A ESTRELA GUIA - CONTO DE NATAL



 A ESTRELA GUIA
UM CONTO DE NATAL


Rodolfo, de aparência rude, porém simpático, estatura mediana, possuía braços fortes e mãos calejadas por conta de seu trabalho. Era feirante e herdara do pai a barraca de feira onde de segunda a sexta-feira, vendia frutas em diversos lugares da periferia da cidade de São Paulo.

Com 43 anos, aparentava ter mais idade, expressão herdada do esforço de seu trabalho. Casado desde os 28 com Gabriela, professora primária, pouca coisa mais baixa que o marido, beleza serena, chamava atenção pelos seus cabelos longos e demasiadamente pretos, sempre muito bem cuidados e presos em longas tranças.  Seu único filho Gabriel, de 12 anos, terminara o 1º grau na escola com louvor, era um menino muito curioso e atento, alto para sua idade, simpático como o pai, cabelos negros como os da mãe. Adorava ler, e sempre estava a par das noticias e acontecimentos do dia.

Rodolfo como de hábito, levantou-se por volta de 4hs da madrugada, para poder chegar logo cedo ao CEAGESP, o entreposto onde adquiria as frutas que iria vender durante o dia. Estava muito contente, pois teria a companhia do filho, que pedira para nos dias de férias acompanhá-lo à feira. Desta vez, por ser véspera de Natal, aumentaria a quantidade de frutas que costumava levar. Dirigindo o seu caminhão Ford 2003, um pouco velho, porém bem conservado e tendo ao seu lado Gabriel, sai de casa por volta das 4,30h, rumo ao entreposto.

No caminho ainda na escuridão, a atenção do menino se fixou num ponto do céu onde uma estrela com grande luminosidade, parecia estar pendurada em uma espécie de cauda toda iluminada.  Após admirar a estrela, percebe que ela parecia  segui-los durante o trajeto, aumentando e diminuindo de intensidade por breves períodos.  Ao chegar ao local, esquece por momentos a visão que tivera e vai ajudar o pai carregar o caminhão. Tudo pronto, pai e filho retornam à cabine do caminhão para retorno. No portão, o pai acende os faróis do caminhão e avista a estrela em forma de cometa. Intrigado, chama atenção do filho para aquela visão. Ele lhe conta que já a avistara desde que partiram de casa e que tinha a sensação de que ela os seguia. Curioso como era, indaga ao pai que estrela seria aquela. O pai, um pouco encabulado, lembra-se da historia que lhe contaram quando fez o catecismo na igreja. Diz ao garoto que aquela estrela era parecida com a que guiou os reis magos até a manjedoura, onde havia nascido o menino Jesus. Perguntado quem eram os reis magos, explica que eram reis de reinados distantes de onde nascera Jesus, e que  ao saberem ter nascido o rei dos reis,  foram até lá, guiados por uma estrela, para prestarem ao recém-nascido suas reverências e ofertarem os presentes que portavam.

Passado alguns minutos e pensando estar a caminho da feira, Gabriel então lembra sobre o apelo que ele vira pela televisão, para que doassem o que pudessem, a fim de atender e amenizar o sofrimento dos muitos desabrigados pela catástrofe, provocada com o rompimento de uma barragem em Minas Gerais, na cidade de Mariana.

Depois de parar em um posto de gasolina, Rodolfo por curiosidade pergunta ao frentista se estava vendo alguma estrela diferente no céu, a reposta foi negativa. Fez a mesma indagação ao jovem a quem se dirigiu para efetuar o pagamento, nova negativa. Voltou para a cabine e perguntou ao filho se ainda continuava a ver a estranha estrela. Diante da resposta positiva, ficou calado por alguns segundos.

O filho percebendo o silêncio do pai, indaga se ele ia mesmo seguir aquela estrela. O pai diz que sim, pois uma estranha força o compelia a fazê-lo e indaga do filho se  aceitaria ir junto, embora sem saber aonde a estrela os levaria. O menino todo feliz e achando estar entrando em uma aventura fantástica, aceita sem pestanejar. 

