Som e fúria - Oswaldo U. Lopes



SOM E FURIA
She should have died hereafter:
There would have been a time for such a word.
Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow,
Creeps in this petty pace from day to day
To the last syllable of recorded time:
And all yesterday, have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle.
Life but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more. It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury
Signifying nothing                               W. Shakespeare

É morta... Não devia ser agora.
Sempre seria tempo para ouvir-se
Essas palavras. Amanhã, volvendo 
Trás amanhã e trás amanhã de novo.
Vai, a pequenos passos, dia a dia,
Até a última silaba do tempo
Inscrito. E todos esses nossos ontens
Tem alumiado aos tontos que nós somos
Nosso caminho para o pó da morte.
 Breve candeia, apaga-te. Que a vida
É uma sombra ambulante; um pobre ator
Que gesticula em cena uma hora ou duas,
Depois não se ouve mais; um conto cheio
De bulha e fúria, dito por um louco,
Significando nada.                                    Tradução Manuel Bandeira


SOM E FÚRIA
Oswaldo U. Lopes


Mauricio Di Franco era um bom ator. Não sejamos modestos,
grande ator, famoso, ator global. Era figura carimbada na novela das nove, fizera filmes também, sempre com sucesso. Sua marca eram os personagens de época, escravatura, período colonial, impérios, primeiro e segundo, inicio do século XX e por ai afora.

        Brilhava também nos contemporâneos, fazia um vilão que arrancava ódio dos telespectadores. Andara ainda pelo teatro com bom desempenho, era bom no imaginário dialogo com a plateia, sua voz ia longe. Conseguira, a custa de muito treino e exercício, dizer suas falas de costas para o público, sem que nenhuma palavra fosse perdida. Já representara Ibsen, Brecht, Albee, Pinter, Dias Gomes, Abílio Pereira de Almeida, Pirandello, Beckett, Moliere, Racine, Machado de Assis e por ai afora.

        Bem faltava algo caro leitor. Todo ator sonha em não morrer sem representar William Shakespeare. Quando jovem imagina Romeu ou Mercutio, aos trinta Hamlet, nos quarenta Othello ou Macbeth se passar disso, sem emplacar, ainda resta o Rei Lear que vai dos sessenta aos setenta.

Sozinho em seu camarim à uma hora de começar o espetáculo Mauricio se olhava no espelho fartamente iluminado e pensava no Macbeth que iria estrear naquela noite com ele no papel título. A peça maldita, a peça escocesa cujo nome os atores e pessoas que trabalhavam no palco não queriam nem pronunciar.

Não se sabe muito da peça. É a mais curta das tragédias de Shakespeare, só aparece no famoso fólio com todas as suas outras obras. Dela não se conhecem publicações separadas, os famosos quartos. Sempre teve má fama, a matança é geral, dos personagens elencados só dois ficam vivos ao fim da peça.

Mauricio pensou por um instante na sua cara metade e no modo como ela recebeu a noticia da peça. A mulher de Mauricio chama-se Monica Andrade Di Franco e é a própria inversão de Lady Macbeth. Médica, obstetra, também consagrada, não tem filhos o que, nesse ponto e apenas nesse a assemelha a Lady. Mas a semelhança para por ai. Funciona como uma verdadeira cadeia de arrasto colocada aos pés de Mauricio.

Monica parecia mais uma das bruxas do enredo, embora fosse bonita e elegante. Quando Mauricio anunciou sua intenção de montar a peça escocesa, já foi de pau para cima dele.

— Você quer dizer Macbeth, já esta com tanto medo dela que nem fala o nome. Olha, pensa bem, só duas montagens de Shakespeare no Brasil deram certo. Sergio Cardoso com Hamlet e Paulo Autran com Othello o resto deu com os burros n’agua, mal se aguentou um mês em cartaz e não foram poucas. Se você quiser eu posso até fazer a Lady Macbeth, tenho as mãos cheias de sangue do meu trabalho.

        Mauricio olhou-a com raiva crescente, a filha da puta tinha toda razão, mas bem que podia ajudar ainda que ao final a vaca fosse pro brejo. Sabia que ela estava absolutamente certa e que o passado shakespeariano no Brasil era ruim de dar medo.

Começava pelas traduções. Os tradutores eram na sua totalidade scholars, acadêmicos ou poetas clássicos e não abriam mão de versos decassilábicos ou alexandrinos. Como era possível coloquiar com a plateia arrotando versos desse tipo. Quando não enfiavam uma porção de Ohs! tornando o texto absolutamente artificial, traiam, por falso moralismo, a clara intenção do autor. Veja-se o exemplo de Hamlet. O dialogo entre Polônio e Hamlet (A2, C2)

Pol – Do you know me, my lord?

Hamlet - Excellent, excellent well: you are a fishmonger

O teatro elisabetano comportava publico estimado em cerca de 800 pessoas. As entradas mais baratas, de um penny, eram lugares em pé ao redor do palco, gente bem popular. O horário de trabalho não estava estabelecido em leis, mas pelas corporações e assim os jovens podiam ocorrer ao teatro durante a tarde. 
Todo mundo sabia que fishmonger era cafetão. Qual a tradução habitual no Brasil: peixeiro, vende peixe, rufião, proxeneta. Até André Gide na sua badalada tradução de Hamlet saiu-se com: “marchand de poisson”.

