Marmitas saiam das gavetas do carrinho esparramando o molho do peixe a Saint Peter. Formava-se o caos.

Uma mulher gritava:
Tira a mão daí, sai pra lá, não empurra.
Quero pegar minha peruca!

No meio dessa confusão aquele senhor estava estático, feições amareladas, mãos trêmulas, olhos piscando sem parar dizendo:
Vou fazer, vou fazer!
E o do lado gritava: Não, não, agora não; espera mais um pouco!
Não é nada disso, sua besta! Faço anos amanhã e tenho festa marcada! Pelo visto não vou comer o bolo!

Nesse instante a coisa piorou: um garoto chutava bola de futebol no corredor e gritava à moda de locutor esportivo:
— 7 a 2! Gol!  7 a 3! Gol!
Não sei como o menino arrumou a bola nessa fuzarca toda.

A bola rebateu no teto e ao cair deu com violência no traseiro de uma comissária que virou e caiu com as pernas para o ar. E ai entendi porque todas têm bum-bum igual. Elas vestem cinta calça até os joelhos.

O menino, de tanto rir rolou no chão. E o boiadeiro batendo palmas, continuou gargalhando, mais ainda. A comissária levantou-se bamboleante, quebrou o salto do sapato e andando feito pato manco, sumiu da cabine.

Um senhor saiu do banheiro. Como conseguiu ficar lá?  Foi gingando pelo corredor, caiu de cara nas pernas de uma jovem: Seu tarado! Sai pra lá! E o coitado foi caindo, caindo até que resolveu se deitar no corredor e ali ficou.

O avião deu uma virada pra esquerda, mergulhou de bico, deu pra ver o chão meio cor de cenoura do deserto.

Nesse instante uma senhora com um terço na mão gritou: Quero um padre, um padre pra me confessar. Dulcídio, meu querido, Você perdoa meu namoro com o Chagas?  Naquela barulheira toda ainda deu para ouvir o estalo da bofetada e a resposta: Com a sua dentadura Você vai ter que comer milho cozido na espiga! O Dulcídio até que foi bem-educado; podia ter dito outra coisa.

Aqueles namorados, abraçados, indiferentes a tudo que acontecia ainda se beijavam. Ah, o amor, o amor...

Aí o piloto conseguiu nivelar o avião que imediatamente deixou de chacoalhar. A cabine era um caos, tinha coisa espalhada pra todo lado, tinha até uma taça com sorvete!

Pouso em Vegas. Os passageiros saindo de mansinho, o garoto chutando a bola pra longe lá na pista.  

Aquele passageiro ainda gargalhava, agora dizendo: Olha, olha, eu molhei as calças!!!


O Expectador - José Vicente J. de Camargo


O Expectador
José Vicente Jardim de Camargo


Sentado na sala de espera do aeroporto, manuseava o computador com a maestria de quem desde há muito é familiarizado com o mundo da informática.

Vez ou outra parava para observar o ambiente ao redor e principalmente as pessoas que ora apressadas, ora calmas, procuravam seus portões de embarque sempre tendo as mãos ocupadas com pastas, malas, sacolas e a indispensável muda de roupa pesada ou leve dependendo do lugar de destino.

Desde quando se lembrava, era por natureza um observador. Gostava mais de apreciar as brincadeiras na infância, os jogos na juventude, os bailes na mocidade, do que tomar parte dos mesmos. Quando convidado, encontrava sempre uma desculpa e ficava a observar os movimentos dos corpos, a direção dos olhares e as mudanças de expressões nos semblantes dos participantes. Pena que não tinha o dom do desenho ou o da pintura, para registrar tais instantes em momentos eternos.

Um de seus passatempos prediletos, em horas de lazer, era passear por ruas e parques a observar os transeuntes: jeito de andar, de vestir e, através dos gestos e articulações labiais, tentar adivinhar seus pensamentos e intenções.

