VISITA ESPERADA - M.Luiza de C.Malina


VISITA ESPERADA                            
 M.Luiza de C.Malina

Sou católica “pero non mucho”, quer dizer não muito praticante.

A conversa com uma amiga levou-me ao ano de 1960. Época de visitar e ser visitada.

Esta visita era bem diferente e muito aguardada. Uma visita anual com poucos preparativos.  Fiquei surpresa ao saber da continuidade de uma tradição.

                 “A visita da Imagem de Nossa Senhora” 

As fotos surpreenderam-me. Sem qualquer efeito, lá estava ela. Imagens refletidas num copo d´água, deixado ocasionalmente por alguém.

Se isto é efeito pareidólico, não o sei. Mas que a imagem está lá, está.

Desejei muito tê-la em minha casa. Aguardo numa fila interminável de pedidos.

 O curioso é que a partir do momento em que aceitei sua visita, pequenos milagres ou coincidências, por assim dizer aos mais céticos, começaram a acontecer.

Tenho as minhas Virgens em casa. Mas a que me converteu, foi durante uma viagem ao México. No programa estava incluso o passeio às principais igrejas. Aceitei apenas com a intenção cultural. Afinal cultura envolve a religiosidade também.  Andava um tanto ateia.

Num segundo de explicação do guia turístico algo me tocou. A atenção voltada ao respeito à cultura, foi mudada para o campo da ciência, física e filosofia. Por fim estes temas levaram-me de volta à religiosidade perdida entre outras em voga. Silenciei.
                                 “A Virgem de Guadalupe”


Com a incrível história do Índio Juan Diego. Seu manto, as rosas, a bomba e o Crucifixo.

Imagem Pareidológica - Oswaldo Romano


IMAGEM PAREIDOLÓGICA 
 Oswaldo Romano

 Estava muito concentrado no escritório. Bato palmas para o dia em que encontrei a solução de dividir a preocupante responsabilidade comercial, dos momentos que escrevendo destruo horas embebidas em metamorfoses.

Precisava encontrar a palavra certa que desse sentido a uma frase. Vejam quanta preocupação! Era o conto da promotora do EscreViver. Estava estático. 

Permanecia muito atento, concentrado. Tinha acabado de jantar. Com tamanho cuidado, controlava o sono. Aquele devia ser um momento da sesta, uma vez que não o fiz no almoço. Mas controlava o sono. O sono que sentados nos dobram para trás, ou para a frente. Nesse momento minha mulher, que assistia a TV em sala distante, num ímpeto arrebatado, gritava, me chamava:

 — Wá, Wá, Wá. Venha depressa! 

 Claro que dei um pulo, assustei. Sai tropeçando, pé contra pés de cadeiras, cambaleando. Encontrei-a puxando a cortina. Pedia silêncio, apontando para fora. Quieto, quieto - dizia. Cautelosamente me aproximei.

 — Veja, veja... 
 — Ver o que Cí? 
 — Olhe em cima da churrasqueira. 
 — Sim, estou olhando. 
 — Você não vê? 
 — Vejo sim, a chaminé.
 — Não!! Um gavião!!! Não vê ? 
 Respirei fundo e não a desmentindo falei: 
 — A noite seria o corujão. Levado pela sua firmeza eu até fiquei na dúvida. 
 — Gavião sim! - retrucou. E os canários, estão guardados? 
 — Calma, os canários são guardados no seu espaço. 
 — Olhe, como é bicudo... Bem, sai dali, fui ver de outro ângulo. 
 Que gavião, que coruja, que nada. Era uma folha. Sim, uma folha seca. 
 — Ah, ah, Cí! Pare com essa coisa. Veja daqui. É uma folha. Caiu da palmeira. — Tem razão, já parei. Parei não, como você diz: Pareidolia, né?


O que é Pareidolia?

Controlando - Mario Augusto Machado Pinto.

 
Controlando
Mario Augusto Machado Pinto.

À noite, ao redor das oito, tomo o que convencionei chamar de “sopinha”, um desses preparados desidratados que só necessitam de líquido quente para se transformar em caldos, às vezes até saborosos.

Interrompo o que faço, vou á sala da TV onde Ceci assiste ao noticiário ou alguma outra coisa.  Sua caneca do chá tomado com alguma bolacha está na mesinha lateral com o abajur. Pergunto se quer algo mais e recebo sempre a mesma resposta negativa.

Peço a caneca e o prato de sobremesa e vou à copa preparar minha sopinha. Bebo de uma caneca apropriada, coloco alguns croutons ou então pedacinhos de miolo de pão integral. Bebo, como algum complemento enquanto aguardo ela aparecer. É certeza.

