Merecido descanso - Ledice Pereira

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Merecido descanso
Ledice Pereira

Hoje o dia está pra mim. Vou aproveitar que todos saíram e investigar cada milímetro desse armário.

Sempre tive vontade de passar para o lado de lá, mas eles nunca me deixam sozinha. Acho que, finalmente, baixaram a guarda.

Pena que esteja tão escuro. Pelo menos, os últimos raios de sol iluminarão o suficiente.

Que bom, estou me acostumando com a escuridão. Já posso ver as coisas aí dentro.

Sou louca por fechaduras! Desde pequena.

Ah! Que maravilha! Essa liberdade me faz despertar para um mundo de descobertas.

Esse violão aí dentro me parece triste. Não me recordo de tê-lo escutado e olhe que já moro aqui há muitos anos. Coitado! Está todo empoeirado. Aliás, tudo aí está empoeirado.

É. Há muito tempo ninguém vem arejar este lugar. Deveriam tirar tudo daí, ver o que usam. O que não usam deveriam doar para alguém que pudesse aproveitar, não acham?

Olha esses perfumes, quantos vidros! Tudo empoeirado também. Mas que relaxados!

E esse relógio antigo, todo entalhado, lindo de morrer! Adoro relógios. Gostaria de morar ali. Eles me virariam uma vez por semana pelo menos, e com carinho.

Aqui sou tratada aos trancos e barrancos. Ainda tenho que respirar toda essa poeira. Nem colocam um oleozinho em mim. Às vezes, de birra, eu enguiço. Aí lembram que eu existo. Mas tenho que usar dessa artimanha para que me notem.

Opa, escuto vozes. Acho que chegaram. Vou me balançar até cair no chão e escorregar pra debaixo do armário. Vou dar um susto nessa gente. Quem sabe me deem mais valor e até resolvam dar um trato aí dentro.

Um, dois e... pumba.


Agora vou aproveitar para tirar uma soneca, enquanto eles não vêm aqui. Esse escurinho é mesmo perfeito para o descanso de uma linda chave dourada como eu.

A INOCÊNCIA DO CULPADO - Sérgio Dalla Vecchia


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A INOCÊNCIA DO CULPADO
Sérgio Dalla Vecchia

Dentro de uma cela, localizada em um presídio no alto de uma ilha, estava ele. O detento. Conhecido como Vacilão.

No gíria da bandidagem, vacilão é aquele que se deixa pegar por um descuido.
Foi condenado a pena máxima por um crime que não cometeu.

Ele jurava a todos ser inocente.

Passou pela cena do crime e presenciou o assassinato. O assassino pegou-o ameaçando de morte, roubou-lhe a carteira de identidade e a jogou na cena do crime. Daí foi preso e considerado culpado.

Inconformado pela injustiça ele penava a amargura da impotência. Entrava, muitas noites, em delírio aflitivo, tinha sonhos fantásticos, visões esdrúxulas de cenários não terrenos.

Imaginava um lugar em outro planeta, onde o verdadeiro assassino era seu melhor amigo.

Lá Vacilão era um homem bem sucedido. Tudo que investia, criava e implantava prosperava com muita facilidade.

O amigo inseparável não sabia que fazer para agrada-lo. Tamanha preocupação em servi-lo.

Certo dia em outra história imaginária, Vacilão e o amigo viajavam por uma pitoresca estrada. Era uma reta sem fim, ladeada por árvores frondosas, que com as copas presenteavam a cena com frescor. A claridade filtrada pelas gotículas da suave névoa era extremamente confortável aos olhos.

Seguiam conversando, quando o carro apresentou um pane, parando instantemente.

Incapazes de fazer o conserto, partiram a pé em busca de socorro em alguma propriedade próxima.

Andaram por algum tempo até que encontraram uma casa com aparência sinistra. Ali a claridade fugiu e a névoa espessou-se diminuindo a visibilidade.

Entraram cautelosamente pelo portão chegando à porta.

