SARAU LITERÁRIO DE 02 SETEMBRO 2017 - CONCURSO LITERÁRIO ESCREVIVER



Sarau Literário 
02 setembro de 2017


Obrigada pelo comparecimento e colaboração de todos vocês,


O evento estava seleto e bem gostoso.
Deu tempo de leitura tranquila, de audição, de  risos.
Vimos criatividades nos contos infantis
Vimos amizade, respeito e alegria. 
O estar junto é sempre muito valioso.



Sobre o Concurso Literário, foi uma pena que bem poucos tenham participado. Desses poucos apenas dois autores enviaram os 4 contos.
No próximo Concurso, participem.



CONCURSO LITERÁRIO
Premiação:
Para o primeiro colocado: um jantar para duas pessoas no restaurante do Clube, vouchers de livros para a Livraria Cultura.

Para o segundo colocado: Pizza no restaurante do Clube, mais vouchers de compra livros na Livraria Cultura.

Para o Terceiro colocado: Voucher de compra de livros na Livraria Cultura.

Parabéns aos ganhadores:



1◦ lugar: Ises A. Abrahamsohn


"Quero aplaudir a iniciativa da Ana Maruggi  de realizar um concurso de contos entre os alunos da oficina de escrita criativa Escreviver . Ela sempre nos induz  a escrever  mais e melhor. Concursos  são  estímulos adicionais  para a produção de textos mais elaborados.  
Agradeço à Ana  o incentivo  sempre presente nas suas aulas e nas avaliações de nossos textos"  Ises A. Abrahamsohn


2◦ lugar: Oswaldo U. Lopes




3◦ lugar: Maria Luiza C. Malina




Textos vencedores:
1◦ lugar:O enigma do manuscrito do inconfidente Aires Gomes
2◦ lugar: Tristeza com data marcada
3◦ lugar: Leiloeiro oportunista
(contos postados no blog)


















A DUPLA DINÂMICA -Suzana da Cunha Lima


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A DUPLA DINÂMICA
Suzana da Cunha Lima
(Conto Infantil)

Eram dois amiguinhos que sempre brincavam juntos: Branco tinha nascido da espiga do milho dourado, na primavera. Os grãos caíram e se juntaram, formando um coelhinho delicado, todo branco, que só queria pular pelos campos.

Dengosa viera logo depois, quando o lírio branco se espreguiçara no calor morno do outono e ela saíra de dentro de seu copo.  Parecia uma gatinha veludosa, cheia de manhas e vontades.

Um dia se viram no relvado verde do jardim e se amaram.  Gostavam de estar juntos, mas acabavam sempre brigando, porque o coelhinho gostava de brincar com todo mundo e Dengosa queria exclusividade.  Era ciumenta, a danadinha.

Um dia, a briga foi tão feia que o coelhinho e a gatinha quase perderam o pelo todo, de tanto se arranharem.

 Foi preciso dr. Tronco, que tudo via ali no jardim, chamar a atenção dos dois e dar um castigo exemplar.

 - Vou transformar vocês dois em duas pererecas de rio, sem nobreza e linhagem.  Vê se param de brigar e façam alguma coisa boa para os outros, senão, não voltam mais a ser o que eram.  E assim foi.

 Quando se olharam, eram duas pererecas azuis, de patas cor de rosa. Um horror!

Uma olhou para a outra e começaram a rir: Como estamos feias, amiga. Que olhão enorme, que patas sem graça! Disse Branco, que era mais bem humorado.

- E agora, o que faremos, não quero ficar assim a vida inteira. – choramingou Dengosa.

- Vamos ver o que podemos fazer por alguém para voltar a ser como éramos.

Olharam em volta, no jardim, pela primeira vez com atenção.  Viram um formigueiro adiante, e as formiguinhas levando as folhas de árvore com o maior esforço.  A folha era maior do que a formiguinha.

 Resolveram então ajudar, recolhendo as folhas espalhadas no chão e levaram tudo para o formigueiro.
As formiguinhas, sempre cansadas, nem acreditaram que iam ter algum descanso naquele dia.

