O tio rico de Angola - Ises A. Abrahamsohn

 


O tio rico de Angola

Ises A. Abrahamsohn

 

Lucila era recém chegada na família. Casara-se há um ano com Bernardo, um dos cinco irmãos que deixaram Portugal buscando melhores oportunidades no Brasil. Os outros ficaram na Europa. Havia uma irmã casada que também viera para o país . Foi num almoço de domingo  que costumava reunir as famílias na casa do mais velho que Lucila ouviu pela primeira vez sobre um tio, muito considerado, o tio Alberto que morava na África. Parece que era muito rico e não tinha filhos ou outros parentes vivos. Mantinha contato com a família por cartas, uma por semana, que chegavam sem falhar e eram endereçadas para os dois irmãos mais velhos, Abílio e José. As cartas passavam de mão em mão lidas atentamente nos almoços de domingo. Ora em uma carta ora em outra havia conselhos dirigidos a cada um dos irmãos sugerindo que fizessem isto ou aquilo, no mais das vezes diretrizes ou conselhos para alguma transação de negócios, compra e venda de imóvel, aplicações etc. Aparentemente todos na família o tinham como um gênio financeiro e seguiam a maioria dos conselhos. Afinal o homem devia entender mesmo de negócios em vista da fortuna que amealhara na África. As fotografias da mansão onde residia e dos carros de luxo atestavam seu sucesso e sua riqueza. Entretanto apesar de vários convites o tio nunca se dispunha a visitar os sobrinhos no Brasil. Alegava ter artrite que o afligia muito e mal-estar gástrico que o obrigavam a dieta rigorosa. Porém seu aspecto nas raras fotos parecia bastante saudável. Lucila achava estranha a reverência dos cunhados para com tal tio Alberto e não concordava quando seu marido recebia diretrizes sobre assuntos financeiros. Na última carta, o intrometido tio indicava que Bernardo devia se associar aos irmãos Eládio e Abílio para abrirem um bar. Lucila foi absolutamente contra. O dinheiro que tinham economizado era para dar entrada na compra de uma casa. Depois de alguma discussão convenceu o marido a ignorar o conselho. Porém dois meses depois o tio voltava à carga com o mesmo assunto. Lucila ficou desconfiada de tanta insistência. Após o almoço quando todos estavam tomando café na varanda foi até o aparador da sala de jantar e lá encontrou em meio a outros papéis, o envelope da última carta. Anotou o nome do missivista, Alberto Pereira Marques e o endereço na cidade de Nova Lisboa em Angola. Na época era difícil encontrar alguém, sem Internet e telefonia cara. Porém foi no consulado onde conseguiu a informação. O cidadão desse nome havia morrido há cinco anos. De quem seriam as cartas, então? Lucila decidiu investigar antes de falar com o marido e com a família. No próximo almoço fez uma nova incursão ao aparador onde numa antiga fruteira a família jogava recibos, cartões de lojas, contas e também cartas e envelopes. Ao lado havia uma bandeja com uma garrafa de vinho do Porto e cálices. Lucila tinha começado a revolver a papelada quando viu um dos cunhados entrar na sala. Teve a presença de espírito de agarrar a garrafa de vinho. O cunhado zombou: Ora , ora a dona Lucila também gosta de um vinhozinho! Deixe-me servi-la e também tomo um golito. Dizem que cura todos os males! O vinho era realmente muito bom, mas ela ainda teve que aguentar sorridente a longa explicação sobre os vários tipos de Portos. O sujeito esvaziou logo o cálice quando alguém o chamou da varanda e Lucila segurando o cálice numa mão pôde vasculhar os papéis na fruteira. E teve sorte. Dobrou o envelope, escondeu dentro do sutiã, e tomou um último golinho do vinho do cálice antes de voltar à varanda. No dia seguinte no escritório onde trabalhava examinou o envelope cuidadosamente. Nada indicava sua origem, era comum, tinha sido fechado com cola e selado. E foram os selos que chamaram atenção de Lucila. Os selos eram de Angola, porém o carimbo era estranho. Um dos selos parecia ter uma mancha como parte de um semicírculo com a data borrada e num sentido diferente via-se a impressão de um círculo borrado e era impossível ler a data ou lugar de expedição. Aí tem coisa, pensou Lucila. Tinha uma amiga que trabalhava no prédio central dos Correios. A amiga olhou o envelope e disse ter quase certeza de que o carimbo era falso. Iria levar a um colega especialista. De fato, dois dias depois Lucila teve a resposta. Tratava-se de uma falsificação grosseira, feita em casa mesmo, ele imaginava com tinta diluída. Qualquer pessoa mesmo sem habilidade conseguiria fazer melhor.

Sabendo da falsificação, Lucila tinha que identificar os envolvidos. Suas suspeitas recaíram em Abílio ou José, ou ambos. Não queria ainda levar o caso a Bernardo. A letra manuscrita no envelope não tinha nada de especial. Como conseguir uma amostra da letra dos irmãos? O aniversário de Bernardo se aproximava. Decidiu comprar um livro caro sobre história da arte em Portugal e pediu aos cunhados e à cunhada que escrevessem uma dedicatória ao irmão. E aí veio a resposta. Era a letra de Abílio. Lucila deixou passar o aniversário de 30 anos de Bernardo, muito comemorado, para contar ao marido o esquema dos irmãos mais velhos. A letra era de um, mas José também tinha cartas do falso tio endereçadas a ele. Quando confrontados, os dois se defenderam dizendo que só davam conselhos para o bem dos irmãos. Mas na verdade quando a irmã e os outros não envolvidos se deram conta viram que perderam dinheiro que era habilmente desviado para os dois irmãos vigaristas.

