O Massa - Suzana da Cunha Lima

 



O Massa

Suzana da Cunha Lima

 

Massa era o apelido de um inglês grandão, mais de 1,90, corpulento, habilidoso e com grande senso de humor. Bem jovem ainda, havia lutado na Primeira Guerra Mundial e se destacado bastante. Vinha de família camponesa, mas já estava saturado daquela vidinha sem graça no campo, entre ovelhas e feno, respirando monotonia. Como gostara da experiência em campo de batalha, resolveu fazer carreira nas Forças Armadas e conhecer outros lugares e outras experiências.

Em 1939 a Europa viu-se mergulhada outra vez no turbilhão de uma guerra global e após a ocupação de grande parte da Europa pelas tropas alemãs, ficou claro que somente uma invasão em grandes proporções conseguiria devolver as terras europeias aos seus legítimos donos.  Nestas alturas, os alemães sabiam que ia haveria a invasão, mas não sabiam onde nem quando. Era um dos segredos mais bem guardados da época.  O comando aliado achou por bem espalhar inúmeras pistas falsas. Uma delas era fazer crer que a invasão seria dar pela Sicília. Treinariam um soldado carregando documentos secretos e aí é que entraria o Massa, que se apresentou como voluntário.  Era uma missão quase suicida, muito perigosa.   Fizeram um rápido treinamento. Entre os preparativos estava a colocação em seus dentes um chip com a localização da invasão: Sicília. E em outro dente, uma cápsula de veneno, caso não aguentasse a tortura.  Ele ia saltar de paraquedas na Itália e fazer chegar à resistência os novos planos de desembarque.  Mal chegou ao chão foi capturado.  Levado para o acampamento dos nazistas, foi torturado e recebeu tanto soco que acabou sem dentes.  E aí observaram dois dentes diferentes, ocos. Um continha veneno e outro a palavra Sicília. E com isso nas mãos, já iam matá-lo quando o médico chefe não permitiu.  

- Mandem avisar que há um novo plano de desembarque em curso e deve ser pela Sicília.  Só pode ser verdade, pelo tanto que ele aguentou e nem tomou o veneno. Olhe o tamanho do homem, gente. Deve ser coronel, pelo menos. Eu vou colocar dentes novos nele, cuidar dos ferimentos e depois extrair mais informações úteis para nossa guerra. 

Assim foi feito e o Massa reagiu bem, ficou quase bom.  Aí, quando deu uma chance ele tratou de fugir. Quase perto do acampamento dos aliados, foi capturado por uns seis jovens e assustados soldados.  Custou a se livrar deles e se identificar como inglês, ou seja aliado.  Assim mesmo foi levado ao acampamento e teve que se explicar ao comandante local.  Custaram a acreditar que sua dentadura não fosse natural e que sua história fosse real.   

Não ficou sabendo se o falso desembarque na Sicília ajudou no esforço de guerra, mas soube das tremendas dificuldades enfrentadas pelos aliados na praia Omaha.  Ainda quis ir para o palco dos combates, mas nunca se recuperou totalmente de seus ferimentos e foi levado de volta para a Inglaterra.  Até morrer contava a história da Sicília sempre acrescentando coisas novas, e morreu contente, convencido de que tinha contribuído muito para despistar o verdadeiro local para o desembarque dos aliados, na famosa operação Overlord.

A RESPONSABILIDADE DOMÉSTICA CABEÀ MULHER ? - Maria Amélia Favale

 




A RESPONSABILIDADE DOMÉSTICA CABEÀ MULHER ?

Maria Amélia Favale

 

É difícil saber qual é a melhor maneira de aproveitar o tempo, mesmo porque precisa haver tempo livre para ser aproveitado.

Admito que as pessoas criativas sempre encontram um jeito de saber o que é mais importante, e descartam o que consideram não é.

Uma viagem, um jantar com amigos, um final de semana no clube, um curso novo... Para qualquer atividade seria inevitável remanejar às necessidades da agenda doméstica.

Não me refiro às necessidades prementes do dia a dia. Estas tarefas são obrigatórias, têm que ser feitas, são necessárias.

Mas me refiro ao que está intrínseco na responsabilidade da dona de casa, tarefas das quais ela não consegue se desvencilhar, para as quais foi nomeada e não há substituição.  Por exemplo, a dona de casa é que deve fazer ou dar ordens para o preparo do almoço. O marido que chega faminto e depois de comer quer descansar um pouco antes de voltar ao trabalho, cabe à mulher auxiliá-lo. O dia ainda corre para outras tarefas que não competem à cozinha apenas, são compras, roupas, educação, e família...

E no caso da mulher que trabalha fora, então! A responsabilidade é dobrada, além da alimentação de ambos, há as necessidades rotineiras, que também são importantes e não podem ser desprezadas.

De qualquer maneira, a mulher, de uma maneira geral, está sempre preocupada com que é, desde sempre, considerado de sua responsabilidade.

Há, para algumas mulheres, uma maneira de viver em paz com esses encargos tão infinitos, é ter alguém que coopere, contratar uma secretária em casa que faça por ela os afazeres domésticos. E dessa maneira o tempo dela poderia ser aproveitado com outras tarefas das quais ela goste mais. Se assim for, podemos dizer que o marido passou a colaborar com as obrigações do lar. Afinal, a conta vai caber a ele.

