MEDITAÇÕES NATALINAS - Oswaldo U. Lopes

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MEDITAÇÕES NATALINAS
Oswaldo U. Lopes

         O Natal é uma festa típica do hemisfério norte. Um pequeno e festivo intervalo num longo inverno que se aproxima. Ótimo para comes e bebes. Não creem? Na Inglaterra além do Natal o dia seguinte também é feriado (boxing day) para curar a ressaca e se refazer da comilança.

         A data foi escolhida para coincidir com o solstício de inverno, o sol renasce de sua ida maior em direção ao sul. Ou seja, o Natal comemora que o sol voltará a brilhar porque já foi o mais longe de sua orbita na direção contrária.

         Para os do hemisfério sul o Natal indica que estamos no auge do verão e que dali em diante o sol irá perder sua força.

         Num pais tropical a coisa complica. Vinhos encorpados? Carnes com molhos fortes ou carnes de animais selvagens, tipo javali? Gansos a patos cozidos na própria gordura? Em pleno verão?

         E o que se faz então? Pratos frios, vinhos brancos, espumantes ou sangrias, tudo gelado, bem gelado.

         Confusão à vontade. Quem se esquece de que as longas férias de verão vêm junto e misturado com o Natal e o Ano Novo e o fim do ano escolar. Para não falar do carnaval que esta na esquina esperando pelos pecadores. Lá para cima o Natal é apenas um pequeno intervalo no período escolar.

         É mais fácil encontrar o espirito de Natal acima do equador? Sem duvida é! Faz frio, as pessoas tendem a ficar mais juntas, comidas quentes vão muito bem com o inverno e é natural chegar-se, reflexionar e se emocionar com a lembrança do menino e da manjedoura.

         Ainda por cima que boa parte das terras equatoriais ou do hemisfério sul são ou foram colonizadas pelo povos da Europa Ocidental e, portanto herdaram o costume transposto para um clima totalmente diverso.

         É como se fosse a festa da nostalgia. Saudade de uma terra distante que de fato só existe na memória coletiva ou nas narrativas das nonas. Neves de flocos de algodão, pinheiros de Natal, não o a única arvore ainda verde, mas uma das muitas que estão verdes, muito verdes.

         Embora possam até se confundir no calendário, neste ano de 2016 a festa das luzes, chanucá, dos Hebreus também será comemorada no dia 24 de dezembro, elas não guardam nenhuma relação entre si. É possível até dizer que, dispersos pelo mundo cristão, os judeus passaram a cultivar a sua festa das luzes na medida em que o Natal se tornava uma festividade cada vez maior, até para não cristãos.

         Enfim, lá como cá faz tempo que o espirito de Natal foi-se e ficou uma história mal contada de uma virgem que colocou seu filho numa fria manjedoura num vilarejo chamado Belém.


         Comemos e bebemos para celebrar seu nascimento e não seus ensinamentos.

PRA ONDE ME LEVARIA AQUELA ESTRADA? - Ledice Pereira



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PRA ONDE ME LEVARIA AQUELA ESTRADA?
Ledice Pereira

Eu precisava ficar só. Havia dias que buscava o isolamento. Mas quem diz que eu conseguia. Os colegas de escritório, os amigos, os primos, todos queriam saber o que estava acontecendo.

Tentei deixar claro que estava tudo bem, mas eles exigiam uma explicação, uma razão.

Se nem mesmo eu sabia...

Só sentia necessidade de fugir do burburinho da cidade grande. Não ver ninguém, não falar com ninguém, nem por telefone ou por rede social, enfim.

Assim que consegui me desvencilhar de todos, aproveitando um instante de distração, dirigi-me à garagem, peguei meu carro, dei marcha à ré e parti sem destino. Ou melhor, parti para o meu destino.

Só pensava em pegar a primeira estrada que me levasse àquela praia deserta.

Não queria ouvir nem o som do radio. Desliguei-o.

Enfim, só!

Comigo mesmo, com meus pensamentos tendo à frente apenas a longa e deserta estrada.

Há quanto tempo não desfrutava de um momento tão meu!

Pude sentir minha respiração e até as batidas compassadas (ou descompassadas) do meu coração, que apenas se misturavam ao tic tac do meu relógio de pulso.

