QUADRILHA - Oswaldo U. Lopes

 



QUADRILHA

Oswaldo U. Lopes

 

        Nossa história lembra a quadrilha de Carlos Drummond de Andrade. Na nossa, Marilia era casada com Juarez que era sócio de Hamilton que dava em cima de Marilia que achava ele um porre e preferia a companhia de Lúcia, sua melhor amiga, que morava num prédio onde Caldas, legista aposentado, era diretor financeiro e Juarez, o síndico. O zelador era só zelador mesmo.

        Marilia era apaixonada pelo marido, que para variar não ligava muito para ela. Esse é um mistério da biologia, porque as mulheres são mais fiéis e ficam eternamente obcecadas pelo homem com o qual se casaram.

        Ora direis (viva os poetas brasileiros, parabéns para quem reconheceu Olavo Braz dos Guimarães Bilac, duplo parabéns para quem contou o nome dele e descobriu um perfeito decassílabo, para quem acha ele um parnasiano, meio chato, ofereço companhia), nem sempre é assim. O fato de não ser uma unanimidade não invalida o mistério.

        Nossa heroína fazia corretagem de imóveis para ajudar o orçamento, dava para ser notado o dinheiro que conseguia.  Juarez, é claro, fazia de conta que não notava. O seu escritório era razoavelmente bem-sucedido, Hamilton tinha sucesso e proeminência nos negócios advocatícios.

        Fora nos negócios de corretagem que Marilia conhecera melhor Lúcia, também corretora. Amizade sólida, firmemente unidas pela antítese. Lúcia era tudo que Marilia não era. Moravam no mesmo prédio, mas não era lá que trocavam figurinhas e ideias.

        Não dava a mínima para os mistérios da biologia, o marido se mandara com outra, passou a viajar de navio, cruzeiros deliciosos, às vezes longos, ilhas gregas incluídas. Não era raro ter um caso com o cara da cabine ao lado que terminava no porto de chegada, por mais que o tipo insistisse no contato até com o que podia ser chamado das melhores intenções.

        Lúcia preferia as piores e fazia questão de que tudo aquilo fosse apenas uma louca aventura de uma divorciada solta no mundo.

        Era mais eficiente do que Marilia na corretagem, tinha licença do CRECI e embora agisse também por conta própria, faturava alto. Morava em Higienópolis e por ali e nos Jardins conhecia cada rua e cada prédio.

        Gostava de fazer negócios com e para mulheres como ela, independentes e ricas. Não eram poucas, como a biologia fazia supor, ou então, em contraste, as condicionadas pela biologia eram mais numerosas que os grãos de areia da praia.

        Marilia não se conformava, era bonita e sabia disso, tinha um corpo escultural, que enchia de razão a frase memorável:

“ Adão depois Eva. Primeiro o rascunho, depois a obra de arte.”

        A frase, linda, é de autor desconhecido, mas é conhecida em várias culturas e línguas. No Brasil foi incorporada por Sidney de Moraes num poema “ O Casamento”. O poeta é menor, mas a poesia é frequentemente lida em casamentos, sobretudo nos evangélicos.

         Ele a incorporou atribuindo-a maldosamente às feministas. Discordo, basta ser humano, abrir os olhos e ver a obra prima de Deus.

        Por falar em rascunhos, Juarez era dos mais rabiscados, eta sujeitinho cego e pasmo.

        Então, Marilia, resolveu partir para o ataque, feminino com certeza, chamar de ataque o fato de pôr uma roupa linda e justa, com ombros cavados, pintura de rosto discreta, mas realçante, era até covardia, mas o que valia numa guerra era a vitória e ela estava pronta para a parada da celebração. Como diria outro poeta:

        “ Então ela se fez bonita

        Como há muito tempo não queria ousar

        Com seu vestido decotado

        Cheirando a guardado de tanto esperar

        Essa foi fácil, deu para reconhecer Chico Buarque, poeta dos bons, petista, o que não lhe tira a competência nem a aumenta. Os que pensam que todos os poetas são da esquerda, nunca ouviram Cara al Sol de Primo de Rivera, hino das falanges franquistas durante a guerra civil espanhola. Bonita e mais fascista não é possível. A história será sempre escrita pelos liberais, mas a poesia não.

        Bem, sorte ou azar, quem Marilia encontrou no saguão do prédio do escritório do marido? Esse mesmo, o sócio Hamilton que reparou e até prendeu a respiração contemplando aquele magnífico exemplar dos caprichos do Criador.

        Mais que depressa, ofereceu-se para subir junto no elevador que não tinha ascensorista e podia facilitar terceiras intenções. Não houve tempo para terceiras nem quartas intenções. Pela porta do elevador apareceu um espavorido Juarez que mal notou sua mulher. Já não notaria de qualquer jeito, espavorido então, mal levantou o olhar e fulminou:

— Preciso ir até o prédio, aconteceu alguma coisa no apartamento da Lúcia.

        Acontecera mesmo. O assustado zelador saíra correndo, procurando o Dr. Caldas, quase sem fala porque vira na soleira da entrada do apartamento 304 B um filete de sangue escorrido. Tinha certeza de que a proprietária, D. Lúcia, não saíra, o carro dela estava na garagem, ele o vira ainda há pouco.

