NA CAPELA DO HC - Oswaldo U. Lopes

 


NA CAPELA DO HC

Oswaldo U. Lopes

 

        Quando era residente do HC (Hospital das Clínicas da FMUSP) muitas e muitas vezes subi ao 11º andar para rezar ou pelo menos ficar quieto em silêncio pensando na vida. Naquele tempo a capela era a única construção do 11º andar.

        Acho que não é exagero compará-la ou pensar nela como quem está no Vaticano. Você não entra na Igreja de São Pedro e acha que vai rezar como em qualquer Igreja. No mínimo vai dar de cara com a Pietá de Miguel Ângelo e mesmo tendo-a visto em centenas e milhares de reproduções, vai se emocionar e entender porque ele gravou na tira que atravessa o colo de Maria, o próprio nome:

MICHAEL ANGELUS BONAROTUS FLORENT FACIEBAT

        Ele tinha na época 23 anos e parece que ninguém acreditava que um jovem escultor pudesse fazer aquela extraordinária maravilha, dai que ele resolveu assiná-la.

        Bem voltemos à capela do HC e porque quando você entra nela, lembra-se do Vaticano. Em que outra Igreja de São Paulo se encontram reunidas no mesmo conjunto, obras de Victor Brecheret, Fúlvio Pennacchi e Emiliano Di Cavalcanti?

        Naquele tempo era conhecida como Capela da Esperança ou do Espirito Santo por causa de um vitral colocado em posição superior. Hoje chamam-na Capela de São Camilo, mas isto se deve a presença recente dos Padres Camilianos como guardiães da Capela.

        Nas laterais do altar-mor dois afrescos de Pennacchi impressionam pela qualidade e sutileza da pintura. Pennacchi era conhecido pela perfeição e domínio da técnica do afresco, que aprendera na Itália, seu país de origem. Ele aqui deixou sua marca registrada. Do lado esquerdo a Anunciação à Maria, no lado direito a Ceia de Hemmaus. Difícil descrevê-los, melhor será vê-los. Visite-a quando puder. A mim a figura do anjo na Anunciação e dos discípulos reconhecendo Cristo pela partição do pão são inolvidáveis.

        Brecheret, não sei a razão, colocou seu melhor talento a serviço da Capela. Lá estão um magnifico Cristo Crucificado, um São Paulo heráldico e as deslumbrantes 14 Estações da Via Crúcis. Originalmente em terracota, como eu as vi, hoje, por motivo de conservação, substituídas por cópias de bronze, é nelas que ele expôs todo seu talento e capacidade. Os originais estão desde 1982 guardados no Museu de Arte Sacra.

        A cruz que aparece e domina o conjunto da Via Sacra é representada em 12 das 14 estações. Brecheret usou um simples T para representá-la, o mesmo T que usou na cruz do Cristo que é o centro do altar mor, mas o uso que fez dessa cruz é notável. As figuras que compõe as estações, todas simplificadas, mas perfeitamente reconhecíveis formam um conjunto único digno de Michelangelo que mencionamos lá atrás.

        Alguns, mais afoitos, pensarão que falta a 15ª Estação, a da Ressureição. A criação desta, no entanto, foi sugerida pelo Papa João Paulo II, durante seu pontificado (1978-2005). No entanto, na época em que Brecheret fez o conjunto tinha por volta de 20 anos e provavelmente não tinha ideia de que seria Papa e de sua importância na vida da Igreja Católica.

        De Di Cavalcanti são os desenhos que deram origem a vários vitrais, alguns repetidos, que ajudam a iluminar a Capela. Lá estão os lírios e palmas cercando um anjo, Quatro desenhos representando os Evangelistas:  um touro para Lucas, uma águia para João, um anjo para Mateus e um leão para Marcos. Há também uma figura central, a pomba branca que representa o Espirito Santo.

        Confesso que às vezes contemplava a pomba branca pensando na piada que um frade franciscano me contara:

        Havia muito tempo, viviam dois papagaios nos jardins do cura local (Espanha, por certo). Um muito religioso e o outro muito desbocado. Por coincidência morreram com pouca diferença de tempo. O boquirroto foi direto para o inferno, mas ficou muito surpreso de lá encontrar o beato e perguntou-lhe:

- Hombre que passo?

- Bueno Yo estava volando para el cielo quando vi una mui linda palomita e la salude – Guapa

- Que mal habia?

- Resulta que era el Espirito Santo.

        Pois é amigo, nem todas as vezes que vamos a capela, rezamos fervorosamente, ocasiões há em que divagamos, como humanos que somos, perdidos em bobagens e histórias que nos acodem a memória enquanto tentamos entender os desígnios do dono da Capela.

        Por fim, e meio repetidamente, volto a minha sugestão, se puder visite a capela, mesmo se não for crente, nem for para rezar, terá a oportunidade de contemplar alguns exemplares da melhor arte religiosa que o Brasil já produziu.

 

A fuga de Jorge Fonseca - IGUAÇU - PERTO DE MANAUS - Oswaldo U, Lopes

 




A fuga de Jorge Fonseca 

Oswaldo U, Lopes

IGUAÇU -  PERTO DE MANAUS


        A história é simples, o lugar também, Iguaçu, norte de Manaus. Jorge Fonseca estava lá, fugindo. Fugindo da chuva, do mau tempo e, sobretudo, de Hilário Prugis. O milionário criador de gado, mas também, o queimador de florestas, responsável pela metade das queimadas na região amazônica.

        Jorge descrevera, sem meios termos nem meias palavras, a vida e os “feitos” do novo herói da mata destruída no jornal de Manaus. A perseguição se tornara inevitável. Hilário tinha dinheiro à vontade e também vontade de matar desafetos.

        O jeito fora escapar e isso era o que Jorge fazia em Iguaçu. Ou melhor, tentava fazer naquele minúsculo e vagabundo hotel de Iguaçu.

        Tentava porque com uma rajada a janela se abriu e a ultima coisa que ele viu foi o brilho da carabina. 

Laço - Sérgio Dalla Vecchia

 





Laço

Sérgio Dalla Vecchia

 

 

Laço abraça coração

da moça ao passar

fixado na ondulação

difícil de se escapar.

 

Na menina mimosa

mãos com delicadeza

fazem laço orgulhosas

em fita da princesa.

 

Mimo se faz atraente

com laço em viva cor

sempre é convincente

para o ensejo do amor.

 

Trouxe o desgarrado

de volta aos seus,

em família laçado

agradeceu à Deus.

PANDEMIA - Mario Augusto Machado Pinto

 




PANDEMIA

Mario Augusto Machado Pinto

 

 

Ai, isso é que é. Às vezes acontecem coisas boas: hoje tem sido delas: ditos, palavras, conversa, risadinhas e gestos, carinho e carícia, o enrosco... Dormi. Acordei de par de colherinha. Gostei. Há quanto tempo! Deu vontade de cantar. Abri a janela e soltei aquela:

...“GOSTO QUE ME ENROSCO DE OUVIR DIZER....”, o que me lembrou do compromisso assumido (arre!!!): hoje, pelo meu amor devo fazer de conta que recomeço  ginasticar  andando oito quilômetros nem  que leve o dia inteiro ou que faça  a Mimoza mugir. É isso que pode dar depois de tudo e dizem que a mulher é a parte mais fraca. Pois sim! Elas têm a chave e o segredo do cofrinho e é aí que o

 ...”HOMEM COM SUA FORTALEZA DESCE DA NOBREZA E FAZ O QUE ELA QUER, turum, tururum, tun, tun!”.

É, faz e faz gostando, verdade; aceitem ou não, essa é a realidade.

Mas, afinal o que me leva chegar a tudo isso? O sorrateiro rei com reinado e com coroa, com rainha e castelo vermelho híbrido, não percebe? É a quarentena prometendo que fará visita rápida, fugidia qual enguia fresca. Pelo parecer médico é cordão elástico colado ao pescoço de cada um;  TV, livros, jornais e tanta coisa mais durante tanto tempo que a cachola, verdadeira roda gigante, fica girando de endoidar; a fala limitada à clemência do celfone é cerebrina ou fantasiosa brigando entre si pra ver quem ganha a tal

...TAUBA DO TIRO AO ÁLVARO...”.

 

Ovo fritado, fatias de pão torradas ao ponto, geleia de mirtilo, suco, café quentíssimo; tomados e comidos, vou andar os oito quilômetros.

 

O povaréu está o mesmo; bem, nem tanto, está um pouco mais magrinho; mais uma vez continua olhando torto minha invasão do areal com matinho e sujeira pra chegar à praia. Paro um pouco pra regular o respiro. Busco conhecidos: lá está o Mané esquentando o óleo pra fritar camarão, o Tatuzinho com seu “pau de sebo” pra criançada, o pipoqueiro (novo no pedaço; o cara é biruta: pipoca às dez da uma manhã nebulosa?), a “Kiboa” unindo os olhares rolando pros lados seu bumbum olímpico: ninguém assovia, há respeito se não já viu, né? Ouve o que não quer, tudo que as senhoras dizem que deixa vermelha a casca dos tomates; o cara da padaria jogando sinuca enquanto aguarda a freguesia; o Waltinho, coitado, “noiva” da garotada gozadora. Há outros que estão chegando. Basta. Não vou citar: não sou funcionário do IBGE.

 

Chegando à areia da praia, branca perolada, lanço meu duplo olhar: um, periscópico, até onde consigo ver; o outro, verdadeira roleta separa as moçoilas ansiando pela oportunidade de jogar a bolinha e obter o 7 preto. Porque o 7 preto? Não sou arco-íris, sempre arcado. Estou mudando. Vale? Não sei. Acho que poderá ser meu número de sorte.

 

Andando devagar percorrendo a areia úmida, compacta, dura, não perco detalhe. Levo bruta susto: alguém deu um tapinha no meu ombro direito: viro-me e dou de cara com o Sergei (ele corrigia a pronúncia pra Serguei até ouvir a estória do Sir Ney). Coincidência? Não sei, mas tinha tudo que ver uma coisa com a outra. A gente passou a respeitar e usa a pronuncia que ele quer. Acho que ele se sente importante na sua maluquice. Bem, não vamos exagerar, mas o cara é diferente e bota diferente nisso: começa que ninguém sabe ao certo do que ele vive ou, melhor, como paga suas despesas e as do casarão em que mora. Tá certo, dá umas palestras que trazem carros chiques e madames perfumadas e cantoria de fora. Diz que ensinava tecnociência; agora é biociência, sei lá o que isso possa ser, mas diz que tudo gira ao redor do corpo humano de outro jeito, maneira mais sofisticada. Pra mim é conversa mole pra ricaço encher o tempo. É bom esclarecer que já sumiu. Dado como morto por um ano reapareceu pra expulsar maloqueiros que ocupavam seu casarão.

 

Fuçador, meche com tudo, principalmente com coisas exóticas, bem diferentes. Por delicadeza pergunto o que está fazendo. Diz que escreve um dicionário de palavras com grafia igual, idiomas e significados diferentes; muitas vezes igual.

 

Como assim? Digo. Dá exemplos.

 

Grave (português), grave (sepultura em inglês);

cancelar - cancelar (pagar espanhol);

oásis, igual em port. e inglês;

ocular, original, organza (idem em Ingl).;

caro (port), caro (querido (ital.);

eleve (port) élève (aluno (Fr.):  

chatô (casa gíria favela port) chateaux (Fr.).

 

Olha, fica com este caderno: há milhares de palavras. Pode ficar, insisto; tenho cópia. Vai, fica. Deixa-me ir. Vou pesquisar mergulhando no mar. Óia, uma última coisa: Você sabia que o pescador quando sai pra pesca – a bem dizer – vai trabalhar? Pois é. Precisa dar valor. Agora, estou intrigado é com o que estão cantando. Pergunto: o quê?  Responde cantando:

 

......É DOCE MORRER NO MAR, NAS ONDAS VERDES DO MAR....

 

Pergunto: o quê lhe preocupa?

Responde: Como é que ele sabe?

 

Sergei nunca mais foi visto.



As cores do meu caminho - Antonia Marchesin Gonçalves

 

            






As cores do meu caminho

Antonia Marchesin Gonçalves

 

 

             A maioria das pessoas ao nascer quase não têm cabelos. Algumas exceções mais cabeludinhos que se percebe se serão loiros ou morenos. Segundo a minha mãe nasci com leve penugem loira. Fui uma criança loira, mas à medida que cresci fui ficando com o cabelo mais escuro me tornando uma adolescente com cabelo castanho bem escuro. Toda adolescente tenta mudanças, e foi aí com meus quinze mais ou menos, que comecei a pintar o cabelo. Por ter os olhos azuis e querendo imitar a grande atriz Elizabeth Taylor, pintei-os de preto azulado durante um período, depois os cortei bem curtos era a moda dos anos sessenta.

             Assim me inspirando nas minhas estrelas preferidas, que ditavam a moda da época, fui sofrendo transformações, algumas me favoreciam mais ou menos. Adulta, usei durante um longo período cabelos longos mechados, isso quer dizer a maioria dos fios na cor natural, castanho escuro, com mechas loiras. Sendo mãe, me favorecia muito, de pessoas me pararem na rua para saber o nome do corte e o endereço do salão que frequentava. Por sinal muito competente ainda o frequento até hoje, nenhuma outra profissional mexe no meu cabelo.

             Novas fases de vida a única coisa que sempre diversifiquei foi o cabelo, plástica nem pensar, usei durante anos também loiro total, até que do loiro total resolvi ser ruiva. Uma mudança radical, principalmente no inicio fica difícil a mudança, você fica com a cor de cenoura ou popularmente chamavam água de salsicha. Minha mãe na época que virei ruiva, não aceitava, tinha a crença antiga de que pessoa de cabelo vermelho era ruim. Sem comentários, me divertia. Entrei na idade da famosa balzaquiana ruiva. A terceira idade veio, usei nessa época vários tons de ruivos, do vermelho intenso, até o bronze dourado, incorporou de tal forma no meu visual, que me perguntavam se era a minha cor natural.

             Ainda me encontro na famosa terceira idade e a pandemia me fez reclusa sem poder pintar o cabelo. Isso fez tornar realidade um desejo grande de deixar ao natural o meu cabelo, ou seja, assumir o grisalho mais branco que preto. Novamente protestos de marido, filhos e amigas. Na primeira ida ao salão radicalizei, cortei e não pintei. Para variar a minha amiga profissional fez um excelente trabalho. Estou adorando o meu branco como um grito de liberdade, os familiares ainda estão se acostumando, a maioria gostou.

             Quando voltar às minhas atividades sociais, saberei o resultado. Lógico uns acharão que fiquei mais velha, outros provavelmente vão gostar, não importa, por enquanto estou feliz. Vou continuar assim? O futuro dirá.

            

            

 

      

 

Herança secreta - Ledice Pereira

 

Jornal Somos - Deputado Estadual faz proposta de “bolsa arma” para ...


Herança secreta

Ledice Pereira




Jurandir vivia um casamento conturbado, cheio de desconfiança. Tinha medo de que Jussara, ao saber da fortuna que ele havia herdado, começasse a exigir sua parte, pois afinal eram casados com comunhão de bens.

A obsessão tomava conta do rapaz, que tentava esconder de todos o quanto havia ficado rico. Abrira conta num banco da cidade vizinha, só para não haver possibilidade de que alguém desse com a língua nos dentes, revelando a enorme quantia em dinheiro, que havia aplicado.

Passou a viver na mentira, caindo em contradição várias vezes, fazendo com que Jussara desconfiasse de que alguma coisa estava acontecendo.

A moça, achando que havia algum rabo de saia, arrastando o rapaz para a outra cidade a toda hora, resolveu segui-lo.  

Arrumou uma arma emprestada e esperou até que ele saísse sem imaginar que corria perigo.

Ao vê-lo dirigir-se para a gerente do Banco, uma jovem bonita e elegante, não teve mais dúvida, atirou nos dois que caíram ali mesmo para espanto de todos. Chamado o resgate, constataram que a moça havia sido baleada de raspão na perna, mas o rapaz corria risco de morrer pois a bala alojara-se perto do coração.

Jussara foi levada para a delegacia, por ter sido responsável por tamanha tragédia. Amargou alguns anos na prisão pelo crime de tentativa de duplo homicídio

Jurandir, após recuperar-se tentou, em vão, diminuir a pena da mulher, oferecendo dinheiro para pagar fiança, mas ela teve que cumprir quase toda a pena, que acabou sendo abrandada por bom comportamento. Acabou sabendo da verdadeira razão do marido, vira e mexe, dirigir-se à cidade vizinha e, ao ser libertada, entrou imediatamente com um pedido de divórcio, exigindo metade do valor aplicado por Jurandir.

Se não existia confiança, não poderia haver mais casamento.



(Texto criado com algumas palavras sugeridas na Maratona Literária 2020)

LAMPEJOS DE AMOR - Sérgio Dalla Vecchia

 


→ Significado do Nome Maria - Origens, Características e Muito Mais

LAMPEJOS DE AMOR

Sérgio Dalla Vecchia


 

Amor primeiro,

Inocente como eu,

puro como ela

Maria do pomar.

 

Chama adolescente,

na força da preamar,

com paixão eloquente,

abrolhou Maria do mar.

 

Da franja dourada,

sorrisos gírios

da prosa corada,

Maria dos lírios.

 

Nos versos salientes,

olhos a expectar,

versos em luar ausente,

Maria à rezar.

 

Maria verdadeira,    

com abraço marcante,

selou com beijo velado ,

aquele amor itinerante.

 

Momentos corteses,

com Maria da nobreza.

Terminaram em meses

em frase sem sutileza.

Textos diversos - Maratona Literária 2020 - Ledice Pereira

 


Janela Vista Árvore - Foto gratuita no Pixabay


Textos diversos - Maratona Literária 2020

Ledice Pereira



Primeiro texto

 

Ao abrir a janela, encantei-me com a paisagem. O batente emoldurava qual um quadro. O verde da folhagem me encheu de esperança. Eu que chegara ali tão deprimida.

Fora Jerônimo quem me aconselhara a sair daquele burburinho da cidade grande.

Ele tinha toda a razão. Aqui encontrei a paz de que tanto precisava.

 

Segundo texto

Estava prestes a deixar o lugar onde vivera até então. Sentia a perna bambear, mas tinha que partir. O trem acabara de chegar. Tinha exatos cinco minutos para mudar o percurso de sua vida e buscar a felicidade.

Não tivera coragem de se despedir dos pais. Deixara apenas um bilhete: “amo vocês, mas vou ao encontro do meu futuro. Preciso me encontrar. Já é tempo de andar com as minhas próprias pernas. Torçam por mim! Clovis”

 

Terceiro texto – LAÇO

Eu jamais tive a intenção de quebrar aquele laço que nos unia desde a infância.

Nossos pais eram amigos e nós fomos criadas praticamente juntas. Mas Solange mudou. Ficou tão diferente que eu já não enxergava nela a amiga que fora. Tornou-se uma jovem preconceituosa, menosprezava os serviçais, maltratava os animais, procurava me humilhar, fazendo com que eu chorasse escondida.

Ela sabia do meu interesse por Claudio, até que o conquistou.

Eu só soube quando ela veio com ele trazer o convite de casamento. Ele parecia estar pouco à vontade.

Não tive forças para ir ao casamento. Arranjei como pretexto, uma gripe oportuna.

E, desde então, nosso laço se rompeu definitivamente.


Quarto texto

Tudo acontecia lentamente. Olhares breves, acenos curtos e o sol se deixando levar para trás da colina. Tudo devagar como tem que ser numa despedida.

As lágrimas rolavam sem que eu conseguisse estancá-las. Sentia-me como se arrancassem um pedaço de mim.

Ele estava indo estudar fora. Preparara-se para isso. Estudara muito. Conseguira seu objetivo. Fora aprovado no exame de admissão com louvor.

Mas e eu? O que seria de mim? Conseguiria resistir à distância que nos manteria longe durante todos aqueles anos em que ele cursaria a Universidade?

Eu temia que lá ele encontrasse alguém que me substituísse.

Eu teria que ser muito forte.

 

Quinto texto

Como acreditar num homem como ele? Saía pela tangente, tinha um olhar dissimulado que nunca fixava na gente. Não revelava o que fazia nem onde morava. Trazia a carteira sempre gorda que fazia questão de mostrar. Cobria-se de grossas correntes douradas que eu não sabia dizer se eram ou não de ouro.

Seu olhar cafajeste quase me despia, olhando-me de cima a baixo.

Causava-me medo e asco!

 

Sexto texto

Tico não era homem de muita ação. Tinha dificuldade de raciocinar rapidamente. Quem seria Fran?

Resolveu buscar ajuda no povoado. Dirigiu-se ao bar de Armando e o chamou de lado, mostrando-lhe o que achara.

Armando pensava rápido. Precisavam agir imediatamente. Era amigo do delegado. Ligou para a delegacia e detalhou o que haviam encontrado.

De posse do mapa, o delegado recrutou dois policiais para chegarem ao local no barco de Tico, que se ofereceu para levá-los. Foram recebidos a bala. Tiveram que enfrentar a fúria de dois marmanjos, até que a munição dos dois acabou.

Os homens, marinheiros de primeira viagem, tiveram que se render e Fran foi libertada do cativeiro, recebendo inúmeros elogios pois graças à sua ousadia e esperteza, teve coragem de mandar numa garrafa o bilhete de socorro, conseguindo não só sua liberdade como também a prisão dos malfeitores.



Paisagem matinal - Sérgio Dalla Vecchia

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Paisagem matinal

Sérgio Dalla Vecchia

 

Algo me despertou daquele sono reparador.

Pensamentos sonolentos não conseguiam ainda identificá-lo, até que  um sutil aroma de relva mostrou-se presente. Pus-me em pé, já não tão sonolento. O olfato era meu guia na busca do agradável perfume.

As venezianas filtravam apenas os raios mais luminosos, para que no chão mostrassem em formação lado a lado, as retilíneas silhuetas simétricas.

Cheguei até a janela e com um leve toque na cremona, abri as asas da borboleta veneziana para uma decolagem rumo ao mundo original.

O espetáculo era do dia, apresentando-se garbosamente à mim, naquela manhã orvalhada na casa de praia.

A brisa sôfrega dominou meus pulmões, enquanto o oxigênio puro me fez sentir mais vivo do que nunca.

A sensação de imortalidade foi adida por uma majestosa árvore grumixama vestida de verde até o rés do chão,  que me acenava com os galhos animados ao sabor do vento.

A imagem natural invadiu meu cérebro e como um recado me induziu a aprender à viver a vida.

Vesti-me rapidamente com roupas de banho e corri para o mar.

Lá chegando já estava eterno!



(Texto criado através da imagem da janela - Maratona Literária 2020)


Oswaldo José - Fernando Braga

 

Mais importante que saber operar é saber quando não operar': as ...


Oswaldo José

Fernando Braga

 

Quarentena há quatro meses e meio! Em casa, lemos, ouvimos boa música, filmes na TV e ouvimos as notícias sobre o Covid 19 e de nossa política instável, sem rumo. Hoje detectamos o segundo lugar no mundo em número de contaminados com este vírus, cerca de 2,5 milhões de casos e mais de 106.000 óbitos pela doença. Já se fala na vacina russa, de Oxford e até de um soro de cavalo, brasileiro.

 

Lembrando-me sempre de dois grandes amigos, o Zé Osvaldo e o Oswaldo José, famosos neurocirurgiões, profissionais éticos, capacitados, acima da média, que trabalharam na mesma universidade federal, onde se formaram. Tiveram uma vida universitária bem ativa, grande produção científica, mãos cirúrgicas de primeira. Com nomes invertidos distinguiam-se em um ponto. O primeiro, era um gozador de primeira, “that liked to tease” em inglês, que não perdia a chance de inventar histórias, que os outros acreditavam, mas que não passavam de um “Primeiro de Abril”. Seus colegas, amigos e mesmo parentes ficavam desconcertados. Embora todos soubessem desta característica, sempre caiam em sua trama. Entretanto, não deixavam de admirá-lo.

 

Oswaldo José, por outro lado, muito sério, detestava gozações e era o tipo certinho, igualmente muito admirado.

Ha cerca de um mês, soubemos que José Osvaldo, mantendo seu trabalho em vários hospitais de São Paulo havia sido internado  com Corona vírus e estava em UTI, entubado e sedado. Isto muito nos entristeceu e ficamos na torcida desejando sua melhora rápida. Entramos em contato com seu filho que diariamente nos fornecia dados médicos, sem que pudéssemos visitá-lo. Eu, certamente não poderia em nenhuma hipótese tentar me aproximar, embora fosse meu desejo.

 

Há cerca de uma semana, tendo tido melhora da pneumonia, sua sedação foi suspensa, mas no dia seguinte, novamente foi entubado, traqueostomia feita devido a uma nova pneumonia por bactéria resistente hospitalar. Seu sistema circulatório, o coração de um idoso já com 80 anos entrou em falência, com a pressão mantida através de noradrenalina. Ontem pela manhã tivemos o comunicado de que sofrera uma falência geral, sobrevindo a morte, já esperada.

 

Realmente, triste a perda deste grande amigo, dedicado neurocirurgião, professor de primeira linha, alegre, brincalhão, espirituoso, que apesar de suas gozações, nunca ofendia alguém. Foi cremado na Vila Alpina, após ter ido diretamente para o cemitério, apenas com alguns familiares presentes. Ontem mesmo no final da tarde, recebi um telefonema de seu grande e inseparável amigo Oswaldo José, que me deu a triste notícia, que já conhecia. Ficamos muito chocados, ele chegou a chorar copiosamente e terminamos combinando jantarmos juntos, tão logo a fase principal da pandemia melhorasse, permitindo encontros presenciais.

 

Foi então que me lembrei, do último caso que me contou, que ficara guardado no baú de suas memórias, onde enfatizou uma grande coincidência ocorrida em sua vida.

 

Disse ele:

— Há uns 15 anos eu e minha esposa fomos a Recife, convidados para sermos padrinhos no casamento do filho do Dr. H.C.A, querido amigo e grande neurocirurgião daquele estado e do nordeste brasileiro. A cerimônia seria no sábado às 19,00 horas. Chegamos na sexta e nos hospedamos no Transamérica Prestige, bem próximo da orla na praia de Boa Viagem.

 

No sábado, tomamos um excelente desjejum e vestidos com trajes apropriados, fomos caminhar em direção à praia, apreciando o movimento e as variadas lojinhas que se encontravam no caminho. Ao passarmos por uma pequena loja de roupas infantis, minha esposa parou e mostrou-me uma roupinha de bebê muito graciosa. Uma senhora, lá dentro sentada, se aproximou e pediu que entrássemos, pois tinha muitas novidades.

 

Como neurocirurgião, logo observei que a senhora, enquanto mostrava sua coleção, apresentava uma pequena cicatriz no meio da testa e uma depressão na região temporal esquerda, o que era bem sugestivo de que havia sido operada de um aneurisma intracraniano. Perguntei a ela, mais por curiosidade, se havia sido operada de aneurisma cerebral, o que ela confirmou dizendo que havia sido operada por um grande neurocirurgião recifense, citando em seguida o seu nome: Prof. H.C.A.

 

Disse a ela que éramos de São Paulo e que estávamos em Recife para sermos um dos padrinhos no casamento de seu filho naquele sábado. Passamos a desenvolver um bom papo, onde ela não parava de elogiar o referido neurocirurgião. Também o elogiei muito!

 

Nisto ela disse: — Vocês disseram que são de São Paulo, pois há seis anos levei minha mãe para São Paulo, onde foi operada de uma placa grande na carótida, bem aqui no pescoço. Fomos a um neurocirurgião indicado pelo Dr.H.C.A.  que a operou. Vocês já ouviram falar de um tal de Dr. Oswaldo José?

 

— É claro que ouvimos e mais, a senhora se encontra bem na frente dele!!

 

— Meus Deus, não me diga que o sr. é o Dr. Oswaldo!!!

 

— Certamente que sim, e veja que bela e grande coincidência.

 

— Doutor, vou ligar já para minha mãe e dizer que o senhor está aqui na minha frente. Adorou o senhor e disse que foi muito bem tratada. Vai ficar muito feliz em conversar com o senhor! Ela está ótima e nunca mais teve aqueles problemas de enfraquecer subitamente o braço direito e atrapalhar sua fala!

 

Depois de uma conversa de 10 minutos com sua mãe, agradecemos e saímos, após termos adquirido a bela roupinha que minha mulher escolhera e ainda outra, que a senhora nos presenteou.

 

O restante deste dia foi excelente, como esperávamos. Muita alegria. Casamento animado, noiva linda, ambiente de primeira, com muita alegria. Ainda no domingo, permanecemos em Recife, almoçamos no belo apartamento de nosso anfitrião.

Realmente inesquecível!!

É de confundir - Auguste Villiers de L'Isle-Adam

O conto É DE CONFUNDIR, foi um ótima contribuição da Ises.

Esse conto faz parte do livro Contos Fantásticos do Século XIX, escolhidos por Ítalo Calvino.


Auguste Villiers de L'Isle-Adam – Wikipédia, a enciclopédia livre

O autor Auguste Villiers de L'Isle-Adam, tem uma série de contos cruéis que encostam n gênero terror.
Neste, propriamente dito - É DE CONFUNDIR - ele adota o efeito da REPETIÇÃO para realçar as cenas inquietantes. 

Gostaria que lessem atentando para as cenas orgânicas, cenário dinâmico, sinestesia, e outras ferramentas que o autor esparrama pelo texto.
Percebam como ele emprega a metáfora causando o efeito visual no leitor.

Ela já entra em ação na primeira linha, aciona o personagem narrador colocando-o em movimento, descendo apressado pela beira do rio.

"ideias pálidas e brumosas "
"o vento fustigava os chapéus"
E MUITOS OUTROS dispositivos que tornam a leitura extremamente prazerosa.

Um conto fantástico pelo gênero, e pela qualidade. 


Obrigada, Ises, eu não conhecia.


É de confundir
Auguste Villiers de L'Isle-Adam
⠀⠀⠀⠀⠀Numa cinza manhã de novembro, eu ia descendo pela beira do rio em passo apressado. Uma garoa fria molhava o ar. Passantes negros, abrigados em guarda-chuvas disformes, se entrecruzavam. O Sena amarelado carregava seus barcos de mercadorias parecidos com besouros. Nas pontes, o vento fustigava bruscamente os chapéus, cujos donos lutavam com o espaço para salvá-los, fazendo aqueles gestos e contorções sempre tão penosos para o artista. 
⠀⠀⠀⠀⠀Minhas ideias eram pálidas e brumosas; a preocupação de um encontro de negócios, aceito na véspera, atazanava minha imaginação. O tempo era curto: resolvi me abrigar debaixo da marquise de um portão, de onde seria mais cômodo fazer sinal para um fiacre. 
⠀⠀⠀⠀⠀Na mesma hora notei, bem ao meu lado, a entrada de um prédio quadrado, de aparência burguesa. 
⠀⠀⠀⠀⠀Ele tinha se erguido na bruma como uma aparição de pedra, e, apesar da rigidez de sua arquitetura, apesar do vapor sinistro que o envolvia, percebi de imediato um certo ar de hospitalidade que serenou meu espírito. 
⠀⠀⠀⠀⠀"Sem a menor dúvida", pensei, "as pessoas que moram aqui são gente sedentária! Essa soleira é um convite a parar! A porta não está aberta?"
⠀⠀⠀⠀⠀Então, com a maior polidez do mundo, satisfeito, chapéu na mão — até mesmo meditando em um madrigal para a dona da casa —, entrei, sorridente, e logo me deparei, no mesmo nível, com uma espécie de sala de teto envidraçado, de onde caía a luz do dia, lívida. 
⠀⠀⠀⠀⠀Nas colunas estavam pendurados roupas, cachecóis, chapéus.
⠀⠀⠀⠀⠀Mesas de mármore estavam instaladas em todos os cantos. 
⠀⠀⠀⠀⠀Vários indivíduos, de pernas esticadas, cabeça levantada, olhos fixos, jeito confiante, pareciam meditar. 
⠀⠀⠀⠀⠀E os olhares eram sem pensamentos, os rostos eram da cor do tempo. 
⠀⠀⠀⠀⠀Havia pastas abertas, papéis desdobrados perto de cada um deles. 
⠀⠀⠀⠀⠀E então percebi que a dona da casa, com a cortesia acolhedora com que eu estava contando, era ninguém menos do que a Morte. 
⠀⠀⠀⠀⠀Olhei para meus anfitriões. 
⠀⠀⠀⠀⠀Decerto, para escapar dos aborrecimentos da vida azucrinante, a maioria dos que ocupavam a sala tinha assassinado seus corpos, esperando, assim, um pouco mais de bem-estar. 
⠀⠀⠀⠀⠀Quando estava ouvindo o barulho das torneiras de cobre presas no muro e destinadas a regar diariamente aqueles restos mortais, escutei o ruído surdo de um fiacre. Ele parou defronte do estabelecimento. Fiz a reflexão de que meus homens de negócios estavam esperando. Virei-me para aproveitar a boa fortuna. 
⠀⠀⠀⠀⠀De fato, o fiacre acabava de vomitar, na soleira do prédio, colegiais de pileque, que precisavam ver a Morte para acreditar nela. 
⠀⠀⠀⠀⠀Olhei para o fiacre vazio e disse ao cocheiro: 
⠀⠀⠀⠀⠀"Passage de l'Opéra!"
⠀⠀⠀⠀⠀Um pouco depois, nos bulevares, achei o tempo mais encoberto, sem nenhum horizonte. Os arbustos, vegetações esqueléticas, pareciam indicar vagamente, com a ponta dos galhos negros, alguns pedestres aos policiais ainda sonolentos. 
⠀⠀⠀⠀⠀O carro ia apressado. 
⠀⠀⠀⠀⠀Pela vidraça, os passantes me davam a impressão de água correndo.
⠀⠀⠀⠀⠀Chegando ao meu destino, pulei para a calçada e peguei a passagem, repleta de rostos preocupados. 
⠀⠀⠀⠀⠀No final do corredor, bem na minha frente, reparei na entrada de um café — desde então consumido por um famoso incêndio (pois a vida é um sonho) —, relegado ao fundo de uma espécie de galpão, debaixo de uma arcada quadrada, de sinistra aparência. Os pingos de chuva que caíam no vidro de cima escureciam mais ainda a pálida claridade do sol. 
⠀⠀⠀⠀⠀"É aqui", pensei, "que me esperam os meus homens de negócios, de copo na mão, olhos brilhantes e desafiando o Destino!"
⠀⠀⠀⠀⠀Então, virei a maçaneta da porta e me deparei, no mesmo nível, com uma sala onde a claridade do dia caía do alto, lívida, pela vidraça. 
⠀⠀⠀⠀⠀Em colunas havia roupas, cachecóis, chapéus pendurados. 
⠀⠀⠀⠀⠀Mesas de mármore estavam instaladas em todos os cantos.
⠀⠀⠀⠀⠀Vários indivíduos, de pernas esticadas, cabeça levantada, olhos fixos, jeito confiante, pareciam meditar. 
⠀⠀⠀⠀⠀E os rostos eram da cor do tempo, os olhares eram sem pensamentos. 
⠀⠀⠀⠀⠀Havia pastas abertas, papéis desdobrados perto de cada um deles. 
⠀⠀⠀⠀⠀Olhei para esses homens. 
⠀⠀⠀⠀⠀Decerto, para escapar das obsessões da insuportável consciência, a maioria dos que ocupavam a sala tinha, muito tempo antes, assassinado suas "almas", esperando assim um pouco mais de bem-estar. 
⠀⠀⠀⠀⠀Quando estava ouvindo o barulho das torneiras de cobre presas no muro e destinadas a regar diariamente aqueles restos mortais, a lembrança do ruído surdo do carro voltou ao meu espírito. 
⠀⠀⠀⠀⠀"Com toda a certeza", pensei, "aquele cocheiro deve ter sido atacado, no correr do tempo, por uma espécie de estupor, pois simplesmente me trouxe, depois de tantas circunvoluções, ao nosso ponto de partida! Todavia, confesso (caso haja um equívoco), O SEGUNDO OLHAR É MAIS SINISTRO QUE O PRIMEIRO!..."
⠀⠀⠀⠀⠀Então, em silêncio fechei a porta envidraçada e voltei para casa, firmemente decidido — desconsiderando o exemplo e pouco me importando com o que pudesse me acontecer — a nunca mais fazer negócios. 

 
Tradução de Rosa Freire D'Aguiar