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CADA UM NO SEU LEITO - aqui falamos do encontro das águas - TEMA ESCREVIVER DE 01 DE AGOSTO DE 2023
Casa própria - Adriana S. Frosoni
Casa própria.
Adriana S. Frosoni
(Releitura
da música Construção
de Chico
Buarque de Andrade)
Entrou mais uma vez na fila com o olhar tímido.
Só pensava no futuro, parecia máquina.
Obstinado por um sonho que parecia sólido.
Preencheu a papelada como se fosse a última.
Acreditou naquele sonho que era algo mágico.
Respondeu à entrevista para uma voz flácida.
Flutuou na esperança como se fosse um pássaro.
Contou a sua vida como se fosse pública.
Confiou na sua sorte, pois parecia lógico.
Agarrou-se àquela ideia porque era a única.
Aguardou o resultado como se fosse o máximo.
A resposta negativa lhe arrancou uma lágrima.
Aceitou o seu destino como se fosse óbvio.
Foi bem recebido em casa onde havia música.
Agradeceu a Deus que o dia fosse um sábado.
Deixou o dinheiro do aluguel como se fosse o dízimo.
Sobre meu pai - Adriana S. Frosoni
Sobre meu pai
Adriana S. Frosoni
Enquanto olho o céu, lembro-me de como costumava ser seu rosto quando você olhava para mim. Andávamos de mãos dadas quando seus ombros não mais permitiam me levar de cavalinho. Você costumava dizer que eu era uma bonequinha.
Não havia medo ao seu lado. Eu fazia planos sem fim e depois descansava no sossego da sua proteção. Acreditei que seria eterno porque gostava dessa ideia, assim como dos seus olhos cor de mel e do sorriso orgulhoso.
Uma foto talvez pudesse ter eternizado aqueles momentos para os dias que viriam de afastamento e dor. Eu ainda não sabia, mas o tempo e a distância iriam te roubar de mim.
E quando aconteceu, não houve negociação, porque não há exceção quando chega ao fim. No fundo, o amor sempre foi a resposta, mas você esteve tão alquebrado, por tanto tempo, que não pôde perceber a verdade. Lembro-me do seu rosto, do momento em que você partiu; não havia espaço para respirar.
Ainda pude sentir, algumas vezes, sua mão me conduzindo pelo ombro de uma maneira muito peculiar. Você nunca falou muito; não comigo!
Contudo, você se foi antes do que eu
esperava e eu fiquei com menos do que precisava. Eu nunca disse o suficiente; não
para você!
Um simples aquecedor - Ledice Pereira
Um simples
aquecedor
Ledice Pereira
Preciso trocar o aquecedor da minha casa e resolvo
pesquisar por telefone marcas e preços. Só em resolver telefonar para alguma
dessas empresas já entro em desespero. Começa minha saga:
– Lorenzetti Aquecedores a Gás, em que posso ajudar?
– Bom dia, eu preciso de informação sobre aquecedor
a gás para apartamento.
– Um momento. Vou estar passando para o
setor de vendas.
Fico invocada. Por que essas infelizes insistem em
usar o gerúndio? Será que ninguém falou pra elas que devem usar o infinitivo?
Aguardo impaciente a transferência, um, dois,
três… dez minutos e nada.
Desisto.
Parto para outra empresa:
— Bom dia,
Equigás, Assistência Técnica em Aquecedores a Gás, em que posso ajudar?
Explico novamente que preciso informação sobre
aquecedores de diversas marcas.
— Senhora, é para GN ou GLP?
— Pode me explicar a diferença?
Percebo certo suspiro. Em tom professoral, com
certa impaciência, ela explica:
— Bem, senhora, GN é gás encanado e GLP é gás
de bujão. Mais alguma pergunta?
Como se eu fosse obrigada a saber o que é cada um.
— Ah, respondo ironicamente, obrigada por explicar
com tanta atenção e paciência… Aqui é GN, então. Pode me explicar sobre a
quantidade de litros que usam duas pessoas em dois banheiros?
Mais uma vez consigo perceber a irritação da
atendente
— Senhora, vou estar passando para o
setor competente. Por favor, aguarde na linha. O telefone vai ficar mudo, mas
se precisar de alguma coisa é só chamar.
