Calça Arreada - José Vicente Jardim de Camargo



Calça Arreada

José Vicente Jardim de Camargo


Jorge já localizara seu carro na garagem do aeroporto, de mãos abanando, aperta o botão de destrave da porta e ao abri-la, não  sabe de onde nem como, uma voz pelas costas lhe múrmura rente ao ouvido:

— Entre sem virar e passe para o banco do acompanhante!

Jorge tenta uma reação, mas logo sente, apertando sua costa, algo duro que sua imaginação logo define como o cano de um revolver.

Entra e, com alguma dificuldade, senta no banco do acompanhante já procurando distinguir algo ou alguém a quem recorrer.

A voz, desta vez em tom forte e incisivo, diz:

— Baixe as calças, rápido!

Jorge, não contendo a surpresa, mira o sujeito que o olha fixamente sem demonstrar nenhum sinal de brincadeira ou gozação. Pele morena, cabelo cortado rente, bigode grosso, feição de um todo normal, sem suspeita de drogas ou banditismo.

— Rápido! Já disse -  repete mais áspero e desta vez, mostrando o cano da arma saindo do bolso da jaqueta de brim.

Jorge, com a mão na fivela do cinto, reluta:

— Deve estar havendo algum engano, não sou..., mas antes de terminar a frase, o estranho começa a lhe apalpar, em movimentos bruscos, o colo, descendo pelo traseiro até a coxa.

— Cadê a grana? Onde escondeu? Fala senão lhe arrebento os miolos seu fdp. Estou te seguindo desde o banco, portanto não me tente enganar.

Para Jorge a ficha caiu...Tudo se tornou claro. Só a maneira de contar é que devia ter cuidado, para não piorar a situação de perigo em que se encontrava.

— Olha, tudo bem! Só que o dinheiro que tirei no banco não era para mim, mas para um amigo que foi para Buenos Aires. Pedi-lhe para comprar um Smartphone 4G. Lá, no câmbio paralelo, sai pela metade do preço. Tinha sim o dinheiro numa carteira presa ao cinto, dentro da calça, mas você deve ter visto quando fui ao banheiro. Lá entreguei ao meu amigo que me esperava dentro do toilete.

Jorge, temendo a reação nervosa do assaltante, lhe oferece seu celular 3G como recompensa e, notando que a frustração do outro não diminuía, completa:

— Bem! Também podemos terminar nossa conversa num outro local mais calmo, regado com uma cerveja gelada, uma boa branquinha, whisky?


UMA HISTORIA TRISTE, MUITO TRISTE - Carlos Alberto Cedano



UMA HISTORIA TRISTE, MUITO TRISTE
Carlos Alberto Cedano

— Pai, Pai - entrou correndo Vivianne no escritório da casa onde Zé Roberto, trabalhava.

— Que foi minha filha? - disse  o pai, preocupado, ao vê-la tão nervosa e trémula.

— Pai, a mãe de meu amigo Robertinho morreu, parece que caiu da janela de seu apartamento - completou Vivianne continuando a chorar copiosamente.

— Como você ficou sabendo? - Perguntou o pai.

— Foi nossa professora que comunicou pra turma no fim das aulas.

Que tragédia pensou rapidamente Zé Roberto. Robertinho tinha apenas 12 anos de idade e tinha sido bastante afetado com a separação dos pais. A morte da mãe, nessas circunstancias  terá, sem nenhuma dúvida, um impacto cujas consequências poderão ser terríveis para o menino, concluiu para si Zé Roberto.

Os outros pais de família ficaram sabendo do acontecido e as versões e especulações começaram a circular. Ela parecia que estava reagindo tão bem à separação, disse uma das mães, outra falou que tinha ficado sabendo que a mãe estava sentada no sofá com Robertinho e que de um momento a outro, inesperadamente, correu até a janela e se jogou. Morte instantânea, suicídio na opinião generalizada dos presentes.

A polícia fez as averiguações do caso, conversaram com vizinhos, colegas e professores de Robertinho e todos estavam surpresos com o acontecido. Mariana, a mãe, não tinha mostrado, além da tristeza que causam as separações, nenhum comportamento particularmente anormal que chama-se atenção tinha sido observado.