O silêncio foi quebrado pelo estalar do assoalho de madeira, reclamando dos passos que se aproximavam.  

Ela abriu-se, surgiu a figura de um homem bem-disposto que logo foi dizendo:

— Quem são vocês, que buscam?

Após as devidas explicações, foram convidados a entrar.

Contrariando as aparências externas, as dependências eram claras e o ambiente leve.

Foi servido um cafezinho, descontraíram-se, o homem se apresentou como Inocêncio.

— Escolhi esse lugar para morar, por ser afastado e muito agradável.

— Não tenho medo de nada, durmo como uma pedra e meus atos são sempre feitos com o coração.

Vacilão não entendendo o porquê do Inocêncio morar tão isolado pergunto-lhe:

— Desculpe-me, Inocêncio, mas porque você como um homem bem-disposto, comunicativo mora aqui praticamente isolado?

— Por mim sou feliz com o que tenho e faço. Entretanto eu não relatei a vocês que tenho um irmão morando comigo.

— Ele é o meu oposto, nada está bom, sempre busca um culpado para os erros que comete. Vive só, mora no maior quarto da casa nos fundos e faz questão e cuidar da manutenção externa da propriedade. Seu nome é Doloso. Pouco converso com ele, pois é violento e não quero brigas entre irmãos.

— Já haviam solicitado o socorro para o carro e a conversa continuava animada até que Doloso surgiu abruptamente. Sem a mínima educação olhou para o Vacilão e lhe disse:

— Foi você quem me fez perder minha noiva, não foi?

Vacilão levou um susto terrível, não conhecia Doloso e muito menos sua noiva.

Nisso Inocêncio interveio dizendo para o irmão:

— Você sempre com essa mania de culpar os outros pelos seus erros, não admito mais essa falsa acusação!

— Foi ele sim, foi ele e vai pagar por isso.

Sacou um revólver apontando para Vacilão, que tremendo de medo esperava o impacto da bala.

A bala foi disparada, enquanto do nada o, melhor amigo de Vacilão entrou na sua frente, recebendo o tiro certeiro, que o matou na hora.

Inocêncio e Vacilão perplexos pelo crime inexplicável, fixaram simultaneamente o olhar no Doloso, que ainda com a arma em punho, disse:

— Inocêncio, você foi o culpado dessa morte, pois trouxe para nossa casa esses dois aí!

Mais uma vez o assassino culpa um inocente!

Vacilão, homem ponderado, pela primeira vez na vida deixou-se levar pela sede de vingança. Com um golpe, desarmou o assassino e com frenesi descarregou o revólver sem parar contra Doloso.  Inocêncio, vendo a fúria de Vacilão nada fez, parecia concordar plenamente com aquela atitude desvairada.

Nesse mesmo instante na prisão, Vacilão foi acordado pelo seu colega de cela.

— Acorde, acorde, para de tremer, você está tendo um daqueles sonhos!

Sonolento, ainda ofegante percebeu que alguma coisa havia mudado.

Não sentia mais angustia, nem sofrimento, sentia-se leve e confortável.

Abraçou seu companheiro de cela dizendo, me libertei, me libertei!

Mais tarde quando tomava banho de sol, foi chamado por seu advogado que lhe disse:

— Hoje é seu dia de sorte, o irmão do assassino que o condenou fez uma delação espontânea, contanto a verdadeira historia da sua acusação.

— Você está livre!

  

O FANTÁSTICO DE OUTRAS VIDAS - Carlos Cedano





O FANTÁSTICO DE OUTRAS VIDAS
Carlos Cedano

Possuo um iate com o qual costumo ir para lugares um pouco distantes para praticar as atividades marítimas que adoro. Algumas vezes vou sozinho e a aventura que desejo narrar aconteceu num dia desses.

Ancorei num lugar pouco visitado e comecei a mergulhar. Numa das vezes que voltei para descansar encontrei uma ampulheta flutuando perto da embarcação e a levei a bordo, continha algo que parecia o desenho de um belo olho preto arredondado.

