ENLACE SINESTÉSICO - Sergio Dalla Vecchia

 







ENLACE SINESTÉSICO

Sergio Dalla Vecchia

 

Era um baile de formatura, daqueles em grande salão de festas. Atmosfera branca, orquestra ao vivo com pista de dança, onde familiares conversavam alegres nas mesas lindeiras, incentivados pelo bom whisky e ritmados pelo som harmônico da música ao vivo.

O baile fluía em arco-íris, composto pelo colorido dos lindos vestidos e o do brilho laranja de alegria emanado pelos olhos dos jovens formandos.

Ao mesmo tempo, em um determinado lugar do salão, um rapaz com pensamentos amarelos em atenção procurava uma parceira para dançar, até que sintonizou no campo se visão um grupo de quatro moças descontraídas.

Atentou-se primeiro para a moça do vestido verde, quando sentiu uma certa tranquilidade de sucesso. Deslocou os olhos para o lado e deparou-se com a de azul, dos olhos da mesma cor, que lhe passaram muita confiança. Moveu a cabeça mais uma vez e apontou para a de rosa, que lhe transmitiu feminilidade e doçura.

Os predicados das jovens eram diversos e punham à prova seus pensamentos cautelosos, que poderiam facilmente se tornarem vermelhos de raiva caso não tivesse sucesso na abordagem.

Entretanto na última do grupinho, a sensação foi de atração absoluta. Seu olhar foi captado imediatamente por ela, que o devolveu na mesma intensidade, fulminante! O vestido laranja parecia sorrir, enquanto os olhares se mantinham em plena sintonia.

O rapaz flutuando no encantamento aproximou-se e lhe disse convicto:

─ Vim para dançar, aceita?

Ela sorriu vitoriosa para as amigas, enquanto uma mão forte abraçou de leve seu antebraço e a conduziu até a pista de dança.

A orquestra tocava Ray Conniff.

Logo o rigor preto do smoking encostou no receptivo laranja e se largaram pela pista afora.

Assim, o animado par dançou sem parar, evoluindo por muitas seleções, nos tons cinzas das novidades do amanhã.

A canção do flamboyant - Ises De Almeida Abrahamsohn

 



A canção do flamboyant

Ises De Almeida Abrahamsohn

 

Eram cinco e meia da tarde. O sol poente ainda iluminava o topo das árvores. A brisa fresca movia as folhas murmurando que ainda era primavera.

Nenhuma pessoa ou som. Até os pássaros tinham emudecido. Subiu as escadas devagar apreciando o silêncio. Estava no terceiro degrau quando ouviu um psiu junto ao ouvido. Parou e olhou em torno. Ninguém à vista. Deve ser o vento. Subiu mais alguns degraus e de novo, aquele chamado quase irreal, mais um roçar de seda do que voz. Não era o vento. Ficou ali, naquele minuto suspenso e esperou...

Olhe para cima, escutou. Percorreu com os olhos os ramos da enorme árvore que sombreava a escada. Por entre o verde da exuberante ramagem as primeiras flores vermelhas brilhavam iluminadas pelo sol. Eram as primeiras a desabrochar com seu colorido vermelho vivo que em algumas semanas tingiria a imensa copa.

E de novo ouviu a voz. Eu o conheço há muito tempo. Há exatos 42 anos. Vi você menino de 4 anos, depois ao aprender a nadar e o vi crescer. Algum outubro, quando tinha quinze anos, você se fantasiou de morcego.

O homem subiu os degraus e olhou a portentosa árvore. Lembrou-lhe o nome. Não era dado a lembrar nomes de árvores, mas essa era fácil, flamboyant. A mãe e a avó a cada primavera lhe apontavam a árvore florida. Flamboyant, sorriu. Extravagante, de fato merece o nome quando o vermelho incendeia a copa.

Continuou a recordar, a avó que amava plantas não estava mais com eles, mas estavam todos juntos, os pais e as duas avós na foto tirada ao pé da magnífica árvore. Depois lembrou como a noiva ficou maravilhada ao ver o esplendor da enorme copa vermelha, árvore inexistente em seu país.


Subiu ao terraço para esperar os pais. Olhou no celular. Flamboyant- Delonix regia. Poinciana é o nome nos Estados Unidos. Havia uma canção dedicada à árvore no disco que a mãe amava. Nat King Cole era o cantor. Procurou a letra: “Poinciana, your branches speak to me of love…”
https://www.youtube.com/watch?v=eXF7Fctprmg.