Após aproximadamente cinco horas, avistei os primeiros sinais daquela praia virgem, cheia de pedregulhos, objeto de minhas saudosas lembranças de infância.

Estava igual. Grossas lágrimas começaram a escorrer inundando meu rosto.

Não fiz nada para impedi-las.

Fiquei ali horas. Nem percebi a escuridão que a noite trouxera.

Tive ímpetos de me deitar ali mesmo, naquela areia grossa e deixar-me ficar.

A razão falou mais alto.

Saí dali, alma lavada, em direção ao bar do Chico, onde tantas vezes meu pai me levara a almoçar.

O Chico, assim como meu pai, já havia passado para outro plano. O local, entretanto, permanecia igual.

Comi um peixe assado envolto numa camada grossa de barro, que o dono apregoava como sendo o melhor da região.

Confesso que reminiscências da infância me transportavam para um sabor muito melhor, mas, faminto, o devorei com tudo que o acompanhava.

Já tarde, procurei por uma pousada onde pudesse descansar.

Estava exausto!

As emoções, o cansaço, a nostalgia me embalaram num sono dos justos.

Acordei quando o sol já ia alto e os passarinhos insistiam em travar uma batalha de sons.

Banho tomado, tomei meu pingado com pão e manteiga, o suficiente para sair desbravando o local e descobrindo outros paraísos.

Sentia-me melhor!

A natureza e as lembranças, que o lugar me trazia, fizeram-me bem.

Realizaram em mim uma verdadeira catarse.


A BELÉM. - Mario Augusto Machado Pinto


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A BELÉM.
Mario Augusto Machado Pinto

Blam, blam, blam.

Bateção desgraçada. Anda! Vamos! Veste a roupa! -  grita ela.

Creusa, inda não é hora.

Há tempos que quero fazer esta viagem. Agora consegui e essa chata quer que eu desista? Tá maluquete da silva.

A paisagem é formidável. É estrela pra todo lado. Acho que de tanto virar o pescoço para admirá-las ainda vou ficar com torcicolo, mas não tem jeito: é muita beleza junta. Olha a Via Láctea, a não sei o quê Centauro, o Cruzeiro do Sul. Olha aquelas grandonas. Meu conhecimento acaba por aqui, mas meu caminhar tem que continuar. Rima na hora errada.

Não sei bem como chegar lá, mas tudo tem jeito, né? Então este também tem. Tenho que ir pro Leste. Pegar carona, mas qual? Os ônibus passam tão rápido que os motoristas nem ligam pro sinal do meu braço esticado. E aquele que vem lá? Parece mais devagar. Nossa! como é grande, brilhante, cheio de laços e cordas. Dá pra ir, mas, estranho, não há ninguém esperando no ponto e ele não para. E eu? Continuo zé Bedeu?

Vamos que vamos. É botar sebo nas canelas e correr mais rápido. Assim, mas sem me distrair, cara. E como não vou me distrair? É tanta coisa linda, colorida e, que que é aquilo alí? Ora, são passageiros que se cansaram de esperar pelos ônibus e dançam, cantam, jogam estrelinhas uns nos outros. É um verdadeiro musical da Metro encenado aqui em cima. Só falta o Red Skelton aparecer e dizer: “Jái perdu ma plume dans le jardim de ma tante!” e a Esther Willians mergulhar.

Tô chegando. Anda, vamos, só mais um pouquinho. Já dá pra ver que a porta de entrada tá com o sinal vermelho: trancada! Tá lotado. Será? Azar. Mais rápido! Pô, desse jeito ganho a nova São Silvestre. Nossa! Como tem gente apinhada lá dentro. Dá pra ver as cabeças dos caras olhando pra fora. Tão fazendo sinais. É pra me afastar! Vou nada. Mais perto! Mais perto! Devagar, vou chegando, chegando, tô pertinho. Grudei nele. Bato na porta, dou socos e pontapés. Quando eu contar, o primo Carnera vai gostar e dar muita risada.

Chamo eles pelo celular. Atendem:

— Cara, o que quer? Vai embora, tamos lotado! Não enche o picoá, pô!

Diz isso com aquela voz que parece sair duma lata de sardinhas.

— Não interessa! Quero entrar! Preciso ver minha prima que vai ter bebê.

