PREMIO SESC DE LITERATURA 2015 - PARTICIPEM!

Inscrições abertas!

Estão abertas, até o dia 01 de março, as inscrições para o Prêmio Sesc de Literatura 2015, categorias contos e romance. Esse ano a novidade é que a inscrição será totalmente online. O livro será enviado (em formato Word) através de um formulário disponível aqui.

Poderão concorrer escritores brasileiros e estrangeiros, residentes no Brasil, com mais de 18 anos. Cada concorrente poderá participar com apenas uma obra por categoria. O livro deve ser inédito, não valem os já publicados, mesmo que apenas na internet. A obra na categoria conto deverá ter entre 140 a 400 mil caracteres e na categoria romance entre 180 e 600 mil caracteres. A inscrição gera um código identificador automaticamente e, com esse, o inscrito poderá acompanhar o processo de avaliação. Os vencedores terão as obras publicadas pela editora Record com uma tiragem inicial de dois mil exemplares.

Os textos serão analisados por uma comissão julgadora composta de escritores, jornalistas, críticos literários e especialistas em literatura. E o resultado será divulgado em julho. Vale lembrar que não podem concorrer funcionários, estagiários e parentes (até segundo grau) de funcionários do Sesc, da Confederação Nacional do Comércio e das Federações do Comércio, da editora Record, bem como estagiários e parentes (até segundo grau) de funcionários e nem dos envolvidos no processo de julgamento do concurso. Além disso, os vencedores de edições anteriores não poderão se candidatar.

Em onze anos de Prêmio Sesc, já foram 19 escritores premiados. Na última edição, os livros vencedores foram: o romance "Enquanto Deus não está olhando", da jornalista Débora Ferraz e o livro de contos "Parafilias", do bancário Alexandre Marques. "Recomendo o Prêmio a quem sonha em ser escritor. Sou a prova de que é possível. Sou uma escritora paraibana, longe dos centros editoriais e hoje vejo meu livro em livrarias do Brasil todo. É gratificante", conta Débora. "Foi uma grande mudança. Antes, escrever era um hobby. Só amigos e familiares tinham acesso aos meus textos. Agora, além do Parafilias, já estou com o segundo livro em andamento, também pela editora Record", afirma Alexandre.

Confira o edital completo. O resultado será divulgado em julho.

Pérola Negra - José Vicente Jardim de Camargo

Pérola Negra
José Vicente Jardim de Camargo

Ele levantou tarde com o frevo no pé em pleno domingo de carnaval...

Tomou uma vitamina reforçada, fez a barba no capricho, o bigodinho continuou intocável, ligou o radio nas marchinhas, que nesses dias de folia não troca por nenhum funk da moda, vestiu a camiseta da pérola Negra e saiu apressado pra concentração da escola no horário marcado para o início do desfile no sambódromo da cidade.

O tamborim com seu nome gravado o aguardava junto com os demais instrumentos reluzentes e afinados dos ritmistas da bateria. Seus olhos, porém vasculhavam o ambiente em busca da cabrocha que dias antes tinha sido eleita a rainha da bateria. Foi uma disputa acirrada por um voto de diferença, justo o dele...

O crioulo da segunda colocada, mulata reluzente de deixar boquiaberto qualquer filho de Deus, saiu de valente, se esperneou, pediu anulação da votação alegando trapaça. Não sendo atendido, jurou acertar as contas com ele por ter vendido seu voto decisivo em troca de favores da vencedora...

Acertou na mosca!

Tininha, como era conhecida por tocar o “timbre” por onde passava do mais apático dos mortais, lascou-lhe uma piscada de olho fulminante bem na hora de ele dar seu voto de minerva...

Ele a avistou na ala reservada as passistas dando os últimos retoques na plumagem colorida e nas lantejoulas dos “tapa-tapas” atrevidos. Seus olhos se cruzaram e ela sorrindo bamboleia os quadris avantajados disfarçando um aquecimento desnecessário.

Convite feito!

Acariciando o tamborim ansioso, preciso pedir ao Robertão o ap. dele emprestado, sente por trás um golpe forte que lhe agarra o pescoço e lhe trava as pernas murmurando:

O que você tá desejando, não vou deixar barato, seu fdp desgraçado...

Ele reconhece a voz do crioulo vingativo e com o tamborim nas mãos retorce o tórax avantajado e desfecha uma pancada na orelha do opositor que com o baque o afrouxa o suficiente para conseguir dar um contragolpe, as aulas de jiu-jitsu lhe vêm à memória, e se libertar do desafeto possesso.

A turma do deixa-disso entra logo em ação, a bateria inicia os acordes do samba enredo obrigando os componentes a procurarem suas alas e se prepararem para a entrada na avenida ao encontro dos foliões, impacientes pra botarem o samba na ponta dos pés...

A bateria enfileirada sob a tutela do mestre Ataíde explode de vibração e emoção na esperança da conquista do primeiro lugar, ecoando a batucada marcada pelo choro da cuíca e o rugir dos tambores para o delírio do povão que só quer saber de pular de alegria entre bebidas e amores até o raiar da quarta-feira de cinzas...

Tininha, sob o pipocar dos fleches, faz coro como ritmo da bateria num desbunde frenético para alvoroço das arquibancadas, enquanto ele, a vez do acorde é dos pandeiros e atabaques, dá uma mirada no bilhete que ela lhe entregara minutos antes:

“Te espero amanhã,

 Bloco: Passaram a mão na Pompéia

Ala: As águas vão rolar

Traje: Sumário

Obs: não esqueça os preservativos!”


Nessa hora, para exaltação da galera e satisfação do mestre Ataíde, ouve-se um solo de tamborim estridente e prolongado, bem acima do zunido da cuíca e do urrar dos tambores...