GURU DOS INCRÉDULOS - Sergio Dalla Vecchia

 



GURU DOS INCRÉDULOS

Sergio Dalla Vecchia

 

Moça inteligente, culta que meteoricamente galgou os árduos degraus do sucesso, deixando as pessoas com muita inveja.

Ela possuía capacitação para tanto, mas tão rápido assim era até para desconfiar. Algo fora do comum ou até espiritual a impulsionou, pensavam os colegas.

Certa tarde, após bebericar dois morritos durante um papo em um happy hour, uma amiga íntima dela me confidenciou um segredo e me fez jurar não revelar a ninguém.

Assim, ela sentindo-se segura, relatou que o sucesso alcançado pela amiga, aconteceu por ela seguir piamente as orientações do seu guru.

— Mas, que Guru foi esse? Curioso, indaguei.

Depois de várias insistências, nada. Apelei para um recurso não muito ético, mas válido. Pedi dois gins-tônicas. Não demorou para ela me contar que o guru nada mais era do que o nosso conhecido horóscopo. Surpreso, logo senti a mão dela apertar meu braço e uma risadinha incrédula mexeu seus lábios. Gostei, o papo foi esquentando e entre algumas carícias ela contou tudo que sabia.

Disse que a amiga desde adolescente obedecia às dicas do horóscopo: dia não propício para iniciar uma relação amorosa, cuidado com pessoas próximas, dia bom para apostas, seja mais cordial no trabalho, Vênus sugere boas relações afetivas e assim por diante.

Não saía de casa sem consultar o horóscopo do dia. O humor oscilava como as ondas das frases do guru.

Entretanto, vez ou outra ela saia apressada.

Foi o que aconteceu certa manhã, quando saiu atrasada e na calçada esbarrou num rapaz, deixando cair a pasta de documentos. Gentilmente ele abaixou-se para ajudá-la, foi quando seus olhos trombaram com os dela. O choque foi mútuo, quase paralisante, mas suficiente para tomarem um café juntos. Daí por diante tudo aconteceu em 5G até o casamento esplendoroso junto ao mar, digno das colunas sociais. Pudera, o noivo era uma das grandes fortunas da cidade.

Assim a noiva, radiante tornou-se poderosa do dia para a noite e até esqueceu, que o horóscopo do dia em que o casal se esbarrou recomendava o seguinte:

“Dia não propício para iniciar um relacionamento”

Depois disso, minha amiga nunca mais leu um horóscopo.

 

 

 

 

O grande Xamã - Ises A. Abrahamsohn

 


O grande Xamã

Ises A. Abrahamsohn

 

Dr. Carlos se arrastou paquidermicamente até a porta. O velho médico já terminara o atendimento do dia. Espiou pela fresta. Era uma mulher acompanhada por uma criança de uns quatro anos.

Escancarou a porta: Vou lhe atender num instante.

Foi recompensado com um olhar de gratidão. Ela não estava habituada aos costumes da cidade. Não que Itaperuna fosse cidade grande mas para quem vivia no fim de mundo, seis horas em lombo de burro, era a metrópole. Aceitou a cadeira e, se assentou, timidamente, ajeitando a saia.

É o menino, doutor, balbuciou. Já tem três anos e não fala.

O médico olhou o garoto que fisicamente parecia estar bem e olhava insistentemente a prateleira atrás da mesa, onde entre outros brinquedos havia carrinhos destinados a distrair seus pequenos pacientes. Perguntou:

Qual deles você quer? Eu pego para você. O menino parecia não se dar conta da pergunta. O menino nada de responder quando repetiu a pergunta, mas, sem titubear, apontou o carro vermelho de bombeiros. O médico entregou o brinquedo à criança que logo começou a brincar puxando e empurrando em todas as direções.

Perguntou à mãe se ele nunca falara, e dela ouviu que era um menino muito calmo e que respondia ao seu chamado, mas nem sempre. Ela já tinha pensado que ele poderia ser surdo, mas tinha certeza de que ele entendia o que ela dizia, nem sempre, mas entendia. Já fizera várias benzeduras, mas não resolveu.

O experiente médico não precisou muitos testes para chegar ao diagnóstico.

— Minha senhora, seu filho é surdo, por isso não fala. E sorrindo completou: ─ Ele é um garoto muito inteligente. Sozinho aprendeu a ler o movimento dos seus lábios de uma maneira que ele entende o que você quer dele e conhece quando você fala o nome dele ou mostra algo que ele reconhece.

─ Nós precisamos fazer alguns exames para ver se treinando com um aparelho especial ele pode aprender a falar e talvez, talvez ele ainda possa ouvir usando um outro aparelho. Mas é preciso levar ele para Jundiaí e lá na Faculdade ele poderá fazer os exames.

