O SEGREDO DE DONA MERCEDES - Carlos Cedano

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O SEGREDO DE DONA MERCEDES
Carlos Cedano

O Padre Salustiano chegou à casa de Dona Mercedes que está gravemente doente e deseja confessar um segredo que a está atormentando. Agora, à beira da morte, sentiu que estava na hora de contar aquilo que sua covardia a tinha impedido de contar!

— O que pode ser tão grave? – perguntou o Padre  – Fale minha senhora que Deus saberá perdoá-la.

Dona Mercedes sentiu-se reconfortada e iniciou seu relato lentamente e ofegante às vezes:

Eu tinha trinta e dois anos quando cheguei pra trabalhar como governanta na família Alva, seu Fernando, Dona Áurea e três filhos: Marcio de dezesseis anos, Beto com doze e Lucrécia com quase onze,  e com a arrumadeira Dulce, uma bela jovem de vinte anos, éramos sete moradores. Visitas de parentes eram raras e a família parecia feliz na sua vida pacata.

Passou o tempo, os três filhos se formaram e a seguir Lucrécia foi contratada por um hospital como Psiquiatra numa outra cidade; Beto “mergulhou” no trabalho obcecado por ficar rico a todo custo por seu próprio esforço e morava na cidade onde trabalhava; Marcio, após de graduar-se em Botânica, continuou morando na casa dos pais, era um rapaz introvertido e pouco falava.

A vida, que transcorria tranquila, foi interrompida por dois eventos que me perturbaram! O primeiro foi a morte do casal num acidente de carro que, segundo a policia, teve como causa o cansaço de seu Fernando que o levou a bater o carro contra um enorme caminhão na contramão. Eu sabia que seu Fernando era um homem prudente, não bebia nem tomava remédios e conhecia bem o caminho; a autopsia não encontrou sinais de nenhum distúrbio físico, mas o acidente me botou “uma pulga atrás da orelha”! Comentei com a  polícia minhas dúvidas, mas  sem resultados.

Pouco depois do acidente Lucrécia desapareceu e jamais tivemos nenhuma noticia. Transcorrido mais de um ano até hoje a polícia não descobriu se ela está viva ou morta! O único fato que lembro é que quando Lucrécia se despediu para a sua cidade, Marcio lhe entregou um pacote cujo conteúdo nunca soube o que era.

Foi quando teve a certeza quem alguém estava tentando eliminar a família, mas agora só ficaram dois: Marcio ou Beto. Qual deles?

A senhora avisou a policia? Perguntou o Padre

— Não! Eles não acreditariam em mim, foi assim na morte do casal e agora não seria diferente, só tinha minha palavra como prova e isso não era suficiente. Estou vivendo apavorada, mas continuo com minha certeza de que o assassino é um deles!

Foi por isso que decidi vigiar com cuidado a vida de Marcio, era o único que eu podia vigiar e é era meu principal suspeito, além disso, ele possuía um laboratório bem aparelhado num amplo depósito colado à casa e onde manipulava, nas suas horas vagas, ervas e outros produtos que nunca vi,  mas cujos cheiros acostumavam invadir a residência.

            — Mas dona Mercedes, são todas conjecturas, né?

Isso era o que eu também achava até que um dia, arrumando as gavetas de seu Fernando encontrei seu diário, a última anotação tinha sido feita quatro dias antes do acidente que matou o casal e onde estava anotado o seguinte: “Segunda Feira, dia de ir ao banco trocar as ações ao portador por ações nominativas”, a anotação estava datada!

No banco o gerente, meu conhecido, me informou que as ações eram ao portador e ainda estavam em custodia no nome de seu Fernando. O valor dessas ações dava uma bela fortuna, era um montante muito alto!

Num fim de semana prolongado apareceu Beto para passar uns bons dias na residência, dizia estar com saudades e cansado de tanto trabalhar nos últimos tempos.

Nesses dias dormi aos sobressaltos e num deles escute ruídos leves e palavras abafadas, me deslizei com muito cuidado e silenciosamente na direção dos sussurros e vi duas pessoas carregando o que parecia ser um corpo numa mortalha dirigindo-se pra fora da casa. Desci, contornei a casa  o que vi naquela noite o que me atormenta até hoje!

Fez-se um longo silêncio e logo o Padre disse:

            — A senhora precisa denunciar os criminosos! Falou em duas pessoas, quem são elas?

— Todo o que disse para o senhor está registrado detalhadamente no envelope grande sobre minha cômoda, entregue-o à policia por favor, é meu depoimento  e também contém provas concretas do terrível assassinato do Beto cujo cadáver foi  enterrado num buraco cavado com antecedência, no piso  do depósito.

— Bom, pelo que a senhora falou dá para saber que um dos assassinos é o Marcio e quem seu cúmplice?


— A arrumadeira Dulce, eles são amantes! E como pretendiam ficar com toda a fortuna precisaram matar quatro pessoas, meu Deus!

