Homem ao mar ou o cruzeiro interrompido - Ises de Almeida Abrahamsohn

 




Homem ao mar ou   o cruzeiro interrompido

Ises de Almeida Abrahamsohn

 

       O som penetrante da sirene, três toques estridentes seguidos por três longos, acordou Jorge na sufocante cabine do navio. Desorientado, esticou a mão para o celular. Eram três horas da manhã. A outra mão apalpou o travesseiro ao lado.  Vazio...   ― Marilda, Marilda, o que foi?  Levantou-se até a porta do minúsculo banheiro.  Ainda tonto do sono e do vinho da véspera, vestiu a roupa largada na cama e saiu para o corredor.  Outras pessoas também saíam das cabines procurando informações.

Aglomeravam-se à porta do elevador   ― O aviso da sirene, três toques, parece que alguém caiu no mar!  O navio parou....

Chegando ao primeiro deck, Jorge viu o tumulto.  Grande número de pessoas, algumas de roupão sobre a roupa de dormir, se empurravam em torno de um oficial. Este confirmou que houve um sinal de que uma pessoa havia caído ou se lançado ao mar. E que as buscas já haviam começado.  Porém os curiosos não arredavam o pé dali por mais que funcionários tentassem fazê-los voltar às cabines. 
 — Marilda deve ter ouvido a sirene antes de mim e saído para investigar.  Por que não me acordou?  Ela sempre faz isso...  Sabe que tenho insônia e fica com pena de me acordar. 

Jorge metodicamente procurava a noiva entre os curiosos. Nada.  Talvez tenha voltado para a cabine, pensou.  Mas estava vazia. Mais uma vez subiu ao primeiro convés e depois ao segundo, terceiro e quarto decks que estavam vazios.  Agora algumas centenas de pessoas ocupavam o primeiro convés.  Ansiosas, conversavam, faziam hipóteses e olhavam o mar iluminado por potentes holofotes. Dois botes motorizados barulhentos circundavam o navio à procura do acidentado.  Mas muitos sabiam que a chance de encontrar alguém era pequena.  Era uma queda de cerca de 9 metros, e o impacto fazia a pessoa desmaiar e afundar.  Apenas nadadores experientes conseguiriam retornar à superfície. Depois de muito insistir, Jorge conseguiu falar com o imediato e reportar o desparecimento de Marilda.   O homem não parecia muito convencido. Tentou acalmar Jorge dizendo que a noiva provavelmente tinha tomado mais um aperitivo e devia estar dormindo em alguma poltrona. Afinal, tinha visto tantas escapadas noturnas de homens e mulheres nos seus dez anos de mar.  Prometeu que de manhã ordenaria uma busca sistemática no navio. Agora era impossível

Jorge não se conformou com o descaso do oficial. Continuou a procura pelo navio, deck por deck, todos os bares, restaurantes, salas e antessalas, banheiros quando encontrava abertos, cozinhas...  Nem vestígio de Marilda. Exausto voltou à cabine, tomou um chuveiro, vestiu-se e foi cobrar do capitão uma busca minuciosa por todo o navio. O capitão pediu um documento de Marilda e uma foto. Jorge voltou à cabine e pegou a carteira de motorista na bolsa de mão. Entregou ao capitão e   ao retornar olhou de novo a bolsa. Estranhou, estava quase vazia. Tinha as chaves de casa, alguma maquiagem, pente, a carteira com algum dinheiro, mas, e a carteirinha azul onde ela guardava os cartões de crédito?  E o relógio de pulso e o celular? O celular ele achou perto da cama, não sabia a senha para abrir. Mas o relógio que ela prezava tanto não estava lá.  Estranho colocar o relógio para passear no navio à noite.  E os cartões?  As lojas estavam fechadas de madrugada e os bares só aceitavam dólares.

O rapaz se forçou a ir ao restaurante comer alguma coisa. A busca mencionada pelo capitão já estava em curso.  Começariam pelos andares inferiores nas alas ocupadas pelos funcionários do navio, seguindo-se as outras dependências cozinha, lavanderia e depósitos. Depois indagariam, os passageiros, cabine a cabine. Iria demorar.  E às 11:30 o navio iria atracar em Montevidéu para os passageiros descerem.

O que não descia para Jorge era o café com leite e a inocente torrada à custo mastigado. Encolhido num canto do restaurante ele tentava raciocinar.   Certamente Marilda não pulara no mar. Ninguém leva cartão e relógio para se suicidar. Por que então sumira e quem teria acionado o sinaleiro na madrugada?  E por quê?  Alguém deve tê-la visto no deck ou conversado com ela.  Parecia normal na noite anterior, alegre e encantada com a viagem até Buenos Aires. Era a viagem para comemorar o noivado selado com o lindo anel de safira e minúsculos brilhantes. Safira azul como seus olhos, lembrava Jorge. E continuou ali a pensar, a matutar hipóteses malucas que rodopiavam na mente para serem logo afastadas.   Estava claro, concluiu, ela o abandonara, como e por quais razões ele não atinava. Devia estar escondida no navio, ajudada provavelmente por alguém que ela conseguira convencer.  Sim, Marilda era insinuante, convincente e sabe-se lá que história teria tecido. Na verdade, se deu conta que sabia pouco sobre ela. Disse que seus pais haviam falecido, que crescera em Mato Grosso, criada por uma tia que também já morrera.  Era real ou ela criara essa fábula para ele?

Essas constatações fizeram Jorge sentir-se ainda mais desalentado. Devagar, cambaleando chegou à cabine.  Olhou em volta, a mala de Marilda com as roupas e sapatos estava lá e o celular que ele iria entregar ao capitão.  Nada mais. Então lembrou. Claro. O cofre, tinha esquecido de verificar...  Apenas os dólares tinham sumido, seus próprios documentos lá estavam.  Bem lá no fundo viu o estojo vermelho do anel de noivado e um papel dobrado. Um bilhete... Finalmente!
― Querido Jorge.  Perdão, eu não sou alguém com quem você gostaria de casar. Não sou Marilda. Tenho outro nome e profissão.  Gostei muito de você, cheguei a me enganar acreditando que poderia abandonar a minha profissão. Desaparecerei em Montevideo. O anel está aí. Nosso tempo juntos foi maravilhoso. Obrigado por tudo.  Os dólares lhe serão reembolsados quando chegar ao hotel em Buenos Aires.  Mais não posso falar. Adeus!

 

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