Não foi possível obter informações do Robertinho. Parecia que o mundo tinha se fechado pra ele. Olhar perdido, rosto inexpressivo, completamente catatônico. Vê-lo assim, era verdadeiramente estarrecedor.  

LAMENTÁVEL, A ESTRADA DA FAZENDA - Oswaldo Romano


LAMENTÁVEL, A ESTRADA DA FAZENDA

Oswaldo Romano         
                                                         

         Quando meu carro quebrou na volta da fazenda, anoitecia. Família a bordo, crianças choravam, deu pânico. Pânico que atingiu em cheio as crianças.  Consegui, depois de hora, trazer o carro para a oficina de São Paulo.
         Veja você, antes da quebra fez aquele barulho que assustou a todos: Plaq, plaq, plaq. Segurei firme no volante, trepidava, prirr, prirr, prirr, forçava para escapar-me.
         Justifica-se: A estrada, é horrível, bota medo. Os buracos pareciam feitos com trados, tinham cantos vivos, os pneus eram judiados por aqueles gonetes.
         Eu até previa, diante de tantos solavancos que iria quebrar alguma coisa, nos deixar na mão. Pedi proteção a São Cristovão. Foi tarde.  Não deu outra! Aconteceu!
         Acionado o seguro, chegou a plataforma. Na sua cabine, nos amontoamos indo até a oficina, onde tomamos um taxi. Um não, dois. Segundo o mecânico, teria quebrado a suspensão e possivelmente danificado outras partes.
         Depois de quatro dias, foi-me devolvido o carro. Estava lavadinho e  cheiroso. Embora tenha passado por uma situação constrangedora, vendo-me numa estrada feita há muito tempo para carroças, ainda me considerava feliz diante do resultado final.
         — Pai,- Disse meu filho do meio.
         — Fale filho.
         — Acontecesse nos Estados Unidos, iriam buscar-nos de helicóptero.
         — É verdade filho, só que lá não tem esse tipo de estrada.
         — Matou pai...
         Depois de quatro dias, meu carro foi entregue de manhã. Muito bom. Teria de sair à tarde para uma importante reunião, devidamente trajado, paletó, meias, gravata.
 Minha casa fica no topo da Ladeira Morro Alto.
         Estando tudo pronto, banho, barba, almoço, carro limpo, lá vou eu!
         — Amigo!
         Na descida da ladeira acionei o freio. Um susto! O pedal bateu no assoalho, e nada! Fiquei branco! Não encontrei pressão... Bombei, bombei, bombei, nada! Teria chegado minha hora? Foi uma coisa jamais imaginada! O mecânico era de confiança. Mas, um safado. Perdão não era hora de xingar e sim rezar. Vi a morte! Chamei por Deus. Ele me clareou.
         — Cambio, o cambio... Rápido! Engate o câmbio na ordem! Terceira, segunda, primeira, encoste, raspe a guia.
         Esforçava-me para manter o carro rente a guia. Podia ouvir os gemidos estridentes do aço raspando no meio fio. Meu coração disparou, queria saltar do peito. Temia pelo pior. Em seguida estremeci com o estouro do pneu dianteiro que logo desestabilizou mais ainda o veículo jogando-me mais forte contra a sarjeta. Até que o carro finalmente parou. Minhas mãos tremiam segurando firme o volante, tenso. Ufa, respirei fundo.
 Desci, tremendo sentei-me na sarjeta, esqueci a minha roupa limpa. Olhei para o que sobrou da roda, fechando as mãos agradeci, bendita  roda, mandei beijos. Chamei o mecânico.
         Voltei para casa, entrei, - a mulher...
                   — O que aconteceu, o que foi?
         — Lembra amor, quanto você resmungou, acabou comigo,  por ter-lhe dado um carro mecânico? 
         — Sim, e daí?
         — Ele acaba de salvar minha vida.


