UMA AVENTURA COM FORREST GUMP E VARGAS LLOSA - Jeremias Moreira


UMA AVENTURA COM FORREST GUMP E VARGAS LLOSA
Jeremias Moreira
O capítulo da série “Game of thrones” terminou por volta das vinte e três horas. Como era cedo para ir para a cama, desliguei a televisão e voltei ao livro “A verdade das mentiras”, do Vargas Llosa, que fala sobre a arte da ficção. Sem me dar conta, adormeci. Acordei com o som ardido do interfone. Meio sonolento fui atender. Ouvi com surpresa a pessoa se identificar como Forrest.
− Aqui é o Forrest Gump.
Estranhei, mesmo assim acionei o botão para abrir a porta do prédio, mas ele insistiu para que eu descesse.
 − Desça você! Não temos muito tempo e precisamos ir a diversos lugares! – ele disse.
Nessas alturas, estava confuso. Estivera com ele, mais cedo, no clube. Ele se despedira para ir a uma reunião em Nova Iorque. Impossível ter ido e voltado nesse espaço de tempo. E, como descobriu meu endereço? Bem, em se tratando de Forrest Gump tudo é possível.
Tomei o elevador e desci. Encontrei-o na entrada, agitado. Mal me avistou pôs-se a falar compulsivamente:
− Sempre me perguntam se minhas historias são verdadeiras. As histórias mentem, porém mentindo expressam uma curiosa verdade: as pessoas estão descontentes com o seu destino e quase todos gostariam de ter uma vida diferente da que vivem. Para aplacar esse apetite surgiu a ficção. Vamos, uma incrível aventura nos espera!
− Aonde vamos? – perguntei.
− Vou levá-lo para viver a minha história, comigo.
− Mas, como isso é possível?
− Basta sermos convincentes!
Quando me dei conta estávamos numa monstruosa manifestação pelo fim da guerra do Vietnam, em Washington. Nunca vi tantos ativistas. O pessoal empunhava cartazes e gritava palavras de ordem. Quando chegou a vez de Forrest falar, um militarista fanático desligou os fios dos alto-falantes. Acho que foi até bom. Ele estava por fora do espírito da coisa e falaria a favor da guerra, pois voltou como herói. Nessa manifestação ele reencontrou a Jenny, a paixão da sua vida. Realmente ela era uma mulher deslumbrante.
Saímos dali e fomos para de um enorme estádio, totalmente lotado, onde rolava uma partida de football americano. Forrest era o running-back, que  recebia a bola do quarter-back e punha-se a correr feito um foguete, sem chance para o adversário. O time dele ganhou de goleada.
Depois do jogo ele me perguntou onde eu gostaria de ir.
− Quero pescar camarões! – eu disse.
E lá fomos nós. Quando estávamos em seu barco, que Forrest dera o nome de Jenny,  observei que estávamos vivendo sua história fora da cronologia.
− As histórias têm principio, meio e fim. Acho os inícios monótonos e os finais melancólicos. Prefiro viver o meio das histórias, dos outros. A vida da ficção é um simulacro. Nela o passado pode ser posterior ao presente e o futuro, anterior. O narrador controla a cronologia para descrever, esse tempo inventado.
Em seguida ele propôs que fossemos nos aventurar no meio da guerra do Vietnam. Recusei, é lógico! Afinal, como brasileiro, não tinha nada a ver com aquilo e, até torcia contra os americanos, na época.
− Vamos correr, então? − sugeriu.
Alertei-o que tinha problemas com os meniscos e a coluna.
− Lembre-se que estamos vivendo uma ficção. – disse ele. − As coisas não são como vemos, mas como as recordamos. Nossa aventura depende da nossa capacidade de persuasão. Se contarmos uma boa história significa fazer o ouvinte, o leitor ou o espectador viver a ilusão e acreditar. Não precisamos correr de verdade.
Convencido, topei. Antes, ele me presenteou com seu boné Bubba Gump. Depois de recordar quando corria alguns bons quilômetros comecei a sentir um grande peso no estomago.
Abri os olhos e a Proust, minha gata gorducha e pesada, estava aninhada sobre minha barriga. A luz da sala estava acesa, Vargas Llosa caído no chão, e o relógio marcava duas e quinze. Eu havia dormido enquanto lia e tudo não passara de um sonho. Com cuidado tirei a gata de cima de mim, olhei de lado e dei com o boné Bubba Gump, sobre o sofá.

Não entendi nada! 

JULIE ANDREWS NO PAPEL DE MARY POPPING E O CLUBE - Oswaldo Romano




JULIE ANDREWS NO PAPEL DE MARY POPPING E O CLUBE
OBSERVANDO SEU ESPAÇO
Oswaldo Romano                                                      
        O local mais concorrido do clube nos finais de semana é sem dúvida o restaurante.
        A cozinha hoje é um modelo. Nas áreas dos sócios são disputadas as mesas do varandão. Visão panorâmica, e o ar circula a vontade. A noite este local é muito convidativo para saborear as apetitosas pizzas, agora muito melhores com o novo forno a lenha.
        Produzindo as bolachas na hora, base do segrego da qualidade, seremos privilegiados com uma das melhores pizzas de São Paulo. Um capricho na qualidade dos ingredientes não faria mal algum.
                Julie Andrews no papel da babá Mary Poppins, quando foi filmada cheia de feitiço, usou nossa varanda para com seu guarda-chuva voador deslocar-se acima das mesas, exibindo sua destreza, muito mais fácil que bruxa de vassoura voadora.
        O chamado salão social onde hoje são realizados até casamentos, dotado de ar condicionado, hoje é um dos melhores espaços do nosso clube.
        A propósito permitam-me lembrar que antes dele existir, eu o usei com armação de madeira, cobrindo-o de plástico translucido, e ai em anos diferentes, sempre refazendo o espaço, ofereci festas de aniversários aos amigos, quando não faltaram momentos de carnaval, e ampla distribuição de adereços. Fogos de artifícios, iniciativa do Wanderlei, na época nosso prestativo homem das quadras de tênis.
        O salão principal, com a reforma do seu bar, ficou ótimo. Mas como nem tudo são flores, inadmissível não estar provido de ar condicionado, hoje componente de fácil instalação.
        A profusão de pratos apresentados, assentados em modernas chapas quentes e bandejas em cerâmica da melhor qualidade os enobrecem.
        Mas o paladar, o sabor, o feitiço da boa comida, há tempos muitos estão aguardando.
        Crítica fácil de se calar. É só colocar um Chef, cujo paladar não o traia, que conheça e se apresente para receber os habituais elogios.
        Não precisa ser um François Vatel, a lenda em gastronomia. Era tão responsável que num banquete oferecido por Luiz XIV, viu-se privado de peixes para finalizar a lauda comilança, ficou deprimido teve um surto psicótico, se matou. 

