CONFLITO NO ESCURO - Carlos Cedano



CONFLITO NO ESCURO
Carlos Cedano

Estava sem sono, virei tanto na cama que decidi ler, era um “remédio” que me ajudava a combater a insônia. Aos poucos meus olhos começam a “pesar” oba! Coloquei o livro sobre o criado mudo, desliguei a luz do abajur, relaxei todo meu corpo. Passaram cinco, dez, quinze, vinte minutos, meia hora talvez,  e nada! Silêncio total, e agora estou sentindo-me excitado, nervoso, o “sono prometido” não chega.

Respiro fundo e solto o ar lentamente, mas de repente um rangido suave quase imperceptível, chega a meus ouvidos, espero alguns minutos, minha atenção agora está concentrada para qualquer barulho, é minha imaginação pensei, de repente escuto o ranger de uma porta, sim, é a dobradiça da porta da cozinha que da pra sala, é ladrão na certa!

Primeiro é não perder a calma, logo devagar e sem fazer barulho vou até meu armário, pego meu revolver e alguns travesseiros, um plano de defesa vai se delineando na minha cabeça, agora preciso de alguns pedaços grandes de papel higiênico, mas antes fecho delicadamente as cortinas o que deixa o quarto literalmente nas trevas. Nisso sinto outro rangido, desta vez é o segundo degrau da escada de madeira, ela tem um problema de pregos soltos, ah! Ele já está aí né?  

Com os travesseiros simulo um corpo na minha cama e com o papel higiênico começo a amassa-lo para fazer duas bolas compactas, o que vou fazer com elas é um truque que não falha! Tudo isso não levou nem cinco minutos, agora é saber onde vou esperar o intruso, ah sim! Já sei, vou ficar no vão entre a parede e a estante onde guardo minhas camisas, o lugar me dá proteção e uma posição favorável na hora de atirar.

Ajoelho-me e aguço intensamente meus ouvidos, minha concentração está em seu máximo e meu coração bate a cem por hora, inspiro fundo e expiro relaxando, sempre fui um bom atirador, mas não convém arriscar. Acompanho a subida do cara degrau a degrau, os chiados agora são suaves, o delinquente é experiente a cada degrau que sobe faz uma pausa, ele também arrisca pouco! É meu primeiro conflito da minha vida no escuro. Agora já está no corredor e faltam-lhe somente seis metros até a porta de meu quarto, ele viu de fora quando apeguei o abajur! Não passa um minuto quando lentamente gira a maçaneta do meu quarto, abre-a lentamente, ah! O malandro apagou todas as luzes né? Assim evita que enxergue sua figura na contraluz, é experiente sim!

As duas bolinhas de papel estão bem comprimidas, lanço uma com cuidado do lado de minha cama causando um barulho surdo e perceptível, o bandido se precipita e atira três vezes com um revolver com silenciador no “corpo deitado” na cama, já atirou canalha? E ao mesmo tempo atiro pensando agora é minha vez, atirei também três vezes e o cara caiu duro com um barulho seco!


Esperei alguns minutos, levantei e verifiquei que o ladrão já era defunto! Ah!... Foi bom ter feito academia de policia!

AEROPORTO IMPROVISADO - M. Luiza de C.Malina


AEROPORTO IMPROVISADO
M. Luiza de C.Malina

Era o décimo avião a aterrissar naquela manhã. Provavelmente um recorde para uma cidade que não tem aeroporto”.

A curiosidade levou André a esconder-se em meio à rasa vegetação que ladeia a “Ruta 9”, trecho em que a estrada zebrada, torna-se mais larga e o asfalto apropriado para a descida de aviões.  Interceptou um contato no rádio amador de um movimento aéreo um tanto fora do comum, na noite de lua vazia.

Entre os preparativos para o bloqueio da estrada na madrugada, período em que poucos veículos por lá circulavam durante a semana, notou entre os oficiais da aeronáutica, devidamente uniformizados a presença de seu primo, que nada tinha a ver com a profissão, era um mero comerciante, no entanto segurava uma metralhadora rodeando em torno de si mesmo. Aquilo aguçou a curiosidade.

Devido a indumentária, silêncio, posicionamentos cuidadosos;  certificou-se de que coisa boa não era. Pensou em drogas, mas o primo estaria nisso! Duvidava.
Não havia nenhum carro próximo, melhor assim. O primeiro, a aterrissagem foi suave. Rapidamente homens brotaram em meio ao mato, do outro lado da pista. Encolhi já me imaginando estar em lugar errado na hora errada. Meu anjo estava de plantão. Meu espanto continuaria e eu não poderia nunca mais sair dali, estremeci.

As caixas, rapidamente posicionadas do mesmo lado escolhido, uma luz projetada aleatoriamente, por uma lanterna manual que, por vezes passava de raspão pelo meu corpo acocorado.

Alguém comentou – o peso das pedras preciosas é igual em todas as caixas, não adianta falar que alguma se rompeu – é balela.

Pensei que fosse um avião, que nada... Tudo controlado pelo rádio, aterrissagem cega e perfeita. Era o décimo avião quando fui obrigado a parar de contar. 

Repentinamente, um cavalo surgiu dos pampas noturnos. Era meu tio. O animal me denunciou com um relincho, empinando-se como se eu fosse uma cobra.

- Aqui... Aqui!... Coloque o farolete aqui!

 Estava com o rabo entre as pernas. Foi assim que me tornei sócio do mais precioso dos negócios – contrabando de brilhantes. Em pouco tempo tornei-me dono de uma das mais belas fazendas de gado dos pampas.



Dente por dente... -Mario Tibiriçá


Dente por dente...
Mario Tibiriçá

As  insuportáveis dores de dente de Geraldo Melo, vulgo bonitão, meliante conhecido pela polícia,  o   levaram ao consultório  do  dentista Dr. Claudio.  

O  bonitão acreditava que uma simples conversa com o doutor já  resolveria seu problema dentário. Porém,  em face do lamentável estado dos seus  dentes,  seria  necessário  extrair alguns para cuidar dos demais. O que consentiu rapidamente, pois isso acabaria com as dores.

Diante do espelhinho do consultório Geraldo  Melo ficou enfurecido ao ver-se sem os dentes. Não imaginou que sua boca ficaria murcha e sem vida. Sem ouvir como seria a sequência do tratamento, prometeu ao Dr.  matá-lo na primeira oportunidade.

Deixou o consultório enlouquecido de ódio, troteando pelas escadarias. A sede da ira juntou-se à vontade de tomar um trago. Resolveu  beber.  Alcoolizado  retornou  ao consultório  do dentista já de arma em punho, precisava resolver isso -  pensava. No entanto,   encontrou-o  fechado.  

Tremia. Espumava.

Vou matar  esse  dentista de merda! - vociferava consigo mesmo o bandido -  Ficarei  tantos dias quantos necessários a sua espera, e vou matá-lo.  
    
Ciente do ódio do  bandido, Dr. Claudio resolveu dar-se uma folga e não foi ao consultório no dia seguinte. 

Mas,  apavorado, não  parava de pensar na ameaça:

Só quis ajudar,  pô! Decidiu dar queixa à polícia. Na delegacia lhe prometeram escolta de proteção para alguns dias.

Já  o  bandido, cansado de esperar e tendo dormido à porta do consultório resolveu  procurá-lo no endereço residencial.

Vou  mostrar-lhe com quantos  balas se faz um dente. E caminhava trôpego de raiva, com passadas desconexas e pesadas.

Enquanto isso no seu apartamento Dr. Claudio se preocupava com clientes do dia seguinte,  afinal  vivia de seu   trabalho e os pacientes eram o principal ingrediente. Marcara  nove horas  com a polícia no consultório, e isso lhe dava certo conforto, mas não era suficiente.   