Só Geraldo de Carvalho Silva teve a coragem de sacar: dono de bordel. Hamlet quer constranger Polônio porque este cogita que sua filha case com o príncipe, um excelente partido que um dia será rei, com certeza. Dai compara- o ao dono de um bordel.

Na Inglaterra e nos países de língua inglesa que sofreram forte colonização britânica, o verso pentâmero iâmbico é quase a maneira de falar natural. Associa-se a isto o aparecimento da bíblia do Rei James no começo do século XVII. Na tradição protestante o manuseio da bíblia já não é privilégio dos padres. Qualquer fiel pode e deve fazê-lo. Isso fez e faz com que os pronomes usados na linguagem shakespeariana sejam entendidos e compreendidos sem muito esforço.

Porque os tradutores brasileiros nunca tentaram o verso iâmbico é um mistério. Não diga que ele não existe entre nós. Um lindo exemplo de verso iâmbico é de Noel Rosa:

aTÉ amaNHÃ, se DEUS quiser. Se NÃO chover, eu VOLto PRA te VER, oh muLHER.

Dai Mauricio se debruçou sobre o texto e com mais dois da equipe reescreveu, partindo do texto de Manuel Bandeira, o seu próprio Macbeth com o qual pretendia interagir e se comunicar com o público que estava no teatro. Fizera até um puxado no palco para jogá-lo parcialmente dentro da plateia e assim facilitar esse contato. Pouco sobrara de Manuel Bandeira, mas o texto ficara enxuto e muito mais direto. Também pudera o tão louvado texto de Manuel Bandeira traduzia “It is a tale told by an idiot, full of sound and fury” por “um conto cheio de bulha e fúria, dito por um louco”. Sound por bulha, é de rachar e o que Manuel Bandeira tinha contra Idiot ser Idiota mesmo. Bem o teste final era hoje, mas todos os ensaios e discussões mostravam que fora na direção certa.

Deveria ter morrido mais tarde...Amanhã e amanhã , mais amanhã... E os nossos ontens deixam para os tolos a estrada empoeirada da morte...A vida nada mais é do que uma sombra que passa... Um pobre ator que gesticula...Uma desesperada história contada por um idiota...som e fúria que não significam nada...Um punhal imaginário...Vem que te empunho... É um punhal que vejo com seu cabo pronto para minha mão.

O sucesso fora extraordinário! O elenco foi chamado ao palco por 10 vezes e mais chamariam se tivessem concordado e superado a enorme estafa do dia. Sentiam as pernas até bambear. Vencera e com a peça maldita, a maldita peça escocesa. Todo o reboliço do sucesso já passara, a coxia estava quase vazia e ele continuava no camarim.

Nisso a porta se abriu e Joaquim, o porteiro, avisou com voz lúgubre:

— Mauricio acabam de telefonar: a Monica foi baleada em um assalto quando vinha para cá e morreu no hospital.

Mauricio se olhou no espelho, ainda com a armadura que usara em cena e o olhar sombrio do assassino impiedoso e murmurou:


Não deveria ter morrido agora...Deveria ter esperado para ver o meu sucesso.

ATRIZ ATROZ... Oswaldo U. Lopes


ATRIZ ATROZ...
Oswaldo U. Lopes

         Ser atriz não é fácil, se você não é conhecida vão te confundir no máximo com modelo, se atingiu a notoriedade não consegue ter vida própria. A notoriedade esta em conflito permanente com a privacidade.

        Enquanto esperava sua vez de entrar em cena, refastelada na cadeira que tinha impresso seu nome, Monica Antinori olhava a praça a sua volta, e pensava:

- Cá estou eu na sempre maravilhosa Florença fazendo de conta que é Verona e representando Lady Capulet na colorida e esplêndida versão de Romeu e Julieta.

Já passara a idade de Julieta, mas encarara numa boa ser a mãe da própria. Era claro na peça que a Sra. Capuleto tinha entre vinte e sete e trinta e poucos anos, no máximo.

        Por que topara participar? A Sra. Capuleto não tinha nome, as falas não eram muitas, algumas até duras, mas o diretor propusera e realizou longas e belas cenas de danças, com o seu rosto em close e a música de Prokofiev ao fundo. Cinema era bom por causa disso, as cenas não são cronológicas e, algumas vezes era possível ver até a edição e os cortes antes do filme estar terminado.

         Seu rosto ficara lindo, fazia jus a sua fama e notoriedade. Ao inferno com a modéstia!

        Uma vantagem suplementar de um papel não tão marcante eram as folgas, muitas folgas. As filmagens tinham Florença como cenário, mas não a Praça da Signoria. Era evidente demais, não ia passar por Verona nem com a manada toda tossindo.

        Monica aproveitava as folgas e ao entardecer já no lusco-fusco, metia um enorme óculos escuro, uma echarpe, terninho justo e um lenço conjugado com chapéu e ia para a Piazza. Já fizera isso outras vezes, nunca fora notada embora sua presença na cidade fosse comentada todo santo dia nos jornais e revistas; até o telejornal anunciava a belíssima atriz entre nós.

