Ditos Populares - José Vicente J. de Camargo

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Ditos Populares
José Vicente J. de Camargo


Dispenso a academia!

Nada de ambiente fechado, ar condicionado que me faz mal, televisão ligada em programas que não me interessam...Em manhãs ensolaradas prefiro ver o verde e sentir o cheirinho do mato fresco. Munido de boné, óculos de sol, lambuzado de protetor solar e no pulso o relógio que marca tempo, passadas, pulsação e batimentos cardíacos, tomo rumo do parque. Lá, decido não tomar o caminho da esquerda nem o da direita, mas a trilha que cruza o parque passando pelo lago. É mais íngreme com pedras soltas e buracos, mas em compensação tem o verde que a cerca, o silêncio que permite ouvir os passarinhos e, com sorte, apreciar as peripécias dos esquilos.

Na metade do caminho, decido fazer aquela parada aconselhável para um gole de água e para tirar a “água do joelho” como se diz. Neste ato, vejo, num arbusto ao meu lado, uma carteira de bolso feminina camuflada entre os ramos. Examino-a antes de tocá-la. Ao apanha-la sinto o desgaste e o embolorado verde musgo do couro, indicando que ela já está ali há algum tempo. Ao abri-la, com um misto de receio e curiosidade, não encontro dinheiro nem documentos. Numa das divisórias, uma folha de papel amarelado dobrada em quatro, indica ser uma carta. Desdobro a folha rapidamente e me deparo com um texto escrito em letras tremulas, num azul desbotado. Nele, grampeado, uma foto de um casal abraçado, de rosto colado, sentado na mesa de um bar, irradiando um sorriso de alegria e nas mãos  levantam copos de cerveja. Ambos aparentam quarenta anos:

Querido Zeca,
Quando receber esta, já não estarei mais aqui. Esta é a melhor maneira que encontro para não sofrer mais, encontrar a paz, já que a realidade de vivermos juntos custaria o sacrifício de nossos familiares e isto, como já discutimos, não queremos. Por outro lado, continuar com essa farsa, não posso mais, me afogo.  Não se preocupe, levarei nosso segredo comigo. Os momentos que passamos juntos foram para mim os melhores de toda minha vida. Contigo conheci a paixão, calor que me queima por dentro e que não consigo e nem quero apagar. Com você sou completa, vivo! Sem você, só vazio, angústia, nada me preenche. Meus pensamentos são todos para você, na espera do momento de encontrar seus olhos negros, sua voz rouca, seu sorriso zombeteiro, seu bigode farto...
À esta carta anexo uma foto nossa de uma das tantas noitadas que trocamos confidências no bar do Tico. Guarde-a bem, pois ela é importante para você. Instruí o Marcos, nosso amigo de samba, que é advogado, a passar em seu nome, como uso fruto, o apê que comprei dele para ser nosso ninho de amor. Você sempre gostou de estar lá, como diz “tem atmosfera, lhe dobra a vontade”...Quero que fique com algo que me lembre. Mesmo que esteja com outra, sei que pensaras em mim, pois acredito quando diz que nenhuma outra lhe dá o prazer das minhas carícias...Mas tem uma contrapartida: Como não posso tê-lo na lista de meus bens, continua propriedade do Marcos. Ele postergará o uso fruto de dois em dois anos com a apresentação da nossa foto. Caso contrário ele doará a uma instituição de caridade que defini. Não se zangue com este meu capricho, sou uma mulher apaixonada...
Sempre sua,
Denise”

Termino de ler e um rol de perguntas me invadem:

Como será que essa carteira veio parar aqui? Alguém a roubou, tirou o dinheiro e a jogou no meio do mato sem querer o resto? Mas se fosse assim, muito provavelmente teria os documentos. Ou foi algum familiar da Denise – o marido talvez -  que descobriu a carteira, leu a carta e para não perder o apê, tirou os documentos para a não identificação e jogou a carteira com a carta? Mas não seria mais fácil picá-la? Ou o próprio Marcos – amigo da onça! Isso sim – para continuar com o apê em seu nome, teria agido como o marido?

