Conto de fadas às avessas - Ises A. Abrahamsohn

 


Conto de fadas às avessas

Ises A. Abrahamsohn


Era uma vez uma madrasta. Madrasta, aquela mulher do seu pai quando ele se divorciou de sua mãe ou quando sua mãe faleceu. Nas histórias de fadas as madrastas sempre são más. Na vida real elas podem ser boas ou más. E as enteadas também podem ser boas ou más. Esta é história de Janaína cuja mãe morreu quando ela tinha oito anos. Janaína adorava a mãe e não se conformou quando seu pai, André, se casou dois anos mais tarde com Neusa, dez anos mais nova. Janaína na altura tinha dez anos e a madrasta 25. Neusa era advogada e jovem, mulher bonita que aparentava bem menos idade. Além da beleza e inteligência, era simpática e disposta a se tornar amiga da enteada. Sabia que não poderia substituir a mãe, mas tudo faria para tornar a convivência agradável para a garota adolescente. Neusa trabalhava em tempo integral num escritório de advocacia no centro da cidade. Mesmo com as exigências de trabalho que muitas vezes a obrigavam a ficar até tarde no escritório, procurava cuidar da enteada preparando o lanche da escola do dia seguinte, acompanhando o desempenho na escola e ajudando no dia a dia. Já durante os primeiros meses de convivência, Janaína começou a se irritar com a madrasta. Não demonstrava a crescente raiva que devagar se infiltrava na sua mente de adolescente. Apenas aceitava passivamente os cuidados de Neusa e até ensaiava alguma demonstração de afeto perante o pai. Com o tempo a raiva se transformou em ódio. A garota, porém, era dissimulada e escondia bem seu sentimento. Na escola passou a ter notas mais baixas, ela que fora excelente aluna. O ódio tornou-se obsessão. Janaína tinha agora 14 anos. Voltava para casa tarde, ficando na casa de amigas ou com o namoradinho. O pai não desconfiava de nada. Devia ser a adolescência, pensava. Lentamente a menina desenvolvia planos para eliminar a madrasta. Pensou primeiro em veneno. Mas como obter os venenos de que tratavam os livros ou os filmes? Veneno era uma ideia impraticável. Melhor seria um assassinato disfarçado em assalto. Sim, era essa a melhor solução e aí o Juninho, vai me ajudar. Com a moto ele pode fugir rápido no escuro. Vai ser perfeito. Temos que pegar a desgraçada da Neusa quando ela sai do escritório à noite. E tem que ser silencioso.... Revolver, não! Umas facadas ou pancada forte na cabeça. Não vai ser fácil convencer o Juninho. O cara já amargou um ano no SE o tal de socioeducativo. Mas dou um jeito, tenho grana guardada e umas joias da mãe.

O rapaz hesitou. Mas estava louquinho pela menina. Ela prometeu uma  semana de folia no apartamento do pai no Guarujá. Acabou cedendo. Foram os dois examinar a área. O escritório ficava atrás do fórum da João Mendes e a rua da Glória era bem escura no trecho por onde a advogada passava para chegar ao estacionamento. Janaína marcou a data, quarta-feira. Juninho escolheu um golpe na cabeça com uma chave de roda. Usaria luvas e a moto ficaria parada num vão de prédio próximo. Janaína preferia a faca, mas o rapaz foi peremptório: É difícil acertar de primeira e até morrer ela vai gritar e chamar atenção. Pancada na cabeça é melhor. Já cai e desmaia e mais uma pancada bem dada e se acaba. Janaína, porém, tinha ainda um pedido.

Quero que você me traga a correntinha de ouro com a medalha de São Judas que ela usa no pescoço. A bolsa e os documentos você queima. Dinheiro não vai ter muito, ela usa cartão para tudo. E nada de querer usar o cartão. Tua recompensa vem depois, vou estar assanhadinha no Guarujá e vou trazer uma boa grana pra gente se divertir.

Tudo acertado, Janaína contente chegou em casa cedo para o jantar.

E aí, Neusa, muito trabalho nesta semana? Você está trabalhando demais, precisa de umas férias.

Tranquilizou-se com a resposta, sim, havia muito trabalho e, de novo, a advogada precisaria ficar até tarde no escritório na quarta-feira.

Subiu ao quarto logo após o jantar, ficou zapeando na TV e mal conseguiu dormir tamanha a excitação. Na terça-feira foi à escola como sempre. Ao sair na hora do almoço avistou Juninho ao longe na moto. Estava em ponto de bala. Fez sinal para o rapaz.

Estou doidinha. Me leva para dar uma volta. Só consigo pensar em amanhã quando vou me livrar da peste.

Melhor a gente não ser visto junto hoje. E amanhã não vou aparecer. Só na quinta. E vê se te acalma.

Não esqueça da correntinha, gritou Janaína.

Mas a garota não se acalmava. Em casa pegou um comprimido para dormir do armário do pai. Teve um sonho estranho. Era uma história que ela tinha ouvido quando criança. Uma mulher que falava para um caçador, leve a moça para a floresta e mate. E quero que me traga o seu coração para eu ver. O jovem caçador levou a linda jovem para o meio da floresta escura, mas, penalizado, não conseguiu matá-la. Deixou a moça próximo de uma casa bem longe na floresta e matou um veado tirando-lhe o coração para levar para a pérfida mulher. Acordou assustada e lembrou. Claro, era a história de Branca de neve que ouvira tantas vezes. Riu-se. Hoje o caçador não vai ter pena!