18 OUTUBRO – DIA DOS MÉDICOS – DIA DE SÃO LUCAS - Oswaldo U. Lopes

 


18 OUTUBRO – DIA DOS MÉDICOS – DIA DE SÃO LUCAS

Oswaldo U. Lopes

 

        Domingo 18 de outubro lá estava Jorge Antônio no Pronto Socorro do HC. Não se podia dizer que estivesse de plantão. Na sua idade, 72 anos, não dava mais plantão, estava ali porque queria, era seu vício, sua cachaça e como qualquer outro vício, era difícil de largar.

        Em tempos de COVID – 19 era até bem-vindo, sua experiência ajudava muito. Já tinham tentado tirá-lo dali sua idade o colocava no grupo de risco.

         Tinham tentado delicadamente, ele só levantou o olhar e o interlocutor mandou-se antes de ser atingido por algum objeto que estivesse ao alcance da sua mão. Tinham tentado mais incisivamente, até muito, com pouco resultado, ou seja, muito pouco haviam conseguido.

        Ficou pensando em São Lucas, era médico, São Paulo assim o tratava, desde tempos imemoriais sua figura era associada a um boi (ele até sabia que para os outros três a associação era com leão, águia e anjo). Pensava-se que como o boi ou o touro fosse o animal por excelência dos sacrifícios mais elevados e ele era o evangelista que melhor narrara a crucificação de Cristo, assim ficara associado. Outros viam na figura do touro, a menção ao Templo. O evangelho de Lucas começa e acaba no Recinto Sagrado de Jerusalém.

        Era de longe o mais literário e bem escrito dos evangelhos, Lucas fez uso do grego de uma forma poética e prazerosa de ler. Como é que diziam “de médico e louco todo mundo tem um pouco”, Lucas tinha de poeta, para ele, de médico e poeta tinha muito.

        Até que agora o PS andava mais calmo, parecia que o número de casos da pandemia ia aos poucos arrefecendo. Será? Perguntava-se.  Para ele, no entanto, enquanto houvesse casos eles importavam mais do que o número.

        Isso levou seu pensamento para André, jovem engenheiro eletricista que como ele não se entregou e dava um duro danado para manter o serviço elétrico do Hospital funcionando. Os primeiros sintomas apareceram no sábado, e no domingo fora trazido ao PS.

        Febre alta, falta de ar, consciência fraca, 10 na escala de Glasgow. Fizeram o que de melhor podiam: oxigênio, cortisona, anticoagulantes, antibióticos e antivirais. Apesar do cuidado, acabaram tendo que entubá-lo depois de três horas, e ligaram um respirador. Fora parar numa UTI com apenas quatro leitos, para um atendimento super especial e era lá que Jorge Antônio ia frequentemente vê-lo.

        Levantou-se e foi. Entrando na pequena enfermaria, no silêncio escuro que podia sentir, viu um vulto negro perto da cama de André. O vulto carregava algo na mão que podia ser uma vassoura. Uma auxiliar, alguém da limpeza?

        Atento aproximou-se do leito do jovem. Imediatamente percebeu que o respirador estava desligado. Pela cor de André viu que fazia pouco tempo, rapidamente ligou de novo o aparelho e viu as cores se recuperarem.

        Ficou ali parado, olhando os registros de batimentos cardíacos, respiração e temperatura. As coisas andavam melhor do que era de se esperar. Pensativo tentava entender que era o vulto que desligara o aparelho. Ocorreu-lhe que de fato a vassoura bem podia ser um alfanje.

        Nunca vira assim de perto sua mais tenaz inimiga, seria a morte que por ali andara? Séptico guardou para si aqueles pensamentos e na memória aquela figura negra com a gadanha, lembrando o arcano 13 do Tarô.

        Era até curioso sua intimidade e seu conhecimento sobre a morte, a grande rival do médico. Dentre suas conhecidas qualidades estava a sua incrível capacidade de recuperar pacientes em condições ditas desesperadoras, tinha até gente que dizia ter ele um acordo com a parca. Se ele se empenhava muito ela postergava o carregamento.

        Ele ignorava essas brincadeiras, mas a superara inúmeras vezes. Mistério ou não, calava-se. Mas, aquela fora a primeira vez em que julgara tê-la visto de verdade.

        Quando voltou mais tarde, André estava bem melhor e já não tinha o respirador. Ficou pensando que sua adversária era dura, mas honesta.

