ATRÁS DA JANELA, INFERNO - Mario Tibiriçá



ATRÁS  DA JANELA, INFERNO
Mario Tibiriçá

A janela do sobrado que   era apenas uma vista para a praça, talvez pudesse representar uma saída para o mundo. Saída que determinaria   o  escape do próprio corpo,  para fantasias   maiores  ou menores, que certamente contribuiriam  para desanuviar a mente, fortalecer o corpo, criar expectativas novas e renovar esperanças. Mas,  apenas  uma janela  para a praça talvez não fosse o bastante para Eleonora. Casada com Carlos, há dez  anos, sempre  fora o ciúme  corporificado, sempre quis saber de  tudo a  volta dele, emprego, amigos, futebol, roupas, camisas, cabelo,  tudo era da sua conta,  do físico à mente do marido.

Por isso sofria muito. Suas tardes quando só, a  janela  era seu escape e a fuga do seu inferno particular, criado em seu próprio ser, por ela mesma sem escrúpulos e sem vergonhas.

Mas Eleonora sabia  da verdade que seu coração tentava ocultar, que o inferno dentro de sí mesma a levaria  ao delírio da auto  mortificação, suicídio , para se ver livre e voltar em um  nova vida e em outro mundo.


A janela  em seu desatino era sua destruição e seu fim.


Falsos delírios - Mario Luiz Tibiriçá Ramos


 

Falsos   delírios
                           Mario  Luiz Tibiriçá Ramos

A falsidade constante nos delírios, certamente provém do próprio conteúdo do delírio, sempre criando expectativas e esperanças  que  jamais se cristalizam,  por isso delírios.

Como  é lindo e agradável sonhar, imaginar coisas, criar situações que justificam sempre, esperas demoradas e maravilhosas  que nunca se realizam. O imaginário do homem é infinito,  e as propostas, embora quase sempre descabidas, determinam euforias e esperanças que um dia podem  ou não,  acontecer.

O etéreo  dos desvarios de Raquel, que regularmente vinha a sua cabeça a levava  à certeza de que se tornaria realidade, também pelas  suas expectativas religiosas, pois além dos delírios havia  também a fé, e sabemos que a fé move montanhas.

Avançada nos anos e um tanto doente, Raquel não abdicava da certeza de que haveria de partir, rumo às   terras maravilhosas do Senhor de alma e o corpo, que para outros restariam na terra. Todos os dias na sua inabalável fé, lá  estava ela, junto a janela que formava um desenho com  o formato de uma cruz, aguardando  a realização de   seu  falso, para ela verdadeiro delírio.

Raquel  participava há anos de reuniões de senhoras em festas de caridade, onde tricotavam  peças de roupas para aquecimento da pobreza no inverno. Suas companheiras  debicavam de seu  delírio que jamais aconteceria. O deboche e as risadas  eram chicotadas no animo de Raquel que  todavia respondia apenas com um sorriso.

Até que um dia, na festa de São Pedro, junina com fogos, fogueiras,  bebidas, danças e risadas, Raquel não apareceu.....Estará doente ! Vamos  visita-la diziam as amigas.

No dia seguinte dirigiram-se á casa de Raquel, e lá chegando, logo constataram que os vidros da grande janela que  dava para a praça  estavam quebrados. Onde está  Raquel? - perguntaram.

A moça que tomava conta da casa e fazia companhia para Raquel  explicara que  havia acontecido alguma coisa, pois  desde que chegara naquele  dia ainda na vira Raquel. Esperava que estivesse com as Senhoras disse.

A surpresa dias após, tomou conta da cidade, D. Raquel misteriosamente havia desaparecido.


Não podiam compreender  que o  delírio de Raquel tornara-se realidade, viajara ela para o reino dos céus de alma e corpo, seu delírio tornara-se verdadeiro.