Janaína passou o dia como zumbi. Ligava para Juninho, mas só dava caixa postal. Afinal conseguiu falar já eram oito da noite.

Tudo certo amor? Ela deve sair do escritório lá pelas dez. Lembra da correntinha e do Guarujá.

O rapaz se irritou com a ligação. Vê se te acalma por aí e não liga mais. Vai dar certo. Amanhã a gente se fala.

Que idiota, pensou Janaína. Só falta dar pra trás na hora.

Juninho não deu pra trás. Mas teve azar demais. Não contava com o segurança que discretamente acompanhava os funcionários do escritório quando saíam tarde da noite. Quando empurrou Neusa antes de desferir o golpe, ouviu o tiro logo seguido pela lancinante dor na virilha. Ficou caído na calçada tentando estancar com a mão o sangue que se infiltrava no tecido grosso da calça. Gritou para o homem que lhe apontava a arma:

A correntinha, tá no pescoço, preciso da correntinha para levar   pra ela, pra Janaína, my love, ela prometeu, no Guarujá, só nós dois, a grana... A correntinha...

Neusa, já de pé, passou o dedo no pescoço sentindo a correntinha de ouro que nunca tirava. Olhou o rosto contorcido do rapaz. Tão jovem para morrer. Falou para o segurança: Acertou na artéria. Eu chamo o SAMU, pode largar a rama, vê se consegue apertar na virilha.

Com o tiro, o pessoal do bar da esquina se aproximou para espiar. Seu Tobias, dono do bar, viu o celular caído que vibrava sem parar. Atendeu...

E aí deu certo, Juninho?

Não, menina. Seja você quem for. O seu Juninho acabou de ser levado na ambulância e a moça que ele atacou, acho que é a advogada do terceiro andar, conheço ela, vem sempre tomar café. É a Dra. Neusa, está bem, está falando com os policiais.

Sonho e realidade - Adriana Frosoni

 

 


Sonho e realidade

Adriana Frosoni


Havia uma trilha muito arborizada, com pequenas aberturas pelas quais o sol iluminava o solo extremamente úmido, de onde foi subindo um cheiro de grama misturado com terra. A umidade do ar facilitava a respiração e os pequenos troncos, colocados cuidadosamente pelo caminho, ajudavam na subida.  Mas tudo isso se esvaía ao final da trilha, pois as árvores se abriam como uma cortina e davam espaço a uma cachoeira, de tamanha exuberância que parecia uma porta para o céu.

De chofre eu acordei e, de tão embrenhado naquele sonho, continuei a sentir o perfume da natureza com a memória.  Soquei a cabeça sob o travesseiro, num ato desesperado, com esperança de voltar a sonhar, mas não funcionou. O despertador tocou para me jogar de volta à realidade.

Mais uma semana igual: consumidora de sonhos, tempo e energia. Estava ficando psicologicamente inviável, mas não tendo ninguém interessado nisso para dar-me o sinal de alerta, eu segui de forma insustentável mesmo.

No final do dia, nada de pôr do sol, céu estrelado, nem ar puro. Só concreto em frente à janela e as estrelas todas apagadas pelas luzes da cidade. Deixei para lamentar depois e, acredite, lamentei mesmo. Não por ter seguido em frente, mas pela forma que o   fiz: teimosamente, atropelando os sinais do corpo. Feridas invisíveis foram criadas, e futuramente elas precisariam ser revisitadas, reabertas e tratadas.

Quando o trabalho começou realmente a dar certo e todo o resto da minha vida, errado, tomei a decisão mais fácil: passei a trabalhar ainda mais. Reação óbvia para quem não percebe que já está enterrado até o pescoço e vai acabar submerso. Mas novamente faltou alguém para abrir meus olhos, então cerrei-os com mais força e segui como pude.

Ao final de alguns anos, o naufrágio anunciado há tempos, aconteceu. Dores, tensões e desânimos brotavam. Mas o problema mesmo foi quando começaram as enxaquecas, as labirintites e finalmente a mudança de percepção do mundo ­– os medos infundados. Sucumbi...

 

A difícil vida de Aurora - Adriana Frosoni


A difícil vida de Aurora

Adriana Frosoni


Fui nomeada Aurora por ter sido muito desejada pelos meus pais e ter nascido tão radiante quanto a luz do sol, assim como a Cinderela dos contos de fadas. Eu não era filha de reis nem nascida em família abastada; muito pelo contrário, quando nasci passei a ser a esperança de dias melhores.

Mais à frente, minha mãe descobriria que havia mais diferenças do que semelhanças entre a princesa e eu. Meu gênio não era fácil e minhas opiniões eram avançadas para época. Casar-me com 16 anos? Inaceitável. Ser escolhida ao invés participar da decisão? Nem pensar. Pelo jeito, de princesa eu não tinha nada, só mesmo a aparência. Passei a desgostar de contos de fadas bem cedo, preferia os fantásticos.

O tempo confirmaria que minha aparência fazia jus ao meu nome, mas também me mostraria que a beleza trazia percalços. Quando estava mais crescida, decidi que iria levar uma vida apartada da minha aparência, assim como os homens faziam. Mas parecia que isso não era permitido às mulheres. Eu queria estudar, trabalhar e ser reconhecida pela minha competência. O maior obstáculo que encontrei foi a beleza em excesso, pois isso parecia causar desconforto e desconfiança de imediato. Algumas pessoas até ficavam nervosas em função da minha aparência. Acabei descobrindo que existe um nome para esse comportamento: venustrafobia.

