Natal ao Sol - José Vicente J. de Camargo

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Natal ao Sol 
José Vicente J. de Camargo
                     
“Com certeza, nessa situação, eu não estou à procura de um lugar ao sol, como costuma dizer o professor de português, quando tiro nota baixa pelo cansaço que me apaga da cabeça a gramática das frases: Desse jeito você não terá seu lugar ao sol! ”

Ali, no vagão superlotado do trem que o leva ao trabalho, no raiar do dia, depois de uma noite curta de sono, dado ao curso noturno que faz, o que ele mais procura é um lugar firme onde colocar seu segundo pé, no meio daquele amontoado de gente e do desequilíbrio causado pelos solavancos dos trilhos. E é nessa situação que aumenta sua vontade, de por logo seu plano em prática.

“Vai ser fácil executá-lo, vou tirar de letra! Dona Marta tem total confiança em mim. Hoje, no final do expediente, ela recebe da chefia, em dinheiro, o pagamento do salário do mês do pessoal do escritório, acrescido do décimo terceiro e das férias. Uma boa grana, sem dúvida. Outra oportunidade como essa só no próximo ano, se é que continuo empregado até lá, no meio dessa crise toda.”

O trem freia bruscamente, comprimindo todos pra frente qual boiada passando pela porteira estreita.

Essa chacoalhada humilhante não lhe deixa dúvida:

“Chega de sofrimento! Amanhã minha vida muda. Dou um prazo para as coisas se acomodarem e peço dispensa, vou viajar, novos ares...”.       
                       
Chegando no escritório, ele segue a rotina diária, não deixando transparecer nada que pudesse dar margem para alguma desconfiança por parte de dona Marta ou dos colegas.

Como ele já esperava, no final do dia, ela o manda chamar em sua sala:

Toninho, me ajude a separar os salários por funcionário e colocar nos envelopes junto com os recibos. Depois eu os guardo no armário. Amanhã às oito horas me acompanhe na distribuição. A chefia me avisou que a partir do próximo mês, o pagamento não será mais pessoal e sim através de conta bancária. Já estava na hora de modernizar essa empresa. Quem não tem conta em banco, vai ter de abrir uma. Todos têm de ir se adaptando, pois, daqui há alguns anos, não vai mais existir dinheiro em espécie, só em plástico...

“Estou com sorte! Último pagamento em dinheiro. Essa chefia vai se arrepender de querer economizar em segurança. As câmeras de filmar e o alarme estão quebrados por falta de manutenção e o vigilante noturno foi dispensado. Minha chance é agora. Não posso errar em nada, é só seguir o plano”:

Dona Marta, não se esqueça de que hoje é segunda-feira, a Senhora tem academia. Quer que ligue para saber se vai ter a aula de step?

- Não obrigada. Se não tiver aula, faço outros exercícios. Preciso perder uns quilinhos para o réveillon na praia. Como sempre, vou deixar meu carro aqui, estacionar na academia é difícil. Volto no trote, não é longe.

A Senhora e seu gosto pelo esporte! Me dá até inveja. Faz bem, descarrega as energias...Eu vou ficar um pouco mais, montando a árvore de Natal e os enfeites da entrada. Quando a Senhora voltar já estará tudo pronto. Deixo as luzinhas acessas e apago o resto.

− Ok, até amanhã então...

“Ela guardou a chave tetra do armário na bolsa. Tenho de montar os arranjos de natal rápido e depois desço pro vestiário pra colocar a touca ninja – espero que comprei o tamanho certo – as luvas, e pegar o fio de cobre que escondi na papelada da garagem. Quando ela entrar para pegar o carro, a surpreendo por trás, no escuro, e a enforco com o fio. Ela pode estar em boa forma, mas está longe de ter a minha força. Depois, vai estar cansada da ginástica para oferecer resistência, e o fator surpresa está comigo”.

Quando, do alto da escada, ia colocar a estrela de natal no topo da árvore, algo o fez parar! Lembrou da sua infância quando sua mãe enfeitava a árvore e montava o presépio. Ele e seus irmãos a ajudavam. Cantavam as músicas de natal que ela os ensinava e fazia questão que todos cantassem. A que mais ele gostava era “toca o sino pequenino, sino de Belém...”. E quem mais lembrasse das músicas, era quem colocava a estrela na ponta da árvore, terminando a decoração.