Chega com aquele ar de quem não quer nada, mudinha, aparência distraída ou de que há coisa a fazer, mas não sabe bem o que nem como. Ledo engano. Energética, nada pergunta, mas o que quer mesmo é saber se tomo somente a sopinha, se há alguma coisa a mais preparada como reforço. Vai por trás de minhas costas pegar sua maçã no minibar. Assim faz sua checagem.

De vez em quando pergunta se vou comer o doce em calda que está preparado, ou alguma fruta, mamão papaya, abacaxi ou melão fatiados. Você deve comer frutas, faz bem ao trato intestinal além do que não engordam. Olha a sua barriga! Daqui a pouco vai precisar de bengala para se equilibrar. Que horror! Digo que sim, mas nem sempre aceito a indicação. Gosto mais de doces.

Após comer lavo a louça e os talheres. Enquanto faço isso recebo nova visita. É para colocar na lixeira as cascas da maçã. Na verdade é para advertir: não deixe resíduo na pia, entope os canos. Faço isso todos os dias e não necessito que me lembre, sabendo como fazer não deixo resíduo algum, mas há a insistência: já limpei várias vezes; tome cuidado e vai continuar a ver TV.

Guardo a louça, os talheres, preparo a mesa para o café da manhã e vou ver TV. Em geral é algum filme; não é muito agradável: o som é fixado a baixo volume, os letreiros mudam tão rapidamente que não consigo ler. Prefiro noticiário. Quando me irrito, leio os articulistas do jornal do dia. O barulho de virar as páginas está atrapalhando. Não precisa dobrar tão direitinho. Que coisa!

Ao redor das dez horas diz Vou me deitar, estou morrendo de sono, você vai? Geralmente digo que vou após terminar as palavras cruzadas do jornal. Não durma na poltrona, não sei como pode; você fica todo torto...Boa Noite (quando diz), e lá se vai.

Após o banho, volta, passa pelo corredor e olha para a sala da TV para ver se estou dormindo. Se estou, diz de imediato, vá se deitar, vai pra cama, não seja teimoso. Geralmente vou, leio umas duas páginas do livro da vez e durmo o sono dos justos, de uma enfiada só. É tão bom que nem me lembro se sonhei. Nunca.

Levanto-me.


Dou inicio a mais um novo dia.


CARTA AO IRMÃO PIU - Oswaldo Romano


CARTA AO IRMÃO PIU
Oswaldo Romano                                                              

        Theo completando 25 anos está a quatro trabalhando na Inglaterra. Deixou sua família em São Paulo certo de que sua missão não demoraria mais do que ano e meio.

        Em São Paulo morava com a mãe Diva, o irmão Piu e o tio Zeca. Além da família, seu maior sentimento foi deixar seu gatinho, criado por ele desde a mamadeira.

        Tinha a maior paixão pelo animalzinho. Confiou no irmão, certo de dar-lhe o melhor cuidado.

        Na verdade cuidava, mas era difícil segurar um gato. Acabou fugindo e foi atropelado na rua.

        Era responsabilidade do irmão Piu comunicar o ocorrido, e o fez, achando correto, com os mínimos detalhes.

        Theo sofreu muito com a notícia, e chamou a atenção do irmão. Ele poderia ter-lhe passado a notícia com palavras mais suaves. Ter contornado o impacto. Poderia ter dito que o gato subiu no telhado e caindo foi impossível salvá-lo.  A notícia foi seca, muito triste, ficou abalado.

        Dois meses depois Theo recebe outra carta do irmão Piu. Falava:

        — Foi triste irmão. Mamãe subiu no telhado.




OS DOIS REIS - Maria Luiza C.Malina


OS DOIS REIS
Maria Luiza C.Malina

Intrigados pela vitória, os dois reis dão início a guerra, no tabuleiro de xadrez. Um blefa mais ao outro. Por uma magia, um não percebia a terrível estratégia do outro. 

Assim passam-se os cem anos.

Entre perdas e ganhos, ao final todos voltaram para a mesma caixa, enfileirados, enclausurados, separados apenas pela eterna cor branca e preta de seus domínios reais, sem nunca se darem por satisfeitos.


                Ponto final. Quem quiser que jogue outra.

Na Alegria e na Tristeza - José Vicente Jardim de Camargo



Na Alegria e na Tristeza

José Vicente Jardim de Camargo

Amélia já vasculhara toda a casa. Timtim por timtim! Embaixo dos móveis e tapetes, esvaziara o saco de lixo, revisara mais de uma vez o automóvel, ligara    às amigas com quem saíra, telefonara ao cabeleireiro, ao clube, ao pet shop onde levara Mel para o banho e a tosa.

Nada! Tudo em vão! Ninguém encontrara a maldita aliança...