Pensando que fosse uma mensagem, tentei abri-la forçando o tampo, para minha surpresa ela se abre sozinha e surge um vapor denso que aos poucos se configura na forma de uma mulher com dois belos olhos pretos e todo o corpo branco. Olha para mim, devo estar com cara de apavorado, e diz:

— Não tenha medo Roberto, sou de uma civilização que navega por todo o universo e estou na terra à procura por seres da paz, você é um deles!

Eu não ouvia sons era como se as mensagens chegassem diretamente a minha cabeça.

— Nos temos a capacidade de ler os pensamentos dos outros, não usamos sons para comunicar-nos e podemos tomar as formas que nossa missão exige. Quer ver qual é minha forma original?

— Quero sim, respondi.

O visitante se transforma numa espécie de pião que a medida que gira emite cores e  sons que chegam a minha cabeça trazendo visões de seres incríveis e o som das mais belas melodias que jamais escutei. De volta a sua forma “humana” me disse:

—Estou aqui para te levar a visitar nosso “casulo” um dos vários milhares que fazem parte de nossa civilização. Gostaria conhece-lo? E quando você quiser voltar será só dizê-lo e será feito.

Aceitei e pude conhecer diferentes seres nas suas formas originais: seres mutantes para diversos formatos, animais horrorosos para nossos padrões, seres parecendo vegetais, enfim, uma infinidade de formas e cores, todos eles flutuavam contagiando-me com uma intensa alegria e paz. Logo perguntei para minha anfitriã:

— E vocês não têm medo de serem invadidos por outras civilizações?

Ela me olhou e disse:

— Por enquanto não! Nossos cientistas descobriram uma forma de deslocar nossos casulos de uma maneira tão instantânea que as naves dos inimigos não nos alcançam e, em pouco tempo estamos em outros pontos do universo.

Acordei no meu iate e pensei que toda essa “aventura espacial” não passava de um sonho maluco, mas aos poucos comecei a perceber que algo tinha mudado: meu relógio, que guardo numa gaveta da embarcação, marcava uma ausência de pelo menos quinze dias e quando fui para a cabine da embarcação vi encima da mesa o desenho que tinha achado só que desta vez o rosto estava completo e era muito belo. Então, não foi um sonho!


O PEQUENO GRÃO DE AREIA - Oswaldo U. Lopes

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O PEQUENO GRÃO DE AREIA
Oswaldo U. Lopes

Um pequenino grão de areia
Que era um pobre sonhador
Olhando o céu viu uma estrela
Imaginou coisas de amor.

Passaram anos, muitos anos
Ela no céu e ele no mar
Dizem que nunca o pobrezinho pode com ela encontrar

Se houve ou se não houve
Alguma coisa entre eles dois
Ninguém soube até hoje explicar
O que há de verdade
É que depois, muito depois
Apareceu a estrela do mar

        Quem andando a beira mar, pisando na areia, com os pés na água e encontrando uma estrela do mar, não parou e ficou pensando nos versos de Paulo Soledade, na voz de Dalva de Oliveira?

        Eu já parei, olhei para baixo e depois para o céu e fiquei ali encurralado pela pequenez do grão e a imensidão da Via Láctea. Será que houve alguma coisa entre eles afinal?

        A estrela do mar anda sumida, mas quando mais jovem me deparei com várias, fugidias, escavantes, mas bonitas, fruto de um amor impossível?

        Quem nunca viajou na solidão pensando de onde veio, para onde vai? Nascemos solitários e do mesmo modo morremos, mas no caminho com quantas estrelas cruzamos? Quantos sonhos vivemos, quantas esperanças perdidas, quantos amores achamos?

        Nessa história sempre fui grão de areia, fincado no chão, sem muita mobilidade, olhando a estrela e com ela sonhando.