        Naquela noite esbarrou em Antônio jovem calabrês, moreno, esbelto e... Per la Madonna... Lindo. Acabaram sentados tomando café ao ar livre na noite deliciosamente quente do verão toscano. Antônio confessou que entre outras razões, viera para ver sua atriz favorita Monica Antinori e passou a descrevê-la com um misto de encantamento e luxúria, desejo e êxtase.

        Terminaram a noite, tórrida de sexo, no hotel onde ela estava hospedada sob o olhar cínico e cúmplice do concierge que fazia pequenos gestos enquanto entregava a chave.

        Antônio continuava a falar de Monica Antinori enquanto abraçava voluptuosamente Aurora Ardenti como se apresentara Monica.

        No dia seguinte a má noticia: a filmagem seria num canto da piazza, já preparado e disfarçado. O inevitável acontecia, uma multidão de curiosos se juntava em torno.

        Sentada em sua cadeira Monica sorria e fazia comentários superiores com seus colegas de filmagem. O megafone convidava a ação e a voz claramente anunciava: Monica per piacere a la arena.

        Levantou-se com o vestido de época, o cabelo lindamente posto, joias discretas enfim tudo que a consagrara e consagrava e caminhou para as câmeras. Foi ai que percebeu bem à frente, na multidão, Antônio que atônito olhava para aquilo e num gesto rápido mordeu o polegar e desandou a correr em sua direção. Foi contido muito antes e levado pela segurança, mas o gesto de morder o polegar era a mensagem inequívoca de ódio e desdém.

        Monica voltou-se para a câmera e começou sua fala que surpreendeu por seu conteúdo sombrio e trágico. Aplaudiram-na ao extremo quando terminou, ainda com o olhar gelado e frio.


Não era uma grande atriz, era uma enorme atriz.

MEU IRMÃOZINHO - Carlos Cedano


MEU IRMÃOZINHO
Carlos Cedano

Entrando em casa meu pai me viu e foi logo dizendo: que bom que você chegou cedo, eu e tua mãe estamos amadurecendo um assunto já faz tempo, e queríamos comentá-lo com você. Fiquei olhando pra eles com cara de interrogação! Alguma coisa grave, urgente ou uma má noticia? Indaguei. Nada disso meu filho, disse minha mãe, acho que até poderá ser uma boa notícia pra você. Sim, mas antes vamos sentar à mesa, o jantar está esperando e pode esfriar, disse meu pai.

Em quanto nos acomodávamos meu pai iniciou a conversa: Raul meu filho, daqui a duas semanas você estará embarcando para o Canadá pra fazer seu curso de especialização em cirurgia do estomago. Ficará longe por mais de dois anos e esta casa, por assim dizer, vazia, sem alegria. Mas por outro lado eu e tua mãe ainda estamos jovens, com disposição, saúde... Sim meu pai, falei quase o interrompendo, vá direto ao assunto que estou ficando ansioso! Pois bem meu filho, desta vez falou minha mãe, o que Ricardo está querendo comunicar-te e que estamos pensando seriamente adotar um menino de cinco anos e queríamos saber sua opinião, o que você acha? Como sempre minha mãe colocando as coisas de forma “curto e grosso”!

Vocês me pegaram de surpresa, em princípio acho a ideia boa, mas gostaria uma semana pra pensar, pode ser? Com certeza respondeu seu Ricardo, esperaremos uma semana! Pedi licença, ainda desorientado pela notícia, e me retirei pra meu quarto. Sou solteiro, sem filhos e não tenho experiência nestas coisas, não sei o que isso significa para meus pais, mas pelo que vi estão muito entusiasmados com a ideia de adoção. Vou aproveitar a semana pra falar com alguns amigos, ouvir outras opiniões e chegar a uma conclusão legal e poder dar uma resposta justa!

Escutei varias opiniões e as anotei para refletir sobre elas.

A primeira foi de uma ex-namorada, que  me disse: Raul, você está com vinte oito anos e todos os que virem essa criança na casa de teus pais vão pensar que é teu filho e que teus pais “quebraram teu galho” adotando-o, não acha?

Fui falar com o padre Rodolfo, meu conselheiro espiritual:
Que boa notícia que você me da Raul! Uma alma que será recuperada da pobreza e do mau caminho! Seus pais são pessoas generosas, já pensou você passeando com seu irmãozinho de mãos dadas? O padre me abraçou e me parabenizou pelos pais que tenho: o casal perfeito! O padre não me ajudou, desorientou-me!

Dona Maricota, grande amiga de meus pais. Ela me recebeu com carinho e me disse que eu era pra ela como um filho. Quando contei sobre a ideia de meus pais ela mudou, ficou seria e disse: Acho que eles estão assumindo muita responsabilidade, criar um filho na idade deles será difícil, eu me sinto jovem ainda, mas não assumiria esse risco, não quis casar por que criança dá muito trabalho e preocupações! Ela me desorientou mais ainda!