A voz melódica do alto falante anuncia o embarque de seu voo. Ele perfila, passa pelos trâmites e encontra sua poltrona numerada junto ao corredor na parte anterior da nave. A tribulação faz a vistoria de praxe e o capitão dá a ordem de decolagem.

O menu do jantar não era lá essas coisas, tinha saudades do tempo em que os serviços de bordo de vôos internacionais eram comparáveis aos de restaurantes cinco estrelas. Mas a globalização, o turismo em massa, a competitividade das tarifas, deram lugar ao cardápio popular e aos utensílios de plástico.

Pelas horas de voo transcorridas, já deveria estar sob o Atlântico, quando o sinal de apertar cintos ascende e o comandante avisa que o avião está entrando em zona de turbulência.

De repente um forte tremor sacode a aeronave, desce em queda livre, se estabiliza, volta a subir, quinada a esquerda, depois outra a direita, um estrondo se faz ouvir, bagageiros se abrem, mascaras de oxigênio despencam ao alcance das mãos, led vermelhos piscam incessantemente e as primeiras exclamações de medo, intercaladas com choro de crianças, se fazem ouvir.

A tripulação bamboleando pelo corredor pede calma, procura acudir os mais aflitos, enquanto, pela janela, a escuridão da noite é rasgada por faíscas elétricas vindas de uma das turbinas.

Ao seu lado, a senhora que até então se passava desapercebida, faz o sinal da cruz e inicia a ladainha do terço.

A gritaria e o nervosismo aumentam na mesma proporção que a instabilidade da aeronave, que caindo nos ditos “vácuos” vai levando o estomago ao coração.

Ele, contemplando a balburdia descontrolada, se fixa na gesticulação de desespero, nas expressões dos rostos apavorados, no abrir e fechar das bocas trêmulas e não se contém:

Larga uma gargalhada de dar gosto!

Os que a ouvem, creem que o coitado está histérico, prestes a ter um ataque de epilepsia ou algo semelhante.

Ele, porém, desfruta dos seus melhores momentos. Seus sentidos procuram absorver ao máximo cada instante da cena em transe e, em êxtase, exclama para si mesmo:

- Sim! Agora compreendo o gozo de Nero dedilhando sua lira ao contemplar Roma em chamas...




UM VOO INESQUECÍVEL - Carlos Cedano



Um voo inesquecível
Carlos Cedano

Ricardo estava preocupado, seu voo de Frankfurt para Zurique estava atrasado e temia perder a conexão para São Paulo, chegou em cima da hora.  Respondendo a sua pergunta a funcionaria da companhia o informou que o avião estava totalmente lotado sem chance de trocar de lugar.

Caminhou até a área de embarque onde esperava  descansar um pouco. Estava redondamente enganado. O lugar estava cheio de garotos na flor da idade gritando e rindo sem preocupações.  Sentou no único lugar  disponível junto a uma senhora que, sem delongas,  perguntou-lhe com inconfundível acento baiano:
— O senhor parece ser brasileiro, vai de férias para o Brasil?

         — Sim, vou ao Brasil  de férias, estive  na Europa a serviço, trabalhei intensamente durante quatro messes e agora só penso morgar nos próximos quinze dias numa praia, quero sol e água fresca, acho que mereço.

A senhora concordou com um sorriso. Nesse momento  se iniciava a chamada pra embarcar: primeiro idosos, senhoras grávidas, senhoras com crianças de colo e pessoas com limitações físicas!  Entre as pessoas desse grupo havia um casal que chamou atenção de Ricardo, além dos dois serem idosos também eram obesos mórbidos. Não deve ser bom pra ninguém sentar perto deles, pensou.

Entrou no avião já lotado. Foi caminhando até o fim, sua fileira era a última. À medida que andava ia ficando apavorado. Será?... Era! Seus companheiros de viagem seria o casal de idosos que tinha visto na fila de embarque. Ganhei o número premiado! - Disse pra si com resignação. O casal o recebeu com um sorriso cordial, trocaram breves palavras: tinham ficado dois meses em Zurique conhecendo e visitando os netos.