        Muitas vezes houve alguma coisa e, muitas vezes, não houve. Semeei estrelas pequenas e brilhantes e também semeei inúteis carcaças. Vivi enfim, de tanto olhar para cima, muitas vezes tropecei, faz parte.

A chave da caixinha de música - Maria Verônica Azevedo

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A chave da caixinha de música
Maria Verônica Azevedo


— Faz muitos anos que estou presa neste velho chaveiro. Aqui neste antiquário ninguém vai me querer para nada. Pudera! Não sabem de onde eu vim e não consigo me comunicar.

 — Ei vocês que estão na mesma situação, como se sentem?

 Uma grande chave preta de ferro se manifestou:

 — Eu estou bem aqui. Estou muito velha e agradeço o descanso sempre no escurinho desta gaveta. Já trabalhei demais para abrir e fechar aquela arca do mascate, que corria pelo sertão vendendo mercadorias de porta em porta.

 — Nossa, devia ser bem interessante fazer tantas viagens... Conhecer outras cidades... Ouvir muitas conversas... Viver emoções.

 — É verdade. Já vi muita coisa estranha por estas estradas. Mas também tomei muita chuva com trovoadas e tudo mais. Uma vez fui perdida, quando meu dono cochilou no lombo do cavalo e o burro que o seguia se assustou com um gavião. O asno desembestou numa carreira e não parava mais. Ele conseguiu correr tanto assim, porque a féria tinha sido muito boa, com a venda de toda a mercadoria. O baú estava vazio. Eu enfiada no buraco da fechadura. Estávamos indo de volta para casa. Caí na beira da estrada e lá fiquei até o dia seguinte, quando o mascate voltou para me procurar.

 — Acabo de mudar de ideia sobre você. Tão velha... Tão escura e sem graça, mas como uma história cheia de emoções.

 A chave preta, sem dar importância ao elogio, observou o contraste entre elas:
 — E você? Assim bonita, assim dourada, toda de latão reluzente. Deve ter tido uma vida fácil cheia de charme.

 — Que nada. Minha vida era sem graça. Sempre no bolso do avental da Gertrudes. Ela ficava muito sozinha. O marido vinha, e ia logo embora.

Ela quase não saía de casa e como tinha muito ciúme de mim não me largava de jeito nenhum.

 — E para que você servia?

— Eu abria a caixinha de música de estimação de minha dona.

 — Ei! A mulher de meu dono se chamava Gertrudes. Que coincidência!

 — Talvez não seja coincidência. O mascate trazia sempre para vender muitos mimos que os rapazes gostavam de comprar para presentear as namoradas.

Tinha bibelôs, colherinhas de prata, espelhos de mão combinando com a escova de cabelo, estojos de toucador, cortes de seda, camisas de cambraia bordada e com certeza caixinhas de música.

 — Estou percebendo o que você está pensando. Talvez a sua Gertrudes e a do meu dono sejam uma só.

 — Agora como é que viemos parar nesta loja cheia de coisas velhas desprezadas?

 — Não sei você, mas um dia eu percebi um movimento estranho na casa. Não vi nada porque estava dentro do bolso do avental. Mas podia ouvir o que falavam. Estavam sendo despejados e tudo ia a leilão.

 — Eu só ouvi o lamento da Gertrudes.

 — Por favor! Não levem minha caixinha de música. Ela é uma recordação de minha mãe!

 — Nada disso. Minha senhora. Tudo aqui vale dinheiro... As dívidas precisam ser pagas.

 — O choro cessou. Só ficaram os soluços.

 — Ah! Entendi. A caixinha foi embora e você ficou no bolso do avental.

— Pois é. Na hora, eu até achei bom, pois continuaria com minha dona. Mas não demorei a descobrir que perdera a utilidade. Gertrudes acabou se esquecendo de mim no fundo de uma gaveta. De lá, fui para o antiquário, junto com um monte de coisas, quando a minha dona morreu.

