FULO – O DRAGÃO E OS LIVROS - Antonia Marchesin Gonçalves

 

 


FULO – O DRAGÃO E OS LIVROS

Antonia Marchesin Gonçalves

       

 

                Nona (vovó em italiano), conta uma historia. Alê,  é hora de almoço não de dormir. Mas meus pais sempre contam na hora das refeições para que eu coma tudo. Então, vou pegar um livro. Não nona tem que ser inventada na hora, e de preferência de ação. Pensei comigo, tô ferrada. Bom, era uma vez um dragão, grande, com o rabo comprido, asas e braços fortes, um corpanzil, quer dizer, um corpo grande. Dava medo, mas era domesticado, o nome dele era FULO e diziam os antigos escritos que ele era guardião dos livros. Muito antigamente poucos sabiam ler, então não davam valor aos livros. Naquela época só os ricos aprendiam a ler e escrever, e os padres também.

                Voltando ao FULO, ele era muito inteligente, tinha superpoder, soltava fogo pela boca. Isso não é superpoder nona, todos os dragões soltam fogo pela boca, até eu sei. Para poder salvar os livros do mundo, ele tinha um ouvido poderoso, por mais longe que fosse, ouvia quando as pessoas jogavam fora os livros, então ele os recolhia, guardando em sua caverna. Mas a caverna já estava tão cheia que ele começou a guardar em volta dela, e os cobria com folhas de palmeiras para proteger da chuva e do sol. Por que ele guardava, dragão não sabe ler? Ah,  Alê, aí que está outro superpoder, ele sabia ler.

                O seu padrinho, a pessoa que o criou, era um cientista que estudava os animais, afirmando que não eram irracionais, quer dizer, que não eram inteligentes e não pensavam. Educou FULO para se expressar com os braços e facial para ser entendido, o ensinou a ler para mostrar ao mundo a sua teoria. O mundo, o chamava de cientista maluco, FULO era o seu modelo.

Mas um dia Norberto, o cientista maluco, ficou doente, ele ficou desesperado e foi chamar o médico da aldeia, mas quando chegaram nada mais podia ser feito, Norberto já estava morto. O desespero tomou conta de FULO, ele nunca matou sequer uma mosca, ele era vegetariano, só comia frutas, verduras e legumes, foi difícil entender que Norberto nunca mais cuidaria dele.

                Muito triste voltou para sua caverna ficando isolado lendo principalmente sobre a morte. Entendeu que todos um dia iriam ter o mesmo fim do Norberto, inclusive ele. Dali por diante, FULO preciso aprender a se defender, e a cultivar sua própria comida. Aprendeu a caçar pequeno animais e já voava para distâncias maiores.

 

Um dia, numa floresta que ele ainda não conhecia, escutou um barulho de asas se mexendo e ao olhar numa clareira. Era um dragão fêmea.  Ela era simpática tinha asas lilases, dentes alvos, e corpo quase retilíneo coberto por cintilantes escamas de fêmea. FULO se apaixonou, e foram morar juntos na caverna e FULO. Ele ensinou NOLA a ler e tiveram vários filhotes. Alguns livros tiveram que sair de dentro da caverna para que a família de FULO tivesse espaço para habitá-la.  E lá naquela caverna viveram felizes para sempre.

 

Gostou? Não gostei do final, coisa mais de menina, nem uma luta entre machos, ou ele ter ajudado algum rei na guerra, isso sim seria emocionante. Bom, nona, já comi tudo, vou brincar.

               

A importância dos livros - Ledice Pereira

 






A importância dos livros

Ledice Pereira

 

 

Aquela biblioteca da escola era o lugar onde Junior gostava de se esconder. Adorava ler aqueles livros desenhados, cheios de figuras coloridas que o faziam divagar pelos caminhos da leitura, levando-o a reinos distantes e misteriosos.

A professora agora já sabia onde encontrá-lo. Toda vez que o menino não voltava para a classe, depois do recreio, era só procurá-lo na biblioteca. Às vezes, o encontrava sentado no chão, imerso na leitura. Outras vezes, o achava dormindo entre vários exemplares abertos.

Ao mesmo tempo que ela o admirava por sua preferência, preocupava-se, pois, ele perdia as outras aulas, principalmente as de exatas.

Resolveu falar com os pais do menino. Esperou que um deles viesse buscá-lo para abordá-lo. Fernando era jornalista e explicou que, desde pequeno, o menino se interessara pelos livros.

Marli explicou que era ótimo isso, mas que não podia deixar que ele perdesse as outras matérias, tão importantes também.

Fernando então resolveu que contaria ao filho uma história. Junior não dormia sem ler uma. Naquela noite, Fernando o chamou e começou a contar:

“Era uma vez um belo dragão chamado Fulo, que foi encarregado de tomar conta dos livros de uma biblioteca. Ninguém podia pegar o livro que queria sem ter que pedir autorização a Fulo.