Seguindo a estrela, logo se da  conta que entrara na estrada Fernão Dias. Ao parar no ultimo posto de pedágio, já na divisa com Minas, e ainda guiado pela estrela, pergunta à cobradora, se ela esta vendo alguma estrela no céu. Sem entender, espantada e parecendo temerosa, pede a ele que repita a pergunta, o que ele faz. Ela então responde que somente via no céu nuvens negras ameaçando chuva. Ao insistir com ela, percebe pouco depois se aproximar um guarda rodoviário, pois a moça acionara de dentro da cabine o botão de pânico.

O rodoviário solicita que ele encoste o veículo e pede a documentação. Verificando estar tudo em ordem, quer que ele explique a razão da pergunta feita à cobradora. Gabriel, tomando a dianteira do pai, explica ao guarda que estavam seguindo uma estrela diferente, e indaga a ele se por acaso não via uma estrela no céu naquele momento. O guarda olha para cima e não viu nada. Pergunta aonde iam com todas as frutas que estavam carregando. O menino mais uma vez se antecipa e diz que vão aonde a estrela lhes levar. Espantado mas, já se molhando na chuva que começava a cair,  devolveu os documentos e mandou que eles seguissem viagem.

Mesmo com a forte chuva, Rodolfo e Gabriel viam que lá estava a mesma estrela a guiá-los agora em direção à estrada MG-270. O pai informa então ao filho que estão no estado de Minas Gerais.

A chuva cessa, e é quando ele resolve parar e ligar para esposa e contar o que estava acontecendo. Depois de deixá-la calma e informar que não sabe a que horas iria voltar, pede ao filho que fale com a mãe. Gabriel diz a ela que também está vendo a estranha estrela, e quer continuar para saber até onde ela irá levá-los. Conformada, a mãe pede que tenham cuidado na estrada.

Retoma a estrada e entra na rodovia BR-383, para logo em seguida tomar a MG-443. Fazem uma parada em um posto para almoçarem e abastecerem o caminhão. Antes de seguir viagem, Rodolfo torna a perguntar a diversas pessoas se viam a estrela no céu. Diante das respostas negativas, se conforma e continua na direção indicada pela estrela.

Após algumas horas de estrada, percorridos mais de 680 km, e ainda sem saber direito o que estava acontecendo, percebe que a estrela os levou à cidade de Mariana em Minas Gerais. Justamente em um posto onde se arrecadavam donativos e víveres para as centenas de vítimas do rompimento da barragem que continha os rejeitos da mineração de ferro e tinha sido a causa da destruição de todo um distrito, provocando ainda incontáveis prejuízos ecológicos difíceis de serem recuperados, bem como a morte de mais de 14 pessoas.

Recepcionados por voluntários que ao ouvirem a história contada por Gabriel, saem dos lugares onde estão e vão olhar o céu, e percebem uma estrela diferente se apagando às 17hs do dia 24.

Perguntado o que viera fazer, responde que viera doar todas as frutas que estavam no caminhão.

 Com a carroceria do caminhão vazia, mas com o coração cheio de alegria e uma paz de espírito nunca sentida, Rodolfo e o filho retomam a estrada de volta a São Paulo.

Os dois têm a mesma sensação: apesar do tempo que estiveram na estrada e dos quilômetros percorridos, não estão nem um pouco cansados, e o tempo pareceu ter parado.

Chegam a tempo de fazerem companhia a Gabriela e familiares na ceia de Natal. O pai pesaroso revela ao filho que por conta da viagem, infelizmente não tivera tempo de comprar o presente de Natal. Ao que prontamente Gabriel responde:

— O maior presente de Natal, que eu poderia receber,  recebi hoje de você e da estrela guia, ao me ensinarem o que é “solidariedade”.


FIM





Ao amigo secreto Escreviver –    15-12-2015
Autor: LUIZ GUILHERME CRUZ


Milagre de Natal, ai ai ai - CONTO DE NATAL

Milagre de Natal, ai ai ai
CONTO DE NATAL



Todo ano é assim, dezembro vai chegando e eu me acovardando diante do Natal.

Árvores adiantadamente enfeitadas em shopping me dão urticária.

Descontos enganatórios nas vitrines causam-me furor negativo.