 — Quando meu dono morreu, eu também fui parar no antiquário. Mas a minha arca passou a servir de banco na casa do boticário. Foi dada em pagamento das dívidas que o mascate tinha com ele. Esqueceram-se de entregar a chave. A arca estava vazia e destrancada. Ninguém se lembrou da chave.


Dali a alguns dias o dono da loja resolveu dar uma ordem nas gavetas. As duas velhas chaves, presas numa mesma argola, foram penduradas num prego na parede do antiquário. Lá ficaram a espera de um colecionador qualquer

POR TRÁS DA CACHOEIRA - Sérgio Dalla Vecchia

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POR TRÁS DA CACHOEIRA
Sérgio Dalla Vecchia

Havia um ninho muito bem tramado por trás de uma volumosa queda d`água, nos sertões do Piaui. Um casal das conhecidas andorinhas do penhasco, o construíra em um pequeno nicho da parede rochosa.

Após algum tempo os ovinhos eclodiram e deles nasceram dois esfomeados filhotes. Os pais não se cansavam das idas e vindas, atravessando com destreza e malabarismos, a cortina d`água para alimentar os pequenos, que aguardavam com bicos escancarados.

Logo já estavam empenados e tentavam arriscar os primeiros voos.

Assim a natureza os lançou ao ar! Voavam ainda com a insegurança de principiantes até que, após algumas aterrissagens desajeitadas, conseguiram evoluir na qualidade dos voos.

Certo dia o par de filhotes, empolgado em novas manobras perderam-se dentro da névoa, para desespero do casal de andorinhas.

Procura daqui, acolá e nada!

Em mais uma busca o casal encontrou uma fenda bem disfarçada, na parede, escondida atrás da cortina d`água.

Com uma manobra radical à direita, penetraram velozmente fenda adentro.

Descortinaram um portal maravilhoso, feito em mármore, envolvido com trepadeiras, mostrando uma diversidade imensa de flores. Por trás apresentava-se um arco íris muito bem definido complementando as boas-vindas para o visitante encantado.

Mais uma manobra rápida e vupt, portal adentro.  Ouviram uns pios de socorro. 
Reconheceram ser os filhotes, logo os encontraram empoleirados juntinhos, em um arbusto, tremendo de medo.

A família encontrou-se com estrepolias, carinhos e pios de alegria.

Acontece que embaixo do arbusto havia um lindo tapete vermelho, trabalhado com desenhos coloridos em diversos formatos.

A família encantada pela beleza e movida pela curiosidade, pousou sobre o convidativo tapete.

Instantaneamente ele enrolou-se, envolvendo os pássaros arrancando em alta velocidade.

Algum tempo depois aterrissaram.

O lugar era composto por uma vegetação exuberante com imensas folhagens, chifres de veado, singônios, imbés, curculigos e outras tantas espécies.

O clima era úmido envolto em uma suave névoa.

A família ainda sem entender onde estavam, foi pega por uma rede fina e nela se emaranharam.

Indefesos, foram carregados por um homem muito alto. Parecia o gigante do pé de feijão.  

Após algum tempo de caminhada o gigante entrou em um castelo no alto de uma colina. Lá chegando, transferiu os pássaros para um enorme viveiro.

Qual foi o espanto, quando perceberam que dentro daquele viveiro existiam outros tantos pássaros. Canários da terra, bem-te-vis, sabiás, coleirinhas, pica-paus e outros pulavam de galho em galho alvoroçados pela chegada dos novatos.

Foram se conhecendo e logo estavam ambientados.

Pela conversa, descobriam que o filho do gigante é quem gostava de passarinhos, e todos estavam aprisionados para alegrá-lo. Ele sofria de uma doença rara que o impedia de sorrir. Era só tristeza.

A andorinha mãe não se conformou pela situação de sua família e com a doença do pequeno gigante.

Reuniu as outras mães e após confabularem arquitetaram o seguinte plano para curar o meninão.

Assim com uma linguagem mista de mímica, piruetas e pios, convenceram o gigante a solta-los para que fizessem cócegas no gigantinho.