A mulher com um ar deslumbrado exclamou:

Então, ele não é bobo, doutor ? Não é bobinho, doutor? Repetiu a mãe, incrédula. Todos me falavam que ele é retardado.

Ele é muito inteligente. Não tem nada de bobo.

Assegurou o médico à mãe que se levantou e foi abraçar o filho.

Ele aprendeu sozinho a ler o movimento dos seus lábios. Com tratamento vai poder se comunicar, estudar e se desenvolver.

Logo o rosto da pobre mãe murchou e ela retorcia as mãos enquanto falava:

Doutor, como é que ele vai poder ir para Jundiaí? Eu não tenho como pagar a passagem. Não temos como ir para lá.

Quantas vezes o doutor teve que enfrentar o mesmo problema. Mas o paciente médico do interior já tinha experiência de tantas outras famílias como esta.

─ Calma, dona Eulália, a gente vai arranjar. Eu tenho um quarto no fundo da minha casa onde a senhora pode ficar com o menino durante uma noite e o burrico fica no terreno ao lado. De manhã bem cedo o transporte da prefeitura leva a senhora e o menino para o hospital de Jundiaí e de tarde traz de volta. Aí vocês dormem de novo lá no quarto e na manhã seguinte eu vejo os exames e a gente vê como será o tratamento.

E assim foi feito. O garoto chamado Antônio, ou Tonico, não era totalmente surdo. Com o auxílio de um aparelho auditivo passou a ouvir suficientemente bem para aprender a falar e se comunicar. A família mudou-se para a cidadezinha e Tonico ao ir para a escola revelou ser um menino muito inteligente. O Dr. Carlos já aposentado continuava a olhar por Tonico. Não tinha netos e decidiu custear os estudos para o rapaz que se formou em engenharia eletrônica na UNICAMP. Histórias de médicos do interior...

 

A liberdade que não foi concedida na Praça da Liberdade - Ises A. Abrahamsohn

 


A liberdade que não foi concedida na Praça da Liberdade

Ises A. Abrahamsohn

 

Eu era garota de uns dez anos na década de 1950, quando ia visitar uma velha tia que morava no bairro da Liberdade, numa casa antiga, rés da calçada onde ela alugava quartos de sua casa com direito ao uso da cozinha e dos dois banheiros. Na época chamava-se esse tipo de alojamento casa de cômodos. Porém essa era respeitável, limpa e certamente minha tia em nada se assemelhava  ao tipo descrito no conto de Aluísio de Azevedo. Numa das vezes, estava lá de visita sua filha, minha madrinha, pessoa muito caridosa e devota. Convidou-me a ir com ela na igreja do Largo da Liberdade, em vez de meu caminho habitual na direção da praça João Mendes onde ficava o ponto inicial dos bondes que se dirigiam a Santo Amaro.

Era uma igreja feia, escurecida pela fuligem em cuja lateral, próxima à calçada, o povo acendia velas. Ao queimar escorriam a estearina contribuindo para o aspecto desolado e repulsivo da infeliz igrejinha. Dentro era muito simples, sem ornamentos, apenas algumas imagens que eu percebi serem de santos negros. Nossa Senhora de Aparecida e São Benedito disputavam as flores frescas colocadas em simples vasos de barro e as muitas velas acesas. Foi a madrinha que me contou a história da Igreja da Santa Cruz das almas dos enforcados, chamada por todos de “igreja dos enforcados” e a triste história do Chaguinhas. No largo da Liberdade na época do primeiro império ficava a forca para execução dos condenados. Francisco José das Chagas, conhecido como Chaguinhas, foi um cabo negro brasileiro do Primeiro Batalhão de Santos. Após 5 anos sem receber o soldo, acrescido que soldos eram muito menores do que os recebidos pelos portugueses, o cabo participou de uma revolta para reivindicar o pagamento. Foi injustamente condenado à forca, mas ao ser içado a corda rompeu-se e a população pediu clemência para o condenado como era costume quando isso ocorria. Porém, foi negada. Na execução seguinte, de novo rompeu-se a corda e foi novamente pedida clemência, desta vez a Dom Pedro I, porém antes da resposta que demorava a chegar procedeu-se ao enforcamento. Desta vez usando uma correia de couro. O povo revoltado gritava liberdade, liberdade e foi assim que o largo passou a se chamar Largo da Liberdade. A lenda conta que que o corpo foi esquartejado e despejado numa vala existente na capela dos Aflitos, na atual rua dos Estudantes. Lá ao lado, o Chaguinhas foi enterrado no cemitério onde eram enterrados os escravos e os executados. Até hoje, a igreja e a capela são de devoção da comunidade negra. Nunca esqueci o relato de minha madrinha, devota de São Benedito. Cada vez que passo ao lado da igreja lembro a triste história dessa região. 


O despertador eficiente - Adriana Silva Frosoni

 


O despertador eficiente 

Adriana Silva Frosoni


        

O despertador eficiente

 

Adriana Silva Frosoni

 

        Na época da revolução industrial surgiu uma nova profissão entre os ingleses e irlandeses: o despertador humano ou knocker-up.  Eles usavam varas longas e leves para bater nas janelas mais altas ou um tipo de zarabatana, estas para atirar ervilhas ou bater nas janelas mais baixas. Era executada, em sua maioria, por artesãos idosos que não eram aceitos para trabalhar na indústria devido à longa jornada e às condições sub-humanas.

