O MISTÉRIO DA GARRAFA - Oswaldo Romano


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O MISTÉRIO DA GARRAFA

Oswaldo Romano

Toni,  Flávio e Gabi, tripulantes no Yatch Roma, antes de dormirem resolveram tomar um banho de mar. Os faróis aquáticos sob a plataforma servem para a pesca e são úteis para o mergulho noturno.

        Outros convidados, já na água aplaudiram a iniciativa dos anfitriões. Equipados com pés de pato e snorkel distanciam-se da embarcação a procura de, entre pedras e esconderijos, peixes e de olho nas lagostas.  Predadores se revezam entre os próprios. É a chamada cadeia alimentar. Também é um espetáculo ver refugiarem-se, medrosos.

        Num dado momento os convidados foram alertados, e apressados se dirigiram para onde Toni nadava, a uns 50 metros. Miravam um só lugar e ali impacientes, hora batendo os pés, hora em demorados mergulhos, trocavam sinais náuticos.

        Toni voltando à lancha trouxe todo empolgado o motivo daquela agitação:
        — Achamos um pote. Pode ser um tesouro. Como se chama aquele grande de barro?

        — Talha?

        — Não, tem duas asas, está quase todo enterrado.

        — Eu sei, é uma ânfora, disse a tia Malú.

        — É, é isso. Vou ver melhor, estão cavando para tirá-la.

        No cockpit, mesmo os descrentes vibravam. Juntaram-se na maior animação.  

        Inesperadamente, não um, mas toda tropa, numa debandada ruidosa, desesperados vinham em direção a embarcação. Surpresos os embarcados esperavam notícias.

        — Oi gente, por favor, saiam da plataforma. Vou descê-la para que subam, apelou o marinheiro. O primeiro que embarcou foi logo anunciando:

        — Está muito quebrada, sem lateral, asa danificada...
Foi interrompido pelo comandante.

— Por que tanta correria? Por que esse barraco?

— Calma, esperem, nervosos estamos nós. Ao mexer naquela coisa, saiu se torcendo toda, uma enorme moreia. Nem todos viram, mas quando o Toni deu no pé todo agitado, ahahaha... Ninguém mais quis ver.

— Pensei ter achado um tesouro, - disse Toni. Não, mas lá tem mais coisas. Espere, vou voltar, nessa altura a moreia se mandou.

Na lancha a curiosidade matava.

— Opá! Lá vem ele. Carrega algo!

        — Gente!? Veja o que achei dentro. Uma garrafa fechada. Machuca a mão, tem muita craca.

        — Suba logo, vamos abri-la?

        — Cuidado! Vai que esse trem explode!

Claro, já esperavam e encontraram uma mensagem. Dizia:

        — Amigo/a. Parabéns e obrigado pelo achado. Joguei do meu Yatch essa garrafa. Foram duas com pouca distancia. A irmã desta tem os mesmos dizeres. “Estamos em 2011. Você não me despreze. Eu não agouro nada, mas o Unhudo, um personagem espectro que vive atrás das trevas do mar, nunca falha nas suas gêneses. Ao pegar esta garrafa sua vida já está marcada. De novo, jogar-me na água, dobrará os males dos duendes que lhes foram reservados. Em nove de dezembro de 2017, as quinze horas vá com camisa vermelha à Caverna do Diabo. Fique e encontre na borda do Poço Azul, seu confrade, ou espere-o por uma hora. Mãos dadas, olhem no fundo do poço. No espelho d’água está o número do bilhete lotérico que os deixará milionários.“

        Toni, crente, cumpriu religiosamente essa missão. O mesmo aconteceu com o dono da garrafa irmã.

        Deram-se as mãos e olharam com esperança a lamina d’água no fundo do poço. Espelhada veem suas caras. Abrem círculos e surge no centro a imagem do Unhudo. Com uma sarcástica risada, deformada pelo movimento da água assusta a curiosa dupla.