        Caldas se aproximou e confirmou a presença de sangue, restava saber se era humano ou não. Coisa fácil de fazer, mas precisaria de um laboratório de apoio. Todos no prédio sabiam que ela tinha um cachorro, se é que se podia chamar aquilo de cachorro. Uma dessas espécies miniaturas, que agora eram moda em apartamentos de gente rica.

        Tim, o zelador, que agora ganhou até nome, informou que já avisara o Dr. Juarez que era o síndico, para que este viesse e autorizasse a entrada no apartamento.

        Caldas ficou irritado, esperar o quê, meu Deus, se você tem chave! Abre essa porra logo.

— Mas, o Dr. Juarez já vem vindo.

— Abre, saco.

        O Dr. Caldas foi suficientemente incisivo para que o Tim o obedecesse, abriu, entraram.

        Surpresa enorme, logo atrás da porta havia o corpo de um homem, de onde escorria o filete de sangue. Deitado estava no pequeno hall que se continuava com a ampla sala. Perto da mão esquerda, havia um revólver que não era empunhado. O Dr. Caldas abaixou-se e confirmou que na mão não havia resíduos de pólvora nem o revólver parecia ter sido disparado.

        Virou ligeiramente a face do falecido e foi então que o Tim, fazendo valer seus vinte anos de zeladoria, exclamou:

— Eu conheço esse cara, é o ex-marido de D. Lúcia.

        Agora sim é que eram elas, quem iria juntar todas as peças dessa quadrilha. O falecido tinha um furo no peito de onde escorria sangue, mas não parecia à queima-roupa. Quer dizer, a camisa não estava queimada. Não havia mais ninguém no apartamento.

        Quadrilha pouca é bobagem, pensou o Caldas, do jeito que vai, o balancê vai ser cumprido.

 

 

QUADRILHA

Carlos Drummond de Andrade

João amava Teresa que amava Raimundo

Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

Que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos. Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes

Que não tinha entrado na história

ESPIRITUALIDADE - Antonia Marchesin Gonçalves

 



ESPIRITUALIDADE

Antonia Marchesin Gonçalves

 

A humanidade está sempre me surpreendendo, não falo só da pandemia, a miséria atual, pois já tivemos durante esses milênios varias delas, tão graves quanto do momento mundial. O que está me espantando é que nunca recebi tantos pedidos e correntes de oração.

Basta acontecerem catástrofes como essa que mata, para todos se lembrarem do espiritual, vem à tona o medo da morte.

Antes, apesar de orientados, suas religiões eram pouco lembradas. A oração, o agradecer por estar vivo, por ter a família, antes um fardo para muitos, por ter trabalho, antes não valorizado até perder, por ter comida na mesa, antes desperdiçada e por ter a certeza do futuro, agora incerto.

Antes dessa pandemia o mais importante era o “ter” e não o “ser”, bens materiais para ostentação sem pensar em doar o amor que a fé prega. Somos feitos por matéria, mas o espiritual é o que nos sustenta, tendo a certeza de que nunca estamos sozinhos, nos dá a segurança confiando que dias melhores virão.

Chorar nossas perdas e consolar nossos semelhantes, tomara que seja o aprendizado que fica, e não só no desespero recorrer aos céus. Que sejamos mais humanos, doarmos mais amor, valorizarmos a fé em algo maior, para um mundo preservado, valorizado e amado.

MAIO - Oswaldo Romano

 




MAIO

Oswaldo Romano

 

 

Ofertas de flores e alegrias, é o mês

da primavera, e do jubiloso

orgulho do ser ... Mãe. São horas esperadas pelos carinhos dos filhos,

na certeza de juntos receberem

a benção de Deus.

É ocasião de reavaliar sua felicidade, não esquecendo que muitas mães ficam só, numa ilusão. Guardam no coração muitas lembranças, imaginando-se culpadas de não ter dado mais abraços, mais amor, segurá-lo fortemente apertado junto ao peito, para que não escapasse da família.

Às que tem filhos ausentes, e nesse mês não são lembradas, fica outro tipo de dor. Dor de abandono, superado só quando suas lágrimas secam.

 

Em maio paira no ar, a leveza da

vida, da reprodução, a pureza do carinho de

mãe. Carinho recíproco, esperado de longe, alguns do além, embalados em lembranças. Chegam tão naturais que se fazem sentir tocáveis.

É o mês que tem fragrância, reflete

a imagem do ano, exala perfume no ar.

Mãe

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UM MERGULHADOR OBSTINADO - Antonia Marchesin Gonçalves

 


UM MERGULHADOR OBSTINADO

Antonia Marchesin Gonçalves

 

A possibilidade de descoberta de raríssimos tesouros levou meu amigo Rafael a se tornar mergulhador profissional, não um mergulhador comum, mas um especialista em antigas embarcações.  Para ele não foi complicado, ele sempre nadou com perfeição. Na praia não tinha medo do mar, aliás, o mar o encantava, mesmo com chuva, nada o impedia de surfar, esporte de sua adolescência.