Pedro era um dos que não havia sido aceito na indústria local em função de sua idade, mas não se conformava em ficar em casa parado, isso feria o seu brio de artesão e arrimo de família que sempre fora. Então decidiu começar nessa nova função e era considerado muito responsável, até se permitia cobrar uns poucos centavos a mais que outros.

Essa tarefa não costumava dar problemas, a menos que aparecesse algum dorminhoco cabeça dura.

— O senhor tem que cumprir o combinado e me acordar! Não está fazendo o seu trabalho direito, mas para cobrar é muito eficiente. — Esbravejou um senhor empertigado.

        — Eu tentei acordá-lo e não foi uma vez só! Mas o que posso fazer se o seu sono é pesado? — Respondeu Pedro, o despertador humano, com todo respeito que é devido a quem lhe garante o pão de cada dia. Mas diante do cenho franzido do cliente mal-humorado, continuou. — Todos acordam apenas com uma batida da vara na janela, mas o senhor não! Não acorda de jeito nenhum! Preciso ir para a próxima casa, senão os outros perdem a hora!

        — Agora a culpa é minha porque meu sono é pesado? Resolva isso de uma vez por todas, a culpa será sua se eu perder meu emprego por chegar atrasado!

        No dia seguinte, Pedro, que já estava farto do dorminhoco, foi preparado para não falhar. Não só porque precisava muito do dinheiro, mas também porque queria descontar a bronca imérita do dia anterior. Deixou para acordar o cliente insatisfeito por último e não sairia de lá até ter certeza do dever cumprido.

        ­— Mas o que é isso? Uma guerra? — Saltou o dorminhoco ainda em ceroulas, quase arrancando a maçaneta ao abrir a porta balcão do seu quarto. — Porque está tentando explodir minha janela?

        — Bom dia, senhor! Só queria garantir que estava realmente acordado!

        — Mas isso não é maneira de acordar um sujeito! Você jogou uma bomba na minha janela?

        — Sim, mas primeiro bati com a vara. Como não ouvi reação, atirei ervilhas com a zarabatana, mas ainda assim não surtiu efeito. — Nesse momento Pedro já começava a se retirar, pois começava a ficar difícil não rir da cara de assustado do reclamão. —Então pensei que se eu jogasse uma bomba, seria mais efetivo, e realmente foi!

        Daquele dia em diante, o dorminhoco nunca mais deu trabalho para acordar, o dorminhoco pulava da cama já na primeira batida na janela e logo sinalizava ao senhor despertador que estava de pé.

SONO PESADO - Sergio Dalla Vecchia

 


SONO PESADO

Sergio Dalla Vecchia

 

Chicão, trabalhador da indústria em São Paulo cumpria uma jornada árdua em uma grande tecelagem.

O cansaço ao fim do dia era tanto, que mal dava para tomar uma dose de cachaça no boteco da esquina.

Porém, ele estava a ponto de perder o emprego, devido a algumas advertências por atraso.

Não havia como acordá-lo, nessa época não existia despertador, nem galo ele tinha mais, pois certa madruga incomodado com o canto da ave, acertou-lhe uma pedrada que o transformou em boa sopa no dia seguinte. A janela antiga não possuía vidro, assim não podia deixá-la aberta e despertar com a luz da alvorada. Ainda mais não contava com a esposa, ela dormia em quarto separado, por não suportar mais seu ronco. Até falaram em separação.

A solução seria contratar um batedor, figura que em troca de algumas moedas incumbia-se de despertar as pessoas. Era o despertador da época!

Assim o fez, e logo na madrugada seguinte sua janela recebeu uma saraivada de pedrinhas, atiradas por um canudo assopradas pelo homem despertador. Nada, Chicão nem piscou os olhos! O batedor foi para o plano B. Com uma vara comprida, bateu uma, duas e três vezes e nada do dorminhoco levantar-se!

Com a paciência no limite, o homem tentou uma última alternativa que acreditava ser infalível, já havia aplicado em outra ocasião e deu certo. Ele tinha o orgulho de nunca ter deixado seus clientes perderem a hora e não seria o Chicão que iria desmoralizá-lo.

Colocou seu cone metálico na boca e gritou para toda a vizinhança ouvir:

 Sr. Chicão, já que senhor não levanta, estou levando sua mulher comigo!

Do nada, em segundos uma janela se abriu bruscamente e dela surgiu o dorminhoco atônito.

O invicto batedor com um sorriso sarcástico logo disse:

— Bom dia Sr. Chicão, tenha uma ótima jornada e aproveite para acordar sua mulher. Era brincadeira. Ah, Ah, Ah!

Despertador Humano - Silvia Helena De Ávila Ballarati

 


Despertador Humano

Silvia Helena De Ávila Ballarati

 

                                                                             Despertar, bater e ...


Algumas profissões antigas deixaram, definitivamente, de existir, dentre elas, a do despertador humano ou “knocker-up” como se dizia na Grã-Bretanha onde se originou no século XVIII. Sim, isso já foi uma profissão, alguém perambular de madrugada acordando os trabalhadores.  