Claro sinal que o ano está acabando, e tanto ainda a fazer.

Hora do balanço. Terminar trabalhos começados. Decidir o que vai para o ano que vem.

E aí chega o final de semana do Rallye de Campos do Jordão, três dias de puro deleite.

E a mágica acontece, inacreditável, piscando já em Quiririm, no almoço demorado de sexta. Emoção ao encontrar os amigos do Sul, botar o papo em dia, dar graças por estar ali. Comida boa, bebida idem, molezinha gostosa ao subir a serra.

Envolvida nas fotos, na planilha, me distraio.

Em que época estamos mesmo?

Campos não é lugar de comprar panettone, peru, tender, nem presentes, então me abstenho de obrigações natalinas.

A prova de regularidade em si não admite desatenção.

E mudando de assunto, de paisagem, me perco em divagações criativas.

Dormir em cama de hotel, café da manhã servido, piscina quentinha.

Trégua de consumismo, tudo que preciso está numa malinha de mão.

Amigos que conversam de carros, viagens, exposições, e outros rallies.

Começam as combinações para 2016. Uma euforia.

Araxá, 1000 Milhas, Autoclasica, vamos, vamos, vamos!

Na comidinha mineira da Fazenda Palmar, depois da estrada de chão, relaxamento completo. Troféus aos ganhadores, e paz na minha alma.

A chuva cai brava, lavando o cansaço.


Agora sim, pronta para as Festas.


FIM



Autora: Vera Lambiasi

VÉSPERA DE MAIS UM NATAL - CONTO DE NATAL

VÉSPERA DE MAIS UM NATAL.
CONTO DE NATAL


                         Guarda mistério, esse Amigo Secreto. Em um instante  ele  vai se revelar. É só pegar o bilhete do sorteio.

Abraços, desejos, jantares, confraternizações. Beleza pura!

Mas me ocorreu uma situação diferente. Pinta no ar um clima inusitado. Nas cidades, as mais variadas situações acontecem.

Pelo lado sentimental me ocorre pensar naqueles doentes que estão nos leitos hospitalares.

Sei que esta não é a hora de comentar. Desvio meu pensamento. Hoje é festa! Negativo. O assunto volta. Seria a presença aqui de um ilustre médico? Mas, insisto. Quero encerrar esse assunto.

        Penso de quando o Dr.Braga  tinha seu dia a dia no hospital. Ele viu e viveu centenas de vezes a cena que não quer me largar. Não se incomodava  ser dia ou  noite.

 Vislumbro o paciente naquele silêncio, escutando a alegria vinda de fora. Gente festejando, fogos. Ele levanta-se, vai até a janela. Ela está lacrada. Então se apoia na  vidraça.

Sente seu  mundo numa letargia silenciosa. Sente seu corpo envolto no odor hospitalar. Crê estar protegido. Luta no silêncio. Não quer se entregar.

Seu pensamento voa, estilhaça o vidro, transporta-o até o vibrante movimento das ruas. Vê árvores iluminadas, brilham as vitrines, repicam os sinos.

Sua mão apoiada no vidro cai na realidade, acaricia a vidraça. Vidraça que o separa do mundo. Retrai-se. Tudo bem, a noite vai passar. Agarra-se na esperança, esperança que  leva-o de novo ao leito.

O mundo que fica lá fora tem outras cores, é diferente, o ar tem outro cheiro.

É onde um mundo maior vive, gira. Podem-se apalpar os presentes, as mãos estão soltas, livres. A janela, a vidraça, são seus  próprios olhos.

As crianças vigiadas pelos pais estão boquiabertas com os movimentos do presépio.

Os avós apoiados na grade de proteção observam. Quantos pensamentos flutuam nas suas  cabeças grisalhas! Tudo era diferente. Pulam do passado ao presente, do presente ao saudoso passado.

É assim que vejo o Natal.

Mas agora pé no chão. Estou aqui nesta reunião, desvendando você, meu Amigo Secreto. Se revelando escritor, graças a força e inteligência de quem comanda a caneta, o humor, comanda o temperamento, e comanda as palavras dos seus personagens. Enfim comanda o tema na estrada que escolheu sob os olhos da nossa monitora Ana Maria Maruggi.