De repente suas pernas e mãos começaram a tremer e seu coração se acelera.

“O que está me dando?...Nunca senti isso antes! Será que ela quer me dizer algo? Não acredito em espíritos. Deve ser a ansiedade do momento. Vou descer a escada com cuidado e tomar um copo de água. Dou uma descansada e continuo o plano”.

E assim, preso à cadeira que se sentara para descansar, sem poder se mexer pela câimbra que sentia nas pernas, Dona Marta o encontrou:

Você ainda por aqui? Pensei que já tivesse ido. A decoração ficou muito bonita! Você é um funcionário exemplar. Ia lhe dizer amanhã, mas dado a sua dedicação, digo agora:

Solicitei a chefia, e ela concordou, em promove-lo a gerente adjunto com aumento de salário. E quando for transferida à matriz, ano que vem, você assumirá meu cargo...

Ele olhou para a estrela de natal na ponta árvore, brilhando como um sol, arregala os olhos e balbucia:


Mãe, não fiz nada de errado! Só me deu vontade...

A gota d´água - Fernando Braga


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A gota d´água
Fernando Braga

Sou pequena gota d´água
Formada por pais gasosos
Hidrogênio e oxigênio
Se uniram esperançosos.

Na formação do universo
Foi prevista minha criação
Para a existência de vida
E de sua evolução

Dez mil de minhas gotinhas
Para um litro, encher a metade
Imaginem o que é preciso
Pra formar a tempestade

Venho do céu, cubro a terra
Mato a sede, irrigo o solo
Preservando o que é vivo
Embalado em meu colo.

Formo mares, aquíferos, rios
Mantenho a vida em progresso
Quando falto surge o caos
E a vida entra em recesso.

No grau zero viro gelo
Quando fervo vapor sou
Nos três estados da matéria
Encontram-me como estou

Cuidem de mim meus meninos,
Minha importância não é surpresa
Não poluam as minhas fontes
Não destruam minha pureza.

Se hoje estou em abundância
Amanhã posso faltar
Não aceito desperdício
Mesmo quando se banhar

Muitas vezes me enervo
E tempestade planejo
Despejando muita água
Sobre muitos que não vejo

Quando me uno ao ciclone
Ninguém mais forte é
Nossa magnitude sempre
Derruba o que está de pé

Na minha grandeza toda
Me tornei jactanciosa
Perdoem-me quando exagero
Mostrando que sou preciosa

Sei que muitos me respeitam
Mas a maioria não
Me sujam, poluem, me matam
Posso perder minha função!

Sou pequena gota d´agua
Sem forma, gosto ou cor
Venho fazer um apelo
Reconheçam meu valor!


ZÉ DO PAPELÃO - SÉRGIO DALLA VECCHIA


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Foto de Miguel Castello

ZÉ DO PAPELÃO
SÉRGIO DALLA VECCHIA

José da Silva e Tal é o meu nome.

Venho de boa família, sou formado em administração com MBA, falo fluentemente três línguas, fui por muitos anos diretor de uma grande Instituição Financeira.

Resolvi escrever minha estória como um desabafo e libertar-me dos meus grilos.

Há alguns anos eu estava no auge de minha carreira profissional, meu ego era gigante, as amizades importantes, restaurantes famosos e vida muito confortável.

Tudo ia bem até que certo dia fui convocado para uma reunião de conselho.

A pauta era o nomear uma comissão para incrementar a performance da Instituição.

Ela foi formada e eu fazia parte dela.

Os estudos foram evoluindo até que se chegou à conclusão de que a melhor saída para o sucesso seria a prática de procedimentos arrojados.

Acontece que não concordei com tais métodos e a retaliação foi quase imediata. Boicotes, reuniões sem a minha presença e outras artimanhas.

Não demorou muito e me demiti. De nada adiantou o meu currículo, os bons serviços prestados e o tempo de casa.