Viagens Secretas - Vera Lambiasi

                         

                           Viagens Secretas
Vera Lambiasi

“Amor mais perfeito não é feito do fácil. Floresce por dentro, embora se pretenda que cesse. E quando nas águas da pressa, foge o amor mais depressa, é tempo de saber, quanto dura o tempo de não saber.”
 LINDOLF BELL

Quem teria escrito essas linhas no bilhete deixado embaixo da porta, murmurava a moça, para seu dorso refletido no espelho.

Aquele amor a acometeu há tantos anos, não seria possível revê-lo agora.

Essa frase adornava um quadro, bordado em ponto cruz, em sua sala de costura.
Entre agulhas, alfinetes e ilhoses, o pensamento tomava rumo próprio.

E viajava secretamente por imagens proibidas.



STEPHEN KING (LEGENDADO, "DICAS PARA SER UM ESCRITOR")

A escada - Mario Augusto Machado Pinto



A ESCADA
Mario Augusto M. Pinto

Aquele homem que estava por ali passando e olhando pra mim disse: Ah, se essa escada falasse diria cada coisa... E foi subindo pelos meus pés.

Então eu pensei: vou tirar o dia pra conversar com todo mundo. Não é bem conversar porque eu vivo numa cidade de surdos. Por mais que eu me esforce, ninguém escuta minhas palavras e olha que eu já venho falando há muito tempo.  É tanto tempo que eu já disse que esse falatório seria de horas e horas seguidas.  Aprendi essa frase outro dia. Tirei da conversa de dois homens velhos porque achei bonita.

Eu não sei falar direito. O que eu sei foi de ouvir os outros que passam e agarotada que vive aqui do meu lado.

Oi pessoal, gente, escuta! Eu vivo aqui bem no meio disso que chamam de cidade, debaixo de uma marquise – bonito, não? - que me abriga um pouco da chuva, do vento e do sol mais quente. Aqui passa muita gente pra ir prá parte mais alta onde fica uma rua que, por sinal, nunca vi  Aqui é donde vejo e escuto as pessoas que passam.
Deste meu lado tem uma rua chamada formosa. Vocês já imaginaram uma ladeira ainda com pedras no chão (vocês chamam de outro nome), suja com o lixo das lixeiras espalhado por cachorros nas calçadas esburacadas, ser chamada de Formosa? É o fim; vocês arranjam cada nome...

O meu outro lado já é melhor: há uma bacia com esguicho, duas figuronas que estão sempre do mesmo jeito e uma prima, pequena, uma escadinha de três pés ao seu redor. O pessoal chama de fonte. Quando faz calor, algumas crianças que moram aqui na calçada ao meu lado tomam banho e quando isso acontece escuto gente gritando “vai derreter, vai derreter”... Fico contente ouvindo os gritos, as risadas e até os palavrões dessa garotada.

Se olhar pra frente tem um gramado muito verde, bonito, com caminhos de pedrisco – ouvi o homem que meche ali falar que é assim que se diz - e uns lugares com plantas de folhas grandes e altas e outras que tem uns copinhos dependurados durante o tempo todo. Eles aparecem, ficam grandes, caem no chão e aparecem novamente. Não sei como não se cansam. Algumas pessoas pegam esses copinhos e levam pra passear. Eles reclamam, dizem que vão ficar doentes; as pessoas não escutam. Claro, só tem surdos por aqui, só surdos... Reparando bem, surdos só para a nossa voz. Até agora não entendo porque acontece isso; já pensei até que é pouco caso.

Eu escuto muita fala das gentes que passam ou param pra conversar encostadas nos meus braços que elas chamam de corrimão. As mãos não correm!!! Elas se apoiam nesse meu braço!

Bom, mas como eu estava dizendo, tem todo tipo de conversa. Só para vocês fazerem uma ideia outro dia duas mocinhas estavam subindo e conversando.  Uma dizia pra outra: Imagina se eu vou ficar com o Sérgio na sala depois do expediente. Ele é um safado (?).  Você viu, a Clara ficou várias vezes e só foi promovida depois que ela disse que ia contar tudo pra todo mundo. Lembra? Foi uma discussão braba com ele.  