Já fez a promessa a Santo Antonio e a Santo Expedido, considerados os santos das causas perdidas, acendera velas, encomendara na gráfica a confecção dos santinhos com a foto dos dois e a oração de louvor e agradecimento pela graça alcançada.

E Alfredo, chegando amanhã de viagem! Certamente notará no primeiro abraço a ausência da aliança.

Justo ele, que gosta de acariciar suas mãos quando lhe entrega o presente surpresa, certamente algo exótico de um daqueles bazares típicos do oriente. Ele, que sempre faz questão de lembrar a ela os votos sagrados do matrimônio:

— Amélia! Na alegria e na tristeza, na saúde e na dor! Essas alianças selam nosso compromisso de casamento. Nem com um revolver encostado a cabeça, entregarei tão valioso símbolo de nossa união...

Ela gostava de ouvir tais juras de fidelidade, apesar de não acreditar que o amado fosse capaz de morrer pelo vil metal, ou por qualquer compromisso moral.

Nisto, como um lampejo, uma ideia lhe vem à mente!

Pega a bolsa, chave do carro e sai rápido atrás do seu Julho antes que a loja feche:

— Como vai dona Amélia, há tempos que não aparece. Em que lhe posso ser útil? - Diz sorrindo seu Julho por detrás dos óculos de aros de tartaruga.

— Quero algo especial, desenho exclusivo! Responde Amélia mirando as vitrines reluzentes com os brilhos das gemas expostas, capaz de convencer o mais ortodoxo ateu da existência da vida eterna na companhia dos anjos...

Sorridente, Amélia espera ansiosa a chegada de Alfredo no lobby do aeroporto internacional. Vendo-o, corre a ele de mãos estendidas. Alfredo as toma para o clássico beija mão antes do abraço forte e do beijo ardente. Mas, para. Exclama:

— Amélia! E sua aliança?

— Querido, ela estava tão tristinha! Dei-lhe um pouco de alegria encrustando lhe esses brilhantinhos. Assim, a nossa união fica como você  gosta de dizer:

— Na alegria e na tristeza...


— E, como você tem boa saúde, a dor virá com o cartão de crédito...

TURISTA PERTURBADO - Mario Augusto Machado Pinto.


 

TURISTA PERTURBADO.
Mario Augusto Machado Pinto.


Batendo palmas para chamar atenção, Flora disse que a Sonia estava querendo saber como fizemos a viagem. Quem se propõe explicar?

O Marcelo disse que poderia fazer um relato resumido desde o começo quando coincidentemente todos nós estávamos de férias querendo viajar.

Começamos escolhendo aonde ir para conversar, trocar ideias.

Alguém sugeriu a casa da Floripes. Surpreendida e embaraçada com a sugestão disse que só colocava uma restrição: não queria bagunça nem gritaria.

As sugestões agitavam o ambiente. Era tanto palpite que ficamos confusos. Ir a Salvador e dali ao nordeste foi a sugestão aceita.

Havia o problema do custo, mas o Henrique, pela internet, resolveu com detalhes que cobriam todas as perguntas.

Após 20 dias e várias reuniões, chegamos a Salvador.

Francamente, ninguém gostou: “as coisas”, o elevador Lacerda e outros locais estavam sujos. O pessoal local que chamava a gente de “meu Rei” precisava de banho. O caminho até a Praça do Pelourinho cheirava a banheiro público. Além disso, a comida fez algum estrago. Fizemos as visitas turísticas durante três dias verdadeiramente desastrosos. Mas, foi comovente a demonstração de fé ocorrida durante visitação às igrejas principalmente a do Senhor do Bonfim.

Queríamos ir embora e ficamos aliviados quando o Pedro anunciou que nosso carro já estava na garage do hotel.  Partimos. Foi um trecho que mostrou um pouco do ambiente inóspito em que vive grande parte da nossa população. Viagem bem cansativa marcada por erros ao querer conhecer praias e visitar locais de rendeiras.

Chegamos a pegar a estrada para o Sul. Dormimos em Aracajú.  No dia seguinte fomos a Recife. Calor estonteante, chuva á tarde, alagamentos, verdadeira tragédia. Ficamos na Pensão Flora. No dia seguinte o Marcelo disse que iriamos a Paulista, pertinho, clima ameno como o de São Paulo.  

O Carlos e a Maria reclamaram, perderam a serenidade dizendo que havia imposição sobre o que fazer. Iriam passear por praias, velejar de jangada, nadar nos piscinões de arrecifes. Iriam numa excursão local. Separaram-se do grupo.

Fizemos nosso passeio. Visitamos fazenda com cafezal, uma indústria têxtil e uma confecção. Camarão, lagosta à vontade. Compras, compras, mulheres contentes. À tarde aproveitamos para ir à praia, velejar de jangada beber água de coco.  