Ao entrar na faculdade optou pela Engenharia Naval se formando com louvor. Foi trabalhar em um navio de grande porte sendo misto, passageiros turistas e carga.  

Numa dessas viagens, ao atracar na Grécia, viu uma embarcação singular que lhe chamou a atenção. Não, não era de pesca, era um navio de médio porte sendo carregado com diferentes objetos e equipamentos, que lhe indicava ser de exploração submarina.

Aquilo o atraiu deveras,  logo se aproximou fazendo perguntas. Era mesmo um navio explorador especializado em localizar embarcações naufragadas. Ali estavam cientistas, biólogos, fotógrafos subaquáticos, e mergulhadores profissionais. Não teve dúvidas, ofereceu-se para qualquer serviço, precisava ser no projeto,  tamanha empolgação que sentiu. Estava a equipe com falta de um mergulhador de grande profundidade, a sorte estava ao seu lado. Foi aceito na entrevista com o comandante. Teve tempo só de transferir sua bagagem e pedir demissão. Emocionado como uma criança, embarcou numa nova aventura.

Eram todos profissionais em caça de tesouros e naufrágios, tinham fama e dinheiro, sem compromisso com nenhuma bandeira. Eram autônomos, mas o empresário responsável pela expedição, era um explorador inglês, homem muito rico, o melhor nessa área.

Zarparam todos, sendo ele instalado em uma cabine com mais três companheiros. Ao chegarem ao alto mar, todos foram convocados ao convés para iniciarem os trabalhos, ele como novato não foi escalado para mergulhar e sim para ajudar os outros no manuseio dos equipamentos a bordo. Mas, Rafael era muito curioso, e após dois dias já tinha dominado o sistema de limpeza,  o sistema de segurança de oxigênio dos respiradores, e zelava pelo tempo máximo de permanência no fundo.

Impaciente foi falar com o comandante, a resposta foi um não, dizendo que ele não iria arriscar com um novato de primeira viagem, teria que ter paciência, sua vez chegaria. 

Mas, a equipe não estava com sorte, nada de localizar destroços ou qualquer indício de destroços. O custo era alto para essa atividade. Foi aí que Rafael não se conteve.  Ele acordou mais cedo no dia seguinte, em silêncio foi ao convés, preparou todo o equipamento, e decidiu que desceria sozinho, sabia do risco, mas assim mesmo foi. Pulou logo depois de ter lançado uma âncora com corda para se nortear. Foi descendo maravilhado com a paz da vida marinha que seguia seu rumo, vegetação bailando com o movimento da água provocando encanto no mergulhador.  Foi se afastando sem perceber a hora passar, notou que o oxigênio estava chegando ao limite, teria que voltar. Foi quando percebeu ter se afastado da corda, pois não a via mais. Arriscou ir para a sua direita e aos poucos foi enxergando o que a expedição procurava, a nave naufragada já coberta por algas servindo de refúgio para alguns peixes, parecia ainda em bom estado. Sabia que não teria condições nem de chegar perto, corria o risco de falta total de oxigênio.

Voltou para a sua esquerda, não posso entrar em pânico, parou, olhou em volta e decidiu seguir seu instinto. Tentando fazer o mínimo de esforço para poupar o oxigênio foi seguindo devagar, até perceber um cardume grande de pequenos peixes,  e mais adiante um grupo de golfinhos, resolveu segui-los, sabia que eram espertos e aproveitavam as embarcações para se alimentar dos dejetos que eram jogados pela tripulação. Foi a sua salvação! Logo avistou a corda e conseguiu emergir.

Quando na superfície, toda a tripulação estava no convés, ansiosos o ajudaram. O comandante o recebeu aos berros, desconsiderando-o com palavras grosseiras.

Rafael respirou fundo, tinha uma grande revelação a fazer,  e aí sim contou ter localizado uma embarcação naufragada.

Nem preciso dizer que o contrataram e ele passou a integrar definitivamente a tripulação, principal, inclusive como engenheiro naval, ganhando bons bônus a cada descoberta.


RETORNO DO COLÉGIO - Maria Luiza Malina

 



RETORNO DO COLÉGIO

Maria Luiza Malina


Rua Teresópolis. Assim que despontava na rua, Zepeln vinha correndo em minha direção. Era nosso primeiro cachorro, um Daschund preto, esperto e brincalhão como ele só.

Eu estudava à tarde. Naquele final de tarde ele não estava me esperando. Estranhei. Desci correndo a rua. Era um dia quente. Com sede entrei voando em casa. Mas, parei, e esqueci da sede.

— O que aconteceu? Perguntei a empregada e, logo apareceu a cozinheira. Nada responderam. Inquieta fui na direção do quarto de minha mãe. Elas me seguraram. Joguei minha pasta escolar, de couro verde, no chão. Desvencilhei-me.

— Onde está minha mãe? Repetia, e repetia. O quarto desmontado, e elas caladas, atrás de mim. Faltavam móveis na casa. Com muita dificuldade tentaram me deter. Corria pela casa, não parecia mais ser minha casa. Os móveis da varanda. As coleções de Gloxínias, Avencas, Violetas, as estantes vazias. Descontroladamente, subi as escadas. O nosso quarto. Desarrumado.