Vamos contar aqui, um pouquinho dessa profissão; entretanto, trataremos de uma coisa mais antiga ainda, o comportamento humano. Esse, atravessa os séculos, enfrenta novos costumes, agrega valores, mas parece continuar consolidado na mente humana, aferrado a hábitos que nem a evolução da neurociência consegue explicar. 

 

Londres - 1764

 

O batedor vinha pontualmente às 4:15h despertar o mineiro e acabava por acordar a família inteira, um ritual que se repetia todas as manhãs fosse nevasca, chuva ou o singelo sereno. O pai era chamado para trabalhar, a mãe para fazer o café e as cinco crianças para contribuir nos afazeres domésticos.

Olivia, ela sim um relógio, sempre acordava antes do batedor chegar, de longe pressentia seus movimentos igual a um cachorro astucioso.  Gostava daqueles instantes, do silêncio da pobre casa em que viviam, mesmo naquele espaço exíguo, a madrugada era um momento seu. Moravam ao lado de uma tecelagem onde ela bem poderia trabalhar, se não fossem as exigências do marido para que cuidasse somente da casa e dos filhos. 

As crianças dormiam amontoadas em meio a pulgas, percevejos, roupas enlameadas; para Olívia, era dificílimo conseguir a ordem e limpeza do ambiente porque tudo que valorizava era ridicularizado pelo marido. Seu comportamento estúpido contrastava com a delicadeza dela. O que a salvava era sua mente, embora presa aos costumes, às ideias retrógradas do marido, sentia-se livre, tinha pensamentos próprios que jamais revelava a quem quer que fosse. Era feliz, acreditem. 

Naquela linda madrugada de terça-feira, Olivia não ouviu os costumeiros barulhos do batedor. Achou estranho e correu para acordar os vizinhos que também se valiam do serviço de despertador humano, eram poucos naquela rua da periferia de Londres e certamente seriam punidos pelo atraso mesmo que por um único dia.  O marido que vivia cansado do trabalho nas minas de carvão, e perderia a hora, não fosse o alerta da mulher, nem se apercebeu de sua ligeira saída.

A jornada de trabalho era de 14 a 16 horas diárias, as fábricas funcionavam a pleno vapor, a cidade era enfumaçada, viviam em um clima infernal com esgotos a céu aberto e sob a constante ameaça de cólera.  Os mineiros trabalhavam pela subsistência da família, não havendo o menor espaço para a brandura, para a delicadeza.  O apreço por uma convivência afável não existia entre pessoas rudes por natureza e principalmente, rudes em decorrência da vida áspera que levavam. Olivia era uma exceção. 

Os tempos da manhã eram tão regrados e previsíveis no esquecido bairro londrino que ninguém notou a ausência do batedor pelos dias que se seguiram. Só Olivia soube do acidente do pobre homem e mais que depressa assumiu suas funções. Não avisou ninguém que passaria a ser a nova batedora, nem seu próprio marido, não havia necessidade, pensou ela. 

Muito feliz por caminhar livremente, respirar o ar mais limpo do dia, lá ia Olivia, toda feliz, perdida em seus pensamentos, trabalhar em seu primeiro emprego na vida. O pisar era leve, o bater mais delicado, a pedrinha atirada nas janelas não alcançava os andares superiores, tudo diferente e ninguém notou. E assim, assumiu o despertar de toda a vizinhança por meses a fio. Para ela, não importava o frio intenso, as noites chuvosas que deixavam barro pelas ruas, nada perturbava o êxtase que a envolvia. Gostava de sentir o sereno, levantava o rosto para receber o vento gelado, respirava profundamente os ares da liberdade. Era naquelas caminhadas que Olivia criava, fantasiava uma vida diferente e dentro desses devaneios se transformava em uma pessoa melhor, sentimento que carregava consigo e ajudava a enfrentar as agruras do dia. E assim foi até a madrugada em que se deparou com o antigo batedor na porta de sua casa.

Mais magro, debilitado, ele ficou satisfeito com a continuidade das batidas, ofereceu para pagar-lhe metade dos ganhos, o que Olivia prontamente recusou. Era menos miserável que ele. O batedor decidiu, então, abandonar de vez o ofício, pois sentia-se velho e constantemente doente pela friagem da manhã.

A única mudança percebida pelo marido de Olivia, foi a hora de lavar as roupas, normalmente as bacias eram enchidas pela manhã e agora a mulher as preparava tarde da noite, o que o incomodava pelo aguaceiro em casa da hora de dormir. Olivia corria a secar o máximo possível para evitar despertar a ira brutal daquele homem.

As mulheres da periferia tampouco notavam Olivia. Mulheres que viviam de cozinhar, esfregar roupas na água gelada, fervê-las na água quente, limpar a casa, cuidar dos pequenos com mãos firmes e calejadas e ainda servir a seus ávidos maridos. Não sobrava tempo para observar o mundo, apenas viviam.

Tempos depois, foi a vez de Olivia sumir. Todos no vilarejo perderam a hora naquele fatídico dia. Chovia muito, o marido se levantou no meio da noite para ir ao banheiro e não encontrou Olivia. Preocupado, vestiu-se apressado e saiu para procurar a mulher, já pensando em uma tragédia, única razão para ela não estar em casa naquele horário. Deu com ela chegando, corada, ofegante, com visíveis sinais de satisfação.