Então resolveram brincar, coisa que não faziam nunca, era só trabalhar.

Até a rainha do formigueiro entrou na dança e dali por diante, começou a aliviar um pouco o trabalho de suas súditas.

As duas pererecas pularam satisfeitas e foram olhar onde mais poderiam ser úteis. - Ah, olhe o cachorro se coçando todo, deve ser pulga, disse Branco.

 - Coitado, deve estar incomodando. E os dois juntos foram coçar a barriguinha do cachorro, que chegou a dormir de tão aliviado e satisfeito.

Branco e Dengosa ficaram o dia todo observando a vida que fervia naquele jardim e onde poderiam ser úteis. Ficaram logo conhecidos como a dupla dinâmica e gostaram do apelido.


Gostaram tanto que resolveram ficar assim como estavam: duas pererecas azuis, de patas cor de rosa, contentes da vida.

ROMANCE PERIGOSO - Sérgio Dalla Vecchia


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ROMANCE PERIGOSO
Sérgio Dalla Vecchia

Estavam noivos com casamento marcado na cidade de Santos.

Bufê contratado e igreja reservada. A decoração mais chique da época.

Vilma era santista, mas lecionava em uma pequena cidade próxima a Peruíbe. 
Nestor próspero comerciante em Santos.

Numa pensão simples era onde ela hospedava-se e passava a semana na cidadezinha próxima a Peruíbe, no vale do Rio Ribeira.

Todo fim de semana lá ia Vilma feliz pegar o trem de volta à Santos para encontrar o noivo.

Prendada, não largava o bordado do enxoval, enquanto colegas conversavam sem parar. Assim era o cotidiano na Pensão após o jantar.

Certo dia, hospedou-se um funcionário do Governo. Moço alto esbelto de olhar fulminante. Viera para fazer um levantamento estatístico da Região.

Vilma por mais que se concentrasse no bordado, não escapava do devastador olhar de Ricardo.

Dias passaram e o inevitável aconteceu. Iniciaram uma animada conversa. Um encontro na Praça, mãos entrelaçadas, corações flechados e um tímido romance surgiu.

O namoro foi acontecendo e Vilma balançada entre Ricardo e Nestor.

Era o antagonismo provocando-a. Nestor rico, próspero, já Ricardo um assalariado, mas que com o olhar lhe atingia as entranhas.

A paixão venceu a razão. O escolhido foi Ricardo.

Vilma decidida voltou à Santos, sem titubear desmanchou o noivado.

Foi um dos golpes mais contundentes que uma família desavisada poderia suportar! Uma tragédia!

O noivo Nestor inconformado não entendia a razão de tamanha afronta. Tentou convencê-la a rever a decisão. Nada, era irreversível.

Na madrugada seguinte, na estação de Santos um homem determinado embarcou no primeiro trem para Peruíbe em busca da honra.

No fim desse mesmo dia na Igreja da Paroquia em Santos, ouviu-se o sussurro de Nestor na Sacristia:

Padre, vim confessar. Eu pequei!

— Com o revólver em punho estive cara a cara com meu rival.
Por Vilma não o matei, mas minha intenção o nocauteou varias vezes!

O sonho de Quitéria - Ana Maria Pinto


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O sonho de Quitéria
Ana Maria Pinto

Viajar era um sonho na vida dela. Isto se passava nos anos 50 quando os deslocamentos eram muito mais difíceis, e caras. Então, Quitéria resolveu ser aeromoça. Além de viajar ainda ganharia dinheiro.

Mas, era difícil a admissão para o curso e as exigências eram tantas. Além da parte física, tinha que dominar no mínimo dois idiomas estrangeiros e ainda tinha que arcar com o preconceito dos mais conservadores. Embora uma parte da sociedade valorizasse o trabalho outra parte achava um absurdo: onde já se viu uma " menina de família " ir servir refeições num avião!