Entusiasmo: Ter um Deus dentro si.











Mensagem de Mario Augusto para o EscreViver:

Como vai? Acho que deve se sentir bem, cada vez mais entusiasmada. O EscreViver vai de vento em popa. "Segura o leme marujo". Parabéns.
Zapeando, veja só o que encontrei: a confirmação que os gregos é que sabiam das coisas. Meio capengas, estão aqui até hoje. Que tal enviar para a tchurma?

ENTUSIASMO – OTIMISMO.

A palavra entusiasmo vem do Grego e significa “ter um deus dentro de sí.” Os gregos eram politeístas, isto é, acreditavam em vários deuses.

A pessoa entusiasmada era aquela “preenchida” por um dos deuses e por isso podia transformar a natureza e fazer as coisas acontecerem.

Assim, se Você fosse entusiasmado por Deméter (Deusa da Agricultura chamada Ceres na mitologia romana) Você seria capaz de fazer acontecer a melhor colheita. E assim por diante.

Segundo os gregos, só as pessoas entusiasmadas eram capazes de vencer os desafios do cotidiano, criar uma realidade ou modificá-la. Portanto, era preciso entusiasmar-se, ou seja, “abrigar um deus em si”.

Por isso as pessoas entusiasmadas acreditam em si, agem com serenidade, alegria e firmeza e acreditam igualmente nos outros entusiasmados.

Não é o sucesso que traz o entusiasmo; é o entusiasmo que traz o sucesso.
O entusiasmo é bem diferente do otimismo:

- OTIMISMO significa esperar que uma coisa dê certo.

- ENTUSIASMO é acreditar que é possível fazer dar certo.  


Joel e Cicinha - Jeremias Moreira

Tela:  Rosas do Brasil - Curitiba - PR

Joel e Cicinha
Jeremias Moreira

Os times grandes penavam para ganhar do brioso “Nho Quin”, naquele ano. Tudo por causa da muralha que o XV de Piracicaba tinha no gol. Com apenas vinte e um anos e espetaculares defesas, Joel se tornara a grande sensação do campeonato paulista. Se o XV não marcasse, Joel, lá atrás, no mínimo garantia o empate. Mas, se era um leão debaixo dos três paus, fora do gramado era tímido. Morava numa pensão a algumas quadras do Barão de Serra Negra, mas, nos dias de treino, costumava fazer um trajeto bem mais longo até o estádio. E, assim, passava pela casa de Cicinha. Cicinha, por força do apelido que trouxera da infância, porque, aos dezoito anos, se tornara uma gata estonteante: um mulherão. Ela intuía ser o motivo desse caminho mais extenso e ficava na janela a espera. Joel passava sorria tímido e seguia. Mais à frente parava um pouco na oficina mecânica e de lá, lhe lançava olhares. Ela não era nenhuma Maria Chuteira, mas andava angustiada com a indecisão do moço. Joel passou a povoar suas fantasias. Imaginava-se abraçada àquele corpo musculoso e sentia, quase que real, os lábios dele percorrendo seu corpo a caminho do beijo ardente. Sem se dar conta estava apaixonada e não sabia mais o que fazer para encorajar o goleiro a se declarar. Sonhadora, as amigas notaram uma mudança em Cicinha. Vivia em devaneio. Certo dia, Rita e Melissa a flagraram sorrindo de nada. Deduziram: “Cicinha está apaixonada”. Fecharam o cerco e fizeram-na confessar: “Quem é o cara?”. Relutante, contou. Falou da sistemática paquera que rapaz fazia. Tinha certeza de que ele estava afim dela, e não sabia qual o motivo de não se declarar.

— Afinal, quem é ele? – perguntaram.

— É o Joel! – disse decidida.

— Que Joel?

— O Joel do XV.

As duas se olharam e desandaram a rir:

— O Joel é franga, Cicinha.

Diante do olhar estupefato da garota, Rita concluiu:

— É! O Joel é gay e tem um caso com o Rubão da oficina perto da sua casa.


VELEJANDO NO VENTO QUE VENTA AQUI - M.Luiza de C.Malina



VELEJANDO NO VENTO QUE VENTA AQUI
M.Luiza de C.Malina

O Magnun, ele se saiu bem nas aulas, coleciona certificados e passaportes, tal qual o pai, que se aperfeiçoa na profissão.   

Magrinho esperto que só, aprendeu aos oito anos, o que lhe valeu um certificado podendo assim velejar na Alemanha.  De seu apelido de Magrinho, no batismo da Capoeira, transforma-se num adulto de porte físico militar, alto de olhar lanceiro e observação à flor da pele, nada lhe escapa, o que alias, conseguiu por insistir em servir o exército, na Polícia Militar.

Magrinho corajoso, certa vez o veleiro inesperadamente virou de lado, em meio a uma densa e repentina neblina acompanhada de forte vendaval, em pleno mar aberto. Nada se enxergava.   Nada se entendia.  O pai, que junto velejava, não localizou o corpo franzino em meio às vagas e, lhe procurou com voz mega fônica de desespero:

- Victoooooorrrrr, onde você está?

O pequeno emergiu em meio às ondas e respondeu entre boas golfadas:

- Tô aquiii pai! Tô tentando desvirar a vela – justificou.  Hábil, mergulhou no embalo da onda e tudo se resolveu a dois, em um záz traz.

- Ufa, essa foi por pouco! – exclamaram aliviados, deslizando-se entre o controle do leme e da vela que, pretendia novamente se render aos encantos do mar.

À casa de praia, a vela azul e branca descansava em cima da grama.  Aguardava uma nova aventura. Mas, como havia falta do vento que ventava aqui, misturou-se entre os coqueiros de um dia ensolarado, de brisa que exalava o sopro quente fazendo até passarinho desmaiar.