O baque foi muito grande na família. Consegui ainda por um bom tempo sustentá-la com minhas reservas.

Não consegui outro emprego e a situação foi ficando insustentável. Minha mulher pediu o divórcio. As contas chegando e a inadimplência aconteceu.

Por vezes eu saia a pé pela avenida Financeira e olhava para cada um daqueles edifícios magníficos. Ficava imaginando quantos Josés haviam trabalhando confortáveis com seus cargos!

Por fim veio a depressão emocional, a falência e a pobreza!

Não restando outra alternativa procurei abrigo em baixo de um viaduto. Fui chegando com a pior expressão que o homem pode demonstrar, a prostração física e mental.

Ali havia um grupo de mendigos que me olharam com indiferença e eu fui entrando. O frio, a fome e a depressão me deixaram exausto. Achei um local e me deitei na posição fetal.

O chão era frio, duro e fedido!

Não demorou muito e um dos homens veio em minha direção. Não sabia se vinha me expulsar ou bater! Fiquei imóvel só esperando o que sucederia! Meu coração batia forte, a transpiração era abundante!

— E aí companheiro? - Disse o barbudo mendigo com uma voz serena. Está com fome? Aceite esse pão. Pegue sem acanhamento. Eu também cheguei aqui nesse estado.

— Nem precisa contar a sua estória, pois não deve ser diferente dos daqui: desilusão da vida, do amor e outras tantas. Coma esse pão, durma e amanhã conversaremos. Deite-se sobre este papelão para diminuir o frio.

Acordei no dia seguinte e havia um punhado de voluntários servindo café e pão para todos. Comi e bebi como um garoto! Foi o mais delicioso café continental que ingeri na minha vida!

Em seguida formou-se uma rodinha de colegas de infortúnio, conversamos bastante e logo me tornei um deles! Não percebi nenhum ato hostil.

O apoio que os desconhecidos me ofereceram foi o suficiente para eu acordar para a vida.

Comecei a catar papelão sem parar. Vendia em um ferro velho próximo e logo juntei um dinheirinho. Energia não me faltava, trabalhava com muito afinco.

Não demorou muito e logo eu era o mais próximo do mendigo líder. Aquele da voz serena que havia me recebido quando cheguei.

Comecei a prestar atenção no modo dele agir com as pessoas. Para tudo dava jeito. Sua bondade era incontestável.

O tempo foi passando e de tanto papelão que catava, fiquei conhecido como Zé do Papelão!

O final de ano estava se aproximando e notei que o líder começou a trazer algumas caixas de fechadas e as empilhava-as com cuidado.

Assim foi juntando até formar um grande volume.

O líder não mudava em nada sua postura serena, pensativa e de poucas palavras.
Entretanto num certo dia, surgiu uma febre alta e tosse, que indicavam uma possível pneumonia. Chamei depressa o socorro médico.

Enquanto isso ele me chamou com a voz pausada:

—Zé do Papelão! Venha cá, preciso de você.

—Sinto que vou morrer, mas tenho uma obrigação com as crianças pobres do bairro e não posso falhar.

—Quero que você me substitua nessa tarefa. Veja aquelas caixas empilhadas. Elas estão repletas de brinquedos doados pelos lojistas e fabricantes. Distribuo todos os anos para a molecada. É a minha alegria de viver! Mas sinto que não tenho mais forças e você foi o escolhido para dar sequência a essa minha missão! Não falhe!

— Mas como conseguirei brinquedos? Não sou tão conhecido como você, diga-me como agir e ainda nem sei o seu verdadeiro nome?

—Entendo sua aflição. Então faça o seguinte:

—Basta mudar o seu nome de Zé do Papelão para  Papai Noel.

—Nunca faltarão presentes para você distribuir. Simples assim! Boa sorte e Adeus!
—Espera! Afinal qual é o seu verdadeiro nome.

—É segredo! ROU! ROU! ROU!