A última pessoa com quem falei foi minha atual namorada, Angélica, pessoa de opiniões claras e de bom senso, após explicar a situação ela disse: Se teus pais querem adotar um filho com certeza isso é muito importante pra eles, devem ser pessoas com muito amor a dar que vai fazer uma criança feliz como fizeram com você, né?

Abri a porta silenciosamente, e os encontrei na sala conversando, apenas me viram e, antes que eles falassem, entreguei um buquê de flores pra minha mãe e disse:

Estou ansioso por ver a cara de meu irmãozinho, Foi maravilhoso ver como eles ficaram felizes!


Démodé - José Vicente J. de Camargo


Démodé
José Vicente J. de Camargo


Convite por telegrama pedindo urgência?

Só mesmo Juca com suas excentricidades démodés pode me levar a este estado de aflição, sem saber o que fazer, se aceito ou não, o corpo quer, a vontade mais ainda, mas a razão pede calma...

Mas, o convite é dele, me chamando pra si, me abrindo as portas, despertando a saudades, inflando o desejo... Deixe que falem que vou entrar numa fria, vou sofrer novamente, me arrepender, não me importo, arrumo as malas, trópico, roupas leves, floresta, índios, com certeza mosquitos, dengue? Levar repelente, celular não adianta, sem sinal, ainda bem, a paz agradece.

Guardar segredo é démodé? Paixão é démodé? Para mim não, desde que o conheci não me dá descanso, é o que me alimenta,  me mantém viva a espera desse encontro de ressurreição, de revelação, de fazer o segredo virar realidade...

De gozar a vida.


Venha logo táxi, avião não espera!

SEM PERDÃO - Carlos Cedano



SEM PERDÃO
Carlos Cedano

Recebi mensagem telegráfica de Henrique escrita em termos sucintos e misteriosos.  Foi uma surpresa inesperada recebê-la de uma pessoa que tinha desaparecido de minha vida nos últimos trinta anos e cuja lembrança não me trazia nenhuma felicidade, ao contrário, foi muito desagradável e na nossa briga não fui mais incisiva e radical porque estava de posse de um segredo meu que eu mesma não gostava de lembrar. O telegrama vinha de muito longe, de uma minúscula cidade situada na divisa do Acre com o Perú e que dizia:

Maria Fernanda,
Só agora poderei explicar-lhe o mistério do segredo que você me confiou e que nunca esqueci! Estou à beira da morte e preciso te contar algo, e ver se consigo obter seu perdão para morrer em paz!
Henrique

O que será que ele quer me contar, e por quê? Por que me chamou de tão longe para implorar meu perdão, será que ele sabe algo mais sobre o segredo que pesa na minha alma até agora?

Cheguei após uma penosa viagem que durou mais de três dias entre avião e ônibus. Era uma aldeia habitada por um grupo de pessoas vindas de diferentes lugares do país e vinculado ao Santo Daime. Fui levada rapidamente à cabana onde se encontrava Henrique, e me disseram que estava acamado ha muitos dias e ansioso por minha chegada. Entendi que estava em seus últimos momentos!

Não o reconheci imediatamente, era um cadáver esperando pelo último suspiro. Quando abriu os olhos e me reconheceu, esboçou um sorriso, me aproximei dele o mais que pude. Seu aspecto era repugnante e decrépito, quase irreconhecível. Como às vezes a morte pode ser feia! – pensei.

Fiquei a sós com ele, mas por pouco tempo,
o que confessou me deixou horrorizada e nunca imaginei que um ser humano fosse capaz de semelhante maldade e covardia. Não quis escutar tudo. Foi suficiente o que entendi, e sai vomitando da choupana! Essa mesma tarde morreu. Desejei profundamente que estivesse ardendo no inferno!

O orientador da seita, seu Lucas, me explicou que desde que chegou Henrique sempre teve um comportamento de misantropo, não gostava de ninguém, não socializava e mal respondia às saudações que recebia, desparecia na floresta por muitos dias e voltava carregando folhas, cogumelos e outras ervas, fazia experiências e até agora não sabemos sobre o que? Não deixou nenhum registro!

Pedi pra o orientador ajuda pra voltar pra São Paulo.

Porem o tormento do segredo que me afligia foi substituído por algo pior, uma dor maior e mais terrível, minha nova via crucis apenas começava e minha viagem de volta foi totalmente tomada pela pergunta insistente que não conseguia responder:

Como vou contar isso para meu marido e meu filho? Tudo por culpa desse maldito canalha e covarde a quem não consegui perdoar mesmo quando suplicou chorando e com o desespero estampado em seu rosto!




De anjos e super-homens - Ises de Almeida Abrahamsohn



De anjos e super-homens
Ises de Almeida Abrahamsohn 

As coisas não estavam dando certo para Super-Gil. Ou melhor,  para o anjo Gil. Ele fazia parte da corte de anjos jovens que estavam fazendo o treinamento para se tornarem anjos da guarda especializados em salvar humanos de potenciais perigos.  Durante o treinamento deveriam provar  suas capacidades realizando pelo menos três salvamentos antes de se diplomarem.  Não é que Gil fosse menos capaz que os outros anjos, o problema é que era muito distraído. A sua ultima intervenção tinha sido um  fracasso.  Mas até que foi emocionante.