 

A HISTÓRIA DENTRO DA HISTÓRIA - Suzana da Cunha Lima

 




A HISTÓRIA DENTRO DA HISTÓRIA

Suzana da Cunha Lima

 

Cenário  magnífico naquele belo dia de verão em Copacabana. Porém Elias só tinha olhos para a bela moça ruiva que o seduzia com o olhar e com seu balanceio indo para o mar. “Se esta ruivinha me quiser, pensava, caso com ela.” Divagava como todo rapaz novo diante de uma bela mulher. E embora seus pensamentos voassem em direção a ela, com todas suas saborosas implicações, sentia-se inquieto com a situação do país e principalmente com a do mundo, onde a Segunda Guerra já entrava no seu terceiro ano na Europa. Agora havia um ator novo e de peso naquele cenário: Os Estados Unidos haviam entrado em cena, furiosos pelo ataque dos japoneses a Pearl Harbour, em dezembro do ano anterior.

Ele pressentia que, cedo ou tarde o Brasil ia ser forçado a tomar uma posição neste conflito, e sair de sua confortável neutralidade, pois um país do continente americano havia sido atacado por uma nação extracontinental, o que obrigava o Brasil a cumprir os compromissos assinados na Carta do Atlântico, alinhando-se ao mesmo.

Já desde fevereiro daquele ano, muitas embarcações brasileiras estavam sendo torpedeadas por supostos submarinos alemães e italianos e o presidente Roosevelt iniciara sua política de boa vizinhança, que se resumia a promessas de incentivos econômicos, temperada com ameaças veladas.    Diante das pressões diplomáticas que o deixariam isolado no continente americano, o Brasil afinal, cedeu e declarou guerra à Alemanha nazista e à Itália fascista, em agosto de 1942, permitindo a instalação de bases aeronavais ao longo de sua costa norte-nordeste e ganhando o financiamento para construção da Cia Siderúrgica Nacional.

Esta era a situação naquele ano de 1942, onde tantos e importantes eventos ocorreram. Mas naquele momento, e naquela bela tarde, onde o sol se punha, tão linda e lentamente, os pensamentos de Elias se balançavam como um pêndulo, entre os cabelos chamejantes de Solange e a possibilidade real de ser chamado a combater. Era radiotelegrafista de profissão, e dos bons.

Optou para viver aquele momento da conquista e, apesar da timidez, resolveu abordar a moça, enquanto ainda era dono de seu destino.  Depois, quem sabe, perguntava a si mesmo, guerra era o imponderável, tanto se podia sair vivo como morto.  Portanto, não ia perder a menina sem antes tentar conquistá-la.

Não foi tão difícil como lhe parecera à primeira vista. Solange já estava interessada nele e juntos iniciaram um romance fora dos padrões da época. Ela morava com tios bem idosos e a família dele havia se dispersado no interior de Mato Grosso, para onde ele nunca mais voltou.

Foi um amor tórrido e inconsequente, sem os freios da família para mostrar as consequências deste procedimento, principalmente diante da ameaça real de uma guerra. Como era fácil de prever, Solange engravidou em poucos meses.  Ela lhe deu a notícia no dia mesmo em que ele foi convocado.  Olharam-se atônitos nessa hora e lastimaram aquela guerra distante que haveria de separá-los. Foi uma despedida difícil e dolorosa para ambos. Talvez apenas naquele instante eles tomaram consciência do tamanho do sentimento que os unia e quão pesada ia ser a separação.

Enquanto muitos convocados faziam seu treinamento no Brasil, Elias foi enviado imediatamente para a Inglaterra, para treinamento especial em criptografia.  Tornou-se um dos melhores nesta área e, portanto, muito valioso. Enquanto era promovido e muito prestigiado, era ao mesmo tempo um prisioneiro, pois não podia sair daquele feio prédio cinzento às margens do Tâmisa. Parece que seu trabalho era não apenas sigiloso, mas muito importante para o desfecho do conflito. E os ingleses não queriam se arriscar a que descobrissem onde ele estava.

Enquanto isso Solange teve sua criança, uma menina ruivinha como ela.  Seus tios morreram num acidente de ônibus, e ela ficou só, naquela casa grande sem calor e amor e, distante do homem que amava.

Elias enviava muitas cartas para ela, porém passavam por uma severa censura tanto na quantidade quanto no teor e ainda tinham a trabalheira de enviá-las com carimbo da Espanha ou Portugal, países neutros.  Da mesma maneira acontecia o que vinha do Brasil. Só após muitos crivos de segurança é que ele as recebia.

 Isso o deixava muito nervoso e estava a pique de fugir dali.  Mas sabia que o dinheiro que ganhava ia ser importante para criação de sua filha e possivelmente não chegaria com vida nem na primeira esquina. Seus conhecimentos eram valiosos demais para caírem em outras mãos.

