O EMPREGADO - Antonia Marchesin Gonçalves


                       


O EMPREGADO
Antonia Marchesin Gonçalves


                Alguns anos após a minha chegada ao Brasil, consegui abrir a minha empresa de empreiteira trabalhando na construção e reformas de casas. Muitos dos meus empregados eram brasileiros, mas também italianos que chegavam aqui sem emprego eu os ajudava até se estabelecerem e trazerem suas famílias.

                Certo dia, ao chegar cedo à empresa, já havia vários homens na fila para as entrevistas, e qual não foi a minha surpresa, ao ver um conterrâneo na fila, entrei no escritório e pela janela fui olhar, para confirmar minha suspeita sobre essa determinada pessoa. Realmente era ele, envelhecido, cabeça baixa, muito diferente da soberba do jovem que conheci, apesar disso o reconheci. Era meu vizinho, crescemos juntos, estudávamos na mesma escola, isso bem antes da ascensão do fascismo do Mussolini. Jovens e amigos, mas a diferenças políticas nos distanciou.

                Ele se tornou um verdadeiro fanático, enquanto eu era totalmente contra. Assisti às discussões e brigas horríveis e sempre ele era o protagonista delas. De adolescente alegre, tornou-se um homem prepotente e autoritário, com um olhar de lobo feroz. Com o seu grupo de fanáticos tentavam convencer aos outros, nem que fosse a força. Um exemplo que mais me impressionava eram as invasões às casas dos adversários, munidos de óleo de rícino, torturando os moradores jogando o óleo goela abaixo, pichando também as casas, outra forma de intimidar.

                Após o início da guerra não o vi mais, e em 1949 vim para o Brasil e quando retornava à minha cidade, ninguém sabia notícias dele. Ao olhá-lo agora na fila da minha empresa não vejo mais aquele olhar, nem a prepotência e sim uma pessoa derrotada pela guerra. Ao chegar a sua vez na entrevista não me reconheceu de imediato, precisei de um tempo para que se lembrasse de mim e surpreendentemente começou a chorar, arrependido do ocorrido naquela época.

                Tornou-se o meu melhor empregado, de confiança total, vestindo a camisa da empresa como se fosse dele até morrer.
               

PRIMOS REAIS - “REIS”. - Mario Augusto Machado Pinto





PRIMOS REAIS - “REIS”.
Mario Augusto Machado Pinto



Até o momento não entendo o porquê desta reunião entre os primos. Cada um tem a ordem e a justiça em absoluta inércia, não haveria desordens nem ofensas às leis nos dois reinos, não reinassem os dois com pesadas e fortes mãos de ferro. O lema é “Psiu, quieto, do contrário vai dormir no palheiro da hospedaria! ”.

Pelo meu parecer só pode ser o Rei Carlos querer acertar questiúnculas e desavenças familiares pendentes de longa data envolvendo territórios limítrofes ao seu reino.

O salão da reunião – o da Coroação, imaginem! – Já está preparado com simplicidade, pois quer receber o primo Felipe com o mínimo de rapapés, por sinal lá vem ele transpondo a entrada do salão. Carlos entra ao mesmo tempo e para surpresa geral diz Fiquem apenas eu e o outro! O resto – FORA! É prontamente obedecido por todos com inequívocos sinais de desagrado. E CARA ALEGRE!  Comanda recebendo murmúrios contrariados.

— Primo, não há assentos, diz Felipe querendo quebrar a impressão de clima de cachorro louco.

— Não é preciso, responde Carlos, pois o que eu tenho a lhe dizer é pouco.

Replica Felipe:

— Pois eu não. Minha Majestade tem muitas contas a acertar.

Nesse momento, Carlos que dá as costas ao primo, vira-se, olha-o diretamente nos olhos e diz:

— De início, não aceito qualquer reivindicação. Tudo me pertence e já vem na Família há cinco séculos...

Felipe, cortando a fala de Carlos, retruca:
— Assim é, posto que na verdade as terras foram roubadas ao matarem meus ancestrais nesta mesma sala. Quero de volta aquilo que por direito me pertence.

Furioso, Carlos grita

— Nunca! Guerra será a resposta a esta mentira!

Assim falando avança jogando sobre Felipe seu corpanzil que a nova armadura torna ainda maior. O contraste com a de Felipe é enorme: parece velha, pobre de adornos e não tem mais o brilho inicial.