Uma das prerrogativas dos anjos salva-vidas era poderem escolher  a identidade humana que desejassem  ao fazer suas intervenções terrenas. Gil  não perdia nenhum episódio do Super-Man na telinha de internet  na sua nuvem  particular . Portanto, escolheu a identidade de Super-Gil. O nome era bem visível na  roupa  azul e, tal como o seu herói, tinha uma vasta capa azul  que se enfunava ao vento quando voava em velocidades  vertiginosas.  

Na  sua última tentativa de salvamento o alvo da boa ação  tinha sido uma senhorinha  de aparência mirrada portando um guarda-chuva e uma grande bolsa  florida. A velha senhora  tentava atravessar a larga avenida em frente a agencia bancária onde tinha  sacado o dinheiro da aposentadoria.  O semáforo esverdeou e a velhinha iniciou a travessia... Gil  avistou do alto do edifício onde estava empoleirado  a motocicleta que vinha a 200 por hora  na direção da pobrezinha.  Bem treinado, Gil mergulhou a toda velocidade,  suspendeu a  potencial vítima e depositou-a  do lado oposto da rua. Gil  com seus super poderes  ainda  fez  a moto se desviar e colidir com a calçada  próxima ao banco.  Orgulhoso, Super-Gil  esperou que  sua protegida se recobrasse do susto e agradecesse. Que nada!  Dizendo meia dúzia de palavrões  a  velhinha  arrepanhou as saias e se pôs a correr em velocidade de maratonista até sumir de vista. Super-Gil ficou ali sem compreender nada. Roxo de raiva, o motoqueiro se aproximou  e começou por chamá-lo de idiota. Era o policial que tinha sido avisado do  assalto ocorrido no banco  pelo notório ladrão  Zé tampinha, especialista  em  disfarces.  De fato, o ladrão tinha  um passado glorioso como fundista.  Quanto ao anjo Gil, usou seus super  poderes e levantou voo em alta velocidade, deixando o policial com cara de bobo e pensando como  conseguiria explicar  a fuga do ladrão.  Um cara voador, de capa e uniforme  azul  chamado Super-Gil !  Se contasse, iriam interná-lo como maluco.

As coisas não estavam dando certo para Super-Gil. Ou melhor,  para o anjo Gil. Ele fazia parte da corte de anjos jovens que estavam fazendo o treinamento para se tornarem anjos da guarda especializados em salvar humanos de potenciais perigos.  Durante o treinamento deveriam provar  suas capacidades realizando pelo menos três salvamentos antes de se diplomarem.  Não é que Gil fosse menos capaz que os outros anjos, o problema é que era muito distraído. A sua ultima intervenção tinha sido um  fracasso.  Mas até que foi emocionante.

Uma das prerrogativas dos anjos salva-vidas era poderem escolher  a identidade humana que desejassem  ao fazer suas intervenções terrenas. Gil  não perdia nenhum episódio do Super-Man na telinha de internet  na sua nuvem  particular . Portanto, escolheu a identidade de Super-Gil. O nome era bem visível na  roupa  azul e, tal como o seu herói, tinha uma vasta capa azul  que se enfunava ao vento quando voava em velocidades  vertiginosas.  


Na  sua última tentativa de salvamento o alvo da boa ação  tinha sido uma senhorinha  de aparência mirrada portando um guarda-chuva e uma grande bolsa  florida. A velha senhora  tentava atravessar a larga avenida em frente a agencia bancária onde tinha  sacado o dinheiro da aposentadoria.  O semáforo esverdeou e a velhinha iniciou a travessia... Gil  avistou do alto do edifício onde estava empoleirado  a motocicleta que vinha a 200 por hora  na direção da pobrezinha.  Bem treinado, Gil mergulhou a toda velocidade,  suspendeu a  potencial vítima e depositou-a  do lado oposto da rua. Gil  com seus super poderes ainda  fez  a moto se desviar e colidir com a calçada  próxima ao banco.  

Orgulhoso, Super-Gil  esperou que  sua protegida se recobrasse do susto e agradecesse. Que nada!  Dizendo meia dúzia de palavrões  a  velhinha  arrepanhou as saias e se pôs a correr em velocidade de maratonista até sumir de vista. Super-Gil ficou ali sem compreender nada. Roxo de raiva, o motoqueiro se aproximou  e começou por chamá-lo de idiota. Era o policial que tinha sido avisado do  assalto ocorrido no banco  pelo notório ladrão  Zé tampinha, especialista  em  disfarces.  De fato, o ladrão tinha  um passado glorioso como fundista.  Quanto ao anjo Gil, usou seus super  poderes e levantou voo em alta velocidade, deixando o policial com cara de bobo e pensando como  conseguiria explicar  a fuga do ladrão.  Um cara voador, de capa e uniforme  azul  chamado Super-Gil !  Se contasse, iriam interná-lo como maluco.

Tique-Taque - José Vicente J. de Camargo


Tique-Taque
José Vicente J. de Camargo

Tique-Taque, Tique-Taque...