        Ficam entorpecidos, dopados, terrível dor ataca seus ouvidos. Olham-se, procuram e saem da Caverna. No caminho encontram uma pedra. Sentam-se. Melhora o sofrimento. Vem de encontro um encapuçado, é um monge cenobita, diz:

        —Vocês foram marcados pela cruz do demônio. Seria fruto dos seus trabalhos que os deixaria milionários, como ficou o comandante do Yatch. A ganância tem um alto preço.

Vê aquela igreja, assistam lá o sermão. Aguardem o final, o padre vai reconhecê-los, e procurar salvar suas almas.

        — Sim, mas como ele vai nos reconhecer?

        — Seus olhos. Seus olhos estão em brasa! Vocês estão prestes a explodir e se tornarem inúteis duendes.

O monge deixando-os estarrecidos, ajeita o capuz e se afasta.

        — Vamos, vamos para a igreja. Penso que seremos salvos pela orientação daquele monge.

E assim, não acreditando no que vinha acontecendo, seguiram para o templo, procurando um refúgio.

— Nunca, nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha aquela pedra.

        Durante o sermão, o silêncio matava. Luzes cruzavam o espaço cegando onde batiam. Terminada a cerimonia, sobra no templo apenas os dois. Olham-se. Se assustam, buscam uma explicação. Chega o sacerdote.

 Aproxima-se, pede que se ajoelhem, olha nos seus olhos, apanha e balança a cruz de Cristo. Reza longamente em latim com a mão sobre suas cabeças. Asperge água benta. Começa o ritual do exorcismo. Envolto pela soberba, pergunta seus nomes. Eles balbuciam em língua desconhecida. Enrolam. O padre reza, desafia o diabo. Suas palavras rebombam o templo. Insiste, briga.

Eles começam a pensar melhor. O padre esfrega e limpa as mãos. Envolve-os com seu manto. Levanta os braços para o céu e enfrenta desatinos. Combate com destempero, com profundas palavras cheias de razões, invocando todos os santos. Num dado momento contraindo-se todo, seu rosto fica encharcado de suor e grita: Quem é aqui o poderoso? Xô Satanás. Saia e siga no espaço perdido. Vá pro inferno das brasas, onde é seu lugar. Xô, xô,  Satanás!

O padre silencia. Está ofegante. Aguarda um tempo, impressionando os dois. Faz o sinal da cruz enquanto na esquerda balançava o turíbulo.

        — Ordena: Rezemos a sublime oração de Cristo.

Pai  nosso... segue toda oração, pronúncia palavras sacras e finaliza com o amém.

Levantem-se, pede com autoridade.


— Com Deus, sigam seus caminhos...

A difícil vida fácil de Carmen - Fernando Braga

     
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A difícil vida fácil de Carmen
 
Fernando Braga


       Carmen era ela uma mineirinha faceira, que nascera em lar pobre, em uma cidadezinha do interior. Conseguira fazer apenas o curso primário, onde aprendeu a ler e escrever.  Com 13 anos passou a trabalhar em casas de família onde exercia uma modesta função de doméstica, como sua mãe. Aos 16 anos foi estuprada por seu patrão, que lhe deu uma quantia em dinheiro para que sumisse da cidade e ameaçou-a caso contasse a alguém. Não quis comentar com ninguém de sua família, porque algo pior poderia acontecer.

       Por coincidência, bem nesta ocasião, uma tia, irmã de seu pai, que se mudara para São Paulo, apareceu na cidadezinha para rever os irmãos. Estava bem vestida, mostrando que havia conseguido sucesso na capital dos paulistas.  
       Carmen se aproximou e pediu se não poderia ir morar com ela. Queria de toda maneira sair daquela vila, sem dar outras explicações. A tia acedeu, os pais concordaram e ela foi embora. Esta tia era separada e não tinha filhos.