Aqui quem manda é ela! - Fernando Braga

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Aqui quem manda é ela!
Fernando Braga

       Dona Judith tivera seis filhas e um filho. Logo após o nascimento de seu último filho, perdeu  o marido em um acidente. Mulher de fibra, criou os filhos com dificuldade. Para tanto tinha de exercer o papel de mãe e também de pai. Tornou-se então uma mulher firme, exigente, decidida, obstinada, desenvolvendo em casa um verdadeiro matriarcado. Quem mandava era ela, e os filhos, mesmo após adultos, obedeciam-na cegamente. Isto desenvolveu nas duas filhas mais velhas, as mesmas características da mãe matriarca, deixando seus maridos submissos e dependentes de suas vontades.

       Todos sabem que isto pode acontecer!

       Uma delas, a Maria Helena casou-se com um médico e tiveram duas filhas. Lucrécio, este médico, era um sujeito muito bacana, um tanto agitado, e acabou se sujeitando às vontades e determinações de sua mui querida esposa.   Dificilmente saia com amigos, colegas, e, apenas quando ela estava disposta a deixa-lo participar de alguma atividade social.

        Certa ocasião, ela soube por terceiros, fofoqueiros, que seu marido andava de namorico com uma enfermeira do hospital em que trabalhava. Colocou-o contra a parede, mas ele negou tão veementemente, que ela ficou com suas dúvidas.  Tinha medo de perdê-lo, pois dele vinha o sustento da casa. Com controle absoluto, acompanhava todos os passos do marido. Ela trazia a tradição da família de ser muito católica, mas tornou-se piegas, beata, indo diariamente à missa e comungando. Frequentemente ele tinha que acompanhá-la, mesmo sem a mesma disposição religiosa.

       Uma vez, quando Lucrécio contrariou-a, teve uma dor forte no peito, ficou gemendo, gritando fortemente, sendo levada às pressas ao hospital. Dizia ser seu coração, que estava tendo um enfarte. No pronto socorro foi examinada pelo clínico e pelo cardiologista, que após analisarem todos os exames, viram que estavam completamente normais, incluindo o ECG. Chamaram o marido e disseram que aquilo era provavelmente um piripaque.  Ele era tão submisso que não acreditou e passou a tratar sua mulherzinha como um cardiopata, nunca mais contrariando-a. Sua filha mais velha, era também matriarca e aguentar as duas ao mesmo tempo, tornou-se sua sina.

       Qualquer reunião que ele fosse sem ela, tinha que telefonar assim que chegasse, durante e quando ia se retirar, procurando demorar o mínimo possível, voltar logo para casa.

        Ele fez sessenta, setenta e chegou aos 80 anos e tudo do mesmo jeito.

       Um dia foi almoçar com três colegas, amigos de infância e durante o papo, entusiasmou-se quando lhe fizeram um convite para viajarem juntos para o interior, cidade natal e passarem três dias no sítio de um deles. Dependia apenas do beneplácito de Maria Helena, que em princípio, concordou.

        Ele, entusiasmado, confirmou a viagem com os amigos e a data foi marcada.
       Uns dias antes da data da partida, Maria Helena pediu que assinasse documento referente à viagem ridícula que ele pretendia fazer com um grupo de idosos.

      Lucrécio assinou o documento, mas... um dia antes, telefonou ao amigo que coordenava a viagem e disse:

      —Você sabe né, que minha mulher é uma cardiopata antiga?

      — Minhas filhas me telefonaram e acharam um verdadeiro absurdo, uma injustiça, eu viajar e deixar a mãezinha sozinha. A pessoa que eu tinha combinado de ficar com ela, mancou.

      — Assim sendo, meus queridos amigos, desta vez, tenho que mancar com vocês. Vamos combinar outra, mais para o futuro. Abraços.

       Sem comentários!

       A viagem foi feita sem o Lucrécio e entre eles estava o Zé Osvaldo.
 

AS GOTINHAS - Carlos Cedano


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AS GOTINHAS
Carlos Cedano

Meu nome é Mila, sou uma gotinha de água que durante uma chuva caí com outras num lago grande de águas limpas, e quando o sol aqueceu o lago virou uma alegria só, e descobrimos que tínhamos belas historias para contar.