Espancou-a até quase a morte, sem nem perguntar por quê. Não precisava saber, bastava observar seu semblante feliz. Como que sua mulher vagava pela noite sem tê-lo avisado? Como uma mulher sai sozinha de madrugada?

Ela, por sua vez, nem tentou se explicar, ele jamais entenderia. 

Olívia levou semanas para se recuperar, o marido proibiu as únicas vizinhas próximas, as que ouviram os socos e tapas na rua, de ajudar e de visitá-la também; os filhos foram impedidos de falar sobre o assunto, os menores adoeceram, os mais velhos subitamente se transformaram em adultos, tudo mudou, menos a cabeça de Olivia. Muito enfraquecida por fora, internamente encontrava forças para melhorar. Revivia todos os cheiros, os céus, os caminhos, tudo guardado em sua mais íntima memória. A lembrança do vento em seu rosto, do som das aves notívagas, lembranças que foram o verdadeiro remédio para sua recuperação.

O mais impressionante foi saber que logo arranjaram um novo batedor para substituir o antigo e que jamais souberam que há quase um ano vinham sendo acordados por Olivia. Nunca souberam da troca entre eles. Os moradores do bairro não sonhavam com uma mulher nessa função, simplesmente, aquele povo rude, escravizado, ignorante, não sabia o que era sonhar. 

 

Conto de fadas às avessas - Ises A. Abrahamsohn

 


Conto de fadas às avessas

Ises A. Abrahamsohn


Era uma vez uma madrasta. Madrasta, aquela mulher do seu pai quando ele se divorciou de sua mãe ou quando sua mãe faleceu. Nas histórias de fadas as madrastas sempre são más. Na vida real elas podem ser boas ou más. E as enteadas também podem ser boas ou más. Esta é história de Janaína cuja mãe morreu quando ela tinha oito anos. Janaína adorava a mãe e não se conformou quando seu pai, André, se casou dois anos mais tarde com Neusa, dez anos mais nova. Janaína na altura tinha dez anos e a madrasta 25. Neusa era advogada e jovem, mulher bonita que aparentava bem menos idade. Além da beleza e inteligência, era simpática e disposta a se tornar amiga da enteada. Sabia que não poderia substituir a mãe, mas tudo faria para tornar a convivência agradável para a garota adolescente. Neusa trabalhava em tempo integral num escritório de advocacia no centro da cidade. Mesmo com as exigências de trabalho que muitas vezes a obrigavam a ficar até tarde no escritório, procurava cuidar da enteada preparando o lanche da escola do dia seguinte, acompanhando o desempenho na escola e ajudando no dia a dia. Já durante os primeiros meses de convivência, Janaína começou a se irritar com a madrasta. Não demonstrava a crescente raiva que devagar se infiltrava na sua mente de adolescente. Apenas aceitava passivamente os cuidados de Neusa e até ensaiava alguma demonstração de afeto perante o pai. Com o tempo a raiva se transformou em ódio. A garota, porém, era dissimulada e escondia bem seu sentimento. Na escola passou a ter notas mais baixas, ela que fora excelente aluna. O ódio tornou-se obsessão. Janaína tinha agora 14 anos. Voltava para casa tarde, ficando na casa de amigas ou com o namoradinho. O pai não desconfiava de nada. Devia ser a adolescência, pensava. Lentamente a menina desenvolvia planos para eliminar a madrasta. Pensou primeiro em veneno. Mas como obter os venenos de que tratavam os livros ou os filmes? Veneno era uma ideia impraticável. Melhor seria um assassinato disfarçado em assalto. Sim, era essa a melhor solução e aí o Juninho, vai me ajudar. Com a moto ele pode fugir rápido no escuro. Vai ser perfeito. Temos que pegar a desgraçada da Neusa quando ela sai do escritório à noite. E tem que ser silencioso.... Revolver, não! Umas facadas ou pancada forte na cabeça. Não vai ser fácil convencer o Juninho. O cara já amargou um ano no SE o tal de socioeducativo. Mas dou um jeito, tenho grana guardada e umas joias da mãe.

O rapaz hesitou. Mas estava louquinho pela menina. Ela prometeu uma  semana de folia no apartamento do pai no Guarujá. Acabou cedendo. Foram os dois examinar a área. O escritório ficava atrás do fórum da João Mendes e a rua da Glória era bem escura no trecho por onde a advogada passava para chegar ao estacionamento. Janaína marcou a data, quarta-feira. Juninho escolheu um golpe na cabeça com uma chave de roda. Usaria luvas e a moto ficaria parada num vão de prédio próximo. Janaína preferia a faca, mas o rapaz foi peremptório: É difícil acertar de primeira e até morrer ela vai gritar e chamar atenção. Pancada na cabeça é melhor. Já cai e desmaia e mais uma pancada bem dada e se acaba. Janaína, porém, tinha ainda um pedido.

Quero que você me traga a correntinha de ouro com a medalha de São Judas que ela usa no pescoço. A bolsa e os documentos você queima. Dinheiro não vai ter muito, ela usa cartão para tudo. E nada de querer usar o cartão. Tua recompensa vem depois, vou estar assanhadinha no Guarujá e vou trazer uma boa grana pra gente se divertir.

Tudo acertado, Janaína contente chegou em casa cedo para o jantar.