Você, você é quem irá pilotar o novo ano.
Boas festas e continue com suas boas escritas.


Autor: Oswaldo Romano 
AMIGO SECRETO - Dezembro de 2015



NATIVITAS - CONTO DE NATAL


Nativitas
CONTO DE NATAL - 15/12/15

 

Palavra em latim para Natal, Natalício, Nascimento. O dia 25 de dezembro era a comemoração, na Roma antiga, da festa pagã “dies solis invicti natalis”, ou seja, “dia do nascimento do sol invicto” em homenagem ao deus Sol, quando este começava a se deslocar para o Norte iniciando o solstício de inverno.

Constantino, primeiro imperador romano a ser convertido ao cristianismo, adotou no século IV d.C. esta data festiva, para celebrar o nascimento do Salvador, da luz que ilumina as trevas e traz a   esperança, a paz e sobretudo o amor ao coração dos homens.

Deste então, no período de natal, as cidades se enfeitam de diferentes cores, se adornam com milhares de luzes coloridas que piscam incessantemente maravilhando nossos olhos. As vitrines das lojas cintilam, atraindo os passantes à magia do consumo. Concertos e canções natalinas ecoam pelos lares nas televisões, praças e centros de compras. Papais - Noéis, humanos ou figurativos, aparecem por toda parte ouvindo sorridentes os desejos infantis e aguçando a imaginação para a festa que se aproxima.

Mas, nesta avalanche coletiva de comemorações e consumo, deixamos muitas vezes de abrir espaço ao aniversariante, razão de ser de todos nós e motivo da cidade em gala, da família reunida, do abraço dos amigos, da ceia farta, dos presentes recebidos.

Não o jogue a escanteio, não o exclua da casa decorada, da mesa familiar. Chame-o para si, agradeça-lhe pela vida recebida, pela saúde alcançada, pela família unida, pelo teto acolhedor, pelo sorriso de alegria estampado no rosto.

Ele, Rei do Universo, nasceu humilde numa manjedoura em Belém, cercado pelo calor dos animais e se fez homem para igualar a nós nos sentimentos humanos. Morreu martirizado na cruz, para confirmar seu amor por nós e ressuscitou para nos mostrar o caminho da vida eterna.

Se não acredita, não faz mal, Ele perdoa...

Só pense um pouquinho que seja, neste Natal, que Ele sim pode ter nascido neste dia. Não custa nada,  e a recompensa é grande...

A todos um “Feliz Nativitas”!

Que Ele esteja não só no nosso pensamento, no nosso coração, mas também nas nossas ações para com o próximo e no nosso respeito à natureza...





Autor: José Vicente J. Camargo

AS APARÊNCIAS ENGANAM - Carlos Cedano




AS APARÊNCIAS ENGANAM
Carlos Cedano

Martha parece estar preocupada e atarefada com a próxima viagem do casal: um cruzeiro de três semanas para Europa.
        ― Falta muita coisa pra levar na viagem? - Pergunta Ernesto, o marido, com ironia.

Falta comprar uma mala, roupas na moda e produtos de beleza, você sabe que teremos vários compromissos no navio e nos lugares que visitaremos, respondeu a esposa com certo nervosismo.

        ― Ok. Martha! Proponho o seguinte: você toma conta de tuas coisas e não vou me preocupar em saber quantas malas você levará, ah! Eu arrumarei a minha.
        ― Tá certo meu amor, respondeu ela com humildade, ah espera, se teu celular cair na caixa postal é por que desliguei o meu, estarei comprando o que falta.
Em quanto ia para sua pequena corretora de valores Ernesto pensava: Não aguento mais essa mulher! Ela gasta rios de dinheiro em roupas, casar com mulher cheia da grana pode parecer um bom negócio, mas com o tempo a gente enjoa!
Antes de chegar ao seu escritório Ernesto liga de um telefone público e fala com uma mulher:

        ― Alo? Sou eu meu amor, é pra te dizer que os preparativos em casa continuam. Estou com muitas saudades e quero te curtir muito esta noite, tchau.