Durante os próximos dez minutos sou obrigada a
ouvir aquela musiquinha insuportável e repetitiva, com interrupções a cada
momento: EQUIGÁS, ASSISTÊNCIA TÉCNICA EM AQUECEDORES…
Antes de ouvir mais uma vez SENHORA, desligo.
Meu marido me pergunta o que me deixou tão irritada. Nem respondo.
Resolvo ir até uma loja física. Torço para que lá
não tenha que ouvir tanto gerundismo. Além de espairecer um pouco, espero encontrar,
in loco, um modelo de aquecedor que atenda à nossa necessidade, sem ter que ficar
à mercê desse atendimento impessoal que as empresas impõem a nós.
O PONTO FINAL DO ÔNIBUS - ANTONIA MARCHESIN GONÇALVES
O PONTO FINAL DO ÔNIBUS
ANTONIA
MARCHESIN GONÇALVES
Após oito horas de trabalho
no escritório, ela, como todos os dias fazia, andava algumas quadras a pé, até
chegar ao ponto final onde ficaria a espera da condução para o retorno para
casa. Normalmente, tem cinco ou seis pessoas na fila, com isso garante a
certeza de ir sentada até chegar ao seu destino.
Não morava perto, e o
trânsito fervia no horário do rush. Uma mistura nas vias de carros e coletivos,
que pareciam uma salada de frutas, quando não tinha acidentes, acabava fluindo.
Ao pegar fila sempre no mesmo horário, convivia com os mesmos colegas de
condução. Mas, era tímida, não conversava e por isso chamava atenção.
Quase todos se conheciam e ao
chegarem já perguntavam reciprocamente. Quando saiu o último, ou o nosso está
atrasado? A fila era um misto de homens e mulheres, poucos idosos. Os jovens
alegres comentavam: Como foi seu dia? Outros respondiam: O meu chefe estava de
amargar, acho que tomou café sem açúcar, ou o meu dormiu com a cueca do avesso.
Riam.
Fazia parte dos integrantes
da fila um rapaz que andava de bengala, teve paralisia infantil, outro um
jovem simpático e bonito, muito falante, que demonstrava ser apaixonado pela silenciosa
Anete, e outra jovem que com o tempo descobriu-se que era ninfomaníaca. O rapaz
simpático, que se interessava por Anete, perguntava. Do que você mais gosta? Qual
é a sua flor preferida? Tudo para demonstrar o seu sentimento.
Só que a colega ninfomaníaca,
já apaixonada por ele, tentava desviar a atenção como: A minha flor preferida é
a camélia. Às vezes pedia: Senta aqui comigo. Com ciúmes que demonstrava ao
vê-lo sentar com a Anete.
Nessa
salada, o jovem, que usava bengala, demonstra também gostar de Anete, e diz ao
colega simpático:
— Não
tenho chance, com esse meu defeito!
Ali na
fila formava-se um redemoinho de sentimentos sem controle.
Após um ano Anete anuncia sua
saída da empresa onde trabalhava, iria para um Banco, e sua condução seria em
outro ponto, não mais se veriam, e ali se despediram todos prometendo:
— Vamos
nos encontrar fora da fila, em algum restaurante, mas isso nunca aconteceu.
O HOMEM NU - FERNANDO SABINO
OUÇA — voz masculina: O HOMEM NU - FERNANDO SABINO
O HOMEM NU
FERNANDO
SABINO
Ao
acordar, disse para a mulher:
—
Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o
sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da
cidade, estou a nenhum. — Explique isso ao homem — ponderou a mulher. — Não
gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as
minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não
faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar —
amanhã eu pago. Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro
para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava,
resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para
apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado
e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo
padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia
aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si
fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento. Aterrorizado, precipitou-se
até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao
redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito,
mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da
televisão. Bateu com o nó dos dedos:
—
Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa. Quanto mais batia, mais
silêncio fazia lá dentro. Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador
fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares... Desta vez, era o homem
da televisão! Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou
que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a
segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:
—
Maria, por favor! Sou eu! Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na
escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao
redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar
um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele
sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de
abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de
mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o
embrulho do pão. Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa
a descer.