Tô com voz suplicante, mas não adianta nada. O negócio é aumentar o tom pra demonstrar urgência, ansiedade. Sabe aquela que dá quando o Vampeta corre pra chutar um pênalti? E a raiva quando erra? É isso tudo.

— E nós com isso? Pergunta o cara que agora vejo na janelinha de cima.

— Muito. Vocês não vão pro leste? Então. Eu também. Quero conhecer meu priminho. E vamos logo com isso! Tô apertado!  Ouviu bem? Tô apertado, digo exagerando só pra aperrear. Sem resposta.

O cara não está nem aí! Escuto roc, roc, roc pelos fones : é barulho de mastigação de torradas.

— Você tá comendo? Pergunto com aquela voz rouca e profunda de guloso pensando em geleia de mirtilo.

— Claro. Hora do lanchinho da tarde, responde o sacana dando risadinhas.

Isso me dá raiva e água na boca. Não aguento. Entre dentes digo:

— Vamos logo! Tô começando a ficar com frio!!!

Dou saraivadas de socos e pontapés na porta e grito continuamente que quero entrar.

Aí o cara da janelinha de cima diz que vai falar com o fiscal e faz sinal pra eu ficar na linha. E eu chutando a porta: plan, plan, plan.

Tem muita estática, mas mesmo assim ouço o som distante de parte da fala já começada:

— ...Creusa, temos um problema...



A VELHA SENHORA - Carlos Cedano

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A VELHA SENHORA
Carlos Cedano

Todos olhavam para o homem que corria desesperadamente para pegar o ônibus em marcha que se distanciava. Com o rosto tomado pela angustia o cara persistia na sua desenfreada corrida.

Olhei para ele com cuidado e a julgar pelo belo terno que vestia com gravata e camisa combinando, pasta de couro preto e sapatos reluzentes, pensei: ” Com certeza é um executivo indo para uma reunião muito importante!”  

Estava indagando-me sobre o motivo de tal reunião quando o coitado tropeça e cai espalhafatosamente no meio da rua, as pessoas correm para acudi-lo e tentam colocá-lo em pé. mas ele tinha  sofrido um infarto fulminante. Perdeu o ônibus e a vida também!

Eis que chega um carro da policia com três detetives que se aproximam do cadáver e perguntam para as pessoas se o morto levava uma pasta preta de couro. Nenhuma resposta, mas como eu tinha observado a sequência dos fatos disse para o detetive mais velho que quando ele caiu a pasta voou para longe e i indiquei com o dedo o lugar, mas agora não havia pasta nenhuma!  

Sou jornalista disse: Podem me dizer de que se trata? O policial chefe disse: foi um assalto a uma joalheria e estávamos atrás de dois ladrões, um já está preso, e este agora está morto, mas não localizamos a pasta.  Onde ela está? O chefe continuou indagando na esperança de que algum dos presentes desse uma pista, mas ninguém falou e ninguém sabia de nada, e logo se dispersaram sob o olhar atento e frustrado dos policiais.

Uma velha senhora sentada no banco do ponto de ônibus se levanta, calmamente vem até onde estávamos, tira debaixo de seu casaco uma pasta preta e pergunta para os policiais:

— É isto que os senhores estão procurando?  Estive o tempo todo sentada no ponto ônibus e o tempo todo fui ignorada por vocês.

— Achei que... — ia dizer o chefe titubeante — mas a velha senhora o interrompeu:

— Achou, meu senhor, que interrogar uma idosa seria uma perda de tempo? Que os velhos somos incapazes e não confiáveis né?

— Não, não é isso...

— Para vocês, os idosos somos transparentes, não nos enxergam. -  e dizendo isso entregou a pasta, deu meia volta e foi embora deixando os policiais com cara de tacho!

Tinha anotado tudo minuciosamente e até tirei fotos da velha senhora, amanhã a noticia aparecera no meu jornal como matéria de primeira página, será uma noticia e tanto justamente amanhã, o Dia do Idoso!