Dou meia volta e numa “acelerada só”, chego em casa e vou direto ao computador. Pretendo scanear a foto dos dois – a carta prefiro deixar em sigilo - para colocar nas redes sociais com o título “Quem conhece um ou ambos me contate que tenho informações importantes a prestar”. Mas paro, reflito, é justo fazer isso? E se foi a própria Denise que se arrependeu e jogou bolsa e carta no mato? Ou o Zeca que preferiu perder o apê e conservar a integridade da família? Tantas alternativas podem ter acontecido, mas todas com riscos que as famílias sejam atingidas – coisa que os dois amantes acima de tudo não queriam...E o que eu ganharia com isso?


Não! “Sapo de fora não dá palpite! ” ou “Em boca fechada não entra mosca! ” e ainda “Cada macaco no seu galho! “. Os ditos populares são sábios, são a voz da experiência, melhor segui-los...

Encontro de família - SÉRGIO DALLA VECCHIA


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Encontro de família
SÉRGIO DALLA VECCHIA

Através do Metrô, Rodrigo acabara de chegar à Praça da Sé em São Paulo.

A quantidade de pedestres que circulava era imensa. Ele abria caminho entre as pessoas quando se deparou com uma surrada carteira, caída ao pé do marco zero. Apanhou-a rapidamente e a escondeu no casaco até que se sentisse seguro.

Refugiou-se em um bar e curioso abriu a carteira.

Havia pouco dinheiro, uma foto bem antiga de uma mulher, que pelas vestes parecia ser de origem italiana. Também encontrou uma folha de papel oxidado pelo tempo, contendo várias pessoas com o mesmo sobrenome. Procurou mais e achou um endereço de um tal de Jácomo.

Como um cidadão de boa índole resolveu seguir para o endereço citado.

Chegou em uma casa simples, bateu,  e logo a porta foi aberta por um senhor de cabelos e barbas brancas.

—Seu Jácomo? - indagou Rodrigo

—Si, sono io. -  respondeu.

Rodrigo logo foi descrevendo o ocorrido e entregou a carteira em mãos.
A fisionomia de Jacomo era de pura emoção, chorava e abraçava Rodrigo repetidas vezes.

—Esta foto é de minha mama e esses nomes são dos meus fratelli e cugini.

Jácomo era sozinho e não tinha contato com os parentes há muito tempo.

Rodrigo movido pela emoção resolveu ajudá-lo e foi a um canal de televisão pedir para que o dono da carteira aparecesse.

Com a força da mídia, no dia seguinte o dono se apresentou. Era um cugino de Jácomo.

Com muitos abraços e lágrimas de felicidade os primos se encontraram bem a moda italiana!


Rodrigo, realizado pelo seu ato e já com um convite para mangiare uma lasanha, retornou feliz da vida.

BUSCA - Mario Augusto Machado Pinto


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BUSCA
Mario Augusto Machado Pinto

Vendedor-viajante, percorrendo cidades da minha Zona de Vendas visito comerciantes – numerosos fregueses da carteira comercial que luto pra manter e outros, sempre outros novos pra aumentá-la e incrementar meus ganhos.

A chamada “minha zona” tem Franca como “pião”. É justamente onde estou neste momento, sentado num banco da praça principal olhando a juventude andar à volta em dois anéis: um no sentido horário; o outro ao contrário. É assim que se veem e se iniciam os namoros.

- Oi Rico, como vai. Não te via há tempos.

- Oi, tudo O.K.

Aqui sou “Rico, o vendedor”. Tenho apelido como todo mundo nesta cidade. É incrível, mas é verdade. É que sou solteirão, tenho carro próprio e fico no melhor hotel.

- Olha, moço, tava no chão. É seu?