        Em São Paulo tinha uma casa de tolerância, no centro da cidade, próxima à antiga estação rodoviária, onde dava emprego a mais 3 ou 4 garotas. Carmen, logo percebeu a situação, pensando em ir embora. Mas para onde? Tinha pequena economia, mas para ela a cidade grande era uma incógnita, assustadora. Sua tia ofereceu-lhe um pequeno quarto no fundo do quintal da casa, avisando-a que pouco deveria ir para dentro da casa, a não ser na hora do almoço e do jantar. Não precisou explicar-lhe o porquê.  Disse que por enquanto não poderia trabalhar com ela por ser de menor. Quem sabe mais tarde, mas que nada comentasse com a família.

       Empregou-se novamente como doméstica em várias casas de família, passando a dormir no emprego, o que deu certo alívio à sua tia. O tempo correu rapidamente.

       Fez amizade com outras empregadas, com as quais saía nos fins de semana para ir a barezinhos e dançar. Era charmosa, bem cuidada e havia adquirido umas roupas que a deixavam chamativa. Ocasionalmente ia visitar a tia, onde apreciava o movimento.

       Com 22 anos arrumou um namorado que a adorava e dizia querer casar-se com ela, em futuro não distante. Tinha que adquirir uma melhor estabilidade no emprego. Era o Douglas.

       A tia lhe telefonou pedindo que viesse vê-la, o que fez no próximo fim de semana.

       Vendo o potencial de Carmen, propôs-lhe trabalho e ela aceitou, vendo que poderia ganhar bem mais e talvez um dia fazer sua independência. Mudou-se, sem deixar seu endereço ao namorado, ao qual disse que iria viajar para visitar os pais.

       Ela era afeita ao sexo, mas não àquele exagerado, obrigatório, sem escolhas. Em umas   ocasiões   encontrou Marcão, que logo a convenceu de abrir o seu próprio negócio em outro bairro, longe da tia e que ele a financiaria e orientaria. Ela aceitou, pensando muito no dinheiro que poderia ganhar. Disse à tia que não queria trabalhar mais.

       Marcão não era boas pedras e quis logo se aproveitar da ingenuidade, falta de experiência de Carmen. Era um gigolô, que arrumava clientes para Carmen, a obrigava a trabalhar arduamente. Tomava todo o seu dinheiro e lhe dava pequena porcentagem do que os clientes pagavam.

       Carmen, após um ano esgotou-se, ficou muito nervosa, neurótica e enfrentava o seu gigolô. Para que não a perdesse, pois via esta possibilidade, além de ameaça-la, propôs que fosse uma semana descansar em uma pequeno resort  na Barra  do Una, próximo à bela praia, onde ele conhecia a dona. Pagou a pensão e a viajem de ônibus. Ela realmente se refez, após aproveitar o mar, o sol e a comida caseira.

       Voltou a seu trabalho, cada vez mais árduo, e com pouco ganho. Um dia passeando pelas proximidades, no centro alguém a viu e reconheceu. Seguiu-a de longe por longo tempo, até que viu-a entrar em uma pequena casa, o local de seu trabalho. Fez anotações.

        Passou a controlar  o local quando Carmen saia e entrava. Não se aproximou, tomou informações e logo percebeu do que tratava. Estava muito, muito decepcionado, sentindo-se um coitado, revoltado. Conheceu também um rapaz, que sempre lá entrava e ficou sabendo nas proximidades de que era um gigolô. Tomou então conhecimento por inteiro do que se passava e continuou a segui-la. Um tempo passou. Ele continuou interessado em saber de sua vida, de Carmen. Certo dia viu-a sair com uma mala, tomar um taxi na esquina. Após meia hora o taxi voltou.

       Aproximou-se do taxista e perguntou aonde tinha ele levado aquela moça. Deu 50, para que falasse. Disse que havia a levado a estação de ônibus e que ela tinha ido para a Barra do Una e que ficaria em uma pensão próxima à praia. Ficaria uma semana. No dia seguinte, logo cedo, ele que tinha um carrinho tomou o caminho certo.