Pedrinho gostava de ler apenas histórias de bichos. Fulo ficava bravo e soltava labaredas avermelhadas quando o menino insistia no estilo. Só concordava em liberar livros que falassem de outros assuntos. De tanto temer a ira de Fulo, o garoto resolveu variar nos temas, descobrindo que havia um mundo infinito a ser desbravado. Descobriu a mitologia, o suspense, o mundo das fadas e dos duendes, a história das guerras e dos povos oprimidos, as biografias dos músicos e dos artistas plásticos e com isso teve conhecimento de que os números apareciam sempre com muita importância e que sem os números, as operações matemáticas e a ciência, nada existiria. Por isso, a importância de se navegar em todas as esferas da cultura: das que tratavam da humanidade e as que tratavam das ciências exatas.”

Junior achou que o pai inventou uma história muito legal, apesar de não crer nem um pouquinho em dragão. Afinal, não era mais tão bobo para acreditar em história de carochinha. De qualquer forma e por isso mesmo, concluiu que já estava na hora de ampliar seus conhecimentos, dedicando-se às outras matérias. Estava com quase 13 anos, não podia se comportar mais como um garotinho.

Marli, mal pôde acreditar quando, no dia seguinte, não precisou ir atrás do aluno. Encontrou-o entre os outros alunos, explicando fórmulas matemáticas como se sempre tivesse participado das aulas.

De certa forma, a leitura tinha aberto aquela cabecinha, deixando-a pronta para o conhecimento. Apenas Junior não tinha se dado conta.

      

Chiquinha Gonzaga - Uma mulher à frente de seu tempo - Ises A. Abrahamsohn

 


Chiquinha Gonzaga -  Uma mulher à frente de seu tempo

 Ises A. Abrahamsohn

 

 

Eu conhecia Chiquinha Gonzaga como pianista compositora do “Abre Alas, que eu quero passar” carnavalesco e de músicas de grande sucesso popular na virada e início do século vinte. Não sabia mais que isso até fazer um curso à distância promovido pela revista Concerto sobre mulheres compositoras. Fiquei empolgada ao saber sobre a extraordinária vida e obra dessa compositora. A maior parte do que vou escrever encontra-se na Internet e no livro Chiquinha Gonzaga uma História de Vida de Edinha Diniz. Francisca Edwiges Neves Gonzaga nasceu em 1847 no Rio de Janeiro, filha de um militar do Império e de mãe de origem muito pobre, filha de escrava. Foi declarada como filha legítima embora o casamento só tivesse sido legalizado em 1860. Mas o pai educou-a para casar-se na melhor sociedade. Teve aulas de francês, boas maneiras e de piano com o tio que era flautista. E foi uma criança prodígio. Aos 11 anos dominava o piano e apresentou sua primeira composição. Aos 16 anos o pai arrumou o casamento com um oficial da marinha mercante de família rica, Jacinto Amaral. Teve logo dois filhos em 1863 e 1864 e, apesar da oposição do marido, continua a se dedicar ao piano e a compor. O marido, para afasta-la do instrumento, a carrega consigo em várias viagens de navio que leva suprimentos às tropas que lutam na guerra do Paraguai. Chiquinha se revolta contra o tratamento dado aos escravos alforriados. Ao voltar ao Rio, continua a compor e tenta tocar apesar da proibição do marido. Até que, após várias brigas, o marido lhe dá o ultimato: “ A música ou eu!” . Chiquinha escolhe a música, se separa do marido em 1869, grávida do terceiro filho e vai viver sozinha levando o filho mais velho consigo. Seu pai e mãe, que ficaram com a filha, a repudiam e a declaram como morta. Em 1870 Chiquinha passa a viver com o engenheiro João Batista de Carvalho e arca com processo de separação por abandono do lar e adultério. Para se sustentar ela dá aulas de piano e publica sua primeira composição, a polca Querida por todos, com o sucesso moderado passa a tocar como pianista num conjunto de choro e a se apresentar como musicista profissional. Em 1877 publica “Atraente”, um grande sucesso e se separa de Carvalho. Chiquinha está com 30 anos e durante toda a sua vida até os 87 anos nunca parou de compor. Apresentava-se como pianista e dava aulas de piano. Conseguiu se manter e comprar imóveis. Foi a primeira maestrina brasileira a reger uma grande orquestra.  Em 1934, com 87 anos Chiquinha Gonzaga escreveu seu último trabalho, a partitura da opereta "Maria". Como maestrina, atuou em 77 peças teatrais, óperas e operetas, é autora de 2.000 composições. Foi cercada dessa glória que Chiquinha Gonzaga viveu em companhia de João Batista seu último companheiro, ela aos 52 anos ele com 16, a quem adotou como filho. Chiquinha Gonzaga batalhou para receber os direitos autorais, depois de encontrar em Berlim várias partituras suas, reproduzidas sem autorização. Foi a fundadora, sócia e patrona da SBAT - Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, ocupando a cadeira n.º 1. Chiquinha Gonzaga faleceu no Rio de Janeiro, no dia 28 de fevereiro de 1935.   

O CADERNO E O CELULAR - Sérgio Dalla Vecchia

 



 








O CADERNO E O CELULAR

Sérgio Dalla Vecchia

 

Dispostos sobre uma mesa, lá estavam o caderno e o celular.

