Pina
estava com o coração apertado, mas, mesmo assim, tinha distribuído as tarefas:
os filhos iriam cuidar das roupas, ver o que queriam ou que os netos queriam e
o resto deveriam encaminhar para o dr. Macedo. Gustavo e ele eram tão amigos,
Pina sabia que Gustavo ajudava o dr. Macedo em suas obras assistenciais e,
portanto, ela achava que Gustavo gostaria de ver suas coisas indo parar nas
sábias mãos do amigo. A ordem era deixar os armários vazios. Perguntaram se ela
não queria guardar alguma coisa de lembrança do marido e ela respondeu que já
havia separado o que queria.
A
filha, Antônia, advogada, se encarregaria da escrivaninha e da estante: deveria
separar a papelada, os documentos, guardar o importante, descartar as bobagens,
escolher os livros. E deveria designar alguém para cuidar dos remédios e coisas
de higiene pessoal. Talvez o Dr. Macedo também tivesse um bom destino para
aquelas coisas.
Ela,
Pina, ia cuidar das caixas de fotografias, das cartas e das bugigangas
acumuladas ao longo dos anos.
Os
filhos perguntaram se ela não gostaria de esperar um pouco mais para fazer
aquilo, mas Pina sabia que tinha que fazer logo ou começaria a perder a coragem
de mexer nas coisas de Gustavo. Além disso, queria aproveitar a ajuda dos
filhos que logo iriam embora, de volta às suas vidas.
Abriu
uma caixa qualquer para começar e se deparou com centenas de fotografias: de Gustavo
no colégio Arquidiocesano onde havia estudado, fotos da família dele, fotos da
época do CPOR, convites de bailes de formatura, fotos dos pais dele no dia do
casamento. A mãe dele, Dona Elvira, tinha sido muito bonita, tinha muitos
pretendentes, mas os pais dela a casaram com um homem baixinho, gordinho, nato
in Italia e 17 anos mais velho que ela chamado Enrico. Ele era muito vivo,
alegre, rico e pelas histórias que contavam, havia conquistado a todos, menos
aquela mocinha que deveria se casar com ele e que, vestida de noiva ao estilo
dos anos vinte, olhava da foto direto para quem olhasse para ela, um olhar duro
e frio.
O
sogro, oriundi como ela, Pina, Giuseppina. Juntos, cantavam antigas
canções da Bella Italia e ele adorava quando Pina ia para a cozinha
preparar orichietti ou Zeppole di San Giuseppe (*) para o dia dos
pais. Pina adorava aquela proximidade com o sogro, mas tinha que
reconhecer, aquilo não ajudou muito na relação com a sogra.
Passou
para a próxima foto. Bene, guarda questo, espantou-se. Era uma foto de
uma mulher fazendo pose de Femme Fatale e vestida ao estilo de Hollywood
dos anos 30 / 40: o vestido bem colado ao corpo acentuando todas as curvas, um turbante
na cabeça, uma das mãos no quadril e um sorriso iluminado no rosto. Atrás da
foto estava escrito: Al mio caro amore, Elena.
Então
quella era a tal Elena. A sogra, D. Elvira, nem podia ouvir falar
naquele nome. Mas não devia ser por ciúme, já que a convivência di quelli
due incluía tudo menos amor. Quando o assunto era Elena, as pessoas
se calavam, sorriam sem jeito e alguém desviava a atenção para outro assunto
qualquer. Mas a história que se contava a meia voz pelos cantos era que uma
noite um homem tinha aparecido alta madrugada e chamado por Enrico.
Desculpou-se e disse que havia uma mulher insistindo muito em falar com ele. Enrico
saiu para a escuridão junto com o tal homem e foi resolver o assunto. Voltou
algum tempo depois e chamou Elvira. Ela se levantou assustada, Enrico nunca a
envolvia nesses momentos. Foi até o vestíbulo. Enrico e o homem estavam lá e este
tinha nos braços uma criança, enrolada em trapos.
Chame Das Dores e mande que
cuide da criança, disse Enrico.
Mas quem é, o quê..., ela
começou.
Domani,
ele disse, domani.
Das Dores foi chamada e se
ocupou da criança. Elvira foi para o quarto.
Você pode me explicar o que
está acontecendo?
Domani,
ele disse novamente.