A balança - Maria Luiza C. Malina


A BALANÇA
M.luiza de C.Malina

Uma manhã sem ouvir o creq... creq...compassado do ranger dos elos de ferro da balança.
- É! Não tem ninguém no play ground. Que silêncio!
O silêncio me leva de carona numa matemática maluca de, quantas vezes estas cobiçadas balanças fizeram o seu vai e vem, junto ao pedido:
- Empurra mais forte, mais forte, mais...
Nossa! O que passa pela cabeça das crianças neste delicioso momento tão disputado. Tão disputado e tão simples em que as pequenas regras começam a ensinar o impulso.
Quanta lembrança. Um álbum de fotos repassa pela mente.
O Clube, em seus cinquenta e cinco anos de vida; quanta vida por lá passou, descansou na sombra dos velhos Eucaliptos, aprendeu os truques de cada modalidade, pisou naquela mesma terra escondida pela grama artificial.
Se cada um dos brinquedos falasse, todos nós saberíamos de todos nós, sem os nos que a vida nos dá.
O playground é um verdadeiro observatório onde são tecidas as primeiras experiências sociais e afetivas que são relevantes para o resto da vida.
Brinque com seu filho, acompanhe-o. No balanço da vida, isto será muito bom!


Entendendo Sheldon - Carlos Cedano



ENTENDENDO SHELDON
Carlos Cedano

Vocês já sacaram porque Sheldon tem essa personalidade mal disfarçada de cínico, lógico, altamente intelectual e calculista? Suas respostas às perguntas que lhe são feitas são engenhosas embora nem sempre tenham compromisso com a realidade. Ele também as usa para humilhar a quem ouse replicar ou contrariá-lo.
O curioso é que quando pequeno e até os dez anos de idade, era um menino tímido que pouco falava e pouco saia de casa, não tinha amigos, e os que se aproximavam dele, em pouco tempo o abandonavam. Era um chato de galocha!
Essa incapacidade de relacionamento e falta de loquacidade começavam preocupar dona Hellen Silverstone, sua mãe, psicanalista de orientação freudiana, com muita fama, de personalidade forte e acostumada a impor seus argumentos. Suspeita-se que é o tipo de pessoa que costuma “crucificar” intelectualmente os filhos. Coitado então do Sheldon que era filho único!
E o pai, cadê o pai dele? Homem tranquilo e sem muito brilho intelectual embora um bom analista de sistemas, adorava seu filho e mantinha com ele uma ligação de muito carinho, mas a mãe controlava o relacionamento deles achando sempre algum defeito nele. O pai tremia quando conversava com dona Hellen e perdia toda sua capacidade de argumentação. Ninguém entendia como ele suportava essa situação, já estavam casados há seis anos, era muito tempo para conviver com esse tipo de mulher, uma verdadeira megera!
Mas não há mal que perdure cem anos nem corpo que o resista! Um belo dia correu a noticia de que o marido tinha fugido com a secretária da própria dona Hellen, que também era humilhada por ela. Essa é uma união condenada a infelicidade, disse a esposa abandonada, exibindo certeza sobre sua premonição.
Quando Sheldon fez dez anos ele se fechou ainda mais e a mãe o levou pra tratamento terapêutico com profissional da sua mesma orientação. Achava que seu filho sofria de um profundo trauma causado pelo abandono do pai! Dona Hellen tinha certeza que Selton superaria o trauma.
De fato, a medida que o tratamento avançava, Sheldon começou a falar cada vez mais rápido utilizando obsessivamente o “enorme arsenal” de informações que lhe propiciavam os estudos universitários. Argumenta e responde as perguntas sempre “revestidas” de sua agressividade verbal!

Quem sofre agora é a mãe de Sheldon. Ela trata o psicoterapeuta que   “curou” seu filho e que sofre de uma depressão profunda devido a um trauma que ela nem imagina qual poderia ser a causa!