Depois de muitas discussões com a família e amigos Quitéria conseguiu entrar para o curso: entre 600 candidatas, somente entraram 15.

O curso foi longo, mas bem interessante. Vários comandantes davam aulas de segurança a bordo, procedimentos em caso de emergência, além de um apanhado geral sobre o funcionamento da aeronave.


Quando finalizou o curso, e ela ia começar a voa, foi pedida em casamento e teve que sair pois naquela época aeromoças não podiam ser casadas. Assim, Quitéria casou e foi para África onde teve muitas oportunidades de viajar.

AS SUSPEITAS DE ROMUALDO - Carlos Cedano


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AS SUSPEITAS DE ROMUALDO
Carlos Cedano


Era a quinta vez no mês que Maria Rita chegava em casa depois das quatro horas da madrugada. Seu marido Romualdo, já estava por estourar com as desculpas esfarrapadas que ela lhe dava. Ela era sedutora e bonita, o marido carregava um bonde por ela. Mas, as suspeitas foram se acumulando e um dia desses que Maria Rita chegou novamente junto com o cantar dos galos, Romualdo muito nervoso,  disse:

— Pra seu governo minha querida, anotei a placa do carro que te trouxe esta madrugada, vou checar se é mesmo um Uber como você sempre diz.
Romualdo estava muito bravo!

— Como você quiser, retrucou Maria Rita.

Dito e feito, na manhã seguinte o marido ligou para a própria Uber: Sim, é um carro a serviço de nossa companhia – confirmou o atendente - e o chofer que conduziu sua esposa chama-se Mauricio, um de nossos choferes mais solicitados.

Romualdo ficou chateado de ter sido injusto com sua esposa e pediu desculpas quase chorando. Maria Rita o perdoou, mas não deixou barato: uma dúvida mais sobre minha fidelidade e será o fim de nosso relacionamento!


Dias depois Maria Rita liga para o Uber e pede para mandar um carro para seu domicilio, de preferencia com o chofer chamado Mauricio. Por que ele? Ora, porque ele é o único chofer em quem meu marido confia!

De Príncipe a Imperador - José Vicente J. de Camargo

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De Príncipe a Imperador
José Vicente J. de Camargo


“Abaixo a Monarquia! Viva a República!”

Gritavam com fervor os trabalhadores em greve da cidade de Santos, conclamando os surpresos passantes a se juntarem a eles no direito a melhores salários, de escolherem seus próprios governantes, e um fim na escalada crescente de aumento dos impostos.

No Rio de Janeiro, capital imperial, o príncipe regente D. Pedro de Alcântara recebia de seu conselheiro informação sobre o aumento das manifestações contra a Coroa na importante cidade da Província de São Paulo, maior porto de exportação de café do império:

“Aconselho com urgência a presença de Vossa Alteza na cidade para acalmar os ânimos antes que se espalhem para a capital da Província”.

D. Pedro, no auge dos seus 22 anos, relutava em deixar os cafunés endiabrados das mucamas da corte sob o olhar resignado da imperatriz Leopoldina, e da sua prole que não parava de crescer. No fundo, o que lhe tentava a aceitar a sugestão de seu conselheiro, era a saudade voluptuosa que tinha da Marquesa de Santos, por hora residente na cidade de São Paulo, onde deveria terminar sua viagem de apaziguar os ânimos e restabelecer a ordem através da demonstração pessoal de apreço do Príncipe pelo seu povo.

“Diga aos paulistas que irei! ” Pronuncia o Regente com o sangue esquentando na expectativa do encontro ardente com sua marquesa favorita.

Assim, em 14 de agosto de 1822, parte do Rio de Janeiro a comitiva imperial formada por sete pessoas. Três dias antes, um agente real partia para avisar as fazendas escolhidas para pouso, sobre tão ilustre visita.

Percorrido mais da metade do trajeto, uma tempestade castiga o régio séquito. Cansado da cavalgada fatigante e com receio de piorar um início de gripe, sua Alteza ordena que parem na próxima fazenda para o pernoite mesmo que não tenha sido avisada de sua visita e, para testar sua popularidade, que não informem sua identidade.