SERINDIPIDADE - Oswaldo U. Lopes


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SERINDIPIDADE
Oswaldo U. Lopes


            Pois aqui estamos procurando longe o que esta perto. Não, não é o Google que está longe e que por sinal não vai ter serendipidade, mas com sorte serendipe e não vou tirar o prazer de você encontrá-lo.  Posso ajudar dizendo que Serendipe é um antigo nome da ilha do Ceilão que, por sinal, hoje se chama Siri Lanka. Ela já era conhecida pelos gregos com o nome de Taprobana e agora encontramos, é os Lusíadas mesmo.

            Se alguém falar era uma vez um menino lobo ou uma menina loba a nossa imaginação irá a uma velocidade super iônica, que é bem maior que a supersônica, para a Índia a procura de Mogli e seus primos.

            Não precisa, basta procurar Padre Cícero, no convento do Caraça, sentado no terraço, quando começa a escurecer, e ficar calado ouvindo suas histórias dos lobos guará e da menina que veio com eles.

            É uma antiga tradição do convento, altas horas da noite, alimentar os lobos com pedaços de carne crua.

            Não há e nunca houve intenção dos padres de domesticar ou criar os lobos. É uma convivência que se estabeleceu há muitos anos e que se limita a isso; madrugada alta, os lobos aparecem e pegam a carne crua deixada no chão e vão-se embora. Alguns mais confiantes chegam a se aproximar dos padres, mas o contato para por ai.

            Numa dessas noites frias de junho qual não foi a surpresa de Padre Cícero em ver surgir a matilha e no meio, inconfundível, uma menina que em tudo e por tudo se comportava como um lobo. Andava sobre mãos e pés e se impulsionava com as pernas como se fossem patas. Grunhia e arreganhava os dentes para os demais e abocanhava seu pedaço de carne.

            Padre Cícero ficou boquiaberto e começou a investigar. Chegou rápido na viúva Eulália que tinha uma filha Eugenia de um ano de idade. Eulália, com a morte do marido vítima de acidente peçonhento, herdara uma carvoaria do tipo das que se encontram naquelas paragens.

            Ela era briosa, recusou toda e qualquer ajuda e tocava a carvoaria sozinha e ainda cuidava da filha. Diziam que ela se dava mias com os lobos que com os humanos. Um dia foi encontrada morta e a filha desaparecida.

            Tivera a chamada morte natural, sem sinais de violência. Eugenia desapareceu e todos acreditavam que fora devorada pelos lobos.

            Agora, passados sete anos ali estava ela, viva e fazendo parte da alcateia. Padre Cícero tentou em vão, vários tipos de aproximação com a menina loba, sem resultado. Só ouvia rosnado e precipitadas fugas.


            Durante três anos foi vista perto da fogueira e dos pedaços de carne. Depois nunca mais. Vida de lobo, morte de lobo?

A GOTA D’ÁGUA IRRELEVANTE - Oswaldo U. Lopes

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A GOTA D’ÁGUA IRRELEVANTE
Oswaldo U. Lopes

         Lá vinha ela escorregando pela folha larga e verde, havia outras, mas ela se achava muito especial. Sem mim, o rio seca, ela pensou enquanto com certa soberba olhava outras gotas d’água que escorregavam também.

            Quem foi mesmo que disse que o rio é imóvel? Parmênides ou Heráclito? E olha ela esbanjando sabedoria, como é que uma simples gota d’água sabia que o rio pode ser considerado imóvel, porque o movimento é ilusório ou nunca o mesmo porque suas águas estão em movimento constante como argumentava Heráclito:
            “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio

            Lembrou até daquele menino, aluno de Agronomia que sentado na margem falava meio italianado:

            “A água vai para onde ela quer e não para onde você quer”, refletindo a ideia de que você não pode dirigir o fluxo de água por sua vontade, porque ela não tem vontades e segue mesmo é as leis da física.

            E a nossa gota d’água onde anda? Soberba e altaneira acaba de descobrir que também não vai para onde quer, mas para onde as leis da matéria a levarem. Bem que tentou se segurar na borda da folha, mas só deu tempo de gritar socorro e cair no fundo de uma linda rosa.

            Oba! Um lugar digno de mim! Exclamou.  Só que outras gotas foram chegando e a rosa se encheu d’água e transbordou.

            A gota caiu no rio e enquanto navegava pensou:

            ─ Heráclito tinha razão o rio nunca é o mesmo. Não sou irrelevante! Sem mim o rio não anda! Bem, é verdade que sem mim inclui milhares de outras gotas d’água, mas a minha parte é só minha.