Adolescência - Flavia Smith



ADOLESCÊNCIA
Flávia Smith
O outono estava prestes a chegar. Com ele, as folhas amareladas das árvores, iam substituindo as flores por nuances que espaçavam do amarelo ao avermelhado. As ruas iam se revestindo deste tapete multicolor e intrigante.
Com a sua chegada as aulas recomeçavam deixando para trás  o  sempre tão  impacientemente aguardado verão. Os estudantes já com suas novas  mochilas a postos  iam recheando-as com  lápis, canetas, livros e  cadernos para retornar àquela entediante, mas ao mesmo tempo, excitante rotina.
Júlia, assim como tantas outras garotas, iria iniciar o seu sexto ano escolar, mas este verão tinha – se manifestado com todos os sinais de uma pré- adolescência: rosto salpicado de acnes carmim, seios querendo aflorar,  mas ainda a espera de um próximo outono para se amoldarem aos muitos centímetros de altura que tinha adquirido nas férias, dentes esperando  serem desacavalados por braquetes coloridos.  Sentia-se desengonçada e acanhada.
A meninada ao chegar ao pátio da escola reconhecia-se, abraçava-se, contava freneticamente os mais belos momentos de suas férias,  cada um parecia ter sido mais divertido  do que o do outro. Quantas aventuras! Quanta magia ecoava de mais aquele deslumbrante verão...Mas, não para Júlia!
Júlia sentia-se constrangida, adensando em  seu peito e cabeça as nuvens da  inveja  e  do ciúmes. Ela nada tinha para contar e ainda por cima seu aspecto físico havia se transformado para pior.
 As mais belas da escola eram sempre convidadas para as festas que animavam o ano letivo. Os garotos mais velhos iniciavam a procurar aquelas que já haviam transformado harmonicamente seus corpos e esgueiravam-se sorrateiramente com elas pelos pátios mão na mão.
Júlia, recolhida em si mesma, olhava para tudo aquilo como se jamais sensações tão doces e excitantes pudessem fazer algum dia  parte da sua tão desastrosa vida. E para piorar esta crença apaixonou-se justamente por aquele moleque cativante que se sentava  na classe ao seu lado, mas que nem tomava conhecimento da presença da mal proporcionada Júlia.
Mas, como o tempo continua sua caminhada, o verão chegou novamente e com ele as almejadas férias.
Júlia resolve que esta seria a estação de uma sua  nova transformação, mas desta vez   fazendo  com que o sol do verão  penetrasse no seu ser  movendo-a para um seu próprio mundo e não mais apenas para o belo reflexo alheio. Vai  então à parques, lê livros agradáveis, convida amigas para escutar música. Torna-se aos poucos mais afável e comunicativa. A confiança vai instalando-se e expulsando a hesitação.
E é exatamente com este sentimento que volta à escola no outono seguinte.  As acnes tinham dado lugar a uma delicada pele rosada, os seios já mostravam suas curvas harmônicas e proporcionais, os dentes vestidos com braquetes coloridos lhe proporcionavam um sorriso multicolor, mas contagiante.

Aquela garota, um dia acabrunhada,  entende então que tudo pode ser transformado e que, em alguns momentos, é só deixar o tempo  cumprir a sua parte, e em outros  que o bom humor, a  paciência e a dedicação modificam o rumo de uma história aparentemente imutável.

Histórias sem Fim - José Vicente Jardim de Camargo


Histórias sem Fim
José Vicente Jardim de Camargo

Todos consideravam Ivan uma pessoa simpática, a não ser sua mania de inventar histórias que o debilitava um pouco. Nem todos aprovavam essa sua maneira de agir. O pior é que as histórias que inventava ─ bem montadas, coerentes com fatos acontecidos com pessoas amigas ─ na maioria das vezes assustava-as,  fazendo-as passar por momentos de angústia. Muitas até chegavam a chamar a polícia, pedir socorro.
Ele saboreava o desenrolar da história curtindo o pânico alheio, deixando as coisas andarem até que, quando a situação chegava a um ponto crítico, vinha ele sorrindo consertar o estrago contando que tudo não passava de uma brincadeira.
Certa vez seu melhor amigo, em viagem de negócio ao exterior, teve a residência assaltada por ladrões armados no meio da noite. Fizeram sua mulher e duas filhas menores reféns, exigindo para libertá-las, dinheiro, joias e o que de valor houvesse na casa. A mulher apavorada tudo  entregou, que não era muito. Os assaltantes exigiram mais senão iniciariam os maus tratos. A mãe se apavorou e, aos gritos se atracou em luta corporal com um deles. Sentindo que o barulho poderia chamar a atenção dos vizinhos, resolveram amordaçá-las e as trancaram-nas no lavabo. Colocaram tudo que encontraram de algum valor no carro do marido ausente, e fugiram. Antes, porém ameaçaram as vítimas de voltarem para matá-las caso os denunciassem a polícia.
Somente no dia seguinte com a chegada da empregada, as três foram libertadas, e em estado de choque precisaram ser hospitalizadas. Polícia e marido foram avisados e os tramites legais de reconhecimento dos ladrões se seguiram.
O trauma foi tão grande que comoveu os amigos, inclusive Ivan e  família, e uma corrente de solidariedade se formou entre todos.
Dias após o ocorrido, numa blitz, a polícia prende o carro roubado e um dos ladrões que, num interrogatório, delata os demais. A mulher vitima, apesar de temer pelas ameaças recebidas, faz o reconhecimento dos ladrões. À noite, recebe um telefonema informando que está com os dias contatos por ter chamado a polícia e feito o reconhecimento.
A coitada, ainda traumatizada, tem um ataque de nervos que precisa de nova internação. A corrente de solidariedade se mobiliza indo à mídia falada e escrita a exigir do governo medidas de proteção. O alerta ─ dado ao ano eleitoral ─ toma conotação política,   repercute rapidamente atingindo  proporções não imagináveis.
Ivan, não esperando tal repercussão, sente-se constrangido e temendo a reação negativa da família e dos amigos, não relata ser o autor do telefonema misterioso.
Contudo a culpa pelo sofrimento causado a família amiga, lhe pesa na consciência. Não consegue dormir, tem insônia. Quando dorme tem pesadelos com assaltos, armas disparando, gritos de socorro. Durante o dia começa a ver pessoas suspeitas lhe seguindo. Em casa instalou alarme e câmara de vigilância. Comprou carro blindado.  A esposa se preocupa com suas atitudes exageradas, sua perda de peso, sua preocupação excessiva por assaltos e roubos e lhe marca consulta com um psicólogo.
Este lhe sugere que conte ser o autor do telefonema que desencadeou seu problema psíquico, quase paranoico. Que não mais invente histórias que molestem terceiros. Que bulling não fica bem numa pessoa de sua idade e posição.
Sua esposa e filhos ao ouvirem sua confissão entram em choque, ficam desapontadas por tal atitude infantil e de desconsideração ao próximo. Sabiam da mania, mas não imaginavam que poderia chegar a este extremo. Os amigos também o condenam e procuram se afastar.
Ivan sofre calado. A terapia do psicólogo lhe diminuíram os pesadelos e a insônia, mas a vontade de inventar histórias continua latente. Chega a conclusão que é um vício mais forte que ele.  
Já começara a tomar antidepressivos, quando, ao comentar o caso com uma colega do escritório, esta o convida a participar do seu grupo anônimo de terapia. Meio relutante, mas sem alternativas a recorrer aceita.
Na primeira reunião, ouve uma ladainha de histórias sobre problemas de todos os tipos que lhe vão entrando pelas entranhas e, aos poucos, levantando seu animo decaído. Na sua vez de falar levanta-se e, com voz firme – ao contrário dos demais que balbuciaram suas angustias tremulamente  ─ discursa não sobre suas aflições, mas como os presentes deveriam agir para conseguirem  se livrar de seus pesadelos, que caminhos deveriam seguir. Quanto mais expunha seus pensamentos, mais boquiabertos ficavam os ouvintes, confirmando com acenos positivos  suas concordâncias. Sua apresentação terminou com aplausos. Sorrisos transformaram o ambiente de abatido em esperançoso.
 O coordenador do encontro, após elogiar sua maneira objetiva de expressar-se, lembrou-lhe que ele ainda não tinha dado o motivo da sua  presença.
─ É este! Respondeu ele. É esta a minha terapia! Dar vazão a minha imaginação de inventar histórias aos acontecimentos, de dar outros rumos aos fatos. E aqui posso fazer isso sem precisar me esconder.
─ É a minha salvação!
O coordenador então diz que não se preocupe, que seu problema  será logo resolvido, pois sua terapia será complementada com a participação ativa dele no grupo dos Alcoólicos Anônimos e, havendo ainda necessidade, na dos “Cornudos Mansos” ou na dos “Recém Assumidos” ou na dos ...
─ Basta! Grita Ivan. Quero ir pra casa e contar a família meu pronto restabelecimento:

E desta vez, lógico, sem inventar ramificações espinhosas”...

Filme de amor - vídeo para aula de 10 de junho

Rumos imprevistos na vida - Adolfo Westphalen




Rumos imprevistos na vida 
Adolfo Westphalen


João vivia em São Pedro da Aldeia, cidade situada a 200 km de São Paulo e que passava por acentuado desenvolvimento econômico fundado no processamento da mamona.
                Cursou o primeiro e o segundo grau em colégio de sua cidade natal, o que lhe assegurou sólidas bases.   Para ingressar em uma faculdade de economia, projeto que alimentava, foi morar em Campinas, a uma dezena de quilômetros de casa, onde conhece Maria por quem desenvolve sentimentos de estima e afeto. 
                No último ano da faculdade, ambicionando obter renda que lhe assegurasse bom nível de vida, analisa dados de empresas que se expandiam rapidamente. Oportunidade muito favorável lhe é oferecida por fábrica de óleos vegetais que processava essencialmente sementes de mamona, o que João, prontamente, aceita.
                Decorridos seis meses ele domina todas as atividades da unidade fabril e tinha pleno conhecimento da ampla gama de usos do óleo de mamona, desde fábricas de sabões especiais até indústrias farmacêuticas que utilizavam o produto na elaboração de vários medicamentos.
                O espírito empreendedor de João fez com que sua indústria se ampliasse continuamente beneficiando-se do fato de o óleo de mamona estar em crescente demanda. Eis que um laboratório sediado em São Paulo interessado no produto estabelece contato com João.
        Decorridos poucos meses, o laboratório decide associar-se a ele e, passado um ano, essa associação leva à construção de expressivo empreendimento industrial que tem  os dois como sócios.
        Passada a fase em que as preocupações e as atividades do negócio se centravam em obter recursos para assegurar-lhe uma vida estabilizada, João toma consciência de que seu relacionamento com Maria vai-se enfraquecendo.  A preocupação com esse quadro passa a interferir em sua saúde.
Após longas conversas, João e Maria fazem profundas reflexões sobre a vida a dois e tomam a decisão de encerrar a estada em Campinas.

        Transferem-se para São Paulo onde recomeçam uma vida enriquecida pelas experiências adquiridas e reserva financeira acumulada em Campinas.
               

Sonho das histórias - Mario Augusto Machado Pinto





SONHO DAS HISTÓRIAS.
Mario Augusto Pinto Machado



As crianças sentadas em semicírculo na areia da praia já me estavam esperando, mas contrário às minhas normas hoje havia alguns jovens. Alertei que não podiam ficar. Houve vários Ah, deixa, é meu irmão. É minha amiga, por parte das crianças. Pensei melhor e concordei avisando que não se intrometessem nas narrativas, do contrário não continuaria. Palmas de aplauso e diversos Não fala nada, viu?

— Para iniciar, perguntei: Onde estávamos na última vez?

Aceito por todos e como sempre, Tiquinho respondeu:

Você estava começando a contar uma história do Vermute lá pelos países do Norte.

— Verdade. Então, recordando: Vermute leu histórias sobre os países do Norte e se entusiasmou. Poderia ver coisas que não conhecia como a neve, gelo no mar, focas e, talvez, até ursos brancos, grandalhões, a Pequena Sereia, mas o que queria mesmo era chegar até a casa do Papai Noel.

Mas ele não...