Elas continuaram, subiram conversando; não deu pra ouvir mais nada.

Tem gente que sobe ou desce bem devagar; outras não tão devagar e umas vão com pressa e até muita pressa pulando os meus pés.  Ai eu posso reparar nos sapatos que tem. Antes eram com sola de couro, de borracha em dias de chuva; as mulheres sempre com sapatos de salto alto. Hoje, hum, é todo mundo de tênis. Tem um até que se chama reboque...

E as roupas... Já houve tempo em que os homens – inclusive garotos como esses que moram aqui do meu lado– andavam de roupa diferente, camisa branca com ou sem lenço. Hoje é tudo chamado de moletom; inclusive as moças usam. Ouvi dizerem que assim tem mais liberdade – do que? - não precisam se preocupar com os olhares e piadas dos outros. Elas comentaram muito sobre anágua. Anágua? Não sei o que é. Eu sinto falta dos vestidos. Eram de todo jeito. As mulheres estavam sempre bonitas e mudavam muito de vestido. Eu via as pernocas delas e quando as saias eram mais largas e ventava chegava a ver por dentro. Mas isso só acontecia de vez em quando.

Outro dia veio até aqui um bando com um professor – acho que era porque era o mais velho, os garotos diziam assim. Ele mandava o pessoal calar a boca e ninguém achava ruim. Ele explicou que antigamente aqui foi um lugar importante. Era aqui que ficava o pessoal nas festas do governo (?). Falou uma porção delas; disse que a maior era a do sete de setembro. Não sabia desse nome. Eu me lembro das festas, dos meninos e dos soldados, até dos aviões que faziam uma barulheira enorme. Depois diminuiu o barulho com uns tais de jatos.  Nunca entendi que jato. Eu conheço jato d´água. Da primeira vez entendi “gatos”, já imaginou a bruta confusão? Agora diminuiu e quase não tem mais dessas festas.

Agora, bom mesmo é ver e ouvir os namorados que vem aqui por causa de um canto escurinho. Eles pensam que ninguém vê ou ouve. Eu estou aqui, ó gente! Escuto e vejo tudo que acontece e me lembro!

Eu sempre pensei que os moços começavam esse negócio de esfreguncho, mas não, são as meninas. È interessante ouvir os moços dizerem coisas para as moças com a voz melosa e rouca. Deixa, bem. È só um pouquinho. Elas dizem alto, Você está maluco? Nem que a vaca tussa!  Há aqueles que dizem que vão dizer uma poesia: são palavras que não entendo e há abraços e beijinhos rápidos. Eu observei um casal de namorados durante bastante tempo. Era só beijinho e abracinho. Outro dia não sei o que aconteceu e a moça gritou  NÃO E NÃO, JÁ DISSE! Mas eu não consegui ver e entender o que era porque estava muito escuro.

Agora, tem um dia que vem um pessoal diferente: são pais com filhos, grupinhos de moços, até um grupo que canta junto umas músicas muito bacanas.

Agora, há coisas muito, mas muito chatas que acontecem. É uma falta de respeito e consideração total. Afinal, faço parte da cidade. Uns caras vêm passear com os cachorros e eles deixam  fazer xixi e suas necessidades nos meus pés; alguns pegam mas a maior parte deixa por ai mesmo. E uns, então, que chegam á noitinha. O pessoal os chama de Zumbi. O que é Zumbi? Enrolam-se em panos sujos, se arrastam pelo chão, vomitam e deixam lixo por todo lado. Brigam, gritam, assustam as gentes que tem que passar por aqui e ninguém faz nada! Ninguém diz nada! Eles ficam uma parte do meu tempo. Por causa deles só consigo descansar quando é muito tarde e logo, logo começa a luz e o movimento novamente.