O Mar Virado descansava como se nada houvesse acontecido.

O céu clareou e acalmou sua musa, a natureza!

Becherovka, uma dose em um só gole e, todos os males se vão no bater dos copos vazios sobre a mesa, o silêncio se rompe entre os homens do mar; gargalhadas e fortes abraços pedem mais uma. Nazdraví! Saúde!

Vende-se casa. - Fernanda Codorniz



Vende-se casa.
Fernanda Codorniz

Naquela sexta-feira chuvosa, senti minha alma estremecer quando pregos enormes adentraram minha parede. Ao ler aquela curta e impessoal frase: "Vende-se casa.", me apavorei! Uma enorme rachadura tomou conta de mim.

Sempre fui uma casa bem cuidada, era a mais feliz da minha rua. Nasci no bairro da Moóca, próximo a Rua dos Trilhos, rua tranquila e arborizada. Não podia imaginar que um dia isso fosse acontecer comigo. Mas o progresso foi chegando e com ele a fumaça, agitação dos carros e vizinhos nada simpáticos em seus vinte e oito andares.

Perder tudo. Aquela família que acompanhei de geração em geração... Por quê? Pensamentos inundaram meu telhado. Quando eles se foram um enorme vazio se formou, me senti uma casa distante, escura e fechada. Minhas janelas não se  abriam para nada.

Não ouvia mais passos, as músicas vindas da sala de estar e o cheiro do café da manhã. Não sabia se iria ruir diante de tamanha saudade e dor.

Só me vinham lembranças: o dia em que resolveram me pintar de amarelo, para me rejuvenescer, afinal de contas a chuva e sol castigam a gente; o dia em que os vizinhos foram preparar quitutes para quermesse e muitas outras boas lembranças.

O tempo foi passando, passando e, aos poucos, aquela dor se tornou mais amena. Até que um dia percebi que estava melhor ao sentir o sol penetrando em mim, me aquecendo e confortando, trazendo uma sensação de paz e esperança.


Esperança de que em breve terei de novo a sensação de casa cheia, com meus cômodos repletos de histórias e cor.

CARTA PARA LIZETE - Mario Tibiriçá

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CARTA PARA LIZETE
Mario Tibiriçá


Oi  amor, desesperado,  sem palavras, coragem e acovardado, procuro
dourar a pílula para  dizer-te, que embora muito te amando, devemos nos separar.

Essa separação, despedaça meu coração, na praia da minha ansiedade, chegam  ondas de remorso, eu não a  faria, houvesse oportunidade de reparação, tu és minha  vida, meu amor e minha dedicação, escrevo para ti na esperança que compreendas minha situação: amo-te tanto, porem devo deixar-te.

Penso demoradamente em tí, meu desejo inesgotável, teu corpo me fascina, me enlouquece, minha cabeça gira, porém  sinto-me  derrotado. Tu és a esperança o sonho e a vida, enquanto sou o medo e  a  morte. Sei tudo da vida, mas conheço pouco da morte.

Sei de tuas qualidades, tua ternura, teus méritos, ousadia, vibração atitude e coragem, mas perdoa-me por tanto te amar...

Adeus  amor da minha vida.

                                                                                                     
                                                                                                          Oscar




Lizete recebeu a carta, quando almoçava, leu-a e jogou-a de lado, seu coração já havia deletado Oscar, a tempo, seus sentimentos já não eram confusos ou tumultuados, sabia  o que estava acontecendo, porem acima desse conhecimento  apenas  sorria.... Pobre rapaz, enlouquecido de amor...



Minhas férias de fim de ano- Fernando Braga


Minhas férias de fim de ano
Fernando Braga

Logo após o Natal, fomos passar uma semana no Club Med, na Ilha das Pedras, estado do Rio de Janeiro. O local onde se encontra o Club é realmente privilegiado. Nunca vi e não acredito que possa haver um lugar tão lindo, com natureza tão exuberante. Nosso quarto de hotel era em um edifício distante, uns 300 metros da sede onde estavam o hall de entrada, a secretaria, o restaurante principal, o teatro,  a grande piscina etc. Marcamos este quarto mais isolado, para ficarmos bem de frente para o mar, onde também havia outra piscina chamada de mansa, proibida para crianças, para o melhor repouso dos hospedes mais idosos, e para aqueles que gostam de leitura. É a piscina preferida para os adultos, principalmente os estrangeiros, com grande predominância de argentinos e franceses. Logo após o lauto café da manhã, íamos para esta piscina mansa, nos acomodávamos nas confortáveis cadeiras   ou mesmo na praia,  à sombra das frondosas arvores. Bebidas todas gratuitas, assim como alguns comestíveis. Tudo era tão gostoso que senti vontade de documentar através de fotografias, e ainda, como sou observador, descrever algumas pessoas que me chamaram a atenção.

A piscina era   convidativa, havia a parte mais funda, que não passava de um metro e meio e depois uma parte mais rasa onde estavam as escadas, onde muitos ficavam sentados. Nesta parte, em uma das paredes da piscina havia um turbilhão de várias bocas donde saia água sob pressão, ótima para massagear as costas e as pernas.

Minha mulher logo fez amizade com duas moças, irmãs, ambas separadas dos maridos, sem filhos e que sempre viajavam juntas, quando havia oportunidade. Uma delas, bem alta, bonita, era repórter da Record, muito expansiva e simpática. A outra, bem menor, era mais recatada, mas também muito boazinha. O calor sempre estava sufocante e o sol abrasante. Após nadar um pouco, o lugar preferido era ficar nas escadas ou no turbilhão, jogando conversa fora. A conversa era tão animada que logo outras pessoas se aproximavam e formávamos um grupo de pessoas risonhas e falantes, a ponto de um francês se levantar de sua poltrona e vir nos censurar dizendo:
Esta é uma piscina mansa e vocês estão fazendo muito barulho. 