*****

COINCIDENCIA? - Carlos A. Cedano



COINCIDENCIA?
Carlos A. Cedano

Após de 10 dias de trabalho intenso na América Central, Rogerio podia aproveitar um curto descanso antes de voltar para casa. Acordou bem cedo para correr na linda praia frente ao hotel. Enquanto corria a beira mar, marcando o ritmo de seus passos contando um, dois, três, três dois um, como fazia na época do exercito, pensava na Gabriela sua esposa, e que logo estaria com ela.

Por enquanto estava se deliciando com um dia maravilhoso e com a água do mar acariciando e relaxando seus pés. De repente percebeu alguns objetos na areia colocados numa forma linear: um peixe grande que parecia em estado agonizante, logo um pequeno buquê com duas rosas que pareciam ser uma oferenda e, finalmente, um belo pássaro dourado que caminhava sossegado pela praia catando comida. Quando Rogerio parou, para contempla-lo melhor, ele voou alto, muito alto e resplandeceu com os raios do sol.

Curioso, pensou ele, esses objetos me fizeram lembrar uma situação descrita por Jung em sua autobiografia. Nela contava uma situação na qual um monge budista, contemplando restos depositados pelo mar na orla, disse para os discípulos, esses objetos tão diferentes não estão aí por acaso, para o Tao sempre existe um significado. Rogerio sorriu de sua própria incredulidade e continuou sua corrida.

Poucas horas depois estava voando para seu país e para os seus.

Chegando soube, com muita tristeza, da morte de seu grande amigo Marcio. Era seu companheiro de pescarias e tinham acertado sair mar afora brevemente. Sua mulher, Gabriela, o consolou com ternura.

Quando Rogerio se acalmou, Gabriela disse-lhe:

Amor, tenho uma noticia que vai te deixar feliz.

Qual é? - Disse Rogerio.

Você vai ser pai -respondeu Gabriela.

Rogerio exultou.

Para quando será nosso filho?

Calma meu amor, estou apenas de quatro semanas, provavelmente em outubro... Ah, são gémeos.

Rogerio se desfez em lagrimas, tanta era sua felicidade.

No dia seguinte, ele chegou cedo e muito alegre, para preparar a reunião onde comunicaria os resultados de sua viagem e mostraria o sucesso dos negócios realizados. A Diretoria em pleno estava presente com seus respectivos assistentes. No final, foi aplaudido e o Presidente da empresa comunicou que Rogerio seria promovido para chefiar a nova Diretoria de Negócios Externos. Uma bela ascensão profissional e quantas emoções em tão pouco tempo!


De volta para casa contou para sua mulher a boa nova. Alguém alguma vez disse que a melhor felicidade se vive a dois, abraçado com o ser amado e melhor ainda, com um bom champanhe, lentamente degustado. De repente relembrou de Jung e pensou, será que foi só coincidência? Os últimos acontecimentos tinham alterado totalmente sua vida. 


Adivinha quem vem para o almoço? - Lúcia Amaral de Oliveira Ribeiro




Adivinha quem vem para o almoço?
Lúcia Amaral de Oliveira Ribeiro

Ela era vapt vupt!

Tai-chi, yoga – nem pensar! Ela lá tinha paciência pra fazer ginástica parada? 

Preferia frequentar a academia, pular e dançar ao som de música axé.

Em sua mesa de trabalho, com as pastas de clientes esparramadas, escrevia duas ou três propostas diferentes ao mesmo tempo. Marcava cabeleireiro por e-mail enquanto falava com a professora do filho em uma linha de telefone, e com o marido em outra. Chegou ao ponto de imaginar perguntas e respostas que servissem para a professora e o marido. Assim, com uma fala, resolvia duas conversas. Confirmou o almoço com o marido – Como tinha esquecido? Aniversário de casamento, dez anos.

Tomou um café enquanto ouvia as notícias e lia o último relatório com os resultados da empresa. Ainda participou de duas reuniões até a hora do almoço.

Atravessou a rua. No horário combinado, estava no restaurante. Só não entendeu porque o marido conversava na entrada do restaurante com a professora do filho... Ops.


Mega sena hospitalar - José Vicente Jardim de Camargo


 Mega sena hospitalar             
  
José Vicente Jardim de Camargo


Jorge ainda não se acostumara com toda a parafernália de alavancas e botões que circundavam sua cama no quarto de hospital onde já se encontrava três dias desde que sofrera um desmaio subido na esteira rolante durante o teste ergométrico que fazia rotineiramente de três em três meses.