Hoje foi diferente. Vou aproveitar essa calmaria e descansar um pouco... Opa, opa! Mas o que é isso? O que é eu estou vendo!. Olha quem chegou! Gente há quanto tempo você não passava por aqui! Lembra? Você estava naquela escola do largo, e passava todas as noites indo e voltando e não ligava pra nada e pra ninguém, muito menos pra mim. Você pulava meus pés de dois em dois. Não vá embora assim sem falar comigo... Ai, não faça isso...Ó, eu me lembro da musiquinha que você e seus amigos sempre cantavam praquela moça morena. Aposto que você não se lembra

Vouz que passez sans me voir
Sans meme me dire bon soir
Donnez moi un peu d´espoir
Ce soir...

Você podia ter parado e cantado. Você foi muito mau... Ao menos, podia dizer Tchau.

Bem o tempo todo é assim... Às vezes.

Com essas e outras vou descansar.

Tchau. Vai...

Carta para uma amiga - Judith Cardoso




Querida Suzana,

Muita alegria me deu sua carinhosa cartinha. Afinal,  fomos parceiras em muitos eventos nestes 30 anos de conhecimento.

E pensar que você era conhecida de minha filha Rita mesmo antes de nos conhecermos.
Hoje, revendo todo esse tempo, lembro-me de muitas coisas, inclusive de sua netinha inglesa, com quem eu conversava na piscina, sem saber que era sua neta. Ela tinha uns 11 ou 12 anos e era um mimo, e eu encontrava bastante com ela na piscina.

Temos muito que curtir ainda neste clube, que para mim foi a segunda casa de meus filhos! Lembro-me também que você me contou que quando veio morar em São Paulo, mudando do Rio, onde havia a praia, o que te valeu para os meninos principalmente foi o espaço do clube.

Vê como o AP é importante?

Fico por aqui, muito satisfeita por pertencer à sua roda de amigos.

Um abração a você e ao Luiz.

Judith e Paulo

SUSPENSE NA SAÍDA DO CLUBE AP - OSWALDO ROMANO


SUSPENSE NA SAÍDA DO CLUBE AP.
OSWALDO ROMANO

         Vários amigos do Clube Alto de Pinheiros se comprometem com o carteado. Para eles, as quartas a noite são sagradas. O pôquer toma conta da sala. Fala-se que é para distração, não adianta, o vício está plantado ali. Costumo falar que o único que se distrai sou eu, destacado para fazer o fechamento,  e nos fins de semana os pagamentos.    

      Sobrou-me esse trabalho que absorvo fazendo elogios e críticas. É um jogo de habilidade contando com trinta por cento de sorte. Dizem que começou na China na Dinastia Sung. Mas, para nós brasileiros temos o Oeste Americano como o palco das grandes disputas. Chamado o jogo da trapaça, levado pelos franceses para uma terra quase sua, ali fundaram “Nouvelle Orléans”. E era pelo Rio Mississipi o encontro das cartas, e dos desentendimentos resolvidos pelos Smiths & Wessons, todos querendo imitar Bob Munden.

         Na quarta passada, tudo corria normal o jogo terminou as quatro, saíram, uns sorrindo amarelo, outros respeitando a perda alheia com seriedade.

         Fiquei mais o tempo dos registros e também sem alegria porque, tinha perdido um pouco. A bruxa estava solta! Sempre tenho uma desculpa: Essa noite não foi lá essas coisas. Abri nosso armário, tomei um gole, apanhei o meu capote, a madrugada estava fria, nublosa, garoava. Com a falta de estacionamento no clube, que com respeito aos sócios já deveria existir no subsolo, os carros ficam nas ruas. Nosso horário de chegar coincide com o maior movimento das atividades. Meu carro estava estacionado depois da quadra, distante uns duzentos trezentos metros.

         Grandes árvores, rua escura, calçada molhada. O jeito era seguir o rumo de onde estava o carro e findar a noite. Naquela quietude conseguia ouvir o pingar dágua das folhas e sentir o quanto eram frias no rosto. Uma ofegada respiração, segurei-a para confirmar se era minha.