No entanto, ele não desistia da ideia de voltar para o Brasil e usou de muitos estratagemas, nem todos razoáveis. Sabia que os combatentes feridos voltavam às pátrias de origem e imaginou um meio de entrar na linha de frente e se ferir de modo que o recambiassem para sua pátria. Que doce ilusão!  Foi falando com um e outro oficial mais graduado até que conseguiu autorização para ir para a França, ajudar a Resistência francesa na decodificação das mensagens nazistas, desesperadas diante da iminência da perda da França com severas perdas em todas as frentes. Quem sabe lá, conseguiria quebrar uma perna ou braço, algo que o invalidasse para a guerra? E assim viu-se saltando de paraquedas na Normandia, no dia D, seis de junho de 1944.

Não foi nem simples nem fácil, na verdade foi uma péssima decisão.  Na descida quebrou um braço e foi, aos trancos e barrancos, buscar socorro com alguma patrulha que por ali estivesse.  Procurou primeiro seu grupo, mas ele tinha sido disperso pelos ventos e não estava interessado num brasileiro que não sabia sequer empunhar um fuzil.  Foi engatinhando pelos matos, se escondendo como podia, gemendo de dor e de frio, lamentando a enorme tolice que fizera.

Nunca tinha visto uma guerra de perto e ficou horrorizado com tanto sangue, gritos, mutilações e pelo barulho infernal das bombas e canhões. 

Bateu o medo. O medo horrível de acabar morrendo em terra estrangeira, sem nem saber bem por que estava lutando.  Pior, morrer sem ver sua filhinha e conseguir voltar para sua pátria e seu amor.  

Os jornais noticiaram aquele desembarque como uma incursão ao inferno.  Milhares de homens se esgueirando pelas praias, as casamatas alemãs cuspindo fogo e morte, o céu pontilhado das luzes mortíferas das bombas.

Porém Solange, em sua casinha abrigada no Brasil, só tomou conhecimento do horror daquele dia, ao receber uma carta do Comando Militar, aquela temida carta que as mulheres dos combatentes se aterrorizavam só em pensar e que começava sempre com “Lamentamos...

Sua contribuição para o esforço de guerra, como se dizia, foi ter que criar sua filha e enfrentar a vida sozinha. 

 

A BALANÇA DA FELICIDADE - Suzana da Cunha Lima

 



A BALANÇA DA FELICIDADE

Suzana da Cunha Lima

 

Estava extremamente desgostosa consigo mesma. Segunda-feira é dia de se começar algo, pensou. Foi para a aula de Pilates a pé, descendo a ladeirinha animada, para queimar os excessos do final de semana.

Quando retornou, esbaforida do duplo esforço, deu o almoço para o filho e a cunhada que tinha ido visitá-la. Muita risada, comida boa e sobremesa feita em casa: cidra com coco.  Resistiu ao doce. Depois que eles se foram, resolveu arrumar o armário. Metade da roupa já não usava mais. Engordara alguns bons quilos nos últimos meses, tinha pouca coisa agora que lhe servisse.  Olhou desolada a montanha de roupas imprestáveis em cima da cama, terríveis juízes da derrocada de sua silhueta.

- Como deixei isso acontecer, pensou, ficando com raiva dela própria pelo relaxamento.

Nem quis subir na balança. Vou ficar com vontade de bater em mim mesma.  Mas, tinha que viver sua vida com aquela outra pessoa que se apossara de si, antes tão esbelta e faceira.

Não teve mais ânimo de remexer as gavetas.  Fica para o outro dia, pensou.  Subir a ladeira duas vezes já lhe tinha levado o fôlego e amor-próprio.

Será que não há nenhuma pílula milagrosa que derreta para sempre o pneu que arranjei em volta de minha linda cinturinha?   Sabia que não havia.  Pensou no procedimento da bolsa no estômago.  Já estava pensando seriamente nisso há algum tempo.  Vou comer pouco, quer queira ou não.  Aí o estômago diminui e a vontade de comer também.

Não houve médico que quisesse fazer a tal cirurgia.  Era muito nova e nem tantos quilos a mais possuía. É questão de força de vontade – diziam – coma mais vezes e pouco. E faça exercício, tome um pouco de sol.  Preencha seu tempo para não pensar em comer, e tudo ficará bem.

Mas não ficou.  Ao estacionar o carro, baqueou, ainda sentada. Um AVC!  Felizmente, o vizinho de vaga notou algo errado com ela, com a cabeça caída ao volante.

Foi um corre-corre!  Quem veio primeiro foi o filho que morava próximo, Providenciou a ambulância e só de lá informou aos irmãos e ao marido;

Quinze dias de coma, não sabiam se ela voltaria e, se voltasse, quais seriam as sequelas.  Mas ela voltou.  Abriu os olhos, e viu o marido ao lado da cama, cochilando. O relógio marcava três da tarde. O que tinha havido? Desconfiou que estivesse num hospital, mas o que fazia ali?

Mexeu mãos, braços e pernas. Será que me acidentei, pensou?  Tudo em ordem.  Estava com um braço no soro, nada mais.  Passou a mão no rosto, não tinha bandagens, não doía. 

Seja lá o que for, pensou – estou inteira, que bom! O marido acordou com o barulho dela se remexendo e deu um largo sorriso ao vê-la de olhos abertos, olhando para ele interrogativamente.

- Ah, meu bem, que bom que acordou!  Belo susto nos deu.  Como está se sentindo agora?