— Ah,
isso é que não! — fez o homem nu, sobressaltado. E agora? Alguém lá embaixo
abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum
vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez
para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de
Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do
Terror!
— Isso
é que não — repetiu, furioso. Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com
força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos,
para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o
botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais
nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer?
Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia
em fazer o elevador subir. O elevador subiu.
—
Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma
cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si. Voltou-se, acuado,
apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho
de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
— Bom
dia, minha senhora — disse ele, confuso. — Imagine que eu... A velha,
estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:
—
Valha-me Deus! O padeiro está nu! E correu ao telefone para chamar a
radiopatrulha:
— Tem
um homem pelado aqui na porta! Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver
o que se passava:
— É um
tarado!
—
Olha, que horror!
— Não
olha não! Já pra dentro, minha filha!
Maria,
a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou
como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho.
Poucos
minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.
— Deve
ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir. Não era: era o cobrador
da televisão.
Bandeira Branca - Luís Fernando Veríssimo - MEU CONTISTA BRASILEIRO - LEDICE PEREIRA
Ainda no projeto MEU CONTISTA BRASILEIRO — a LEDICE vai nos apresentar um dos tão fabulosos textos de LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO: BANDEIRA BRANCA
Será, a apresentação, na terça-feira, dia 06 de junho, às 14:30horas.
Bandeira
Branca
Luís Fernando Veríssimo
Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não
podia dar certo. Mas tinham só quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro
anos todos se entendem, de um jeito ou de outro. Em vez de dançarem, pularem e
entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das mães e
ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira,
até serem arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro
baile de Carnaval.
Encontraram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele
com o mesmo tirolês, agora apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram
recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães reagiram e os dois foram obrigados
a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns tapas. Passaram o
tempo todo de mãos dadas.
Só no terceiro Carnaval se falaram.
— Como é teu nome?
— Janice. E o teu? — Píndaro.
— O quê?!
— Píndaro.
— Que nome!
Ele de legionário romano, ela de índia americana.
***
Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se
encontrarem no Carnaval e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela
morava no interior, vinha visitar uma tia no Carnaval, a tia é que era sócia.
— Ah.
Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a
boca das meninas de confete, e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se
recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do vestido de imperadora.
Mas quase no fim do baile, na hora do “Bandeira Branca”, ele veio e a puxou
pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se
despediram, ela o beijou na face, disse “Até o Carnaval que vem” e saiu
correndo.
No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as
fantasias dos dois combinaram. Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um
casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam olhando. Até na boca.
Na hora da despedida, ele pediu:
— Me dá alguma coisa.
— O quê?
— Qualquer coisa.
— O leque.
O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.
***
No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à
procura, um havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não
conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro pensando nela, às vezes tirando o
leque do seu esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la
outra vez no baile. E ela não apareceu. Marcelão, o mau elemento da sua turma,
tinha levado gim para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. Teve que ser
carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava sendo lavado. O
que acontecera?
— Você vomitou a alma — disse a mãe.
Era exatamente como se sentia. Como alguém que vomitara a alma e nunca a
teria de volta. Nunca. Nem o leque tinha mais o cheiro dela.
Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube — e lá
estava ela! Quinze anos. Uma moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.
— Sei lá. Bávara tropical — disse ela, rindo.
Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou
que faltara no ano anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.
— E aquela bailarina espanhola?
— Nem me fala. E o toureiro?
— Aposentado.
A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um
brasileiro. Ela estava com um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente
bávaros. Quando ela o apresentou ao grupo, alguém disse “Píndaro?!” e todos
caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu uma desculpa e
afastou-se. Foi procurar o Marcelão. O Marcelão anunciara que levaria várias
garrafas presas nas pernas, escondidas sob as calças da fantasia de sultão. O
Marcelão tinha o que ele precisava para encher o buraco deixado pela alma.
Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida,
começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro.
Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná
clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos e
amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente
burro, talvez até criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças
curtas de couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu
dizer foi “pelo menos o meu tirolês era autêntico” e desistiu. Mas, quando a
banda começou a tocar “Bandeira Branca” e ele se dirigiu para a saída, tonto e
amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela,
meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o com os dois braços para dançarem
assim, ela dizendo “não vale, você cresceu mais do que eu” e encostando a
cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.
***
Encontram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso,
num aeroporto. Ela desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe.
Ele embarcando para encontrar os filhos no Rio. Ela disse “quase não reconheci
você sem fantasias”. Ele custou a reconhecê-la. Ela estava gorda, nunca a
reconheceria, muito menos de bailarina espanhola. A última coisa que ele lhe
dissera fora “preciso te dizer uma coisa”, e ela dissera “no Carnaval que vem,
no Carnaval que vem” e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais
aparecera. Explicou que o pai tinha sido transferido para outro estado, sabe
como é, Banco do Brasil, e como ela não tinha o endereço dele, como não sabia
nem o sobrenome dele e, mesmo, não teria onde tomar nota na fantasia de falsa
bávara…
— O que você ia me dizer, no outro Carnaval? — perguntou ela. — Esqueci
— mentiu ele.
Trocaram informações. Os dois se casaram, mas ele já se separou. Os
filhos dele moram no Rio, com a mãe.
Ela, o marido e a filha moram em Curitiba, o marido também é do Banco do
Brasil…
E a todas essas ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento
mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e que
todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida?
E ela pensando: como é mesmo o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele:
digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que ainda tenho o
leque?
Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu…
O Homem Que Sabia Javanês - Lima Barreto
Ouça aqui o conto O HOMEM QUE SABIA JAVANÊS
Veja e ouça o conto ilustrado: CONTO ILUSTRADO
Um resumo contado: falando sobre O Homem que sabia javanês
Uma análise: Analisando
Outra análise: Analisando de novo
O Homem Que Sabia Javanês
Lima Barreto
EM UMA
confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as partidas que havia
pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver. Houve mesmo,
uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a
minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que
afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho. Contava eu isso. O meu
amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido, até
que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo: - Tens
levado uma vida bem engraçada, Castelo! - Só assim se pode viver... Isto de uma
ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não
achas? Não sei como me tenho agüentado lá, no consulado! - Cansa-se; mas, não é
disso que me admiro. O que me admira, é que tenhas corrido tantas aventuras
aqui, neste Brasil imbecil e burocrático. - Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro,
se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de
javanês! - Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado? - Não; antes. E, por
sinal, fui nomeado cônsul por isso. - Conta lá como foi. Bebes mais cerveja? -
Bebo. Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei: - Eu
tinha chegado havia pouco ao Rio estava literalmente na miséria. Vivia fugido
de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro,
quando li no Jornal do Comércio o anuncio seguinte: "Precisa-se de um
professor de língua javanesa. Cartas, etc." Ora, disse cá comigo, está ali
uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro
palavras, ia apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre a
imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros
desagradáveis com os "cadáveres". Insensivelmente dirigi-me à
Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei
o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a
Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e a
língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que
Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o
javanês, língua aglutinante do grupo maleo-polinésico, possuía uma literatura
digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu. A
Encyclopédie dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não
tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação
figurada e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras. Na minha
cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas;
entrava nos jardins e escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem na
memória e habituar a mão a escrevê-los. À noite, quando pude entrar em casa sem
ser visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no
quarto a engolir o meu "a-b-c" malaio, e, com tanto afinco levei o
propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente. Convenci-me que aquela era a
língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o
encarregado dos aluguéis dos cômodos: - Senhor Castelo, quando salda a sua
conta? Respondi-lhe então eu, com a mais encantadora esperança: - Breve...
Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser nomeado professor de javanês,
e... Por aí o homem interrompeu-me: - Que diabo vem a ser isso, Senhor Castelo?
Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem: - É uma língua que se fala
lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é? Oh! alma ingênua! O homem esqueceu-se da
minha dívida e disse-me com aquele falar forte dos portugueses: - Eu cá por
mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras que temos lá para os lados
de Macau. E o senhor sabe isso, Senhor Castelo? Animado com esta saída feliz
que me deu o javanês, voltei a procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi
animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta,
passei pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei à biblioteca e
continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não
sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de
língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliografia e história
literária do idioma que ia ensinar. Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta
para ir falar ao doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga,
à Rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que número. É preciso não te
esqueceres que entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal
javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também
perguntar e responder "como está o senhor?" - e duas ou três regras
de gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico. Não
imaginas as grandes dificuldades com que lutei, para arranjar os quatrocentos
réis da viagem! É mais fácil - podes ficar certo - aprender o javanês... Fui a
pé. Cheguei suadíssimo; e, com maternal carinho, as anosas mangueiras, que se
perfilavam em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e
me reconfortaram. Em toda a minha vida, foi o único momento em que cheguei a
sentir a simpatia da natureza... Era uma casa enorme que parecia estar deserta;
estava mal tratada, mas não sei porque me veio pensar que nesse mau tratamento
havia mais desleixo e cansaço de viver que mesmo pobreza. Devia haver anos que
não era pintada. As paredes descascavam e os beirais do telhado, daquelas
telhas vidradas de outros tempos, estavam desguarnecidos aqui e ali, como
dentaduras decadentes ou mal cuidadas. Olhei um pouco o jardim e vi a pujança
vingativa com que a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as
begônias. Os crótons continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cores
mortiças. Bati. Custaram-me a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano,
cujas barbas e cabelo de algodão davam à sua fisionomia uma aguda impressão de
velhice, doçura e sofrimento. Na sala, havia uma galeria de retratos:
arrogantes senhores de barba em colar se perfilavam enquadrados em imensas
molduras douradas, e doces perfis de senhoras, em bandós, com grandes leques,
pareciam querer subir aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão; mas,
daquelas velhas coisas, sobre as quais a poeira punha mais antiguidade e
respeito, a que gostei mais de ver foi um belo jarrão de porcelana da China ou
da Índia, como se diz. Aquela pureza da louça, a sua fragilidade, a ingenuidade
do desenho e aquele seu fosco brilho de luar, diziam-me a mim que aquele objeto
tinha sido feito por mãos de criança, a sonhar, para encanto dos olhos
fatigados dos velhos desiludidos... Esperei um instante o dono da casa. Tardou
um pouco. Um tanto trôpego, com o lenço de alcobaça na mão, tomando
veneravelmente o simonte de antanho, foi cheio de respeito que o vi chegar.
Tive vontade de irme embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era sempre um
crime mistificar aquele ancião, cuja velhice trazia à tona do meu pensamento
alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesitei, mas fiquei. - Eu sou, avancei, o
professor de javanês, que o senhor disse precisar. - Sente-se, respondeu-me o
velho. O senhor é daqui, do Rio? - Não, sou de Canavieiras. - Como? fez ele.
Fale um pouco alto, que sou surdo, - Sou de Canavieiras, na Bahia, insisti eu.
- Onde fez os seus estudos? - Em São Salvador. - E onde aprendeu o javanês?
indagou ele, com aquela teimosia peculiar aos velhos. Não contava com essa
pergunta, mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe que meu pai era
javanês. Tripulante de um navio mercante, viera ter à Bahia, estabelecera-se
nas proximidades de Canavieiras como pescador, casara, prosperara e fora com
ele que aprendi javanês. - E ele acreditou? E o físico? perguntou meu amigo,
que até então me ouvira calado. - Não sou, objetei, lá muito diferente de um
javanês. Estes meus cabelos corridos, duros e grossos e a minha pele basané
podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço de malaio...Tu sabes bem que,
entre nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches, guanches, até
godos. É uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro. -
Bem, fez o meu amigo, continua. - O velho, emendei eu, ouviu-me atentamente,
considerou demoradamente o meu físico, pareceu que me julgava de fato filho de
malaio e perguntou-me com doçura: - Então está disposto a ensinar-me javanês? -
A resposta saiu-me sem querer: - Pois não. - O senhor há de ficar admirado,
aduziu o Barão de Jacuecanga, que eu, nesta idade, ainda queira aprender
qualquer coisa, mas... - Não tenho que admirar. Têm-se visto exemplos e
exemplos muito fecundos... ? . - O que eu quero, meu caro senhor.... - Castelo,
adiantei eu. - O que eu quero, meu caro Senhor Castelo, é cumprir um juramento
de família. Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do Conselheiro Albernaz,
aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres, trouxe para
aqui um livro em língua esquisita, a que tinha grande estimação. Fora um hindu
ou siamês que lho dera, em Londres, em agradecimento a não sei que serviço
prestado por meu avô. Ao morrer meu avô, chamou meu pai e lhe disse:
"Filho, tenho este livro aqui, escrito em javanês. Disse-me quem mo deu
que ele evita desgraças e traz felicidades para quem o tem. Eu não sei nada ao
certo. Em todo o caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou o
sábio oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda, para que sempre a
nossa raça seja feliz." Meu pai, continuou o velho barão, não acreditou
muito na história; contudo, guardou o livro. Às portas da morte, ele mo deu e
disse-me o que prometera ao pai. Em começo, pouco caso fiz da história do
livro. Deitei-o a um canto e fabriquei minha vida. Cheguei até a esquecer-me
dele; mas, de uns tempos a esta parte, tenho passado por tanto desgosto, tantas
desgraças têm caído sobre a minha velhice que me 1embrei do talismã da família.