E aí, Neusa, muito trabalho nesta semana? Você está trabalhando demais, precisa de umas férias.

Tranquilizou-se com a resposta, sim, havia muito trabalho e, de novo, a advogada precisaria ficar até tarde no escritório na quarta-feira.

Subiu ao quarto logo após o jantar, ficou zapeando na TV e mal conseguiu dormir tamanha a excitação. Na terça-feira foi à escola como sempre. Ao sair na hora do almoço avistou Juninho ao longe na moto. Estava em ponto de bala. Fez sinal para o rapaz.

Estou doidinha. Me leva para dar uma volta. Só consigo pensar em amanhã quando vou me livrar da peste.

Melhor a gente não ser visto junto hoje. E amanhã não vou aparecer. Só na quinta. E vê se te acalma.

Não esqueça da correntinha, gritou Janaína.

Mas a garota não se acalmava. Em casa pegou um comprimido para dormir do armário do pai. Teve um sonho estranho. Era uma história que ela tinha ouvido quando criança. Uma mulher que falava para um caçador, leve a moça para a floresta e mate. E quero que me traga o seu coração para eu ver. O jovem caçador levou a linda jovem para o meio da floresta escura, mas, penalizado, não conseguiu matá-la. Deixou a moça próximo de uma casa bem longe na floresta e matou um veado tirando-lhe o coração para levar para a pérfida mulher. Acordou assustada e lembrou. Claro, era a história de Branca de neve que ouvira tantas vezes. Riu-se. Hoje o caçador não vai ter pena!

Janaína passou o dia como zumbi. Ligava para Juninho, mas só dava caixa postal. Afinal conseguiu falar já eram oito da noite.

Tudo certo amor? Ela deve sair do escritório lá pelas dez. Lembra da correntinha e do Guarujá.

O rapaz se irritou com a ligação. Vê se te acalma por aí e não liga mais. Vai dar certo. Amanhã a gente se fala.

Que idiota, pensou Janaína. Só falta dar pra trás na hora.

Juninho não deu pra trás. Mas teve azar demais. Não contava com o segurança que discretamente acompanhava os funcionários do escritório quando saíam tarde da noite. Quando empurrou Neusa antes de desferir o golpe, ouviu o tiro logo seguido pela lancinante dor na virilha. Ficou caído na calçada tentando estancar com a mão o sangue que se infiltrava no tecido grosso da calça. Gritou para o homem que lhe apontava a arma:

A correntinha, tá no pescoço, preciso da correntinha para levar   pra ela, pra Janaína, my love, ela prometeu, no Guarujá, só nós dois, a grana... A correntinha...

Neusa, já de pé, passou o dedo no pescoço sentindo a correntinha de ouro que nunca tirava. Olhou o rosto contorcido do rapaz. Tão jovem para morrer. Falou para o segurança: Acertou na artéria. Eu chamo o SAMU, pode largar a rama, vê se consegue apertar na virilha.

Com o tiro, o pessoal do bar da esquina se aproximou para espiar. Seu Tobias, dono do bar, viu o celular caído que vibrava sem parar. Atendeu...

E aí deu certo, Juninho?

Não, menina. Seja você quem for. O seu Juninho acabou de ser levado na ambulância e a moça que ele atacou, acho que é a advogada do terceiro andar, conheço ela, vem sempre tomar café. É a Dra. Neusa, está bem, está falando com os policiais.

Sonho e realidade - Adriana Frosoni

 

 


Sonho e realidade

Adriana Frosoni


Havia uma trilha muito arborizada, com pequenas aberturas pelas quais o sol iluminava o solo extremamente úmido, de onde foi subindo um cheiro de grama misturado com terra. A umidade do ar facilitava a respiração e os pequenos troncos, colocados cuidadosamente pelo caminho, ajudavam na subida.  Mas tudo isso se esvaía ao final da trilha, pois as árvores se abriam como uma cortina e davam espaço a uma cachoeira, de tamanha exuberância que parecia uma porta para o céu.

De chofre eu acordei e, de tão embrenhado naquele sonho, continuei a sentir o perfume da natureza com a memória.  Soquei a cabeça sob o travesseiro, num ato desesperado, com esperança de voltar a sonhar, mas não funcionou. O despertador tocou para me jogar de volta à realidade.

Mais uma semana igual: consumidora de sonhos, tempo e energia. Estava ficando psicologicamente inviável, mas não tendo ninguém interessado nisso para dar-me o sinal de alerta, eu segui de forma insustentável mesmo.

No final do dia, nada de pôr do sol, céu estrelado, nem ar puro. Só concreto em frente à janela e as estrelas todas apagadas pelas luzes da cidade. Deixei para lamentar depois e, acredite, lamentei mesmo. Não por ter seguido em frente, mas pela forma que o   fiz: teimosamente, atropelando os sinais do corpo. Feridas invisíveis foram criadas, e futuramente elas precisariam ser revisitadas, reabertas e tratadas.

Quando o trabalho começou realmente a dar certo e todo o resto da minha vida, errado, tomei a decisão mais fácil: passei a trabalhar ainda mais. Reação óbvia para quem não percebe que já está enterrado até o pescoço e vai acabar submerso. Mas novamente faltou alguém para abrir meus olhos, então cerrei-os com mais força e segui como pude.