Os primos jogam-se um contra o outro e, parecendo abraçados, murmuram algo entre si. Separam-se. Felipe retira-se. Altivo na aparência, pisa duro e pesado.

Carlos fica parado em pé suportando o peso dos seus aparatos. Tem sorriso matreiro no rosto barbudo.

Ouvi o que murmurou baixinho:
— Ele disse que gostou da minha nova armadura. 



INIMIGOS ÀS AVESSAS - Sérgio Dalla Vecchia



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INIMIGOS ÀS AVESSAS
Sérgio Dalla Vecchia



Henrique, soberano de reino do Norte, fazia um ótimo governo. Competente nas atitudes e benevolente nas injustiças.

Acontece, que rei Felipe das terras do Sul, era amigo de infância do rei Henrique.

Era uma estratégia ótima para os dois Reinos, fingiam-se inimigos. Um prometia atacar o outro e assim soberanos vizinhos não arriscavam guerrear, enquanto houvesse a cizânia.

Assim, em uma reunião anual de governantes em Reino neutro, eles travaram uma calorosa discussão.

Henrique pediu a palavra e atacou moralmente Felipe:

— Você é um esbanjador, cobra impostos demais dos súditos, para gastá-los em construções faraônicas, joias para a rainha e suas amantes. Não aplica nada para o bem-estar do povo. Você declara guerra há tempos e não a faz. É um frouxo! - O insulto foi tão veemente, que Felipe não distinguiu farsa e realidade, partiu para o contra-ataque:

—Você é que é um falastrão, gasta tudo em propriedades rurais com palácios de verão, lagos e jardins. Promove bailes luxuosos com as melhores orquestras, presenteia amantes com mimos caríssimos e ainda tem coragem de me criticar! - Contra-atacou com o fígado, Felipe.

Os ânimos exaltados e convidados perplexos, o rei Fernando continuou:

—Então é assim! Não tenho alternativa, senão declarar guerra. - Desembainhou a espada, reverberando pelo ambiente o som do aço rasgando a bainha.

Felipe, como um raio pôs-se em pé, já com espada em punho e bradou com todos os pulmões:

— Morte ao Reino de Henrique!

Nisso, os dois se puseram frente a frente. Não estavam convictos da farsa e da realidade, olhos nos olhos, respirações quentes e um silêncio preocupante. Fernando tomou a iniciativa, e ao pé do ouvido de Felipe perguntou:

— É guerra ou javali assado?

— Felipe com fisionomia fechada, encarou todos com indiferença, pensou por instantes e respondeu na orelha do inimigo como se a estivesse mordendo:

— É javali, sim! Nos encontraremos na taberna do Padre. Já está tudo preparado.

Assim esgrimiram um pouco, simulando uma luta real diante dos soberanos boquiabertos. Houve até torcida!

Empataram pelo cansaço e prometeram continuar a guerra no dia seguinte com seus exércitos. Atitude aplaudida por todos.

A noite se fez dia na taberna do Padre, tamanha animação da farra dos dois amigos!

O TEMPO SEMPRE PASSA, NÓS COM ELE - Oswaldo U. Lopes





O TEMPO SEMPRE PASSA, NÓS COM ELE
Oswaldo U. Lopes



        Aconteceu num plantão do PS, banal não é? No HC as coisas acontecem é num plantão. Nas Enfermarias, no dia a dia é raro que suceda algo marcante. Quero dizer, coisas e fatos são registrados, mas você vai passar anos tentando lembrar-se de um momento notável.

        No plantão do PS o memorável mora ao lado, vira e mexe ele atravessa a porta. De preferência quando a noite avança e o sono esta tão convidativo, como convidativa esta a maca do corredor, refúgio de acesso fácil.

        Bem noite alta, entra a moça vomitando e chorando. Caso comum, não chamo de banal, pra não parecer que somos absolutamente desumanos, somos apenas médicos que engrossamos a casca de tanto ver e acompanhar o sofrimento alheio.

        Como dizia, caso comum, gravidez não desejada, soda cáustica ingerida, queimação forte na boca do estomago, vômitos.

        Doutor, me ajude! Posso ajudar, aborto não podemos fazer ainda, talvez no futuro, do jeito que a coisa vai, acho difícil.