Uma das gotinhas falou de um lugar onde os habitantes já tinham arado e semeado suas terras e agora suas esperanças estavam voltadas à chegada das chuvas e torciam por isso! Quando ficamos bem encima irrigamos a terra com gotas densas e cadenciadas que penetravam na terra como ela gosta, suavemente e na medida certa, mas nossa maior felicidade foi ver a alegria dos camponeses que levantando suas mãos agradeciam aos céus, era a certeza de uma colheita boa sem dúvida!

É minha vez de contar uma historia falou Mila e começou: Lembro-me que era um lindo dia de primavera e minhas nuvens “viajavam” calmas e serenas, passamos por cima de extensas plantações arvores frutíferas; as flores nas árvores vistas por cima, formavam um enorme tapete adornado por desenhos coloridos, mas isso não foi tudo, com o raiar do sol o orvalho tinha se “empossado” nas folhas e nas pétalas das flores o que acordou milhões de abelhas ou talvez muito mais, não sou muito boa em cálculos, que beberam de nossas águas e logo foram extrair o néctar das flores nesse exuberante jardim de vida!

Pedi para outra gotinha contar sua historia, ela com voz que mais parecia um sussurro disse: Minha historia é de fé e esperança: Estava com minhas companheiras num lugar onde quase todo o mundo vestia de branco e dentro de uma garrafa pendurada num gancho alto encima de uma cama com um menino de olhos fechados, parecia muito doente e as pessoas na sua volta falavam baixo e com ar de preocupação.  Enquanto isso, a garrafa se esvaziava lentamente gota a gota num ritmo constante. Daí a pouco entra outra pessoa vestida de branco, examina o pequeno e logo se dirige a um casal, os pais sem dúvida, e lhes diz algo reservadamente com voz quase inaudível e o casal mal consegue segurar seus prantos. Sim o menino parecia estar à beira da morte! Uma velha senhora cujo rosto denota uma profunda paz de espírito, pede a todos para dar-se as mãos e rezar junto com ela, ao concluir a oração disse com voz firme e calma: agora é só esperar... Com fé!

E nossa garrafa em seu ritmo inexorável continuava sua marcha quando subitamente o menino abre seus olhos e pergunta: mãe, pai vocês estão aí? Vocês imaginam a felicidade dos presentes? Risos de alegria e agradecimentos, uma voz se escuta dizendo: milagre!


Belas histórias, disse Mila, mas o sol já está esquentando muito e a vaporização vai nos levar para os céus e formar novas nuvens, novas emoções nos esperam e teremos mais historias pra contar!

UMA SEGUNDA CHANCE - Ledice Pereira

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 UMA SEGUNDA CHANCE
Ledice Pereira

Vai ser difícil sair daqui.

As pessoas me olham, me tocam, fico animado, mas nada. Vão embora sem, ao menos, me dar um até logo.

Eu me sinto mal, sabe? Diminuído, esquecido, desprezado.

E lembrar que já tive meus momentos de glória...

Lembro-me de quando fui destaque pela primeira vez. Era um dia de festa. Todos me admiravam. Eu estava radiante. Brilhava!

Fui idealizado por um cara importante, de renome. Especialmente para aquela data.

Suely recomendou:

─ Quero que todos se lembrem deste momento, portanto capriche.

E ele caprichou.

Fiquei sem saber o valor de tudo aquilo. Mas isso não era importante naquele momento. Estava feliz porque iria chamar a atenção de todos. Era o que eu queria.
A gente vive de altos e baixos. A vida é uma roleta russa. Hoje estou aqui, em segundo plano, vendo gente entrando e saindo, sem ser notado.

Opa. Estou sendo acariciado. Nossa, que sensação deliciosa!

Parece que fui escolhido. Já me sinto mais animado.

Acho que agradei. Vejo que estão combinando o valor. Não consigo entender o que dizem, mas...

Viva! Deu certo.

Não serei mais apenas um velho vestido abandonado num brechó.