Não consigo me concentrar em minha leitura! Fingimos que não entendíamos francês, não demos a menor bola e após alguns   segundos, estávamos novamente nos divertindo.

Com tantas pessoas presentes, duas me chamaram a atenção.

A primeira foi um senhor, calvo, aparentemente menos de  sessenta anos, que nadava bem e se aproximou de nós, sorridente, disse algumas palavras e ficou tomando o turbilhão. Após algum tempo, saiu da piscina, chamando a atenção sua grande dificuldade em subir as escadas e depois para andar até sua cadeira, jogando ambas as pernas, com marcha bem dificultosa. Sentou-se ao lado de uma senhora, com aparência bastante envelhecida. Após uma meia hora levantaram-se para ir embora, ela bastante encurvada, com a deambulação bastante difícil e ele, daquele jeito, ambos se apoiando um ao outro para poderem caminhar juntos. Pensei:

“Ele parece bem mais jovem, mas talvez sejam um casal, porque sua movimentação é muito difícil dando-lhe uma aparência de pessoa mais velha”. Compadeci-me de ver a dificuldade de ambos. Uns dois dias após, chegou este mesmo casal, quando já estávamos dentro da piscina tomando o turbilhão e conversando animadamente. Eles levantaram-se, um ajudando o outro e vieram em direção à escadaria da piscina. Ele conseguiu com muito esforço descer um degrau e depois foi ajudar sua companheira, mas, estava difícil. Imediatamente fui ajuda-los e trouxe a senhora perto do turbilhão, o que foi sua solicitação. Ficou ao meu lado e ele foi nadar. Entabulamos uma conversa. Quis ela saber a minha profissão e após minha resposta perguntou aonde havia me formado. Ao responder que me formara na Escola Paulista de Medicina, ficou surpresa e disse que lá havia trabalhado de 1953 a 1956, como bibliotecária. A biblioteca, me lembro bem, era pequena, ao lado da anatomia, a qual muito frequentávamos. Ao perguntar seu nome, lembrei imediatamente que lá trabalhavam duas moças, ambas muito bonitas, a Cacildinha, que namorava um colega um pouco mais velho e acabou casando-se com ele, e a Orminda, que era ela. Naquela ocasião, da Rockefeller Foundation, através do diretor da escola, muito entrosado com esta fundação, havia conseguido uma verba para criar a Bireme, hoje a maior biblioteca médica da América do Sul. Disse-me ela:

— O vice-diretor arranjou-me uma bolsa para ficar um ano em Boston, estagiando em biblioteconomia e voltar  para trabalhar na Bireme.

Foi para os EUA, mas lá encontrou um americano, se apaixonaram, se casaram e não mais voltou, a não ser ocasionalmente para visitar a família, e depois definitivamente, com a morte do marido há 10 anos . Tiveram quatro filhos, dos quais o mais novo era aquele que viera com ela para o hotel. Fiquei sabendo que aquele senhor era um jovem de 53 anos, que cursara medicina e quando estava no quarto ano, fora passear na Argentina, onde atropelado, sofrera um grave traumatismo craniano. Foi tratado em Buenos Aires e depois levado de volta para o USA, mas ficara com sequelas da grave lesão cerebral. Tinha ele dificuldade na movimentação das pernas, memória de fixação muito fraca e alguma dificuldade na fala. Moravam juntos e um ajudava o outro. Tive um prazer enorme em rever Orminda, agora com 84 anos, e vendo seu filho nadar, com aquele sorriso franco, ninguém acreditaria que não era absolutamente normal.

Ainda, nesta mesma piscina, estávamos conversando em um outro dia, quando se aproximou uma senhora, muito comunicativa, falante, que se apresentou como sendo de São Paulo e, viúva. Chamou o rapaz que estava perto e nos apresentou como seu filho. Ele logo saiu para nadar e em seguida ela disse:

— Ele é casado com a filha daquela senhora que está sentada naquela mesa próxima, que também é viúva. Viajamos sempre todos juntos. Sou uma pintora e sempre faço exposições. Deu-nos seu nome, eu não a conhecia, mas posteriormente soube que era famosa e conhecida. Olhei em direção à mesa onde estava a mãe de sua nora e deparei com uma senhora com aparência ainda jovem, entre os 55 e 50 anos. Olhando melhor, reparei que tinha o rosto angelical  mais do que isto, maravilhoso, onde ressaltavam os dentes perfeitos quando sorria, em uma boca perfeita de lábios carnosos, e os olhos, quando tirou os óculos escuros, eram diferentes, difícil de descrição, mas para mim divinos. Ela levantou-se com dificuldade e veio em direção à escada da piscina. Realmente, a beleza de seu rosto contrastava com seu corpo. Suas pernas eram bem gordas, com muita celulite, assim como seu abdômen e tórax. Havia uma notável desproporção entre o corpo e o rosto, que não era gordo, era sem rugas, com uma pele brilhante e lisa e sorriso encantador. Fiquei extasiado com aquele rosto, o que comuniquei à minha mulher, que imediatamente concordou.


Dentro de minha cabeça, agora só faltava conhecer sua filha, que devia ter uns 30 anos. Se tivesse o rosto da mãe, em um corpo jovem, deveria ser muito linda. Ela não apareceu na piscina, mas em um almoço, já no final de nossa estadia, vimos o seu marido indo em direção a uma mesa, mais ao fundo. Como tínhamos acabado de sentar, mudamos para mesa mais próxima deles e assim observa-la. Foi uma decepção. Ela levantou-se para ir servir-se, era muito alta, magra, com um rosto onde predominava o nariz avantajado. Nada a ver com o rosto de sua mãe. Certamente puxara seu pai!