        Vamos passar uma sonda para alimentação, interná-la e encaminhar para uma Enfermaria de Cirurgia. Cheguei a acompanhá-la por um tempo, depois perdi de vista.

        Vinte anos são passados. Lembro, vagamente, da situação dela que está sentada a minha frente.

        Sobreviveu, teve a criança, uma menina, hoje uma moça que, quem diria, estuda Medicina aqui mesmo na FMUSP.

        Não casou, toca a vida, a família aceitou a gravidez e o que veio junto. Sentiu-se amparada. A assombração do estreitamento entre o esôfago e o estomago, causada pela soda, a terrível esofagite cáustica ficou na lembrança.

        Um enxerto de intestino grosso (colón transverso) no local do estreitamento acertou a situação. Uma cirurgia boa na intenção, mas eivada de intercorrências, correra na maior lisura. Alimentava-se bem e sem sofrimentos.

        O suposto pai afastara-se e não assumira. Ela também não o queria, não era o par certo para formar família.

        Não achou o par certo nem par incerto. Tocou em frente, criara a menina e isso lhe bastava. Bastava?

        Certo que não, à noite, às vezes ainda chorava baixinho. A solidão estava tão perto que era possível tocá-la e nela passar a mão.

        Entre uma coisa e outra, a menina e os encargos, a vida levara ela, ou como gostava de cantarolar “vida leva eu”.

        Ah! Lembrei o nome. Chamava-se e ainda se chama Isabel, a filha Eleonora, Dra. Eleonora, logo, logo...

Um caso de infidelidade - Maria Amelia Favale



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Um caso de infidelidade
Maria Amelia Favale



Aconteceu mesmo, e foi com o vizinho Francisco que morava em frente à minha casa. Pela janela eu via a movimentação de sua residência  lá dentro. Ele quase nunca estava lá, sempre viajando a serviço de sua empresa. E ela recebendo amigo.

Um dia vi a vizinha recebendo alguém, que eu não lembro de ter visto antes. Anita recebeu o belo jovem rapaz com um beijo. Isto não parecia ser normal, mas não se deve interferir na vida dos outros. Apesar de tudo, desse dia em diante fiquei ainda mais atenta. Era notório que algo novo estava acontecendo naquela casa.

Relembrando uma conversa com ela, quando disse que seu marido era ciumento, passei de curiosa à preocupada com as constantes visitas furtivas do jovem amante.

Dias depois vi o carro da polícia na porta da Anita. Soube que foi encontrada morta na cama. Muito comentado foi esse fato horrível. Porém, alguém confirmou que era natural que isto acontecesse.

As investigações foram realizadas, e o marido, maior suspeito nesses casos, estivera viajando e comprovava com as passagens aéreas e notas do hotel. Foi ele que encontrou o corpo na manhã que chegou de viagem.  O detetive não conseguia se desvencilhar da hipótese de que o marido era o assassino, pois tudo levava a crer que fosse ele, ainda mais depois que descobriram o tal amante, um rapazote com menos de vinte anos, um garoto de programa que ela sustentava com o pagamento de seus encontros.

Dez anos se passaram e até hoje não se identificou o criminoso.

Hoje, pela janela vi o Francisco recebendo a namorada, vejo-a chegar com maleta pequena e uniforme de aeromoça, por acaso a mesma companhia aérea que ele sustentou ter utilizado na época do crime, e até comprovou com as passagens.

Hoje sei de tudo! Com essa modernidade de ser virtual,  ele fez o check-in e o cheque-out do hotel, online. E naquele avião ele não entrou, para ir nem para voltar. O check-in também fez online. Quem embarcou em seu lugar foi o irmão da Gisele. Quem me garante é a própria Gisele, a aeromoça, minha grande amiga, que se orgulha de ter ajudado o amante a se livrar da esposa infiel. 



Primeira lembrança de infância - Vera Lambiasi




Nossa ex-aluna Vera Lambiasi, envia-nos uma gostosa crônica de sua primeira lembrança.


Primeira lembrança de infância
Vera Lambiasi


Tupã, rua Guaianazes, balcão de azulejos brancos da cozinha. Hoje chama-se ilha, mas antigamente era uma construçãozinha alta mesmo, com um armarinho no vão. Do chão éramos arremessados e sentados, para amarrar os sapatos, olhar um dente nascido, ou enfiar comida na goela. Mas neste dia, de 1964, serviu para minha mãe observar o pé direito da incauta motorista de triciclo. Havia um machucado que varava o dorso e alcançava a sola.