Nessas condições chega a uma fazenda bem menos suntuosa que as muitas outras situadas no Vale do Paraíba, de onde nasce o ouro verde, sustentáculo da riqueza do império e figurante orgulhoso do pavilhão real ao lado do ramo de algodão. O proprietário, de bom grado e dentro do espaço disponível, oferece o celeiro ao lado da senzala. Os membros da comitiva tentam revelar a identidade do visitante, merecedor da melhor hospedagem possível, mas são impedidos pelo Imperador. É que D. Pedro sente no ar a quentura do aconchego do sangue mulato, reinante na senzala. Dispensa os comandados e segue seu faro bem treinado na direção da presa em cio...

O dia seguinte clareia brilhante, o cansaço e a gripe se foram no embalo noturno do rodamoinho orgíaco. Antes da partida, D. Pedro faz questão de plantar uma palmeira imperial, para demonstrar sua régia masculinidade e de participar, na humilde capela, de uma oração à Nossa Senhora Aparecida pedindo perdão pelos deslizes incontroláveis. Dado a enxurrada do dia anterior, ao barro acumulado do precário caminho e ao “agarra-agarra” da noite adentro, troca de calça com um general da comitiva para nada ofuscar sua chegada a cidade de Santos prevista para o mesmo dia.


A história continua sua trajetória desde de há muito conhecida. Mas infelizmente várias peripécias que entremeiam seu desenrolar, permanecem incógnitas do conhecimento público. O que é de se lamentar, pois a régia figura em questão, seria acrescida de pormenores que a aproximariam ainda mais da simpatia nacional. Aquele, que saiu do Rio de Janeiro como príncipe e retornou como imperador...

AS ARMAS - Oswaldo Romano


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Artigo 9 de julho de 1932
  Sob a emoção da “revolução”,                        
recordando depois de 85 anos, a de 1932.


AS ARMAS
Oswaldo Romano


Sob o toque de caixa e o clamor das cornetas, no ano de 1932, o povo paulistano empunhou os fuzis e crentes no pensamento de liberdade, militares, operários e patrões, irmanados, marcharam rumo ao combate.

Era grande a apreensão e, enquanto o corpo ia avante, o pensamento permanecia no lar. Passavam-se dias longos e indefinidos. O sol pouco acalentava e, escondido, também compartilhava da expectativa, mantendo um clima acinzentado e invernoso.

Prevalecia aparente entusiasmo. Era efêmero. Sabiam que distante, deixaram uma mãe, uma esposa aos prantos; e o porquê da briga, elas não puderam entender. Era briga de irmãos. Passaram-se 85 anos; hoje vocês, operários da pátria, empunham um outro artefato muito mais forte, muito mais nobre. Manejando suas ferramentas, têm as mais disciplinadas armas para o combate. Combate à fome e à miséria. Com essas, podem realmente ganhar a nova revolução industrial que vencida a crise se aproxima. Vocês lutam, quer queiram os generais ou não, e vencedores, dedicam às glórias do seu trabalho, suas conquistas, à família.

O grande exército de trabalhadores de hoje deve reverenciar aqueles que, em julho de 1932, mostraram suas garras em defesa da liberdade e muitos tombaram lutando contra a provocação e desacato, tudo para que vocês hoje possam caminhar como uns bravos e, de cabeça erguida, empunhar suas importantes armas.

Os paulistanos contavam com muita vontade, mas carentes de recursos bélicos.

Não importava, a moral estava ofendida. Houve a convocação. Eram poucas as armas. O governo requisitou do povo, revolveres, espingardas, bazucas, de qualquer origem e tamanho

Anunciou a compra dos Estados Unidos de dois aviões usados, forma de entusiasmar o povo.

Um coronel do exército, sensibilizado, prometeu grande ajuda. Levaria soldados munidos de possantes metralhadoras. A oferta entusiasmou o general Dias Lopes que, de imediato ofereceu todo suporte.