- Beleza, amor.  O que aconteceu? O que faço aqui?

- Você teve um AVC no carro, na garagem. Ainda bem que o vizinho de vaga notou algo errado e alertou a portaria que pediu uma ambulância. Foi isso. Mas agora você já acordou e parece muito bem.  Vou chamar o médico para lhe dar alta. Vamos para casa!

A enfermeira ajudou-a a se vestir enquanto o médico assinava a alta com um monte de recomendações.

Quando se olhou no espelho, assustou-se com a cara abatida, meio chupada.

- Meu Deus, o que é isso? Pareço uma velha.

- Que velha que nada – animou-a o marido.  - O que está é bem enxuta.  Veja que o vestido está solto, você emagreceu muito nestes quinze dias.

- Nossa, é mesmo! Quase gritou de contentamento. Valeu mesmo! Vamos para casa meu bem, quero ver quantos vestidos agora me servem.

Ele riu, contente e aliviado, observou ela colocar um batom e escovar a cabeleira. Parecia uma mocinha.

Ela não cabia de tanta felicidade.  O médico deu-lhe alta com um monte de recomendações e remédios, mas ela não se importou nem um pouco.

Chegaram em casa felizes. O marido tinha providenciado comida chinesa, que ela adorava e um bom vinho, para festejar sua volta.

Mas, inacreditavelmente, ela estava completamente sem apetite.

E assim os dias se seguiram, ela totalmente inapetente, e se sentindo cada vez mais fraca. Teve que ir algumas vezes tomar soro e, se submeteu a alimentação endovenosa.

Estava magrinha sim, até bonita, mas fraca e sem vontade de fazer nada.

E agora? O que será que vale mais na vida?

O que vai pesar mais na balança da felicidade?

CARANDIRU, ME AGUARDE! - Suzana da Cunha Lima

 


CARANDIRU, ME AGUARDE!

Suzana da Cunha Lima

 

Estava dando uma arrumação no meu escritório. Era tanto papel que creio haver ali celulose suficiente para formar uma floresta inteira. E o pior é que eu me distraia, lendo cartas antigas, velhos textos e papeizinhos com informações ou notícias totalmente obsoletas.

No meio daquilo tudo, uma carta muito engraçada que meu irmão, que mora em Pipa-RN, me enviou há tempos, quando eu estava numa fúria concurseira, à busca de emprego como se eu fosse arrimo de família.

Ele teve conhecimento que eu tinha passado num concurso para Agente Penitenciário para servir no Presídio de Carandiru.

“Mana, fiquei tão orgulhoso quando soube que minha irmã preferida ia trabalhar em Carandiru, prestando toda sua experiência em ouvir e aconselhar (habilidades suas totalmente desconhecidas pela família) aqueles excluídos de uma sociedade cruel e elitista, encarcerados por motivos fúteis. 

Já informei a todos os amigos de sua nobre missão e eles estão loucos para passar alguns bilhetinhos de consolo para nossos infelizes presos, muitos deles longe da família e de suas bases políticas, sem acesso aos meios de comunicação, direito inalienável de todo cidadão. É de conhecimento geral como é fraco o sinal de celular nestas prisões obsoletas e nossos guardas estão inflacionando as propinas para facilitarem o uso de seus equipamentos de longa distância.

Só estou curioso em saber o que você andou fazendo para convencer o brucutu de seu marido a expor sua linda mulherzinha aos olhares cobiçosos de nossos presidiários que podem ser tudo, mas não estão mortos nem capados.  Ainda não levou nenhuma cantada?

Minha mulher já me deu um aviso aqui que estou menosprezando sua grande vitória, o que é uma enorme injustiça: sabemos a imensa dificuldade em se passar nestes concursos: cinco vagas por candidato!  E todos ansiosos pela aposentadoria integral e o prestígio que esta profissão confere.

De modos que termino esta com o coração estourando de orgulho e desejando, de coração, que esta experiência única, caso permaneça viva e saudável (os primeiros reféns são os agentes penitenciários) pelo menos forneça subsídios para o próximo livro ou acabe com suas ilusões românticas sobre esta raça de predadores que de humanos não tem nada. E isso não se aprende em Faculdade.

Com muito amor, seu irmão.

Bom, nesta mesma ocasião eu havia passado num concurso para Diretora de Creche, que achei mais apropriado enfrentar.  Creio que nunca saberei o que é exercer minha profissão atrás dos muros de uma prisão, e  espero que jamais, lá dentro, como detenta.

A PERIGOSA MARTINA - Antonia Marchesin Gonçalves

 

A PERIGOSA MARTINA

Antonia Marchesin Gonçalves

 

 

                Conheci Martina numa festa de aniversário de minha amiga Francisca. Fran, minha amiga, havia feito muitos comentários favoráveis sobre Martina. Estava encantada com a desenvoltura, inteligência e solidariedade dela. Mas, a minha primeira impressão, não gostei. Gosto de gente que ao falar olha nos olhos, não era o caso, conversava atenta em todo ambiente, com olhar perspicaz fotografando os integrantes da festa e ao mesmo tempo demonstrando interesse nos convidados.