Mas, na verdade, Elvira sabia que provavelmente nunca mais conversariam sobre aquilo novamente.
Na semana seguinte Enrico
mandou preparar um quarto para aquela criança, que passou a viver ali com Das
Dores.
Alguns dias depois entregou
uma certidão para Elvira: a criança, um menino, era agora filho deles, como
estava escrito no papel e não se falava mais nisso.
Chamava-se Gabriel Pedro
Henrique João.
Nome de príncipe para uma criatura que chegara enrolada em trapos na calada da noite.
Al mio caro amore, Elena.
Mas quem seria o tal amore, seu sogro? Ora mai, que importância tinha aquilo agora? D. Elvira e o sogro já tinham morrido e provavelmente a tal Elena também. E o filho deles se chamava Gustavo, seu marido recém falecido, e não Gabriel Pedro Henrique João. Cada coisa que o povo dali inventava...
Eventualmente todas as coisas de Gustavo foram organizadas e encaminhadas. Dele ficaria a saudade, a lembrança do cheiro de cigarros e do som das botas no chão de madeira.
Algum tempo depois, de novo na
calada da noite, alguém chamou do lado de fora da casa. A voz chamava por ela.
D. Giuseppina, D. Giuseppina!
Ela se levantou, vestiu o
peignoir e foi ver o que estava acontecendo.
Que succede,
quem está aí?
Sou eu. Torquato. D Giuseppina,
desculpe, seu Gustavo... não estando, a senhora entende, só me ocorreu chamar pela
senhora.
Mas o que foi?
Mandaram chamar porque tem
uma senhora já nas últimas querendo ver o seu Gustavo. Ela está insistindo
muito.
Dio Santo, uma
sensação de déja vu esfriou o coração de Pina.
Una donna? Quem?
Não sei, não senhora. Só
mandaram dizer para ir logo, ela é muito velhinha, dizem que já passou dos 100
anos. É melhor a senhora ir. Pode ser importante.
Onde é? Onde está essa
pessoa?
Na casa do Dr. Macedo.
Está bem, eu vou. Espere um instante que já volto.
Chegaram à casa do Dr. Macedo
que os recebeu na porta.
Pina, ele disse, é Elena,
você sabe quem é, não? Ela pediu para ver Enrico, ela há anos está perdida
dentro das próprias memorias, alienada de tudo. Bem, pensei que talvez você não
se importasse de vir até aqui e dar um pouco de conforto...mas, se não quiser,
tudo bem. Pode ir embora, eu vejo aqui como encaminho as coisas...
No, va bene,
vou entrar, decidiu Pina.
No quarto, Dr Macedo colocou
uma cadeira ao lado da cama e pediu para Pina se sentar.
Quando Pina se sentou, a
senhora agarrou a mão dela e disse: il bambino, come sta il bambino?
Criança? Que criança?
A que Enrico levou embora. Il
mio bambino, mio tesoro, mio amore.
O coração de Pina deu um
pulo! Então era verdade! Pina olhou para o médico pedindo ajuda para entender o
que estava acontecendo.
A mulher olhou para ela e
disse: Elvira, ele é filho de Enrico, você sabe, não é? Ele disse que ia te
contar. Meu e dele. Elvira, ele te contou, não é?
Pina ficou olhando para a
parede atrás da cama da mulher e não respondeu.
Dio Santo, cosa faccio
adesso?
Olhou para o Dr. Macedo e
perguntou baixinho: é Gustavo, não?
O médico balançou a cabeça.
Então Gustavo não era filho
de Elvira? Elvira sabia? E mais importante, Gustavo sabia? Dio Santo!
Elena, Pina disse suavemente,
il bambino sta bene, stai tranquilla. Ora riposati.
A senhora fechou os olhos e
pareceu adormecer.
Dr. Macedo fez sinal para
ela. Saíram do quarto e foram para a
sala.
(*) Zeppole di San Giuseppe
são doces tradicionais italianos, típicos do sul da Itália (especialmente Nápoles), preparados em celebração ao Dia de São José (19 de março), que também é o Dia dos Pais na Itália. São pequenas roscas de massa leve — semelhante à massa choux (pâte à choux) — fritas ou assadas, recheadas e cobertas com creme de confeiteiro, finalizadas com cereja em calda e açúcar de confeiteiro.
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