O tempo foi passando e o dia da partida chegava. Na véspera da viagem Ernesto ligou para sua esposa e lhe disse que chegaria mais cedo em casa para acertar os últimos detalhes da viagem. Ela respondeu que estaria esperando.

Às quatro horas da tarde o marido chega a casa e ela não estava, esperou um pouco e depois foi tomar uma chuveirada. Até oito horas da noite insistiu no celular dela que continuava sempre a dar caixa postal, ligou para amigas, amigos e outros conhecidos, ninguém sabia dela e ninguém a tinha visto recentemente!

No dia seguinte o marido ligou para o advogado da mulher e o colocou ao corrente do acontecido. O advogado perguntou se já tinha ligado para a polícia e ele respondeu que não! Então Ernesto, isso é a primeira coisa a fazer e se prepare por que você será o primeiro suspeito e desligou! Ernesto fez isso.

Vinte e quatro horas após o desaparecimento de Martha a polícia chegou à residência do casal, acharam os bilhetes de viagem, os passaportes e as malas da esposa. Toda a casa estava na mais perfeita ordem e sem sinais de luta e sem roubo aparente!

Uma semana depois do desparecimento não havia nenhum cadáver, teria sido muito bem escondido ou ela talvez tivesse fugido com algum amante. A polícia também levantou informações sobre o marido junto aos funcionários e amigos. Nada de pistas, nenhuma informação válida!

Uma voz feminina ligou pra a delegacia sem identificar-se e pediu que investigassem um clube chamado “Revelações”, teriam uma surpresa! Dois investigadores foram  para encontrar pessoas que conhecessem o marido de dona Martha, porem logo no momento que chegaram se apresentava uma stripper alta e loira, porem o mais surpreendente foi que era a cara da desaparecida Martha Vilar!

        ― Meu Deus, é ela! O que está fazendo aqui? Falou o mais jovem dos investigadores.

        ― Calma, ― disse o chefe  ― o parecido é notável, mas precisamos ter certeza absoluta, as aparências enganam!

Acabado o número da dançarina de nome Fernanda Soares, foram falar com ela.
        ― Conhece este cara? Colocando uma foto de Ernesto na sua frente.

        ― O conheço sim, se chama Ernesto Luna e está sempre por aqui, é muito generoso com as gorjetas, só sei isso!

Os policias perceberam que ela estava escondendo alguma coisa e decidiram pressioná-la levando-a para a delegacia para um interrogatório formal.

Nesse local disseram-lhe que o tal de Ernesto Luna era suspeito de ter assassinado a esposa e que ela corria o risco de ser considerada cúmplice e pegaria uma cadeia de no mínimo vinte anos, então dona Fernanda fale todo o que sabe, disse o chefe.

No interrogatório soube que ela e o Ernesto já eram amantes há quase dois anos, ela se apaixonou por ele, mas também sabia que ele não se separaria da mulher para não perder as benesses da fortuna dela, mas que Ernesto a odiava profundamente!

Fernanda ainda disse que com o tempo Ernesto começou a insinuar que seria uma vantagem pra nós dois o desparecimento da esposa. Poderíamos “bolar” um plano, disse ele, aproveitando que eu ea muitíssimo parecida com a esposa. Não liguei num primeiro momento, porém vira e mexe, ele insistia sempre agregando novos detalhes ao plano, viajaríamos nos dois, eu com o passaporte da mulher e ele com o dele. Pera aí, falou o investigador mais jovem:

        ― E a esposa...?

A essa altura ela já teria sido assassinada e enterrada na véspera num lugar que só Ernesto saberia! Porém, essa mesma noite me ligou pra dizer que sua mulher não tinha voltado pra casa e cancelou tudo! Quando uma semana depois apareceram vocês percebi que algo tinha dado definitivamente errado!

        ― Você que ligou pedindo para investigar o “Revelações”? Perguntou o chefe.

        ― Não, não fui eu! Respondeu a dançarina enfaticamente.

Os investigadores ficaram de queixo caído:

Quem foi então? - Foi a reação de surpresa dos investigadores!

Batida leve na porta que se abre a seguir:

        ― Fui eu, disse a voz firme de uma loira alta e bonita. -  seguida por duas pessoas.