                Fran havia me contado que tinha emprestado certa quantia em dinheiro à Martina, que dizia que tinha a mãe dependente com problemas de saúde e que não havia ninguém para ajudá-la. Perguntei quanto ela ficou de devolver, disse-me que não tinham combinado nada a respeito. Fui embora, dois dias depois me liga Martina sem eu ter dado o meu telefone, disse aos prantos que sua mãe tinha tido uma crise e não tinha a quem recorrer e se lembrou de mim, tomando a liberdade de me ligar, seria um empréstimo emergencial para levar a mãe em um especialista.

                Pensei comigo, rápida no gatilho. Respondi que me encontrava em dificuldades financeiras e não tinha como ajudá-la. Ela como boa de conversa, com todas as técnicas de convencimento. Chorou e fez um belo drama de comover até os mais céticos, não sei como consegui me manter irredutível. Percebendo ela que não tinha como me convencer, mudou de tática com conversas amenas, tentando demonstrar interesse pelos meus problemas. Ao desligar o telefone senti na hora o perigo que era ela. Liguei para Fran para contar o episódio dando-lhe uma chamada por ter dado o meu telefone. Tentei alertá-la que tomasse cuidado sentia que tinha algo errado com Martina.

                Fiquei sem notícias por quinze dias até que Fran me ligou nervosa falava sem parar. Contou que Martina ia todos os dias na casa dela para tomar café da manhã, com total cara de ressaca e sempre chorosa, dizia que havia passado a noite acordada por causa da mãe, indo lá tinha um alento para respirar e dia sim e não, pedia mais algum. Minha amiga não sabia como se livrar dessa situação totalmente constrangedora. Ao perguntar se ela sabia onde morava disse-me que não tinha a menor ideia. No dia seguinte hora do café da manhã com desculpa que estava por perto e tentar tirar algumas informações.

                Ela me vendo demonstrou surpresa, na hora e rapidamente fez a encenação com o rosto de cansaço e chorosa, eu fingindo interesse, comecei a perguntar onde morava, com quem ficava a mãe de dia quando trabalhava, intercalando as perguntas no meio de nossa conversa. Percebi o desconforto em responder, mas consegui saber o seu sobrenome e o bairro. Pesquisei na internet e descobri a rua em que morava.

                Chegando lá, me surpreendeu o local, uma rua só de casas classe média, tranquila, como rua do interior, vizinhos conversando no portão, outros regando o jardim. Estacionei meu carro e abordei o grupo de senhoras conversando no portão, disse que procurava casa para alugar e no meio da conversa citei que havia conhecido Martina que elogiara muito o bairro. Foi só falar o nome dela e a reação das senhoras foi de indignação e uma delas mais revoltada falou-me que não confiasse de jeito nenhum nela, pois havia tirado dinheiro de todos que conhecia na região até poupança das aposentadas. Sendo viciada em jogo de carteado clandestino passando a noite jogando, perdendo tudo que os pais haviam construído.

                Os pais morreram de desgosto, os vizinhos eram os que davam conforto e ajuda. Voltando para casa não me conformava como alguém tão bonita deixou-se envolver no vício a ponto de enganar a todos, vivendo uma vida dupla, o quão difícil deveria ser. Liguei para Fran e contei tudo ficando chocada, aconselhei minha amiga a sair um tempo de SP sem avisar Martina que lógico iria encontrar novas vítimas.

 

TOUROS NA REPÚBLICA - Sergio Dalla Vecchia

 


TOUROS NA REPÚBLICA

Sergio Dalla Vecchia

 

Rufam os tambores, clarinetes sopram agudos, a plateia ansiosa emana burburinhos aguardando a abertura do portão, eis que de repente é aberto e das sombras surge o touro! Desvairado, chifres em riste, adentra na Grande Arena de Touros da Praça da República, Centro de São Paulo. Era uma tarde de Domingo, 10 da janeiro de 1902.

Gritando olé à cada passada de capa do toureiro, lá estava Julinho eufórico em meio a plateia.

Esse prenome foi registrado por seu pai, em homenagem ao famoso escritor da época, Júlio Verne. O diminutivo ficou por conta do carinho.

O pai era devorador contumaz dos livros de ficção daquele autor. A pequena estante de livros, no sobrado onde pai e filho residiam, suportava heroicamente o peso de tantas arrojadas aventuras.

Volta ao Mundo em 80 dias, Viagem ao Centro da Terra e Vinte Mil Léguas Submarinas eram os destaques entre tantos outros.

O gosto pelas touradas, Julinho não sabia muito bem o porquê, talvez por ser única atração às tardes de domingo, ou pela expectativa inversa do touro ferir o toureiro. Questionava sobre a carnificina apresentada, que por vezes muito o incomodava.

Mesmo assim pela índole humana do digladiar, ele garantia que esse espetáculo em algumas partes do mundo avançaria para outro século.

Julinho, com entusiasmo do pai e pelos livros a disposição, acabou por lê-los, quase todos.

Sabia que Júlio Verne tinha 74 anos nessa tarde de touros, pois nasceu no ano de 1828 na França.