         Foi quando nesse silêncio vejo na calçada oposta uma pessoa, ela caminhava no meu ritmo, o mesmo sentido, um pouco atrasada. Ouvi-a seu pisar macio, mas firme. Estava de capote, encapuzado, e com frequência olhava para meu lado.

         No natural senti o batimento do coração acelerar. Ativei os ouvidos, pensando o que fazer. Sentia que seria abordado a qualquer momento. Pensei em voltar, mas,  quando sai fecharam o Clube. Correr não, não iria conseguir, pois a idade não permitia.

         Dei uma parada, sei lá como, talvez medo, indeciso, agi abaixando-me e dobrando a barra da calça. Pensamento inquieto. Estava enrolado.

         Sem mudar seus passos ele continuou andando. Foi um desafogo, fiquei bem mais leve, aumentava a influência do vento úmido e frio daquela noite. Estava mais calmo. Fiquei uns quinze passos atrás, vi mais segurança, encurtava o andar.

         Foi por pouco tempo. Ele parou e virando-se ficou atrás de uma das árvores. E minha respiração? Tenho idade, controlava o batimento. Idade, mas forte, esportista, não podia demonstrar medo. Apoiava o pé no tronco, amarrava seu calçado. Eu não via como mudar minha conduta. Enquanto procurava uma saída, ele de novo caminhou.

         Havíamos passado as casas, estávamos junto aquele medonho muro da esquina. A distância entre nós ficou bem menor. Finalmente vislumbrei o carro estacionado na travessa, não pude avançar como queria já pensando apanhar o extintor ou a chave de rodas, coisas que me ocorreram para defesa. Felizmente o carro estava na guia do meu lado.

         Foi quando o cara também cruzou a rua e tomou minha direção. Passos pesados. Eu apressado para abrir a porta do Jeep, não dava certo, esqueci que era só apertar um botão. Arrepiei, ele certamente queria o carro! Sequestro? Era só o que me faltava essa noite.

         Abandonei a chave no local e fui pra frente do capô como que examinando alguma batida, alguma coisa. Nesse momento o arrepio foi mais forte. Sabe aquela involuntária tremida: “a morte passou por aqui”? Foi isso que senti.

         Distante uns oito metros, enfiou a mão no casaco, tirou alguma coisa que brilhava. Continuou caminhando, aproximou-se.  Levantou a cabeça e acenou um cumprimento. Abriu seu carro que se achava junto ao meu, deu a partida, uma ré, e seguiu seu destino.

“Quanto mais acreditamos nos homens, mais vezes essa fé balança”.
Romano


Match Point - Vera Lambiasi

                                              

Match Point
Vera Lambiasi

O jogo de tênis do torneio feminino de duplas havia sido marcado naquela segunda-feira invocada.

Tudo ali estava inadvertidamente esquisito, marcando as pisadas no saibro úmido.
A bola se recusava a atravessar a rede. Quando partia, passava dos limites da fita.

Kátia, parceira constante, perguntava-me a certa altura :
        O que está acontecendo ?

        A bruxa está solta, minha amiga !
Respondia eu.

O lusco-fusco cegava-nos.
Bichinhos voadores ameaçava-nos assustadoramente.
Íamos perdendo o game imprevisivelmente. E depois o set, e vários deles.
Os saques repentinamente deixaram de entrar. As devoluções bruscamente dirigiam-se ao fundo da quadra, sem êxito.
O terror tomou conta de nossos backhands.
Era um aparvalhamento sem precedentes.

E no vazio de um clube ermo saímos derrotadas, inesperadamente.
Ofereci-lhe uma água de coco. Em vão, a lanchonete já estava fechada.
Não havia viv’alma nos arredores. As adversarias já tinham tomado o rumo de suas casas. Vangloriavam-se com a vitória presenteada.
Desanimadas fomos nos dirigindo para nossos carros.
Katia achou o seu, despediu-se e partiu na noite marrenta.