       Esteve em várias pensões que dessem para ir caminhando até a praia e conseguiu pelo nome, localizar onde estava hospedada. Conseguiu um quarto na mesma pensão. Começou a usar uma cabeleira postiça e óculos escuros.

       Viu a lista dos hospedes, o número de seu quarto. Estava só. Fez amizade com a pessoa que registra os hospedes e conseguiu o telefone celular de Carmen, que fora registrado.

       Por volta das duas horas da manhã ele ligou para ela e quando atendeu disse:

      — Sua maldita, você estragou minha vida!
—  Considere-se uma mulher morta!

       Quem fala? Quem fala, respondeu muito assustada.

       — Você logo irá saber sua miserável!

 Viu tratar-se de um telefone de São Paulo. Como descobrira que ela estava lá?
 Logo pensou em Marcão, aquele gigolô cretino. Ela exausta, não havia pedido licença a ele, para viajar.

       — Sim, era ele o Marcão! Pois vou ficar a semana toda aqui. Quero ver!  Quando voltar, vou desistir de tudo, de tudo! Desta vida sórdida que estou levando! Vou mudar minha vida!

       Na noite seguinte, era umas 22,00 horas, ela já se preparava para dormir, quando alguém bateu delicadamente à porta.

       — Quem é?

       — É o  garçom. Estou lhe trazendo um pedaço de bolo, oferta da casa.

       Ela abriu e subitamente entrou um cara de óculos escuros, cabeleira e foi a seu encontro com um pedaço de corda nas mãos. Quis agarra-la, mas ela lutou e caiu o   óculos e a cabeleira do rapaz. Nesta hora ela disse:

— Você, Douglas! O que está fazendo aqui meu amor!

— Quando falou meu amor, ele deixou cair os braços, fez uma cara de apaixonado e disse:

  — Me desculpe Carmen. Eu queria matá-la. Mas não consigo. Te amo perdidamente. Tenho seguido seus passos há meses e estava possesso!

— Você me abandonou, para tornar-se uma prostituta. Nunca mais me procurou depois que voltou. Te aguardei ansiosamente. Sempre quis casar com você.
        Ela carinhosamente disse:

 — Douglas, meu bem, me arrependi muito de tudo o que fiz. Não quero mais levar esta vida.

 — Perdoe o que fiz com você. Não merecia. Há possibilidade de voltarmos às boas?

       Após uma bela noite ele respondeu:

       — Há.

Obrigada, Maria Verônica




Ana Maria,

Eu gostaria de agradecer a você pela dedicação e pela paciência conosco. Você é realmente muito hábil em manter o clima do curso produtivo e ao mesmo tempo prazeroso. Tenho imensa satisfação em participar do Escreviver.

Maria Verônica Azevedo

07 Dez 2017

Lançamento de livros do EscreViver. - Sábado 9 de Dezembro


Lançamento de livros do EscreViver.

Dia 9 de dezembro - sábado
Das 16 às 19horas

Rua Guerra Junqueiro, 115 - Alto de Pinheiros
CLUBE ALTO DOS PINHEIROS
Entrada liberada para não sócios


QUEM SÃO OS AUTORES:

Oswaldo U. Lopes - Me encontre no HC

Maria Amélia Favale - Viagem Fantástica

Ledice de Sá Pereira - Agora eu conto

Sergio Dalla Vecchia - Ruídos do silêncio

Fernando de Menezes Braga - Um passado tão presente

Oswaldo Romano - Contos Contidos

Suzana da Cunha Lima - Leopardo Pardo

Dóris Therezinha S. Albero - Memórias Sempre

Angela Barros - O que trago dentro de mim 

Maria Verônica Azevedo - Esferógamo e outras histórias 
(Este autor não estará presente com seu livro)


AMOR NA ILHA - Oswaldo U. Lopes

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AMOR NA ILHA
Oswaldo U. Lopes

Cenário – Ilha de Lampedusa – Mediterrâneo – Território Italiano.

Quando? - Faz tempo, muito tempo.