Foi um sucesso, os passarinhos bicavam levemente e roçavam as garrinhas nos braços, na barriga, nos cabelos, acariciando todo o corpo. O meninão não se aguentava de tanto rir.

Foram repetindo a dose por dias seguidos.

Quando perceberam que tinham liberdade total no Castelo e o gigantinho feliz da vida, executaram a segunda etapa do plano. Fuga em massa!

Na hora marcada, a passarada se preparou, e Zaz!

Debandaram todos sem olhar para trás.

Da janela, o gigante junto ao filho, apreciava aquela revoada colorida.

Ele tinha poderes para aniquilar todos os fujões, mas olhando para o filho, recebeu um largo sorriso que mudou seu pensamento.

O menino estava curado!  

Fantástico. - Ana Maria Pinto



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Onde estão os aprendizes de ofícios?  
Ises A. Abrahamsohn

        De uns cinco anos para cá tenho observado um fenômeno que se agravará muito daqui pra frente. Já causa problemas, mas perturbará a tranquilidade doméstica de todos, ricos e pobres. Não, não se trata de aumento da criminalidade ou de nova estiagem nos reservatórios de água de São Paulo. O que está acontecendo é o progressivo e acelerado desaparecimento de pessoas capacitadas a fazer consertos e manutenção de equipamentos de uso comum doméstico.

        É cada vez mais difícil encontrar alguém para consertar ou verificar instalações diversas em nossas casas. São escassas as pessoas competentes. Talvez a economia do país se beneficie no futuro com isso. “Não conserte, substitua” creio que será o moto da economia em menos de dez anos. Agora já é aplicável aos pequenos eletrodomésticos. Todos já ouvimos a frase: Não compensa mais consertar; não há mais peças, o novo custa o preço do conserto.

        Já me resignei a ter de encostar o meu amado e eficiente aspirador de pó de vinte anos quando der o último suspiro.

O que me preocupa mais é que nenhum jovem aprendiz ou auxiliar acompanha os competentes e já idosos consertadores de geladeira, fogão, portão eletrônico, aquecedor a gás ou ar condicionado. Esses equipamentos pelo menos por enquanto são caros e não descartáveis. Talvez venham a ser no futuro quando não mais existirem pessoas que saibam como consertá-los.

Perguntei a alguns desses senhores por que não têm auxiliares ou aprendizes. A resposta foi que os jovens não querem ofícios ou serviços que “sujam” as mãos.
—Todos querem trabalhar em escritório, atrás de um computador, mesmo que ganhem salário mínimo, foi o comentário geral.

E é verdade. A grande maioria dos jovens desempregados ou subempregados concluintes de ensino médio, sem perspectiva de continuar os estudos, não se interessa em aprender algum ofício mais simples. Também não querem investir em um aprendizado prático, sem se dar conta que sempre estarão em subempregos, sem nenhuma capacitação a oferecer.

Loura ou morena - Ises A. Abrahamsohn


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Loura ou morena
Ises A. Abrahamsohn

Lívia levantava cedo para ser uma das primeiras a chegar ao escritório. Agora estava bem mais perto, nem precisava de condução. Podia ficar mais meia hora na cama. Lá fora uma garoa embaçava as janelas do apartamento. Rapidamente vestiu-se e engoliu o copo de leite com chocolate enquanto pensava que precisava comprar cortinas. À frente do prédio percebeu que a chuva tinha aumentado; ficou indecisa se valia a pena trocar os sapatos.

Na calçada foi abordada por um estranho que lhe dirigiu um animado  Bom dia! Ia responder quando, de repente, ele a agarrou e a fez entrar num carro parado ali mesmo em frente ao edifício.

Quis gritar, mas logo uma mão tapou-lhe a boca e ela foi empurrada contra o assoalho do carro. O motorista arrancou enquanto o agressor a amordaçava com uma tira adesiva. Começou a espernear, mas o homem usou os dois pés para mantê-la deitada. Logo um capuz foi-lhe enfiado na cabeça e as mãos foram amarradas nas costas. Não conseguia ver nada. Era inútil lutar e ficou ali, imobilizada, esforçando-se para não entrar em pânico.