        Quando derrotada, retirava-se e evitava a goleada. Afinal não ia levar um moço valente daqueles no dia dele, São Lucas.


EL PRESO NUMERO NUEVE – UMA CANÇÃO MACHISTA? - Oswaldo U. Lopes

 



EL PRESO NUMERO NUEVE – UMA CANÇÃO MACHISTA?

Oswaldo U. Lopes

 

        A resposta simples a esta pergunta é: sem dúvida.

        Como sabemos, porém, na vida as respostas mais simples, são as que pouco adiante levam.

        Essa canção mexicana ficou famosa interpretada pela cantora folclórica americana Joan Baez. Filha de um físico e matemático mexicano que imigrou para os USA muito jovem, ela além de uma linda voz, tem uma clara pronuncia espanhola o que é muito raro entre músicos americanos.

        Definir Joan Baez como cantora folclórica é quase um insulto à sua longa e maravilhosa carreira. Fez parte do movimento de contracultura dos anos 60, pacifista, escreveu e cantou diversas e notáveis canções de protesto. Teve um longo caso amoroso com Bob Dylan que terminou em separação ruidosa. Em função desse romance compôs uma esplêndida canção: Diamonds & Rust.

        Bem, por que uma ardorosa cantora feminista e pacifista gravaria uma canção tão machista? Vai ver que ela não é tão machista assim, ou pelo menos tem um alto valor no cancioneiro mexicano.

        A história do preso número nove é simples e direta. Mineiro (pueble na letra) ia do trabalho para sua humilde casa quando viu sua mulher nos braços do seu mais caro amigo. Matou os dois.

        Condenado à morte por fuzilamento conversa com o padre do presidio e não mostra nenhum arrependimento: Y se vuelvo a nacer, Yo los vuelvo a matar.

        A letra é contundente: Padre no me arrepiendo Ni me da miedo la eternidad.

         A história do México não é simples como bem sabem os jovens alunos das escolas locais. Teve de tudo: domínio Asteca, invasão espanhola, vice-reinado, império, reis franceses, república etc.

        Quem imagina que a presença francesa teve pouca influência, não foi comprar pão numa padaria mexicana, e elas existem por todo lado. Apanhe uma grande cesta e coloque ali o legitimo pão francês, brioches, croissants e os mais diferentes e saborosos bolos.

        Quem já ouviu um conjunto Mariachi sabe o quanto eles são representantes da cultura local, o que muitos não sabem é que a palavra vem do francês mariage. Alguns dizem que no inicio eles tocavam nos casamentos e assim ficaram conhecidos.

        Bem, e o preso número nove? È um típico caso de crime de honra como são conhecidos os assassinatos de mulher traidora.  Quem acha que só tem no México nunca ouviu Cabocla Tereza de João Pacifico.

        É bom enfatizar que o preso número nove, vai ser fuzilado pelo crime cometido. Nem sempre isso acontece, há pouco houve um ruidoso caso que chegou ao Supremo Tribunal de uma absolvição de crime de honra.

        Misturado tudo, o preso número nove é uma canção típica mexicana que contem todos os elementos esperados num caso de honra, mas tem justiça feita, embora não exaltada na letra. Acredito que Joan Baez emprestou sua linda voz a esta musica para honrar suas origens latinas e o fez de modo brilhante, pois a converteu num estrondoso sucesso.

        É não há história simples, sempre corre muita água rio abaixo e fogo morro acima, o mundo gira e nóis roda. Roda de não o entender ou de querê-lo muito simples, e isso ele não é.



El Preso Numero Nueve

Joan Baez

 

El preso numero nueve ya lo van a confesar

Esta encerrado en la celda con el cura del penal

Y antes del amanecer la vida le han de quitar

Porque mató a su mujer y a un amigo desleal

Dice así al confesar

Los maté si señor

Y si vuelvo a nacer

Yo los vuelvo a matar

Padre no me arrepiento

Ni me da miedo la eternidad

Yo se que allá en el cielo

El ser supremo nos juzgará

Voy a seguir sus pasos

Voy a buscarla hasta el más alla

Ay

El preso numero nueve era un hombre muy cabal

Iba en la noche del pueble muy contento en su jacal

Pero al mirar a su amor en brazos de su rival

Ardió en el pecho el rencor y no se pudo aguantar

Al sonar el clarín se formo el pelotón

Iban al paredón solo alcanzo a decir

Padre no me arrepiento ni me da miedo la eternidad

Yo se que allá en el cielo el ser supremo nos juzgará

Voy a seguir sus pasos voy a buscarla hasta el más alla

Ay

 