Agora eu estava só, triste na escuridão.
Um uivo de cachorro bravo ao fundo. Uma sirene disparada, gritos na esquina.
Isso não estava me cheirando bem. E meu carro que não aparecia entre tantos outros.
Já não bastava aquele jogo infernal. O que mais tinha para acontecer nessa noite, meu Deus ?
E foi nesse estupor de emoções que morcegos descomunais começaram a dar rasantes na rua escura.
Estaria sonhando, murmurava com meus botões, essa moda de vampiros pode ter me influenciado. Podem ser apenas corujinhas protegendo o ninho.
E veio mais um, veloz como um boing 747, aterrissando em minha direção.
Abaixei-me para salvar minha pele e poder observar melhor.
Morceguinhos nos chapéus de sol da praia são tão dóceis.
Esses gigantes estavam me apavorando. Passou pela minha cabeça todos os filmes de vampiros, George Hamilton em Love at First Bite, toda a série Crepúsculo, Os Pássaros de Hitchcock.
Me enfiei dentro da raqueteira, deitada na calçada, para me salvar.
A cena era ridícula demais e de assustada passei para um riso esganiçado.
A noite toda foi uma coletânea de erros para acabar assim nessas gargalhadas.

Rastejando desajeitadamente até a esquina, avistei meu veículo. Era aquele com o alarme disparado. O time de futebol em peso rindo em volta dele.

E um morcegão gigantesco de controle remoto estatelado no parabrisa!

Ô brincadeira mais besta!

Ilha Porchat - Maria Luiza C. Malina



Ilha Porchat
Maria Luiza C. Malina


Uma simples foto do litoral Sul. Uma ilha. Meus olhos, sem qualquer pretensão geográfica, vasculham o seu entorno, fixando-se num ponto qualquer como que pudessem bisbilhotar, se aproximar como  um satélite.

Num relance abre-se a gaveta, tão bem fechada das lembranças, um  “flash” que atordoa convida, com seu sorriso maroto, às  lembranças de um amor.

O ano de 1967 iniciava-se com grandes promessas de formatura e, em conseqüência seus famosos bailes pro-formatura, em que convidávamos amigos e flertes. Estávamos em uma roda onde  ninguém tirava ninguém para dançar, apenas conversas seguidas de risadas. Era proibido dizer não, “dar tabua”, numa época em que as musicas italianas estouravam com seu romantismo para as danças lentas. “Dio come te amo”, “La ultima telefonata”...

Estava de costas para a pista, cabelos curtos, com meus 1.70 de altura e 47 kg equilibrados em cima de um salto 7,1/2, saia justa e cacharel  amarela de gola olímpica, quando senti alguém tocar no meu ombro para dançar, olhei de ombros e com um largo sorriso, aceitei de pronto.

Ria, porque era o rapaz mais feio, embora estivesse impecavelmente vestido e cheiroso, estava careca por ser calouro da Universidade Presbiteriana, parecia uma tartaruga. Dançamos e conversamos a noite inteira, até esqueci meu flerte. Foi uma paixão de bem querer sem fim.

Continuamos a nos ver às  escondidas, não podíamos namorar. Meu pai pouco deixava a fazenda no Rio Grande do Sul, no entanto de tudo sabia, chegou para a formatura com sua nova esposa e, ele, tão especialmente esperado, não foi, mas o flerte foi.

Os dias se passaram. Todos os sonhos contidos dentro do colorido de uma bolha de sabão, foram estourados. A decisão havia sido tomada. As passagens compradas.

Desaparecemos do cenário num piscar de olhos, O destino foi a casa de minha mãe numa cidade do interior do Uruguai. Adaptamos-nos , carregando, cada uma,   suas próprias tristezas de um momento de vida interrompido.