 — Fica quieto! Não diga nada. Então Vermute foi de avião até um País chamado Dinamarca. Quando chegou foi direto ver a estátua da Pequena Sereia sentada numa pedra olhando o mar. Parecia triste e Vermute perguntou o que a deixara assim. Respondeu que estava cansada de ficar ali sentada, tinha sofrido várias agressões, queria sair, voltar a nadar. Será que poderia ajudar? Vermute usou seus poderes de transformação, mas antes avisou que o encanto era para ela só nadar ali perto à noite e voltar para a pedra durante o dia. A pequena sereia aceitou e lançou-se ao mar nadando, rindo, cantando de alegria. Vermute olhava contente com a alegria dela, mas pediu para ela voltar: ainda não era noite. Avisou que ia ver outros lugares, depois voltaria.
            
A chuva interrompeu a história. Foi uma debandada geral. Voltei para casa, jantei, mal falei com a Clô e fui dormir.

Sonhei com a Pequena Sereia sendo maltratada por muitas pessoas porque estava nua. Encontrei-a chorando. Usando meus poderes, imediatamente cobri seu corpo com um lindo manto. Gritos me chamaram a atenção. Era o Príncipe Submarino que chegava e espantava aquela gente raivosa. Clamava Minha querida, minha querida! Estou aqui. Fique calma. Como é que isso aconteceu?  Ela respondeu: Aquele mago ali tinha dito que podia.  Irritadíssimo, o Príncipe correu na minha direção gritando Maluco! Acabo com você! É pra já! Aí estourou um raio. Era o Capitão América que me defendia. Subimos aos céus e fomos a Paris onde nos juntamos a Obelix e Asterix que estavam assando um cateto controlando o fogo da Tocha Humana. Ao se cumprimentarem deu para ouvir o barulhão com “tapinhas” nas costas e o ranger das costelas deles sendo apertadas com os abraços. Asterix logo chamou para comer. Depois que Obelix se serviu pouco sobrou pra nós, mas estava uma delícia. O sonho acabou.
                   
Acordei com gosto ruim na boca, cabeça pesada, corpo cansado e sem vontade de fazer a maleta para passar o fim de semana na casa da Restinga da   Marambaia com a familiagem toda. Era bastante gente, muito barulho, inclusive bebes de colo, os gêmeos da minha irmã. Sou padrinho deles.

Calor muito forte, trânsito caótico, viagem demorada e cansativa. O tempo mudou começando a ventar forte agitando as ondas do mar. Todo mundo estava pregado, arrumamos as camas, etc., comemos um lanchinho e fomos deitar. Fiquei acordado muito tempo só conseguindo dormir quase ao amanhecer. Clô me disse que tive sono agitado, revirando na cama, afastando as cobertas, murmurando palavras desconexas.
       
Você continua tendo sonhos malucos. Já é demais. Você mexe a cabeça pra todo lado, pernas e braços que me obrigam a empurrar você.  Afinal, o que você sonhou de tão ruim que lhe provocou tanta agitação? Pode começar a contar. Desta vez faço questão de saber. Conta, vai!  
                   
 — Bom, é que sonhei com nossos sobrinhos gêmeos. Eles estavam no carrinho com a Lia na lapinha. Ela colocou os dois na pedra e brincava com eles quando veio uma onda mais forte que jogou-os na água. Ela ficou desesperada, mergulhou procurando os gêmeos. Gritava por eles e me chamava para acudir. Eu estava sonolento na varanda, ouvi os gritos e corri o mais rápido que podia, mas você sabe, a lapinha é longe. Aí chamei o Capitão América. Atendeu meu apelo junto com o Homem Aranha. Voando feito rojão tiraram os três da água, passaram a lapinha e os colocaram na areia da praia. Estava agradecendo quando do nada apareceu a Liberdade desesperada. 

Estava seguindo você, gritou ela. Esta saia me atrapalha, que coisa! Tinha pressentimento que algo errado estava para acontecer. São os meus gêmeos! Como apareceram aqui?  Um estava na Europa com a Sereia e o Manequinho na frente do Estádio do Botafogo. Como explica isso seu Fred?   

 — Liberdade, são coisas que acontecem, não é culpa de ninguém.

 Como não! Você, seu mago de meia tigela é o culpado, respondeu agitando o corpanzão pra me pegar, mas, o Capitão América me levou pra longe e me salvou da ira da mulher. Depois disso as coisas ficaram confusas e não lembro bem. Foi isso. Está satisfeita? O beijo que recebi respondia que sim, estava.  Retribuí, beija daqui, beija de lá, uns amassos e, banhados pela luz do sol que entrava pela janela, acabamos fazendo amor gostoso.
       
Tomamos uma chuveirada juntos. Que gostosura! Clô desceu dizendo que nos encontraríamos na praia.
                   
Logo depois também desci, fui pra praia. De repente estanquei: tinha uma aglomeração na lapinha. Clô me chamava agitando os braços. Aconteceu, aconteceu, pensei angustiado, coração batendo feito um bumbo. Corri no que dava.

Vi que os gêmeos estavam nos braços da Mulher Maravilha e do Fantasma.

Não é possível, estou sonhando acordado!

Corri mais rapidamente. A gente toda me chamava. Parei de correr. Feliz da vida, lembrei-me e gritei:
                           
É isso! É isso! Hoje é sábado de Carnaval!