Por mais que se esforçava, só se lembrava que estava na terceira  etapa do exame e, segundo seu cardiologista ao lado, seria a última e tudo corria bem.

Querendo provar a si próprio que os anos não lhe tiraram o vigor da mocidade tão ràpidamente como se diz, deu aquela acelerada na expectativa de melhorar a performance em relação ao exame anterior e ai foi que sentiu a danada da pontada no peito, o bambolear das pernas tal qual vara verde em meio de tsunami e o  baque da queda: tchabum, bam,bum, apagão total...

Acordara com o desconforto das picadas que uma enfermeira insistia em lhe provocar à procura da veia escondida.

-“Sua fdp balbuciou”

-“Como Sr.? pergunta a Drácula que ostentava em seu crachá, abaixo do nome, o número 38.

-“É essa veiazinha que não quer soltar o leite”, completou ele.

Ao olhar em volta, se conscientiza da gravidade da situação, dado ao número de aparelhos, cabos e tubos a que estava conectado tal qual astronauta em passeio orbital.
Com o canto dos olhos consegue vislumbrar sua mulher tentando escorar o quadro de Santo Expedido, o das causas perdidas, à parede lisa, enquanto a Drácula lhe pede continuamente para falar 33, lhe auscultando os pulmões.

Em devaneio pelos labirintos da memória, lhe vem a vontade de confirmar o dia da semana.

Num esforço leonino procura através de grunhidos e mexidos, chamar a atenção da sua mulher concentrada na oração.

-Sim Jorge, quer alguma coisa? indaga se aproximando dele.

-Pelos meus cálculos, hoje é sábado, dia do meu joguinho na mega sena. Já tenho os números na ponta da língua...

A esposa, reanimada pela espontaneidade da pergunta no meio das incertezas da doença, acena positivamente e completa:

-“Manda bala, que boa memória você sabe que não me falta...”

- 03, os dias que aqui estou;

- 13, o azar que tive;

- 33, o bendito número que mais digo por aqui;

- 38, o número da Drácula

- 09, minha pressão baixa

- 15.

-“já sei! sua pressão alta”, diz a mulher apressadamente.

- Não minha querida, é a soma de 6+9, aquela brincadeirinha que mais quero fazer contigo quando sair daqui...

 A mulher ruborizada, olha o quadro de São Expedido agradecendo a promessa ganha da doença vencida e, sem rodeios, já lhe pede com fervor uma segunda:

- Que a brincadeirinha ocorra em meio aos festejos da vitória da mega sena acumulada... 


Emulação - Vera Lambiasi



Emulação
Vera Lambiasi

Iara era a mais linda índia do carnaval mato-grossense.

Sua fantasia diminuta fazia corar os mais carrancudos olhos do governador. E os de sua esposa, escancaravam de descontentamento.
A foliã, ao passar, dobrava os sinos de corações latentes. 
Blém, blom, blém, blom ...
Desde o varredor envassourado, até o político surupira, encantavam-se, despudoradamente.
Ao final de cinco dias, voltava a sereia ao seu posto de guardiã lunar.
Xuá, xuá, xuá ...

Atingida por um arpão, vindo oculto das profundezas, morreu ignorante dos motivos letais.


Em fazenda pantaneira distante, comemorava uma mulher desgovernada.

Linhas tortas - Lúcia Amaral de Oliveira Ribeiro



Linhas tortas
Lúcia Amaral de Oliveira Ribeiro

Mário Brás, descendente de italianos, meia idade, confeiteiro. Não possui conta bancária, guarda em casa tudo o que ganha. Seu sonho: comprar de volta a torre que foi da sua família, localizada em uma aldeia na Toscana. O plano, por linhas retas: tornar-se o melhor confeiteiro e o mais bem sucedido do bairro, o Brás. Depois: tornar-se o melhor confeiteiro da cidade; comprar a confeitaria onde trabalhava; ficar rico. Objetivo nobre: trazer de volta para a família um monumento histórico; preservar o monumento, transformar a torre em museu; e então, quem sabe, desenvolver na aldeia uma escola para confeiteiros. Doces de marzipã, cannoli, zabaione... hummm, só de pensar, ficou com água na boca. Linhas tortas: os fins justificam os meios. Há, há, há – ele riu como seus antepassados. Lembrava-se de uma frase: A vingança é um prato que se come frio. Lembrou-se de todas as vezes que se sentiu ofendido pelo patrão, o dono da confeitaria. Faria tudo por vingança. 