O REVÓLVER DO VASCONCELOS - Oswaldo U. Lopes

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O REVÓLVER DO VASCONCELOS
Oswaldo U. Lopes

         Falar sobre a importância das mãos na história da humanidade seria chover no molhado. Há quem diga que a pequena modificação no calcanhar que nos fez ficar eretos e a oponência do polegar que nos fez capazes de segurar e empunhar coisas explicam toda a evolução dessa espécie no mínimo curiosa, o homo sapiens.

            Na medicina as mãos sempre foram muito prestigiadas. No código de Hamurabi talvez o código de leis mais antigo que se conhece, o mau uso da lanceta pelo médico previa que se lhe cortassem as mãos. Hoje com o desenvolvimento de micro técnicas e sistema óticos capazes de propiciar ampla visão com mínima penetração a figura heráldica do cirurgião ficou um pouco velada, mas ainda não desapareceu.

            Quando me formei em 1961, os cirurgiões eram semideuses, para não falar deuses completos. A sala de cirurgia era um templo onde se praticavam os ritos mais solenes da arte médica, os gestos absolutamente litúrgicos, as roupas impecáveis, o silencio maior do que nas grandes igrejas, enfim tudo em torno dessa figura maior: o cirurgião.

            Doutorei-me cedo, em 1964 quando ainda no terceiro ano de residência. Não era habitual, mas eu realizara um trabalho experimental sobre choque hemorrágico e isso me permitira ser, digamos, precoce.

            O hábito eram as teses versarem sobre levantamentos clínicos, seguimentos de casos e condutas. O campo da medicina experimental ainda era novo. Minha defesa foi bem sucedida e alcancei a nota máxima. Na banca havia um professor, Gil Soares Bairão, chefe do serviço de anestesia que me conhecia bem e que havia feito também uma tese sobre choque experimental.

            Nesse momento, um famoso e austero professor, um dos monstros sagrados da Faculdade de Medicina, estava escrevendo uma extraordinária revisão sobre choque hemorrágico, e o Prof. Bairão havia lhe mostrado meu trabalho que ele incluíra na revisão.             Por sugestão, riquíssima desse mesmo Prof. Bairão eu deveria levar um exemplar da tese na casa do outro famoso professor.

            Foi dessa maneira que eu fui introduzido no mundo do Prof. Benedito Montenegro.

            Benedicto Augusto de Freitas Montenegro nasceu em Jaú em 1888, na Fazenda Rio Pardo. Seu pai era espanhol da Galícia e sempre o incentivou a estudar. Concluiu seus estudos básicos no Colégio Mackenzie já famosa escola na cidade de São Paulo. Em 1909, com apenas 21 anos, graduou-se em medicina pela Universidade da Pensilvânia. Foi sem dúvida o maior cirurgião de estomago do país. Contam que ele teria feito mais de três mil gastrectomias, a cirurgia que se usava no tratamento da ulceras estomacais ou duodenais.

            Pessoalmente devo ter feito umas vinte. Era o tratamento da época e dava resultado, havia às vezes complicações, mas inegavelmente a vida dos doentes melhorava. Costumo dizer que no caso das ulceras de duodeno ou de estomago, nós os cirurgiões fomos substituídos por um comprimido duas vezes ao dia.

            Ninguém poderia imaginar que uma bactéria conseguisse viver e se reproduzir num meio tão ácido quanto o estomago. Não fosse por dois cientistas australianos, nem saberíamos da existência da bactéria Helicobacter pylori nem que era ela que causava as temidas ulceras. Barry Marchall e Robin Warren em 1982 não só identificaram a bactéria, como o mais difícil, cumpriram os famosos quatro postulados de Koch (premio Nobel de Medicina 1905) que sacramentava a relação causa-efeito de uma doença produzida por um microrganismo. Marchall chegou mesmo a inocular-se com a Helicobacter, ingerindo-a por boca, documentou a lesão que ela causava, recuperou a bactéria de seu próprio estomago e curou-se tomando antibióticos.

            Tal façanha valeu aos dois o Premio Nobel de Medicina  2005.