Lívia não chorava. O pavor era demais. O que querem comigo? Não tenho dinheiro. Mal e mal pago as contas do mês. Não tenho parentes nem amigos importantes... Deve ser um engano. Pegaram a pessoa errada. Acabei de me mudar para este apê aqui em Botafogo. Foi um achado. Pequenino, bem cuidado, bem localizado, quase divisa com Copacabana.

Lívia lembrou o que o rapaz da imobiliária contou sobre os proprietários. Era um casal jovem que repentinamente, há menos de um mês, tinha se mudado para Petrópolis.

̶  Deve ser isso, pensou. Os bandidos devem estar atrás daquele casal. Tenho que mostrar que eu não sou quem eles pensam. Tenho que manter a calma...
A moça sentiu que o carro avançava por outro terreno. Estrada de terra, esburacada... Para onde estão me levando?

̶ Chegamos, belezoca. Agora tu vai explicar onde foi parar a grana do último pacote. Eram mil papelotes da boa.

Lívia não podia responder. O captor puxou-a para fora do carro. Ajoelhada na terra o homem arrastou-a viciosamente pelos punhos até que ficasse em pé.

 ̶  Vai andando, dizia, enquanto a empurrava, cambaleante, através de uma porta.

̶  Senta. A moça percebeu que era dirigida para um sofá.

̶  Chefe. Tá aqui. Trouxemos a loira do apê de Botafogo.

O homem puxou o capuz. Lívia viu que estava no que seria a sala de um barraco de madeira: a única janela de duas bandas meio encostadas não deixava ver o exterior. Uma lâmpada nua iluminava o recinto. Além do sofá imundo onde estava sentada, apenas uma mesa e algumas cadeiras de plástico.

Sentado à mesa estava o chefe. Sujeito miúdo, pardo, de cara inexpressiva que a examinava com atenção.

̶  Seu idiota. Pegou a mulher errada. Não é a Célia, mulher do Carlinhos Botafogo.

̶  Como não é, chefe? Fiz tudo direito como mandou. Conferi ontem o número do prédio. Esperei na calçada. Liguei antes para o apê e vi ela sair do elevador... Só pode ser ela. Foi o que me falaram, loira tingida do apartamento 62. É a mulher do Botafogo.

Lívia, apavorada, pensou. Putz, se eu não tivesse tingido de louro na semana passada.

̶  Tá vendo moço. Não sou a Célia. Eu me chamo Lívia e mudei faz cinco dias. Me deixe ir embora. Não tenho nada a ver com o pessoal que morava lá. Aluguei pela imobiliária.

̶  Moça, não tenho nada contra ôce! No normal daria um tiro e o Lourival aqui despejaria nas lagoas dos jacarés. Hoje tô de bom humor.

̶  Lourival, bote o capuz nela, bota o silêncio e larga ela bem longe.

̶  Sei não ,chefe. De repente ela reconhece nóis!

̶  Obedece estrupício. Tô vendo que tu tá loco pra tirar uma casquinha. Hoje não. Não quero complicação! Obedece!

E Lourival obedeceu. No carro ainda ameaçou.

̶  Se der um pio, já sabe. Teve sorte. Tava loco para pegar uma loirona gostosa.
Lívia sentiu o carro parar e ser empurrada para fora. Estava em uma estrada. Conseguiu rolar até bater na guia. Silêncio, chão molhado, cantar de passarinhos e frio....

̶  Devo estar na floresta da Tijuca. Só resta esperar.

Foi achada e libertada por um ciclista. Mal conseguiu se levantar. Fora uns machucados e manchas roxas estava viva. O rapaz a levou para casa.

No dia seguinte, os cabelos de Lívia voltaram a ser castanhos. Loura, nunca mais!