— Onde estão todos?

Cansada. Desci a escada. Sentei-me no primeiro degrau. Uma delas já estava com um copo de água. Tomei a água bem doce. Quando estendi o copo, ela o pegou e sentou-se ao meu lado. Maura era o seu nome. A outra não recordo o nome. Então, ela explicou que minha mãe foi levada para a casa dos pais dela, em outro estado, porque estava muito doente. A casa estava vazia porque nós, os quatro irmãos, iríamos fazer uma viagem de avião para São Paulo, que era para lá que a mudança havia seguido.

Não consigo lembrar do vazio que imperou em mim. Perguntei do meu gato malhado de amarelo, Miki. Disseram que estava pelo jardim. Procurei, mas não o encontrei. Ele gostava de subir nas árvores. Nada. Na horta também não. No galinheiro, só as galinhas que já procuravam o poleiro. Perguntei pelo Zepeln. Responderam que Dr. Camargo o levara. Senti confiança.

Suada. Com o uniforme bege do colégio, sem gato e sem cachorro lá estava eu sentada no degrau da varanda vazia. Ela me parecia tão grande. Lembrei da correria das brincadeiras de bandido e mocinho com os amigos de meu irmão. Levantei-me para ver se havia alguma bicicleta escondida atrás da mesa de ping-pong. Nada!

O degrau da varanda. Olhava a poeira do meu sapato preto de couro. A meia branca cansada das correrias de pega-pega no recreio merecia um descanso. Descalça, assim meu pai me encontrou. Estava de plantão naquele dia. Explicou-me coisas que, como criança, filha ... o nada e tudo entender era o mesmo que  NADA.

Então encontrei meus irmãos já instalados no Hospital. Tudo era novidade. Ficaríamos por dois dias lá hospedados, até o dia da chegada do avião. Nossas malas. Nada lembro.

Acredito que o susto do vazio, do nada recolheu-se numa estratégia bem-sucedida pelo meu pai. Era médico cirurgião. Não sabemos se foi proposital ou se queria nos pontuar quanto a uma futura profissão na área da saúde... o fato é que nos convidou a assistirmos "uma simples cirurgia de apendicite"... lá fomos nós. Os três maiores. Quietos. Encostados na parede branca e fria. O bisturi deslizando na barriga e o sangue rompendo... minha irmã e eu desmaiamos ao ver a cena.

O irmão aguentou firme. Mas ninguém escolheu a medicina.

Assim, num voo de 1959 aterrissamos na cidade grande de São Paulo. Estava no terrível ano de exame de admissão para a quinta série.



NOSSA SENHORA, A DA PIEDADE - Oswaldo U. Lopes

 

NOSSA SENHORA, A DA PIEDADE

Oswaldo U. Lopes

 

        Embora Marcos relate no seu Evangelho a presença de mulheres no episódio da paixão de Cristo, Maria, a mãe, só é citada especificamente no Evangelho de João. Cultura, machismo, hábitos de época, tudo junto, fica claro um contorno que afasta as mulheres da história.

        Essa passagem resultou no reconhecimento explícito da presença de Maria na crucificação e no surgimento de uma extraordinária devoção a Nossa Senhora da Piedade. Serviu inclusive para o surgimento de uma maneira de representação de Jesus, morto, no colo de Maria. É a famosa Pieta de Michelangelo. A escultura ganhou tal expressão que a palavra Pieta se incorporou, praticamente em todas as línguas e é escrita e pronunciada com a forma italiana.

        Se ela estava perto do Calvário, qual terá sido sua reação quando, já tendo o crucificado pregado nela, a cruz, foi elevada e jogada dentro de um buraco, causando incrível dor e laceração dos membros. Que horror terá passado pelos olhos da Virgem esta visão intensa do sofrimento de seu filho.

        Pelos redemoinhos da cabeça que pensaria a Virgem vendo tudo aquilo:

— Olha o que as más companhias podem fazer na vida de um jovem.

— De que vale salvar a humanidade a custa de tanto sofrimento.— Melhor teria sido casar e ser um honesto carpinteiro.

        Nunca saberemos, Maria seria uma mãe humana e sofrida ou teria um vislumbre do que aquilo tudo queria dizer. As representações que os artistas fizeram do momento mostram uma mulher tomada de intensa dor e sofrimento. Não é a imagem de alguém que pensa;

— Eu sei que ressuscitarás e serás alvo de muito amor e culto.

        De certa maneira ignorada nos Evangelhos e mesmo nas Epístolas, Maria é objeto de intensa devoção. Padroeira do parto, dos escravos, dos padeiros, dos floristas, da boa morte, Ela acompanha seus fiéis. Até os que não simpatizam com Deus como Ariano Suassuna, se voltam para ela chamando-a carinhosamente de Compadecida.

        A que se compadece, a que tem piedade, a que vale nos apertos, Ela está sempre presente. Rogai por nós, mesmo os que não cremos. Amém.