Os percalços que enfrentei me fizeram mudar de opinião em relação à princesa e, em muitas situações, considerei aquela Aurora, a dos contos de fadas, mais sortuda do que eu. Pensei até que a melhor coisa que poderia acontecer comigo seria dormir por 100 anos e, quem sabe então, eu encontrasse um mundo mais preparado para a diversidade. Ah...lembrei que fadas não existem.

 


O PALADAR E A PIPOCA - Sergio Dalla Vecchia

 



O PALADAR E A PIPOCA

Sergio Dalla Vecchia

 

Eu, outro dia, estava com desejo de fazer pipoca. Depois de escolher uma panela adequada, óleo, sal e bons grãos de milho. Iniciei o deleite. Entusiasmo é que não me faltava!

Bocal do fogão aceso, panela por cima, uma colher de óleo, uma mexidinha e o derrame da porção de milho. Que logo emitiu aquele chiado característico, quando no fundo quente da panela tocou.

Mexia para lá, para cá, vez o outra sacudia a panela e assim ia fritando até chegar ao clímax da temperatura e o início dos primeiros pipocos:

poc,

popoc,

poc,

popopoc

poc

E, assim os grãos saltitavam aleatoriamente até serem barrados na tampa da panela que eu segurava com firmeza. Não pretendia deixar escapar nenhuma antes do tempo. Porém, quando a panela quase completa gritava abafada, duas atrevidas pipocas saltaram alto para fora. Eu me concentrei em salvar todo resto até despejá-las na travessa de prontidão ao lado.

Não satisfeito sai na busca das duas fugitivas e nada! O espaço era pequeno, não havia como sumirem. Fiz mais uma busca, mas sem sucesso.

Não é possível! - Pensei com meus botões, mas quase desistindo surgiu uma ideia maluca na minha cabeça.

Só pode ser um duende brincalhão, um gnomo faminto talvez, mas estou no Brasil, deveria ser o Saci Pererê!

Mas da conjectura passei para a prática, lembrei da travessa de pipocas fresquinhas esfriando, e imediatamente iniciei a degustação tão almejada.

Logo na primeira porção senti o prazer do gostinho do circo, harmonizado com o burburinho das pessoas, sons dos animais e risos de crianças.

Na segunda bocada minha mente foi invadida pelas boas lembranças das festas juninas, da namoradinha e a figura nítida do pipoqueiro servindo o pessoal.

No terceiro punhado, eu já sonhava com os tempos escolares, os colegas e o assíduo pipoqueiro com seu carrinho prateado servindo cachorro-quente e pipoca.

E assim a cada bocada fui me purificando com as lembranças boas da juventude e me sentia muito feliz. Cheguei até esquecer dos dois grãos fugitivos.

Travessa vazia, estômago e ego satisfeitos fui para a sala de estar e qual foi meu espanto, quando olhei para um porta retrata com minha foto criança, e lá estavam os dois fugitivos, um ao lado do outro como dois olhinhos sorrindo para mim.

Não é possível! - Não acreditei, só poderia ser uma coisa mágica!

Enquanto assimilava o fato, escutei algumas vozes murmuradas:

— Psi cri piu chi rsrsrs (Ele está feliz vocês notaram)?

—  Pip ti mi chi mis (Percebemos sim), responderam o Saci e Gnomo para o Duende.

Assim, murmuraram em uníssono o único pensamento:

 —  Adirp muc aos sim! ( Missão cumprida)!

 — Rsrsrrsrsr ( Risinhos)

 

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STORYTELLING - O HOMEM FOI MOLDADO ATRAVÉS DE HISTÓRIAS - EXERCÍCIO

Storytelling 

A humanidade é e sempre foi apaixonada por histórias. Houve épocas em que os homens olhavam para o alto, tentando entender o que eram aqueles pontos luminosos que enfeitavam o céu noturno. Então olhavam para o mar profundo e sonhavam com as possibilidades submersas. E, possivelmente, olhavam para dentro deles mesmos e indagavam o que ainda repetimos: 

Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? 

E aí criamos deuses e entidades cósmicas dotadas de poderes sobrenaturais e capazes de feitos miraculosos. Essas histórias foram compartilhadas e algumas delas são conhecidas ainda nos dias de hoje. 

A consciência humana foi forjada com base nessas histórias. 

As histórias vieram com apelos emocionais, com objetivos, elas serviam e ainda servem para moldar o outro, ou para aproximá-lo de algo. Têm as histórias propósitos de ensinamentos, diversão, de validar a cultura de um povo. 

Quando você encontra um amigo que há tempos não vê, são as histórias, as ocorrências dos laços de amizade entre vocês, que vêm à lembrança. 

A ficção, contos e romances que criamos, não são diferentes. Todos esses textos são baseados em vivências, experiências reais, que fazem as histórias ficarem mais parecidas com a realidade do leitor, que, por conseguinte, criam empatia com o enredo. A tecnologia veio para facilitar o caminho e expandir o trajeto que as histórias traçam. 

Hoje em dia o mercado da propaganda se utiliza do storytelling para vender produtos para um número cada vez maior de cliente. Mas, TODAS as histórias precisam do apelo emocional para segurarem o leitor. Esse apelo pode ter vínculo com a família, com os relacionamentos amorosos, com amizades, com o sucesso de carreira, a luta que se empenha para vencer obstáculos, a vida ou a morte. 