Foi a primeira vez que se puseram frente a frente. Logo o sereno caderno puxou conversa:

—Olá celular, registro textos. Estava ansioso na busca de ouvidos companheiros que escutassem as tantas histórias que vivenciei. 

— Ora, caderno, eu lá quero saber das suas histórias. Eu sou o presente, não tenho histórias para contar, quando quiser saber algo ponho meu buscador para trabalhar e Zaz! Tenho os fatos de imediato, em cores e em tempo real. Sou apenas o máximo. – Respondeu com arrogância o celular.

Pois é meu caro, modéstia é que não lhe falta, não? - Retrucou o caderno.

— Sou onisciente, digito todo tipo de texto, tiro fotos, sou uma enciclopédia, falo todas as línguas, converso com todos os grupos de amigos, informo tudo que acontece no mundo, sou a tecnologia de ponta e portanto sou a ferramenta essencial para o homem.- Replicou o celular.

Veja como fala, seu petulante aglomerado de chips! Antes de você pensar em existir eu já registrava todos os documentos do mundo. Desde a mais rudimentar grafia até a mais refinada. Já fui pedra, papiro, pergaminho, diários de bordo dos mais valentes encouraçados até dos gigantescos transatlânticos. Já me escreveram com carvão, penas de aves até com as mais luxuosas canetas da moda. Sou eu quem registra os trechos de maior importância sublinhados pelos alunos, nas aulas e palestras. Um aluno atento não renuncia da minha presença, esteja onde estiver, mesmo tendo um simples você enfiado em um dos bolsos traseiros das calças jeans, coladinho nas nádegas.- Desabafou o caderno.

— Veja bem registrador de textos, essa conversa já deu o que tinha de dar, portanto vou me desligar por um tempo e você sentirá na pele a minha falta.- Desligando ...

O caderno não esperava tal atitude, mas atento, aguardou paciente a chegada dos efeitos colaterais do fato.

Após algum tempo eles se reencontraram, já mais calmos, conversaram bastante sobre a coexistência e arranjaram o seguinte pacto:

Ao caderno coube à nostalgia e sentimentos da alma.

Ao celular a pujança do progresso e toda frieza que ela exige.

Assim o pacto vigorou harmonioso por vários séculos, até que o mundo obsoleto perante o Universo, acabou invadido por outro celular alienígena anos luz mais eficiente!  

 

 

 

       

AMIZADE - ANTONIA MARCHESIN GONÇALVES

 



AMIZADE

ANtonia Marchesin Gonçalves

 

                Muita gente se considera uma pessoa influente e de sucesso, por ter muitos “amigos” um numero enorme de seguidores pelo Instagram e outros. Poucos entendem a profundidade dessa palavra amizade, que simboliza um sentimento que todos os seres vivos necessitam e dependem dela. Até os animais de qualquer espécie sentem a necessidade de companheiros para crescer, trabalhar, como as abelhas. Cansei de receber vídeos lindos de bichos que por natureza deveriam se inimigos mortais, convivendo como amigos inseparáveis. Até na hora de morrer, alguns se isolam como os elefantes e águias, esperando a sua hora, os outros respeitam e sabem eles que serão assim também.

                Tive um gato Simba por ser bem rajado, cinza e preto, pego recém-nascido na rua pela minha filha. Sujo e cheio de micose, que até passou para ela, foi tratado e tornou-se uma bela espécie, grande forte e corajoso, andava pela beirada da sacada da varanda sem nunca ter caído. Só que era arisco, detestava ser pego no colo, chegava a morder as pessoas, nem com a idade perdeu essa característica. Pois bem, quando estava para morrer e eu não tinha a menor idéia disso, não estava doente, passou a sondar as minhas pernas, subia no meu colo, ronronando pedindo carinho, quinze dias depois, o encontrei em sua caminha morto lindo, enroladinho com semblante em paz, parecendo até um gato de pelúcia na sua cestinha.

                Nós seres humanos, racionais a maioria, acho que alguns não são, precisam de amigos íntimos, não no sentindo de namoro e sexo, mas a necessidade de alguém para contar nas horas difíceis e também nas felizes. Minha filha caçula, por exemplo, todos os colegas ou de escola, mais tarde no trabalho, rapidinho tornavam-se seus melhores amigos. A facilidade de fazer amizade realmente conquistava essa alegria de ter amigos por mais de trinta anos, apesar de morar no Chile, ela tem contacto ainda e muitos novos lá. Mas muitos preferem certo isolamento, faz parte da característica de cada um. Eu sou uma pessoa sociável, mas tenho a necessidade de ficar sozinha nem que seja um dia, para o meu equilíbrio. Mais nova achei que tinha amigas e fui traída, não uma, mas varias, se faziam amigas e usavam a minha espontaneidade e logo a fofoca corria solta e meu nome envolvido como a geradora da confusão, até que aprendi a selecionar as amizades.

                Quantos casamentos terminaram em função dos melhores amigos, gerando a separação e tudo que nela acarreta. Por isso quando penso na palavra amizade, não tem nada que se compare com a de nossos pais e nós pais por nossos filhos, isso é o verdadeiro significado da palavra. E agora com o isolamento dessa pandemia é que sentimos o quanto nos faz falta, parentes, as reuniões, mesmo quando com pequenas alterações numas conversas inflamadas, esta fazendo falta, só quando se perde essa liberdade de convívio é que a valorizamos a “amizade”.