NOTA FINAL: Não sei se todos sabem, mas Nossa Senhora da Piedade é a padroeira de Minas Gerais e por isso existe, em Caetés, a menor Basílica do mundo, dedicada a ela, linda, com uma Pieta atribuída ao Aleijadinho. Nela devem caber no máximo dez pessoas. Na foto aparece o Umbráculo ( guarda-chuva - umbrella em italiano) que é símbolo das Basílicas, mesmo sendo muito pequena lá está o Umbráculo amarelo e vermelho no canto direito da imagem.

 

Vivo após 36 dias na mata amazônica. - Ises de Almeida Abrahamsohn

 

Vivo após 36 dias na mata amazônica.

                                      Ises de Almeida Abrahamsohn



Crédito: o próprio piloto Antônio Sena, que está ao centro de camisa preta ao lado de D. Maria Tavares, seus filhos e outros catadores de castanhas.

Este texto foi produzido a partir da notícia e texto publicados no NYtimes em 28 de março de 2021, escrito por Manuela Andreoni e produzido em parceria com Pulitzer Center’s Rainforest Investigations Network

 

Antônio Sena tinha aceitado fazer aquele voo naquele velho Cessna 210L porque estava desesperado. Com a pandemia seu pequeno bar não dava para sobreviver e os turistas tinham sumido do Pará. O destino era um  garimpo ilegal em algum lugar no meio na selva amazônica. Era seu voo de estreia sobre a mata. Estava a 1000 m de altitude quando o motor deu pane. Pesou as chances. Poucas. Trazia 160 galões de diesel consigo. Ao perder altura só via a densa copa verde abaixo. Conseguiu enviar um comunicado curto no rádio aberto, que estava a meio caminho da mina Califórnia. Até que, aos 100 m, viu um vale estreito ladeado de palmeiras. Deveria haver rio próximo... E foi lá onde ele miraculosamente conseguiu aterrissar. Ainda tonto com o baque, agarrou um canivete, lanterna, alguns isqueiros, o celular e se esgueirou para fora. Minutos depois, já a distância segura, viu o avião explodir.

Decidiu acampar ao lado dos destroços. O rio que havia imaginado não existia, apenas água acumulada em poças. Pensou que os voos de resgate o achariam mais facilmente. Porém após alguns dias percebeu que os voos de reconhecimento passavam acima, mas não o viam, nem a fogueirinha, nem os sinais que colocou no chão com folhas de plantas e restos carbonizados do avião.

Antes da bateria do celular morrer de vez, acionou o aplicativo de geolocalização e com o mapa localizou um rio, o Paru, a cerca de 90 km na direção oeste, onde ele sabia haver habitantes. E começou a caminhar. Caminhava pela manhã e no começo da tarde montava um abrigo com folhas para se abrigar da chuva e passar a noite. Tentava acampar nas áreas mais altas. Os predadores em geral caçam próximo aos igarapés. À noite tinha que se livrar dos macacos prego que queriam destruir o seu abrigo de folhas. Mas com eles aprendeu que podia comer umas frutinhas vermelhas, breu ou guapuicí de gosto resinoso, mas nutritivas. Conseguiu também três ovos de inhambu e algumas folhas que conhecia. Depois de 4 semanas caminhando, ao acampar à tarde ouviu o zumbido de uma serra elétrica. Não comia há três dias. Apurou o ouvido e ouviu de novo. Mas já escurecia e ele ficou com medo de perder a direção na escuridão. No dia seguinte ouviu de novo a serra que logo parou. Continuou a caminhar na direção oeste como sempre e à tarde viu uma tenda de lona azul e um homem quebrando castanhas. Era um acampamento de coletores de castanhas liderado por Maria Jorge Tavares de 67 anos. Tinham vindo coletar em áreas mais remotas e nesta, que não visitavam há 3 anos. No acampamento o piloto foi alimentado e abrigado. Tinha perdido vinte quilos nesse período. D. Maria se comunicou pelo rádio com a filha, Miriam, que por sua vez se comunicou com a família de Antônio em Santarém. O pessoal a princípio não acreditou, achou que era golpe, já o tinham dado por morto. Finalmente Antônio foi resgatado e jurou nunca mais fazer voos para garimpos ilegais. São criminosos que destroem a mata e poluem os rios.

 

 



NOMENCLATURA E SIGNIFICADO: GUAPUICÍ vem do tupi e significa: “Fruta com resina refrescante”. Também é chamado de Amescla, Almacega, almacegueira, Breu branco, Manguinha brava e Pau de incenso.

 

Origem: É natural da floresta semidecidua (que perdem as folhas numa época do ano) da mata atlântica, do cerrado e da Amazônia, ocorrendo na maioria dos estados do Brasil. Mais informações no link: 

O VELHO E A DAMA - Oswaldo U. Lopes

 



O VELHO E A DAMA

Oswaldo U. Lopes

 

        Jurema não é uma mulher comum. É pobre, não miserável, justa, honesta, trabalhadora; bem até aí está mais comum que goiabada com queijo.

        Não é de levar desaforo para casa. Ah! Começou a diferença. No infeliz mundo em que vivemos, as mulheres levam para casa mais desaforos que deviam levar. Deviam?