É um catatauzinho de menino de uns 5, talvez 6 anos balançando alguma coisa perto do meu nariz.

- Não sei, digo eu, mas deixa ver. Não, não é.

- Então te dou de presente. Toma! E jogou aquilo no meu colo.

Disse que não queria, mas não adiantou; correndo já estava longe.

Era algo de couro, áspero, desbotado. Pelo desgaste demonstrava ter sido feito lá pelas calendas gregas.

Vamos ver: é uma carteira para guardar as notas, mas não tem nenhuma. Mas, tem um papel amarelado, sujo, bem dobrado com algo entre as dobras. É uma foto que deve ser antiga. Penso isso pelo vestido e pelo penteado da mulher. Bonitona. Chama atenção o penteado ornado com cordão de perolas, tudo pra cima,  parece bolo de aniversário. O papel é uma carta, sem data. Pelo tratamento “Querido” é assunto amoroso. Dou uma passada rápida pelas linhas. Curiosidade nos píncaros. É, é de uma mulher para o namorado dizendo da sua vida nos últimos meses – meses, imagine – a saudade que sente com seu afastamento. Pede para não esquecê-la e pra ajudar, junta a foto.  No mais diz que quer vê-lo, abraçá-lo, beijá-lo e vai pelo caminho da escrita que todos namorados percorrem. 

Gozado, ler me arrepia e, incrível, me comove. Meses, coitada, acredita que ainda durava o bem querer. Mas pergunto a mim mesmo: por que está aqui nesta praça? Será que foi respondida? Pelo jeito, a anterior, não.                               

Volto ao hotel e no silêncio do quarto lembro-me que passei momento semelhante. Minha namorada não respondeu minha carta e meu bem querer foi escorrendo pelas corredeiras da vida. Aí me lembrei de que não reparei se havia algo escrito no verso da folha, atrás da ultima dobra. É não vi, não reparei se estava assinada ou não.

Pego a folha e desvirando a última dobra leio: Não se esqueça do meu aniversário. Só pra lembrar é dia 21. Beijos. Cida.


Comovido às lágrimas lembro-me da querida do meu coração.  Por onde andará?

A Carta - José Vicente J. de Camargo

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A Carta
José Vicente J. de Camargo                                          

A manhã chuvosa me segura na cama. A culpa do ócio e das horas se esvaindo em vão fala

 mais alto. Levanto-me e num andar sonolento tomo o rumo da cozinha a procura do aroma fresco do café – espero que ela não tenha esquecido meu pedido de usar o coador. Passando pela sala deparo com algo diferente estendido no chão ao lado da porta da entrada. O cérebro desadormece e toma alguns segundos para eu reconhecer que é um envelope de carta – e do estrangeiro! – pelo tipo e cores diferentes. Me abaixo com cuidado, para não molestar o nervo ciático ainda adormecido. Bato os olhos e deparo com um nome que não é o meu superposto ao meu endereço. Viro o envelope e vejo um nome feminino no remetente. Chama-me a atenção o país de origem: “Finlândia!” Minha mente – já a todo vapor – dispara: que relacionamento deve ter essa tal de Maria das Dores de Helsinque com José Henrique no meu endereço?  Meus vizinhos por aqui, pelo que saiba, não são... Miro o carimbo com a data da expedição – pode ser carta perdida, de muitos anos! – Mas, não! Coisa de alguns dias...

A força da vontade de compensar as horas que a manhã cinzenta me roubou com algo excitante, comanda meus dedos que começam a roçar o envelope. Não me obedecem! Quando dou conta, o papel dobrado já balança nos meus dedos.

Os olhos arregalam, os lábios esboçam um vago sorriso – tipo Monalisa! – quando percorro as primeiras linhas:

“Meu pé de moleque!                 

Querido, safado, me deixastes louca a procura do amendoim quebradinho do teu beijo. Como podes me abandonar assim? Fugir sem deixar notícias? Deixando-me a paixão a me consumir nesse inferno branco? ...”