        ― Então...? Balbuciou o Chefe.

Sim! Eu estou viva e com muito desejo de justiça! Meu advogado Doutor Ivo e o Detective Ronam vão explicar para os senhores o resto da historia que os surpreende!

O detective Ronam disse que dona Martha Vilar suspeitava da infidelidade do marido e o contratou para verificar suas suspeitas. Numa semana tirou muitas fotos, sempre em cenas comprometedoras, do marido com a dançarina Fernanda -  ao mesmo tempo em que entregava um pacote com farto material fotográfico. Com essas provas o juiz me autorizou a gravar as conversas telefônicas cujas transcrições também se incluem.

O Doutor Ivo complementou a fala do detective e disse: Dona Martha me pediu pra cancelar discretamente o seguro de vida que fez a favor do marido um ano atrás. Dois dias antes da viagem bloqueamos todos os acessos do marido às contas bancarias do casal e sempre monitorando os movimentos dele. O assassinato, que nunca ocorreu, seria na véspera da viagem e quando o marido ligou pra dizer que estava indo pra casa, dona Martha foi para um esconderijo como previamente combinado.


As peças do dominó se encaixaram sim, e o marido? Ora o marido! Ele foi encontrado morto numa espelunca! Tinha cometido suicídio, tomando veneno! O babaca subestimou a esposa e se f..., era uma relação de amor e ódio disse o chefe da polícia enquanto lia as notícias do suicídio no jornal.

SHERLOCK TEM EM QUALQUER LUGAR, ATÉ NA MEDICINA.- Oswaldo U. Lopes


SHERLOCK TEM EM QUALQUER LUGAR, ATÉ NA MEDICINA.
Oswaldo U. Lopes

         Era professor de medicina. Difícil imaginá-lo outra coisa. Alto, mais que a média, magro, mais nem tanto, tinha volume muscular, quer dizer presença. Quando entrava na enfermaria fazia diferença.

        Era encantador, sobretudo com alunos e doentes, como que reconhecendo neles a parte frágil do conjunto. Nuns via sofrimento a ser aliviado, noutros a continuidade de uma profissão a qual se dera com profunda dedicação.

        Tinha coisas que não perdoava. Às vezes alunos e residentes caiam na bobagem de dizer:

        — Este doente, este paciente.

        Ate tolerava paciente embora soubesse e dissesse que paciente é o que tem paciência, não enfermidade. Adquirira tolerância junto com os cabelos brancos que já lhe tingiam as têmporas o que ajudava a compor uma figura sóbria e serena. O intolerável era o doente ou vá lá paciente, não ter nome. Aí o bicho pegava.

Gostava de sentar na cama e conversar com o enfermo:

        — Seu José vem de onde? Tem filhos? Quantos? O que fazem?

        Era conhecidíssimo pelas inferências que fazia ao longo destas conversas. Aliança no dedo, qual dedo, simples ou especial, mãos calejadas ou suadas. Mãos de pedreiro ou sapateiro. Fala mansa ou afogueada, respiração rápida ou pausada.

        Ficara famoso pelas incríveis deduções e pelo trabalho a que se dava em busca de respostas. Como o dia em que se mudara praticamente para a casa de uma doente, para vê-la fazer as tarefas de casa e descobrir de onde vinha o pó que a deixava com crises de asma. Ou então aquele distinto senhor que só tinha dermatite de contato nas mãos quando ia para o Rio de Janeiro.

        Não, não era o Rio de Janeiro a causa, era a barra transversa da direção do carro que incluía o aro da buzina feita de antimônio e que o senhor em pauta só segurava na estrada, quando em longos trajetos.

Tudo isso lhe valera o carinhoso apelido de Sherlock, pelas incríveis e brilhantes investigações de que era capaz observando e anotando mentalmente pequenos detalhes, sons diferentes, manchas muito discretas.

        Era exímio também com o estetoscópio, mas quando ia usá-lo, os alunos já sabiam que conhecia toda moléstia e sua história. Não era vaidoso, quando instado a contar uma de seus brilhantes raciocínios, lembrava o caso em tudo semelhante, ou igual se quiserem ao que Conan Doyle, o genial criador de Sherlock Holmes, lembrava-se de ter ouvido do médico escocês Dr. Joseph Bell a respeito de suas incríveis conclusões.