            Voltemos, porém ao ano de 1965, nossa conversa fluía maravilhosamente com várias intervenções de D. Nesinha (Inesinha de Carvalho Montenegro) esposa do Prof. Montenegro. O bate-papo evoluiu e acabou surgindo a figura do Prof. Vasconcelos. Eu sabia que este havia sido chefe da clínica particular do Prof. Montenegro que operava no Hospital Santa Catarina. Como era possível naquele tempo, Vasconcelos tornou-se catedrático da Faculdade de Medicina com apenas trinta anos de idade. D. Nesinha contava que Vasconcelos era habitue de sua casa comendo muitas vezes com eles.

            Tendo se tornado também um catedrático da Faculdade, Montenegro resolveu explicar a Vasconcelos que agora devia tocar seu próprio barco e sua própria clínica. Coisa mais fácil de falar do que de fazer. Quem tinha clínica e nomeada era ele, Montenegro. Isso gerou certo grau de inimizade entre ambos. Não havia em São Paulo, cirurgião com o prestigio de Montenegro. O Prof. Alípio Correa Netto começava a despontar, mas ainda iria se firmar. Curioso, ambos serviram ao exercito brasileiro. Montenegro na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) juntou-se a Força do Brasil como médico e a patente de Tenente-coronel. Alípio juntou-se a FEB durante a segunda Guerra Mundial (1940-1945), com a patente de Major. Ambos prestaram serviços relevantes como médicos militares.

            Montenegro foi Diretor da Faculdade de Medicina (1941-1947) e presidiu o Conselho Diretor do Hospital das Clinicas. Foi numa  reunião desse conselho que se desenvolveu o episódio do revólver. Vasconcelos que também participava do referido Conselho, exaltado puxou de um revólver em plena reunião. Passado o momento, Montenegro o alertou para que não fizesse de novo sob pena de tomar-lhe a arma. Tendo Vasconcelos repetido o gesto, Montenegro tomou-lhe a arma.
            Olhando, agora para mim, com notável simplicidade me disse:

            ─ Você quer vê-la?

            Ante minha resposta positiva, saiu da sala retornando com um revolver niquelado que me pareceu de calibre32. Não sou especialista em armas, mal fiz o Centro Preparatório de Oficiais da Reserva (CPOR), mas confesso que fiquei um pouco deslumbrado contemplando um pedaço da história da Faculdade. Ali se desfez a lenda e a história virou fato!


            Tive mais uns poucos contatos com o Prof. Montenegro que veio a falecer em 1979, com 91 anos de idade e sempre lúcido. Aquela noite, parece-me vê-la, sempre como se fora ontem. Que história!

ANDO NO CHÃO, MAS AJUDO NA ALTURA - Oswaldo U. Lopes

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ANDO NO CHÃO, MAS AJUDO NA ALTURA
Oswaldo U. Lopes

         Atualmente moro mais no fundo do armário, mas já morei na frente em posição de destaque e olha que minha dona tinha e tem muitos como eu. Minha cor é um branco amarelado que muitos gostam de chamar de champanhe, sou raso na frente e tenho seis centímetros atrás. Elevação que transmito a quem me usa com prazer.

            Quer dizer prazer meu, muitas moças e senhoras se queixam que me usar, depois de algum tempo, deixa os pés cansados e doloridos.  Você já adivinhou, sou um sapato de salto alto.

            Minha primeira aparição foi num baile no qual minha dona compareceu com um vestido cuja cor combinava comigo ou, se quiserem eu combinava com o vestido. Acho que é mais apropriado falar assim, pois fui comprado depois do vestido. O conjunto era bonito eu, minha dona e o vestido, sobretudo minha dona que era e ainda é uma moça muito bonita.

            Se não me engano o baile chamava das treze listas e isso tinha algo a ver com a bandeira do Estado de São Paulo. Lá pela tantas o colar de perolas da minha proprietária arrebentou e foi pérola para todo lado. O rapaz com quem ela dançava ajudou a colher as ditas cujas e disso resultou uma amizade que virou namoro, noivado e... Bem isso é outra história que fica para outro sapato contar, o branco! É tinha gente dizendo que o colar estava meio frouxo de propósito...

            Tive outras aventuras, mas certamente a mais engraçada foi quando o irmão gêmeo dela me pediu emprestado para usar no Show Medicina. O rapaz era um distinto aluno da famosa Faculdade de Medicina da USP e a tradição nessa escola era de que as moças faziam a costura das vestes para o espetáculo, mas não participavam da representação.