Não conseguia ficar acordado! Suas pálpebras pareciam de ferro insistindo em fechar-se pelo peso das horas de tensão, vigília, medo desde que lhe contaram o perigo que corre. Medo?  Medo não! A morte não o assusta, já vira irem-se entes queridos, amigos fiéis, não queria era ficar aleijado, depender de outros pelo resto da vida. Aí sim! Ele mesmo lhe daria o fim desejado.

A mente, ávida para entregar-se aos braços de Orfeu, mergulhar no descanso dos sonhos, acompanhava o passo a passo dos ponteiros na tentativa de manter-se desperta zelando pela própria vida.

Tique-Taque, Tique-Taque...

Cair no sono nessa situação era o mesmo que abrir o peito à espera da bala encomendada, do safado que vive da morte de outros por um punhado de dinheiro sujo. Mas com ele esse cabra da peste vai se dar mal, vai parar de desgraçar famílias, tirando o sustento delas, jogando mulher e filhos nas ruas, na incerteza do amanhã...

E aperta com força o 38 na mesinha da cama, destravado, pronto pro fogo amigo, certeiro, libertando-o da agonia de ser pego de surpresa, sem tempo de reagir, de dar o troco ao Zé Prefeito que contratou capanga pra lhe calar, não contar a verdade ao juiz de direito, amanhã, no fórum da cidade, na praça principal, com certeza lotada de gente para vê-lo, ouvi-lo por fim a essa roubalheira desgraçada, depenando o pouco que resta do cofre público, e justo a quantia pra merenda das crianças, que ficam a ver navios com água salobra e pão amanhecido, falta de vergonha, mas não contavam com ele, contador concursado da prefeitura, encarregado de checar o balanço das compras, cabra macho, carregador do andor de Jesus morto nas procissões de sexta-feira santa, pai de família, marido fiel... Quem sabe depois dessa não se candidata a vereador municipal? Teria muita chance  lhe disseram, o povo tá ávido por justiça, por ordem, quer ver ladrão na cadeia, comendo o pão que o diabo amassou...

Tique-Taque, Tique-Taque ...

Força homem, não feche os olhos! ─ o ronco estridente da mulher deitada ao lado que tanto o incomoda, hoje vai ajudar a manter a insônia ─ não sei como ela consegue dormir tão profundamente estando eu nessa enroscada de cão ─ Tem de ser esta noite! O desgraçado não vai querer me acertar na entrada do fórum, praça cheia, com certeza vários repórteres de jornais, talvez até de televisão. Além do mais vou ter de casa até o fórum escolta policial, colete a prova de balas.

Tique-Taque, Tique.....

Parou? Falta de corda não é! Dei ontem a noite antes de deitar como sempre. Alguém parou o pendulo, quer se orientar no silêncio, ouvir os mínimos ruídos, sentir respirações...

Só pode ser ele, fechadura de porta velha não é empecilho pra malandro alugado, levanto ou espero deitado? Não, levanto! Senão ponho em risco a vida da mulher, o ronco dela vai guiá-lo até aqui ─ ronca mais alto Chica, desta vez não vou brigar ─ vou ficar no lado oposto, ao lado da porta, única entrada. Nada como conhecer o próprio campo de batalha, tintim por tintim, há vinte anos que faço este caminho toda noite pra me aliviar no banheiro do corredor, sonolento, proibido de ascender a luz pra não levar bronca da dita cuja, detesta claridade, ranzinza como ela só! Mas até que compensou, vai me salvar a vida!

Venha miserável! Chumbo grosso te espera...

Segurou a respiração, sentiu o suor das mãos juntas, firmes, agarradas ao “38”, vai ser tiro a queima roupa, sem chance de errar...

Um calafrio percorreu a coluna quando sentiu a porta roçar suave seu dedão do pé. Mesmo sem ver, delineou o perfil do antebraço segurando o punhal, um vago brilho deslumbra a lâmina mortal. O instinto acompanha o levantar da mão assassina em direção ao ronco da presa indefesa. Porém o gesto final é interrompido pelo estampido ensurdecedor da bala surpresa. No mesmo instante, um cheiro forte de pólvora queimada invade as narinas suadas e se confunde com o baque surto do corpo que cai, sem sequer dar um pio de resposta. No ar ecoa a gritaria frenética da Chica, que, sem saber oque se passa, busca desesperada o botão da luz do abajur ao lado...

Dopado com calmantes, anti-soníferos e bebidas energéticas, ele caminha sonambulo entre a multidão curiosa, amparado por dois policiais, que deste a madrugada sangrenta não o desgrudam nem mesmo pro banho que lavou o sangue estilhaçado do infeliz, que aceitou por uns cobres calar seu depoimento, que, qual uma bala, irá também emudecer atrás das grades o corrupto Zé Prefeito.
Já ganhou, já ganhou! Grita o povaréu em vivas

Já tá garantido pra futuro vereador! Diz convicto um dos policiais.

─ Vereador nada! Prefeito na certa. - replica o outro.


Tique-taque, Tique-taque, Tique-taque...

FICAR OU CORRER, O BICHO É O MESMO - Jeremias Moreira




FICAR OU CORRER, O BICHO É O MESMO

Jeremias Moreira

Estava vestido com um terno cinza chumbo com riscas de giz, uma gravata com listras azuis, verdes e brancas e uma camisa azul claro. Diria que, com elegância. Elegante demais para estar ali, estirado no chão da sala em meio a uma poça de sangue. Principalmente, que era uma pessoa totalmente estranha àquela casa.