Morava   no  segundo piso e estava  lendo alguma revista quando inopinadamente ouviu tiros e balas cruzaram sua  frente. Aterrorizado  correu para o terraço. Mas não conseguia ver de onde vinham os tiros,  apenas sentiu o ardor do impacto do calibre da bala nas costas. 

Ái!

Debruçou-se  na mureta do terraço e caiu pesadamente em direção ao térreo.
No dia seguinte o  jornal publicava friamente apenas:  

 “mais  u’a morte na cidade.”.  


0 bonitão que perambulava ao léu pelas ruas, imaginava  o que comer sem dentes. Sentia-se nu. Depois de tudo a boca ainda jazia sem dentes para mastigar...

FLORES NÃO MORREM - Maria Luiza de C.Malina


FLORES NÃO MORREM
M.Luiza de C.Malina

“Quando Beth disse sim na cerimônia do seu casamento, ela teve certeza que de aquele tinha sido o melhor momento da sua vida. Porém, o pior momento da sua vida veio logo na sequência.”

Uma gargalhada ecoou na nave. O religioso, belas palavras proferidas ao microfone foram entrecortadas de mais gargalhadas, fixou o olhar sério. Desligou o microfone. Fez-se silêncio.

- Elizabeth! Repetia o sacerdote, e nada a fazia conter o riso, que em poucos segundos transformaria a bela aparência em um rosto manchado de maquiagem, pelas lágrimas que escorreriam. Estava fora de controle. Quanto mais a chamavam, mais intensas eram as risadas. A expressão patética do reverendo procurando manter o controle a tirava do sério. A silhueta esbelta contornada pelo longo véu se contorcia, abaixando e levantando a cabeça.

O noivo, o mais cobiçado das convidadas que cochicham entre si, sem nada a entender solícito apalpava o lenço no entorno dos olhos olhando-a com ternura. Toma-lhe as mãos selando um beijo. Mais gargalhadas da noiva. Os convidados contagiados começaram a rir e a bater palmas. Virou uma festa. Ainda faltava o sim do noivo.

O religioso pediu ao casal que olhassem para os convidados, o quão alegres também estavam com a união e que agradecessem a presença. Nada adiantou, Beth apoiada no braço do noivo ria e abanava aos convidados. Talvez tivesse bebido algo, afinal tivera o “dia da noiva”.

Voltaram a posição inicial. Com um longo suspiro, que todos pensaram que fosse o final dos risos. Que nada, reiniciou. O noivo gesticula para o reverendo para que ele se acalme.

Outro silêncio.

Preciso me concentrar, preciso pensar em algo sério, em algo triste, na verdade preciso parar de rir, que nervos... Faço a mesma coisa que minha mãe quando fica nervosa... Já sei, já sei, já sei...as flores, as flores... Não havia reparado no perfume... Me ajudem, por favor... “era a primeira vez que eu via flores que não morriam nunca. Flores maiores que árvores.”


A PAIXÃO DE VIRGINIA - Carlos Cedano


A PAIXÃO DE VIRGINIA
Carlos Cedano

Gregório conheceu uma senhora alta, bonita e charmosa, Virginia Moraes, ambos estavam num congresso de clínica geral, ele como conferencista e ela como membro do estafe que organizou o evento.

Encontraram-se algumas vezes durante o evento em situações casuais, se olhavam e sorriam um para o outro quando se cruzavam. No jantar de encerramento do congresso já pareciam velhos amigos, falaram de muitas amenidades e até trocaram pequenas confidencias.

Ambos sentiram que tinham gostado muito um do outro, Virginia fez muitas perguntas sobre sua vida e suas atividades o que não deixou de surpreender a Gregório. No final e como não se veriam mais se despediram afetuosamente e quando Gregório pegou seu carro para ir pra casa percebeu que a rigor sabia muito pouco dela, sorriu e esqueceu o assunto.

Um mês após, o médico recebeu uma ligação no seu consultório e escutou a voz de um cara que, após saber que era ele, disse:

        ― Isto é uma advertência! Você não pode andar mexendo com a mulher dos outros, você aproveitou-se do congresso para cantar à minha! Tome cuidado se insistir sua vida corre perigo! E desligou.

Gregório ficou pasmo, que é o que a mulher lhe disse? Fui gentil, nenhuma cantada de minha parte, então por que isso? Deve ser algum perturbado pensou e tratou de esquecer o incidente, mas a pulga já estava atrás da orelha!

No mês seguinte Gregório recebeu outra cinco ligações uma cada vez mais ameaçadora que a anterior, numa delas o individuo disse ser um violento matador de aluguel! Os amigos o aconselharam a denunciar o caso à policia. Foi o que o médico fez. O investigador o escutou atentamente e fez algumas perguntas para esclarecer o quadro e disse: A primeira medida será localizar a dona Virginia e ter uma conversa com ela.

Quinze dias depois o investigador ligou para Gregório para informa-lo dos avanços da investigação e disse: Localizei o endereço de dona Virginia Moraes na lista telefónica e fui a seu domicilio onde falei com ela e vi seu marido, um cara a beira da morte e com noventa e um anos, acho que ele não teria condições de fazer tantas chamadas de lugares diferentes disse o investigador que já tinha checado todos os celulares e telefones fixos. Via fax enviou-lhe uma foto de dona Virginia, você a reconhece? Gregório também pelo telefone confirmou: é ela, sim!

Doutor você recebeu mais ligações com ameaças de morte, este caso já está ficando grave! ―falou o policial com preocupação ― também me disse que não teve caso com ela e nem a viu após o congresso, a pergunta que surge então é: quem pode ser a pessoa que está fazendo isso? Será que ela tem um amante? Bem, vou continuar investigando e ligo depois pra você doutor, concluiu seu Mário.

Nos dias seguintes a situação para Gregório piorou, além das ameaças no seu celular e no seu consultório houve chamadas pra sua casa que eram imediatamente desligadas quando alguém respondia. Isso preocupou a esposa que ficava mais nervosa quando o marido não respondia a suas indagações. Aos poucos a vida do casal começou a ser afetada! Ela até chegou a perguntar-lhe se não seria sua amante?

Dona Virginia pediu para ser recebida pelo investigador para uma conversa particular no seu escritório, fez uma breve pausa e contou que escrevia um diário sobre fatos que considerava importantes na sua vida, ele tinha desaparecido mas que agora, misteriosamente, tinha reaparecido numa pequena estante de sua sala, estava preocupada com essa situação por que quem o tivesse lido poderia interpretar erroneamente o que estava escrito. Não sabia explicar quem teria feito isso.

Agora o interesse do policial se fixou em saber das visitas que receberam em casa nos últimos messes e também sobre ela ter ou não um amante. Dona Virginia disse que pelo menos uma vez por semana recebia a visita do vizinho, seu Mauricio, grande amigo de seu doente marido que às vezes aparecia com seu filho de vinte anos. Em relação ao amante ela negou tê-lo e o disse com segurança e tranquilidade!

Passada uma semana o investigador convocou uma reunião com dona Virginia, Gregório e seu Mauricio. Seu Mário fez uma síntese dos acontecimentos até chegar o momento em que mostrou uma pasta com copia do diário de dona Virginia, a leitura dele, disse, tinha deixado o filho de seu Mauricio furioso e ciumento, dona Virginia era sua obsessão! Sim, sobre tudo pelas páginas onde dona Virginia descrevia a admiração e afeto que desenvolveu pelo doutor Gregório.

Sim, meu filho está outra vez internado, ele sofre de uma compulsão obsessiva por dona Virginia, disse seu Mauricio desculpando-se pelo acontecido. As acusações foram retiradas e o caso encerrado.

Quando Gregório acompanhou Virginia até seu carro, a olhou com carinho e lhe disse: lamento tanto que você tenha chegado tarde à minha vida e ela respondeu com um sorriso que só uma mulher apaixonada pode mostrar!