— Têêêê, traga o mercúrio cromo!
— Virgem Santíssima, isso vai arder Dona Yari.
— Quem mandou se meter com os moleques da rua?

Pois bem, não andávamos de tico-tico como todo mundo. O pé esquerdo ia no estribo traseiro do veículo e o direito impulsionava o chão para ganhar velocidade. Mãos firmes no guidão. A rua perpendicular era uma descida, e na esquina uma curva acentuada feita em perfeito equilíbrio.

Às vezes falhava, sorte não haver carro, carroça ou caminhão naquele instante.

A capotagem deve ter sido espetacular, mães exasperadas surgiram de toda a vizinhança. Algumas com aquele sentimento obscuro de “não é meu filho, graças a Deus”.

Sangue, suor e lágrimas era o filme da época, e meu acidente uma adaptação infantil da guerra que assolou a rua da minha infância. Protagonismo injusto para uma menina tão faceira.

Chamada do farmacêutico Victor Hugo, para dar mais drama. Curativo feito depois de muitos gritos de merthiolate, anti-tetânica vinda de Bauru. Triciclo no bicicleteiro para manutenção por um mês, de castigo. Nunca que voltava.

Enfim chegou, novinho, pintado, todo verdinho.

Pé recuperado, mas só tive permissão para brincar de pipoqueiro com ele.

Sabe quando levanta a roda da frente e roda os pedais fingindo fazer pipoca?

— Uma com vinagre, Dona Vera Lúcia, arrulhava mamãe.

Conversa x Desconversa - José Vicente J. Camargo


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Conversa  x Desconversa
José Vicente J. Camargo



Oh Compadre! Você que é pessoa viajada, aproxima que quero te contar algo:

Estava ontem no bar do Luiz e ouvi uma conversa entre dois sujeitos de fora, arrogantes, que não consegui compreender tal a quantidade de palavras que fugiam do meu conhecimento. Me pus a indagar se não falavam portunhol, o idioma dos “hermanos” misturado com o nosso. Curioso em saber se não tramavam algo suspeito, de polícia – até que seria prazeroso pegá-los em flagra dado o ar presunçoso que tinham daqueles que comem sardinha e arrotam garoupa − puxei do bolso meu caderninho de anotações e disfarçadamente fui escrevendo o diálogo entre eles, que aqui está:

“Para mim a Matilde foi culpada, o provocou! A vi naquela noite saindo da estau e a segui porque bem sabes que tenho um apetite pela rapariga. Entrou na ovençal do Manuel e por uma das janelas aberta pude vê-lo dando um bíbulo e tanto de gargalho enquanto olhava Matilde. Em seguida fez um reunido e deu uma baita esputação. Depois, agarrando seu braço com força, apontou para o sable no brasão da família pendurado entre as estantes repletas de garrafas com o segredo familiar do qual ele tanto se orgulhava.

Mas então ele estava numa carraspana? É uma pena para quem veio de antepassados tão otimates. E depois, o que se passou?

Tentei me aproximar da janela para ver e ouvir melhor, mas, dado a chuva da tarde, escorreguei num lamaçal humifuso e, pra não cair, me agarrei numa lata de lixo que, não aguentando o peso, rolou rua abaixo. Com o barulho, Manuel, sem me ver na penumbra da noite, fechou a janela. Levantei, procurei uma nova brecha na janela e minutos depois deu-se o tiro”...

Justo nessa hora, continua o narrador, um deles atende o celular, paga a conta e ambos saem do bar me deixando com o final da estória a ver navios...

Aconselho que consultes um dicionário português para palavras em desuso e compreenderas o texto, responde o Compadre. Mas te adianto que não é portunhol e não há nada de comprobatório, já que não temos o final da cena. Caso encontres os dois sujeitos novamente no bar, tente puxar conversa e “joga verde pra colher maduro”, isto é: se não conhecem certa Matilde que recebeu uma esputação de um tal Manoel que estava numa carraspana danada no ovençal deste, etc, etc...