Já na “Flora” estávamos alegres, contentes da vida comentando o que fizemos quando Carlos e Maria chegaram e já foram dizendo que deviam ter ido com o grupo. Pagaram os olhos da cara pelo passeio e foi tudo uma droga; a jangada ficou para o ano que vem. Foi tudo tão ruim, mas tão ruim que dispensaram o serviço turístico, e voltaram a pé para apreciar e vivenciar o clima da cidade. Perderam-se, ficaram atrapalhados e por sorte chegaram. Foi tudo muito ruim. Ainda estavam envergonhados, pediram desculpas pelo que disseram e fizeram. À noite, com várias rodadas de batidas de frutas e pedaços de jaca, perdoamos o casal.   

Após dois dias de praias, jangadas, lagostas, camarões, carne de sol e manteiga de garrafa deixamos o carro no aeroporto e voltamos.

É isso aí, disse Marcelo!

A tal da Sonia perguntou ao Marcelo se havia alguma coisa mais.

Silêncio.

Levantou-se, abriu os braços dizendo: Bem que a Flora me avisou. Vocês são um bando de maluquetes, beberrões, fumantes e cheios de si. Só pensam em vocês, mas adorei vocês todos. Tô dentro. Cadê a pinga pra molhar o bico?

E foi por aí afora, destrambelhou de vez provocando muitas piadas e risadas. Entrou pro grupo.

Hoje, entre nós, quando alguém fica nervoso e agitado, dizemos:


Olha, olha, a Soninha está chegando, vai molhar o bico!


UM TURISTA PERTURBADO - Oswaldo Romano


UM TURISTA PERTURBADO
Oswaldo Romano                   
                                           
        Pablo ainda estava perplexo pela derrota da Espanha na Copa do Mundo, quando chegando ao Rio, hospedou-se num pequeno hotel de Copacabana, e se deu conta de que até o nome do hotel o perturbava: Copa a Cabana dos Craques.
        Bem,  iria aproveitar a praia, enfim não podia culpar a cidade pelo fracasso da sua “brava fuerça” espanhola.

        Ao sair do hotel o porteiro recomendou: Não leve o pochete dos documentos. Recordou-se de ter ouvido isso quando ainda na Catalunha. Então o recepcionista anotou seu nome no cartão do hotel “Leve isto, sempre é bom. Pode ser útil caso se perda”.

        Agora sim, Pablo estava preparado. Menos perturbado com os 7 a 1 postava-se frente a belíssima Copacabana. Era um simples turista. Apreciava gente bonita correndo no belo calçadão. Não teve dúvidas, entrou no ritmo. Criava assim uma passagem para contar na sua Catalunha. Mas, cansou. Sentou-se em uma mureta, ofegante. Relaxava quando se aproximou um pivete. Logo pensou que pediria uns trocados. Errou. Mostrando um estilete foi logo pedindo o relógio. Pablo indignou-se. Sentia o perigo diante da ameaça, não teve jeito.

Muito assustado fez a entrega. Só passado o impacto percebeu que tremia. Tremeu muito, esperava acalmar-se para ir embora. Perguntava-se: Por que o porteiro não lhe pediu também o relógio? Perturbado, pensou mil coisas. Até que ele seria conivente.

Quando se preparava para voltar ao hotel, aproximou-se outro tiziu. Para ver-se livre, foi logo levantando as mãos falando que já o robaron, que  su relog, ya toméron.

        E deu aquele sorriso amarelo.

        Eu sei, eu sei, sorriu o pivete. Agora gringo, seu tênis. Tire, rápido, rapide. Seu tênis ou eu te furo I bore you !

 Que mierda ! –  rosnou Pablo.

        Assim, Pablo ficou sem seus tênis. Não quis perder mais tempo. Levantou-se, correu para o hotel, descalço pisando o asfalto quente, dizendo para si:

        — Ah mi madrezita querida. Asi preciosa. Bueno que advertió. Yo retorno pronto, antes de mis roben los pantalones. (Volto logo antes que me tirem as calças).

        No saguão do aeroporto um cartaz dizia: Volte sempre, você será recebido de braços abertos!

        Pablo entendeu a mensagem. Con los brazos abiertos! Manos arriba, si.. Gruño, mierda, mierda, mierda.


O DISCURSO - Maria Luiza de C.Malina


O DISCURSO
Maria Luiza de C.Malina

Frederico agoniza em seu pensamento falsas frases sem qualquer constrangimento moral.

Vencer ou vender às duras penas o que lhe fora agraciado em forma de herança roubada. Tornara-se uma obsessão doentia.

As ideias fervilham em mistura às inverdades da extensão territorial devastada pela miséria, seca e corrupção.

Para vencer terá que omitir as verdades visíveis a olho nu.