Havia chovido muito naquele dia, as ruas estavam encharcadamente silenciosas, caminhava cabisbaixa passando as mãos pelos cabelos, me dando conta do quanto o tempo havia passado... Eles estavam longos demais!

Um chamado me acordou – Deborah! – Deborah!- Minha Deby!

Não! Não podia ser ele, não agora! – Será! Levantei os olhos e lá estava ele. O rapaz alto com seu terno impecável, com certeza já deveria ser um advogado de sucesso.

Num ímpeto, e eu ainda atordoada por aquele som que ha muito não ouvia, ele me toma em seus braços fortes levantando-me como a uma noiva, para atravessar a rua para que simplesmente, eu não molhasse os meus pés. Seu cheiro estava lá, ao meu alcance.

Colocamos nossas vidas num Café.
-          Deby - diz ele, ao acariciar minhas mãos, olhando nos meus olhos umedecidos - Você quer...  - Sente algo estranho e olha para minhas mãos, soltando-as... – Você esta noiva?
-          Sim, me noivaram. O silencio de nossas almas, espremia toda a dor do reencontro de uma saudade que estava por vir.
          
Despedimos-nos sem qualquer divida, zeramos nossas vidas que continuariam silenciosas neste amor que apenas duas almas conseguem entender.

Anos se passaram, já nem sei mais quantos. Agora meus cabelos curtos dançavam com o vento Estava de passagem na cidade em que havíamos nos formado, em  busca de documentos. Tudo era muito diferente, visto a olhos de visitante, as ruas e casas, novos moradores, novos amores,  talvez! Procuro por um táxi, parada na esquina do Largo do Arouche, admirando a beleza da banca das flores e penso – quanta diferença que o colorido deste simples cantinho faz, em meio a tantos edifícios, sombras e concreto...

Nesta divagação, não percebi alguém chegar correndo me pegando no colo e outra vez -  me atravessando apaixonadamente a rua.

-          Deby estou vendo, você não esta noiva. Vamos ficar juntos, você vai ser a
primeira dama do pais, sou um político de sucesso...

Em silencio coloquei meus dedos em seus lábios, abaixando a cabeça e lhe disse:
-          Estou casada no civil, estou sem aliança porque elas estão sendo gravadas.
-          Não e possível! Não te procurei porque pensei que você tivesse se casado naquela ocasião. Não se case!
-          Caso-me capela da  fazenda do meu pai no Rio Grande dentro de 20 dias.
-          Sim! Eu sei onde fica, irei para lá - disse ofegante - Não vou deixar!
-          Não faca isto, não posso desistir, desta vez preciso casar mesmo.
          
Despedimos-nos, com um abraço eternamente apertado de seu calor de outras saudades que serão sentidas na solidão de nossas almas. Pela terceira vez  a casualidade do destino fez com que nos encontrássemos. 

- Às 18 horas! Não se esqueça Deby, às 18 horas, olhe para o céu, você vai escutar o ronco de um avião sobrevoando seu casamento, jogando rosas vermelhas e uma faixa “EU TE AMO”.

Anos se passaram, meus cabelos já estão grisalhos, ainda ouço suas noticias através da televisão e de revistas, sempre acompanhado de belas mulheres na Ilha Porchat.                                                                                                                                                         




OS OVOS DA SERPENTE - Suzana da Cunha Lima


OS OVOS DA SERPENTE
Suzana da Cunha Lima

Por estes dias, que antecederam o final de semana, as notícias na televisão mostravam imagens de estádios recém-construídos, prontos para a Copa das Confederações, jogadores de outros países chegando ao Brasil e um certo frenesi que acomete o povão antes de competições futebolísticas importantes.  Em nosso país respira-se futebol, que é uma paixão nacional.

Mas nem sempre. Hoje, o custo absurdo dos estádios está apagando a última chama de alegria de nosso povo. O futebol não é mais o ópio do povo, que não está disposto a abrir mão do que é essencial para uma vida digna, paga a preço de ouro pelos impostos escorchantes. Não queremos mais assistir impotentes, a deterioração da qualidade de vida e o  esfacelamento de valores, em todos os setores.