DEPOIS DA FÚRIA - M.luiza de C.Malina


DEPOIS DA FÚRIA
M.luiza de C.Malina 


É duro. Preciso enfrentar. Visual no espelho, estou bem. Chego mais cedo.  Cochichos! Nada. Estou atenta. Meu, o que isso? Não fui eu. Olho roxo... hahaha... Apanhou, os óculos são pequenos para a porrada... hahaha...Pior que vão pensar que fui eu... Nem me atrevo a encarar... Estou ocupada no trabalho. Viro de costas. Não sei de nada... O projeto me ocupa, me absorve.. Mas, e a porrada, deve ter sido ela... Ficou ao meu favor. Pudera! Sem vergonha! Malandro e sem disfarce! Ihhh hora do café. E se ele vier ao meu encontro, meu chefe não vai gostar. Vou continuar na prancheta... Passos, será ele... Não vou levantar a cabeça, estou trabalhando – Elizabeth – gelei, quem será, olho de cabeça baixa... Ufa que alivio, é o chefe – você viu, olho roxo.  Quem está de olho roxo, não vi! Ichi! Vai dar confusão em um minuto, desculpe, vou ao banheiro. AH! Vozes ao mesmo tempo...quanta fofoca, podem parar, podem parar não fui eu...dá licença – vou vomitar!

O ESCRITOR POR ELE MESMO - LYGIA FAGUNDES TELLES - AS MENINAS e outras obras

Contribuindo para estimular o grupo de leitura do Clube Alto dos Pinheiros, fizemos esta copilação sobre AS MENINAS - de Lygia Fagundes Telles, obra em leitura pelo grupo nestes dias. 

A própria autora fala de suas obras, inclusive das personagens AS MENINAS.

Veja também uma análise literária do livro As meninas.

E outros videos que falam dessa obra, além da entrevista da autora no programa Roda Viva.

E no final desta postagem assista ao filme AS MENINAS, obra premiada de 1995. 

Boa leitura!





Análise da obra AS MENINAS 

Análise da obra

As Meninas trata-se, sem dúvida, do mais importante romance de Lygia Fagundes Telles. Escrita em 1973 é resultado do esforço de três anos de trabalho dessa autora perseverante, que valoriza a palavra e mostra, através de seus textos, a luta de todos nós em defesa da liberdade. O texto de Lygia Fagundes Telles não cai na vulgaridade, não se banaliza. A linguagem é coloquial e expressiva e os diálogos abandonam as conveniências formais.

O romance As Meninas oferece-nos, de um lado, um painel saboroso das vivências de três pessoas em busca de si mesmas; de outro, uma amostra dos problemas cruciais que agitaram a juventude durante um dos períodos mais conturbados da história do Brasil, que Lygia Fagundes Telles teve a ousadia e a coragem de denunciar.

Tempo

Uma seqüência cronológica pouco marcada de alguns dias ou poucas semanas: o tempo é voluntariamente vago e difícil de precisar. O que prevalece é o tempo psicológico, pois tudo acontece através do entrecruzar da memória, da evocação do passado, da mistura com algumas ações no presente. Alguns fatos permitem a localização da obra no final dos anos 60, pois evocam as agitações sociais, as greves universitárias, a prisão e a tortura de militantes políticos sob o enrijecimento da ditadura militar, o crescimento agressivo da megalópole que tritura o jovem e esmaga sua individualidade, alienando-o, censurando-o e dificultando-lhe a busca de caminhos. Passado e presente fundem-se de modo inextricável, e nos traumas da memória encontram-se as explicações para os problemas existenciais de três meninas - símbolos de toda uma geração massacrada e alienada por forças do passado e das circunstâncias.

A intriga de As Meninas transcorre em época aguda da vida política e cultural, no período mais violento da repressão e da resposta armada contra os militares. O golpe militar de 1964 se inspirara no projeto de um Brasil moderno e capitalista, liberal, tecnológico. Inversamente, o governo então deposto havia-se inspirado num projeto democrático e nacionalista, escorado na participação das massas trabalhadoras e das associações de classe. Houve perseguições e mortes. Houve prisões e exílios. Houve muita censura por toda parte. Esse clima, de medo e espera, se estendeu pelos anos 70 e 80 e só começou a arrefecer durante o último governo militar. De qualquer forma, tivemos, de um lado, toda uma atuação clandestina que confluía para o terrorismo, e, do lado oposto, uma violenta repressão por parte das autoridades. Entre esses dois pólos, amordaçada, sofria a sociedade brasileira. E, debaixo desse jogo de forças, foram crescendo e se consolidando formas que iam minando a sociedade, como o desamparo da educação, o tráfico de drogas, o contrabando, a corrupção das elites e a base de toda a criminalidade urbana.

Todos esses móveis constituem o pano de fundo de As Meninas. O tema do romance não é esse, mas sem isso a obra praticamente perderia todo o seu sentido.

Em As Meninas, pois Lygia Fagundes Telles mostra um mundo em que os ideais de esquerda já não satisfazem, nem conseguem explicar todas as coisas, como se pretendera durante muito tempo. A ideia do romance é a de que, em quaisquer circunstâncias, o destino é sempre uma escolha individual. Por outro lado, a presença calma e indiferente das religiosas no romance é um sinal de outros caminhos, talvez mais seguros e verdadeiros do que os apresentados pela arena da ideologia. Figuras como Lorena e Ana Clara querem levar a vida que sonharam, e não se obrigam a viver de acordo com padrões estabelecidos, nem do lado da direita, nem do lado das esquerdas, e nem mesmo do lado religioso. Podem estar erradas naquilo que escolhem. Mas não estão erradas em seu direito de escolha. Em qualquer regime, os indivíduos querem escolher a vida que bem entendem. A verdade do indivíduo tende a parecer mais verdadeira do que a verdade social. Essa é a principal tensão dentro do romance de Lygia Fagundes Telles.

Espaço

Oprimidas pela cidade grande e sua violência, as três meninas refugiam-se no Pensionato N. Senhora de Fátima, na região central de São Paulo. O quarto-concha de Lorena constitui-se no refúgio para onde as pessoas convergem em busca de conforto, de carinho, de segurança, de afeto e compreensão - um tipo de oásis dentro de um mundo desorganizado, caótico e extremamente ameaçador, onde "Deus vomita os mortos".

Ação

A ação do livro é interiorizada. Quase nada acontece na realidade exterior; a vida pacata e rotineira no pensionato, as conversas intermináveis, os estudos, as visitas das personagens ao redor do quarto de Lorena - centro daquele microcosmo -, poucos momentos na faculdade e no "aparelho"; as atitudes contraditórias de Ana Clara e sua morte; a solução dada pelas amigas para se livrarem de um cadáver comprometedor. Tudo se passa no âmbito da memória, enquanto as meninas resolvem o passado e evocam suas experiências em busca de auto-conhecimento, de solução para seus traumas e conflitos interiores, para a exorcização de seus "fantasmas".

Foco Narrativo e Linguagem

Para realizar a descrição da alma, Lygia Fagundes Telles teve de usar o foco narrativo de maneira insinuante e inventiva, teve que deixar a alma falar, sem intermediações. O foco narrativo em primeira pessoa é manipulado pela autora de forma magistralmente cambiante: ele se desloca constantemente (e inesperadamente!) para o fluxo de consciência das três amigas, que se entrevistam, que se apresentam umas às outras e ao leitor, que refletem continuamente sobre si mesmas e umas sobre as outras, arrastando-nos nessas freqüentes invasões à privacidade de Ana Clara, Lorena e Lia, que se vão desnudando paulatinamente diante de nós. Existe uma dificuldade inicial para a leitura até a identificação do estilo peculiar de cada personagem, pois cada uma delas se exprime dentro de seu "dialeto" coloquial - o discurso mais elaborado e culto de Lorena, o regionalismo politicamente engajado de Lia e o pensamento confuso e truncado de Ana "Turva". Superada essa dificuldade, o leitor mergulha de corpo e alma no universo fantástico dessas três meninas encantadoras, representantes autênticas daquele que foi um dos períodos mais importantes e difíceis para a emancipação da mulher, para a liberdade de pensamento e para a realização individual dentro de um universo politicamente conturbado.