Então, quem era esse homem e porque estava na casa de Nestor Borges, na praia da Baleia? Quem o matara e por quê? Fora assassinado ali ou o trouxeram já morto?

Essas eram algumas das perguntas que se fazia o inspetor Nepomuceno, da polícia, que fora designado para o caso.

Foi Nina quem encontrou o corpo, quando logo cedo foi levar a roupa dos patrões, lavado por sua mãe. Estranhou a porta da casa aberta. Entrou cautelosa e logo se deparou com o corpo estendido na sala. Apavorada voltou correndo, chamou pelo pai, que comunicou à polícia.

Em seguida o caseiro ligou para o patrão.

Nestor Borges atendeu o celular já na estrada, a caminho da praia. Ficou lívido com a notícia. Automaticamente pensou na dívida.  
Logo que chegou foi interrogado por Nepomuceno.

Congelou quando reconheceu o cadáver. Mas, se recompôs de imediato:

- Nunca o vi em minha vida!

Porém, lamentavelmente sabia de quem se tratava.  E, entendeu claramente o macabro recado que enviavam ao desovar o corpo em sua casa.

O homem era um argentino. Chamava-se Pablo, achava.  Não tinha certeza. Há dois meses o conhecera numa mesa de carteado, num cassino clandestino. As apostas eram altas. Nestor arriscava obstinadamente, rodada após rodada. O gringo não estava pra menos. Igualmente, apostava desatinado. E, jogo após jogo o desespero. Só perdiam. Ao final, a dívida de cada um alcançava as alturas. Assinaram promissoras e foi estabelecido o prazo de vinte dias para saldarem.

Pelo jeito o gringo não pagara. E o recado era claro. Fácil deduzir.

“Meu fim será o mesmo se não pagar!  Mas, como vou pagar se estou atolado em dívidas e totalmente descapitalizado? Em curto prazo é impossível. Preciso de mais tempo.”

 Pensou em abrir o jogo para a polícia. Depois atinou que lidava com gente poderosa, que tinha cupinchas em todo canto. Certamente na polícia também.

“O melhor a fazer é sumir por uns tempos”

Voltou para São Paulo e prontamente, sem muita explicação, despachou a mulher e os filhos para a fazenda do sogro, em Mato Grosso, onde deveriam aguardar sua volta.

À noite se mandou para os Estados Unidos.

Pela manhã desembarcou no Aeroporto Internacional de Miami. Enquanto aguardava a bagagem, em meio à agitação, foi abordado por carregadores que, em espanhol, ofereciam seus serviços. Optou pelo que se achava mais afastado do grupo. O simpático porto-riquenho que há uma semana o aguardava, atentamente, com sua foto!




SUPER MEL - Oswaldo U. Lopes


SUPER MEL
Oswaldo U. Lopes

            Dizem que a principal diferença entre um cão e um gato, não são aquelas obvias que todo mundo sabe: o som emitido (latido x miado), olfato apurado (ponto para o cachorro), unhas retráteis (ponto para os felinos) e hábitos bem definidos. Dizem que a diferença é simples: quando você os adquire ou ganha o cão te aceita como dono e só quer saber o seu nome, o gato quer uma cópia do seu currículo.

            Mel era um lindo exemplar da raça Bernaise, grandes, mas menores que seus primos os São Bernardo, também suíços e que são famosos pelas três cores (branco, preto e marrom), pelo gênio dócil e pela sociabilidade.

            Você nunca pediria uma pote de mel, nem procuraria pela mel de laranjeira, então me explica porque todo mundo achava que mel era fêmea.

            Seu dono não era um menino de 10 anos ou um moleque de catorze que gostasse de uma boa pelada... De futebol é bom que se esclareça, nessa idade, onde a descoberta do mundo, dos gêneros vem misturada com os malabarismos possíveis com uma bola de meia ou de qualquer outro material que lhe resguarde  o aspecto redondo. Sem sexismo, também não era uma adolescente de longos cabelos que o levaria, à noite, para dormir com ela na cama.

            Seu dono era um engenheiro civil de quarenta e poucos anos, metido até a raiz das botas em construções de todo tipo e altura.

            Mel era tudo que se espera de um Bernaise, dócil, delicado, apesar de imenso, obediente. Incapaz de tocar na comida, mesmo estando com uma bruta fome, enquanto seu dono não autorizasse com um gesto rápido e sutil. Isso tudo já o tornaria um cachorro diferente, charmoso, bonito, elegante, de um porte altivo e soberano.

            Mas, tinha algo a mais que as pessoas mais próximas notavam, já tinham notado ou mesmo se beneficiado de seu algo a mais. Tinha o famoso sexto sentido, aquele sentido que o fazia antever e evitar ou remediar um perigo eminente. Já o fizera tantas vezes e com tal certeza de seu presságio que se tornara mascote querida dos peões de obra, nas construções que seu dono frequentava ou dirigia.