 


No começo, só havia o TEMPO - Suzana da Cunha Lima

 





No começo, só havia o TEMPO

Suzana da Cunha Lima

 

No começo só havia o Tempo, Cronos.  Ele preenchia todos os espaços, era único e onipotente.  Mas Cronos se sentia miseravelmente só, pois não tinha ninguém com quem partilhar tanto Poder e Grandeza. Então chorou, e as lágrimas do tempo são caudalosas, de tal maneira que alcançou Geia, uma bola de fogo que por ali passava meio perdida, e apagou seu fogo. O fogo transformou-se em nuvens e as nuvens produziram água, e Geia se transformou num pequeno e viçoso planeta. Cronos se encantou com esta habilidade de Geia e tomou-a como esposa.

Tiveram muitos filhos, mas Cronos, enciumado, os devorou todos. Até que Geia, revoltada, guardou seu último filho a quem chamou de Zeus e ordenou que ele acabasse com Cronos, para que suas crias vingassem.

Zeus não teve coragem de matar seu pai, apenas transferiu seu poder de matar para os humanos, que muitas vezes matam o tempo, mas não têm o poder de ressuscitá-lo ou guardá-lo para si mesmos. Como se matam entre si, mesmo sabendo que a morte não os devolve, como o tempo perdido também não volta mais.

Mas, apesar de tudo, as pequenas formas de vida que criavam não iam para frente, morriam todos.  Pensaram que era uma maldição de Cronos, mas Zeus reparou que faltava outro elemento essencial à vida: O AR. Sozinho ele não tinha o poder de criá-lo, então casou-se com Juno, uma bela estrela, que lhe deu o primeiro filho Eólio, o ar que anda.  Sua missão era colocar ar no planeta e, fazê-lo se movimentar para que houvessem sempre nuvens e elas pudessem criar a água, nem sempre em harmonia, como sabemos.

Assim aquele pequeno planeta azul foi criado com os quatro elementos essenciais à vida: terra, água, ar e fogo. Mas até hoje guarda o carma da violência, ciúme e traição com que foi criado.

BIA PARTIU - Oswaldo U. Lopes

 




BIA PARTIU

Oswaldo U. Lopes

 

 

        Bia partiu, deixou saudades, levou esperanças. Saiu andando pelo caminho que margeia o riacho. Este, para alegrar a despedida resplandeceu de azul cristalino.

        Era tarde, mas não tinha escurecido por completo. O verde das árvores, ainda era verde, o amarelo pálido das casinhas, continuava pálido.

        Quem é mesmo que explicara a diferença entre pigmento e luz usando os prismas de Newton? A lembrança na memória também era pálida. A cor depende da luz e depende, sobretudo, da retina e do cérebro que processa tudo isso.

        Tudo muito claro no colorido esmaecido da tarde que vai caindo.

        Mas o fato é que Bia estava partindo e, portanto, sua alegria, seu sorriso que emprestavam cores aos objetos, as plantas, iam fazer falta.

        Os pigmentos iriam ficar mais fracos, mais confusos, mais misturados. O prisma de seu olhar não estaria mais aí, para realçar o brilho individual das cores. Bia rindo enchia o cenário de matizes alegres, agora vai fazer falta, muita falta.

        Será que volta? Será que vai espalhar suas cores noutras paragens? Vamos sentir bastante a ausência dela, gostaria que ficasse, mas não ficou.

        Será que saudade tem cor?

LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA - Antonia Marchesin Gonçalves

 




LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA

Antonia Marchesin Gonçalves



Conheci Giovana com os meus dez anos ela tinha a mesma idade que eu, só que com a aparência de adolescente e mais madura, já eu miúda mais criança. Foi quando a família dela se mudou numa rua vizinha a nossa. As mães se conheceram fazendo compras na vendinha e quitanda perto de nossas casas, Carmela chamava-se a mãe e Lia a irmã mais nova, já o pai apagou na minha memória o seu nome, nunca gostei dele.

             A empatia entre as duas famílias foi imediata, sendo que éramos de origem italiana, nada normal no bairro na época. Logo de inicio percebemos as diferenças entre nós, enquanto nós crianças brincávamos, as mães se confidenciavam nos seus desabafos. Nossos pais ao contrario não tiveram a mesma empatia, meu pai não teve nenhuma afinidade com o pai delas, fui descobrindo aos poucos depois, a razão.