A gueixa - Fernando Braga


A gueixa
Fernando Braga

Marcos, de 32 anos, trabalhava na Mitsubishi em São Paulo, e após cinco anos recebeu, por ser um ótimo funcionário, como prêmio e incentivo, uma estadia em Tóquio, por um período de três meses. Estava noivo e com casamento já programado, mas com tal convite resolveu adiar, o que muito contrariou a futura esposa. Decidiu que não poderia perder esta chance, uma vez que passaria a maior parte do tempo na fábrica, em contato com os chefões da companhia e teria tempo para conhecer bem o Japão, país do qual sempre fora grande admirador. Todas as despesas pagas e ainda mantendo seu ordenado, que já era bom.

Hikita era uma moça de 28 anos, vinda de uma família pobre, que a vendera com apenas 6 anos, para ser educada para ser uma gueixa. A gueixa é uma profissão como outra qualquer, como ser médico, advogado, professor. Isto é uma ocorrência bastante comum no Japão, aceita pelo governo, onde o sexo não faz parte da profissão. Somente as mais dedicadas conseguem realmente o status de gueixa. Durante anos são treinadas na música, na dança, nas artes e no entretenimento. Passam anos aprendendo a serem anfitriãs perfeitas e também confidentes de seus clientes. Elas fazem com que os homens se sintam atraentes e importantes. Os clientes pagam caro para ter uma gueixa atendendo aos seus caprichos. Não são prostitutas,  e o sexo não está relacionado, quando em uma festa se apresentam, geralmente em grupos, para animar com a música, dança, relato de histórias, atenção e mesmo flerte. Vestem-se magnificamente, com quimonos chiquérrimos e caríssimos, têm os pés pequenos, com seus tamanquinhos de madeira, cabelos com penteados bem cuidados, dentes perfeitos e sempre usando um perfume suave, mas delicioso. Cada apresentação de gueixas é bastante cara. Não saem nas ruas e estão sempre como que confinadas em belas e ricas mansões e só saem para se apresentarem e cumprirem suas funções. A aceitação de um relacionamento sexual depende exclusivamente delas.

Com 19 anos fora enviada para Kyoto, a cidade dos mil templos, o coração do Japão, cidade que foi poupada nos bombardeios da segunda grande guerra. É mais conhecida por suas gueixas, entre 1000 e 2000 delas em atividade, o lugar mais sagrado para esta profissão. Algumas extrapolam e aceitam mais facilmente a relação sexual, cobrando bem, tornando-se o que se conhece como gueixa-girl, o que vem desde o tempo da ocupação americana, após a guerra.

Marcos chegara e já estava em Tóquio há um mês quando foi convidado a conhecer Kyoto, com um funcionário, que teria o papel de cicerone. Em Kyoto ficaram em um magnifico hotel e saiam para conhecer os principais monumentos, templos, ruelas ancestrais, pertencentes a outra era, jardins zen, florestas, cascatas. E como não podia deixar de ser, conhecer a tradicional cerimônia do chá, servido geralmente por uma gueixa. Tomaram um Rakie-bus e foram até o templo mais famoso, o Kiyomizu, no alto de uma montanha, donde podia-se observar toda a cidade. Nada podia ser mais magnífico!

Na hora certa, sentaram-se todos no chão, sem sapatos, com as pernas cruzadas. A cerimônia foi inteiramente conduzida por uma gueixa, de nome Hikita, delicada, suave, com movimentos precisos das duas lindas mãozinhas. Estava ela toda maquiada, olhos amendoados, cabelos negros, boca pequena e carnuda e uma classe jamais vista. Marcos não se impressionou muito com a cerimônia do chá, mas maravilhou-se inteiramente com aquela figura, muito feminina. Seus olhares várias vezes se encontraram e ele não conseguia mais desviar os seus olhos, dos olhos dela. No final, ele se aproximou dela e pediu informação sobre sua nova apresentação Ela disse que no dia seguinte à noite estaria com suas colegas em uma festa e lhe deu o endereço. Passou a noite em claro, lembrando-se do rosto da maravilhosa gueixa e não poderia deixar de vê-la novamente. Era em uma boate muito chique, no subsolo de um prédio central. Dispensou seu cicerone naquela noite. Pagou sua entrada de 1000 dólares, com direito a consumo gratuito. Ao entrar, deparou com um enorme salão, ricamente decorado, vermelho, com mesas e sofás justapostos. Um pianista japonês tocava músicas americanas dos anos dourados. Com os olhos procurou rapidamente por Hikita e encontrou-a facilmente dentre outras gueixas. Pediu a ela para acompanha-lo e sentaram-se em um sofá, com uma pequena mesa à frente. Ela sentou-se em seu lado direto e entabularam uma conversa em inglês mal falado, mas o suficiente para se estenderem. Pediu um Chivas que foi servido em um copo de cristal, com duas pedras de gelo. Cada vez que tomava dois goles, ela delicadamente pegava o copo, limpava com um guardanapo especial, colocava um pouco mais de uísque e oferecia novamente a ele. Logo vieram pequenos croquetes, quitutes salgados e também pedaços de frutas como kiwie, morangos, pera, que eram delicadamente colocados em sua boca. Ela só aceitava comer algo quando ele fazia o mesmo, colocando algo em sua boquinha. O perfume que usava, era o Poison, bem envolvente. Ele se interessou cada vez mais com Hikita e ela logo mostrou que havia se simpatizado muito com ele. Convidou-a para sair naquela noite ou qualquer outra. Ela disse ser impossível uma vez que vivia em uma casa sob o teto e cuidados de um danna, ou seja, um benfeitor, que muito bem cuidava dela e de outras.  Sua relação com o danna já vinha de seis anos, e havia um compromisso entre eles. Nesta altura, Marcos apertava a mão de Hikita e ela acariciava sua outra mão. Havia em pouco tempo, um relacionamento excitante. Pedia para encontrá-la reiteradamente, mas ela se esquivava. No final da noite ela acedeu ao pedido, mostrando que também havia sentido muita coisa por ele. Três dias após se encontraram pela manhã, ela agora vestida sem o seu traje típico, mas usando uma calça jeans e uma blusa com manga, com pouca maquiagem. Passaram a manhã juntos, visitaram parques, trocaram alguns beijos afetuosos e despediram-se sem qualquer relacionamento mais íntimo. Insistiu para que ela passasse seu endereço, um telefone, um e-mail para que não a perdesse de vista. Ela apenas deu um número de caixa postal de um correio próximo, que pertencia a uma amiga. Ela seria o contato de ambos, caso ele lhe escrevesse. Disse que voltaria no dia seguinte para Tóquio, mas que antes de voltar ao Brasil, faria o possível para revê-la em Kyoto. Despediram-se. Após este contato ele não conseguiu mais pensar em nada, apenas em Hikita. Escrevia diariamente e recebia suas respostas. Faltando uma semana para voltar ao Brasil, tomou o Shinkansen e após duas horas estava na estação de Kyoto. À noite foi a uma festa, onde ela e outras gueixas estavam presentes. Pagou novamente uma entrada bastante cara e ficou na mesa, sentados por três horas. Naquele lugar não podiam trocar afetos, mas era impossível não segurar sua mãozinha. Marcos sentia seu coração balançar.