Quando leu Vinte Mil Léguas Submarinas, entrou como tripulante no submarino Náutilus, sob comando do engenheiro construtor capitão Nemo, para navegarem milhares de léguas submersos nos oceanos, sem qualquer interação com o mundo da superfície. Autossustentáveis, viviam com o que o mar fornecia. Alimentação, matéria prima para produção de eletricidade para a locomoção do bólido e até tecido para confecção de escafandros .Assim navegavam e por casualidade receberam à bordo o professor  Aronnax e saíram à caça do maior narval do mundo, que havia destroçado dezenas de navios.

Já com A Viagem ao Centro da Terra, juntou-se ao prof. Lindenbrock, o sobrinho Axel e navegaram em uma jangada improvisada por mares desconhecidos em um mundo paralelo subterrâneo, onde havia vida, fauna e flora exuberantes. Iniciaram a aventura penetrando no vulcão glacial Sneffels na Islândia até chegarem, após muitos sobressaltos, no vulcão Strompoli na Sicília, onde foram cuspidos, por uma explosão, de volta à superfície, após terem percorrido mais de cinco mil quilômetros nesse mundo, até então desconhecido.

Mas na leitura da Volta ao Mundo em 80 dias foi a que mais se divertiu.

Acompanhou paripassu a façanha do sr. Fogg na aposta de vinte mil libras que fechou com seus colegas de clube em Londres. Incrédulos na façanha de contornar o  mundo em apenas oitenta dias, com data e hora marcadas para o retorno.

Iniciaram a aposta embarcando em um trem para o sul da Europa, de lá, um vapor para Suez na África. De Suez para Bombaim, oeste da Índia. De Bombaim outra estrada de ferro para Calcutá na costa leste indiana. Nesse trecho, apavoraram-se com um grande imprevisto. A ferrovia estava inacabada!. Com muita astúcia e improvisação conseguiram viajar pela Selva e chegar enfim a Calcutá. Por mar, de lá partiram para Hong Kong. Em Hong Kong navegaram em outro navio para Yokohama no Japão, e de lá, outro transatlântico com destino São Francisco, Estados Unidos.

Em San Francisco subiram no  trem da  ferrovia transcontinental que cortava os EUA de oeste a leste e chegam inteiros em Nova Iorque. Daí, rumo Inglaterra!

Após inúmeras peripécias nos hilários oitenta dias pelo mundo afora, desde índios, elefantes, mandado de prisão, casamento, ritual indígena e tantas outras, conseguiram chegar sãos e salvos à Londres.

Finalmente, respeitando a pontualidade britânica, Fogg, garboso, foi receber suas  merecidas 20 mil libras no salão nobre do clube, conforme havia prometido, diante dos boquiabertos colegas incrédulos.

Assim era Julinho, vivia intensamente como parceiro dos personagens, com bravura e otimismo, acreditava na ficção como se real a fosse.

O conteúdo dos livros fazia seu mundo virtual, tornando-o vidente perante seus amigos, onde dominava a conversa contando histórias mirabolantes e previsões para o mundo.

Previa ele que no futuro haveria submarinos com grande autonomia navegando pelos mares com combustível produzido do núcleo de certos átomos. E o primeiro seria fabricado na América e seria batizado de USS NÁUTILUS!

Dizia também que os cientistas penetrariam na cratera de vulcões com roupas e equipamentos especiais e descobririam segredos da formação da terra.

Haveria aeronaves com velocidade até seis vezes a do som. Se poderia chegar em qualquer parte do mundo em apenas uma hora. Essa nave seria construída na China com nome de Starry Sky 2.

Teve até a insensatez de prever que um vírus iria paralisar o mundo e matar milhares de pessoas, mesmo com todos os avanços tecnológicos, mudando conceitos, a medicina, economia, religião e até a esquecida fraternidade.

Ele realmente vivia em um mundo paralelo!


Fim de semana em alta velocidade - Ledice Pereira

 




Fim de semana em alta velocidade

Ledice Pereira

 

Eu mal podia acreditar que estivesse ali em carne e osso.

De crachá envolto no pescoço, eu percorria o cenário colorido e movimentado do autódromo de Jacarepaguá. Celebridades vagueavam pelos espaços lotados.

Corria o ano de 1987. Eu portava no peito minha potente câmera que não se cansava de registrar aqueles momentos jamais imaginados que ficariam para sempre.

De repente, fiquei muda. Num dos boxes, eu o vi. Ayrton Senna bem na minha frente. Fiquei sem ação.

No entanto, ao ficar cara a cara com Nelson Piquet, não tive dúvida, tirei-lhe uma foto. Sentia uma emoção gigante que me fazia tremer inteira!

Eu nem era assim vidrada em corrida, mas o convite para assistirmos àquela corrida automobilística era irrecusável. Com passagem de avião, hospedagem, crachás, refeições, tudo incluído. Eu estava nas nuvens.

Os carros alinharam-se. Foi dada a largada.

O ruído dos motores tornou-se ensurdecedor, pareciam querer testar nossos tímpanos.

Os carros passavam como raios, mal dando para identificar os pilotos.

Eu tentava seguir aquele carro preto e amarelo pertencente ao nosso Ayrton. E o perdia de vista, vindo a reencontrá-lo rapidamente e já o perdendo de novo.