Por linhas sinuosas, sua imaginação ia longe. Começou a pôr em prática sua imaginação. Dividiu o objetivo fim em etapas. E assim foi desenvolvendo um plano maquiavélico. Escreveu as primeiras ideias do plano em um caderno. Seguindo um método, lançou os objetivos; depois, alternativas, várias, com um espaço para descrever possíveis resultados, que classificava, conforme o andamento das atividades, em três categorias: resultado alcançado; alcançado parcialmente; mudar de direção.

Ao longo dos anos refez partes do plano, fez ajustes. Completou três cadernos com o plano. Os cadernos estão hoje na torre de uma aldeia na Toscana. Pois é, a torre virou museu, e o plano virou acervo. Mário agiu de maneira coordenada durante anos. Ele realizou de maneira metódica diversas ações, tudo conforme o plano. Ia bem, mas estava muito distante de alcançar os resultados que esperava. Foi então que um acontecimento em 1990 – outro plano – veio acelerar todas as etapas do que planejava há anos. Quem hoje se lembra do plano Collor? O confisco da poupança de todos no Brasil – esse era o cenário, conforme o jogo econômico, na época.

Aristides, dono da confeitaria Roma, casa tradicional do Brás, estava desesperado, sem dinheiro pra comprar farinha, pagar os funcionários, o aluguel. O que fazer? Desabafou com Mário, o empregado mais antigo, grande confeiteiro. Mário ouviu Aristides se queixar, praguejar, esmurrar a parede, e por fim, chorar.


Dez anos de trabalho na confeitaria. Mário não tinha se casado, não tinha casa, carro, nada de luxo. Guardava todo seu dinheiro no quarto em que dormia, nos fundos da confeitaria. Seu dinheiro, que antes se desvalorizava com a inflação, subitamente parecia valer muito! Ele não falou nada do dinheiro para Aristides. 
Aguardou o patrão chegar ao fundo do poço... até contribuiu para que o poço ficasse mais fundo. Escondeu sacos de farinha em seu quarto, quebrou peças de equipamentos da confeitaria, fez uma porção de coisas de que hoje se envergonha muito. Na época, justificava tudo pela nobreza de seus objetivos. Pra encurtar a história: Mário comprou a confeitaria. Ganhou dinheiro, muito dinheiro. Mas não foi seu dinheiro que possibilitou transformar a torre em museu. E a torre não voltou para sua família. Acontece que um dia os golpes de Mário (ele sonegava impostos, deixava de recolher fundo de garantia dos funcionários, etc.) foram parar na justiça. Como a confeitaria era conhecida, sua história foi parar na televisão – ele era uma celebridade. Antes de ser preso, contou sua motivação para tudo o que fez: transformar a torre em museu e criar a escola de confeiteiros. Arrependido pelas linhas tortas, chorou. Seu choro foi visto por milhares de pessoas. Um dia, Mário, que tinha se tornado um preso exemplar, recebeu uma visita. O italiano à sua frente tinha uma revista nas mãos. Na capa, a notícia sobre a torre, o museu recém inaugurado. O italiano à sua frente tinha uma proposta: realizar uma escola para confeiteiros na cadeia, queria a ajuda de Mário, e sua autorização para levar seus cadernos para o acervo da torre na Itália.

COMO FICOU PARA HELGA? FICOU BOM, BOM... - Mario Augusto Machado Pinto.



COMO FICOU PARA HELGA? FICOU BOM, BOM...

Mario Augusto Machado Pinto.

Transtornada com a morte do marido Tinoco, Helga nunca se imaginara viúva. Ficou.