Personagens-

Giovanni – médico local
Sonate – sereia mediterrânea
Doli – belíssimo exemplar da raça Mastim Napolitano
Laura - filha única do Conde de Viterbo

Conflito – matrimônio insular

       Giovanni era médico, o único do povoado perto do porto. Na Ilha havia poucos povoados e menos ainda médicos. Fazia tempo que morava em Lampedusa e gostava.

       O ofício aprendera em Salerno, mas sua segunda especialidade, navegar, aprendera um pouco na família e muito com Sonate a sereia que vivia no Mediterrâneo e entre Europa e África passava os dias se alegrando com o sol e as ilhas.

       Giovanni tinha outra companhia, canina, uma fêmea de Mastim Napolitano, raça antiga e meio selvagem. Doli, no entanto era tudo, grande, pesada, de cor escura, menos brava. Dócil a mais não poder, corria pela praia procurando objetos, sobretudo garrafas que entregava cuidadosamente para seu dono.

       Este tinha tudo que precisava, seus doentes, poucos, graças a Deus, sua cachorra fiel e Sonate que sabia de tudo e tudo ensinava. Às vezes, não muitas, ao por do sol, a palavra matrimonio lhe passava pela cabeça.

       Numa dessas tardes, sol se escondendo, Doli trouxe uma garrafa para Giovanni que conversava com Sonate reclinada numa pedra.

       Desta vez a garrafa não estava vazia nem cheia de areia, mas cuidadosamente fechada com lacre encarnado e contendo um papel espesso, grosso enrolado cuidadosamente. Para aumentar o mistério nele havia uma mensagem de escrita trêmula e nervosa:

Aiuto per la grazia di Dio. Mi nomino Laura e a morire condannata sono. Obbligata a maritarmi col il Duca che uccidermi può, per ódio al pater mio.”

“Socorro pelo amor de Deus. Me chamo Laura e estou condenada a morte. Sou obrigada a casar-me com o duque que na certa me matará, pois odeia meu pai”

       Giovanni leu a mensagem e não conseguiu entender patavina. Sonate veio em seu socorro:

— Pelo andar da correnteza veio da Sardenha. Quem manda lá, no momento, é o Duque De Cáprio, governa com mão de ferro, ninguém se opõe a ele. O único corajoso, o Conde de Viterbo, acabou preso. De Cáprio explicou de modo simples à filha dele, Laura, ou você casa comigo ou mato seu pai. Acho que agora ela teme o pior.

       Giovanni pôs a escuna no mar e com a ajuda de Sonate chegou fácil a Sardenha. Para Doli foi brincadeira, pelo cheiro do papel achou Laura, rápido, rápido.

       A guarda era relaxada, quem poderia supor que um médico, uma cachorra e uma sereia iriam sair do mar e resgatar a donzela?
       Foram atrás do Conde, encontraram-no muito fraco e doente. Libertado, sentiu que a morte estava próxima e pediu que o enterrassem no solo sagrado da Sardenha. Assim foi feito, uma cruz simples e o nome Viterbo.


       E assim termina nossa história. Viviam agora felizes em Lampedusa, Giovanni e Laura, sua esposa, a bela Doli, digno exemplar da raça Mastim e Sonate, a sereia que nunca quis atravessar Gibraltar e que do Mediterrâneo sabia tudo, desde sempre até nunca.

O mar e seus mistérios - Ledice Pereira

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O mar e seus mistérios
Ledice Pereira

Eu precisava tanto daquele período de férias. Havia sonhado com o descanso merecido nos últimos meses.

Meu trabalho naquele laboratório sem hora para terminar, quase diariamente, me deixava extenuada.

A praia nessa época do ano era tranquila e o andar com o pé na areia me deixava revitalizada.

Nem sei quantas idas e vindas completei naquele dia até que minhas pernas começaram a reclamar, resolvi dar ouvidos a elas.

Sentei-me a beira mar com as ondas vindo rebentar em mim.