Nosso viajante, que tinha penado pra arrumar sua mala de bordo no bagageiro, sentou-se e teve outra surpresa, a volumosa senhora “transbordava” para sua poltrona invadindo seu espaço, causando-lhe desconforto. Cutucou-a de leve mais a dona nem se tocou. Cutuco-a novamente  mais energicamente desta vez. A senhora virou-se “Estas poltronas são muito estreitas, não acha?” E desconversou.

O avião decolou e duas horas depois começaram a servir o jantar, porém nesse intervalo o esposo da senhora já tinha ido duas vezes ao banheiro, Ricardo começou a pensar o pior e “ligou uma luz amarela”, acomodou-se pra dormir mais agora era a esposa que pedia licença para ir ao banheiro, com suas últimas gotas de paciência Ricardo esperou que voltasse e após o que se acomodou novamente, desta vez com a esperança de poder dormir, estava realmente esgotado
Ledo engano, o pior ainda estava por vir!

Passados poucos minutos subitamente acenderam-se as luzes e o capitão da aeronave pediu aos passageiros que colocassem seus encostos na posição vertical e abrochassem os cinturões, a nave entraria numa área de turbulência nos próximos minutos, mas confiava que não seria muito forte e não duraria muito tempo, era uma mentira “piedosa”.

O avião começou a balançar fortemente alternando subidas e descidas, parecia um surfista manobrando sobre as ondas de um mar agitado. As crianças começaram a chorar e as aeromoças em desespero, não conseguiam atender às insistentes chamadas dos passageiros.  Malas e objetos começaram a cair tanto na área de serviços de bordo como dos bagageiros o que aumentou o caos já instalado.

O casal de idosos entrou em pânico, queria abandonar seus lugares, a aeromoça pediu para Ricardo não os deixar sair, de jeito nenhum! Sobrou pra mim, hoje não é meu dia! Pensou enquanto a duras penas conseguia segurá-los. Mais  adiante um senhor de media idade gargalhava com clara evidência de bebedeira e tinha uma garrafa de uísque na mão, perto dele uma freira rezava acelerando e aumentando sua voz cada vez mais e dando a impressão de que estava perdendo sua fé. A gritaria era geral e contagiava a todos. 

Lentamente os solavancos diminuíram e os passageiros, no meio de um cenário que evocava um campo de batalha, se acalmavam. As mães consolavam seus filhos dizendo-lhes que o perigo já tinha acabado. Os comissários de bordo iniciaram a limpeza colocando tudo  em seu lugar.

Enquanto isso, nosso herói se recuperava do esforço realizado com a contenção, fechou os olhos e dormiu. Mas, de fato não era seu dia, sentiu a mão pesada da senhora de “sempre” pedindo licença, seu marido precisava ir pra o banheiro.

Nas últimas quatro horas de vigem foram cinco pedidos de licença, três pra o marido e dois pra ela, durante esse período nosso amigo não dormiu, já estava sofrendo de pesadelos cada vez que fechava os olhos.

O avião pousou, o desembarque foi calmo e rápido, nosso sofrido passageiro viu quando o casal de idosos com passos lentos se dirigia ao banheiro.  Ricardo sorriu  sabendo que nunca esqueceria essa viagem.


Xeque-Mate - Vera Lambiasi



Xeque-Mate
Vera Lambiasi

Fernando, meu filho mais novo, com uns 6 anos, foi viajar com os amigos do Santa, para a praia.

Lá, aprendeu a jogar xadrez.

Quando voltou, foi ensinar o irmão mais velho a jogar.

Explicou como dispor as peças no tabuleiro, conforme as figuras, claras ou escuras.

Indagado sobre as utilizações de bispos, cavalos e rainhas, foi esclarecendo o passo a passo.

Depois de muita conversa, partiram para o jogo.

Diversas partidas corridas, deu-se o inevitável. Marcelo, 3 anos mais velho, começou a ganhar do irmão.

No que Fernando, indignado, desabafou:

— Ensinei melhor do que aprendi