Já se passaram dez anos de vida diferente, agitada, fazendo juz ao estado de ‘’balzaqueana’’. Sentia falta dele na cama, daquela coisa quente, hirsuta e eriçada. 

Lembrou-se de quando falou: ‘’Estou cheia de esperar você colocar a camisinha. Perco um pouco do embalo. Vê se arranja isso!’’ .

Tinoco arranjou: fez vasectomia. Passavam noites inteiras dando inveja à gataria da redondeza.  Para Helga era uma das coisas que mais sentia falta, alguém com quem fazer amor.’’Ai, que coisa maluca!’’, e chorava, chorava se roçando...

Não tinha jeito para dar aqueles sinais femininos avisando que queria companhia. Nada havia conseguido apesar de passar todos os dias em frente à Confeitaria Colombo buscando um velhote para sassaricar. Considerava-se um fracasso nesse particular. Isso até hoje. Sim, até hoje quando encontrou o Itó, um mulatão 3 x 4, lisonjeiro e vigoroso como ele só.

Em casa, após cinco exaustivos “exercícios” em que houve de tudo, até vizinhos gritando ‘’Não geme tanto! Goza mais baixo!’’, concluiu que o Itó era o ‘’non plus ultra’’ em sua cama. ‘’Que tesouro!’’

Enrolada no edredon, estava exausta, sonolenta, languida, sorrisinho safado no rosto. Nem se levantou para fechar a porta de entrada do apartamento. Adormeceu murmurando ‘’Tinoco, até estou assada; o capuchino dele é mais quente!’’ e o Itó, definitivamente, desbancou o Tinoco, fácil, fácil.

É, foi assim mesmo...



Soberba - Vera Lambiasi


Soberba
Vera Lambiasi

Carola não era a Deusa da Beleza, mas também não precisava fazer todas aquelas intervenções cirúrgicas.
Bonitona em seus quarenta e poucos anos, queria mais.
Puxa daqui, estica dali, e nunca chegava à estética de sua mãe, esta sim, pura Afrodite.
Um lar harmonioso, vida confortável, marido carinhoso, filhas estudiosas, nada faltava à Carola.
Aparentemente.

Sua vaidade, a tornava gananciosa, de toda admiração da sociedade carioca.
Invejava as lindas garotas de praia, despojadas de orgulho, mas nunca conseguia igualar-se à elas.
Carola sofria em lipos, dietas de sucos verdes, e exercícios enérgicos.
Foi ficando cada vez mais escultural, a seus olhos, e, cadavérica, aos da família.
O companheiro açucarado enchia-a de prazeres, para fazê-la esquecer a aparência.
As meninas, eram doces com a mãe, apesar de um pouco esquecidas às empregadas.
Aquilo caminhava para um fim trágico.

Até que Marina, a filha mais velha, entrou na Universidade de Harvard, para cursar economia, e a família toda mudou-se para os Estados Unidos. Roberto, que já trabalhava em uma multinacional de alimentos, foi transferido com satisfação pela empresa. Flavinha, fluente em inglês, continuou seus estudos na high school de Cambridge.
Carola inscreveu-se num MBA, começou a dar consultorias em moda, sua formação inicial no Brasil. Canalizou seu bom gosto para o trabalho, e parou de olhar tanto para o espelho.
Tornou-se uma profissional gabaritada.
Teve que enfrentar o serviço doméstico, ajudada por Roberto e as filhotas.
Refizeram a vida, de outra maneira, longe do sol.

E engordou um pouquinho.
Mas não se importa mais com isso.
Tem mais o que fazer.



“O Ciclista e a Fé” - José Vicente Jardim de Camargo



 “O Ciclista e a Fé”       

José Vicente Jardim de Camargo


Morro acima, morro abaixo, as rodas finas da magrela, cuidadosamente aprumadas e oleadas, vão beijando o asfalto áspero da estrada: chuim, chuim, chuim...