 Mas cuidado! Se te oferecerem um bíbulo, faça um renuído, desconversa e saia de mansinho, pois, pode ser que o “apetitoso” da Matilde foi quem deu o tiro e com certeza não vai querer testemunhas...





A enfermeira Antonieta - Ises A. Abrahamsohn




A enfermeira Antonieta  
Ises A. Abrahamsohn



Quando Armando conheceu Antonieta ela já fazia o turno da noite em um grande hospital. Trabalhava de segunda a sexta todas as noites e explicou ao namorado que assim ganhava bem mais. Já se acostumara desde que terminara o curso médio de enfermagem. O namoro acontecia aos sábados e domingos ficando à toa no apartamento de Armando ou às vezes indo ao cinema. Compartilhavam o gosto por música pop americana e por seriados de suspense. A moça gostava de cozinhar o que era mais uma razão para o entusiasmo de Armando. Sentado na cozinha se encantava ao vê-la de jeans, camiseta e avental preparando receitas de macarrão. Lembranças da comida de infância preparada pela avó italiana. Embevecido, repetia que ela se parecia com uma madona de Botticelli.

Um dia iremos à Itália, dizia, mostrando as reproduções num livro de arte. De fato, Antonieta com o cabelo loiro comprido trançado e rosto de pele alvíssima e perfeita poderia passar por uma jovem do norte da Itália. Tinha 30 anos, mas aparentava menos. Tudo nela era delicado e suave. Os gestos, a fala, o olhar, as roupas. Vestia-se de acordo, decotes discretos, cores delicadas. Na cama retribuía calidamente as carícias, sem iniciativas próprias ou sinais de ardente paixão. A Armando não importava a relativa falta entusiasmo, detestava mulheres agressivamente sensuais.

Após um ano, Armando propôs casamento. O ordenado como engenheiro de computação permitiria que ela deixasse de trabalhar à noite. A moça foi peremptória. Não deixaria o trabalho noturno bem pago. Ademais, sempre fora uma pessoa do tipo noturno, detestava acordar cedo e ter que, sonolenta, enfrentar o trabalho. Por fim, Armando cedeu. Viam-se quando ele chegava do trabalho e ela se preparava para sair, e de manhã, quando ela chegava e ele estava de saída. Telefonavam-se algumas vezes durante a tarde ou antes da meia noite. Amavam-se nos fins de semana. Nada muito diferente dos tempos de namoro.

Armando era feliz. Antes demasiado sério e sisudo, ficou mais alegre, e passou a se relacionar melhor com os colegas de trabalho, a maioria mais jovem. Um deles o convidou para a despedida de solteiro do Carlos naquela sexta-feira. Armando tentou se esquivar com várias desculpas mas acabou cedendo. Não gostava nada dessas despedidas, sabia bem como eram. Muita bebida, o ambiente carregado de sexo e garotas insinuantes meio despidas. Mas Carlos era o chefe do setor. Pegaria mal não aparecer. Ainda deu uma ligada para Antonieta sem entrar em detalhes avisando que iria jantar com o pessoal do escritório.

A tal casa noturna era luxuosa. Armando sentou-se com alguns colegas a uma mesa afastada da pista elevada que funcionava como palco. Pediu um sanduíche e um gin tônica que pretendia alimentar com tônica durante o resto da noite. O pessoal mandou ver na bebida. O show iria começar e Armando queria aproveitar para cair fora. Foi se despedir do noivo. Este já bem alto não o deixou sair. Você não pode sair agora. Fique para o início do show . É imperdível.

Armando se viu empurrado para sentar na cadeira de pista ao lado do chefe. O ambiente estava quase às escuras. A música anunciava a primeira atração da noite. Sob um facho luz azul surgira no palco uma enorme concha branca.  E, desta, bem devagar ergueu-se aquela jovem, de pele de alabastro, esguia, rosto suave, completamente nua. Ficou ali de pé, imóvel, por talvez uns três minutos. Um dos braços destacava o seio perfeito enquanto a outra mão mal escondia o púbis sob uma mecha dos longos cabelos loiros.

Armando lançou um grito desesperado: Antonieta!  E desmaiou.