Gustavo o sacristão - Oswaldo Romano


GUSTAVO O SACRISTÃO
        Oswaldo Romano                                                                      
        Gustavo é o sacristão da igreja matriz, desempenhando essa função desde os dezesseis anos. Hoje com vinte e cinco, assiste àquelas que eram crianças, cantar no coral adulto da igreja.
        Umas mudaram-se da cidade, outras chegaram. O coral estava sempre completo para a alegria dos fieis. A presença era muito concorrida.
        Impressionante a história que ele me contou da Luzia. No horário da Ave Maria, pendurava-se nas cordas dos sinos, acionando-os. A cidade tinha esse horário como uma divisão das águas. Na preocupação de possível queda, ou mau funcionamento  do carrilhão, olhava para cima aguardando o momento oportuno da próxima puxada.
        Luzia a principal voz do coral, há meses foi vítima de um enfarto fulminante. O coral guardou luto fechado por uma quarentena e o Padre Guerino a referenciava em todas as missas.
        Gustavo contou-me que no dia 13 de dezembro, dia de Santa Luzia as cordas ficaram leves. Logo imaginou que os sinos se soltavam. Olhando  para cima vê Luzia segurando as cordas, corpo flutuando, ajudando-o a puxá-las. Com seu vestido de tule branco esvoaçando, ela olhava-o, enquanto repetia aquele ensurdecedor  som: Tóiimm! Tóiimm! Tóiimm! Tóiimm! Enquanto o som vibrava, ela mostrava um sorriso angelical.
        Ao me contar essa passagem, disse depois ter sonhado várias vezes com essa ajuda, Uma cena tão inusitada, que ele tinha dúvidas ter sido apenas uma visão. Sentia o tecido da saia de Luzia roçar-lhe o rosto, sempre que algum sopro de vento o tocava.
        Emocionado contava-me isso, quando estávamos sentados no banco do jardim da matriz. A igreja foi erguida no centro de um quarteirão e recebeu ao seu redor lindas árvores e flores, custeadas pelos fieis da cidade.  Árvores altas, copas viçosas  dificultavam a iluminação, ficando o ambiente na penumbra.
        Ouvindo seu relato, escondia meu ceticismo para não desiludi-lo. A missa da noite, ha horas havia terminada. A igreja estava às escuras.
        Nessa noite, não havia previsão de chuvas, mas bateu aquele vento que a precede. Gustavo olhou para a igreja. Os sinos adormecidos, começaram primeiro emitir um toque muito forte. Seguiu-se o costumeiro repicar, repicar da Ave Maria. Gustavo atirou-se de joelhos no chão.

Eu, ali estático, senti passar por todo meu corpo, um estranho calafrio.                            Era o calafrio que ronda a morte.

A adivinhatriz - Vera Lambiasi


A Adivinhatriz                                                                                      Vera Lambiasi



Era uma vez uma rainha egípcia chamada Madalena.
(Isso é nome de nobre nascida a beira do Nilo?)

Tinha sonhos premonitórios de soluções de problemas.

A coisa era bem simples. Dormia com a preocupação, acordava com a resolução.

Dizia sonhar com os ancestrais falecidos, que lhes abriam os olhos no meio da noite.
(Devia ser assustador, múmias esgueirando das pirâmides, cutucando-a).

Ninguém acreditava, mas ela apontava o que devia ser feito com riqueza de detalhes.

Certa vez, recitou parágrafo, inciso e alínea, de um documento que carecia de acertos. Feito o adendo, negócio fechado. (Mais uma irrigação nas margens do rio?).

Foram ficando notórias suas visões, consultas constantes começaram a pipocar.

Fazia com gosto para a família, embora fossem quase todos céticos.

O crente da vez dava-se por satisfeito, e ponto.

Dos sonhos, Madalena herdou uma boa intuição, acordada mesmo.
Dizia do recém-chegado, este cara não presta. O tempo mostrava que era verdade, apesar dos protestos iniciais.

Foi ficando com uma personalidade tão franca, que já a colocava em má reputação.

Consultada, nunca mentia. Não havia equívoco para ela, cheia de si.

Tinha um insight, matutava um pouco, fazia suas pesquisas, amadurecia a ideia. E pimba! Acertava em cheio.

Até que apareceu em seus domínios um senhor muito rico, querendo comprar seus pensamentos.

Ela faria as previsões, ele investiria, e dividiriam os lucros.

A tentação foi grande. O dinheiro era bom, e ela poderia ter tudo o que a deixaria em paz. (Camelos, cobras, tiaras, uvas?)

Não haveria envolvimento emocional, apenas business.

Começou tentando sonhar com o problema dado pelo chefe, como nos velhos tempos.

Seus pais, tão presentes em suas passadas noites, agora jaziam como verdadeiramente mortos.

Acordava nula de soluções.

A intuição diurna tampouco funcionava.

A ganância a levava a mundos longínquos. (Roma, talvez...)
Quanto mais insistia o magnata, menor vontade criativa tinha seu cérebro.

E não é que parou?

Madalena teve um colapso.

Medicada, voltou a si, mas de nada se lembrava.

Maltratou o ricaço, que a julgou pirada, desistindo de suas adivinhações.

Sozinha em seu castelo, Madalena voltou a sonhar.

E na visão dos falecidos, percebeu:

Sem amor, não rolava.

Voltou aos serviços domésticos.

(Mas não era uma rainha?)

Um corpo na relva - Carlos Cedano


UM CORPO NA RELVA
Carlos Cedano

Com dezessete anos Bento já tinha decidido o que faria no restante de sua vida: seria contador de histórias e causo, como seu tio Ramiro que o incentivava. Acompanhava o tio nas suas apresentações para ouvi-lo contar suas histórias, não perdia nenhum detalhe, observava e guardava tudo!

Nas apresentações Bento “fazia” o fundo musical dedilhando os poucos acordes de violão que o tio tinha-lhe ensinado.  Quando ele decidiu deixar a profissão, o designou como seu sucessor e o fez o herdeiro de seu violão.

O rapaz já tinha suas próprias ideias! Uma delas seria ampliar o âmbito de suas apresentações, outra seria inventar novas historia e causos. Como um bom chef de cuisine que introduz aos poucos pequenas variações em seus pratos para melhorá-los, Bento continuamente aumentava novas frases e novas figuras de linguagem ou alterava passagens de sua narrativa atualizando-as. Criatividade não lhe faltava!