O coronel, cujo nome ficou em segredo, juntou voluntários, todos profissionais e puseram-se ao trabalho da organização.

Enquanto o exercito recolhia armas, estes fabricavam enormes e barulhentas matracas.

Foram entregues no front, seu pipocar não só assustava o inimigo, como incentivava os verdadeiros atiradores.

Na volta dos militares, no desfile pelas ruas, os soldados foram tomados pelo avanço de mulheres alucinadas que embaralhando palavreado aos gritos, pediam um abraço, um beijo.

Nascia o aforismo: — Falam que nem matracas.  

Malandragens semelhantes aconteceram na Segunda Guerra Mundial com criações altamente sofisticadas, como as infláveis Super Fortalezas Voadoras, pousadas em aeroportos militares.

                                               *****




Quem vai querer - José Vicente J. de Camargo



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Quem vai querer
José Vicente J. de Camargo


Quem vai querer, quem vai querer
Laranja doce
Laranja docinha
Bem baratinha
Pra dar a mocinha
De linda carinha

Também tem limão
Que espremido na mão
Faz suco do bão
Pra aquecer coração
De mulher madurão,

Quem vai querer, quem vai querer...

UM MAJOR QUE ERA SEM NUNCA TER SIDO - Oswaldo U. Lopes

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UM MAJOR QUE ERA SEM NUNCA TER SIDO
Oswaldo U. Lopes

        Enganar o inimigo pode salvar mais vidas do que os feitos de um destemido combatente na linha de frente. Não precisamos ir longe, durante a revolução constitucionalista de 1932, em São Paulo, a matraca, instrumento conhecido das procissões da Semana Santa quando os sinos devem permanecer silenciosos, fez furor ao amedrontar as forças federais, pois seu som imitava o de uma metralhadora. Supria com eficiência a falta de armamentos que complicava a vida dos revoltosos. Ainda é possível ver esse tipo de “arma” em museus da cidade de São Paulo.

        Durante a Segunda Guerra Mundial os ataques desferidos pela espionagem e contraespionagem, quer alemã, quer dos aliados passaram a história ou pelo seu sucesso ou pelo seu fracasso. Não faltaram bizarrices como o tanque inflável para fazer crer na presença de destacamentos em lugares improváveis. Um dos mais interessantes e que, pelos detalhes, ficou famoso foi o da criação do Major William Martin.

        Terminada a campanha na África com a vitória aliada, sabia-se que o passo seguinte era levar a guerra contra o eixo ao continente europeu, criando uma segunda frente. No Leste já se travavam batalhas sangrentas entre russos e alemães. Stalin implorava por uma segunda frente que aliviasse a pressão dos nazistas.

        Uma olhada no mapa indicava a Sicília como alvo lógico. Era próxima da África e bloquearia a Itália que era ainda uma aliada não desprezível de Hitler. Ou seja, tratava-se de criar uma história fantasiosa para enganar o obvio. Não era fácil. Como não era fácil coube aos ingleses faze-lo. Conta-se que a criação original foi de Ian Fleming que trabalhou no serviço secreto inglês, durante a guerra.  Mais tarde ele ficou famoso pela criação de James Bond o agente 007.

        A ideia era simples fazer aparecer em praias da Espanha o corpo de um oficial britânico com papeis que configuravam o desembarque aliado na Sardenha, na Córsega e na Grécia.

        O cadáver foi encontrado na pessoa de um vagabundo errante que morrera pela ingestão de veneno de rato. A lesão dos pulmões era perfeitamente compatível com afogamento.

        Pronto. A partir daí nasceu o Major, comissionado da Royal Navy, William Martin, nascido em Cardiff em 1907 e que tinha conta bancária, namorada e outros saborosos detalhes como atestaram as autoridades espanholas da praia de Huelva, já que seu cadáver foi desovado, de um submarino inglês, nas praias dessa cidade espanhola.

        Usava um colete salva-vidas que não impedira seu afogamento, trajava uma farda com seu nome gravado e portava presa ao pulso, com algemas, uma importante pasta de couro contendo documentos que detalhavam o falso desembarque. 