Voltaram a se encontrar novamente, quando ela furtivamente foi até seu hotel e lá pela primeira vez puderam se amar. Ele a convidou para vir ao Brasil e viverem juntos, e até se casarem. Ela aceitava e depois voltava atrás, dizendo ter muito compromisso com o seu danna. Beijaram-se prolongadamente, afetuosamente, e se despediram. Voltariam a trocar correspondências. Ele voltou angustiado ao Brasil, sentindo que aquele era o seu verdadeiro amor, aquela mulher tão feminina, linda, maravilhosa e que dentre todas as gueixas que vira, nenhuma podia ser equiparada a Hikita.

Teve uma recepção muito calorosa ao chegar ao país, especialmente de sua noiva, que logo voltou ao assunto do casamento, que havia sido adiado. Mas, ele não conseguia esquecer a sua gueixa. Novas correspondências foram trocadas, cada vez mais acaloradas de ambas as partes. Após três meses, Hikita aceitou vir viver no Brasil, com ele. Ela também estava apaixonada e disposta a enfrentar qualquer dificuldade para viverem juntos. E...Estava grávida. Marcaram uma data para se encontrarem em Kyoto e fugirem. Enviou para ela uma passagem aérea, para ser retirada na agência da Japan Airlines. 

Ela sempre dizia que ninguém poderia saber desta sua decisão e ambos passaram a guardar ansiosamente a data marcada.

O danna que muito bem conhecia Hikita, começou a estranhar suas atitudes. Ela tornou-se nervosa, inquieta, não dormia bem e quando ele a procurava para sexo, ela rejeitava, dizendo não estar se sentindo bem, com muita dor de cabeça e enjoos. Frequentemente, quando ela estava ausente, entrava em seu quarto, procurando por algo diferente, até que um dia encontrou escondido, sobre o guarda roupa uma passagem aérea para o Brasil. Aquilo foi insuportável para ele, que amava profundamente aquela criatura, a mais linda das gueixas sob seu controle. Teve a certeza de que ela iria abandona-lo, o que seria insuportável, e antiético no Japão.

Marcos chegou a Kyoto, foi para seu hotel e ficou aguardando a chegada de Hikita, como combinado. Ficou aquele dia inteiro aguardando, e nada. Enviou uma carta para sua caixa postal, comunicando sua chegada conforme combinado, o hotel em que estava, o número de seu quarto e mesmo seu telefone. Foi quando recebeu um telefonema da amiga de Hikita, comunicando, com muito pesar, que ela havia sido covardemente assassinada por bandidos, e que procurasse não querer  detalhes, pois  sua vida também corria grande risco. No Japão é assim!- disse ela.


 Voltou no primeiro Shinkansen para Tóquio e no mesmo dia para o Brasil. Mas, sem sua querida Hikita. Nunca mais esqueceria a rainha das gueixas, aquela verdadeira deusa! Nunca mais pretendia pôr os pés, na terra do sol nascente.

Viva a Sogra! - José Vicente Jardim de Camargo


Viva a Sogra!
José Vicente Jardim de Camargo

Férias de verão, dia radiante prometendo sol sem chuva, criançada ansiosa para pegar uma praia, cachorrinha de coleira na boca em sinal de querer passear, me surge a ideia como um raio, e exclamo:

Pessoal! Que tal fazermos hoje um pic-nic?

Os gêmeos em uníssono berram “Oba!”, tão convincente que a mãe não tem como discordar e a sogra, a cadeira de balanço reservara para si desde que chegamos à casa alugada, afunda mais ainda o rosto na revista das novelas fingindo nada escutar, em sinal que prefere ficar e que deixemos de inventar maluquices...

Num lance de euforia, concluo:

E vai ser um pic-nic muito especial! Vamos fazê-lo na “Ilha do Mangue” onde nunca estivemos, mas tenho boas referências de praias, mar e natureza intocável...