 Como o próprio Conan Doyle, enfatizou mais de uma vez a criação de Sherlock Holmes devia muito senão tudo às lembranças  que ele tinha do seu querido professor de medicina.

Enfim era a história de um doente que era músico de profissão. A simples observação de um tórax avantajado, lábios bem salientes e as bochechas estufadas compunham um quadro típico de um valente tocador de instrumento de sopro: trompete ou trombone. Feitas estas preciosas observações, perante seus alunos, perguntou enfim o professor ao doente que instrumento tocava:

Bumbo. - foi a resposta terrificante.

A enfermaria era de Clinica Médica quase que em oposição a de Clinica Cirúrgica. Toda e qualquer doença que não fosse de tratamento imediato por operação, tinha lugar ali.

Tireoide, pulmão, coração, fígado, rins, diabetes, você imagine ou nomeie cabia lá dentro. O Prof. Luís André Resende, era este seu nome, atendia a todos e discutia brilhantemente cada caso e dava a todos o devido encaminhamento. Se o caso era complicado e exigia exames complementares ou cirurgia como parte do tratamento, alguém ia acompanhar e de perto, fosse para onde fosse. Tinha até reunião de óbitos, para discussão dos casos em que tudo feito não resultara em cura e alta com seguimento.

Mas, havia a Silvia... Silvinha como a chamavam a internada já fazia um mês, exames todos feitos e o Prof. Resende hesitava em tomar ou recomendar uma conduta.

Silvia agora uma moça de 28 anos, tivera na infância a famosa febre reumática de que resultara um sopro no coração e uma válvula apertada, estenosada como diziam os médicos. A cirurgia era ainda incipiente e de resultados duvidosos. Silvia levava a vida sem problemas, mas casara e como não é raro, engravidara. Agora, pensava o Prof. Resende, é que são elas.

A sobrecarga era visível, com quatro meses de gestação, Silvinha já demostrava certo grau de dispneia e por duas vezes entrara em edema  agudo de pulmão. Edema agudo é uma sufocação fora d’água por afogamento interno, devido a acumulo de líquido no pulmão.

        Havia uma coisa a fazer, interromper a gravidez antes que a mãe morresse. O professor conversava no melhor do seu jeito com a moça, para ouvir apenas um discreto, educado e resoluto “não”.

        Já não sabia o que fazer, respeitava aquela doente, mais do que qualquer outra, mas sentia-se totalmente perdido. Não encontrava consolo nas suas brilhantes conclusões nem em suas magistrais observações. Toda manhã entrava na enfermaria 670, com medo do que pudesse ter acontecido. Queria ser informado de qualquer coisa.

Naquela manhã viu a cama desfeita, vazia. A enfermeira apressou-se em informá-lo que ela passara mal e fora encaminhada a uma enfermaria onde pudesse ficar aos cuidados de vários médicos.

Correu para a enfermaria e parou na porta. Desolado percebeu que as pessoas se afastavam de uma cama com ar entristecido. Não foi necessária sua notável capacidade dedutiva para entender que o doente na cama, não respondera aos esforços empenhados. Silvia estava imóvel, pálida e provavelmente muito fria.

Passou a mão nos olhos e saiu procurando ar puro, e entendimento para tudo aquilo que vira e ouvira,  e pensou com a face visivelmente molhada:


STABAT  MATER  

E AGORA, NENECO? - Jeremias Moreira


E AGORA, NENECO?
Jeremias Moreira

Se não estivesse tão apavorada Nanda ponderaria não haver situação mais desconfortável do que estar amordaçada, com as mãos e os pés presos por tiras de plástico, coberta por um tapete imundo e que recendia a urina, no assoalho de uma Iveco amarela, com a logomarca dos Correios, rumo à via Anhanguera. Mas, ela se borrava, então não importava o lugar. O que ela queria era não estar em poder desses homens. A cada solavanco da van não só doía o corpo como a alma, de tanto medo.