CASAMENTO NA SUÍÇA - Antonia Marchesin Gonçalves



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CASAMENTO NA SUÍÇA
Antonia Marchesin Gonçalves



                Quando meu marido se tornou executivo da multinacional Sara Lee, após a venda de nossa torrefação para eles, durante cinco anos fomos para a Suíça em função de reuniões anuais na cidade de Zug. Linda cidade como todas lá, com chalés pelos pequenos vilarejos em volta do enorme lago, que eu aproveitava para conhecer. Numa dessas viagens coincidiu de sermos convidados para o casamento da filha de amigos nossos na cidade de Basel, a 30 km da capital Zurick.

                O casamento na Catedral estava marcado ao meio dia, ao que começou pontualmente sem atraso da noiva. De carro saímos de Zug e chegamos em tempo, com tranquilidade. A igreja ficou grande por ter poucos convidados, em torno de 60 pessoas no máximo, que não aparentavam otimates. Após a cerimônia saímos da igreja e num cortejo a pé, mas não fomos para nenhum salão, fomos todos para um parque público que havia atrás da igreja. Os noivos seguiam na frente. Ao entramos no parque, tive uma grande surpresa ao ver duas barracas, tipo de feira livre, numa havia sanduíches embrulhados, e na outra, espumantes sendo servido por uma garçonete no gramado humifuso e muitos bíbulos presentes.

                Os noivos ficaram num canto recebendo as felicitações e presentes, muito deles eram envelopes com dinheiro, transeuntes passavam por nós e seguiam os seus caminhos sem pensar em jamais se meterem de bicões, os noivos nem precisaram usar o renuído, e em momento nenhum alguém fez o gesto de esputação. Após uma hora os noivos e familiares foram para a barcaça pública para atravessar o lago, onde estavam hospedados no stau, Nós fomos de carro alugado e nos instalamos num pequeno stau em frente ao lago, que na entrada havia um brasão todo em sable .

                À noite teve o jantar para os familiares para o qual fomos convidados. O ovençal estava bem provido. Dançamos a moda brasileira e ninguém chegou à carraspana. No dia seguinte pegamos estrada em direção à Itália para visitar meus parentes. Analisando os vilarejos suíços, lindos para fotografia, mas morar lá é outra coisa, as pessoas não me pareciam felizes, pois pelo que vivenciei todos eram muito comedidos, sempre preocupados o que os outros podiam pensar e o policiamento entre moradores grande, sem liberdade de ser, viver como quisessem. Isso foi confirmado, pois nas férias de verão em minha cidade Jesolo com 10 km de praia, os suíços soltavam a franga, com se diz na gíria, faziam tudo que não tinham coragem de faze em suas cidades.


Primeira vez - José Vicente J. Camargo



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Primeira vez
José Vicente J. Camargo 
  


Os flocos de neve batiam suaves nas vidraças do meu apartamento de quarto e cozinha no edifício reservado pela Universidade de Hannover - Norte da Alemanha - aos estudantes estrangeiros. Minha curiosidade de primeira viagem não me desgrudava da janela onde via os flocos de neve cobrindo a paisagem e tudo o que ela abraçava: pessoas, casas, ruas, calçadas, jardins, carros de um branco fofo refletindo a luz tênue do sol. Os transeuntes vestindo pesados casacos e sapatos de solas espessas, andavam cautelosos evitando possíveis quedas. Os carros acompanhavam essa cautela com velocidade reduzida e as crianças, com seus espíritos destemidos e empurrando trenós, sorriam prevendo as brincadeiras de esconde-esconde evitando uma bolada gelada na cara. Este cenário remexia minha mente recordando das tantas vezes que indaguei como seria a sensação de ver, tocar e brincar na neve. E agora ali estava, resolvido a sair à rua para pisar naquele bolo branco e curtir, pela primeira vez, todas essas sensações.

Era um sábado de manhã, férias de inverno, faltando uma semana para o Natal. Naquela tarde pretendia dar sequência à minha correspondência natalina, contando e descrevendo à família e aos amigos todas as novidades e sensações da “primeira vez” num mundo novo, agradecido pelo que o destino me estava presenteando.
O toque inesperado da campainha me desperta do devaneio. Tentando adivinhar quem poderia ser, abro a porta e me deparo numa surpresa total – jamais adivinharia com meu amigo americano Steve que conheci nos primeiros meses na Alemanha, fazendo o curso de alemão que recebi junto com a bolsa de estudos. Ao seu lado me apresenta sua irmã Mary, uma loirinha de lindos olhos azuis, corpo escultural que fez minha cabeça tomada pela neve se derreter com os raios de luz provenientes do seu sorriso gracioso. Passado o estupor do encontro, Steve diz:

Acabamos de chegar de Los Angeles! Viemos te buscar para passarmos o Natal e ano-novo esquiando. É meu presente à Mary que entrou na faculdade. Aluguei um carro lá para retirá-lo aqui. Vamos buscá-lo na locadora e de lá pegamos a autoestrada para as montanhas.