Desvio os olhos envergonhado da minha intromissão no âmago da alma daquela infeliz. Meus dedos, segurando o papel, me impedem de continuar. Dobro a folha com cuidado procurando os mesmos vincos. Pouso a carta refeita em lugar visível para devolver ao carteiro.

Satisfeito pelo dever comprido – recordo fugazmente das linhas fogosas trocadas com aquela que há muito se escondeu no passado. O cheirinho do café me empurra à cozinha com vontade de sentir seu sabor quente, só que agora de uma maneira diferente:


Mais intensamente, ardente...

A CARTA - Mario Augusto Machado Pinto


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A CARTA
Mario Augusto Machado Pinto

"O plac, plac das alpargatas ressoam como verdadeiras bombas no meu crâneo "Eta ruindade de caipirinhas." Preciso abolir.

Abri a porta de entrada do apartamento, abaixei-me (ai minha lombar!), e ao levantar o jornal desde o chão reparei que ficara no piso um envelope alaranjado, grande e ligeiramente amassado. Peguei-o,  e ao ler o endereçamento - que é o meu - verifiquei que eu não era o destinatário. Virei-o para checar o remetente: postado no exterior, nome estrangeiro que me é completamente desconhecido  e seu endereço é o número de uma caixa postal. Qual cicatriz ensanguentada chama atenção o carimbo URGENTE em letras maiúsculas. Raios o partam, e esta agora? 

Minha primeira reação é mescla de curiosidade e  espanto. Sobrepeso-o, é leve, dentro deve haver apenas papel.

Que diacho, deve ser propaganda de empresa estrangeira.

Abro? Não abro? CURIOSITY KILLED THE CAT, mas é pra abrir. Sento-me na saleta da TV,  e, curioso, começo a abrir o dito.

Dentro,  entre duas cartolinas de proteção há uma foto de um jovem de uns 12 a 15 anos. Fico olhando, olhando enfeitiçado qual ratinho pela cobra. Viro pra ver o que há no verso. Está escrito:  "É você com 15 anos no dia em que ganhou uma partida de xadrez. Surrupiei a foto. Endereços e nomes são falsos. 

 Você tem que descobrir os certos. Dou uma pista: estou na região do Ártico, mas não tenho renas. Serve?"


A passagem aérea classe econômica pra Finlândia custou-me US$5,200.00".

SOLTARAM A BRUXA - Oswaldo Romano


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SOLTARAM A BRUXA
Oswaldo Romano       
       
        Hoje é um daqueles dias que eu costumo dizer “Soltaram a Bruxa”.  

Ali atrás dei uma topada, vi estrelas! Coitado do meu dedão! Já vinha sofrendo da vez anterior, a unha está amarelada. Escapou do meu pensamento aquele palavrão, só não foi alto porque deu tempo de contê-lo.

        Mal me refiz, continuei agora olhando onde piso. “Gato escaldado...”. A calçada está muito ruim, buracos, pedras levantadas. O responsável é o proprietário do imóvel. Quem vigia e aplica multa é a Prefeitura. Bem... Não interessa, mas quem vai cuidar do meu dedão?

        Enquanto criticava a sujeira da calçada, eis que vejo uma carteira. Apanho-a ou deixo pra lá? Pode ser que a Bruxa hoje esteja do meu lado. Coisa difícil, nunca aconteceu.

        Parado, quase em cima, deixo as pessoas passarem. Me abaixo, pego-a, momento em que um senhor de camisa verde, apressado, me vê, e sem parar olha para trás e ri, depois continua seu andar atropelado. Ainda bem, odeio curiosos.