Aquela garrafa parecia ter sido guiada na minha direção. Veio girando, girando, numa onda baixa, até estancar bem ali onde meus pés se encontravam.

Estava tão distraída, curtindo aquele momento mágico que, a princípio, assustei-me, pensando tratar-se de siri ou outro animal marinho.  Depois, segurei a garrafa, percebendo que trazia ali dentro uma planta qualquer presa a um papel.

Custei a abrir, tão lacrada estava a rolha. Com um galho, encontrado ali mesmo na areia, consegui puxar o papel e o raminho de cedro sequinho que o acompanhava.

No papel, um mapa havia sido cuidadosamente desenhado. Continha símbolos desconhecidos que pareciam identificar cada setor. Ao lado, os símbolos estavam dispostos em uma coluna e, na frente de cada um, sinais absolutamente indecifráveis.

Fiquei em dúvida se seria uma escrita árabe, chinesa ou se seriam hieróglifos.

Enfiei tudo na sacola e voltei para a pousada, tentando descobrir o que aquilo significaria.

O dono da pousada era sírio e descartou que fosse uma escrita árabe. Tampouco símbolos chineses.

Fotografei e, pelo “whatsapp”, enviei para um amigo que estudava línguas antigas de sinais.

Dias depois, ele retornou a mensagem, me aconselhando:

“Livre-se dessa garrafa e dessa folha de papel. Coloque-a novamente no mar. Pelo que pude observar, trata-se de uma maldição e eu não desejo que nada de mal aconteça a você.”

Assustada, naquele mesmo dia, voltei ao mar e despachei a garrafa bem fechada com seu raminho e sua folha de papel para que as águas a levassem a outra freguesia.


Eu, hein!?

Merecido descanso - Ledice Pereira

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Merecido descanso
Ledice Pereira

Hoje o dia está pra mim. Vou aproveitar que todos saíram e investigar cada milímetro desse armário.

Sempre tive vontade de passar para o lado de lá, mas eles nunca me deixam sozinha. Acho que, finalmente, baixaram a guarda.

Pena que esteja tão escuro. Pelo menos, os últimos raios de sol iluminarão o suficiente.

Que bom, estou me acostumando com a escuridão. Já posso ver as coisas aí dentro.

Sou louca por fechaduras! Desde pequena.

Ah! Que maravilha! Essa liberdade me faz despertar para um mundo de descobertas.

Esse violão aí dentro me parece triste. Não me recordo de tê-lo escutado e olhe que já moro aqui há muitos anos. Coitado! Está todo empoeirado. Aliás, tudo aí está empoeirado.

É. Há muito tempo ninguém vem arejar este lugar. Deveriam tirar tudo daí, ver o que usam. O que não usam deveriam doar para alguém que pudesse aproveitar, não acham?

Olha esses perfumes, quantos vidros! Tudo empoeirado também. Mas que relaxados!

E esse relógio antigo, todo entalhado, lindo de morrer! Adoro relógios. Gostaria de morar ali. Eles me virariam uma vez por semana pelo menos, e com carinho.

Aqui sou tratada aos trancos e barrancos. Ainda tenho que respirar toda essa poeira. Nem colocam um oleozinho em mim. Às vezes, de birra, eu enguiço. Aí lembram que eu existo. Mas tenho que usar dessa artimanha para que me notem.

Opa, escuto vozes. Acho que chegaram. Vou me balançar até cair no chão e escorregar pra debaixo do armário. Vou dar um susto nessa gente. Quem sabe me deem mais valor e até resolvam dar um trato aí dentro.

Um, dois e... pumba.


Agora vou aproveitar para tirar uma soneca, enquanto eles não vêm aqui. Esse escurinho é mesmo perfeito para o descanso de uma linda chave dourada como eu.

A INOCÊNCIA DO CULPADO - Sérgio Dalla Vecchia


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A INOCÊNCIA DO CULPADO
Sérgio Dalla Vecchia

Dentro de uma cela, localizada em um presídio no alto de uma ilha, estava ele. O detento. Conhecido como Vacilão.