Corrente da felicidade - Fernando Braga

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Corrente da felicidade
Fernando Braga

       Certo dia, em novembro de 1982, Zé Osvaldo recebeu um envelope, contendo um cheque de 100 cruzeiros e uma carta,  enviado por seu colega e amigo Flavio. A carta dizia:

      “Encaminhar este cheque, usando o envelope já selado, onde já consta o nome do destinatário e do remetente, que sou eu”. Dizia ele, que fazia parte de uma corrente da felicidade, em franco progresso. Pedia que Zé Osvaldo participasse, convidando dez pessoas de sua intimidade, amigo, parente, para fazerem parte também. Cada um deles deveria incluir um cheque de 100 cruzeiros a ele, em um envelope, já selado.   Cada um desses 10 que Zé Osvaldo convidasse, deveria por sua vez, arrumar outros 10 participantes, que enviariam um cheque em seu nome, e assim por diante. Cada participante, em pouco tempo estaria recebendo uma bela quantidade de cheques, e assim se daria a sequência da corrente da felicidade.

       — Bom negócio, negócio da China! Dizia ele.

        Zé Osvaldo não era bobo, nem simplório e já tinha ouvido esta conversa. Sabia que esta corrente, também chamada de pirâmide financeira, era uma prática enganosa, além de uma fraude e, proibida por lei. A   corrente sempre era   truncada  e haveria prejuízo, menos para os iniciantes. Os primeiros a entrarem tinham vantagens.

       Veja o que Zé Osvaldo preparou!

        Recentemente, havia recebido uma carta de agradecimento do pai de uma criança que ele havia operado, e que utilizara um papel timbrado onde constava na parte superior, uma inscrição, um dístico da Justiça Federal da União, uma vez que ele era um juiz federal.

       Recortou a parte superior da carta onde estava este dístico, colou-o na parte superior de uma folha em branco. Em seguida escreveu à máquina, o seguinte:
       DEOPS – SP

       Praça General Osório 66-88, bairro Santa Efigênia São Paulo

      Pedimos o seu comparecimento até o último dia deste mês, para prestar esclarecimentos importantes em nosso departamento jurídico  sobre assunto de seu pleno interesse. A falha no comparecimento, implicará em uma condução coercitiva.  Assinado: Tenente Coronel -  Euclides J. Zerbinatti.

S. Paulo, 22 de novembro 1982 

Abaixo deste dizeres, colou o cheque recebido do doutor Flavio. Após esta montagem, a folha por inteiro foi xerocada e enviada em uma carta, ao seu caro colega. Como remetente, apenas: Deops- SP  

       Em dezembro, dias antes do natal, houve uma festa de confraternização de fim de ano. La estavam Dr. Flavio e Zé Osvaldo, com suas esposas. Sentaram-se próximos na mesa, ficando as duas esposas, uma quase em frente à outra.

       Ainda de pé tomando uma bebida, Zé Osvaldo aproximou-se de Flavio e perguntou sobre a tal corrente de felicidade, dizendo que já havia arrumado os seus 10 amigos, dando prosseguimento.

      Dr. Flavio disse:

      — Rapaz! Você não sabe o que aconteceu. Recebi uma carta do Deops, pedindo o meu comparecimento àquele departamento. Fiquei preocupado, pois uma cópia de meu cheque estava na carta que recebi. Você sabe, no regime de exceção que estamos, não é bolinho! Peguei um advogado, meu parente e fomos lá. Ninguém conhecia um tal de Cel. Zerbinatti, que enviou a carta.

      — Fomos conduzidos à sala de um policial, que vendo a carta que recebemos ficou quieto, pensativo e disse que iria investigar. Devíamos voltar em uma semana. Meu advogado e eu não entendemos nada. O jeito era aguardar.

      — Após uma semana voltamos a falar com o mesmo policial que ficava em sala especial. Ele nos disse que tudo era muito estranho e que queriam descobrir quem procurava fazer alguma interferência no departamento, alguma coisa de comunista safado.

       — Eu e meu advogado tivemos que voltar mais duas vezes, até se certificarem de que nada tínhamos a ver com o Deops. Nada descobriram.

       Zé Osvaldo ouvia tudo, dava muita risada, e dizia:

       — Espero que comigo não aconteça a mesma coisa, porque também andei mandando alguns cheques.