Nos anos seguintes visitou quase todos os município do sul de Minas e os paulistas ao longo da divisa com esse Estado. Anotou minuciosamente as datas de suas festas e principais eventos à medida que acumulava informações de suas culturas e costumes. Isto lhe permitiu estar sempre no lugar certo e na hora certa. Sua fama se consolidava, os convites não lhe faltavam e faturava alto.

Seduzia as plateias com uma estratégia simples. Criava histórias e causos específicos para os municípios mineiros onde tirava sarro e ironizava os paulistas, inversamente, fazia o mesmo com os mineiros quando visitava municípios paulistas. O pessoal delirava! Era feliz e estava no esplendor de seus trinta anos!

Mas o ponto fraco de Bento eram as mulheres, sobretudo as casadas, sua fama tinha se espalhado magoando muitos maridos. E sua verdadeira paixão era Laura, a bela e exuberante mulher da pele  cor canela que o deixava doido! Era esposa de um fazendeiro mineiro que, avisado por amigos, já estava de olho nele. Corria a boca pequena que preparava vingança. Mas Bento era vidrado nela e não desistiria de vê-la cada vez que tivesse oportunidade.

Foi também nessa época que nosso personagem começou a ter os sonhos que o preocupavam. Num deles “viu” que seu grande amigo Pedrinho, motorista de caminhão, tinha sofrido um grave acidente, comentou o sonho com alguns amigos. Horas depois chegou a notícia de sua morte, tal como Bento a tinha descrito.  Também sonhou que a esposa de outro amigo morreria durante o parto, mas não comentou com ninguém sua visão. Sonhou que seu compadre Raimundo ganharia sozinho na loteria, e seria uma bolada e tanto! Porém o sonho que o consagrou e lhe deu fama de vidente, foi quando acertou na mosca o nome dos prefeitos que não seriam reeleitos!

Essas “coincidências” começaram a preocupá-lo. Uai! Que será que me está acontecendo? Era a pergunta que se fazia e não sabia explicar!

Uma tarde sentado com dois amigos na mesa de um bar, Bento estava retraído e muito triste, com certeza algo o preocupava e isso não passou despercebido pra seus amigos:

— Que foi Bento, tá amuado, por quê? Disse um deles.

— Vai ver que a Laura não está dando bola mais pra ele, né Bento? Perguntou o outro.

Após de alguns longos minutos de silencio Bento falou:

        — Nos últimos meses tenho tido um sonho que se repete. Sempre a mesma cena nebulosa, o único que consigo distinguir vagamente é a figura de um homem nu correndo no meio de um campo verde e com uma pomba branca na mão e quando a nevoa começa a se dispersar, acordo com medo e ofegante sem reconhecer o cara. Não sei o que isso significa!

Os amigos ficaram em silêncio, não sabiam que dizer. Bento pediu licença e se retirou.

Dias depois encontraram seu cadáver estendido nu na relva e uma pomba destroçada por um tiro perto de seu corpo, a casa de Laura ficava a menos de cem metros. Foram três tiros certeiros em lugares vitais, serviço de profissional!

O primeiro suspeito foi o marido, mas constatou-se que na ultima semana estava viajando a negócios. Quando interrogaram Laura, limitou-se a chorar negando sempre que Bento tivesse estado na sua casa. Estava aterrorizada!

A morte de Bento espalhou tristeza em todos os cantos da região e seu enterro teve a presença de autoridades, parentes, amigos e muitos admiradores, porém o crime aos poucos foi caindo no esquecimento. Nunca ninguém foi acusado!


Para seus amigos mais próximos, Bento, simplesmente, morreu na sua lei!

ZÉ GATO - Jeremias Moreira

Foto: Marcos Santos / USP 


ZÉ GATO
Jeremias Moreira

Entre os amigos de infância do Cacau, havia o Gilberto, apelidado de Gatinho, por ser filho do Zé Gato, e o Rafael, de Sapinho, porque tinha o rosto bexiguento, cheio de cravos e espinhas.

O Sapinho vendia frutas e legumes na rua para o seu Anacleto, dono da quitanda. Muitas vezes o Cacau e o Gatinho iam juntos para que acabasse logo e sobrasse tempo para a pelada com bola de meia.

O Gatinho e o Cacau moravam na mesma rua. O Cacau adorava ir à casa, dele porque tinha um grande quintal e muita fruta.

Fazia tudo escondido dos seus pais, que desconheciam esse seu lado verdureiro e o proibiam peremptoriamente de frequentar a casa do Zé Gato. É que a família do Gatinho era mal falada. Diziam que sua mãe, dona Alzira, recebia homens na ausência do marido,  e que sua irmã, a Valéria, era puta na cidade de Bauru. A Valéria tinha uma filha, a Geralda, que passava as férias na casa dos avós. Era quando o Cacau mais gostava de ir lá. A menina tinha a mesma idade dele, mas era bem danadinha. Sabia coisas que acontecem entre homem e mulher que ele nem sonhava. Eles iam para o fundo do quintal e a Geralda, como boa professora, lhe ensinava tudo. 

Não sei por que conto isso, pois o que pretendo é falar do Zé Gato.

É difícil definir a cor do Zé Gato. Talvez fosse bronze. Ele era um negro meio avermelhado e resultava nessa cor indefinida. Trabalhava como fiscal da prefeitura. Supervisionava os garis e os funcionários braçais. Tinha um ar misterioso e diziam as más línguas, que executava trabalhos nada ortodoxos para o prefeito, como espancar desafetos. O Zé Gato era assustador, mas tinha uma extraordinária capacidade para contar histórias. Elas tinham sabor de “quero mais”.

Ele cobrava para contá-las! Cada história custava dois cigarros!