        A certeza de que os alemães haviam mordido a isca só veio depois da guerra. Mas de imediato Hitler ordenou um deslocamento importante de forças em direção a esses locais, desguarnecendo a Sicília que assim tornou-se um alvo fácil do ataque.


        A Espanha, sob total controle de Franco e suas falanges havia declarado neutralidade no conflito, mas sabia-se da proximidade e colaboração com o regime nazista. O curioso é que o corpo e os pertences do falso major foram entregues ao Consul Britânico sem sinais de violações. Este por sua vez providenciou enterro e lápide que ainda hoje é visível em Huelva. Gravou-se depois da guerra o nome do vagabundo errante na lápide. Foi promovido a herói post-mortem.

O milagre de Elvira - Maria Amelia Favale


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O milagre de Elvira
Maria Amelia Favale

Eu sou testemunha, posso afirmar, que o que Elvira conseguiu foi um milagre.

A turma de adolescentes da escola era conhecida como a mais bagunceira, a que menos prestava atenção. Isto era o que se falava, se comentava entre os professores. Até que uma professora nova foi admitida.

A nova professora tinha muitos adjetivos, e principalmente, falava pouco, o que abriu caminho para os alunos se aproveitarem de sua “fragilidade”.

Um dia Elvira esperou pacientemente que a turma se acalmasse; então: começou a perguntar um para um e para outro sobre seus nomes.
Lá vem sermão – pensaram alguns.


Mas, não. Ela queria saber o apelido que tinham em casa, como os seus pais os tratavam, pelo nome ou apelido?

Onde a professora quer chegar? – Perguntavam-se

Adivinhando o pensamento da turma, ela disse: Eu quero chegar no mais íntimo de vocês. O que me interessa é o que há de melhor em cada um. Então o pessoal passou a admirar e respeitar a mestra.

E, a turma passou a ser disciplinada.

Tantas Elviras precisariam existir para essa geração...

Apostas baratas - Ises de Almeida Abrahamsohn

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Apostas baratas
Ises de Almeida Abrahamsohn

Naquela manhã eu saía do supermercado empurrando o carrinho pela calçada tentando não atropelar as pessoas.  Foi quando me chamou atenção uma fila que se formava à entrada do bar no trajeto entre o mercado e o estacionamento. Eu estava com mais tempo e parei para observar o movimento. Gosto de olhar desconhecidos: como andam, o que vestem e escutar o que falam.  Confesso que não é muito educado, mas pode ser muito interessante. Quem ali estava, certamente não era frequentador habitual do bar. Aliás, bar é elogio. Na verdade era um botequim do tipo pé sujo. A idade mínima do pessoal era cinquenta anos. Calados e encolhidos, as roupas de inverno bastante gastas pareciam insuficientes para conter o frio da manhã. Entrei e pedi um guaraná, com canudinho; por favor. Não confiaria nos copos daquele lugar.  Por que aquela gente sofrida estava ali de pé?

Foi quando vi o sujeito sentado em um banquinho alto, encostado a um canto da parede tendo à frente um pequeno estrado de madeira onde escrevia num caderno. Ao lado mantinha um bloquinho do qual destacava cupons após anotar o nome e possivelmente telefone ou endereço do freguês.  Eu percebi então o que acontecia. Era uma banquinha de apostas de jogo do bicho. O camarada parecia ter despencado dos anos cinquenta para o século XXI. Tirando os tênis surrados, o restante da vestimenta era da época. Chapéu de aba curta, paletó de lã xadrez e calça de tecido grosso. Devia beirar sessenta anos. Um velho cambista de jogo do bicho.  Espécime hoje em dia quase sumido, incapaz de competir com senas, quinas, lotecas e outros jogos de apostas explorados pelo governo. O jogo do bicho ainda é um baluarte, embora em declínio, do empreendimento privado.  No dia anterior um freguês ganhara o prêmio, por isso a inusitada fila para apostar. Deu jacaré no cinquenta e nove, informou o balconista ao trazer meu canudinho.