        Por que ficar calada quando ofendida ou molestada? Por ser fisicamente mais fraca? Francamente, isso é argumento que se apresente em pleno século XXI.

        O Dr. Alex é muito inteligente, resiliente, fisicamente forte, astuto e não é jovem. Você pode ser moço e inteligente, pode ter porte físico, mas resiliência e perspicácia só se conseguem com a idade.

        É o drama da medicina de hoje. Você deve ter um conhecimento atualizado e recente, mas precisa de experiência e vivência na arte médica. O êxito depende da combinação desses dois fatores, não é para muitos.

        O Dr. Alex se apresentava como ginecologista e punha muita ênfase nisso. Muitos se dizem Obstetras e Ginecologistas, ele não. Não gostava de obstetrícia, muita confusão e ainda por cima, brincava, a maior operação deles era a cesárea, pura via de acesso.

        Como cruzaram suas vidas fica para esclarecer, foi uma mistura da generosidade dele com a necessidade dela.

        Ouviu, espantado, mas sem demonstrar, a incrível história da Jurema. Ela usava a palavra rape, tipicamente americana, muito frequente em filmes e TV, parecia para os falantes mais suave que o violento estupro do português castiço.

        Por fora, parecia jogador de pôquer, ouvia sem pestanejar ou dar mostras de incredulidade. Jurema fora vítima de rape aos nove anos de idade. O autor, um tio, irmão de sua mãe. Perdida, sua mãe fazia de conta que nada acontecera, escondera do marido temendo pela vida do irmão e achava que a menina poderia viver com aquilo. Não podia, tivera rotura de períneo e escoriações na vagina. Nunca tivera uma vida sexual que de longe pudesse ter esse nome.

        Examinou-a com cuidado, tendo a enfermeira presente, nesses casos essa presença dava segurança à vítima.

        Sentou-se na sua cadeira e fitando carinhosamente Jurema falou-lhe:

          Os danos causados na sua genitália eu posso consertar, não são de difíceis reparos. Não posso devolver-lhe a virgindade, nem seria o caso, mas posso reconstruir seu períneo e a vagina.

        Em relação a outros danos, psicológicos, tentarei ajudar, mas você precisará de auxílio especializado que posso conseguir. Prometo que estarei sempre a seu lado, vou ajudá-la no limite das minhas forças.

        Foi só aí, que a cara de jogador de pôquer desapareceu, comovido com tanto sofrimento, esboçou um sorriso, misturado com uma lágrima que teimosa escorria de seu olho.

O ASSALTO - Antonia Marchesin Gonçalves

 


O ASSALTO

Antonia Marchesin Gonçalves

 

                O banco da USP na Cidade Universitária estava lotado. Sarah com seu jeito de menininha mascando chiclete ao passar pela porta rotatória a bola estoura, o barulho assusta a todos inclusive o guarda do banco. Ela tira o chiclete da boca e mostra com a mão levantada. Liberada entra sob olhares de reprovação. Todos a conhecem, pois, todos os meses ela vai ao banco retirar a mesada que recebe dos pais moradores em Bauru, interior de São Paulo. Por ser de estatura pequena e magra aproveita usa roupas descontraídas e coloridas, estilo desleixada chique. A fila do caixa estava cumprida, tentou o caixa eletrônico, mas fila também estava  grande. Não teve jeito a não ser esperar. Estudante de jornalismo anda sempre com pequeno gravador na bolsa e a caderneta de anotações.

                Na fila ela não percebe um movimento dentro do banco, até ver as pessoas se deitarem no chão com as mãos na cabeça, era um assalto. Um bando de cinco integrantes mascarados e fortemente armados assustando a todos. Após se acalmar no chão, ela começou a analisar a situação, primeiro os clientes, vários senhores com muitas notas na mão, algumas mulheres e um cliente em especial moço todo de branco, com certeza era médico, aparentemente tranqüilo. Os cinco assaltantes estavam vestidos iguais, macacão cinza e boné e máscaras de macacos. Reparou que os tênis eram diferentes, mas todos de marca top. Estando deitada no chão percebeu que o médico estava ao seu lado, aproximou-se para se proteger e  ligou o gravador, ele percebeu sua intenção e ajudou a encobri-la.

                Os assaltantes nervosos falavam alto, apesar das máscaras distorcerem as vozes, chamaram o gerente pelo nome e exigiram que todos se levantassem e foram trancados na sala da gerência, exigindo que ficassem todos sentados juntos. Depois de uns dez minutos Sarah se arrastou até a divisória com janela de vidro e viu que o gerente falava com eles aparentemente sem medo. O médico avisou para que ela tomasse cuidado pondo em risco a vida de todos. Sarah ao invés disso pega o celular da bolsa e filma. Realmente o gerente colaborava com eles, pois nem as mãos ele tinha levantadas. Viu que dois entraram no cofre e outros três de vigia. Ao saírem do cofre não transportavam grandes malotes de dinheiro, mas sim uma caixa de metal e só.