        Vi que a carteira era velha, surrada. Andei um pouco me afastando do burburinho. Encostei-me a uma porta fechada, e abri a carteira com cuidado. Era de um couro ensebado guardava uma foto de mulher com bordas amareladas, e uma carta também manchada. Abro para ler:

Pedro, agora chega! Escrevo porque não tive coragem de falar pessoalmente. Com seu papo que tanto se orgulha iria tentar me convencer. Eu gosto de você, mas nunca na vida passei tanta fome, como agora. Não adianta me procurar. Você não vai me encontrar. Nem no cemitério você vai me achar. É só”.

         Do dono da carteira nada encontrei, nem cheiro. Tem a foto. A foto seria dela ou de uma filha. Posso procurar esparramando pela mídia.

        Maldita hora em que a peguei. Pensativa, imaginava o que fazer.

        Vejo voltando o homem que me viu pegar. É ele, o de camisa verde. Está calmo agora, sem aquela correria.

Assim que se aproximava, eu disse:

—Oi, oi senhor.

Me viu, parou e logo perguntou:

— E ai? Ficou rica?

 —Antes não tivesse pego - falei.  Tem uma foto de mulher e uma carta de despedida, velhas, malcheirosas.

Não tem qualquer endereço. O senhor pode me ajudar?

—Dona, eu posso. Fiz mal em parar aqui.  Não tem um telefone, um nome completo... Nada, nada?

—Não, nada.

—A gente é curiosa... né? Nem pego nela. Posso ajudar, sim. Livre-se dela. Vê aquele guarda ali na esquina? Então...

 Fui, boa sorte.

A CARTA QUE CHEGOU TARDE - Carlos Cedano

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A CARTA QUE CHEGOU TARDE
Carlos Cedano

Mário chega em casa e a primeira coisa que enxerga é um envelope grande no chão que está dirigido a uma pessoa que não é ele, mas o endereço sim é o seu. Os selos e carimbos do correio mostram que ela foi despachada há mais de vinte dias da Ucrânia e fica ainda mais intrigado por que não conhece ninguém naquele país, vira o envelope e vê que o remetente é João Batista Rondon e não tem a menor ideia de quem poderia ser!

Guarda o envelope vai dormir pensando nessa confusão, não conhece nem o remetente nem o destinatário, mas o endereço é o seu, será que o remetente confundiu-se?  

No dia seguinte cedo inicia uma peregrinação pela vizinhança.   De casa em casa vai perguntando se alguém conhece o conheceu Sebastião Dias. Recebeu só respostas negativas, ninguém o conhecia nem tinha escutado seu nome, estava a ponto de desistir, mas como somente faltavam duas casas continuou, na penúltima que visitou foi atendido por uma velha senhora que o escutou gentilmente e lhe disse:

Sim eu o conheci, sua mulher fugiu com um homem chamado João Batista, foram para muito longe, mas não se sabe para onde, mas isso já há mais de dez anos!

Encorajado por essa informação Mario volta para casa e abre o envelope:

Prezado Sebastião: Você deve estar surpreso de receber esta missiva depois de tanto tempo, mas agora que Anastásia morreu e a seu pedido e vencido pelo remorso te escrevo para implorar seu perdão para mim e para ela. Acredito que após tantos anos seu ressentimento e decepção tenham-se atenuado e consiga perdoar nosso ato impensado e cruel. Cordialmente, João Batista.

Agora Mario decide indagar pelo paradeiro de  Sebastião e volta para falar com a velha senhora:  


Seu Mario, Sebastião morou onde o senhor mora agora, ele nunca se recuperou da tristeza do abandono e da traição. Definhou até morrer! O nome e o endereço estão corretos, mas o momento não, a carta chegou tarde, muito tarde!

A FORÇA DE UM FILHO - SERGIO DALLA VECCHIA

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A FORÇA DE UM FILHO
SERGIO DALLA VECCHIA

Era solteirão convicto e residia em um Flat na cidade de São Paulo.

Levava uma vida sem proposito. Trabalhava durante o dia e a noite jantava com amigos e por vezes com a paquera mais recente e nesse caso a noite era estendida até o Flat.