Para vender o território enfraquecido pelas dívidas, deve continuar no poder 
empregando o desvio de valores em outro país cujo sigilo de investimento é bem vindo.


Há quem duvide, mas Frederico foi sucumbido pela força da moral.

Turista em apuros - Fernando Braga



Turista em apuros
Fernando Braga

Certa ocasião, estávamos em viagem pela Escócia. País lindo, com povo muito hospitaleiro. Havíamos alugado uma perua Van, bem confortável, espaçosa, onde coube toda nossa bagagem. Fomos de Edinburgh até Inverness, pelos Highlands, e descemos até Oban, na costa leste, passando antes pelo Lago Ness. Em Oban, assistimos a uma apresentação de música escocesa, vestimentas a caráter, fomos conhecer uma destilaria famosa de uísque (Glenmorangi) e no final da tarde saímos em direção a York, na Inglaterra. Enchemos o tanque em Oban e saímos, com o tempo fechado e chuviscando.

Após uns 10 kms, o carro começou a falhar, e vendo que ia parar, saí da estrada principal, de pista única de mão dupla e peguei uma pequena estrada estreita, vicinal.

Logo o carro parou, obstruindo a pequena via. Percebi, que havia abastecido com o combustível errado. Ao invés de gasolina, gazoil.

Estava chovendo e anoitecendo. Nós quatro empurramos o pesado veículo  para o lado para não obstruir totalmente a via. Ficamos parados pensando em uma solução plausível.

Inicialmente, o melhor seria  pedir uma carona de volta a Oban. Mas, deixar o carro com toda nossa bagagem, era muito arriscado. Eu e meu filho, com um guarda-chuva fomos até a via principal, olhamos em ambas as direções e percebemos que o movimento de carros era pequeno, mas ao longe, a uns 300 metros, havia uma casa grande iluminada. Meu filho logo se propôs a ir andando até lá para ver se conseguia alguma ajuda. Voltei para o carro, acendi as luzes das lanternas e interior, peguei o contrato do aluguel do carro, mas os celulares não funcionaram lá. Estávamos em um mato sem cachorro, sentíamo-nos perdidos.

Felizmente, a Escócia, não é país perigoso.  Estávamos aguardando pelo meu filho, que dificilmente traria uma solução plausível.

 Eis que vindo um carro em nossa frente, antes de passar pelo estreito espaço deixado, parou. Desceu um senhor, que veio conversar conosco. Perguntou o que havia acontecido e se precisávamos de alguma ajuda. Contei a ele, que havia colocado combustível errado e que o carro havia parado. Disse que éramos do Brasil.

Ele me pediu o contrato do aluguel, pegou seu celular e conseguiu falar no escritório da companhia em Glasgow. Deu a nossa localização precisa, pois conhecia bem aquele local  e nos confirmou que dentro de uma hora ou um pouco mais chegariam para resolver nosso problema. Tranquilizou-nos,  e disse que este serviço funcionava muito bem no país. Agradeci muito, pedi seu e-mail e ele foi-se embora. Após meia hora voltava meu filho dizendo que no local, a cada uma hora parava um ônibus que ia para Glasgow ou para Oban. Aguardamos mais uma hora, no escuro, achando que não iriam nos localizar, nos socorrer. Eis que volta pelo mesmo caminho o escocês que havia nos socorrido. Vendo-nos ainda no mesmo local, parou, conversou conosco, ligou novamente para a seguradora e confirmou que estavam à caminho, e que levariam no máximo meia hora Realmente, mais vinte minutos, chegou um grande caminhão, que guinchou nosso carro. Levariam-nos até Glasgow e que dois de nós poderiam ir com ele na cabine. Em Glasgow, já havia outro carro semelhante, nos aguardando. Tivemos que pagar apenas um tanque de gasolina. Mudamos as bagagens e fomos até o Hotel onde bebemos um scotch e tomamos uma bela garrafa de vinho.

Viva a Escócia, meu segundo país.

 Na volta, contatei o mui amável escocês por e-mail, e garanti a ele que caso viesse ao Brasil, a São Paulo, iria, com todo prazer recepciona-lo. Foi, realmente, gente fina!!

Todas as vezes na vida que tiver uma dificuldade, que pareça insolúvel a princípio, não adianta desesperar, porque sempre há uma saída.


O falso astrônomo - Oswaldo Romano



O falso astrônomo
TROCOU TELESCÓPIO PELO BURACO DA FECHADURA
Oswaldo Romano               

Ricardo dizia-se astrônomo. Sua mulher, Alzira, tinha o maior orgulho de sua profissão. Contava para amigas, mostrando conhecimento de causa, as pesquisas do marido transmitidas em casa sobre os astros.

Alzira falando sobre Marte, o planeta dourado, como mulher  sentia nele joias, muito ouro. Quando dominado pelo homem, daria adeus à miséria. Via nos olhos do seu marido a esperança de riqueza.