             Meu pai era do bem, trabalhava bastante, bebia no fim do dia, principalmente aos domingos, e aí não tinha papas na língua, motivo esse de algumas divergências com o vizinho, ele recebia o salário entregava inteiro para minha mãe que administrava com competência. Já o pai da Giovana empoado olhava toda a vizinhança com desdém se achando superior a todos. Trabalhava e dava o dinheiro contado com ordem expressa de comprar só o que ele gostava de comer, não se importando com a mulher e filhas, inclusive o que mais chocou meus pais é que ninguém podia comer o que era dele, era separada e as três às vezes comiam arroz puro, muitas vezes elas lanchavam em casa.

             Às vezes Carmela aparecia com olho roxo, marcas nos braços e pernas, minha mãe questionava, ela respondia que havia batido na mesa, armário ou caído, sabíamos que ele batia nela, sendo sempre perdoado dizia que ele era traumatizado de guerra, mesmo os irmãos dela queriam que o largasse propondo ajuda, não o largava.  Logo que as meninas cresceram mandou que procurassem trabalho e não deixou que estudassem. Giovana fez curso de simples de cabeleireira e a irmã de manicure as três com a ajuda dos familiares da Carmela alugaram um salão de beleza perto de casa.

             Nossa amizade se mantinha boa, mas nos víamos pouco, pois eu também já trabalhava na secretaria do Banco Frances e Italiano na Boa Vista. Até que o meu marido, na época colega do meu irmão, estudantes de engenharia na Poli, se encantou comigo. Ele sabia o horário que eu chegava de ônibus no fim da tarde ficava a minha espera sempre com um bombom ou chocolate no ponto que eu descia que por coincidência era em frente ao salão delas. Depois de um tempo, eu chegava e encontrava sempre os dois à minha espera, mal sabia eu que minha amiga já antevendo futuro promissor dele, começou a se insinuar, acabou me confessando quando já éramos namorados.

             A partir daí o rompimento da amizade foi automática, nada falamos uma para outra, rompeu-se o elo que nos unia, culminando com a mudança delas para outro bairro. Acredite, o pai delas teve um derrame anos mais tarde, viveu na cama por anos, sendo cuidado por Carmela e filhas até morrer. Cheguei a vê-las antes disso, não era mais aquela amizade, não havia mais a cumplicidade que um dia havíamos compartilhado. E, ainda comentaram com minha mãe que eu tinha tido sorte com o meu casamento, ainda bem que eu tinha o corpo fechado contra inveja.

            


NA CAPELA DO HC - Oswaldo U. Lopes

 


NA CAPELA DO HC

Oswaldo U. Lopes

 

        Quando era residente do HC (Hospital das Clínicas da FMUSP) muitas e muitas vezes subi ao 11º andar para rezar ou pelo menos ficar quieto em silêncio pensando na vida. Naquele tempo a capela era a única construção do 11º andar.

        Acho que não é exagero compará-la ou pensar nela como quem está no Vaticano. Você não entra na Igreja de São Pedro e acha que vai rezar como em qualquer Igreja. No mínimo vai dar de cara com a Pietá de Miguel Ângelo e mesmo tendo-a visto em centenas e milhares de reproduções, vai se emocionar e entender porque ele gravou na tira que atravessa o colo de Maria, o próprio nome:

MICHAEL ANGELUS BONAROTUS FLORENT FACIEBAT

        Ele tinha na época 23 anos e parece que ninguém acreditava que um jovem escultor pudesse fazer aquela extraordinária maravilha, dai que ele resolveu assiná-la.

        Bem voltemos à capela do HC e porque quando você entra nela, lembra-se do Vaticano. Em que outra Igreja de São Paulo se encontram reunidas no mesmo conjunto, obras de Victor Brecheret, Fúlvio Pennacchi e Emiliano Di Cavalcanti?

        Naquele tempo era conhecida como Capela da Esperança ou do Espirito Santo por causa de um vitral colocado em posição superior. Hoje chamam-na Capela de São Camilo, mas isto se deve a presença recente dos Padres Camilianos como guardiães da Capela.