No dia seguinte lá ia ele para a sua jornada de trabalho. Era uma rotina inócua.

Certo domingo, sentado confortavelmente na poltrona lendo jornal, um ruído na porta chamou sua atenção, em seguida ouviu um som característico de envelopes passando por debaixo da porta.

A curiosidade o fez sair do conforto e ir até a porta pegar a correspondência.

Entre elas havia uma carta que o intrigou. Vinha do exterior e o destinatário era outra pessoa, mas o endereço era o seu. Tateou e reconheceu um papel de qualidade, enquanto uma leve fragrância de alfazema era inalada. Logo imaginou se tratar de uma remente feminina, o que se confirmou quando virou o envelope e leu o nome de Ester. No envelope havia um carimbo de urgente e vinha de Vancouver, Canada.

Por se tratar de uma correspondência urgente e entregue em seu endereço ele não teve dúvida, abriu a lateral da carta e retirou a carta.

Entendeu que Ester e Ronan estavam separados e tinham um filho no Canada. Ele se formou em medicina e o seu maior desejo era ter o pai na festa de formatura.

O solteirão ávido de uma família comoveu-se e foi para a portaria do Flat. Com o zelador verificou que Ronan também residia no prédio, mas em outro andar.

Dirigiu-se ao apartamento do destinatário, desculpou-se pela violação do envelope e o entregou. Enquanto Ronan lia a carta, o solteirão observou a expressão de alegria brotando em seu rosto até que aflorasse como uma lágrima. Recebeu um abraço e retornou para casa.

Terminou o domingo pensativo e reavaliando a sua solidão.

  

O peru de Natal - Ana Maria Pinto


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Das histórias africanas
O peru do Natal.
Ana  Maria Pinto

Era quase Natal. O clima de festa já chegara ao coração de todos naquela província africana e as casas já se enfeitavam para comemorar.

Eu estava atrasada para o trabalho e corria feito barata tonta tentando organizar em tempo meus papeis para sair, quando entrou em casa o jardineiro Gomes. Como fazia em todos os Natais ele me trazia um peru vivo que seria servido na ceia. Um mimo que eu já não sabia conviver sem. O Gomes era um sujeito afeiçoado a praticar certas gentilezas e já havia incorporado que o peru de Natal seria um presente seu.

Na urgência de minha saída passei a incumbência à minha empregada:

— Prepare o peru, vamos deixa-lo temperado durante a noite para levar ao forno somente amanhã.

O meu dia foi um furor, e no final de tarde cheguei estafada. Entrei devagar na garagem e me assustei com o que vi. Uma ave tinha metade do corpo depenada e outra metade emplumada. Realmente era algo estranho aquilo.  Foi quando notei tratar-se do peru que o jardineiro trouxera. O pobre animal saltitava alternando os pés no chão emitindo um grunhido esquisito. Era visível o sofrimento do bicho. Fiquei desolada.

— Maria, o que é isso, o que aconteceu com o peru?

— Deu muito trabalho depena-lo, pois não sabia que havia de mata-lo antes.

Era evidente que a empregada, como todas elas nessa época, não sabia de nada, o que me fez ter consciência do atraso cultural. Senti que parte era minha culpa, pois deveria ter explicado o processo todo.

Então, dei ordem para matar o bichinho o que evitaria mais sofrimento. Naquela noite o peru permaneceu de molho. Minha culpa era aliviada pelo compromisso com a esperada comemoração natalina.

Pela manhã a ave foi ao forno de maneira majestosa. O cheiro exalava ao longe. Até Gomes foi convidado para a ceia.


Curiosamente, nunca um peru ficou tão bom!

ALUNAS NOVAS 'AS QUARTAS-FEIRAS: Dóris e Silvinha


Chegaram para dar mais brilho à turma, duas novas integrantes: Silvia Helena de Ávila Ballarati e Dóris Therezinha Albero.



Sejam bem vindas!