Uma de nossas evidências mais cotidianas é que ninguém pode expressar melhor nossos sentimentos do que nós mesmos. Dada essa evidência, as três moças terão de falar em primeira pessoa. Lorena, Lia e Aninha usam o pronome EU, falam de si mesmas. Cada uma também fala ou sobretudo pensa sobre as outras. Isso não exige que o foco passe para a terceira pessoa. Cada moça é sempre um EU observador, que mostra sua própria posição, quando fala das outras. Cada uma fala o que sabe. Isso, porém, ainda não constitui o verdadeiro foco. É uma habilidade, uma astúcia criada pelo foco. Mas ainda não é o foco. Se fosse assim, se houvesse três narradoras em primeira pessoa, quem é que poderia ter juntado esses três eus? É fato que cada moça fala de si mesma e fala das duas outras. Mas quem é que fala das três juntas? O verdadeiro narrador. Há, portanto, em As Meninas, um narrador que nada fala de si, e que só fala das três. Logo, é um narrador onisciente (= que tudo sabe) e de terceira pessoa, como costumam ser os narradores oniscientes. Portanto, em As Meninas, o narrador é de terceira pessoa, é também onisciente (porque sabe tudo sobre as três meninas) e, na maior parte do tempo, deixa que as meninas falem por si mesmas, dando-nos a impressão de um teatro com alguns diálogos e muitos monólogos. Nós não conhecemos esse narrador. Nem podemos dizer que seja Lygia Fagundes Telles. Lygia é a autora, a pessoa física e real que escreveu o romance, e nele concebeu um narrador sobre o qual sabemos muito pouco ou nada. Note uma das passagens do romance em que esse narrador se mostra um pouco:

Inclinou-se [Lorena] para os lados, numa profunda reverência, os braços em arco para trás, as mãos se tocando como pontas de asas entreabertas. Agradeceu recuando um pouco, o sorriso modesto posto no chão. Mas empolgou-se ao colher uma flor no ar, beijou-a, atirou-a triunfante para as galerias e voltou rodopiando à janela. Acenou para a jovem que esperava de braços cruzados no meio da alameda. Levou as mãos ao lado esquerdo do peito e suspirou com ênfase.

É claro que o narrador aí se mostra porque é ele que está em sua função de falar sobre a personagem (em geral as personagens falam de si mesmas). Mas, nesses raros momentos em que se mostra, tal narrador revela a manipulação das técnicas "românticas" de apresentação das meninas-moças. Isso acaba se harmonizando bem com o realismo dos monólogos, onde as confissões tendem a ser mais brutais e mais modernas.

Estrutura dramática

O conflito social de Ana Clara, por exemplo, vem do fato de ela ter "perdido" toda a família, mas o destino final dessa moça não depende apenas disso. O desamparo pode explicar até que ela seja dependente, fraca e doentia. Mas não explica o fato de ela ser ambiciosa. Por um lado, ela se entrega ao vício, e não se preocupa com a imagem que possa ter no pensionato. Por outro lado, aspira a subir além de seus limites, e além de todas as evidências. Se por um lado se envolve com Max, que é traficante, por outro lado sonha casar-se com um ricaço. Seu intento de fazer "vaginoplastia" para enganar o noivo (não o amante) mostra o quão fraca e pouco livre ela é. Não tem amor ao noivo, se é que esse noivo existe. Tinha feito abortos. Trancara a matrícula na Faculdade. As duas amigas a chamam de Ana Turva, e esse adjetivo diz bem da obscuridade em que se debatem suas emoções. E, entretanto, ela é a única das três que se realiza no amor. Max a trata com carinho, promete-lhe mundos e fundos. Em suas intimidades com o amante, Aninha não esconde mesmo certa superioridade ao falar de suas amigas. E as amigas falam dela como de um pobre diabo. Isso não é hipocrisia. É o movimento dialógico do discurso humano. É a dinâmica da contradição.

Lia, por sua vez, tinha vindo da Bahia, e também lhe faltava dinheiro. Seu pai era alemão, a mãe era baiana. Tinha saudades de sua casa e sua terra. Sozinha, e quase sem recursos, ela encontra um sentido para a vida no movimento político universitário. É compulsiva (Lorena a chama Lião). Suas alpercatas cruzam as ruas da cidade, e seus olhos espiam a polícia em todo lado. Fala por citações e clichês, e, sob essa perspectiva, é incapaz de uma conversa livre. Mas se valoriza com isso. E não é burra, percebe as astúcias do chamado "milagre econômico":

Nunca o povo esteve tão longe de nós, não quer saber. E se souber ainda fica com raiva, o povo tem medo, ah! como o povo tem medo. A burguesia toda aí esplendorosa. Nunca os ricos foram tão ricos [...] Resta a massa dos delinquentes urbanos. Dos neuróticos urbanos. E a meia-dúzia de intelectuais [...] Não sei explicar, mas tenho mais nojo de intelectual do que de tira. (p. 13)

Lia é amigona, pode-se contar com ela a toda hora. Procura desqualificar tudo aquilo que não tenha relevância militante e ideológica. Envolvera-se com Miguel, que era terrorista, mas não foi feliz no amor, muito menos no sexo. Descarregava, por isso, toda sua energia no ativismo. Teve de mudar o nome para Rosa. Com Lorena ela se relacionava bem. Mas não conseguia entender o estado estúpido de Aninha.

Já Lorena é dominada por dois dramas, um pregresso, outro presente. Tivera dois irmãos, Rômulo e Remo. E, numa brincadeira de infância, à toa, Remo acabou matando a Rômulo. Esse trauma a perseguia (Remo agora é diplomata, e manda presentes para a irmã, lá do norte da África, onde servia). Lorena parece ter tido também um grande afeto pelo pai (isso pode ser sentido na constante exclamação — "ah, meu Pai"). O pai morreu. Mas o centro das angústias de Lorena estava no estranho médico que lhe escrevia cartas de amor impossível. Ela o nomeava pelas iniciais, M.N. (Marcus Nemesius). Esse Marcus Nemesíus era casado. Tinha cinco filhos, e parecia não ligar pra ela. Um homem na casa dos sessenta anos. Impotente, Lorena vai levando a vida com seus discos, com seus livros, com a gata e com as simpáticas e discretas freiras do pensionato.

Temos os elementos de uma equação dramática, que pode ser recompreendida da maneira seguinte:

1. No nível intersubletivo (eu x eu x eu), as meninas se dão bem, formam um destino comum e provisório no pensionato. Nós nos acostumamos a pensar nas três, a contar com as três, e querer que as três continuem juntas. Entretanto, cada uma está presa a um tipo de paixão que conspira contra a unidade. De certa forma, tão jovens, estão jogando a vida fora.

2. No plano da subletividade, os três projetos são falidos por princípio: Lia terá de se esconder da polícia. Seu amante é preso, e depois solto, em troca de um refém. Nesse espaço de tempo, teve uma relação frustrada com Pedro, jovem tímido e indeciso. Lia acredita que irá com o namorado para a Argélia (mas, ao fim do livro, não sabemos se ela foi de fato). Tranca seu curso de Ciências Sociais, envolve-se em confusões, e vive de sustos. E Ana Clara? Ana Clara quer de novo a virgindade, e pensa casar com toda a pompa, ter marido rico, dirigir um Jaguar novinho em folha, bancar a rica. Abandona a Faculdade, onde estudava Psicologia. E não quer deixar o amante. E afunda-se cada vez mais na dependência. E a veneração de Lorena (que faz Direito na USP) é por um fantasma, um homem que não dá sinal de vida. Lorena só pensa nele, e, sob esse aspecto, seu lamento gracioso lembra o das "cantigas d’amigo" medievais. Ela não pode ouvir o som do telefone, que sai correndo afobada e esperançosa. Lorena não quer nada com droga ou com política. Mantém-se virgem, para esperar seu M.N.. Lorena tivera algum namorico anterior, com o Fabrízio, e depois com o Guga. Mas tudo isso não era nada, diante da paixão que sentia agora pelo clínico misterioso.