        Nas laterais do altar-mor dois afrescos de Pennacchi impressionam pela qualidade e sutileza da pintura. Pennacchi era conhecido pela perfeição e domínio da técnica do afresco, que aprendera na Itália, seu país de origem. Ele aqui deixou sua marca registrada. Do lado esquerdo a Anunciação à Maria, no lado direito a Ceia de Hemmaus. Difícil descrevê-los, melhor será vê-los. Visite-a quando puder. A mim a figura do anjo na Anunciação e dos discípulos reconhecendo Cristo pela partição do pão são inolvidáveis.

        Brecheret, não sei a razão, colocou seu melhor talento a serviço da Capela. Lá estão um magnifico Cristo Crucificado, um São Paulo heráldico e as deslumbrantes 14 Estações da Via Crúcis. Originalmente em terracota, como eu as vi, hoje, por motivo de conservação, substituídas por cópias de bronze, é nelas que ele expôs todo seu talento e capacidade. Os originais estão desde 1982 guardados no Museu de Arte Sacra.

        A cruz que aparece e domina o conjunto da Via Sacra é representada em 12 das 14 estações. Brecheret usou um simples T para representá-la, o mesmo T que usou na cruz do Cristo que é o centro do altar mor, mas o uso que fez dessa cruz é notável. As figuras que compõe as estações, todas simplificadas, mas perfeitamente reconhecíveis formam um conjunto único digno de Michelangelo que mencionamos lá atrás.

        Alguns, mais afoitos, pensarão que falta a 15ª Estação, a da Ressureição. A criação desta, no entanto, foi sugerida pelo Papa João Paulo II, durante seu pontificado (1978-2005). No entanto, na época em que Brecheret fez o conjunto tinha por volta de 20 anos e provavelmente não tinha ideia de que seria Papa e de sua importância na vida da Igreja Católica.

        De Di Cavalcanti são os desenhos que deram origem a vários vitrais, alguns repetidos, que ajudam a iluminar a Capela. Lá estão os lírios e palmas cercando um anjo, Quatro desenhos representando os Evangelistas:  um touro para Lucas, uma águia para João, um anjo para Mateus e um leão para Marcos. Há também uma figura central, a pomba branca que representa o Espirito Santo.

        Confesso que às vezes contemplava a pomba branca pensando na piada que um frade franciscano me contara:

        Havia muito tempo, viviam dois papagaios nos jardins do cura local (Espanha, por certo). Um muito religioso e o outro muito desbocado. Por coincidência morreram com pouca diferença de tempo. O boquirroto foi direto para o inferno, mas ficou muito surpreso de lá encontrar o beato e perguntou-lhe:

- Hombre que passo?

- Bueno Yo estava volando para el cielo quando vi una mui linda palomita e la salude – Guapa

- Que mal habia?

- Resulta que era el Espirito Santo.

        Pois é amigo, nem todas as vezes que vamos a capela, rezamos fervorosamente, ocasiões há em que divagamos, como humanos que somos, perdidos em bobagens e histórias que nos acodem a memória enquanto tentamos entender os desígnios do dono da Capela.

        Por fim, e meio repetidamente, volto a minha sugestão, se puder visite a capela, mesmo se não for crente, nem for para rezar, terá a oportunidade de contemplar alguns exemplares da melhor arte religiosa que o Brasil já produziu.

 

A fuga de Jorge Fonseca - IGUAÇU - PERTO DE MANAUS - Oswaldo U, Lopes

 




A fuga de Jorge Fonseca 

Oswaldo U, Lopes

IGUAÇU -  PERTO DE MANAUS


        A história é simples, o lugar também, Iguaçu, norte de Manaus. Jorge Fonseca estava lá, fugindo. Fugindo da chuva, do mau tempo e, sobretudo, de Hilário Prugis. O milionário criador de gado, mas também, o queimador de florestas, responsável pela metade das queimadas na região amazônica.

        Jorge descrevera, sem meios termos nem meias palavras, a vida e os “feitos” do novo herói da mata destruída no jornal de Manaus. A perseguição se tornara inevitável. Hilário tinha dinheiro à vontade e também vontade de matar desafetos.

        O jeito fora escapar e isso era o que Jorge fazia em Iguaçu. Ou melhor, tentava fazer naquele minúsculo e vagabundo hotel de Iguaçu.

        Tentava porque com uma rajada a janela se abriu e a ultima coisa que ele viu foi o brilho da carabina. 

Laço - Sérgio Dalla Vecchia

 





Laço

Sérgio Dalla Vecchia

 

 

Laço abraça coração

da moça ao passar

fixado na ondulação

difícil de se escapar.