No camarote, especialmente reservado para nosso grupo, havia comes e bebes à vontade. Eu, porém, não queria perder o espetáculo. Só necessitava me hidratar porque o calor de quase quarenta graus era de rachar. O meu boné era insuficiente para uma total proteção. Eu suava por todos os poros. Mas insistia em acompanhar a corrida com o binóculo, tentando não perder nenhuma manobra.

Como podem perceber, eu parecia uma verdadeira árvore de Natal, com crachá, câmera e binóculo a tiracolo.

Senna estava endiabrado, mas teve que deixar as pistas na volta de número 50 por uma avaria no possante Lotus. Naquele dia, Nelson Piquet dividiu o podium com Allan Prost que levou a taça, chegando em segundo lugar.

Foi um final de semana inesquecível que jamais fugirá de minhas lembranças.

PANDEMIA - Sergio Dalla Vecchia

 


PANDEMIA

Sergio Dalla Vecchia

 

No oriente vírus surgiu

Falha infeliz porta à abrir

Esperto rápido escapuliu

De pronto pode expandir.

 

Rápido belicoso valente

Deixou mundo estático

Do nascente ao poente

Do Ártico até Antártico.

 

Mortes corriam a galope

O pânico rápido evoluiu  

Para forte contragolpe

Criação da vacina urgiu

 

A vida se desmascarou

Na economia crescente

Descrença se minguou

E danado ainda latente!

A impotência humana - Ledice Pereira

 



A impotência humana

Ledice Pereira

 

O fogo alastrava-se. O fogo ia matando a vida que ainda existia ali. O fogo apavorava toda a gente do lugarejo. impotente, pasma, aterrorizada, paralisada. Apenas os brigadistas tentavam conter o fogo, aguardando os bombeiros. Mas labaredas escuras  tentavam encontrar o céu.

Alguns, com o intuito de contribuir, traziam pequenas vasilhas cheias d’água que mal davam para esfriar os gravetos que estalavam. Os bombeiros tiveram dificuldade para vencer os obstáculos que se interpunham entre eles e a fornalha. Custaram a chegar. Enquanto isso, o fogo devorava tudo que encontrava.

Era um cenário de tristeza e devastação. Impossível conter as lágrimas que insistiam em rolar, encharcando meu triste semblante.

Meu coração pulsava tão fortemente que parecia querer fugir dali para não mais sofrer.

Os animais fugiam, pressentindo o perigo que corriam.

Alguns, mais lentos, recebiam ajuda da plateia estarrecida.

Os bombeiros, ao chegar, tentaram organizar a população que se aglomerava. Voluntários surgiram oferecendo-se em ajuda.

Foram horas a fio, tentando debelar as chamas. Helicópteros foram acionados, jorrando grandes quantidades de água, assim facilitando o trabalho e aumentando a segurança dos bombeiros em solo.

O cansaço me venceu e eu voltei para a pousada onde estava hospedada. O banho morno aliviou um pouco minha tensão, amortecendo um pouco os músculos do meu pescoço que teimavam em permanecer no controle, como se isso fosse possível.

Naquela noite custei a dormir. Tive a dimensão da minha pequenez e da impotência humana diante das forças da natureza.  

ANIVERSÁRIOS

 

ANGELA MARIA FERREIRA DE BARROS GOMES

14/01

DÓRIS THEREZINHA  STRANELI ALBERO

20/01

SUZANA DA CUNHA LIMA

23/01

LEDICE PEREIRA

24/01

ANA MARIA PINTO

21/02

OSWALDO ROMANO

04/04

MARIO AUGUSTO M. PINTO

23/04

ISES A. ABRAHAMSOHN

28/04

MARIA VERÔNICA AZEVEDO

13/03

OSWALDO LOPES

29/05

PAULO A. ABRAHAMSOHN

03/06

ANA MARIA MARUGGI

26/07

SILVIA HELENA DE ÁVILA BALLARATI

29/07

MARIA AMÉLIA FAVALE

21/08

SERGIO DALLA VECCHIA

21/08

ANTONIA MARCHESIN GONÇALVES

24/08

FERNANDO BRAGA

16/09

MARIA LUIZA C. MALINA

01/10

JOSÉ VICENTE J. CAMARGO

01/10

CARLOS CEDANO

19/11

Incêndio - Ises A. Abrahamsohn

 


Incêndio

Ises A. Abrahamsohn

 

Meu pai comprara a chácara para escapar da cidade grande. Quando vi, não quis dizer nada mas achei que ele tinha feito mau negócio. Próxima à estrada principal, isso era. E, de carro, apenas cinquenta minutos do apartamento. E, já havia uma casa construída com dois dormitórios, sala, cozinha, banheiro e varanda. E... E aí se esgotavam as vantagens da chácara.

Da entrada, o terreno descia em declive acentuado por uns 60 metros até atingir a área plana onde ficava a casa. O caminho de terra batida com algum pedregulho não resistiria às chuvas. Atrás da casa o terreno se estendia até um denso emaranhado de bambus que assinalava a divisa com o sítio do vizinho. Vizinho problema, esse sujeito. Já se sabia, na região. Tinha uma área várias vezes maior e, como muitos sitiantes da região, usava o fogo para eliminar as pragas do chão e limpar o solo para plantar milho. Era prática comum na lavoura, apesar de há tempo condenada pelos agrônomos além de difícil controle. 