EXERCÍCIO: CRIAR UM CONTO BASEADA EM UMA HISTÓRIA QUE VOCÊ OUVIU, LEU OU CONTOU. Não esqueça de fundamentar seu enredo nas emoções das pessoas.

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O Patinho Feio | História completa - Desenho animado infantil com Os Ami...


O patinho feio (1843)

O conto, de origem dinamarquesa, foi escrito por Hans Christian Andersen e publicado pela primeira vez em 1843.

A obra conta a história de um filhote de cisne que foi chocado em um ninho de patos. Como era diferente dos demais, foi zombado e perseguido por todos.

Cansado de tanta humilhação, resolveu ir embora. Durante o seu percurso, foi maltratado em todos os lugares por onde passou. Certa vez, foi acolhido por camponeses, mas o gato da família não reagiu bem à sua presença e ele teve de ir embora.

Um dia, viu um grupo de cisnes e ficou deslumbrado com a beleza deles. Ao se aproximar da água, viu seu reflexo e percebeu que tinha se tornado uma belíssima ave e que, afinal, não era um pato diferente, mas sim um cisne. Desde então, passou a ser respeitado e se tornou mais belo do que nunca.


(Toda Matéria)

O Gato de Botas - História completa - Desenho animado infantil com Os A...


O gato de botas (1500)

O conto teve origem oral e foi publicado pela primeira vez pelo italiano Giovanni Francesco Straparola, em 1500. Ao longo dos anos, a obra passou por adaptações. As mais famosas foram escritas por Giambattista Basile (1634), por Charles Perrault (1697) e pelos irmãos Grimm.

O conto relata a história de um gato falante que foi recebido por um jovem rapaz como parte de uma herança. Ao questionar o que faria com o animal, foi surpreendido ao perceber que o próprio gato estava respondendo sua pergunta.

O felino disse que se recebesse um par de botas, um chapéu e uma espada, faria de seu dono um homem rico.

Devido a algumas artimanhas, o rei acaba convencido a conceder a mão de sua filha ao dono do gato de botas.


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João e Maria - Contos Infantis - História infantil para dormir - Desenh...


João e Maria (1812)

O conto é de origem oral alemã e foi publicado pelos irmãos Grimm, em 1812.

Trata-se da história de dois irmãos que foram abandonados em uma floresta. Ao tentarem voltar para casa, João e Maria decidiram que seguiriam as migalhas de pão que tinham espalhado para marcar o caminho. No entanto, tais migalhas haviam sido comidas pelos pássaros.

Os irmãos se perderam e acabaram por se deparar com uma casa feita de doces e biscoitos. Como estavam caminhando há bastante tempo sem comer nada, devoraram um pedaço da tal casa. Nela, foram acolhidos por uma senhora aparentemente gentil, que inicialmente os tratou bem.

Passado algum tempo, descobriram que a tal senhora era, na verdade, uma bruxa que os tinha acolhido com a intenção de devorá-los. Em um momento de distração da bruxa, empurraram-na para dentro de um forno em chamas. Depois de se livrarem dela, os irmãos fugiram e finalmente encontraram o caminho de volta para casa.

(Toda Matéria)

Chapeuzinho Vermelho | História completa em Português| versão curta


Chapeuzinho vermelho (1697)

A primeira versão impressa do conto foi publicada por Charles Perrault, em 1697. No entanto, a versão mais popular é uma adaptação realizada pelos irmãos Grimm, em 1857.

A obra conta a história de uma menina que usa uma capa com capuz vermelho e passeia pela floresta a caminho da casa de sua avó.

Durante o trajeto, ela é interceptada por um lobo. Ele descobre onde a avó da menina mora e segue diretamente para lá, a fim de devorá-la.

Quando Chapeuzinho chega ao local, também é devorada pelo lobo. Ambas são salvas por um caçador que percebe a presença do lobo na casa e corta a barriga do animal, libertando assim as duas vítimas.


Descobrindo Cinderela | Disney Princesa


Cinderela (1634)

Também conhecido como A gata borralheira, a primeira versão literária do conto foi publicada por Giambattista Basile, em 1634. As versões escritas mais populares são a de Charles Perrault, publicada em 1697, e a dos irmãos Grimm, de 1812.

Cinderela foi impedida de participar de um baile realizado por um príncipe, pois sua madrasta queria que o rapaz notasse as filhas dela, e receava que a beleza da jovem chamasse mais atenção. Conseguiu comparecer graças a uma fada madrinha, mas teve de sair de lá às pressas e deixou ficar para trás um de seus sapatos. Ao achá-lo, o príncipe percorreu toda a região até finalmente encontrar a jovem. Eles se casaram e viveram felizes para sempre.


Descobrindo Branca de Neve e os Sete Anões | Disney Princesa


Branca de neve e os sete anões (1634)

É um conto alemão do século XIX, cujo primeiro registro escrito é de Giambattista Basile. A versão mais popular foi uma adaptação publicada pelos irmãos Grimm, em 1812.

O conto relata a história de uma bela jovem cuja beleza é invejada por uma madrasta que tenta matá-la. A jovem Branca de neve se esconde na floresta, na casa de 7 anões, mas é descoberta e acaba por comer uma maçã enfeitiçada que recebe da madrasta. A fruta a faz engasgar e desfalecer. Tida como morta, foi colocada em um caixão. Enquanto era transportada, sofreu um solavanco e o pedaço de maçã se desprendeu de sua garganta. Assim, voltou a respirar.