Sentado no selim anatômico, próprio para o aconchego das partes sensíveis, ele procura distinguir os sons que lhe chegam do ambiente circundante, trecho de mata atlântica ainda bem conservada: canário da terra ou saíra? Abelha ou borrachudo? Água de nascente ou de chuva? E aqueles desagradáveis de veículos que lhe passam zunindo: zum, zum, zum, obrigando-o a desviar a visão da paisagem convidativa e a concentrar-se na faixa do acostamento um tanto esburacado, procurando, entre pedaladas e freadas, não perder o bom humor na resignação de que ele também é um motorista sem alternativas:

— “mas consciente, cuidadoso com terceiros, sem álcool no volante” -logo completa.

E lhe vem à lembrança as discussões sobre o futuro da mobilidade dos humanos, tema várias vezes debatido na Associação dos Amigos da Praia do Puruba, que frequenta e é colaborador assíduo, mas que sempre termina no amargor frustrante das interrogações. 

Volta a mirar o verde da mata, enfeitado com o floreio dos pés de manacá da serra, sob um céu azul de brigadeiro e de um sol radiante de outono, compondo e oferecendo um visual capaz de erguer o mais angustiado astral e injetar de otimismo o mais adormecido dos ânimos sobre o destino da atual e das próximas gerações.

-“Sim, somos seres racionais, sou um homem de fé: creio nos avanços da ciência e da tecnologia, na vitória da razão sobre o fanatismo, do bem sobre o mal e sobre tudo Nele, meu Pastor,..”

Um sentimento de satisfação lhe enche, junto com o ar puro, as narinas ofegantes e lembrando a música cantarola:

-“Vai, vai buscar quem me quer bem...”



POBRE GANHA NA LOTECA, UMA HISTÓRIA ENGRAÇADA NÃO FOSSE PLANGENTE - Oswaldo Romano




POBRE GANHA NA LOTECA, UMA HISTÓRIA ENGRAÇADA NÃO FOSSE PLANGENTE
Oswaldo Romano                      

            Pobre, a beira de pedir auxílio, vivia na porta de um despachante.

            Eduardo Varela ali rodeava, desejando lhe fossem dados pequenos serviços.

 Sua instrução, gabava-se saber datilografia, estudo com que esperava iniciar sua carreira.

            Tinha o sonho da maioria dos brasileiros, ganhar na loteria. Separava os poucos trocados que conseguia e toda semana fazia seu joguinho, a chamada fezinha. Um pequeno vício, ruim na sua situação, que prejudicava o próprio sustento.

            Levou um susto em 1.972. A sorte bateu em sua porta. Eu diria para seu azar. 

Ganhou dezoito milhões de cruzeiros, moeda da época, o maior prêmio distribuído até então. O Brasil ficou conhecendo e se questionando: Por que não eu? Ardia a orelha do felizardo, Dudu da Loteca. As mulheres fascinadas deste imenso país tinham vistas, sonhavam com o novo milionário.

            Dudu deslumbrado, saiu esbanjando. Esnobado, mas sua inexperiência  o aliou como “amigo” um vigarista de classe. Seu nome, Samuel, um esperto trapaceiro. Portava uma máscara de alto executivo.

            Dudu era o homem da vez.

            Junto com seu comparsa saiu comprando imóveis. Em Campos do Jordão, dois hotéis, em São Paulo e Rio, salas comerciais, terrenos e um famoso apartamento na Vieira Souto, Rio de Janeiro. Samuel recomendou-lhe por segurança colocar os imóveis em nome do sogro. A praça desconhecia essa manobra, assim não demonstrou possível armação futura.

            Dudu, uma figura diferenciada, falar a seu nome, abria de imediato o caminho para qualquer negócio. Samuel deitava e rolava usando-o para muitas transações. Resolveu encher, facilmente, alguns armazéns com qualquer mercadoria: Televisores, material de construção, geladeiras e toda linha branca, móveis, quadro de artes, bicicletas, monta-cargas, náuticas.  

            A solércia do Samuel não tinha freios. Afinal Samuel era o imediato do Dudu, o novo milionário e em seu nome comprava, era respeitado, bajulado.  