− Certo! Retruco eu. É que os poucos meses que vivo aqui me estão levando a pensar como os alemães que preparam meses para uma viagem como essa. Eles são inimigos do imprevisto, do não planejamento.

Com a cabeça novamente em reboliço −ainda bem que não assumi nenhum compromisso para as festas de fim de ano − amasso umas mudas de roupas das mais quentes na única mala que possuo, tranco porta e janelas e, sob o neviscar incessante, nos dirigimos a agência locadora onde um Ford americano nos esperava. Fico aliviado quando Steve, apesar de cansado, toma a direção do carrão, pois, dirigir em zig-zag na neve, seria para mim uma primeira vez, e poderia terminar mal.

Sentia uma ansiedade pelo “tudo novo” que estava acontecendo: nevasca, viagem às montanhas, esquiar em neve verdadeira e uma “pontinha” de felicidade pela companhia da Mary mesmo sem saber o final. Tomamos a autoestrada decidindo o rumo a tomar: Alpes alemães, franceses, suíços ou os ressortes menos comerciais da Áustria? Optamos pela Áustria dado a menor distância e aos preços mais acessíveis. Explico aos amigos que minha experiência com esqui se restringe a vê-los nas vitrines.

− Aprende-se rápido! Eu te ensino! Interrompe Mary. Minha ansiedade cede lugar a uma gostosa sensação de bem-estar...

Dia seguinte, com céu azul, sol brilhante e frio gelado, deixamos a loja de aluguel de esqui e apetrechos em direção ao ônibus que transporta os esquiadores até o pico da montanha próximo aos três mil metros de altura. Quando miro o pico de destino e o caminho a percorrer, gaguejo se não seria melhor eu ficar em baixo junto com a crianças da escolinha esquiando entre os personagens da Disney, mas Mary me interrompe:

− A neve aqui não está boa, está dura! Lá em cima é melhor! É neve fresca, fofa...

Com essas primeiras “dicas” sobre as condições da neve, subo no ônibus com aquele pensamento próprio para o momento: “Seja o que Deus quiser”!

A subida me pareceu bem pior que as “curvas da estrada de Santos” e, ao chegar, empurrado pra fora pelos afoitos esquiadores a bordo, me vejo no cume da montanha, de esqui no pé − que só consegui calçar com a ajuda do Stevens − mirando o precipício abaixo com inveja dos demais que como flechas se atiravam montanha abaixo desviando de árvores e pedras e em poucos minutos chegavam ao pé da pista. Steve e Mary se prontificaram a me ensinar as regras básicas, mas – vendo a vontade deles de deslizarem morro abaixo, recusei e disse que daria uma de autodidata e os encontraria no restaurante onde marcamos encontro.

De início tentei usar a imaginação dos movimentos vistos em reportagens esportivas ou imitar os esquiadores que por mim passavam, mas mediante tantas curvas e empecilhos – no caminho tinha uma pedra – de tantos tombos e malabarismos para recolocar os esquis que se soltavam e teimavam em escorregar sozinhos, decidi encerrar a aventura na metade do trajeto e carregar o par de esqui nas costas. No restaurante, Mary e Steve me receberam com cerveja para batizar a minha estreia.  Não contei todo o acontecido para não estragar a comemoração, mas enfatizei que dia seguinte, sem falta, faria minha matrícula na escolinha dos principiantes.

− Ah! Interrompe Mary, te farei companhia. Serei pela primeira vez professora de esqui! Depois de amanhã estará apto a retornar conosco ao pico da montanha.

E eu, pensei, serei pela primeira vez um aluno que levará tombos não só pelo enroscar das pernas e braços, mas sobretudo pela falta de atenção toda voltada aos trejeitos rebolantes da professorinha que, apesar do frio, me faz arder o peito.

Sensação que sinto pela primeira vez...