                De imediato se uniram e combinaram que o gerente se virasse para levar uma coronhada na cabeça, caído e machucado esperasse dez minutos para libertar os reféns e chamar a policia. Assim foi ela guardou o celular e gravador sentou ao lado do médico que estava admirado pela coragem e audácia da jovem. Humberto se apresentou e liberados ele atendeu o gerente que sangrava na cabeça em seguida chegou a policia. Após todos darem os depoimentos, os mais nervosos sendo atendidos pelos paramédicos e liberados. Humberto foi conversar com Sarah sobre o material que ela tinha e o que iria fazer. Vai ser o meu furo jornalístico, vou vender a matéria para o jornal e mídia. Humberto admirado elogiou a coragem de Sarah e convidou-a para jantaram naquela noite se estivesse livre e comentou que tomasse cuidado com o gerente, com certeza era um deles, trocaram telefones. Há noite no restaurante Humberto perguntou se ela já havia mandado o material para o jornal, ao que ela tranqüila respondeu que estava organizando para editar, porque o que mais a intrigava era saber o que continha naquela caixa para motivar o assalto.

                Ele concordou também havia notado só a caixa e que não havia saído nenhuma noticia nem nos jornais da TV. Nos dias seguintes resolveu investigar por conta própria o gerente, que voltara a trabalhar aparentemente sem traumas. Soube que trabalhava nesse banco há cinco anos, era divorciado e sem antecedentes policiais. Nesse meio tempo Humberto ligava todos os dias querendo vê-la e aproveitava para fazer perguntas sobre as investigações. Nada boba Sarah começou estranhar o interesse de Humberto sobre o caso e resolveu checar sobre ele e descobre que o próprio tinha sim antecedentes criminais e já tinha sido preso por estelionato.

                Resolveu convidar-lo para jantar em seu apartamento, combinando com um investigador amigo que lá ficasse de tocaia para armar um esquema de confissão sobre o assalto. Jantaram e a conversa foi sobre vários assuntos. Ele cuidadoso, até que começou a demonstrar impaciência quando tira uma arma e exige dela que lhe entregue o material. Calma se propõe a dar, só queria saber o que continha na caixa de tão importante a ponto de um assalto daqueles. Achando que estavam sozinhos, ele conta que era traficante e descobrira que o líder do bando seu sócio, havia desviado uma quantidade grande de diamantes para a sua conta pessoal, após acerto de contas não conseguindo dele o código não teve outro recurso a não ser o assalto.

                Ao ouvir a confissão o investigador armado aparece e desarma Humberto e já havia contatado a policia. Dias depois Sarah consegue seu furo jornalístico revelando toda história. Prenderam o gerente, cúmplice do roubo. E, Sarah teve então a certeza de que carreira de jornalista investigativa seria promissora.

 

EM TEMPOS DE VÍRUS, ALEIRBAG-A - Maria Luiza Malina

 


EM TEMPOS DE VÍRUS, ALEIRBAG-A            

 ESCREVIVER-Memorialista/Crônica

Maria Luiza Malina

 

Ah! Covid. Enquanto as vacas pastavam, Gabriela soltava a voz entre os timbres agudos e graves, estremecendo a praga mais tenra entre as plantações.

Com isto, também não ficávamos à vontade. Logo, nada podíamos falar. O falar interromperia sua magistral voz entoante ou desentoante na desinformada deseducação do cacarejar das galinhas. Fiquei sem fôlego!

As vacas. Ah, sim as vacas! Mugiam e desmugiam no desenfrear que azedava o leite. E nós, acorbertávamos as orelhas com algodão, disfarçando com o uso de faixas de tecido, na testa com a desculpa de segurar os longos cabelos. Que castigo!

Acredito que nem o arado, em tempos de plantação  superava a cantoria da Gabi, Biela, Gabizinha ou Gabriela. Aff!

Anos se passaram. Tempos esses, dos grandes bailes de formatura. Cada uma seguiu seu destino. Raras eram as notícias.

Uma nota no semanário do único e maior Jornal da Região, como era chamado, convocava a população para o evento: “Grande Baile Beneficente – O Rei das Mil e Umas Noites apresentará à nossa sociedade, a futura Rainha Aleirbag-A, nossa conterrânea. Traje social completo”.

A curiosidade explodiu na pequena cidade. Os cochichos e diz-que-diz-que sobre as jovens que foram tentar a vida na grande cidade, perambulavam de boca em boca. Lembraram até de duas irmãs e duas primas que nunca mais retornaram ao vilarejo,  minha nossa! Ninguém escapava. Os telefones não paravam. As fofocas caiam com injúrias e falatórios sobre as então ausentes.

Foi aí que a cobra comeu o rabo. Descobrimos entre as linhas cruzadas, digo, linhas costuradas, o lado avesso da vida de cada habitante e o pior, de suas amantes. A pequena localidade,  passados o tempos,  transformou-me em Distrito,  lotado de costureiras e cabeleireiras. Foi um reboliço só na cidade, atrás do único advogado e do xerife, para impedir possíveis matanças.

O baile. Ah! Quase esqueço do baile, como todos quase esqueçeram.