Vê-se, portanto, que os três destinos marcham para a dispersão. Isso configura, como vimos, uma síntese entre o drama cultural e o drama pessoal. Que é, aliás, o drama da menina em sua passagem para mulher. É o drama da definição e da busca de um caminho. Um caminho que passa necessariamente pela esfera masculina. Pois é sempre o homem (esse ausente) que decide sobre as coisas.

3. O clímax do livro ocorre com a morte súbita (mas nada estranha) de Ana Clara, nos aposentos de Lorena. Lorena passa então por uma confusão mental. Que fazer? Mas Lia acaba chegando, e ela e Lorena vestem elegantemente a falecida, retiram-na silenciosamente do pensionato (para evitarem a polícia), e colocam o seu corpo furtivamente num banco de jardim de uma pequena praça, não sem algumas atrapalhações e juvenilidades que, não fosse a tristeza da hora, teriam sua graça e até comicidade. Lia e Lorena se separam. Aquela se prepara para deixar o Brasil, e se reencontrar com seu amante. Esta fica só, depois de uma inaugural experiência de coragem e desassombro, que fora essa aventura de carregar a morta pela cidade perigosa. É o fim. A impressão derradeira é de desconsolo e miséria cultural. É a dispersão dos destinos.

Personagens

Em As Meninas, as três moças apresentam graus de valor humano e social distintos. Em relação a Ana Clara, por exemplo, só podemos ter pena, compreensão, revolta contra a infiltração das drogas na adolescência. Ela exemplariza o jovem desencaminhado, desadaptado socialmente. Está no grau mais baixo de idealização, que podemos chamar grau irônico, se dermos a essa palavra a conotação antiga de "sofrimento", "dependência" em relação aos outros.

Lia, por seu lado, tem um esquerdismo que faz as vezes de "cortina de fumaça" para esconder os seus complexos (era desengonçada, feiosa, grandona, calçava alpargatas e não tinha dinheiro). Lia, portanto, estará num grau médio de idealização. É bondosa, prestativa, honesta.

Finalmente Lorena tem um monte de problemas, mas é filhinha de papai, não é feiosa, nem drogada. Livra seus amigos dos apuros financeiros. Portanto, Lorena ocupa o primeiro nível de idealização. Lorena é, das três, aquela que resolve melhor os seus problemas. As duas outras são "datadas", correspondem a tipos de época. Aninha tem ainda alguma representatividade, porque as drogas estão aí, mais fortes do que nunca. Mas é "fora de moda", quer que a medicina lhe devolva a virgindade. Ao fim e ao cabo, é Lorena que tem um perfil — senão eternizável — pelo menos bem durável, consistente. A despeito de suas atrapalhações, Lorena é uma das grandes personagens femininas da literatura brasileira. Por causa de seu lado lírico e humano, solto, leve, gracioso e femininamente atrapalhado. Visto sob esse ângulo, As Meninaspodem ser tidas como perfis femininos, mais ou menos na maneira como os praticava o Romantismo.

As protagonistas (Lorena, Lia e Ana Clara) oriundas de classes sociais diferentes, procuram exprimir suas individualidades e adequar o meio em que transitam aos seus anseios. Utilizando a reflexão e o diálogo,1 as personagens se analisam, exprimem seus desejos e acabam sendo derrotadas por ligações ao passado, pela incapacidade de superar a inércia, pelo status quo. As meninas é a história do fracasso de três tentativas de libertação das imposições sociais.

Lygia Fagundes Telles escreve de maneira propositada, condensada. Mesmo quando Lorena ou Ana Clara parecem divagar longamente, a digressão desenvolve a caracterização das personagens. Apesar dos monólogos aparentemente intermináveis, o livro apresenta uma grande coerência. Nenhuma indicação é gratuita. Por exemplo, Lorena estuda direito, Lia estudava ciências sociais e Ana Clara estudava psicologia. Isto porque Lorena se insere melhor nas normas estabelecidas pela sociedade, Lia se interessa pelo aspecto social do país, e Ana Clara não consegue se desprender do passado. Lia e Ana Clara trancaram as matrículas, Lia porque quer agir sobre a sociedade mais diretamente, Ana Clara porque seu passado impede qualquer tentativa de inserção. A história ocorre durante um hiato, um limbo: a faculdade está em greve. No decurso da narração a vida das três protagonistas muda, elas são recuperadas ou eliminadas pela sociedade. O fim da narrativa coincide com o fim da greve.

Lorena Vaz Leme, é sem dúvida a personagem principal do relato, o traço de união entre as três, o objeto de desejos contraditórios das duas outras. Filha de fazendeiros, culta, fina, aristocrática, descende de bandeirantes. É aluna na Faculdade de Direito e bastante estudiosa: cita com freqüência passagens da Bíblia, frases em latim, em francês, em espanhol, de filósofos variados, escritores e músicos. Demonstra cultura e educação esmerada, onde se fundem harmoniosamente o erudito e o popular. Assistiu impotente à derrocada da própria família e evoca freqüentemente esse passado, onde contrapõe os momentos felizes da infância, na fazenda, à morte acidental do irmão e a subseqüente desagregação do núcleo familiar - a fazenda vendida, o pai internado em sanatório, o irmão traumatizado pela culpa, a mãe vivendo de fantasias, terapias e falsas ilusões. Lorena vive num quarto que chama minha concha. Meu delicado mundo que amo tanto (230), e que anteriormente foi um quarto de chofer. Naturalmente Lorena tapeçou o quarto com papel dourado, e o banheiro com azulejos cor-de-rosa: Lá fora as coisas podem estar pretas, mas aqui tudo é rosa e ouro (51). Ela se descreve como sendo do gênero enrolado, as coisas comigo não se resolvem assim (15); Sou da família dos delicados, dos sensitivos. Prima da lagartixa estatelada na vidraça(49). Didática na propagação de seus valores, gostaria de mandar minha palavra de equilíbrio, de amor ao mundo, mas sem entrar nele, é lógico (50).Lorena tenta equilibrar-se fechando-se em um mundo somente seu dentro do pensionato de freiras, onde pratica ginástica, faz chá, recebe cartas e presentes do irmão, visitas freqüentes de colegas, e de onde ajuda as amigas. Toma sol, lê, filosofa, mas pouco age. Segundo Lia, trata-se de uma burguesa alienada, apesar da bondade e do carinho com que recebe e ajuda a todos. Mas o mundo insiste em invadir sua privacidade - as amigas, as freiras, Fabrízio, Guga, o amor impossível pelo médico mais velho colocam-na em freqüente conflito com o mundo exterior. Procurando viver de sonhos, perde várias oportunidades de realizar-se afetivamente e ser feliz. No entanto, diante da morte de Ana Clara, consegue definir-se e agir positivamente, encontrando, por um lado, solução para o problema imediato; e, de outro, um possível desfecho para sua alienação: voltará para a casa da mãe, acabará por perceber a impossibilidade de um compromisso com M.N. e se abrirá para o amor de Guga, enquanto se resolve a enfrentar o mundo e a deixar sua "concha" definitivamente.