Antes de qualquer comentário contraditório da mãe referindo-se a possíveis perigos, peço pressa no arrumar das coisas para não perder o horário da traineira.

Carol e Diego, os gêmeos de 6 anos, eufóricos  por irem pela primeira vez à uma ilha e andarem de traineira com vela e tudo, puxam a vó do seu retiro prometendo obediência até o fim das férias e a arrastam para a cozinha para ajudar no preparo dos lanches e das bebidas enquanto a mãe arruma as mochilas com roupas de praia, cremes, os borrachudos costumam ser agressivos em locais ermos, e demais utensílios.

Após uma verificada básica nas condições da van, vou ajeitando as tralhas   no porta-malas e apressando o pessoal para partir.

Cada um no seu lugar de sempre, cachorrinha no colo, partimos rumo ao porto, a cidadezinha em estilo colonial era aprazível e acolhedora, onde a traineira aportada já recebia os primeiros turistas em seus trajes leves e coloridos em meio a um vozerio contagiante de juventude e alegria.

Com todos a bordo soa o apito de partida, a traineira se agita e lentamente se afasta, as torres da igreja matriz se sobrepõem cada vez mais ao casario colonial, rumo ao mar aberto.

Mar calmo, brisa suave, vai e vem de passageiros a procura do melhor ângulo para as fotos da paisagem e dos selfies em grupos, chegamos a ilha e aportamos num píer improvisado rente a praia.

Desviando do empurra-empurra do pessoal afoito para o desembarque, tento visualizar da proa o melhor local para se acomodar, a areia branca e fofa reluzia à luz do sol, e, prevendo o agito e a barulhada que deveria se formar, resolvo levar a família para uma praia ao lado de aparência mais tranquila e de ondas adequadas para os gêmeos se divertirem sem preocupações.

Após percorrer uma trilha de uns duzentos metros, sinuosa e portanto  mais longa do que calculei, pisamos na areia, nos livramos das tralhas e já iniciamos o corre-corre da bola; os pega- jacarés nas ondas; as disputas de corridas e exaustos partimos para a devora dos “comes e bebes” e finalmente para a sesta repousante na sombra de um frondoso chapéu de sol...

Três apitos se deixam ouvir...

− Hora de partir? Exclamo eu assustado perguntando a hora.

Nossa! Faltam 10 minutos para a partida do barco! - responde a mãe.

Não vamos conseguir! Resmunga a sogra despertando da roncaria crônica.

Conseguimos sim se cortarmos o caminho pelo mangue a beira mar. - retruco eu já enchendo as mochilas com os pertences espalhados e apontando aos demais o caminho a seguir.

A sogra, os pés descalços mostravam os joanetes salientes, é a primeira a entrar no mangue levando no colo a cachorrinha que de rabo abanando fareja mais brincadeiras pela frente. Segue a mãe segurando os gêmeos em cada mão que se exaltam em comentários legais da façanha nunca dantes vivida.

Eu, carregado até os dentes de mochilas e cestas, disfarço o nervosismo        comentando da inveja do “Indiana Jones” de não estar participando de tal aventura, os olhos procuram aflito vestígios de cobras, aranhas, caranguejos ou outros habitantes de manguezais, enquanto as pernas se afundam cada vez mais no lodo pegajoso, torcendo para que não passasse dos joelhos.

−Um apito longo se deixa ouvir...

Pelos meus parcos conhecimentos náuticos significava levantar ancora e partir:

Pressa! Digo eu - Senão outro barco só amanhã...

Palavra mágica! A sogra ergue-se da lama, rompe com as mãos os galhos e cipós atravessados no caminho, murmura palavrões para assombro dos gêmeos que surpresos se puseram sérios, e aos pulos, segurando a cachorrinha só pelas orelhas, dá um salto com a força do desespero e alcança a praia dura gritando e gesticulando os braços:

Espere! Espere!

A traineira, de motores prendidos, dá marcha a ré e ao recolocar a prancha de embarque no píer, a sogra, no impulso da corrida frenética, de um salto cai direto no convés para admiração do pessoal embarcado que aplaude a destreza como se fosse um fim de show não programado.

A família toda a bordo, só sorrisos, abraça a sogra querida questionando-a de onde veio tal agilidade e onde foi parar a maldita artrose que ela diz não deixá-la fazer nenhum esforço doméstico e só alivia quando sentada na cadeira de balanço lendo a revista das novelas.

Ela finge não escutar, rosna “ais” de dores ocultas, pede água com açúcar para baixar a pressão, pergunta as horas e só então esboça um sorriso ao saber que não perderá a novela das oito, ou?...

Me mira indagadora como a me questionar:

Isso se você não inventar mais nenhuma de ”Indiana Jones”!