Ainda mais cedo, falara com o Neneco ao telefone sobre a viagem que fariam à Buenos Aires. No meio da ligação a capainha da porta tocou. Encurtou a conversa e atendeu ao interfone. Era do Correio

Sedex para o Sra. Fernanda Amaral!

No monitor de segurança viu dois homens uniformizados. Então, abriu a porta sem a menor preocupação.

Os indivíduos agiram rápido. Renderam-na e a levaram para o veículo.

Momentos antes seu pensamento estivera voltado para um final de semana prazeroso e agora estava ela ali, na maior angústia.

A van atravessou a ponte sobre o Rio Tietê às 17:40 horas. Nesse instante o sargento Manzano, da Polícia Rodoviária, que estava de serviço no Posto de Fiscalização no quilometro 21, recebeu um alerta. Um furgão dos Correios, placa FDI 2318, fora roubado. Recomendava abordagem cautelosa, pois os meliantes mostraram-se violentos por ocasião do furto.

Também nesse momento Neneco recebeu uma mensagem estranha no celular: “Estamos com ela!”.

Como reação imediata ligou para Nanda. O telefone tocou mil e uma vezes e nada. Veio-lhe à mente a figura do Alemão. Só podia ser isso. A dívida! Começou a discar para o Alemão, mas vacilou. Dependendo do oponente sua coragem era tão grande quanto sua covardia. No caso, quando por fim ligou, mostrou-se dócil:

 Sr. Fred, pagarei na terça-feira, sem falta.

− Ótimo, até lá ficaremos com a mercadoria! − E desligou.

Frederich Schwartzmeir, ou Alemão, era um banqueiro de jogo para quem Neneco devia uma grande soma. Ele tinha a violência equilibrada com a mansidão conforme o comportamento do cliente.

Neneco conseguira que ele dilatasse o prazo do pagamento por duas vezes. Dessa vez, pelo jeito o homem resolveu demonstrar que não estava para brincadeira.

Paralisado, com o celular na mão e sem saber o que fazer, Neneco entrou em pânico. Execrou o dia em que fora jogar no cassino clandestino do Alemão. Amaldiçoou ter entrado na paranoia de acreditar, seguida vezes, que ganharia a próxima mão. Execrou não ter sabido parar. Agora eles estavam com Nanda. “Preciso arrumar esse dinheiro ainda hoje. Mas como?”

Na via Anhanguera o sargento Manzano copiou o e-mail e saiu para o páteo. Avistou, na pista um veículo dos Correios, que passava. Verificou a cópia do e-mail que tinha nas mãos e, pumba! No alvo! Era a tal van! De pronto deu a ordem:

Carro roubado, vamos nessa!

Os policiais dispararam na caça à van. Ligaram as sirenes e imprimiram velocidade. Pelo rádio informaram o pessoal da frente. Deveria levantar uma barreira. Alguns quilômetros de perseguição conseguiram colar no furgão. Um dos bandidos abriu fogo. Iniciou-se um tiroteio. Nanda ouvia os tiros e do metal sendo perfurado. Desesperou-se. A mordaça a impedia de gritar. Estavam agora na altura de Cajamar, onde a estrada torna-se sinuosa. A frágil estabilidade da van sucumbiu na terceira curva e capotou. Nanda sentiu-se dentro de uma centrífuga, tantas foram as vezes que rodopiou pelo interior da carroceria. Depois o silêncio.

Atordoada, ouviu vozes longínquas que pouco a pouco se tornavam nítidas. Eram ordens:

Ninguém se mexe! Saiam com as mãos para cima.

Os bandidos estavam desacordados. Formavam um amontoado bem a sua frente. Queria gritar, impossível. A van estava abarcada e ela, no teto próxima à porta traseira, que entreabrira.

Um vulto se aproximou cuidadoso e abriu totalmente a porta de supetão.


Ouviu quando gritou:

Tem uma mulher aqui! Está amarrada!

Quando acordou estava numa cama de hospital.

Antes de qualquer coisa pediu um telefone e discou para Neneco. Ele atendeu de pronto:

Seu bastardo, no que você me meteu? Resolva isso, agora!

Obediente como um menino Neneco ligou para o Alemão.

Seu Fred, como disse, terça-feira liquido cada centavo!