Lia de Melo Schultz serve como contraponto à "finesse" de Lorena: veste-se mal, usa alpargatas, não gosta muito de banho, não cuida da aparência. Veio da Bahia para fugir da mãe superprotetora e do pai com um passado misterioso de ex-oficial nazista. Matricula-se no curso de Ciências Sociais (foco de agitações estudantis na década de 60), onde se envolve com um grupo militante da esquerda e apaixona-se por Miguel, que acaba preso. Sua preocupação consiste em angariar dinheiro e roupas para o "aparelho", e está sempre discursando contra a alienação da burguesia, das amigas, e a pobreza do Nordeste. Seu equilíbrio repousa sobre dois referenciais: em seu engajamento político (doação de amor aos amigos e à liberdade da Pátria) e na segurança que encontra no amor de Miguel e no apoio da família, que, mesmo à distância, protege-a e dispõe-se a ajudá-la em sua fuga para o exterior. Escolhe seu próprio caminho e resolve-se bem.

Ana Clara Conceição apresenta o temperamento mais problemático e a personalidade mais inconsistente das três, apesar do fascínio que a força de suas evocações exerce sobre o leitor, as amigas e Madre Alix, principalmente. Filha de pai desconhecido, amargou uma infância carente, junto a uma mãe prostituída e constantemente machucada pelos sucessivos companheiros, um dos quais a induz ao suicídio pela ingestão de formicida. Ana foi seduzida por um dentista, que abusa sexualmente da mãe e da filha. Traumatizada, não consegue encontrar prazer nos seus relacionamentos amorosos. Permanece quase o livro todo na cama com o namorado Max, traficante que a viciou em drogas e, embora conversem muito, seu discurso aparece truncado - amam-se, mas não conseguem ser felizes. Sob o efeito das drogas, suas evocações são basicamente sinestésicas: ruídos (o roque-roque dos ratos e o barulho das baratas, nas construções), cheiros (do consultório do dentista, da bebida, do mar, do corpo de Max...), sensações variadas de frio e de calor entrecruzam-se enquanto ela desnuda seus traumas sem qualquer pudor e, fugindo à realidade, adia todas as soluções para "o ano que vem". Só que o peso da memória é mais forte: nem a aspirina; nem a ilusão de um noivo rico; nem a probabilidade da plástica restauradora da virgindade; nem a perspectiva de ascensão social através da Faculdade de Psicologia, da carreira de modelo, do dinheiro que conseguirá na clínica para a burguesia; nem o amor e os conselhos de Madre Alix e das amigas conseguem salvá-la. Seu fim é trágico: morre de overdose no quarto de Lorena, e, vestida e enfeitada, cumpre seu destino num banco de praça, sem prejudicar aquelas pessoas que conseguiram dar-lhe um pouco de afeto, mas não a paz de que tanto necessitava.

Enredo
O livro narra a história de três universitárias de condição social e origens diversificadas, que se conhecem em um pensionato de freiras na cidade de São Paulo, tornam-se muito amigas, apesar das diferenças de valores e personalidades, convivem durante algum tempo, compartilham seus dramas e sonhos, ajudam-se nos momentos difíceis e terminam por separar-se definitivamente. O encanto e a dificuldade aparente da leitura repousam no foco narrativo cambiante: Lorena Vaz Leme, Ana Clara Conceição e Lia de Melo Schultz contam a própria história através do fluxo de consciência, misturando suas falas, ações, lembranças e críticas recíprocas. Depois dessa surpresa inicial, o leitor acaba por identificar o estilo de cada personagem e sente-se desafiado a desvendar o universo interior das três "meninas"- uma paulista quatrocentona, uma baiana "terrorista" e uma modelo de moral "duvidosa" e viciada em drogas. Os capítulos não têm nome, mas números:

Um - Lorena Vaz Leme divaga em seu quarto dourado e rosa - com cozinha, geladeira, banheira etc - no pensionato Nossa Senhora de Fátima: pensa na amiga Lia de Melo Schultz, que tem pretensões a escritora e é militante política; no gato Astronauta, que cresceu e abandonou-a; em Che Guevara, que foi líder de toda uma geração; em M.N., homem misterioso que lhe desperta desejos eróticos, em Jesus Cristo, a quem dedica a música de Jimi Hendrix; e na morte desse roqueiro e de Rômulo, seu irmãozinho querido. Lia aparece para pedir-lhe o carro de "mãezinha" emprestado, e enquanto tomam o chá especial de Lorena, conversam e divagam sobre tolices e sobres coisas sérias, concomitantemente a greve na faculdade; a prisão de Miguel, namorado de Lia e militante político também; na alienação da burguesia acomodada; na repressão militar, nos amigos que estão presos e sendo torturados. Lorena lembra a morte traumática de Rômulo e sua agonia nos braços da mãe, vitimado por um tiro acidental dado pelo outro irmão, Remo. Da fuga deste para o exterior através da Diplomacia, dos freqüentes presentes que ele envia a ela (sinos, lenços, roupas, comida...). Mistura a esses pensamentos a figura do médico Marcus Nemésios (o M.N.), casado e bem mais velho, de quem ela sonha receber amor, carinho e proteção (aliás, passa o livro todo aguardando um telefonema dele, que nunca se concretiza); evoca ainda a figura de Ana Clara, suas origens "suspeitas", no excesso de tranqüilizantes que consome; pensa na própria adolescência, ao piano, no gostoso convívio familiar, nos banhos de banheira, na decisão de morar no pensionato, no aluguel e decoração do quarto por Mieux, o atual namorado da mãe. Lia fala sobre o livro que escrevera e acabara por rasgar. Criticam Ana Clara e o namorado Max, traficante que a viciou em drogas, e o provável e desconhecido noivo rico com quem ela pretende se casar para "sair do buraco", após plástica restauradora da virgindade, "bancada" por Lorena. Lia pede várias vezes o carro emprestado, e um pouco de "oriehnid" (dinheiro "ao contrário", para dar sorte) para o "aparelho"(= grupo de resistência à ditadura militar). Apesar de temer envolvimentos com o grupo e suas conseqüências, Lorena é incapaz de dizer "não" aos pedidos da(s) amiga(s).

Dois - Ana Clara e Max drogam-se na cama e deliram. Ela sente-se travada, bloqueada, apesar das sessões de terapia - ela odeia o analista. Acha-se bonita (modelo, 1,77 m) e carente - a mãe, prostituta, nunca lhe deu atenção. Lembra-se do Dr. Algodãozinho, que deixava seus dentes apodrecerem para abusar sexualmente dela e da mãe, em sua cadeira de dentista. Pensa no quanto ama Max, mas que em janeiro casa-se com o noivo rico e resolve seus problemas. Sente ódio de Deus - e de negros. Resgata a infância carente, repleta de ruídos (ratos, baratas) e cheiros, nos prédios em construção, onde vivia com a mãe e os sucessivos amantes. Também evoca detalhes da vida das amigas Lia e Lorena. Max também delira. Reza. Teve educação esmerada (fala francês, é fino) mas empobreceu e tornou-se traficante. Tem uma irmã que sumiu com as jóias da família e encontra-se internada em sanatório. Ana e Max se amam, mas seu relacionamento é difícil e complicado.