A CATARATA - Mario Augusto Machado Pinto



A CATARATA
Mario Augusto Machado Pinto
Há treze anos vivo nos EE.UU. Já consegui o Green Card, apartamento próprio, um carrão daqueles e Pós Graduação em hotelaria. Pratico alpinismo e ski racing nas épocas apropriadas. Enfim, tenho vida já estabelecida, prosperando e tranquila. Solteiro por convicção. Tenho prazer em morar e trabalhar aqui, em Buffalo.
O hotel em que trabalho recebe excursões programadas vindas de várias partes do mundo para ver as quedas d´agua, as Niagara Falls, e passear de barco pelo rio bem perto delas. Habitualmente é tudo feito dentro de horários pré-estabelecidos e cumpridos, exceto quando chegam excursões dos meus patrícios. É, do Brasil. A direção do hotel já sabe e me destaca para cuidar deles. Falam muito e alto, querem tudo na hora, acham tudo caro e melhor no Brasil, dão pouquíssimas gorjetas e nesta época querem fazer Carnaval nos salões do hotel. No Brasil tem. Por que aqui não? Claro, mas pelo hotel não é possível e a mim cabe domar as feras. No final dá tudo certo, mas a zoeira é enorme. À vezes até sai um relacionamento melhor com componente de algum grupo. Foi o que aconteceu agora.
Horácio veio com a mulher Berta e as duas filhas maiores, Cida e Das Dores. Interessante: os pais são economistas “máster” pela USP, estão no BNDES, no Rio e as filhas engenheiras de minas pela Colorado School of Mines, estão na VALE, no Pará.
Conversando com os quatro sobre as fortes nevascas, Cida mostrou interesse em fazer uma corrida de ski.  Também queria ver as cataratas de perto com a queda d´água totalmente congelada e andar no leito do rio.  Programa pra nenhum herói de HQ botar defeito. Praticante de corrida na neve, me ofereci para ir junto. Aceito, combinamos para as oito horas do dia seguinte.
As oito, de jeep, lá fomos nós equipados com skis, sapatos com espinhos e agasalhos. Após dias de tempestades de neve e frio de congelar pinguim, não nevava no momento. Céu azul de brigadeiro. Subimos a pista pelo transporte segurando uma corda e nos lançamos do alto varias vezes.  Boa esquiadora (aprendeu no Colorado, pratica ski aquático no Pará) foi ótima companheira. Faltava a segunda parte: as quedas d´água.
Vivendo tão perto, acostumado que estava com o barulho da cacheira, ao ver a Niagara Falls congelada e silenciosa me lembrei do comentário da Sra. Roosevelt ao ver Iguaçú: Poor Niagara.
A visão daqui era estonteante, para lembrar por toda a vida. Tudo congelado, inclusive a queda d´água, daí o silêncio. Começando de baixo fomos tirando selfie em vários patamares nos observatórios das margens. Agora, subindo, aconteceu uma pergunta inesperada da Cida:
- Quê que você acha de passar por trás da queda congelada? Quero fazer isso desde quando estava no Colorado! Como será que é? Deve ser fe-no-me-nal! Olha! Olha! Tem gente indo! Ai, vamos, vai! Já estamos com os sapatos...
Confesso: fiquei estupefato, de boca aberta a olhar fixamente o rosto da Cida. A ideia dá uma boa HQ. Cara, ali são mais de cinquenta metros de altura. Alto pra caramba! Um escorregão e beléleu, sifo.  Já estive na Del Angel da Venezuela, na Tequendama da Colômbia, mas que não se comparam com isto aqui.  Sentí um empurrão e ela dizendo:
- Acorda! Não vai me dizer que não é seguro, seu medroso! Acorda! Ô loco, nunca pensei...
- Nem eu. Que é perigoso, é. Podemos verificar e tentar.
- Tem nada disso não. Vamos e pronto! Machão, sexo forte! Vai encarar?
- Vou, e é pra já! - falei meio chocho, sem convicção, percebido.
- Vamos! Depois te pago um grogue bonzão!
Ventava bastante. No caminho nos ajudamos a ajeitar e apertar as capas amarelas com capuz. Mãos dadas – aperto forte, o dela – passo a passo vamos em direção à cortina do que pareciam estalactites. O caminho dava justo para uma pessoa andar raspando o corpo no paredão de pedra de tão estreito que é. Um escorregão e já viuuuuuu.  Benditos sapatos com espinhos! Havia grutas abrigando umas vinte pessoas em cada tirando fotos e selfies. As paredes rochosas mostravam nitidamente o caminho escavado pelas águas per secula seculorum. Formei e descrevi várias pareidolias para a Cida. Impressionei com a imaginação. Chupamos um pouco da neve.
Iniciamos a subida do caminho para alcançar o rio. É íngreme, nos deixa de língua de fora, coração batendo forte e rápido. Parece o meu Camaro, digo pra Cida. Ela não comenta. Olho pra trás e vejo o rosto dela: lábios roxos e sobrancelhas cobertas de gelo. Puta la vida, e agora? Tem mais uns vinte metros e o pessoal da frente anda devagar. Falo para ela colocar as mãos em concha perto da boca e soprar rápido, sem parar. Vou para trás dela, tiro uma das minhas luvas e ponho a mão pressionando levemente seus lábios esperando aquece-los com o calor dos meus dedos. Chegados ao topo, eu continuo insistindo:   
- Sopra, sopra. Presta atenção, vamos andar e vou fazer por muito tempo como se te beijasse. Não para.  
Colo e descolo meus lábios aos dela, sopro e vou falando. Fica tudo engrolado:
- Estamos chegando. Apoie-se nos meus ombros. Anda depressa. Segura na minha cintura. Faz de conta que é o jogo da maçã. Aqui! Pronto, pronto, chegamos. Alguém, por favor, um chá, rápido. Você encosta a xícara de leve e tira da boca. De leve, pô! Isso! Pronto. Obrigado, gente, obrigado. Tira! Encosta! Não para! Assim, é, assim mesmo! Não para!
Uma senhora se aproxima e quer saber o que houve. Explico e ela diz que fomos loucos.
- O senhor já imaginou essa moça ter que cortar os lábios por congelamento?
- Ela quis! - replico.
- Mas o senhor concordou e foi junto. Loucos!
Bem, a senhora tinha carradas de razão. Foi loucura, mas fizemos. Ela porque quis, e eu, empurrado pelo machismo. Ainda bem que está dando certo.
Depois de umas duas horas Cida já conseguia falar sem medo de rachar os lábios. Veio até mim, segurou meu rosto que beijou de leve, passou a língua nos lábios, me colou um selinho, me abraçou como só as mulheres sabem, e meio rouquenha falou ao meu ouvido:
- Meu Galahad!

Valeu tudo!