 

Na menina mimosa

mãos com delicadeza

fazem laço orgulhosas

em fita da princesa.

 

Mimo se faz atraente

com laço em viva cor

sempre é convincente

para o ensejo do amor.

 

Trouxe o desgarrado

de volta aos seus,

em família laçado

agradeceu à Deus.

PANDEMIA - Mario Augusto Machado Pinto

 




PANDEMIA

Mario Augusto Machado Pinto

 

 

Ai, isso é que é. Às vezes acontecem coisas boas: hoje tem sido delas: ditos, palavras, conversa, risadinhas e gestos, carinho e carícia, o enrosco... Dormi. Acordei de par de colherinha. Gostei. Há quanto tempo! Deu vontade de cantar. Abri a janela e soltei aquela:

...“GOSTO QUE ME ENROSCO DE OUVIR DIZER....”, o que me lembrou do compromisso assumido (arre!!!): hoje, pelo meu amor devo fazer de conta que recomeço  ginasticar  andando oito quilômetros nem  que leve o dia inteiro ou que faça  a Mimoza mugir. É isso que pode dar depois de tudo e dizem que a mulher é a parte mais fraca. Pois sim! Elas têm a chave e o segredo do cofrinho e é aí que o

 ...”HOMEM COM SUA FORTALEZA DESCE DA NOBREZA E FAZ O QUE ELA QUER, turum, tururum, tun, tun!”.

É, faz e faz gostando, verdade; aceitem ou não, essa é a realidade.

Mas, afinal o que me leva chegar a tudo isso? O sorrateiro rei com reinado e com coroa, com rainha e castelo vermelho híbrido, não percebe? É a quarentena prometendo que fará visita rápida, fugidia qual enguia fresca. Pelo parecer médico é cordão elástico colado ao pescoço de cada um;  TV, livros, jornais e tanta coisa mais durante tanto tempo que a cachola, verdadeira roda gigante, fica girando de endoidar; a fala limitada à clemência do celfone é cerebrina ou fantasiosa brigando entre si pra ver quem ganha a tal

...TAUBA DO TIRO AO ÁLVARO...”.

 

Ovo fritado, fatias de pão torradas ao ponto, geleia de mirtilo, suco, café quentíssimo; tomados e comidos, vou andar os oito quilômetros.

 

O povaréu está o mesmo; bem, nem tanto, está um pouco mais magrinho; mais uma vez continua olhando torto minha invasão do areal com matinho e sujeira pra chegar à praia. Paro um pouco pra regular o respiro. Busco conhecidos: lá está o Mané esquentando o óleo pra fritar camarão, o Tatuzinho com seu “pau de sebo” pra criançada, o pipoqueiro (novo no pedaço; o cara é biruta: pipoca às dez da uma manhã nebulosa?), a “Kiboa” unindo os olhares rolando pros lados seu bumbum olímpico: ninguém assovia, há respeito se não já viu, né? Ouve o que não quer, tudo que as senhoras dizem que deixa vermelha a casca dos tomates; o cara da padaria jogando sinuca enquanto aguarda a freguesia; o Waltinho, coitado, “noiva” da garotada gozadora. Há outros que estão chegando. Basta. Não vou citar: não sou funcionário do IBGE.

 

Chegando à areia da praia, branca perolada, lanço meu duplo olhar: um, periscópico, até onde consigo ver; o outro, verdadeira roleta separa as moçoilas ansiando pela oportunidade de jogar a bolinha e obter o 7 preto. Porque o 7 preto? Não sou arco-íris, sempre arcado. Estou mudando. Vale? Não sei. Acho que poderá ser meu número de sorte.

 

Andando devagar percorrendo a areia úmida, compacta, dura, não perco detalhe. Levo bruta susto: alguém deu um tapinha no meu ombro direito: viro-me e dou de cara com o Sergei (ele corrigia a pronúncia pra Serguei até ouvir a estória do Sir Ney). Coincidência? Não sei, mas tinha tudo que ver uma coisa com a outra. A gente passou a respeitar e usa a pronuncia que ele quer. Acho que ele se sente importante na sua maluquice. Bem, não vamos exagerar, mas o cara é diferente e bota diferente nisso: começa que ninguém sabe ao certo do que ele vive ou, melhor, como paga suas despesas e as do casarão em que mora. Tá certo, dá umas palestras que trazem carros chiques e madames perfumadas e cantoria de fora. Diz que ensinava tecnociência; agora é biociência, sei lá o que isso possa ser, mas diz que tudo gira ao redor do corpo humano de outro jeito, maneira mais sofisticada. Pra mim é conversa mole pra ricaço encher o tempo. É bom esclarecer que já sumiu. Dado como morto por um ano reapareceu pra expulsar maloqueiros que ocupavam seu casarão.