No gíria da bandidagem, vacilão é aquele que se deixa pegar por um descuido.
Foi condenado a pena máxima por um crime que não cometeu.

Ele jurava a todos ser inocente.

Passou pela cena do crime e presenciou o assassinato. O assassino pegou-o ameaçando de morte, roubou-lhe a carteira de identidade e a jogou na cena do crime. Daí foi preso e considerado culpado.

Inconformado pela injustiça ele penava a amargura da impotência. Entrava, muitas noites, em delírio aflitivo, tinha sonhos fantásticos, visões esdrúxulas de cenários não terrenos.

Imaginava um lugar em outro planeta, onde o verdadeiro assassino era seu melhor amigo.

Lá Vacilão era um homem bem sucedido. Tudo que investia, criava e implantava prosperava com muita facilidade.

O amigo inseparável não sabia que fazer para agrada-lo. Tamanha preocupação em servi-lo.

Certo dia em outra história imaginária, Vacilão e o amigo viajavam por uma pitoresca estrada. Era uma reta sem fim, ladeada por árvores frondosas, que com as copas presenteavam a cena com frescor. A claridade filtrada pelas gotículas da suave névoa era extremamente confortável aos olhos.

Seguiam conversando, quando o carro apresentou um pane, parando instantemente.

Incapazes de fazer o conserto, partiram a pé em busca de socorro em alguma propriedade próxima.

Andaram por algum tempo até que encontraram uma casa com aparência sinistra. Ali a claridade fugiu e a névoa espessou-se diminuindo a visibilidade.

Entraram cautelosamente pelo portão chegando à porta.

O silêncio foi quebrado pelo estalar do assoalho de madeira, reclamando dos passos que se aproximavam.  

Ela abriu-se, surgiu a figura de um homem bem-disposto que logo foi dizendo:

Quem são vocês, que buscam?

Após as devidas explicações, foram convidados a entrar.

Contrariando as aparências externas, as dependências eram claras e o ambiente leve.

Foi servido um cafezinho, descontraíram-se, o homem se apresentou como Inocêncio.

— Escolhi esse lugar para morar, por ser afastado e muito agradável.

— Não tenho medo de nada, durmo como uma pedra e meus atos são sempre feitos com o coração.

Vacilão não entendendo o porquê do Inocêncio morar tão isolado pergunto-lhe:

— Desculpe-me, Inocêncio, mas porque você como um homem bem-disposto, comunicativo mora aqui praticamente isolado?

— Por mim sou feliz com o que tenho e faço. Entretanto eu não relatei a vocês que tenho um irmão morando comigo.

— Ele é o meu oposto, nada está bom, sempre busca um culpado para os erros que comete. Vive só, mora no maior quarto da casa nos fundos e faz questão e cuidar da manutenção externa da propriedade. Seu nome é Doloso. Pouco converso com ele, pois é violento e não quero brigas entre irmãos.

— Já haviam solicitado o socorro para o carro e a conversa continuava animada até que Doloso surgiu abruptamente. Sem a mínima educação olhou para o Vacilão e lhe disse:

— Foi você quem me fez perder minha noiva, não foi?

Vacilão levou um susto terrível, não conhecia Doloso e muito menos sua noiva.

Nisso Inocêncio interveio dizendo para o irmão:

— Você sempre com essa mania de culpar os outros pelos seus erros, não admito mais essa falsa acusação!

Foi ele sim, foi ele e vai pagar por isso.

Sacou um revólver apontando para Vacilão, que tremendo de medo esperava o impacto da bala.

A bala foi disparada, enquanto do nada o, melhor amigo de Vacilão entrou na sua frente, recebendo o tiro certeiro, que o matou na hora.

Inocêncio e Vacilão perplexos pelo crime inexplicável, fixaram simultaneamente o olhar no Doloso, que ainda com a arma em punho, disse:

— Inocêncio, você foi o culpado dessa morte, pois trouxe para nossa casa esses dois aí!