Toda esta história tem lances cinematográficos. Preciso resumir:

            Aconteceu numa grande loja de materiais para construções, um golpe semelhante ao dado em dezenas de estabelecimentos. Nessa loja o gerente Carlos, ao recebê-los convenceu-se de uma futura grande venda. E aconteceu. Mostrando autoridade não consultou a direção, seria uma venda inusitada, liberando um grande crédito, um grande pedido.

            Ao fazer as entregas, segundo um motorista, verificou-se que seus armazéns estavam lotados. Fila de caminhões a espera de descarga, chamava a atenção. 

Suspeitou-se que seria impossível cumprir o pagamento de tudo que compraram. 

Alertados, uma corrida dos fornecedores procurava defender e retirar suas mercadorias. Tarde demais. A justiça já havia decretado sua falência, e bloqueado seus bens.

            O gerente da loja de materiais em questão, o Carlos, foi sumariamente despedido, logo depois de tentar converter seus erros.

            Forçando-se a entrada nos armazéns, do jeitinho brasileiro, o diretor de vendas, retirou grande parte do material fornecido. Não adiantou. A justiça classificou todo material retirado invendável, elegendo a loja e os demais fornecedores “Fieis Depositários”. Não demorou os Fieis Depositários tiveram que devolver à massa falida o que haviam considerado salvo.

            Pouco antes, deslumbrado no auge do seu sucesso, perdeu-se no meio de tantos lances e surpreendentes trapaças próprias e dos seus assessores.  

            A mulher que tinha em casa, já não lhe servia. Consta que sua separação foi armada, ou melhor, apoiada pelos assistentes.

            Com isso os imóveis que estavam em nome do sogro, pelo direito, nenhum foi devolvido, uma represália ao desprezo dado a sua filha.

As lojas perderam grandes valores. Essa cujo gerente era o Carlos, mais de cem mil. 

Abalados assistiram, não uma história engraçada, mas de um imbecil. O famoso Dudu da Loteca sofreu muitos processos. Ficou remediado, chegou seu fim e o que lhe sobrou da fortuna, foi um balde de pó.


“A RIQUEZA SEM A VIRTUDE É MAIS DESASTROSA QUE A MISÉRIA”

Viagem Sinistra - Vera Lambiasi



Viagem Sinistra     
Vera Lambiasi

Maria Quitéria foi se meter a passar o Carnaval com a mãe, em uma pousada de Brotas.
Somavam 150 anos, mas ainda entornavam várias taças de vinho por noite.
Numa dessas noitadas, houve um bailinho com marchinhas do passado :
“Eu, fui às touradas de Madri, para tim bum bum bum ...”
E as duas se jogaram na pista, enquanto os outros hóspedes riam à boca pequena.
Alheias a tudo, divertiam-se em confetes e serpentinas.
No final da semana de momo, ficaram todos amigos, e, a mais venenosa das turistas, colocou as manguinhas de fora :
    É casada, Maria Quitéria?
    Divorciada, Querida!
    Falei para o meu marido. Com aquela alegria toda, só podia ser separada, ou, viúva.
Pobre companheiro daquela cobra, queria vê-lo pelas costas, e entreter-se também.

O último passeio da temporada seria um bem radical, e Maria Quitéria insistiu em levar a pobre mãe. Na verdade, dona Almerinda era uma rica viúva, bem da maluca, e topou,  sem pestanejar, a aventura.
Trilhas perigosas, entrando e saindo de botes em rios nervosos. Boias precárias de pneu de caminhão, entre pedras pontudas. Voo em cordas amarradas em árvores. Içadas cachoeira acima, tomando água na cara.
Façanha sinistra aos olhos do povo.
Recreio infantil para as duas birutas.

E o feitiço, virou contra a feiticeira, àquela invejosa.
O marido encantou-se, não por Maria Quitéria, A Desquitada, mas por sua mãe, que ainda dava seus pulinhos:
Pim pam pum ...

Foi cair nos braços do mancebo, e dali não queria mais sair.
O homem renasceu, ao sentir o perfume fino da mulher madura.
Dançarina, esportista, chique, e dando mole?
Encanto vai-e-vem, não largaram-se mais.
E foi ao som de: “Menina, você é um docinho de coco, tá me deixando louco, tá me deixando louco ...”


Que a esposa chata dançou.