A versão mais popular do conto é uma adaptação de 1617, feita para um desenho animado. Nessa história, a maçã envenena a jovem e faz com que ela adormeça em um sono profundo. O feitiço só chega ao fim quando a moça é beijada por um príncipe


Descobrindo A Bela e a Fera | Disney Princesa


A bela e a fera (1740)

O conto é de origem francesa e foi escrito originalmente por Gabrielle-Suzanne Barbot. A versão do conto que se popularizou é uma adaptação feita por Jeanne-Marie LePrince de Beaumont em 1756, e fala sobre a relação entre uma criatura (a fera) que se apaixona por uma jovem (a bela). Ao ter seu amor correspondido, a criatura se vê livre de um feitiço que a transformara em monstro e volta finalmente à sua forma humana.


(Toda Matéria)

A Bela Adormecida em Português - História completa - desenho animado ...


A bela adormecida (1634)

O primeiro registro escrito do conto é de autoria de Giambattista Basile e foi publicado em 1634. A obra foi adaptada por Charles Perrault (em 1697), e depois pelos irmãos Grimm (em 1812). A versão do conto que se popularizou foi a dos irmãos Grimm. A adaptação conta a história de uma princesa que, quando bebê, é amaldiçoada.

De acordo com o feitiço, aos 16 anos a jovem furaria seu dedo, cairia em um sono profundo e só despertaria com um beijo de amor. O feitiço se desfez assim que a princesa foi beijada por um príncipe

(Toda Matéria)

MEMÓRIA DESTA VIDA SE CONSENTE - Oswaldo Lopes

 




Oswaldo Lopes em tarde de autógrafos

MEMÓRIA DESTA VIDA SE CONSENTE

Oswaldo Lopes

 

        Regina guiava com cuidado, de volta do cemitério, onde fora visitar o tumulo de sua mãe, morta faz um ano. De momento lhe veio à mente o verso incomparável de Camões: “ Memória desta vida se consente”.  Será que há outra vida, será que a memória desta é levada para lá?

         Subitamente começou a rir, lembrando os tempos de escola. Famoso era o poema pelo cacófato (o primeiro verso do soneto  “alma minha gentil que te partiste”), maminha no colégio provocava risos sufocados. Quem hoje em dia sabe o que é cacófato ou liga para isso?

        Mais do que nada, os poetas servem para isso, colocar em verso sentimentos estranhos que não sabemos resolver. Memória, memória, o que se levaria para o além, supondo que ele exista e a memória seja consentida.

        Memória, memória... Primeira coisa que vem a cabeça de mulher é homem, pensou e riu sozinha, enquanto guiava. Como era mesmo a cantiga que entoavam na escola:

O primeiro foi Paulo, o segundo foi João o terceiro foi Mateus com quem Regina se casou.

        Paulo foi um caso de Pronto-Socorro. Interna, mas não iniciante, Regina se deparou com aquele rapaz, bonito, elegante, que capotara com o Paulistinha no Campo de Marte. Fez bobagem, mas teve muita sorte. O avião ficou de cabeça para baixo e ele foi retirado com apenas um talho grande na coxa. O tempo que Regina passara estagiando na plástica foi ótimo. Fez um serviço notável, já mal se via a cicatriz com os pontos intradérmicos. Era obvio que ficaram íntimos e saíram juntos algumas vezes.

        A memória lembra, mas o caso não foi longe, Paulo gostava mais de aviões do que de qualquer outra coisa, mulher incluída. Voou muito, virou engenheiro de voo e sumiu misteriosamente num avião da Varig em cima do Pacifico. Ele, toda tripulação e uma coleção de obras de Manabu Mabe que iam para o Japão. Essa história que tinha uma ligação com o voo de Orly, também da Varig, chamou muito atenção na época e agora, claro voltava na memória.

        João, o segundo, não era papa, mas um colega, médico que era especialista em gineco-obstetrícia. Juntaram as coisas e os trapos e tentaram ir em frente. Consultório comum, apartamento idem. Só que Regina era renomada cirurgiã plástica e quando você mistura na sala de espera clientes de plástica com clientes de ginecologia e obstetrícia o resultado é um enorme desastre. Fora os chamados noturnos, obstetrícia, como todos sabem, trabalha mais a noite, em geral de madrugada.

        A memória lembra, mas não com muito agrado. Foi um tempo muito complicado que acabou tristemente. Ele pra lá, noite adentro e ela para cá dormindo sossegadamente.

        O terceiro, como na canção, foi aquele que Regina deu a mão. Mateus, o advogado. Pois é, tem gente que acha que medicina e direito são profissões complementares. Nos Estados Unidos, ambas são profissões que exigem um college anterior, ou como alguns dizem são profissões pós-graduadas. A brincadeira é dizer que ambas têm o direito de matar, sem deixar vestígios.

        O casamento, sim casaram, deu certo e tiveram filhos, três no total. As conversas na mesa de jantar eram interessantes porque os assuntos não eram profissionais e quando eram, pelas circunstancias, tinham caráter pouco profundo. Não havia colisões.

        Como dizia o outro poeta: “Mas que seja infinito enquanto dure”. Durou bastante ou durou pouco, não dava para dizer, uma doença silenciosa levou Mateus com pouco mais que bodas de prata.

        Agora estaria ele “no assento etéreo”? Talvez com memoria de sua vida, consentida. De que se lembraria?

        E assim, como dizia o poeta da canção: “Perdida em pensamentos”, na direção do carro seguia Regina, com seus apóstolos, Paulo, João e Mateus, entre poemas e canções tentando encontrar a memória desta vida.