       Ele queria aguardar mais um tempo, comentar com alguns colegas, gozar um pouco mais, para depois falar a verdade a Flavio e devolver-lhe o cheque.

        Porém quando veio sentar-se à mesa, sua esposa disse:

       — Conversando com a esposa do Flavio, ela comentou sobre o caso do Deops, e as aflições que ambos haviam passado, temerosos de serem presos.

       — Fiquei constrangida e contei a ela, que tinha sido você, o responsável.

       — Olhe agora para eles. Ela deve estar contando tudo para o marido! Zé Osvaldo, sorrindo, olhou em direção ao casal e Dr. Flavio ergueu a mão fechada em sua direção, deixando o dedo médio bem esticado. Parecia muito bravo. No final, tudo deu certo. Flavio se acalmou, afinal era apenas uma gozação!  


Zé Osvaldo prometeu nada mais contar de suas histórias à sua esposa, que estragou parte, de tudo.

A Briga - Luiz Guilherme Cruz

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A Briga
Luiz Guilherme Cruz

 Roberto era um homem raçudo, beirando os 50 anos, olhos desconfiados, cabelos opacos e escorridos, rosto que pedia respeito com seu sorriso marmorizado. A impressão de estar sempre emburrado e azedo, era somente para aqueles que não o conheciam muito bem.  Fanático por futebol, sua paixão até colérica era o Corinthians, tanto que no seu cartão de visitas, além das informações de contato lia-se CORINTIANÊS, pois fazia questão de esclarecer ser  muito mais do que um simples corintiano.

Corina, a esposa, chamada carinhosamente de Cheirosa, era um mulherão, como diziam os amigos mais íntimos. Caminhava para os 45 anos, corpo bem feito com curavas acentuada,  olhos de melaço, boca com lábios de entorno bem delineados e sorriso ornamentado com o feitio da bondade. Não se sabendo se por influência do marido ou de que, externa um fanatismo por futebol, igual ou maior do que o marido. Só que o time para o qual carreava todo o seu ardor era o Palmeiras. Para não ficar atrás da extravagância do marido, nas brincadeiras fazia questão de ser chamada de PALMEIRANÊS.

Naquela tarde assistiam pela Tv o choque dos dois clubes, titânicos e rivais de morte. O jogo seguia morno e caminhando para uma igualdade em zero a zero, e os dois já conformados com o placar, nem prestavam mais atenção à partida, quando ouvem o locutor bradar por diversas vezes - Gol do Corinthians - Roberto não se contém e grita como a sair para um desafio, PORCA leva esse.

Corina aborrecida por ver seu esquadrão ser derrotado pelo arqui-inimigo, replica - PORCA não!

Imediatamente ouve o marido replicar - LEITOA.


Foi assim que o amigo Toledo ficou sabendo, o porquê de Roberto ter sido levado ao Pronto Socorro com uma colossal cisão na cabeça, originado segundo o boletim médico, por um copaço quebrado no seu cocuruto. 

DESABAFO DE UM ABANDONADO - Ledice Pereira

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DESABAFO 
Ledice Pereira


Mais um dia fechado aqui, calado.
Ela realmente não me ama mais. Mal me olha.
Antigamente gostava de mim, cuidava de mim, sentia orgulho de mim.
Hoje só tem olhos para os outros: marido, filhos, netos...
Dirão vocês que ando deprimido. E acertaram.
Hoje me sinto usado, desprezado, abandonado, empoeirado.
Sabem o que é acompanhar alguém desde tenra idade, compartilhar de sua evolução, de seu crescimento? A gente se afeiçoa, torce, vibra com cada vitória.
Naquele tempo eu ocupava um lugar de destaque. Era apresentado a todos. Eu me sentia importante, sabe?
De repente, me vejo aqui esquecido, passado para um segundo plano, entregue literalmente às traças.
Nem da minha manutenção ela cuida mais.
Eu gostava tanto quando ela me acariciava, me tocava por horas a fio.
Hoje estou aqui só. Tenho que me contentar com o afago da diarista uma vez a cada quinze dias. Um afago rápido, indiferente, sem sentimento mesmo.

Muito triste. Fiquei reduzido a um velho piano desafinado.