 

Fuçador, meche com tudo, principalmente com coisas exóticas, bem diferentes. Por delicadeza pergunto o que está fazendo. Diz que escreve um dicionário de palavras com grafia igual, idiomas e significados diferentes; muitas vezes igual.

 

Como assim? Digo. Dá exemplos.

 

Grave (português), grave (sepultura em inglês);

cancelar - cancelar (pagar espanhol);

oásis, igual em port. e inglês;

ocular, original, organza (idem em Ingl).;

caro (port), caro (querido (ital.);

eleve (port) élève (aluno (Fr.):  

chatô (casa gíria favela port) chateaux (Fr.).

 

Olha, fica com este caderno: há milhares de palavras. Pode ficar, insisto; tenho cópia. Vai, fica. Deixa-me ir. Vou pesquisar mergulhando no mar. Óia, uma última coisa: Você sabia que o pescador quando sai pra pesca – a bem dizer – vai trabalhar? Pois é. Precisa dar valor. Agora, estou intrigado é com o que estão cantando. Pergunto: o quê?  Responde cantando:

 

......É DOCE MORRER NO MAR, NAS ONDAS VERDES DO MAR....

 

Pergunto: o quê lhe preocupa?

Responde: Como é que ele sabe?

 

Sergei nunca mais foi visto.



As cores do meu caminho - Antonia Marchesin Gonçalves

 

            






As cores do meu caminho

Antonia Marchesin Gonçalves

 

 

             A maioria das pessoas ao nascer quase não têm cabelos. Algumas exceções mais cabeludinhos que se percebe se serão loiros ou morenos. Segundo a minha mãe nasci com leve penugem loira. Fui uma criança loira, mas à medida que cresci fui ficando com o cabelo mais escuro me tornando uma adolescente com cabelo castanho bem escuro. Toda adolescente tenta mudanças, e foi aí com meus quinze mais ou menos, que comecei a pintar o cabelo. Por ter os olhos azuis e querendo imitar a grande atriz Elizabeth Taylor, pintei-os de preto azulado durante um período, depois os cortei bem curtos era a moda dos anos sessenta.

             Assim me inspirando nas minhas estrelas preferidas, que ditavam a moda da época, fui sofrendo transformações, algumas me favoreciam mais ou menos. Adulta, usei durante um longo período cabelos longos mechados, isso quer dizer a maioria dos fios na cor natural, castanho escuro, com mechas loiras. Sendo mãe, me favorecia muito, de pessoas me pararem na rua para saber o nome do corte e o endereço do salão que frequentava. Por sinal muito competente ainda o frequento até hoje, nenhuma outra profissional mexe no meu cabelo.

             Novas fases de vida a única coisa que sempre diversifiquei foi o cabelo, plástica nem pensar, usei durante anos também loiro total, até que do loiro total resolvi ser ruiva. Uma mudança radical, principalmente no inicio fica difícil a mudança, você fica com a cor de cenoura ou popularmente chamavam água de salsicha. Minha mãe na época que virei ruiva, não aceitava, tinha a crença antiga de que pessoa de cabelo vermelho era ruim. Sem comentários, me divertia. Entrei na idade da famosa balzaquiana ruiva. A terceira idade veio, usei nessa época vários tons de ruivos, do vermelho intenso, até o bronze dourado, incorporou de tal forma no meu visual, que me perguntavam se era a minha cor natural.

             Ainda me encontro na famosa terceira idade e a pandemia me fez reclusa sem poder pintar o cabelo. Isso fez tornar realidade um desejo grande de deixar ao natural o meu cabelo, ou seja, assumir o grisalho mais branco que preto. Novamente protestos de marido, filhos e amigas. Na primeira ida ao salão radicalizei, cortei e não pintei. Para variar a minha amiga profissional fez um excelente trabalho. Estou adorando o meu branco como um grito de liberdade, os familiares ainda estão se acostumando, a maioria gostou.

             Quando voltar às minhas atividades sociais, saberei o resultado. Lógico uns acharão que fiquei mais velha, outros provavelmente vão gostar, não importa, por enquanto estou feliz. Vou continuar assim? O futuro dirá.