O quase! Ah! Este sim foi ótimo. Salão lotado. Cada qual exibindo em seu glamour, a roupa mais bonita do que da outra. Não se preocupem, par de vasos, hmm por sorte nenhum. Não adiantava. Queriam se destacar para seu homem que era o homem da outra.

 

 

O momento. Ah sim, o momento foi indescritível. O tal rei à postos. Alierbag-A surge. Estupefatos, os homens a reverenciaram. Olhares. Rumores... imagine um galinheiro com galinhas famintas e... chega o saco de 50 kg de milho... Foi paulera da mulherada em cima deles e tudo quanto era lado.

Acabou o baile. A chegada da Covid-19 nos aproximou.

Não posso dizer que ao sair sobrou um pouco de milho para mim. Só se ouviu um som ecoando: - “EUUUU...”

Memórias da infância - Ises Abrahmsohn

 


Memórias da infância

Ises Abrahmsohn

 

Outro dia ao reler a Relíquia do velho Eça encontrei uma personagem que tinha cheiro de sacristia. Fiquei matutando o que seria tal cheiro. Lembrei de uma cena de quando eu era criança. Minha madrinha tinha um vira-lata simpático de nome Veludo. Veludo se entendia bem com todos os visitantes da casa e nós adorávamos brincar com o cão. Porém havia uma pessoa que o Veludo não tolerava. Era a dona Guiomar. Senhora de uns sessenta e poucos anos era para nós, crianças, uma velhinha decrépita. Era amiga da mãe de minha madrinha e nós a víamos nos aniversários da madrinha. Foi numa dessas ocasiões que acreditei de fato que cheiro de sacristia podia existir. Dona Guiomar era baixinha, gordinha e vestia mesmo no alto verão saia comprida, camisa abotoada até o pescoço, tudo preto do pescoço aos pés. O cabelo grisalho trançado era enrodilhado na nuca. Tinha olhinhos miúdos e míopes no rosto redondo de pele muito branca e bochechas rosadas. Falava em voz murmurante, a cada duas frases invocando algum santo de sua devoção. Exalava um vago cheiro a naftalina. Era muito beata e trazia sempre um terço preso à bolsinha. Era inofensiva, coitada, e ao chegar logo ia se sentar com sua velha amiga num canto afastado da sala. Eis que a campainha tocou. Era a velha senhora. Minha madrinha avisou a empregada. Deve ser a D. Guiomar, prenda o Veludo. O cão a contragosto foi despachado para a cozinha. Quando a recém chegada estava cumprimentando os demais convidados, de repente, à toda velocidade vem o Veludo que, num descuido, escapara do cativeiro. O cão não hesitou e meteu os dentes na perna da D. Guiomar, por sorte coberta por grossa meia de lã. Com um grito e agilidade que ninguém desconfiaria possuir, a vítima saltou para cima de uma cadeira enquanto os adultos se precipitavam para agarrar o agressor.

Foi quando o tio Benedito com sua verve habitual comentou:
É o cheiro de sacristia. O Veludo sente de longe!


Passagem - Sergio Dalla Vecchia

 

Passagem

Sergio Dalla Vecchia

 

De supetão, surgiu o cobrador! No seu uniforme azul marinho, os bordados na lapela e no quepe estampavam as letras da CMTC. Meu coração disparou naquele momento inusitado para um garoto de onze anos a caminho do Colégio. Esqueci o dinheiro da passagem!

O cobrador apontou a mão repleta de notas dobradas, dispostas entre os dedos, dinheiro por favor! O pavor tomou conta de mim, pois conhecia a fama da truculência deles. Pensei no pior, seria posto para fora do bonde diante de todos, completamente vexado! Respirei fundo, minhas palavras brotaram em conta-gotas até formarem a terrível frase, esqueci o dinheiro da passagem.

Aquele rosto com barba por fazer e bigodão, me fitou, imediatamente me senti como num paredão de fuzilamento! Pensou por instantes, não faça mais isso, oh menino! Subitamente, retirou uma nota de dois cruzeiros do feixe, é para a volta! Retirando-se em seguida para o outro banco, já cobrando, passagem por favor!

Fiquei pasmo diante daqueles dois cruzeiros em minha mão. O tenebroso tornara-se glorioso. Aliviado sorri para os passageiros e em recíproca recebi alguns afagos.

Assim, décadas se passaram e nunca esqueci o episódio.

Certo dia assistia a uma conferência no auditório de um grande Hotel, onde o palestrante discorreu sobre a cidade de São Paulo, nos tempos dos bondes elétricos. Lá pelas tantas começou a descrevê-los e seus típicos cobradores. Exatamente como eram, mas a entonação da oratória eu entendi como tendência ao deboche.

Não tive dúvidas, esperei o momento oportuno, pedi a palavra e contei o fato ocorrido no passado. Acredito que o senso de justiça me orientou a relatá-lo com muita clareza, à mais de cem pessoas.

Defendi espontaneamente, quem me ajudou da mesma forma no passado. O recado foi dado:

Acredito que todo homem, por mais tosco que seja, possui um lado bom latente. Basta pô-lo à prova!