Ao final de alguns anos, o naufrágio anunciado há tempos, aconteceu. Dores, tensões e desânimos brotavam. Mas o problema mesmo foi quando começaram as enxaquecas, as labirintites e finalmente a mudança de percepção do mundo ­– os medos infundados. Sucumbi...

 

A difícil vida de Aurora - Adriana Frosoni


A difícil vida de Aurora

Adriana Frosoni


Fui nomeada Aurora por ter sido muito desejada pelos meus pais e ter nascido tão radiante quanto a luz do sol, assim como a Cinderela dos contos de fadas. Eu não era filha de reis nem nascida em família abastada; muito pelo contrário, quando nasci passei a ser a esperança de dias melhores.

Mais à frente, minha mãe descobriria que havia mais diferenças do que semelhanças entre a princesa e eu. Meu gênio não era fácil e minhas opiniões eram avançadas para época. Casar-me com 16 anos? Inaceitável. Ser escolhida ao invés participar da decisão? Nem pensar. Pelo jeito, de princesa eu não tinha nada, só mesmo a aparência. Passei a desgostar de contos de fadas bem cedo, preferia os fantásticos.

O tempo confirmaria que minha aparência fazia jus ao meu nome, mas também me mostraria que a beleza trazia percalços. Quando estava mais crescida, decidi que iria levar uma vida apartada da minha aparência, assim como os homens faziam. Mas parecia que isso não era permitido às mulheres. Eu queria estudar, trabalhar e ser reconhecida pela minha competência. O maior obstáculo que encontrei foi a beleza em excesso, pois isso parecia causar desconforto e desconfiança de imediato. Algumas pessoas até ficavam nervosas em função da minha aparência. Acabei descobrindo que existe um nome para esse comportamento: venustrafobia.

Os percalços que enfrentei me fizeram mudar de opinião em relação à princesa e, em muitas situações, considerei aquela Aurora, a dos contos de fadas, mais sortuda do que eu. Pensei até que a melhor coisa que poderia acontecer comigo seria dormir por 100 anos e, quem sabe então, eu encontrasse um mundo mais preparado para a diversidade. Ah...lembrei que fadas não existem.

 


O PALADAR E A PIPOCA - Sergio Dalla Vecchia

 



O PALADAR E A PIPOCA

Sergio Dalla Vecchia

 

Eu, outro dia, estava com desejo de fazer pipoca. Depois de escolher uma panela adequada, óleo, sal e bons grãos de milho. Iniciei o deleite. Entusiasmo é que não me faltava!

Bocal do fogão aceso, panela por cima, uma colher de óleo, uma mexidinha e o derrame da porção de milho. Que logo emitiu aquele chiado característico, quando no fundo quente da panela tocou.

Mexia para lá, para cá, vez o outra sacudia a panela e assim ia fritando até chegar ao clímax da temperatura e o início dos primeiros pipocos:

poc,

popoc,

poc,

popopoc

poc

E, assim os grãos saltitavam aleatoriamente até serem barrados na tampa da panela que eu segurava com firmeza. Não pretendia deixar escapar nenhuma antes do tempo. Porém, quando a panela quase completa gritava abafada, duas atrevidas pipocas saltaram alto para fora. Eu me concentrei em salvar todo resto até despejá-las na travessa de prontidão ao lado.

Não satisfeito sai na busca das duas fugitivas e nada! O espaço era pequeno, não havia como sumirem. Fiz mais uma busca, mas sem sucesso.

Não é possível! - Pensei com meus botões, mas quase desistindo surgiu uma ideia maluca na minha cabeça.

Só pode ser um duende brincalhão, um gnomo faminto talvez, mas estou no Brasil, deveria ser o Saci Pererê!

Mas da conjectura passei para a prática, lembrei da travessa de pipocas fresquinhas esfriando, e imediatamente iniciei a degustação tão almejada.

Logo na primeira porção senti o prazer do gostinho do circo, harmonizado com o burburinho das pessoas, sons dos animais e risos de crianças.

Na segunda bocada minha mente foi invadida pelas boas lembranças das festas juninas, da namoradinha e a figura nítida do pipoqueiro servindo o pessoal.

No terceiro punhado, eu já sonhava com os tempos escolares, os colegas e o assíduo pipoqueiro com seu carrinho prateado servindo cachorro-quente e pipoca.

E assim a cada bocada fui me purificando com as lembranças boas da juventude e me sentia muito feliz. Cheguei até esquecer dos dois grãos fugitivos.

Travessa vazia, estômago e ego satisfeitos fui para a sala de estar e qual foi meu espanto, quando olhei para um porta retrata com minha foto criança, e lá estavam os dois fugitivos, um ao lado do outro como dois olhinhos sorrindo para mim.

Não é possível! - Não acreditei, só poderia ser uma coisa mágica!

Enquanto assimilava o fato, escutei algumas vozes murmuradas:

— Psi cri piu chi rsrsrs (Ele está feliz vocês notaram)?

—  Pip ti mi chi mis (Percebemos sim), responderam o Saci e Gnomo para o Duende.

Assim, murmuraram em uníssono o único pensamento:

 —  Adirp muc aos sim! ( Missão cumprida)!

 — Rsrsrrsrsr ( Risinhos)