Ricardo apaixonado pela mulher, não queria tirar dela essa ilusão. Guardava para si, no mais absoluto sigilo, sua verdadeira profissão. Foi no início do namoro que, para conquista-la demonstrara essa grandeza.

No entanto, quando ele  polia as partes metálicas daquele aparelho,  foi despedido. Sua amada e linda mulher estranhou, um reputado astrônomo ser afastado quando o país mais necessitava  mostrar ao mundo seus gênios. Assim era tido por ela.

Ricardo não podia ficar desempregado. Conseguiu um novo emprego no setor ferroviário. Sua missão era engraxar rodas das locomotivas. Alzira ficou vexada quando as amigas descobriram.

 Inconformada com suas mentiras ela chorava, e discutiam todos os dias. O cheiro da graxa incrustado no seu corpo o levou a aceitar a separação de quarto.

Na impossibilidade de continuar vendo-a despida, apelou. O único jeito era observa-la pelo buraco da fechadura.


Agora sim. Que desilusão! Olhando pelo buraco da chave, lembrava os astrônomos pesquisando no antigo emprego.

TURISTA DESORIENTADO - Maria Luiza de C.Malina


TURISTA DESORIENTADO           
Maria Luiza de C.Malina

Animado o aventureiro deposita seus pés na quente areia de São Salvador, Bahia.
Descansa a mochila ao som da Capoeira e seus trejeitos. Também sou capaz de fazer os passos, é só observar mais um pouco. Fica por uma meia hora na observação.

Um estende a mão. Convite aceite: - Quando eu entro você sai, quando você sai eu entro. O berimbau chora lento. O salpique adentra. Adentra. O turista de lá pra cá. As palmas aumentam. Aumentam os espectadores. A magia do berimbau. Eu vim fazer chuê chuá... chuê chuá...

Noite adentro o jogo da Capoeira não tem lelê e nem lalá. Caipirinhas, água e muitas brejas. A capoeira d’Angola. Atenção e silêncio.

O turista acorda pela manhã estirado na areia: - Idalina tá me chamando, Idalina tá me chamando. Desorientado procura por um tesouro preto. – Me dá meu dinheiro valentão, que no meu dinheiro ninguém põe a mão. Olhe que te ponho no chão valentão.

- Aqui num tem tesouro, só besouro, berra o negão de dente de ouro.

- Desculpa, eu sonhei na areia. Venho de longe, resmunga.

- Em terra alheia, pise no chão devagarinho.



ANEL PERDIDO- Mario Augusto Machado Pinto


 


ANEL PERDIDO
Mario Augusto Machado Pinto 

Era para duvidar que estivesse dando tudo tão certo e perfeito para a cerimonia logo mais à noite.

Pagou o taxi, passou pela portaria, subiu pelo elevador e entrou no apartamento com o andar e o espirito de quem  venceu uma batalha.

Colocou as chaves na mesinha da entrada, tirou as luvas forradas com arminho, lavou as mãos no lavabo e em seguida preparou sua bebida favorita de todas as tardes: porto com soda fria, ainda não gelada.

Jogou-se na bergere.

Enquanto bebia olhou as mãos examinando os longos dedos da pianista que era,  e assustou-se com a falta da aliança.

Deixei cair, sim, só pode ter caído, mas como, não tirei as luvas por nada! Só me faltava essa agora. Que chatice!

Em pensamento recorreu todos seus movimentos em casa e fora. Saindo e voltando.

No taxi! Foi no taxi. Não, paguei com a mão direita! É, mas tive que tirar a luva para pegar o dinheiro. Tirei as duas para contar as cédulas. É, foi nessa hora!

Celular. Fone do posto. Ah, ainda bem que é o senhor. Encontrou uma aliança no piso do seu taxi? É, um anel. Acabou de limpar e não achou nada? Tem certeza? Claro! Desculpa. Tchau seo Edivaldo.

Percorrer o caminho desde a calçada. É, é isso aí. Desci aqui, nada no piso da rua, água suja correndo, que nojo, nada na calçada, no caminho do jardim, no hall do elevador também não, na entrada do apartamento, na passadeira, no lavabo, no barzinho, na minha poltrona. Tem que estar em algum lugar! Ai meu Santo António, ajuda um pouquinho, vai! Não joguei fora e muito menos pela janela, na rua... Inda não tô louca, mas tô ficando. Cacilda, se não encontrar vai dar um bode do caramba hoje à noite; não perde a pose. Arre diacho!!! Não pode ser! Sacar o assento da poltrona. Nada. Olhar debaixo dos móveis, atrás das pernas das cadeiras, nada, nada, nada! Só pode estar no banheiro da suíte. A bolsa, luvas, echarpe, tirar os sapatos para sentir se pisar em cima.  Nada. Pia do banheiro. Nada!