Alma Minha Gentil, Que Te Partiste - Soneto de Luís Vaz de Camões

 

ALMA MINHA GENTIL, QUE TE PARTISTE
Luíz Vaz de Camões





Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer te
algüa causa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver te,
quão cedo de meus olhos te levou.



Soneto dedicado a sua amada, a chinesa chamada Dinamene. Camões, segundo a lenda, estava de viagem a Macau, na China, quando seu navio naufragou. Indeciso, sem saber se salvaria a noiva ou a obra épica “Os Lusíadas”, o jovem poeta optou pela narrativa clássica. Com remorso, escreveu este soneto com base antitética: ela, um anjo celestial; ele, um homem ímpio, vivendo encarnado, só. Outra vez vê-se a temática neoplatônica: o homem é impuro e a mulher perfeita. Por fim, ele pede que ela interceda junto a Deus, para que este o leve a vê-la, dada a extensão de seu amor.


Veja este e outros tantos sonetos de Camões.


Abaixo temos o soneto cantado lindamente  em ritmo de fado.



Biografia de Luís de Camões

Luís de Camões (1524-1580) foi um poeta português. Autor do poema Os Lusíadas, uma das obras mais importantes da literatura portuguesa, que celebra os feitos marítimos e guerreiros de Portugal. É o maior representante do Classicismo Português.

Nascimento e Juventude

Luís Vaz de Camões nasceu em Lisboa, Portugal, por volta de 1524. Era filho de Simão Vaz de Camões e Ana de Sá e Macedo, aparentada com a casa de Vimioso, da alta nobreza portuguesa, e sobrinho de D. Bento de Camões, cônego da Igreja de Santa Cruz de Coimbra.

Em 1527, durante uma epidemia de Peste, em Lisboa, D. João III e a corte transferiram-se para Coimbra, e Simão, a mulher e o filho, com apenas três anos, acompanharam o rei.

Luís de Camões viveu sua infância na época das grandes descobertas marítimas e também no início do Classicismo em Portugal. Foi aluno do colégio do convento de Santa Maria. Tornando-se um profundo conhecedor de história, geografia e literatura.

Em 1537, D. João III transferiu a Universidade de Lisboa para Coimbra. Camões iniciou o curso de Teologia, mas levava uma vida irrequieta, desordeira, além da fama de conquistador, mostrando pouca vocação para a Igreja.

O Poeta e o Soldado

Em 1544, com 20 anos, deixou as aulas de teologia e ingressou no curso de filosofia. Já era conhecido como poeta. Nessa época, compôs uma elegia à Paixão de Cristo, que ofereceu a seu tio. Seus versos revelam que ele estudou os clássicos da Antiguidade e os humanistas italianos.

Em 1544, com 20 anos, encontra-se com D. Catarina de Ataíde, dama da rainha D. Catarina da Áustria, esposa de D. João III e, desse encontro nasce uma ardente paixão, mais tarde imortalizada pelo poeta, que se referia à dama do paço, com o anagrama “Natércia”.

Nessa época, a intelectualidade nacional era incentivada, sobressaindo-se escritores, pensadores e poetas, como Sá de Miranda e o próprio Camões.

Em um sarau, seguido de um torneio poético, o espanhol Juan Ramon, sobrinho de um professor da Universidade, sentiu-se ofendido por causa dos versos de Camões.

Seguiu-se um duelo e o espanhol saiu ferido, o que terminou na prisão do poeta, sob o protesto dos estudantes. No final de muitas discussões, Camões é perdoado, com a condição de ser desterrado durante um ano em Lisboa.

Na capital, os versos do poeta eram apreciados pelas damas da corte. Era perseguido por outros poetas, sendo vítima de muitas intrigas para desprestigiá-lo e afastá-lo da corte. Para fugir das perseguições, em 1547, Camões resolve embarcar, como soldado, para a África. Serviu dois anos em Ceuta. Combateu contra os mouros e durante uma briga perdeu o olho direito.

Em 1549, Luís de Camões retorna para Lisboa e entrega-se a uma vida desregrada. Em 1553, envolve-se em novo incidente, ferindo um empregado do paço. Foi preso e permaneceu um ano encarcerado.

Nessa época, inspirado nas conquistas ultramarinas, nas viagens por mares desconhecidos, na descoberta de novas terras e no encontro com costumes diferentes, escreve o primeiro canto de sua imortal poesia épica, Os Lusíadas.

Posto em Liberdade, em 1554, Camões embarca para as Índias. Esteve em Goa, e toma parte de várias outras expedições militares.

Camões
Camões - Retrato pintado em Goa (1581)

É nomeado provedor em Macau, na China e durante sua estada aí, escreveu mais 6 contos de seu poema épico. Em 1556, parte novamente para Goa, mas sua embarcação naufraga na foz do rio Nekong.

Camões consegue se salvar nadando, levando consigo os originais dos Lusíadas. Chegando a Goa, é preso novamente em consequência de novas intrigas. Ali recebeu a notícia da morte prematura de D. Catarina de Ataíde.

Os Lusíadas

Em 1569, Camões resolve voltar para Portugal e embarca na nau Santa Fé, levando consigo um escravo, que lhe acompanhou até seus últimos dias. Chega a Cascais em 7 de abril de 1570. Depois de 16 anos, estava de volta à sua pátria. Em 1572, publica seu poema Os Lusíadas. Que celebra os feitos marítimos e guerreiros de Portugal.