E foi o que assistimos através das imagens impactantes de manifestações populares contra o aumento da tarifa de ônibus.  Ora, o Movimento Passe Livre não  tem mais que 40 integrantes, mas sua manifestação acendeu o rastilho da pólvora da indignação, revolta e descontentamento por todos os desmandos que tem asfixiado o povo nos últimos tempos.

Eles se alastraram e adquiriram proporções gigantescas. O que eu pude observar, no 15º de um prédio na Avenida Paulista, é que  não importava tanto o aumento da tarifa de ônibus, que tanta celeuma causou. Os 20 centavos de acréscimo foram a gota de água, a ponta do iceberg. O povo fervia de revolta e indignação pelos sistemas de saúde, educação e transporte público esfacelado, pelas obras superfaturadas e malfeitas, por equipamentos caríssimos se deteriorando em clínicas, sem uso e sem médicos. Tantas coisas por fazer e os políticos aumentando seus salários ao bel prazer.

 Fiz também um cartaz e desci, ainda com a boca anestesiada.  Ao chegar à calçada, vendo tantos jovens bem nascidos, que certamente nunca andaram de ônibus, entusiasmados, carregando cartazes e bandeiras, senti renascer um novo orgulho pela nossa juventude. Amei estar ali junto e declarar ao mundo e a mim mesma que eu também não aceitava aquele estado de coisas.

Senti claramente que subjacente a estas manifestações, havia um caldeirão de insatisfações, prestes a explodir.

Temos que acabar com a corrupção que corrói todos os valores e com a impunidade que tudo permite. Nossos dirigentes, uma vez instalados em seus castelos de poder, estão cada vez mais distanciados dos anseios legítimos desta população desrespeitada, surdos e insensíveis ao clamor nacional e às suas necessidades essenciais que só são lembradas nos palanques.

 Será que a classe política vai compreender que não há mais espaço nem clima para suas falcatruas, mentiras, corrupção que estão gerando um clima de angústia, insatisfação generalizada e principalmente medo, que se  instalou na família brasileira?

Não temos que aceitar este oceano de impunidade e corrupção. Não temos que aceitar que os “mensaleiros” (protagonistas do maior escândalo político que já tivemos) julgados e condenados com todos os recursos de defesa à sua disposição, ainda estejam soltos, buscando, com seus advogados caríssimos, alguma brecha jurídica para não irem para a prisão.

Não temos que aceitar que marmanjos de 18 anos ou índios totalmente aculturados não respondam pelos seus crimes e pelos seus atos.

 Não temos que aceitar a existência de Bolsas para tudo (com nosso suado dinheirinho), sustentando malandros, preguiçosos e delinquentes, prestando assistência a bandidos e suas famílias.  E ninguém a se preocupar com os traumas e sofrimentos das famílias desestruturadas por atos covardes e cruéis destes marginais.

Queremos andar livremente em nossas ruas, parques e praças, frequentar restaurantes, teatros ou cinemas, a qualquer hora do dia, sem medo, e não nesse clima de guerra não declarada, onde se queimam pessoas, se atiram em mulheres grávidas e jovens, se arrastam crianças pela rua até a morte, sem nenhum motivo e explicação, seguros da impunidade que a lei lhes confere.

Tenho quase a convicção que outra raça está nascendo: parecem humanos, mas não são. São seres destituídos de qualquer traço de compaixão, solidariedade ou patriotismo. E nós mesmos colocamos estes ovos de serpente em nossos ninhos, os alimentamos e até os levamos aos centros do poder, para defender nossos interesses.  Até quando?

Está na hora de nosso Brasil fazer um Gol de Placa, inesquecível, cujos efeitos se prolonguem por muitos anos: fazer correr  esta corja  para o buraco de onde saíram e não permitir que voltem para a vida pública, nunca mais.