            Não, caro leitor, não era aquela coisa de subir na calçada quando da passagem de um carro em alta velocidade ou latir para uma janela aberta quando uma inesperada tempestade se avizinhava.

            Era se recusar a entrar num elevador de obra que frequentava corriqueiramente, resistir a ordens bruscas e puxões violentos para que o fizesse. Nada feito. Ia pela escada com o enfurecido dono enquanto o elevador despencava do 10º andar e se esborrachava embaixo. Era fazer, como fez, um tremendo escarcéu para passar, dentro do carro, num cruzamento de nível com um linha férrea abandonada.

            André, seu dono, parou o carro antes do abandonado X, só para ver, um enorme trem passar em alta velocidade, pelo trilho há muito fora de uso.

            Tirar peão da direção de vigas perdidas ou balançantes era corriqueiro. A peãozada olhava-o boquiaberta sem entender nada e tentando se refazer do susto horrível. 
            Hoje estava acontecendo o que André menos gostava, prédio em final de acabamento, paredes erguidas que tiram a visão do conjunto, tudo rebocado, mas não pintado, de modo que não havia contraste para o cinza e ainda por cima sua irmã Tereza com os filhos, Ana Maria de cinco anos e Tiago de anos, visitando o futuro apartamento no 10º andar.

            Fora tudo muito rápido, Mel estava com os peões acompanhando o almoço deles, comandado pelo tradicional enxadão da obra, lá no 18º andar, enquanto Tereza e os filhos circulavam pelo 10º andar muito próximos da escada, sem anteparo, e do vazio deixado pela ausência do ainda não colocado elevador social. Não deu outra Tiago, afilhado de André, aproveitou que a mãe conversava com o mestre da obra Seu Joaquim e se aproximou do vão imenso.

            Todos no 18º andar olharam assustados quando Mel levantou as orelhas e disparou para o vão da escada se precipitando por ela abaixo.

            Estava no meio da escada  do 11º andar para o 10º quando Tiago se aproximou de costas do buraco mortal, parecia que, desta vez, não ia dar tempo. A peãozada lá de cima olhava aquilo com grito mudo de terror.

            Ai Mel se jogou no vão e cobriu a distância num salto prodigioso. Tiago que já tinha uma perna no ar foi arremessado de volta numa enorme bola de pelos, cachorro e gente. Chorava bastante, mas além de pequenas escoriações não tinha outros ferimentos. Mel com a pata encolhida lambia-o carinhosamente. O povão do 18º andar descia correndo e aplaudindo a incrível façanha. Tereza ciente, agora, do que ocorrera chorava copiosamente segurando Tiago e Ana Maria.

            Naquela noite, refastelados no tapete à frente da TV, André e Mel conversavam a sua maneira:

- Mel,  dá para me explicar como é que você percebeu o que ia acontecer?


            A resposta de Mel esticado de comprido, com o focinho grudado no chão veio, no conhecido dois pra lá um pra cá de seu vigoroso rabo.

Banco de Esperma - José Vicente J. de Camargo


Banco de Esperma
José Vicente J. de Camargo


Lá estava eu trancado numa sala aconchegante, musica de fundo, mesinha servida com café, chá, sucos, bolachas, ao lado uma coleção de revistas masculinas, tudo contribuindo parar proporcionar ao cliente um ambiente  a vontade, relaxado, “em casa” como se diz. Dar a ele o clima necessário para a importante missão a que se propôs.

Missão? Será que poderia chamar assim a finalidade da minha presença ali? Ou teria um nome mais apropriado? Enfim estava me vendendo, entregando meu “eu” ao mercado para quem pagar levar...

Onde esse “eu” iria parar? Saberia um dia da verdade de sua origem? Tentaria me encontrar? Como eu agiria?

Mas, questionamentos nessa hora já não adiantam mais! A decisão tomei ao aceitar vender meu esperma e embolsar o dinheiro para a compra do celular de última geração, da moda, coisa indispensável aos bons olhos da galera. Depois, me disseram, todo mundo vem fazendo, não dói nada, ao contrário, você ainda dá uma na boa...

O negócio agora era se inspirar, caprichar na coleta. Quem sabe não vai ser um futuro presidente da república? Ou um herdeiro de um império industrial? Ou ainda uma nova Michele Bündchen das passarelas?

Teria meus olhos? Meu sorriso? Tudo bem, desde que não puxe meu gênio ariano, impulsivo, mandatório, difícil de lidar segundo os amigos.

Vamos lá, pense na Glorinha! Nela não! Seria injusto. Melhor nessa peladona da revista, corpão sarado, apesar do photoshop vê-se que é uma gostosona.

Vai! Mais pouco tá chegando...

E o dinheiro? Vai dar mesmo pra comprar o i–pad das tantas? E esse dólar que não para de subir? Preciso mesmo desse troço? O que tenho até que quebra um bom galho...

Puxa, tá feito!

Agora pego a grana e compro de volta meus espermatozoides, não vou deixá-los órfãos por aí. Dá de caírem nas mãos de alguma desalmada, pedófilo, ou de algum casal gay, nada contra, mas não com meu “eu”.


O lugar mais seguro é em casa mesmo, junto ao dono...