Junto com a exclamação jogou as luvas contra o espelho e ouviu um barulhinho. Correu, pegou-as e virou-as do avesso. Ali estava ela no emaranhado dos pelos.


Barulho de chaves na porta: Oi meu bem. Teve um dia bom? O meu foi magnifico! Preparei uma bebidinha pra Você. Vem que te faço um cafuné bem gostoso.

COISAS DA VIDA - Carlos Cedano


 

COISAS DA VIDA
Carlos Cedano

Marta....? Berrou Wilma a beira de um ataque de nervos.
Que foi? Perguntou Marta alarmada.
Perdi minha aliança. Já revirei toda a casa e nada. Meu marido tem ciúmes até de minha sombra! Disse com voz chorosa.
Primeiro se acalme minha amiga. Não foi ontem que você foi às compras?
Foi - respondeu a perturbada senhora - Então procura nesses lugares, talvez alguém a encontrou - palpitou sua amiga.

Com enorme esforço a esposa controlou seu desespero e lembrou-se de todos os lugares.  Pegou o carro e pisou fundo. Três horas depois já tinha visitado todos eles,  sem nenhum resultado favorável.  Ninguém tinha encontrado aliança alguma.

Voltou pra casa desolada, e num último esforço revirou o próprio carro Também sem resultado nenhum.

Ligou para outra amiga, que além de ser a mais velha delas também era a mais experiente nas coisas da vida, e lhe explicou seu drama.

        — Que faço, o que você me aconselha?  

        — Você não andou pulando a cerca, né? Não poderia tê-la esquecido na casa do Armando? Respondeu Maria com perguntas incisivas.

        — Não! Retrucou Wilma. Meu caso terminou faz mais de um mês. Não o vi mais. Foi só uma loucura de verão!

        — Ah, sim, sim. Você já pensou em simular um assalto na rua? Isso costuma funcionar.

         — Com Roberto não! Ele é muito perspicaz e vai perceber que estou mentindo. Preciso de outra sugestão.

        — Vou pensar numa outra coisa e te ligo. Ok? E desligou.

Sem muitas esperanças Wilma ficou em silencio um tempo,  e depois ligou para Marta: Acho que a melhor atitude será abrir o jogo com meu marido e contar-lhe que perdi minha aliança e não sei onde.

É um jogo arriscado Wilma,  será que ele vai engolir tua explicação? -comentou sua amiga.

Será pior se ele perceber antes sua falta na minha mão.  Vai virar uma fera! disse a esposa.

Você é quem sabe! - Respondeu Marta.

Por volta das vinte e duas horas tocou o telefone. Era Roberto que com voz firme e pausada pedia a Marta para espera-lo acordada. Tratava-se de um assunto urgente, e estaria em casa em vinte minutos.

Porra! Gemeu Wilma, aí vem chumbo grosso com certeza! – gemeu a esposa.

Vinte minutos após abriu-se a porta,  e ouviu-se a voz do marido: Wilma!

Ela levantou-se e foi ao encontro dele,  decidida a contar sobre a perda da aliança.

Roberto a olhou fixamente,  e antes que ela pudesse pronunciar uma palavra sequer,  disse:

        — Meu amor -  puxando a aliança de seu bolso - eu a tirei de sua mão hoje bem cedo, e você nem percebeu. Graças a Deus senão, teria estragado a surpresa.

Quase no mesmo momento a esposa soltou um grito alto e intenso que surpreendeu ao próprio marido:

        — Minha aliança! Procurei-a o dia inteiro! Você não imagina quanto sofri pensando que poderia tê-la perdido. Por que você fez isso meu amor?

        — Você não lembra que hoje fazemos vinte anos de casados? Perdoa-me mais precisei dela para me certificar do tamanho de teu presente - disse o marido,  ao mesmo tempo em que abria uma pequena caixa contendo um anel com um enorme brilhante. É do tamanho de nosso amor! Sorriu Roberto,  feliz com a demonstração de amor que Wilma tinha acabado de lhe dar!


Coisas da vida!

A Dona do Controle - Vera Lambiasi


A Dona do Controle
Vera Lambiasi


A medida que a rede social do marido ia transbordando de amigas, Marilza sentia-se cada vez mais insegura.

Casara-se com o jovem cineasta, que tinha sempre uma ideia na cabeça, certa de que iria levá-lo à sua área, a publicidade.

Marilza convencia o mais duro cliente, com seus dotes persuasivos, mas Norberto mantinha-se fiel aos seus filmes noirs.

Mais velha, não compreendia as experiências do marido com a “Pura Nudez Imaginária”, como ele definia suas sessões.