            Segundo consta parece que isso começara bem lá atrás quando poucas moças entravam na faculdade e isso obrigava  que o Show seguisse os trâmites do teatro Elisabetano a lá Shakespeare. Aliás uma das cenas mais engraçadas do famoso Show era uma paródia de Romeu e Julieta.

            Bem, o rapaz não representou Julieta, mas Josefina a do Napoleão. Estava bem composto o dito cujo, embora balançasse um pouco por causa da minha altura. Quando entramos no palco, fomos recebidos com estrondosos aplausos e assobios. Bons tempos...


            E isso aí, às vezes ainda saio do armário para ir a uma festa, agora em geral o vestido é mais curto e eu apareço mais. O que, modéstia a parte, eu mereço.

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2= praia deserta



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3 = dançando



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4= chovendo muito.



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5 = escondido.



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6 = estrada.


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7 = escadaria.

A ANTE VÉSPERA - SÉRGIO DALLA VECCHIA

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A ANTE VÉSPERA
SÉRGIO DALLA VECCHIA

Chovia forte! Era o dia vinte e três de dezembro dos anos setenta.
Sobre a Ponte João Dias na cidade de São Paulo, a menina de cabelos escorridos, vestido roto, andar vagaroso, encharcada até a alma pela chuva fria, caminhava com olhar distante e totalmente apática à situação.

O motivo para continuar era chegar ao barraco onde vivia com quatro irmãos menores e uma mãe sofrida pela vida e que contava os centavos para manter as crianças.

Ela retornava do largo de Santo Amaro, onde fora vender dropes naquela época de Natal, onde as ruas ficam lotadas de gente. Já havia vendido mais da metade da caixa e as vendas iam bem, até que do nada surgiu um grupo de trombadinhas e levou tudo o que tinha. Sobraram apenas a expressões de surpresa e indignação!

La ia ela, desconsolada da vida, pensava no que dizer à sua pobre mãe. O medo do castigo, a vergonha do fracasso e a fome que iria passar, faziam com que seu olhar se tornasse cada vez mais distante. Dessa ausência temporária aconteceu o inesperado, a travessia da rua sem atenção e o inevitável atropelamento!

O corpo inerte sobre o asfalto, o sangue escorrendo pela sarjeta, os olhares assustados das pessoas formaram o retrato mais puro da pobreza: sofrimento, fome e medo!

Sua alma ia de encontro as gotas da chuva que ao toca-las se transformavam em pequenas luzes que iluminaram toda a sua ascensão!


Finalmente, do céu, o mundo justo a recebeu com o maior dos presentes de Natal: A PAZ!

ESPÍRITO DE NATAL - Ledice Pereira

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ESPÍRITO DE NATAL
Ledice Pereira

Estava só. A garrafa de whisky, quase vazia, jazia tombada sobre a mesa.

Tentou levantar-se e caiu pesadamente.

Não conseguia dominar o próprio corpo. Nem os pensamentos.

─ Veja no que você se tornou, seu imbecil – dizia para si mesmo – num velho decrépito e só!

O estômago roncava fazendo-o lembrar-se que não havia comido nada o dia todo.

O relógio marcava 20 h. A sala escura recebia uma réstia da luz de fora.
Custou a se situar no espaço e no tempo.

Com dificuldade, dirigiu-se à cozinha, tentando descobrir na geladeira quase vazia, algo que pudesse amenizar a fome que sentia.

As pancadas na porta trouxeram-no à realidade: era véspera de Natal.

Não estava esperando ninguém, quem seria àquela hora?

Ao abrir a porta, surpreendeu-se.

Sua filha, com quem cortara relações há mais de dez anos, estava ali, sorridente, cheia de pacotes.

─ Feliz Natal, meu pai! Trouxe tudo para cearmos juntos e esquecermos de vez nossas desavenças. Aceita meu pedido de desculpas?

Deixou-se abraçar por ela, correspondendo emocionado.  Teve que admitir para si mesmo, que sentia muita falta da única filha. 

Ficaram assim abraçados por longo tempo, ambos arrebatados pelo verdadeiro espírito de Natal.