Isso obrigava a garotada a invadir as cozinhas de suas mães para roubar ovos e trocar por cigarros, na sorveteria do Arnoni. Para cada ovo, o Arnoni dava três cigarros Beverly, que era a marca que o Zé Gato fumava.
O Cacau tinha medo do Zé Gato, no entanto frequentava sua casa, embora ele quase nunca estivesse, e sentava relaxado no meio da criançada para ouvir suas histórias.

A que ele mais gostava era a do Sapo que se esconde na viola do Urubu para ir a uma Festa no Céu. O Sapo bebeu demais e, na volta, começa a soluçar dentro da viola. O Urubu percebe e, indignado por ter sido enganado, ameaça jogá-lo, lá do alto. O Sapo implora para não ser jogado na água. Malvado, o Urubu faz exatamente isso e o joga na lagoa.  Sorridente, o Sapo emerge e acena zombeteiro para o Urubu.

Essa história era repetida todas as noites e cada vez o Zé Gato contava de uma forma diferente e sempre conseguia maravilhar a molecada.

Eles se reuniam na esquina da mercearia do seu Manoel Lopes.  O Zé Gato sentava no degrau da porta e a criançada se espalhava em volta.

Eles davam os cigarros e ele começava contar.

Certa noite ele criou uma história nova. Um pirata horroroso, com olho de vidro, sai à procura de um tesouro. Navega até a Ilha Misteriosa, que está toda poluída e lê, num bilhete, que o tesouro fora transferido para o Planeta Vermelho. O pirata constrói um foguete, com restos de sucata, e decola em direção a esse planeta. Lá ele engana o guarda do tesouro e foge. Acontece, que na arca do tesouro havia uma bomba escondida. A bomba explodiu e destruiu o foguete. O Pirata ficou no espaço, condenado a limpar todas as estrelas, diariamente.

Nessa noite, Zé Gato sonhou! Ele era um pirata que invadia a prefeitura e arrombava o cofre forte, onde estava todo dinheiro da cidade. Ao fugir, surgia uma viatura da polícia que o perseguia. O carro que usava, por mais que acelerasse, não saia do lugar. Então, ele foi preso e perdeu o emprego.

Acordou ofegante, suado. Sentiu alívio quando se deu conta de que fora apenas um sonho.
O que ele não sabia é que o desfecho do sonho estava prestes a se tornar realidade. A dona Eulália, uma velha ranzinza, que morava do outro lado da rua e o avistava, toda noite, rodeado de crianças, pensou o pior. Foi à delegacia, denunciá-lo como corruptor de menores.

Na noite seguinte a polícia foi conferir e se deparou com a cena que a dona Eulália havia descrito.

Então, prendeu o Zé Gato.

Para surpresa da polícia, a patota, em peso, se rebelou para impedir sua prisão. Foi o maior bafafá. Alguns pais foram chamados e depois de muita conversa, tudo ficou esclarecido.

Nas noites quentes de verão o Zé Gato era apenas um contador de histórias!

O melhor que conheci!

A Baronesa - Vera Lambiasi



A Baronesa  
Vera Lambiasi

Depois de cinco divórcios, e algum dinheiro juntado, Rosa decidiu mudar de vida.

Deixou o sul, onde era muito manjada, e investiu numa propriedade ao norte de Milão.

Passou por brechós em Roma, vestiu-se com cachemiras, lãs e pérolas.

Em Florença, arrematou móveis de segunda-mão de uma falida família de duques.

Juntou quadros e tapetes falsificados, mas de boa estampa.

Caprese, cidadezinha pequena, tudo à venda, pagou barato pela antiga casa de pedras.

Astuta, fez o projeto de reforma, empregou pedreiros locais, ia jogando conversa fácil e conseguindo favores polpudos, daqui e dali.

Corria na praça, que a Baronesa iria se estabelecer junto a fonte, montar comércio, trazer investidores, fixar pousadas.

Assim, estabeleceu-se, com a concordância até dos mais tradicionais moradores.

Senhora Rosa, com sua nobreza, traria pujança ao vilarejo, pensavam todos.

E ajudavam, mais, e mais.

A esperta caprichava no sotaque milanês afrancesado. Já comprava fiado na venda, no café, até no salão de beleza. Sua presença ali trazia novas freguesas, a procura de dicas da personalidade de mais bom gosto das redondezas.

Recitava poesia portuguesa, decorada às pressas. Passos de flamenco, ensaiados frente à TV. Receitas austríacas de dar água na boca, surrupiadas da internet.

Uma cidadã da elite europeia, não punha dúvidas.

Abriu sua casa para aulas de etiqueta, caligrafia, costura moderna, culinária prática, e o que sonhavam as clientes em potencial, pobres camponesas.

Esqueceu a volúpia, não recebia homens, apesar dos galanteios na missa de domingo.

Bem apresentada, passava confiabilidade. Dívidas eram perdoadas, aposentadorias postas em suas mãos para aplicação. Engordava seu bolso, e enrolava na montagem dos negócios.

Meses passaram, quase um ano, quando apareceu ali um suíço bem apanhado, meio grisalho, calças vermelhas. Um mistério a ser descoberto por Rosa, já enferrujada de suas conquistas.

Foi fácil para ele, tê-la em seus lençóis. Arrebatou-a sem dó. Conquistou-a numa simples noite.

Cega de paixão, abriu sua casa e corpo.

Casaram, contas conjuntas.

Uma semana depois, parava na garagem um caminhão de mudanças.

O suíço prometeu mudarem-se para um palácio de sua família, além da fronteira, como merecia uma baronesa.

Rosa empacotou, e despachou tudo com um sorriso largo.

Adeus vidinha vulgar naquela pocilga.

O marido estrangeiro, foi com a mudança, combinando resgatá-la em poucos dias.

Em poucos dias... O dinheiro foi raspado do banco.

Rosa permaneceu na casa fria, sem móveis nem adornos.

E Caprese, mais uma vez a acolheu.


Trabalha agora com presteza no salão de beleza “A Baronesa”.