               

Conflito de gerações - Ises A. Abrahamsohn

 




Conflito de gerações 

Ises A. Abrahamsohn 

 

Neusa entrou no quarto e se atirou na cama. Ficou lá mesmo, largada, sem tirar os sapatos e olhando sem ver o teto. As mãos ainda tremiam depois da briga com a filha.  Não chegou a chorar, apenas os olhos úmidos das poucas lágrimas. Veio-lhe um grande cansaço. Chutou os sapatos para longe. Se pudesse chutaria também os pensamentos. Sentiu os braços e pernas amolecerem e continuou imóvel até que a escuridão invadisse o quarto. Olhou o relógio. Sete da noite. Irritou-se consigo mesma por essa lassidão. Acendeu o abajur e alcançou o copo no criado mudo. A água descendo fria na garganta a acalmou. Levantou-se sem procurar os chinelos. Devagar andou pelo corredor do pequeno apartamento até a cozinha. A porta do quarto da filha, fechada. A música escapava pela fresta da porta. Bastou para lhe amargar de novo a boca, enquanto a raiva tomava de novo conta do cérebro.

Vou ficar com dor de estômago, preciso de um antiácido. Cadê o frasco?

Achou um resto do líquido branco que misturou com água antes de tomar pelo gargalo mesmo. Sentou-se à mesa da cozinha, preparou um sanduiche de queijo e um copo de leite. Mastigava devagarinho cada bocado.

A doidivanas da filha a deixava fora de si.

Tanto esforço para dar uma boa educação e agora essa  idiota desperdiça tudo. Sim. Sou de outra geração, como ela fez questão de me dizer antes de me chamar de velha. Velha, eu ? Com quarenta e cinco anos ? Eu a criei , sozinha, sem o pai que se escafedeu quando ela tinha dois anos. Vai largar a faculdade para ir atrás do cara. Músico de talento, ela diz. Besteira. O cara só sabe é fazer essa coisa que chamam de funk. Não é música é barulho. E além disso as letras. Ela diz que são de gozação e de protesto. Eu , hein? O que ouvi só serve para abusar das mulheres. É horrível não sei como ela não percebe. O sujeito não tem onde cair morto. E não estuda música, nem nada, nem tem emprego. Ela diz que vai morar com ele. Vão viver do que ?

Neusa não percebeu quando a filha entrou na cozinha.

Já acalmou, mãe? Tem alguma coisa pra comer no jantar? Não vai fazer comida hoje? Tô vendo que tá no sanduíche. Faz mal. O Marcos é vegano, sabe. Sem leite, carne, ovos. É mais saudável. Eu vou amanhã para o ape dele. Só comida saudável. Viu. Vou fazer a mala e sair daqui. Dessa vidinha de merda. E você enchendo o saco. Ele diz que é bobagem continuar com a facul, ficar pagando sem gostar. Vou arrumar um emprego.

A garota postou-se à frente da mãe, desafiadora, encostada ao fogão. À espera. À espera da resposta que demorou a vir.

Neusa levantou-se devagar, a raiva de novo tomando conta do seu corpo. De novo as mãos tremiam e sentia uma friagem indefinida no corpo e na alma. Os olhos castanhos tomados por uma dureza que ela mesma desconhecia escrutinaram o rosto de Marlene. Sua filha . Única filha. Deu a volta à mesa até ficar frente à frente com a jovem que empalideceu. Nunca vira a mãe nesse estado.

Neusa ergueu o braço para dar a bofetada. Deu um suspiro enquanto baixava lentamente o braço e deu um passo para trás.

Vai minha filha. Vai viver a sua vida! Pode ir embora agora se quiser. Virou-se e voltou ao seu quarto.

OUTROS CARNAVAIS - Antonia Marchesin Gonçalves

 

 





OUTROS CARNAVAIS

Antonia Marchesin Gonçalves

 

 

                Minha primeira experiência com o carnaval foi quando ao chegar ao Brasil em 1951, após um ano de nossa chegada teve inicio a festividade do carnaval brasileiro, eu só com seis anos e morávamos no bairro de Pinheiros, especificamente na Teodoro Sampaio não tinha a menor idéia do que acontecia, mas tenho total lembrança do movimento e a multidão que ocupavam a rua e calçadas. O sobrado tinha uma bela varanda de frente para a rua. Lembro dos corsos, chamados assim os carros sem capotas, cheio de jovens fantasiados elegantes vestidos de marinheiros, as mulheres de odaliscas ou de baianas com turbantes cheios de frutas, pulseiras e colares coloridos, todos lindos.

                A rua ficava lotada de gente a pé, todos munidos de serpentina, confete e lança perfume, que eram jogados uns nos outros e todos cantando as marginhas carnavalescas num coro só, que são cantadas até hoje nos salões. Eram românticas com letras decorosas de amor, por exemplo, Bandeira Branca e outras. Depois fiquei sabendo que a concentração acontecia na Av. Paulista onde os carros saiam dos casarões que lá existiam e desciam a Teodoro, mas interessante não ficavam a noite toda, provavelmente subiam a Av. Rebouças até voltarem para o local de origem, continuando a festa em suas casas, acho eu.

                Não me lembro de ter visto nessa época tumulto ou brigas feias, eram três dias de união e alegria independente de cor ou nível social, só os casais de namorados que o homem ficava mais atento com seu par. Gostoso, pois eu e minha família assistíamos de camarote, até participando com o tempo, jogando confete e serpentina que meu irmão comprava. Minha mãe contava que em Veneza, nossa cidade de origem era diferente daqui, constatei isso quando voltei numa época de carnaval, as fantasias eram todas originarias ou novas imitando a idade media, e jogavam água perfumada e as mascaras escondiam todo o rosto, por ser uma festa mundana, a traição acontecia, sem saber com quem, após os três dias tudo voltava normal e voltavam a assistir a missa para expiar os pecados.

                Acreditem o que eu mais amava no carnaval eram os bolinhos fritos com uva passa dentro. Típicos de Veneza, chamados Friteles e aqui minha mãe continuou a tradição, todas as casas te recebiam com café, delicia.

               

Tem coisa mais bonita do que uma Escola de Samba? - Ledice Pereira

 




 Tem coisa mais bonita do que uma Escola de Samba?  

Ledice Pereira

 

Tenho o maior respeito e admiração pelos integrantes de uma Escola de Samba, que se dedicam de corpo e alma, durante o ano todo, a começar pelos inspirados compositores que precisam falar de um tema escolhido em forma de verso, o que não é fácil. E o pior, ou melhor, de forma que o som cative a multidão e o estribilho ressoe pela passarela.

A partir daí, começa a saga do Carnavalesco. Ir atrás do que retrata o samba com criatividade, conhecimento do assunto, pesquisa, ousadia.

O desenho das fantasias das várias alas têm que corresponder ao enredo. E cabe às costureiras torná-las visíveis, reais e fiéis ao solicitado.

E as alegorias, imaginem o que passa pela cabeça do carnavalesco na hora de criá-las. E nas mãos dos artesãos, de executá-las exatamente como foram arquitetadas?

É um trabalho de equipe, de integração, de profissionalismo e sobretudo de amor, amor à Escola, amor ao carnaval.

O trabalho do Mestre da Bateria merece nossos aplausos. Reunir os apaixonados músicos num aprendizado e treino de impecável ritmo que não pode falhar. E mais, tem que surpreender talvez com paradinhas em momentos específicos. É preciso muito ensaio e intensa dedicação de todos os integrantes.

E então entram os coreógrafos, não só da Comissão de Frente, mas de cada ala. É preciso comprometimento de todos os participantes. Não pode haver erros.

A Ala das Baianas nem se fala. Algumas com mais idade rodando suas lindas e coloridas saias, cheias de orgulho e responsabilidade.

O puxador e seus assistentes têm que cuidar da voz, que durante todo o percurso de apresentação não pode falhar. Têm que estar bem coordenados e afinados assim como Mestre Sala e Porta Bandeira, sempre dando aulas de elegância e competência.

Por último, aqueles incógnitos que dirigem ou empurram os carros alegóricos escondidos da multidão mas com o coração batendo descompassadamente, enquanto a voz ecoa no compasso do samba.

Todos numa comunhão, transparecendo alegria e orgulho de pertencer àquela escola, pela qual entregam seu tempo, seu trabalho, sem exigir nada em troca, a não ser que a escola ganhe o título de campeã. Vocês já tinham pensado nisso?   

A importância do reviver - Ledice Pereira

 

 



                                     A importância do reviver

Ledice Pereira

Ali, o tempo parece não importar. As imagens conversam entre si sem que haja defasagem.

Crianças, velhos, famílias, grupos musicais, tudo junto e misturado numa completa harmonia.

Momentos vividos que não esqueceremos jamais e cujas figuras nos ajudam a relembrar diariamente.

Uma maneira de reviver pedaços da vida. Gosto muito.

Estou falando desse painel fotográfico que se encontra à minha frente e que contém fotos das crianças, dos filhos em várias idades, do meu conjunto musical, de amigos queridos, de uma festa em que dancei ao lado de uma passista de Escola de Samba. Existe coisa melhor?   

A MÁSCARA - A FRUSTRAÇÃO - Antonia Marchesin Gonçalves

 

                           

 


A MÁSCARA

Antonia Marchesin Gonçalves

 

                Gente que sucesso eu estou fazendo!

                Quem está falando, vocês perguntam?

                Sou a máscara. Nunca tive tão em alta.

                Sou de todas as cores e estampas.

                Todos não podem sair de casa sem mim.

                Tem gente que está ganhando me confeccionando.

                Já fui máscara de bandidos, para carnaval e o de

                Veneza então. Muito sofisticado, coisa de luxo mesmo.

                Mas agora estou sendo protetora da saúde das pessoas.

                Minha função é não deixar o bandido do vírus invadir,

                Os corpos humanos viventes na terra.

                Estou orgulhosa da minha missão, viu boca e nariz.








        A FRUSTRAÇÃO

 

 O sentimento que gera uma grande frustração é você fazer de tudo para

 seu ente querido, quando se descobre que esta com Alzheimer. Por doze anos cuidei de minha mãe e assisti a degradação física e mental dela.  Sentia angustia com o coração apertado, sentia a minha impotência perante tal doença.  O maior sentimento foi quando ao falecer foi a de missão cumprida, me dando paz. 


       

 

CARNAVAIS - Sérgio Dalla Vecchia

 



CARNAVAIS

Sérgio Dalla Vecchia

 

Já foram tantos!

Mas o primeiro é inesquecível.

Dias mágicos para ativar os sentidos inocentes das crianças.

Recordo-me perfeitamente da minha estreia em um clube no interior paulista.

Estava eu, molecote, fantasiado com trajes típicos do folião brasileiro; bermudas, camiseta e sandálias. Mamãe eu Quero, foi a música de abertura, na entrada triunfal daquela minha primeira matinê.

O movimento das pessoas, os varais de serpentinas coloridas e os borrifos de confetes, transmitiam o vírus da alegria. Eu estava maravilhado.

Vez ou outra sentia o aroma refrescante do lança perfume, acompanhado de gritinhos da vítima atingida.

Com samba nos pés, atento observava o passar das meninas, fadas, cinderelas, romanas e tantas outras desfilando à minha frente seguindo o ritmo da percussão.

A atmosfera do salão estava ótima, até que do nada, recebi uma golfada de confetes no rosto!

Quando abri os olhos, deparei com uma piratinha de sorriso maroto olhando para trás e dançando à toda energia.

Foi o empurrão providencial que eu carecia para destravar minha coragem!

Destemido corri atrás da agressora. Logo alcancei-a, dei o troco, segurei-a firme pelas mãos e só consegui libertá-la na Quarta Feira de Cinzas.

Ah, que saudades dos puros tempos!

 

 

 

CRÔNICA DA IMPOTÊNCIA DA VIDA DIANTE DA DOENÇA - Antonia Marchesin Gonçalves

 



CRÔNICA DA IMPOTÊNCIA DA VIDA DIANTE DA DOENÇA

Antonia Marchesin Gonçalves

 

 

        No mundo de hoje estamos afinal em 2020, lutando com um vírus criado, em minha opinião, em laboratório, mesmo por descuido, que o extermínio é tão grande, que podemos equiparar a uma terceira guerra mundial. Países do mundo inteiro lutando para encontrar a cura, mas o mais importante é quem será o primeiro descobrir a vacina para tentar imunizar o maior número possível de seres humanos do planeta. Sendo feita ás pressas, vergonhosamente disputadas pelas grandes potências mundiais, ou destruindo as mesmas para surgirem outras mais perigosas, tanto quanto.

        Após o susto inicial atônita assisto o pânico generalizado, a falta de escrúpulos usados pelas disputas políticas, sem que, em nenhum momento pensassem na humanidade, sem dó nem piedade. Quantas doenças até hoje por interesses financeiros de muitos, não foram encontradas as curas, com tanto dinheiro usado nessa disputa. Como por exemplo, HIV, esclerose múltipla, câncer, Alzheimer, etc.. Todas elas, o paciente ou morre ou definha anos a fio. Os familiares impotentes usando todos os recursos, até os que não possuem, se sujeitando ao atendimento num total descaso, ou convênios que se paga por anos e ao precisar de uma opinião mais confiável, paga-se o especialista particular.

        A experiência que tive nesta parte é a mais frustrante, no meu caso, pai morreu de câncer e mãe com Alzheimer vivendo ela por doze anos sofridos, até se tornar um ser vegetativo, ligada em tubos. Diagnosticada com a doença, trouxe minha mãe para minha casa, eu na época com três filhos e marido, além de todo o trabalho que isso acarreta.

Certo dia eu acompanhava meu marido num evento, quando minha filha liga desesperada, estava levando minha mãe ao hospital de emergência, pois ela estava sufocando pelo refluxo do mingau oferecido pela acompanhante.  Chegando à emergência a médica me pergunta se eu queria que ela fosse entubada e que na opinião dela era contra. Espantada perguntei se era para deixar morrer sufocada? Decidi usar todos os recursos. Durante as visitas na UTI, os plantonistas diziam que ela não iria voltar a respirar sozinha mais. Após dois meses saiu do hospital respirando sozinha e andando. Durante os doze anos todos os recursos foram usados, de acompanhantes malucas, até musicoterapia. Até o último ano de vida após onze anos, aí sim ficou dependente de maquinários, ou seja, tubo de alimentação direto no estomago e oxigenação direto na garganta.

        O meu sofrimento como filha do meio, sem parentes no Brasil, foi pesado. Apesar de tudo não me abstive dessa missão. Confesso que foi muitas vezes angustiante ter que tomar sozinha as decisões, mas tenho a alegria da consciência leve e a felicidade de saber que durante esse período, os meus filhos amaram ter a nona deles em casa, apesar de ter mudado toda a rotina, tiveram que deixar de receber amigos à noite, pois se ela acordasse gritaria a noite toda.

Mas agradeço a acompanhante que ficou onze anos e meio conosco, e minha empregada e a faxineira, foram todas, os meus braços direito e esquerdo, tornando minha casa, apesar de tudo, uma família feliz.

               

A polêmica (Conto) - Artur Azevedo



O Romualdo tinha perdido, havia já dois ou três meses, o seu lugar de redator numa folha diária; estava sem ganhar vintém, vivendo sabe Deus com que dificuldades, a maldizer o instante em que, levado por uma quimera da juventude, se lembrara de abraçar uma carreira tão incerta e precária como a do jornalismo.

Felizmente era solteiro, e o dono da "pensão" onde ele morava fornecia-lhe casa e comida a crédito, em atenção aos belos tempos em que nele tivera o mais pontual dos locatários.

Cansado de oferecer em pura perda os seus serviços literários a quanto jornal havia então no Rio de Janeiro, o Romualdo lembrou-se, um dia, de procurar ocupação no comércio, abandonando para sempre as suas veleidades de escritor público, os seus desejos de consideração e renome.

Para isso, foi ter com um negociante rico, por nome Caldas, que tinha sido seu condiscípulo no

Colégio Vitório, a quem jamais ocupara, embora ele o tratasse com muita amizade e o tuteasse, quando raras vezes se encontravam na rua.

O negociante ouviu-o, e disse-lhe:

- Tratarei mais tarde de arranjar um emprego que te sirva; por enquanto preciso da tua pena.

Sim, da tua pena. Apareceste ao pintar! Foste a sopa que me caiu no mel! Quando entraste por aquela porta, estava eu a matutar, sem saber a quem me dirigisse para prestar-me o serviço que te vou pedir. Confesso que não me tinha lembrado de ti... perdoa...

- Estou às tuas ordens.

- Preciso publicar amanhã, impreterivelmente, no Jornal do Comércio, um artigo contra o

Saraiva.

- Que Saraiva?

- O da rua Direita.

- O João Fernandes Saraiva?

- Esse mesmo.

- E queres tu que seja eu quem escreva esse artigo?

- Sim. Ganharás uns cobres que não te farão mal algum.

A essa palavra "cobres", o Romualdo teve um estremeção de alegria; mas caiu em si:

- Desculpa, Caldas; bem sabes que o Saraiva é, como tu, meu amigo... como tu, foi meu companheiro de colégio...

- Quando conheceres a questão que vai ser o assunto desse artigo, não te recusarás a escrevêlo, porque não admito que sejas mais amigo dele do que meu. Demais, nota uma coisa: não quero insultá-lo, não quero dizer nada que o fira na sua honra, quero tratá-lo com luva de pelica.

Sou eu o primeiro a lastimar que uma questão de dinheiro destruísse a nossa velha amizade.

Escreves o artigo?

- Mas...

- Não há mas nem meio mas! O Saraiva nunca saberá que foi escrito por ti.

- Tenho escrúpulos...

- Deixa lá os teus escrúpulos, e ouve de que se trata. Presta-me toda a atenção.

E o Caldas expôs longamente ao Romualdo a queixa que tinha do Saraiva. Tratava-se de uma pequena questão comercial, de um capricho tolo que só poderia irritar, um contra o outro, dois amigos que não conhecessem o que a vida tem de áspero e difícil O artigo seria um desabafo menos do brio que da vaidade, e, escrevendo-o, qualquer pena hábil poderia, efetivamente, evitar uma injúria grave.

O Romualdo, que há muito tempo não pegava numa nota de cinco mil-réis, e apanhara, na véspera, uma descompostura de lavadeira, cedeu, afinal, às tentadoras instâncias do amigo, e no próprio escritório deste redigiu o artigo, que satisfez plenamente.

- Muito bem! - exclamou o Caldas, depois de três leituras consecutivas.

- Se eu soubesse escrever, escreveria isto mesmo! Apanhaste perfeitamente a questão!

E, depois de um passeio â burra, meteu um envelope na mão de Romualdo, dizendo-lhe:

- Aparece-me daqui a dias: vou procurar o emprego que desejas. - A época é difícil, mas há de se arranjar.

O Romualdo saiu, e, ao dobrar a primeira esquina, abriu sofregamente o envelope: havia dentro uma nota de cem mil-réis! Exultou! Parecia-lhe ter tirado a sorte grande!

Na manhã seguinte, o ex-jornalista pediu ao dono da "pensão" que lhe emprestasse o Jornal do

Comércio, e viu a sua prosa "Eu e o sr. João Fernandes Saraiva" assinada pelo Caldas; sentiu alguma coisa que se assemelhava ao remorso, o mal-estar que acomete o espírito e se reflete no corpo do homem todas as vezes que este pratica um ato inconfessável, e aquilo era uma quase traição. Entretanto almoçou com apetite.

À sobremesa entrou na sala de jantar um menino, que lhe trazia uma carta em cujo sobrescrito se lia a palavra "urgente".

Ele abriu-a e leu:

"Romualdo. - Preciso falar-lhe com a maior urgência. Peço-lhe que dê um pulo ao nosso escritório hoje mesmo, logo que possa. Recado do - João Fernandes Saraiva."

Este bilhete inquietou o ex-jornalista.

Com certeza, pensou ele, o Saraiva soube que fui eu o autor do artigo! Naturalmente alguém me viu entrar em casa do Caldas, demorar-me no escritório... desconfiou da coisa e foi dizer-lhe...

Mas para que me chamará ele?

O seu desejo era não acudir ao chamado; alegar que estava doente, ou não alegar coisa alguma, e lá não ir; mas o menino de pé, junto à mesa do almoço, esperava a resposta... Era impossível fugir!

- Diga ao seu patrão que daqui a pouco lá estarei.

O menino foi-se.

O Romualdo acabou a sobremesa, tomou o café, saiu, e dirigiu-se ao escritório do Saraiva, receoso de que este o recebesse com duas pedras na mão.

Foi o contrário. O amigo recebeu-o de braços abertos, dizendo-lhe:

- Obrigado por teres vindo! Estava com medo de que o pequeno não te encontrasse! Vem cá!

E levou-o para um compartimento reservado.

- Leste o jornal do Comércio de hoje?

- Não - mentiu prontamente o Romualdo. - Raramente leio o Jornal do Comércio.

- Aqui o tens; vê que descompostura me passou o Caldas!

O Romualdo fingiu que leu.

- Isso que aí está é uma borracheira, mas não é escrito por ele! - bradou o Saraiva. - Aquilo é uma besta que não sabe pegar na pena senão para assinar o nome!

- O artigo não está mau... Tem até estilo...

- Preciso responder!

- Eu, no teu caso, não respondia...

- Assim não penso. Preciso responder amanhã mesmo no próprio Jornal ao Comércio e, se te chamei, foi para pedir-te que escrevas a resposta.

- Eu?...

- Tu, sim! Eu podia escrever mas... que queres?... Estou fora de mim!...

- Bem sabes - gaguejou o Romualdo - que sou amigo do Caldas. Não me fica bem...

- Não te fica bem, por quê? Ele com certeza não é mais teu amigo que eu! Depois, não é intenção minha injuriá-lo; quero apenas dar-lhe o troco!

No íntimo o Romualdo estava satisfeito, por ver naquele segundo artigo um meio de atenuar, ou, se quiserem, de equilibrar o seu remorso.

Ainda mastigou umas escusas, mas o outro insistiu:

- Por amor de Deus não te recuses a este obséquio tão natural num homem que vive da pena!

Tu estás desempregado, precisas ganhar alguma coisa...

O Romualdo cedeu a este último argumento, e, depois de convenientemente instruído pelo

Saraiva sobre a resposta que devia dar, pegou na pena e escreveu ali mesmo o artigo.

Reproduziu-se então a cena da véspera, com mudança apenas de um personagem. O Saraiva, depois de ler e reler o artigo, exclamou: - Bravo! Não podia sair melhor! - e, tirando da algibeira um maço de dinheiro, escolheu uma nota de duzentos mil-réis e entregou-a ao prosador.

- Oh! Isto é muito, Saraiva!

- Qual muito! Estás a tocar leques por bandurra: é justo que te pague bem!

- Obrigado, mas olha: recomendo-te que mandes copiar o artigo, porque no jornal pode haver alguém que conheça a minha letra.

- Copiá-lo-ei eu mesmo.

- Adeus.

- Adeus. Se o Caldas treplicar, aparece-me!

- Está dito.

No dia seguinte, o Caldas entrou muito cedo no quarto do Romualdo, com o jornal do Comércio na mão.

- O bruto replicou! Vais escrever-me a tréplica!

E batendo com as costas da mão no jornal:

- Isto não é dele... Aquilo é incapaz de traçar duas linhas sem quatro asneiras... mas ainda assim, quem escreveu por ele está longe deter o teu estilo, a tua graça... Anda! Escreve!...

E o Romualdo escreveu...

Durante um mês teve ele a habilidade de alimentar a polêmica, provocando a réplica, para que não estancasse tão cedo a fonte de receita que encontrara. Para isso fazia insinuações vagas, mas pérfidas, e depois, em conversa ora com um ora com outro, era o primeiro a aconselhar a retaliação e o esforço.

Tanto o Caldas como o Saraiva se mostraram cada vez mais generosos, e o Romualdo nunca em dias de sua vida se viu com tanto dinheiro. Ambos os contendores lhe diziam: - Escreve!

Escreve! Eu quero ser o último!

Por fim, vendo que a questão se eternizava, e de um momento para o outro a sua duplicidade podia ser descoberta, o Romualdo foi gradualmente adoçando o tom dos artigos, fazendo, por sua própria conta, concessões recíprocas, lembrando a velha amizade, e com tanto engenho se houve, que os dois contendores se reconciliaram, acabando amigos e arrependidos de terem dito um ao outro coisas desagradáveis em letra de forma.

E o público admirou essa polêmica, em que dois homens discutiam com estilos tão semelhantes que o próprio estilo pareceu harmonizá-los.

O Caldas cumpriu a sua promessa: o Romualdo pouco depois entrou para o comércio, onde ainda hoje se acha, completamente esquecido do tempo que perdeu no jornalismo