MACHISMO - Oswaldo U. Lopes

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MACHISMO
Oswaldo U. Lopes

         No grego o sufixo ismo era usado com os verbos que indicavam movimento. Automobilismo é um bom exemplo, movimento de carros. Na nossa língua os dicionários chegam a registrar “s” opções que utilizam esse sufixo. Encontramos exemplos em movimentos ou pensamentos políticos (getulismo), formas de governo (autoritarismo, parlamentarismo) e mesmo correntes artísticas (cubismo, impressionismo).

        No nosso caso não é difícil perceber que machismo se refere a um comportamento e o habitue desse comportamento é o machista.

        Sempre me esforcei para não ser ou parecer machista, nem sempre com bons resultados. Às vezes fica difícil explicar que não ser machista, não implica em igualdade de gêneros. Creio firmemente que eles não são iguais o que eles têm que ter é muito respeito mutuo e tratamento igual perante a lei. Me arrepia a noticia de que na Rússia aprovaram uma lei que descriminaliza o chamado crime doméstico (99,5% das vezes violência contra a mulher).

        Já fui derrubado, em muitas ocasiões, da minha tola empáfia. Uma memorável vez, foi por uma aluna excepcional que tive e que foi minha orientada de mestrado e doutorado. Eloisa sapecou no meio de uma reunião com outros pós-graduandos:

- Mas o professor (eu) é um pouquinho machista né não?

        Ela era notável por certas observações que denotavam aquela notória sabedoria caipira.

- “Para o homem a mulher tem que molhar a barriga no tanque e secar no fogão”.

        Dela se poderia dizer, como aquela arguta professora na Inglaterra dissera, de minha filha Lúcia então com 8 anos:

- She is a very determined little girl.

        Eloisa era e ainda é.

        Vai dai que perdido em pensamentos em meio à chuva que não tinha fim, sem nem poder tirar o nariz de casa para ir à praia, li um texto, numa revista feminina, de Fernanda D’Umbra. Transcrevo ipsis litteris:

“Comentei que nunca havia lavado roupa de homem”... Era, portanto, alguém totalmente apto a lavar a própria roupa; seria até injusto dizer o contrário “.

        Eu já lavei a minha própria roupa, mas em condições digamos não habituais: viagens ou quando por algum motivo fico sozinho em casa.  No geral alguém (certamente uma mulher) lava a minha roupa. Tai sou um machista que não lava a própria roupa. Confesso que se quiser faze-lo a confusão vai ser grande e não vai dar para explicar que estou querendo simplesmente deixar de ser machista.

        Mas reconheço o argumento de Fernanda e sua crítica avassaladora.

        Só num ponto discordo dela e de sua poderosa argumentação:

“Os homens só não podem fazer duas coisas: gestar e amamentar”.

        Gestar não podem, amamentar depende das circunstâncias. Não falo dos tempos atuais em que o mundo se tornou muito mais tolerante e a diversidade é encarada como natural e respeitável.

        Há no famoso livro Testut de anatomia (são quatro alentados volumes) a descrição que sempre surpreende e chama a atenção, dos jovens calouros das Faculdades de Medicina.

        No inicio do século XX, lá por volta dos mil e novecentos e pouco, numa pequena e distante aldeia francesa uma terrível nevasca bloqueou completamente, um casal de jovens camponeses. A mulher dera a luz uma menina e tornou-se vitima de uma fortíssima febre puerperal que a impedia completamente de amamentar. Desesperado sem saber o que fazer o marido deu o próprio peito para a criança e rapidamente começou a aleitá-la. O caso teve um final feliz: a mulher se recuperou e o bebe graças ao aleitamento paterno sobreviveu e viveram felizes e tiveram outros filhos sem que ele tivesse que amamentar de novo. A literatura médica é prodiga em relatos semelhantes. A glândula mamária no homem pode produzir leite, muitas vezes sem maiores dificuldades, bastando a estimulação dos mamilos.