Mais uma vez o assassino culpa um inocente!

Vacilão, homem ponderado, pela primeira vez na vida deixou-se levar pela sede de vingança. Com um golpe, desarmou o assassino e com frenesi descarregou o revólver sem parar contra Doloso.  Inocêncio, vendo a fúria de Vacilão nada fez, parecia concordar plenamente com aquela atitude desvairada.

Nesse mesmo instante na prisão, Vacilão foi acordado pelo seu colega de cela.

— Acorde, acorde, para de tremer, você está tendo um daqueles sonhos!

Sonolento, ainda ofegante percebeu que alguma coisa havia mudado.

Não sentia mais angustia, nem sofrimento, sentia-se leve e confortável.

Abraçou seu companheiro de cela dizendo, me libertei, me libertei!

Mais tarde quando tomava banho de sol, foi chamado por seu advogado que lhe disse:

— Hoje é seu dia de sorte, o irmão do assassino que o condenou fez uma delação espontânea, contanto a verdadeira historia da sua acusação.

— Você está livre!

  

O FANTÁSTICO DE OUTRAS VIDAS - Carlos Cedano





O FANTÁSTICO DE OUTRAS VIDAS
Carlos Cedano

Possuo um iate com o qual costumo ir para lugares um pouco distantes para praticar as atividades marítimas que adoro. Algumas vezes vou sozinho e a aventura que desejo narrar aconteceu num dia desses.

Ancorei num lugar pouco visitado e comecei a mergulhar. Numa das vezes que voltei para descansar encontrei uma ampulheta flutuando perto da embarcação e a levei a bordo, continha algo que parecia o desenho de um belo olho preto arredondado.

Pensando que fosse uma mensagem, tentei abri-la forçando o tampo, para minha surpresa ela se abre sozinha e surge um vapor denso que aos poucos se configura na forma de uma mulher com dois belos olhos pretos e todo o corpo branco. Olha para mim, devo estar com cara de apavorado, e diz:

— Não tenha medo Roberto, sou de uma civilização que navega por todo o universo e estou na terra à procura por seres da paz, você é um deles!

Eu não ouvia sons era como se as mensagens chegassem diretamente a minha cabeça.

— Nos temos a capacidade de ler os pensamentos dos outros, não usamos sons para comunicar-nos e podemos tomar as formas que nossa missão exige. Quer ver qual é minha forma original?

— Quero sim, respondi.

O visitante se transforma numa espécie de pião que a medida que gira emite cores e  sons que chegam a minha cabeça trazendo visões de seres incríveis e o som das mais belas melodias que jamais escutei. De volta a sua forma “humana” me disse:

—Estou aqui para te levar a visitar nosso “casulo” um dos vários milhares que fazem parte de nossa civilização. Gostaria conhece-lo? E quando você quiser voltar será só dizê-lo e será feito.

Aceitei e pude conhecer diferentes seres nas suas formas originais: seres mutantes para diversos formatos, animais horrorosos para nossos padrões, seres parecendo vegetais, enfim, uma infinidade de formas e cores, todos eles flutuavam contagiando-me com uma intensa alegria e paz. Logo perguntei para minha anfitriã:

— E vocês não têm medo de serem invadidos por outras civilizações?

Ela me olhou e disse:

— Por enquanto não! Nossos cientistas descobriram uma forma de deslocar nossos casulos de uma maneira tão instantânea que as naves dos inimigos não nos alcançam e, em pouco tempo estamos em outros pontos do universo.

Acordei no meu iate e pensei que toda essa “aventura espacial” não passava de um sonho maluco, mas aos poucos comecei a perceber que algo tinha mudado: meu relógio, que guardo numa gaveta da embarcação, marcava uma ausência de pelo menos quinze dias e quando fui para a cabine da embarcação vi encima da mesa o desenho que tinha achado só que desta vez o rosto estava completo e era muito belo. Então, não foi um sonho!