Três - Lorena reflete sobre a violência do mundo; assaltos a bancos; a morte de Rômulo; a profissão de Remo propiciando sua "fuga" para o exterior. Gostaria de poder alienar-se da "máquina desse mundo" violento (intertextualidade com o texto A Máquina do mundo, de Carlos Drummond de Andrade), como uma ostra dentro de sua concha dourada (= seu quarto - refúgio). Rememora a chegada de Lia e Ana Clara e a "invasão" das duas à sua privacidade, a amizade das três, apesar das personalidades opostas. Miúda e magra, mostra certa inveja da beleza de Ana Clara, apesar da diferença cultural... Através da visão de Lorena, conhecemos um pouco mais sobre as duas amigas: Lia de Melo Schultz tem um "pé" baiano, da mãe Diú (D. Dionísia) e outro berlinense, do pai seu Pô (Herr Paul, ex-oficial nazista). Herdou do pai o vigor germânico; da mãe, as "proporções gloriosas e a cabeleira de sol negro" e o açúcar da voz. É uma "mulher-hino", enquanto Lorena vê-se como uma civilizada, requintada "balada medieval" (ou "Magnólia desmaiada", para os colegas da Faculdade de Direito). Ana Clara "arrombou" a privacidade de Lorena, obrigando-a a verdadeiros exercícios de caridade cristã: mexe em tudo, nos livros, nos objetos pessoais. Tem olhos verdes, é modelo, linda, mas "de cuca embrulhada", deprimida e deprimente, juntadíssima, afetadíssima, mentirosíssima - "ni ange ni bête" - (nem anjo, nem demônio). Envolvida com sexo e drogas. Enquanto lancha ao sol, Lorena recorda o aborto de Aninha, resgatando a fábula da formiga e da cigarra (inconsciente, bagunceira, irresponsável), com quem compara a amiga. Recebe carta de Remo e pensa na morte de Rômulo. Filosofa sobre o lado omisso das relações humanas. Sonha em casar-se com M.N., pois sente-se frágil, insegura, precisando de um homem em tempo integral. Ao voltar para o quarto, pensa no colega Fabrízio, na noite chuvosa em que ele veio estudar mas preferiu envolvê-la nos braços, ameaçando sua virgindade; na falta de luz e subseqüente chegada de Lia, estragando o momento mágico com suas alpargatas molhadas e suas pesquisas sobre a vida das prostitutas, sua obsessão por Miguel. Lia sai, mas chega Ana Clara, e "se instala". Fim da noite para Fabrízio e Lorena. No dia seguinte, conheceu o Dr. M.N. na sua Faculdade e ganhou carona. Passa a viver aguardando seu telefonema, fantasiando um amor edipiano.

Quatro - Max delira na cama. Gosta de Chopin, de Renoir. Conversa com a Coelha (Ana Clara) sobre a riqueza passada, as viagens. Ana compara os diferentes níveis de artistas abstratos e reclama de estar lúcida - teria tomado aspirina? Lembra o passado de miséria e sonha com o futuro promissor como psicóloga de ricaços - Nessa cidade as pessoas não se preocupam mais com nome, mas com o saco de ouro (de que adianta o nome Vaz Leme de Lorena, descendente de bandeirantes?). Quer esquecer a mãe, os amantes, Jorge, Aldo, Sérgio... e o suicídio com formicida. Lembra-se da amiga Adriana, feia e vesga, mas com casa na praia, onde Ana Clara tentou lavar a memória do passado num banho de mar. Max desperta e os dois deliram juntos. Ela está grávida e quer abortar. Ele deseja o filho, cuja voz diz ter ouvido. Vão ficar ricos e fazer cruzeiros pelo mundo. Ela é a gata borralheira, que tem encontro marcado com o noivo, que já deve estar inquieto com o atraso.

Cinco - Lorena aguarda o telefonema de M.N., como sempre. Pensa em arte, em literatura (Dante, Beatriz), em música (jazz), em cheiros (incenso); em morte (Rômulo); na mãe e no carro (teme que Lia seja metralhada dentro dele). Gostaria de poder sair de moto com Fabrízio, um cinema, um jantar... mas acha que ele deve estar na faculdade, incitando a greve e namorando uma poetazinha que resolveu seduzi-lo. Recebe a visita da irmã Bula e desconfia que esta é a autora das cartas anônimas, que falam coisas horríveis sobre as meninas e as freiras, para Madre Alix, a superiora. Enquanto serve licor e biscoito para a freira, relembra a morte de Rômulo, as manchetes nos jornais; pensa em Lia, em Simone de Beauvoir (escritora francesa), em segundo e terceiro sexos, em M.N., em Che Guevara, em morrer e renascer (segundo S. Marcos, "é necessário nascer de novo"). Recupera a teoria da amiga "terrorista" sobre a perda de pureza do baiano e do índio, e cita Gonçalves Dias. Coloca um Noturno de Chopin e serve constantemente vinho à freirinha. Quando tampa a garrafa, pensa na ferida de Rômulo, na fuga de Remo. Despede-se da Irmã Bula e de sua velhice sem sentido.

Seis - Na sala imunda e mal iluminada onde montaram o "aparelho", Lia ("Rosa de Luxemburgo") e Pedro começam a separar material para o jornal. Conversam sobre experiências homossexuais; Jango; o nazismo; conceito de santidade; sobre Che Guevara; Martin Luther King (líder negro americano), engajamento político-social, atuação da Igreja progressista, casamento de padres, amor... Sai para uma operação noturna com o Bugre, que lhe conta sobre a próxima deportação de Miguel para a Argélia. De volta ao pensionato, feliz, conversa com Madre Alix: fala de seu amor pela família, do passado com saudade, do presente (fases da vida!...); de Ana Clara, Max e seu envolvimento com drogas; na sua pretensa vocação para escritora; na desilusão com Miguel (muito cerebral) e Lorena (muito sofisticada). Madre Alix quer ajudá-las, mas sente-se impotente e teme por seu futuro. Sugere uma epígrafe para o livro de Lia e que serve para a vida das duas: Sai da tua terra e da tua parentela e da casa de teu pai e vem para a terra que eu te mostrarei(Gênesis).

Sete - Irmã Clotilde leva frutas para Lorena, que se exercita na bicicleta. Falam sobre as duas Santas Teresas; sobre Tolstói; sobre homossexualismo (comenta-se no pensionato que I. Clotilde é lésbica); sobre beleza, ideais, filosofias de vida. A freira vai lavar as mãos e volta criticando a cor, a saúde e a alimentação das três amigas. Lorena anseia por beleza e um telefonema... Quer ficar só, mas a freira se demora na visita e no exame do quarto, dos animais, dos livros da moça. Esta lê um pedaço de um livro de Direito, cita frases em latim, enquanto pensa sobre o lado oculto das pessoas: a vida é um jogo de espelhos, e Lorena tem sede de autenticidade... Lia chega, a freira se vai. Devolve a chave do carro, conta sobre a viagem à Argélia, brinca de entrevistar Lorena (os assuntos de sempre: virgindade, casamento, M.N., Fabrízio, Pedro) e diz que esta é edipiana. Ambas mostram-se preocupadas com a gravidez de Ana "Turva" e sua dependência. Divertem-se no jardim e despedem-se no portão. Lia pede roupas para os "revolucionários". Lorena fica pensando na iniciação sexual das amigas e imagina como será sua "primeira vez" (M.N. é ginecologista, um "gentleman").

Oito - Ana Clara e Max acordam e conversam: ele e Lorena são "aristocratas", têm álbum de retratos... Os de Lorena estão na garagem do pensionato. Criticam o amante jovem de "mãezinha", Mieux. Max vai até a geladeira, come e volta a dormir. Ana pensa na desculpa que vai inventar para o noivo aceitar seus sumiço. Arruma-se e sai. Chove. São quase 11 horas da noite. Não consegue táxi e aceita carona de um industrial em um Mercedes. Foge dele e refugia-se em um bar, onde encontra um velhote estranho que a convida para seu apartamento. Confundindo-o com "um pai" que nunca teve, segue-o. Apartamento de boêmio - retratos na parede, vitrola de corda, discos de tangos. Ana deita-se na cama e dorme, enquanto ele lê para ela textos sobre Napoleão, Rodolfo Valentino e tem orgasmo. Diz que o platonismo amoroso é a forma mais sutil e temível da paixão infinita e insaciável.