Tenho que o ler, que o compreender, se não quero que os meus últimos dias
anunciem o desastre da minha posteridade; e, para entendê-lo, é claro, que
preciso entender o javanês. Eis aí. Calou-se e notei que os olhos do velho se
tinham orvalhado. Enxugou discretamente os olhos e perguntou-me se queria ver o
tal livro. Respondi-lhe que sim. Chamou o criado, deu-lhe as instruções e
explicoume que perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha
casada, cuja prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo e de
saúde frágil e oscilante. Veio o livro. Era um velho calhamaço, um in-quarto
antigo, encadernado em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado
e grosso. Faltava a folha do rosto e por isso não se podia ler a data da
impressão. Tinha ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li
que se tratava das histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito
mérito. Logo informei disso o velho barão que, não percebendo que eu tinha
chegado aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração o meu saber malaio.
Estive ainda folheando o cartapácio, à laia de quem sabe magistralmente aquela
espécie de vasconço, até que afinal contratamos as condições de preço e de
hora, comprometendo-me a fazer com que ele lesse o tal alfarrábio antes de um
ano. Dentro em pouco, dava a minha primeira lição, mas o velho não foi tão
diligente quanto eu. Não conseguia aprender a distinguir e a escrever nem
sequer quatro letras. Enfim, com metade do alfabeto levamos um mês e o Senhor Barão
de Jacuecanga não ficou lá muito senhor da matéria: aprendia e desaprendia. A
filha e o genro (penso que até aí nada sabiam da história do livro) vieram a
ter notícias do estudo do velho; não se incomodaram. Acharam graça e julgaram a
coisa boa para distraí-lo. Mas com o que tu vais ficar assombrado, meu caro
Castro, é com a admiração que o genro ficou tendo pelo professor de javanês.
Que coisa Única! Ele não se cansava de repetir: “É um assombro! Tão moço! Se eu
soubesse isso, ah! onde estava !” O marido de Dona Maria da Glória (assim se
chamava a filha do barão), era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas
não se pejava em mostrar diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu
javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses,
desistira da aprendizagem e pedirame que lhe traduzisse, um dia sim outro não,
um trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele; nada se opunha
que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e
cumpria o encargo. Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas
histórias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do crônicon. Como ele
ouvia aquelas bobagens !... Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras
de um anjo. E eu crescia aos seus olhos ! Fez-me morar em sua casa, enchia-me
de presentes, aumentava-me o ordenado. Passava, enfim, uma vida regalada.
Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu
parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a cousa ao meu
javanês; e eu estive quase a crê-lo também. Fui perdendo os remorsos; mas, em
todo o caso, sempre tive medo que me aparecesse pela frente alguém que soubesse
o tal patuá malaio. E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou
com uma carta ao Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia.
Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu
aspecto tagalo. - "Qual! retrucava ele. Vá, menino; você sabe
javanês!" Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com
diversas recomendações. Foi um sucesso. O diretor chamou os chefes de secção:
"Vejam só, um homem que sabe javanês - que portento!" Os chefes de
secção levaram-me aos oficiais e amanuenses e houve um destes que me olhou mais
com ódio do que com inveja ou admiração. E todos diziam: "Então sabe
javanês? É difícil? Não há quem o saiba aqui!" O tal amanuense, que me
olhou com ódio, acudiu então: "É verdade, mas eu sei canaque. O senhor
sabe?" Disse-lhe que não e fui à presença do ministro. A alta autoridade
levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, concertou o pince-nez no nariz e
perguntou: "Então, sabe javanês?" Respondi-lhe que sim; e, à sua
pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do tal pai javanês. "Bem,
disse-me o ministro, o senhor não deve ir para a diplomacia; o seu físico não
se presta... O bom seria um consulado na Ásia ou Oceania. Por ora, não há vaga,
mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fica
adido ao meu ministério e quero que, para o ano, parta para Bâle, onde vai
representar o Brasil no Congresso de Lingüística. Estude, leia o Hovelacque, o
Max Müller, e outros!" Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas
estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios. O velho
barão veio a morrer, passou o livro ao genro para que o fizesse chegar ao neto,
quando tivesse a idade conveniente e fez-me uma deixa no testamento. Pus-me com
afã no estudo das línguas maleo-polinésicas; mas não havia meio! Bem jantado,
bem vestido, bem dormido, não tinha energia necessária para fazer entrar na
cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei livros, assinei revistas: Revue
Anthropologique et Linguistique, Proceedings of the English-Oceanic
Association, Archivo Glottologico Italiano, o diabo, mas nada! E a minha fama
crescia. Na rua, os informados apontavam-me, dizendo aos outros: "Lá vai o
sujeito que sabe javanês." Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me
sobre a colocação dos pronomes no tal jargão das ilhas de Sonda. Recebia cartas
dos eruditos do interior, os jornais citavam o meu saber e recusei aceitar uma
turma de alunos sequiosos de entenderem o tal javanês. A convite da redação,
escrevi, no Jornal do Comércio um artigo de quatro colunas sobre a literatura
javanesa antiga e moderna... - Como, se tu nada sabias? interrompeu-me o atento
Castro. - Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o
auxílio de dicionários e umas poucas de geografias, e depois citei a mais não
poder. - E nunca duvidaram? perguntou-me ainda o meu amigo. - Nunca. Isto é,
uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um sujeito, um marujo, um tipo
bronzeado que só falava uma língua esquisita. Chamaram diversos intérpretes,
ninguém o entendia. Fui também chamado, com todos os respeitos que a minha
sabedoria merecia, naturalmente. Demorei-me em ir, mas fui afinal. O homem já
estava solto, graças à intervenção do cônsul holandês, a quem ele se fez
compreender com meia dúzia de palavras holandesas. E o tal marujo era javanês -
uf! Chegou, enfim, a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que delícia!
Assisti à inauguração e às sessões preparatórias. Inscreveram-me na secção do
tupi-guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar no Mensageiro
de Bâle o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas. Quando voltei, o
presidente pediu-me desculpas por me ter dado aquela secção; não conhecia os
meus trabalhos e julgara que, por ser eu americano brasileiro, me estava
naturalmente indicada a secção do tupi-guarani. Aceitei as explicações e até
hoje ainda não pude escrever as minhas obras sobre o javanês, para lhe mandar,
conforme prometi. Acabado o congresso, fiz publicar extratos do artigo do
Mensageiro de Bâle, em Berlim, em Turim e Paris, onde os leitores de minhas
obras me ofereceram um banquete, presidido pelo Senador Gorot. Custou-me toda
essa brincadeira, inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil
francos, quase toda a herança do crédulo e bom Barão de Jacuecanga. Não perdi
meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional e, ao saltar no
cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais e o presidente da
república, dias depois, convidava-me para almoçar em sua companhia. Dentro de
seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos e para onde
voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas da Malaia, Melanésia
e Polinésia. - É fantástico, observou Castro, agarrando o copo de cerveja. -
Olha: se não fosse estar contente, sabes que ia ser ? - Que? - Bacteriologista
eminente. V amos? - Vamos.