Camões faz do navegador uma espécie de símbolo da coletividade lusitana e exalta a glória das conquistas, os novos reinos formados e o ideal de expansão da fé católica pelo mundo. O poema é composto de dez cantos, cada canto é formado por estrofes de oito versos. Com o sucesso, Camões recebe do rei D. Sebastião uma pensão anual, que mesmo assim não o livrou da extrema pobreza em que vivia.

Inspirado em A Eneida, de Virgílio, Camões narra fatos heroicos da história de Portugal, em particular a descoberta do caminho marítimo para as Índias por Vasco da Gama. No poema, Camões mescla fatos da História Portuguesa a intrigas dos deuses gregos, que procuram ajudar ou atrapalhar o navegador.

Um aspecto que diferencia Os Lusíadas das antigas epopeias clássicas é a presença de episódios líricos, sem nenhuma relação com o tema central que é a viagem de Vasco da Gama. Entre os episódios, destaca-se o canto III que relata o assassinato de Inês de Castro, em 1355, pelos ministros do rei D. Afonso IV de Borgonha, pai de D. Pedro, seu amante:

Canto III

Passada esta tão próspera vitória,
Tornado Afonso à Lusitana Terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste e digno da memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que depois de ser morta foi Rainha.

Tu, só tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa a molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

Estavas linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus formosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

 

Um Poeta Múltiplo

Camões foi um poeta sofisticado e popular. o poeta erudito do Renascimento, mas às vezes, se inspirava em canções ou trovas populares e escreveu poesias que lembram as velhas cantigas medievais. Além de Os Lusíadas, Camões escreveu poemas líricos, versos bucólicos, as comédias El-rei SeleucoFilodemo e Anfitriões e uma coleção de sonetos de amor, entre eles o mais famoso O Amor é fogo que arde sem se ver:

Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente,
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer,

É um não querer mais que bem querer,
É um andar solitário por entre a gente,
É nunca contentar-se de contente,
É cuidar que se ganha em se perder,

É querer estar preso por vontade,
É servir a quem vence, o vencedor,
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Morte

Luís de Camões morreu em Lisboa, Portugal, no dia 10 de junho 1580, em absoluta pobreza. Segundo alguns biógrafos, Camões não tinha sequer um lençol para lhe servir de mortalha. Teria sido enterrado em cova rasa. Mais tarde, em 1594, Dom Gonçalo Coutinho, mandou esculpir uma lápide com os dizeres: "Aqui jaz Luís de Camões, Príncipe dos Poetas do seu tempo. Viveu pobre e assim morreu"

(origem: e-biografia)

O TRAJE IDEAL - SILVIA HELENA DE ÁVILA BALLARATI

 


 O TRAJE IDEAL

SILVIA HELENA DE ÁVILA BALLARATI


Faço as malas pensando no delicioso convite para uma festa em fazenda no Mato Grosso do Sul. Resolvo ir de vestido, separo um bem bonito, estampado, super de acordo com a ocasião,  e coloco dobrado com o maior capricho na mala. 

Chego em Dourados, sexta-feira e começo a sentir calor, muito calor, mesmo sendo 9h da noite. Imagino que o vestido escolhido, por ter mangas ¾, não vai dar certo. Àquela altura já estou incomodada com o suor no pescoço, nos braços e passo a sofrer antecipadamente, só de pensar no dia seguinte. 

Decido comprar um vestido novo, bem fresquinho, sem mangas. Peço ajuda à minha sobrinha que sugere lojas de pessoas conhecidas.

De manhã tomo um café rápido com minha irmã, café preto, só isso; o "breakfast" completo deixo para depois. Vou para o quarto me arrumar e ouço vozes na copa, gente chegando. 

Buzinam na rua, Luiza avisa que Marília, minha sobrinha, nem vai entrar. Saio do quarto, pronta para ir comprar o vestido novo, quando me deparo com ele. Nesse momento a copa está cheia de gente, mas ele rouba minha atenção, não consigo desviar o olhar dele: o pão de queijo caseiro, assado na hora, fumegando. 

Nem percebo as pessoas, só uma coisa vai no meu pensamento; corro lá fora e grito na direção do carro: "Não vou mais, entra para tomar café!"  Sem entender nada, Marília vem e pergunta o que está acontecendo. Talvez ela não entenda, parece preocupada comigo. Será que percebe a riqueza do momento?

 O pão de queijo é muito mais que um alimento, é um estilo de vida, é uma satisfação que não se pode adiar. Junto com ele vem as conversas antigas, o café, a broa, o queijo fresco, o papo sem fim. Parentes e amigos reunidos, um momento clássico nas famílias do interior e isso eu não posso perder.

Hei de achar outro traje para vestir, penso comigo e largo o vestido pra lá. A conversa se estende animada pela manhã toda, lembranças, risadas, histórias, só paramos na hora de ir para a festa. Visto uma blusinha, sei que estou menos arrumada, mas sinto-me tão linda por dentro, tão repleta desse momento riquíssimo que minha dúvida se esvai. 

Vestido ou pão de queijo? Acho que fiz a escolha certa.

 

O Cavaleiro Destemido - Maria Verônica Azevedo

 



O Cavaleiro Destemido

Maria Verônica Azevedo


            Jonas é conhecido por aquelas paragens como o cavaleiro misterioso. Nunca houve alguém naquela vila que contasse tê-lo visto sozinho sem o seu companheiro Faísca.