Enquanto Marilza trabalhava na agência durante o dia, Norberto fazia tomadas em bosques com suas ninfetas. De noite, repassava o conteúdo, do computador para a TV gigante da sala. Ao ouvir o carro de Marilza, mudava de canal para o telecine cult. Interpelado, explicava suas preferências por algo mais denso do que os comerciais de margarina da esposa.

Marilza vasculhava o menu do controle, nada encontrando de desabonador. Até que um dia seu computador quebrou, e foi ao de Norberto para trabalhar. Numa pasta intitulada “Experiências” foi de cara ao inevitável:

Pornografia pura! E o próprio atuando.


Com aquela cara de anjo intelectual.

A trapaça - Oswaldo Romano



A trapaça
(LUCIANA PERDEU SUA ALIANÇA PARA MAIARA)

Oswaldo Romano    
                                                                  
Os egípcios, no ano de 2.800 AC, criaram a aliança. Um símbolo do compromisso matrimonial que permanece até nossos dias.  Eles comprando a noiva com essa dadiva, a tinham como propriedade.

Já os gregos com esse ato, mostravam que a partir daí, os bens pertenciam a ambos. Tinham  no brilhante, fragmentos de uma estrela destruída.

E os Romanos? Românticos como são, acreditavam que no quarto dedo da mão esquerda corria a veia chamada de Veia D’Amore. O local apropriado para colocar a Pedra de Vênus.

Os escoceses acreditam que a mulher que não exorcizou a aliança, está condenada a perder o marido.

Ao contar estas curiosidades da história à Luciana, a trapaceira cigana Maiara pediu que mostrasse sua aliança. Sabia sentir se estava protegida do mal. Num jogo que só as ladras sabem fazer, deixou-a cair pelo ralo.  

A jovem saiu de lá atordoada sem sua aliança

Ao marido com palavras inocentes, afirmou que a tirava para cozinhar.

Na verdade tinha caído no conto da cartomante cigana, que surrupiara-lhe a de ouro, fazendo rolar pelo ralo uma de cobre. Luciana nem imaginava. Até consolou o choro da Maiara.


“Quem não chora não mama”.

Saída Estratégica do Armário - José Vicente jardim de Camargo


Saída Estratégica do Armário
José Vicente jardim de Camargo


No “happy-hour” das sextas-feiras com os amigos, discutia-se um pouco de tudo: as últimas do futebol; os problemas no trabalho; as noticias das redes sociais; as chances dos flertes na academia; as viagens de fim de semana; os filmes assistidos, e até a implicância das namoradas, noivas e esposas sobre suspeitas de possíveis casos de “cerca pulada”. Nesse item todos riam das desculpas, muitas esfarrapadas, que davam as companheiras na tentativa de afastar qualquer suspeita.

Ele, porém, vinha se aborrecendo cada vez mais, com a implicância crescente da sua esposa em lhe limitar a liberdade do ir e vir, do fazer e deixar de fazer, daqueles intermináveis “porquês” se refletindo na sua preocupação de ter sempre na ponta da língua uma explicação para os seus atos.

Para aquela noite já podia imaginar o questionário de perguntas que teria de responder ao chegar em casa: com quem e onde esteve, porque demorou tanto, do que tanto falaram, se tinha mulher no meio, etc...

A primeira coisa que lhe pedia era o celular e logo começava a vasculhar em todos os aplicativos.

Foi então que teve uma ideia!

Pediu ao amigo que lhe mandara a mensagem convidando-o para a noitada, que lhe emprestasse a gravata e um cartão de visita, e contou-lhe seu plano que bolara para a esposa ciumenta.

O amigo sorriu, concordou e lhe disse que se ela lhe telefonasse, colocaria mais lenha na fogueira...

Chegando em casa, propositadamente mais tarde que as noitadas anteriores, a esposa lhe aguardava roendo as unhas e tendo seu tique de torcer a língua quando zangada.

Antes que ela iniciasse a enxurrada de perguntas, entregou-lhe o celular, deixando cair ao chão, de propósito, a gravata e o cartão do amigo.

Ela rapidamente os agarra mirando com desconfiança.

Após escutar as mensagens gravadas, inclusive a do convite da noite, olha nos olhos do esposo, e pergunta secamente:

— Desde quando você deu para guardar gravata de homem?

— Desde que você iniciou suas suspeitas infundadas de ciúmes, completa ele - Aí estão as provas, não existe mulher alguma. Se quiser mais informações, ligue para ele...

— Não! Responde ela veementemente. Prefiro mil vezes ter ciúmes de mulheres...

— Então estamos de acordo! Diz ele - Nem ciúmes de homem nem de mulher! E que a santa paz volte a reinar nesta casa...

E, com um sorriso maroto, dirige-se ao bar para a última saideira...