Nove - Na banheira, Lorena filosofa sobre "ser" ou "estar" no mundo - na desintegração do ser humano na cidade grande, no papel do filósofo, do advogado, do médico, do psiquiatra. Sente todos os sintomas de todas as doenças mentais, apesar de charmosa e inteligente. Lembra-se da fazenda, das procissões em que se vestia de anjo. Rememora o primeiro encontro com M.N. e imagina as reações de mãezinha quando lhe contar sobre ele. Sai do banho emocionada e veste um robe. Chega o colega Guga, que lhe conta ter abandonado a família, a escola e estar vivendo em um porão, numa comunidade. Escandalizada com sua sujeira, Lorena corta-lhe as unhas, alerta-o sobre promiscuidade e lê para ele uma carta de M.N. Guga se excita e tenta amá-la. Ela quase cede, mas reage e ele se vai. Chega Lia. Conversam sobre filosofia, Lacan, auto-identificação, transferência de afetos. Lia quer provar que M.N. está mais para pai que para namorado, mas Lorena não admite. Falam sobre o telefonema de Herr Pô e da promessa de ajuda em dinheiro para a viagem. Lorena entrega a Lia um cheque em branco e pede-lhe para usar uma cruz na corrente, enquanto filosofa sobre Deus, religião, fé. Lia sai rindo. Lorena faz caretas.

Dez - Lia pega carona com o motorista de mãezinha de Lorena e vai visitá-la. No caminho, consegue fundir a cabeça do senhor com seu discurso sobre família e liberdade. Recebida no hall pelo mordomo, fuma, examina os objetos e tapetes luxuosos, enquanto imagina sua viagem, a desunião da esquerda; vê-se na Argélia escrevendo seu diário e exaltando a Pátria. Mãezinha chora, na cama, a morte do psiquiatra Dr. Francis. Desajeitada, Lia tenta consolá-la e ouve suas lamúrias sobre a diferença de idade entre ela e Mieux, a impossibilidade de acompanhá-lo em seus programas, a dificuldade em aceitar a velhice e a morte. Lia lembra-se de sua família (tão equilibrada!) com saudade e amor. Mãezinha pergunta sobre os namoros de Lorena e Lia (acha-a masculinizada) e quer trazer a filha de volta à casa. Conta uma versão totalmente diferente sobre a morte de Rômulo (falência cardíaca, ainda bebê). Lia sente-se nauseada e pensa em ver o álbum de fotos na garagem: acha que mãezinha está escamoteando a tragédia por auto-defesa. Ganha roupas e mala para a viagem.

Onze - Tarde da noite. Ana Clara chega transtornada ao quarto de Lorena, que está estudando para a prova no dia seguinte (a greve terminara). Entra arrastada, gritando de dor no peito e imunda. Lorena coloca-a na banheira - seu corpo está cheio de nódoas roxas e sofre alucinações com formigas, baratas, Deus e Max. Pede uísque e a bolsa. Delira. Lorena pensa no abismo entre o ser e o estar, num futuro feliz no campo, fora de sua casca. As novelas da vizinhança encobrem os ruídos e finalmente Ana Clara adormece. Lorena toma chá. Finalmente Lia chega para preparar as malas (a viagem será na manhã seguinte) e Lorena vai até seu quarto. Conversam muito - sabem que estão se despedindo - e Lia conta-lhe que Guga virá procurá-la. Não vêem futuro na relação com M.N., que jamais abandonará a família, pois ador do remorso dói mais que a dor física (Tolstói). Ao voltar para o quarto, Lorena tem um choque: Ana Clara está morta.

Doze - Lia corre aos acenos da amiga. Ao entrar, encontra Lorena massageando o peito de Ana Clara, tentando revivê-la, enquanto reza. Lia pensa em chamar o pronto-socorro, em acordar todo mundo, em que poderia ter feito mais pela amiga, além dos "discursos". A bolsa de Ana Clara está aberta: talvez dali ela tirara a própria morte. Lorena tem idéias e age: encomenda o corpo, reza em latim, veste e pinta Ana Clara como se esta fosse a uma festa. Elimina todas as pista comprometedoras para Aninha e Max, além das freiras do pensionato. As duas amigas carregam Ana Clara através da noite providencialmente nebulosa e abandonam o corpo em um banco em uma linda praça do bairro. Voltam para o pensionato e separam-se: cada uma vai viver a própria vida. Lia no exílio. Lorena de volta para a casa de mãezinha, deixando sua concha para a futura hóspede, que vem do Pará.

Trecho do livro


- Desde ontem ela não aparece. Telefonou dizendo que está na chácara do noivo.

- Noivo. A senhora me desculpe, Madre Alix, mas Ana é o produto desta nossa bela sociedade, tem milhares de Anas por aí, algumas agüentando a curtição. Outras se despedaçando. As intenções de socorro e et cetera são as melhores do mundo, não é o inferno que está exorbitando de boas intenções, é esta cidade. Vejo a senhora sair com outras senhoras bondosas dando sopinha aos mendigos. Bons conselhos, cobertores. Eles bebem a sopinha, ouvem os conselhos e vão correndo trocar o cobertorzinho pelo litro de cachaça porque o dia amanheceu mais quente, pra que cobertor? 

Tudo continua como na véspera com uma noite de demência a mais fornecida pelo donativo. Um padre nosso amigo foi ensinar catecismo à menininha de nove anos que o pai vendeu pro bordel e quase morreu de tanto apanhar do agregado da proprietária. Aprendeu a lição, ô se aprendeu. Caridade individual é romantismo, cheguei a essa conclusão não faz muito tempo. Agora ele funciona com a gente mas dentro de outra perspectiva. Nos esquecemos, nos descuidamos, diz Bela Akmadulina. E tudo caminha ao contrário.

Vou até a garrafa térmica e me sirvo de mais café mas queria um sanduíche. Presunto e queijo. Uma abelha se debate contra a vidraça e de repente seu zunido fica mais importante do que nossa fala. Mas de onde veio essa abelha numa noite dessas? Gostaria de escrever como ela faz mel. E quase me dobro num riso desatinado, era bem doidona a cigarra da fábula com suas cantorias mas a formiga de vassoura na mão não ficava atrás.

- Tinha tanta coisa que lhe dizer, filha. E já nem sei por onde começar. Essa sua política, por exemplo. Me pergunto se você está em segurança.

- Segurança? Mas quem é que está em segurança? Aparentemente a senhora pode parecer muito segura aí na sua redoma mas é bastante inteligente pra perceber do que essa redoma está lhe protegendo. Alguns padres romperam o vidro como aquele de que lhe falei. Por acaso estão em segurança? Não. Nem estão pensando em segurança quando se deitam no colchão sem travesseiro ou quando rezam suas missas num caixote feito altar.

Ela sorriu. Um sorriso triste que me arrependi de provocar.

- Mas não estou na redoma, Lia. É neste ponto que você se engana como se enganou também quando disse que eu queria lhe apontar a porta. Deus sabe que meu desejo maior é protegê-la e guardá-las para sempre, como se isso fosse possível. Se não interfiro, se não me aproximo é porque não quero que pensem em vigilância, fiscalização. Vocês bateriam as asas mais depressa ainda.

Pronto, magoou-se. Essa minha mania de discurso, baiano com subversão pode dar noutra coisa?

- Não sei explicar, Madre Alix, mas o que queria dizer é que embora resguardada a senhora luta a seu modo, respeito sua luta. Respeito até a luta dos que querem nos destruir, respeito sim senhora, eles estão na deles. Como estamos na nossa, enfraquecidos, traídos, divididos, não calcula como estamos divididos. Mas vamos aguentando. Um que fique tem que correr como um cão danado pra passar o facho ao seguinte que recebe e sai correndo até o próximo que nem estava na corrida, entende. De mão em mão. É demorado mas não estamos mais com tanta pressa.


- Facho, Lia? Você fala em facho, mas o que vejo é um levar ao outro violência, morte. Um rastro de sangue é o que vocês vão deixando por onde passam. Temos um Condutor Supremo e do Seu esquema transcendente a violência foi riscada. A espiritualidade...

Olha aí, vitória da espiritualidade. Arranco uma lasca da unha que vem com um fiapo de pele. O sangue brota. Chupo o dedo. Uma bala dum-dum no peito doeria menos.











AS MENINAS - O FILME: