Encontro do dia seguinte - SÉRGIO DALLA VECCHIA

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Encontro do dia seguinte
SÉRGIO DALLA VECCHIA

A campainha tocou cedo na casa de Heitor. Ele relutou na cama. A noite parecia não ter acabado. Sonolento conseguiu levantar-se e dirigiu-se ao banheiro. Um grande espelho refletia a imagem de um rosto amassado, cabelos despenteados e barba por fazer.

— Deus, como estou mal! – Murmurou ele.

Aos poucos foi acordando e a lembrança da festa do dia anterior surgiu instantaneamente em sua mente. Havia uma linda mulher, que com o corpo e rostos colados nele dançava compenetrada, enquanto com uma das mãos o acariciava na nuca.

— Será? - Pensou ele.

A retrospectiva do ocorrido foi-se explicitando e fatos novos surgiram.

Alice, com quem dançara a festa toda tinha um irmão chamado Osmar, que ocupava outra mesa com a namorada e mais um casal de amigos. O garçom entregou-lhe a conta, mas ele havia esquecido a carteira.

Constrangido, enquanto o garçom aguardava o pagamento, Osmar veio até a mesa de Heitor pedir ajuda, que prontamente quitou a conta. O irmão agradecido o abraçou e prometeu devolver o dinheiro na primeira hora do dia seguinte.

—Sim, deve ser Osmar, mas que pontualidade absurda a essa hora da manhã! - Resmungou Heitor.

Foi em direção a porta e abriu-a rapidamente. Qual foi sua surpresa, era Alice, linda, perfumada mostrando um generoso sorriso!

Com o coração disparado Heitor foi dizendo:

—Que surpresa mais agradável, mas o que a trouxe aqui?

—Vim devolver o dinheiro.

—Alice, você não precisava se incomodar, afinal quem prometeu vir foi o Osmar, não é justo! –Retrucou Heitor.

—Sei perfeitamente disso, mas estava muito ansiosa e fiz questão de vir até você. Preciso justificar mais?


 Ele a olhou admirado. Não, não precisava de nenhuma justificativa, Heitor sabia que aquele encontro modificaria sua vida para sempre.

A REVELAÇÃO DO AMOR - Carlos Cedano

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A REVELAÇÃO DO AMOR
Carlos Cedano

Ela nunca conseguiu esquecer Fernando, já tinham-se passado mais de vinte anos desde que ela, devido à imaturidade  dos dezesseis, acusou Fernando de trai-la com sua melhor amiga. Foi só uma suspeita, mas irrefletidamente e sem nenhuma prova reagiu negativamente com a mesma intensidade de sua paixão! Naquela ocasião sua mãe lhe perguntou:

— Você tem certeza da infidelidade de Fernando, minha filha?

— Absoluta mãe! Eu o segui e o espreitei por trás de uma árvore da praça. Era ele, era ele sim! Enfatizou Madalena, e o vi conversando com Hermínia.

Em vão os amigos e familiares tentaram convencê-la do erro, mas ela persistiu na sua versão, os amigos chegaram à conclusão de que estava obcecada e não queria encarar os fatos nem mesmo quando soube que naquele dia Fernando tinha estado fora da cidade. Ela o maltratou, não pediu desculpas nem o deixou explicar-se! Foi isso e muitas outras coisas que Madalena escutou dos amigos, mas não deu o braço a torcer. O resultado foi o afastamento deles e Madalena ficou só com sua própria “certeza” que beirava a loucura!

Os anos passavam e Madalena sublimando sua dor conseguiu estudar, inteligente ela era e na sua firma conseguiu destacar-se como uma brilhante profissional! Ela era referência para seus subalternos e colegas que a admiravam e também a temiam, era brava diziam, embora não escapasse para muitos que no fundo dessa aparente dureza se escondia um grito de socorro!

Quando fez quarenta anos a diretoria decidiu homenageá-la em reconhecimento a sua decisiva contribuição para o sucesso da empresa, seria uma homenagem e tanto e estariam além dos chefes e funcionários da firma, personalidades do mundo dos negócios onde Madalena gozava de muito prestigio e admiração. O que para muitos seria uma noite gloriosa com muitos convidados, muitas homenagens e muita admiração, para ela essa festa ainda tinha um “toque” de fel!

Madalena olhou para os convidados e um deles atraiu sua atenção, era Robert, um senhor de media idade com traços de estrangeiro, bem apessoado, porte atlético e muito seguro de si mesmo. Seus olhares se cruzaram durante uma fracção de segundo e muitas coisas foram “ditas” sem que as palavras aí tivessem lugar! Pela primeira vez, depois de mais de vinte anos, Madalena sentiu o desejo de saber quem era o homem, esse homem! E isso não seria foi difícil, pediu ajuda a seu assistente Raul e o fez jurar de manter o segredo de seu pedido.

A resposta veio rápido, dois dias depois, Raul fez-lhe um relato breve e objetivo:

— Ele se chama Robert Martens, é holandês, viúvo e  fotógrafo além de arquiteto, trabalha para galerias europeias e agora, disse Raul, prepare-se para uma surpresa, ele pediu uma entrevista com você Madalena e disse que explicaria o motivo pessoalmente.

A entrevista se realizou dois dias depois. Nesse dia Madalena estava particularmente linda e mal conseguia disfarçar suas emoções, parecia uma adolescente. Com educação e sobriedade Robert lhe disse que tinha sido contratado por uma famosa revista e um pool de galerias para tirar fotos das dez mais promissoras mulheres no mundo dos negócios, na relação que tinha estava seu nome: Madalena Reis.

Numa extensa conversa Robert explicou com detalhes e tranquilidade os objetivos do projeto, o principal deles era divulgar a vida dessas mulheres empreendedoras através de um registro fotográfico e mostrar como conciliavam as exigências profissionais com as relações familiares, com as atividades de lazer e a convivência social.

Foi no processo de realização das sessões fotográficas que Robert e Madalena foram conhecendo-se, ele com uma habilidade notável conseguia as expressões e os ângulos mais belos de Madalena nos diferentes contextos das fotos. não economizando material nem tempo, e quando não ficava contente com os resultados pedia a Madalena com delicadeza e bom humor para repetir as fotos. Madalena assentia com boa disposição, coisa rara, e até começava a sorrir com mais frequência.

Quinze dias alternando sessões de fotos e trocando opiniões sobre quais fotos deveriam ser selecionadas para a revista, foram abrindo-se os corações e quebrando-se resistências que, particularmente no caso de Madalena, parecia ter bloqueado algo muito bonito que dormia dentro dela! Faltando quatro dias para concluir o trabalho Robert convidou-a para jantar.  

Às vinte horas Madalena entrou no restaurante atraindo olhares de homens e mulheres, ela estava linda e seu rosto irradiava felicidade. Em um canto discreto do restaurante estava Robert que veio ao seu encontro com um maravilhoso buquê de rosas vermelhas dizendo simplesmente: Você é uma rainha! Ela agradeceu e aceitou a cadeira oferecida por ele.  


Com inspiração de um delicioso champanhe conversaram de coisas que ambos ansiavam, mas nunca se soube do que falaram, deve ter sido de amor e paixão por que dois meses depois estavam casados, morando ninguém sabe onde!

APRENDENDO NA ESTRADA COM O BICHO PREGUIÇA - Oswaldo Romano


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APRENDENDO NA ESTRADA COM O BICHO PREGUIÇA

                Oswaldo Romano

        Um congestionamento de três quilômetros na serra da Rodovia Oswaldo Cruz, deixou centenas de motoristas irritados.

        Infelizmente eu estava entre eles. Triste porque na Rodovia Rio Santos, nos cem quilômetros que percorremos na baixada, era alegria, cantavam acompanhando canções de Roberto Carlos.

                Quando chegamos na rotatória de Ubatuba, era hora de decidir: seguir para Cara, ou subir a linda e terrível serra via Taubaté. Resolvemos subir a serra. Comendo umas bananinhas ouro, vendidas nas modestas barracas, depois de passarmos um fusca quebrado, motivo do congestionamento, pude acelerar até vinte, o máximo permitido. Deu para um pequeno respiro. Pequeno porque na curva em que está a Santa Cruz, trecho que pede respeito, fui eu quem de novo parou o transito. Liguei os piscas, abaixei o vidro, abanei a mão.

O carro de trás, certamente um dos irritados, deve ter pensado: esse cara aí, com esse carrão inglês, não aguenta esta subida?  E quase tinha razão. Não aguentei foi a emoção de ver cruzando a pista lentamente, quase flutuando, sem dar qualquer importância ao trânsito, um bicho preguiça. Acionei várias vezes o farol para o carro que vinha descendo.

        Lá atrás estourava um buzinaço. Infelizes, deixaram de aprender uma das mais importantes lições da vida.

        As palavras, calma, calma que ouviram até hoje, entraram de um lado e saíram do outro.


Fiquei absorvido olhando aquele animal que achei movido pela maior inteligência do mundo. Absolutamente sem pressa, tinha tempo de pensar, não cometia erros como nós, e quando cometia era invejado, respeitado e admirado.

DANDO A VOLTA POR CIMA - Carlos Cedano

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DANDO A VOLTA POR CIMA
Carlos Cedano

Leo precisava chegar na hora certa para a reunião, era a mais importante de sua vida e decisiva para seu futuro na companhia, todos os diretores e funcionários estavam de olho nele, não podiam perder esse contrato que levaria a empresa a situar-se entre as maiores e melhores de seu ramo.

Mas, o dia não se pressagiava bom para ele. Para começar o despertador por algum motivo encrencou e não funcionou. Depois derramou café na camisa e na calça e corre a trocar de roupa, errou o nó da gravata três vezes e por último quase saindo do apartamento recebeu uma ligação de seu pai dizendo-lhe que sua mãe não tinha passado bem nessa noite.

O dia está de amargar!  - Pensou Leo.

Mas, fez das tripas coração, tinha perdido vinte preciosos minutos e precisava percorrer mais de trinta quilômetros em outros vinte numa estrada cheia de curvas e buracos. Pegou no volante e partiu para seu escritório, transpirava em “bicas”, mas Leo disse para si mesmo: Vamos lá! - decidido a superar os obstáculos.  

Foi avançando e ficando calmo, chegou a um lugar onde a estrada fazia uma curva acentuada para direita e logo teve que pisar fundo no freio quando a poucos metros de seu carro viu algo na pista que lhe pareceu ser uma pessoa, só me faltava essa! Aproximou-se do vulto e viu que se tratava de um embrulho de roupa jogado na estrada, cheio de raiva subiu no carro, contornou o embrulho e aos poucos  surgiu nele uma enorme vontade de vencer, respirou fundo e acelerou ignorando buracos e multas e sentiu-se seguro e confiante como nunca antes, chegou no seu destino, pontualmente, e fez a melhor apresentação de sua vida! Foi uma apresentação didática e convincente o que podia ver-se nos sutis sorrisos dos visitantes japoneses.  


Pela cabeça de Leo passou em segundos o filme de todos os incômodos do dia, e ele sorriu: Estou aqui para vencer obstáculos!

MAMÃE, NÃO VÁ! - Ledice Pereira

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MAMÃE, NÃO VÁ!
Ledice Pereira

Como é bom quando a mamãe está em férias. Adoro cada momento que passamos juntas. Em viagem, ou por aqui mesmo, quando ela me leva ao Parque da Água Branca e jogamos peteca. Corro pelo parque sabendo que ela está sempre ali por perto, me protegendo, me dando carinho. Minha maior amiga, como diz meu pai.

Ela não mede esforços pra cuidar de mim e me fazer feliz. Nossa ida para Ribeirão Preto, pra casa do tio Juca, irmão dela, por exemplo, foi pra eu me fortificar. Ela disse que eu estava com anemia.

Não sei muito bem o que é isso, mas deve ser sério. Ela ficou muito preocupada. Disse que iríamos para o interior para que eu tomasse ar puro e comesse coisas saudáveis.

Meu tio e minha tinha Margarida são muito legais. Naquela casa tem galinheiro e eles matam o bicho na hora pra cozinhar no fogão à lenha.

Não gosto de galinha. Mas gostei de peru. Agora eles fazem sempre peru só pra eu comer. Muito bom.

Custo um pouco pra engolir. Sabe, acho muito chato ficar ali na mesa mastigando.

Meu tio fica bravo, mostra um rabo de tatu que ele tem e diz que se eu não comer tudo vai usar o danado.


Acho que ele não tem coragem. Em todo caso, tento mastigar um pouco mais e engolir. Perde-se muito tempo comendo.

Ontem a empregada achou um escorpião na casa. Disse que os escorpiões andam sempre em dupla e ficou procurando o par. Não achou.

Minha mãe foi dormir preocupada. Rezou pra Santa Therezinha do Menino Jesus cuidar de mim.

Quando estávamos dormindo, ouviu uma voz chamando-a:

─ Amelinha! Amelinha!

Levantou-se e foi ver quem a estava chamando. Não havia ninguém.

Arrumou minhas cobertas e verificou se eu estava dormindo.

Pela manhã, a empregada retirou as roupas de cama para lavar e encontrou o escorpião nos meus lençóis.

Mamãe disse que Santa Therezinha ouviu suas preces e me protegeu.

Não sei se é verdade, só sei que passei a rezar à Santa desde então.

Passamos três semanas em Ribeirão. Fiquei corada e engordei. Mamãe ficou mais tranquila. Voltamos a São Paulo porque ela precisava voltar a trabalhar.

Toda vez que ela volta a trabalhar sinto muita falta dela e choro. Vejo lágrimas nos olhos dela também e peço, chorando:


─ Não vá, mamãe, não vá!

Roda pião - Maria Verônica Azevedo


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Roda pião                    
Maria Verônica Azevedo

Nossa casa foi construída priorizando a área de brincadeiras para as crianças. Como tínhamos dois lotes, localizamos a construção em um deles e reservamos o lote na face norte para área de brincar. Depois de tentar vários tipos de cobertura, optamos por colocar tijolos no chão assentados com areia, imitando os terreiros de secagem do café. As vantagens de piso são que não escorrega, não fica muito quente ao ficar exposto ao Sol e não empoça água quando chove. A solução mostrou-se perfeita para pular corda, correrias, jogos de bola e amarelinha. Para empinar pipas, tínhamos toda a área em torno da casa, pois a nossa era a única  do quarteirão, numa rua sem calçamento e onde os terrenos não tinham muros e nem mato alto.

Naquele dia cheguei com uma novidade: quatro piões de madeira com fieiras.

      Os três meninos se animaram e cada um pegou um pião sem saber bem o que fazer com ele.

      Tentei mostrar como se enrola a fieira para jogar o pião.

Logo começaram a brincar. Depois de algumas tentativas o mais velho se aborreceu e voltou para o livro que estava lendo.

      O do meio logo se ajeitou com o brinquedo e não perdia uma jogada. O pequeno o observava curioso tentando imitá-lo durante algum tempo.

      Nos dias que se seguiram, Tasso continuou a jogar criando estratégias que deixavam seus irmãos admirados, mas sem ajudá-los. Ele brincava praticamente sozinho, fazendo acrobacias, com o pião que rodava aparando-o na palma ou até no dorso da mão. Era bem curioso observar a destreza dele, jogando o pião para cima, girando o corpo com rapidez e pegando o brinquedo ainda no ar para equilibra-lo de novo na palma da mão. As vezes, ao se abaixar e colocar a mão rente ao chão, ele fazia o pião que girava no piso subir na palma da sua mão.

      Eu ia para o trabalho na escola pensando em como a interação das crianças pode ser difícil.

      Na escola, tínhamos uma dificuldade com o Alcindo. Muito agitado nas aulas, ele não se concentrava em nada. No recreio, sempre se envolvia com brigas porque queria ser o líder, mas não conseguia o apoio do grupo.

      Eu estava observando os recreios pensando em como poderia quebrar aquela situação, quando me lembrei do Tasso com o pião.

      De volta em casa, perguntei a ele.

      - Você topa ensinar o jogo com o pião para um aluno da escola onde eu trabalho?

      Ele aceitou a ideia.

      Então veio comigo para a escola levando dois piões.

      O Alcindo se encantou com o pião que não conhecia e conseguiu aprender com a ajuda do Tasso.

      Nos dias que se seguiram, Alcindo passou a liderar a brincadeira, no pátio de cimento da escola, com os vários piões que a escola havia comprado, ensinando para as outras crianças.


      As brigas desapareceram e ele criou até um campeonato de pião na festa junina.

MEU ZELÃO. Mario Augusto Machado Pinto

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MEU ZELÃO.
Mario Augusto Machado Pinto


Fim de tarde. É de estranhar a movimentação na praça, está maior que a normal. O pessoal que por ali vive ou trabalha já começa a se colocar entre os batentes das portas ou das janelas lembrando tartarugas com o pescoço fora do casco. Pelo jeitão desabusado está na cara que esse pessoal que anda pra lá e pra cá não é daqui. Ahn, está explicado estão descarregando coisas de caminhões parados do outro lado, coisas diferentes, pequenos postes com lâmpadas enormes, fios e cabos que não acabam mais, cadeiras de lona, chapéus tipo vaqueiro,  roupas, espelhos e uma bugiganga enorme. Amontoam na calçada do meu lado, logo ali na esquina.

Aparecem umas moças que começam a dependurar as roupas e rapazes que montam uns cubos de lona, um tipo de barraca diferente. Tomam conta da calçada onde estou.

Pergunto a um dos moços:

- O que vocês estão fazendo?

- Preparando pra gravar cenas da novela Quebra Corações, responde sorrindo.

- Ahn, brigada.


Olho bem, moço bonito. Até que dava pra galã. Não, outros grandões mais bonitos ainda vão aparecer. Precisa paciência.

UMA FIGURA MARCANTE- Ledice Pereira


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UMA FIGURA MARCANTE
Ledice Pereira


Que saudade da Loli!

Eu a conheci no Jardim da Infância. Teríamos uns cinco anos. E nossa amizade perpetuou através do tempo.

Aos onze anos fui morar a uma quadra da sua casa, onde ela reunia a turma e promovia brincadeiras e, depois, bailinhos.

Nunca estava só. Era a mais nova de quatro irmãos que a paparicavam e, talvez por isso, gostava de estar sempre cercada de gente.

Seu nome era Maria de Lourdes, mas, por causa de um pirulito que vivia chupando, acabou sendo apelidada de Lolipop (nome do pirulito) e depois, só Loli.

 Para onde você olhasse lá estava ela jogando Volei, Basquete, apostando corrida, pulando distância ou se destacando na Queimada.
Era aluna aplicada. Prestava atenção na aula e não precisava estudar em casa. Tirava notas altas sempre.

Eu, menos atenta às aulas, tinha que estudar muito e, nem sempre, tirava boas notas.

Adolescente, Loli aprendeu a dançar Rock como ninguém. Ela e Célia, outra amiga, ensinavam-nos a coreografia durante a semana, para que pudéssemos dançar nos bailinhos de sábado.

Estava sempre disponível para nos ajudar a enrolar brigadeiros e beijinhos para nossas festinhas de aniversário. É verdade que enrolava três e engolia um, mas tinha tamanha boa vontade que nós não nos importávamos com a traquinagem.

De vez em quando, ficávamos de mal, por causa de um patinete, ou de uma boneca, mas logo fazíamos as pazes e voltávamos a ser amigas.

Fomos confidentes de nossas primeiras paixões e só nos separamos na época em que mudamos de escola para cursar o colegial. Ela no científico e eu no clássico.

Nessa época mudei de bairro, estudava pela manhã, à tarde cursava piano no Conservatório Musical e já namorava firme.

Estivemos afastadas por um longo tempo e só depois de casadas e com filhos nos reaproximamos, chegando a programar alguns picnics com as crianças. Até que perdemos o contato.

Soube que ela havia se mudado para Campinas.

Quando completei cinquenta anos quis reunir os melhores amigos. Tentei encontrá-la. Em vão.

Após alguns meses soube que ela havia falecido. Prematuramente.

Não tivemos tempo de nos despedir.


Até hoje me lembro dela com carinho e muita saudade!

DIAS DE GLÓRIA - Silvia Helena de Ávila Ballarati

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DIAS DE GLÓRIA
Silvia Helena de Ávila Ballarati

Quem te conhece não esquece jamais! Não, não  estou falando de Minas Gerais. Falo de Roger!  Roger e seu bandolim foi o que houve de mais famoso nos bares e cafés do Rio de Janeiro na década de 70 do século XX.

 Roger, um músico intuitivo, jamais frequentara aulas convencionais de música, tudo que sabia havia aprendido de ouvido.  A bem da verdade, frequentara um pouco o Conservatório Musical de Resende, na época da infância, por insistência da mãe. As duas únicas professoras de piano da cidade eram amigas da família e viam no menino um grande potencial artístico.  Às turras ele chegou a fazer algumas aulas, mas tão logo viu-se preso aos exercícios repetitivos do método Hanon de Piano Clássico, em que tinha de executar as intermináveis escalas com seus acidentes, sustenidos e bemóis,  passou a detestar as aulas, as professoras, a coitada mãe e o pior, tomou horror do piano.

Por influência de uma das professoras que era portuguesa, foi apresentado ao bandolim e desde então jamais se separou do instrumento. Nada mais o acompanhava, muito raramente algum novo amigo vinha com seu cavaquinho e juntos faziam um dueto. Sentava nas praças e aos poucos via-se rodeado de pessoas batucando nas mesas.  Passou a ser chamado para tocar em abertura de pequenos festivais e eventos locais.  Tinha-se tornado um belo rapaz, alto, magro com fartos bigodes à francesa.  Fazia certo estilo caipira tímido, achava que agradava as mocinhas.

Mudou-se para a capital do Estado e passou a compor regularmente.  Muitas das canções do seu período em Resende continuaram a fazer sucesso e com elas novas músicas românticas, fáceis de cantar, foram incorporadas ao seu repertório.  Gravou o primeiro disco e criou uma amizade consistente com o pessoal da gravadora,  em especial  com o coordenador de novos talentos.

Apesar do sucesso que marcava sua vida, Roger se mostrou um péssimo administrador desse momento. Fez do seu período áureo um festival de bobagens, gastos exagerados com mulheres, drogas e viagens.  Novos instrumentos não pretendia aprender a tocar, nem se juntar a outro artista. Foi assim que seu declínio começou, cair no ostracismo foi mais rápido do que podia suportar.

Aceitou relutante a oferta de uma kitinete para morar para que seus dias de glória não terminassem na rua. Ficava feliz ao comprar cigarros e ser reconhecido pelos frequentadores da banca de jornal. Quando alguém cantava trechos de suas músicas, achava que o faziam por dó, de tal forma tinha perdido a autoestima.  Bebia tanto que emendava noite e dia na cama.  Mais de uma vez foi internado para desintoxicação.  Certa feita,  entrou em coma, foi socorrido por vizinhos e internado novamente, só que desta vez demorou muito para voltar à razão.

Finalmente em casa, apressou-se a retomar antigos vícios, nem parecia ter estado à beira da morte. Até  que um dia a campainha tocou insistente na casa do artista e seguiu-se um grito estridente e alegre.

— Roger!  Era o colaborador da gravadora que estava há dias à sua procura. Tinham aceitado entrevistá-lo em um programa de televisão para  artistas caídos no esquecimento.

— Vamos Roger, anime-se!  Você pode voltar, esta é sua grande oportunidade, era o que faltava pra mostrar a esses jovens quem você foi!  Disse todo entusiasmado o velho amigo ao entrar no pequeno espaço e vê-lo deitado.  Roger se  mexeu  na cama, voltou-se para olhar  o antigo parceiro  de frente,  parecia não acreditar no que ouvia, seus olhos brilhavam.  Olhou o amigo intensamente nos olhos, parecendo ver em segundos todo o filme de sua vida , sucesso, feridas antigas,  enfrentar o novo que na verdade não era novo. Deu um suspiro profundo, fez menção de se levantar.  O amigo, mais que depressa  se levantou também, já abrindo os braços de alegria quando Roger virou-se pra ele, não para se levantar, mas para mudar de posição e disse:

— Você é um sujeito legal, feche a porta ao sair.


Nos dias que se seguiram ninguém mais teve notícias de Roger. Não saiu nem pra comprar cigarros na banca de jornal.

Paixões desvairadas - Ises de Almeida Abrahamsohn


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Paixões desvairadas
Ises de Almeida Abrahamsohn

Jussara tinha dezesseis anos quando começou a namorar Alcides, e dezoito quando se casaram contra a vontade dos pais dela.  Bem que a mãe avisara sobre o rapaz que tinha fama de paquerador e não era muito chegado ao batente. Mas a moça era irredutível na sua paixão desvairada pelo belo namorado de cabelos escuros e olhos verdes.  Pois a mãe estava certa.  Dois anos após o casamento, o Alcides já dava as suas escapadas noturnas ou diurnas.  E pouco depois Jussara teve que começar a trabalhar para sustentar a casa e os dois filhos. O galã não parava nos empregos,  empenhado que estava na carreira de sedutor. Apesar das atividades extraconjugais o malandro não descuidava de, em casa, manter a chama acesa.  Para desespero dos pais e amigas, Jussara continuava apaixonada.  Ver os dois juntos deixava os conhecedores  da  falta de caráter de Alcides especialmente irritados. O rapaz esbanjava carinhos, beijinhos, segredinhos, olhares profundos e tudo o mais...

Quando a mulher se queixava das ausências ou possíveis infidelidades, as mágoas eram logo reparadas com flores, presentes e o arsenal de sedução que a mantinha enfeitiçada no leito e fora dele.

Mas, nos últimos seis meses pouco a pouco os carinhos, atenções e, sobretudo, os êxtases  noturnos foram minguando. Primeiro pensou em doença, motivo  logo descartado. Jussara sentiu que estava perdendo  a  parada para outra com mais atrativos do que ela. Seguiu o carro do marido até uma praça, onde o viu entrar em um café.  Decerto era lá que se encontrava com a zinha. Mas, nunca conseguia ver a rival.

Depois de segui-lo por duas semanas, instalou-se atrás de uma árvore de onde podia ver a outra porta do café que abria para a rua lateral

. ̶  Safado! Ordinário! Quem é aquelazinha que ele abraça? Não deve ter mais que vinte anos... Siliconada, tenho certeza... 

Olhou de novo e reconheceu. Era a filha do dono da rede local de Supermercados!. Tinha visto a foto no jornal. Além de linda, a garota era rica. Jussara sentiu a cabeça girar e escorregou até se sentar na grama. Na boca veio-lhe um gosto amargo de bile. Entrou no carro e dirigiu automaticamente até em casa. Enquanto revia o passado, a raiva aumentava.  No quarto fitou longamente a cama conjugal e a raiva deu lugar ao ódio.  Desvairada e tremendo desceu as escadas e na sala esperou atenta o ruído da chave na porta da frente.

Os vizinhos encontraram Jussara chorando, ainda com o revólver na mão. O tiro acertara  Alcides no peito. Caído, os olhos já não viam, mas ainda conservavam o ar de espanto.