            Faziam os dois longas caminhadas em busca de um lugar onde se fixar. Tinham saído da velha cidade onde Jonas nasceu, mas que não oferecia oportunidade para uma vida melhor. É verdade que ele aprendera alguma coisa com o pai, pioneiro que desbravara aquela terra inóspita com muito esforço, mas sem conseguir progredir. Faísca era o único amigo de Jonas.

            O cavalo estava sempre por perto mesmo quando Jonas descansava da lida diária com a manutenção do sítio, dormindo na rede armada na sombra do grande salgueiro. Aquela sim era uma sombra preciosa naquela terra tão quente.

            A vida corria em paz até que um dia chegou a notícia trazida pelo sacristão da vila que entrou correndo na casa de Jonas. O rapaz estava deveras apavorado. Os olhos arregalados e a respiração ofegante testemunharam aquela aflição.

            ¾ Socorro, Dom Jonas! O vigário foi assaltado. Um bandido mascarado com revólver e tudo entrou berrando na igreja. Levou todo o dinheiro da coleta. E ainda deu um empurrão no monsenhor que se estatelou no chão.

            Jonas não pensou duas vezes. Montou no faísca e ainda puxou o sacristão pela gola da camisa para que subisse na garupa. Saíram os dois em disparada rumo à igreja. O sacristão, visivelmente amedrontado, se agarrava na crina do cavalo. Ao se aproximarem da encruzilhada não repararam no carro de bois. O desastre inevitável aconteceu. Com o susto, Faísca empacou jogando o sacristão na estrada barrenta. O pobre homem demorou para se dar conta do que tinha acontecido. Sentado ali na beira da estrada, todo sujo de lama, não tinha ânimo para se levantar. Jonas, que a essa altura já tinha dominado o Faísca, amarrou o cavalo ao tronco de uma árvore e acudiu o sacristão. Fez de tudo para convencer o sacristão a subir de novo no lombo do Faísca, mas não teve sucesso. Então continuaram caminhando pela estrada os dois homens lado a lado seguidos pelo cavalo. A noite já ia se aproximando. Quem passava pela estrada, voltando para casa depois da lida diária, estranhava aquela cena: no escuro do começo da noite, um cavalo bem fagueiro acompanhado de dois homens cansados e desanimados  andando ao seu lado. Houve quem sorrisse diante daquela situação insólita. Afinal, para que serviria um cavalo tão folgado?

 

AS VIAGENS DE GULLIVER - JONATHAN SWIFT

 



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Lina, a árvore e o relógio - Adriana Frosoni

 





Lina, a árvore e o relógio

Adriana Frosoni

 

Lina era uma menina encantadora e, como tal, as coisas à sua volta pareciam encantadas também. Ela passava as tardes lendo na varanda da sua casa de paredes brancas, janelas azuis e floreiras constantemente coloridas pelos gerânios. O gramado estava sempre verdinho e não havia cerca na frente do jardim.

Quem passava pela rua e não conhecia Lina, ficava intrigado. No meio de um jardim tão bonito havia uma árvore horrível. Baixa e tortuosa, ela tinha galhos secos e raízes saltadas. Mas as pessoas do bairro que passavam por lá conheciam o segredo da árvore e já nem a achavam tão feia assim: ela era mágica.

Lina vivia lendo para as crianças que passavam por lá e, quando terminava a leitura, juntos eles enterravam o livro embaixo de uma das raízes da árvore. Então ela tirava do bolso um relógio, também mágico, que começava a brilhar intensamente. Entregava-o para as crianças e dizia:

— Olhem para o ponteiro maior, quando ele der uma volta completa no relógio, brotarão vários livros dos galhos da árvore, um para cada um de nós. Assim, vocês poderão ler para outras pessoas também.

Encantadas, as crianças observavam o relógio engraçado, que tinha muitos ponteiros coloridos girando desordenadamente. Mas ao final da volta do ponteiro maior, o relógio parava de brilhar e os livros brotavam dos galhos da árvore. 0s olhos delas cintilavam; apanhavam e abraçavam os livros e então voltavam para suas casas felizes e saltitantes, cheias de imaginação, levando novas histórias para contar.

Um dia um homem muito ganancioso descobriu o segredo da árvore e decidiu roubá-la. Ele pensava apenas em reproduzir milhares de coisas e depois vendê-las. Numa noite fria e silenciosa, ele pegou uma pá e foi tentar tirar a árvore do jardim de Lina. O que ele não sabia era da existência do relógio e de que não era o primeiro a tentar tal maldade. Quando ele deu o primeiro golpe com a pá, duas raízes agarram seus pés e puxaram-no para baixo da árvore.

Na manhã do dia seguinte Lina percebeu o relógio se agitando quando foi guardá-lo no bolso, abriu a janela e viu a pá caída ao lado da árvore. Ela chamou seu pai e foram juntos ver quem era o dono da ferramenta. Chegando perto da árvore ela tirou o relógio do bolso, os ponteiros começaram a girar, ao final de uma volta completa vários homenzinhos brotaram dos galhos da árvore e caíram de lá sozinhos, como frutas podres. Imediatamente depois as raízes da árvore devolveram o homem, que estava assustado e com os olhos arregalados. Então os homenzinhos levantaram do chão e começaram a correr atrás dele, que fugiu sem olhar para trás.

­— Papai, quanto tempo mesmo eles vão correr atrás daquele homem? — Perguntou Lina.

— Até que ele aprenda a lição e se arrependa da maldade que ia fazer.