Estávamos na época da seca na região central do Brasil. A vegetação típica do cerrado já bem seca. Quem não conhece o cerrado e olha aquela secura acha que a terra é infértil. A vegetação rasteira esturricada por dois meses ou mais sem uma gota d’ água. Sobram apenas arbustos, a maioria seca e despida de folhagem. Apenas as árvores de porte resistem.

Porém basta a primeira chuva em setembro, e as raízes dormentes brotam em velocidade espantosa. O verde se espalha pelo chão, cobre os galhos áridos, e explodem as flores nas frutíferas típicas do cerrado. Mangaba, cajá-manga, goiaba, cajuzinho...

Meu pai mostrava com orgulho as arvorezinhas do pomar atrás da casa que plantara há um ano. Em volta de cada muda a terra coberta com cascas para diminuir a evaporação e a cada semana ele as regava com água do poço.

Plantei com um metro, agora já chegaram a quase dois. Mais um mês, com a chuva, já vão florescer, dizia entusiasmado. E fiz um aceiro lá no fundo na divisa com o vizinho. Dá que ele bota de novo fogo no mato! O  vizinho do outro lado já foi falar com ele. Aí, eu também fui, e ele disse que este ano não iria semear milho perto do nosso lado.

Fui dormir pensando no tal vizinho bronco.

Acordei no meio da noite ouvindo uns estalos que a princípio não identifiquei. Depois senti cheiro de fumaça. Abri a porta da cozinha e vi o fogaréu no bambuzal e o fogo avançando em labaredas e a fumaça sobre o pomar. Meu pai com uma toalha enrolada no rosto tentava com a mangueira curta conter o avanço das chamas pelo mato rasteiro. Mas as fagulhas endiabradas alcançavam mais e mais áreas do pomar.

Chamei meu pai, mas ele não ouvia. Só tentava salvar as suas pequenas árvores. O calor era intenso. Afinal me protegi com uma toalha molhada e o puxei dali. Na casa ajudei-o a vestir-se, por cima do pijama mesmo, coloquei-o no carro  e alcançamos o portão de entrada. Parei o carro, e por um minuto, vimos lá embaixo as chamas chegando até a casa. Meu pai não falou nada. Raiva e tristeza desciam em lágrimas pelo rosto manchado de fuligem. Também fiquei calada. O que dizer? Dizer o quê? Acontece... Aconteceu...



INCÊNDIO - Sergio Dalla Vecchia

 





INCÊNDIO

Sergio Dalla Vecchia

 

 

Chama brota do nada

Chama cresce lindeira

Chama sai desvairada

Chama invade capoeira.

 

Vento sopra ar quente

Vento ruma para sopé

Vento tange crescente

Vento morro acima já é.

 

Labaredas estalam mato

Labaredas chicoteiam o ar

Labaredas querem tanto

Labaredas ao céu chegar!

O canivete desvairado - Ises A. Abrahamsohn

 


O canivete desvairado

Ises A. Abrahamsohn

 

Quando o delegado Otacílo prendeu Janjão, o povoado todo até que ficou com pena do ladrão. Ladrãozinho de ocasião, só se aproveitava de janelas ou portas destrancadas para surrupiar algum trocado ou carteira esquecidos. Dessa vez tinha ameaçado a vítima com um canivete. Tentou explicar ao delegado que o canivete tinha vida própria. Quando o achou à beira da estrada parecia apenas uma inocente faca caída do bolso de alguém. Janjão levantou o objeto com cuidado e testou a mola. A faca saltou reluzente, ameaçadora. A luz refletida chegou aos olhos de Janjão cegando-o por instantes. Foi nesse momento que o rapaz percebeu que aquele não era um canivete qualquer. Ao empurrar a lâmina de volta à bainha, em vez do clic, ouviu um som estridente.

Parecia uivo de cachorro do mato , seu delegado. Me deu uma tremura.... Quis jogar a faca no milharal, mas a maldita grudou na minha mão.

Dali em diante o canivete dominou Janjão. Era um objeto insaciável. O ladrão o sentia vibrar no bolso, de onde saltava para a mão e se abria para ameaçar algum transeunte com quem cruzasse. O rapaz passou a evitar a cidade com medo da sanha da malévola arma. Assaltou duas vítimas na estrada que não entenderam nada quando gritou avisando para que corressem do assalto.

Ao delegado Otacílio o objeto era absolutamente inocente. Ainda comentou, ao deixar Janjão na cadeia local que, como qualquer arma, dependia do uso que dela se fizesse. Ao sair avisou o policial que levaria a arma para casa para investigar a procedência.

Foi dormir tarde e deixou o canivete no criado mudo. Acordou de madrugada. No escuro a arma vibrava irradiando uma luz azulada intensa hipnótica, convidando que a pegassem. Ainda por uns minutos achou que sonhava, porém, incomodado, levantou-se para guardar a arma no armário da sala. O canivete, pressentindo o perigo humano, abriu a lâmina, saltou e voou certeiro até o tórax do delegado Otacílio.

O corpo foi achado no dia seguinte, ao lado da cama, com o canivete cravado no peito ensanguentado.

Janjão comentou:

Bem que eu avisei! Mas o doutor não acreditou que era um canivete insaciável.