         Ouso dizer que o camponês não tinha ideia da diversidade sexual de nossos dias nem da tolerância que temos (graças a Deus) para as variações de gênero que ocorrem nestes tempos. Alguém precisava providenciar leite para o recém-nascido e ele o fez.

        Onde quero chegar? Bem, só as mulheres podem gestar e todos nós podemos lavar nossas próprias roupas.

        

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Pelos direitos dos homens

Os homens só não podem fazer 2 coisas: gestar e amamentar. Todo o resto – cuidar de si mesmo, dos filhos, da casa – são seus direitos e devem ser exercidos

Estávamos eu e mais três amigos – todos homens – batendo papo depois de uma oficina de teatro. Armou-se um temporal e eu lamentei que minha roupa no varal iria molhar. Um deles disse que sua mulher também devia estar muito brava porque tinha lavado um monte de camisas dele.
Comentei que nunca havia lavado roupa de homem. (Na época, eu estava no meu primeiro casamento.) Ele achou muito estranho que meu marido lavasse a própria roupa. Respondi que ele era um grande dramaturgo, um escritor brilhante, ator e diretor muito talentoso e, além disso, tinha uma saúde de ferro. Era, portanto, alguém totalmente apto a lavar a própria roupa; seria até injusto dizer o contrário. Meu amigo ficou calado por um tempo. Perguntei se eles queriam mais uma cerveja, fui buscar e a chuva caiu forte.
Tive certa pena desse meu amigo. Na minha ideia de liberdade, não cabia o fato de ele depender de alguém para cuidar da sua roupa. Se a pessoa tem condições físicas e psíquicas para lavar a própria roupa, por que não o faria?
Então comecei a listar mentalmente os muitos direitos que, com o tempo, foram tomados dos homens. Eles não poderiam ser privados, por exemplo, de cuidar da própria alimentação. Cozinhar é tão bom quanto comer, e saber fazer arroz, feijão, bife, macarrão, salada, suco, legumes refogados e o que mais eles quiserem gera independência e poder.
Buscar as crianças na escola também é um direito do qual os homens não poderiam abrir mão – jamais. Eu não tenho filhos, mas busquei meu sobrinho na escola muitas vezes. Nada se compara à carinha deles saindo com aquela mochilinha nas costas. É a coisa mais linda. Sem contar o luxo que é a conversa a caminho de casa. Homens que ainda não exercem esse direito deveriam lutar por isso.
Cuidar dos filhos é um privilégio que as mulheres e os homens precisam dividir de forma igualitária. Outro dia meu atual marido penteava os cabelos da filha dele. Os dois no grau máximo de uma relação de amor e confiança que só se estabelece com as mãos. Afinal, são as mãos que amam. Esse papo de coração é conversa. E amar não é só botar dinheiro em casa e dar exemplo. Isso é muito velho, já era. Os homens podem mais e sabem disso. 
Os homens só não podem fazer duas coisas: gestar e amamentar. Todo o resto – cuidar de si mesmo, dos filhos, da casa, dos pais, do corpo – são seus direitos e devem ser exercidos.
Até mesmo não lavar as próprias roupas é um direito dos homens. Se quiserem usar as roupas sujas, o que podemos fazer? O direito de escolha é deles. Eu estou casada pela segunda vez e nem preciso dizer que continuo não lavando as roupas do meu marido. Ele é forte e não necessita de mim para isso. Até o cuidado com lençóis e toalhas é dividido. E nunca falamos a respeito; não precisa.
Mas uma vez eu recolhi as roupas dele e fiz o jantar. Quando ele chegou, eu estava lendo no sofá. Ele elogiou o cheiro da comida, me beijou e foi para o quarto. Voltou para a sala e disse baixinho ao meu ouvido: “Eu vi a roupa em cima da cama. Obrigado”. Então me deu um beijo bem demorado e o jantar esfriou de tanto esperar.