Lembrei-me da infância quando as banquinhas   e os coletores de apostas com suas listas se espalhavam por São Paulo. Embora ilegal algumas rádios disfarçadamente anunciavam no final da tarde os números premiados. A polícia, ocasionalmente, dava batidas obrigando os bicheiros a escapadas mirabolantes.  Foi a uma destas que eu ainda pequena assisti dando muita risada. Numa das salas da pensão onde morávamos funcionava uma banca de jogo do bicho, lugar onde se reuniam as apostas trazidas pelos cambistas e se faziam os sorteios. Ao anúncio da chegada dos policiais, os homens saltaram como macacos e atiravam-se junto com as listas e cadernos de apostas pelas janelas para o quintal da casa vizinha, dois andares abaixo. Quando fiquei mais velha me explicaram o que acontecia ali e também que as tais batidas policiais eram para “inglês ver”. O próprio governador, Adhemar de Barros e também seu vice recebiam dos banqueiros uma generosa propina, chamada de “caixinha”. 



Laranja doce - Oswaldo Romano

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LARANJA DOCE

Oswaldo Romano                                                              

        Naquele domingo depois do almoço, apreciávamos uma tarde ensolarada. Eu me chamo José, minha mulher Maria, e o filho Tato. Nada havia sido programado, como os acostumados passeios de fim der semana.

        Tato inquieto começou a reclamar o fato de ficar em casa, justo num domingo sem chuvas. A mãe tenta convence-lo a acatar a vontade do pai. Ele queria descansar. Falou muito, muito, em vão.

        José mesmo desmotivado, tirou o carro da garagem e ordenou:

—Venham. Vamos passear. Vamos na chácara do japonês em Ferraz de Vasconcelos. Está na época das uvas Itália. Depois de chupá-las, traremos um daqueles cestos de bambu trançados que ele tão bem prepara.
        —Cheio, né mãe?

        —Claro, filho. Depois de vazio, é decorativo.

        Animados foram alegres, cantando, enquanto José, nessa altura fazia boca para as uvas brancas e carnudas.

        Cortando por uma estrada de terra, passavam por sítios e num deles, um enorme pomar chamou a atenção. Os pés que não estavam floridos, apresentavam a beleza dos galhos carregados das mais cobiçadas frutas. Logo mais chegariam na chácara do japonês.

        Tato não se contendo, tomado de entusiasmo viu que podiam colher algumas laranjas dos galhos que debruçavam sobre a cerca divisória. Convidou o pai para a festejada aventura.

        Maria, a mãe cuidadosa, movendo-se aflita interveio: Não, Tato! Além do que, laranja madura na beira da estrada, tá bichada Zé, ou tem marimbondo no pé.


A SENTENÇA - Sergio Dalla Vecchia


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A SENTENÇA
Sérgio Dalla Vecchia


Naquele instante as palavras embaralhavam sua mente, silabas trombavam e letras voavam aleatórias.

Lá estava ele perante o juiz.

Um homem sentado sobre seu próprio destino no banco dos réus aguardava ansioso o início do seu calvário criminoso.

Toc, toc, toc bateu o martelo no malhete e iniciou-se o julgamento.

Com a palavra o promotor!

Da sua boca partiram dardos envenenados em direção ao réu, alvejando em cheio cada um dos seus pecados.

Cada estocada feria diretamente a sua honra, que até então, não tivera a oportunidade de conhecê-la.

A condenação crescia a cada palavra do promotor.

Os argumentos terminaram e convicto cedeu a palavra à defesa.

Ela bem que tentou, mas não havia argumento que desqualificasse a verdade.

Toc, toc, toc bateu o martelo no malhete e o veredicto foi anunciado;
Culpado!

Foi só o que o réu consegui ouvir.

Engoliu a seco!


Agora as palavras estavam nítidas, as silabas ordenadas, letras colocadas e a palavra construída foi, arrependimento.