A MULHER DE BRANCO - Jeremias Moreira

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A MULHER DE BRANCO
Jeremias Moreira

Gata mulher de branco!

Usava um vestido branco. Simples, mas encantador e provocante. Exibia um decote ousado que ressaltava os seios bronzeados e de onde saiam duas alças que prendiam com um lacinho, na nuca. O que lhe dava certa graça e um ar dúbio. Um misto de inocência com adequada malícia.

Ela chegou-se sem que eu me desse conta. Ansioso, olhava ao redor à sua procura quando a percebi parada, na minha frente, com olhar esmeralda cravado em mim. Não consegui articular uma palavra. O que fiz foi olha-la e desfrutar sua beleza.

Gata mulher de branco!

O saguão do hotel estava coalhado de congressistas. De repente o burburinho cessou. Fez-se o silêncio típico da hipnose coletiva. E vi um grupo de homens enfeitiçados pela exuberância de uma mulher.

Meu tolo orgulho de macho se manifestou e sorri jubiloso. Ela era de uma beleza transcendente e estava ali por mim e para mim.

Senti nos olhares daqueles homens que cada um daria a vida para estar em meu lugar.

Gata mulher de branco!

Delicadamente peguei-a pelo braço:  

Vamos sair daqui!

Acenei para o táxi e partimos.

Sempre me lembrarei daquela noite!

Em todos os lugares por onde passamos fui visivelmente invejado.

Tudo esteve incrivelmente perfeito. Inclusive nossa despedida, pela manhã!

Depois disso ela desapareceu e jamais tive nenhuma notícia.

Foi como uma brisa suave e boa que passou e deixou um frescor delicado armazenado, para sempre, na memória. 


Gata mulher de branco!

Brincadeira Perigosa. - Sergio Dalla Vecchia




Brincadeira Perigosa.
Sergio Dalla Vecchia


Há algum tempo vendo as imagens pós bombardeio da cidade de Aleppo na Síria,  muito me impressionou a figura de um menino que acabara de ser resgatado dos escombros. Quase fui às lágrimas!

Sua fisionomia era estática, não ouso querer saber que se passava naquela cabecinha com os estrondos das bombas, o prédio desabando, o soterramento e por fim o resgate!

Lembrei-me na hora do meu filho, mas logo aquietei cantarolando algumas músicas que enaltecem a nossa pacifica pátria:

Quem nasceu na minha terra nem sabe o que é guerra!

Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza! 

Mesmo assim, fazendo um esforço, tentei me colocar no lugar daquele menino, que por horas ficou imóvel com entulho lhe pressionando as pernas, os braços, a falta de ar e o pavor do desconhecido!

Será que ele pensou na morte?

Mas crianças morrem?

Não! Crianças não morrem. Elas só terão a insígnia de mortais quando seu cérebro entender o que se passa no mundo real e não no seu mundo encantado, onde a inocência é o programa de governo.

Pediu socorro para a mamãe e para o papai?

Cadê eles?

Mas para que? A brincadeira de se fingir de soterrado estava tão boa!

E de repente surge um bombeiro com uma pá, que com muito cuidado o resgatou. Rapidamente o envolveu nos braços e foi correndo para uma ambulância acomodando-o sentadinho em um banco.

Ele ainda confuso, meio emburrado, passou a mão na testa e pensou:

Por que acabaram com a minha brincadeira de guerra?

E por ironia do destino eu assisti na semana passada a um telejornal que mostrava o resgate de uma menina nessa mesma cidade. Parecia uma cópia do primeiro! Já não fui mais as lágrimas, apenas engoli a seco e respondi à pergunta do menino:


Menino, pode ficar contente, você brincará de guerra por muito tempo!

SANDUÍCHE DO QUE? - Jeremias Moreira

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SANDUÍCHE DO QUE?
Jeremias Moreira

Meio da tarde, é quando Juca deixa sua sala, dá uma escapada para o terraço e fuma seu cigarrinho. O lugar é agradável, ajardinado, ensolarado e tem-se uma bela vista da Praça da Sé. O problema é a praga do cigarro que ele não consegue largar. No entanto. Desse mirante privilegiado percebe que nesse horário dá-se a chegada do mulherio que faz ponto no Boteco do Portuga e imediações. Entre as mulheres uma mulata se destaca. Um mulherão exuberante de derrubar regimento!

A família em viagem, solitário na cidade, Juca resolveu conferir a mulata de perto. Saiu do escritório para um café no tal Boteco.

No primeiro gole quem se encosta? Ela mesma! A mulata arrasa quarteirão, que tête-a-tete confirma a deliciosa avaliação que fizera do alto!

Buscou no fundo do baú sua verve galanteadora e soltou:

− A beldade como se chama?

− Doca! Para os íntimos, Doquinha! − Ela responde, se aconchegando.

− E a Doquinha tá afim de que? − Juca retruca indo direto ao ponto.

− De um drinque à meia-luz na pensão da esquina...

A essas alturas mal sabia Juca com quem se metia. Teve o primeiro alerta e ignorou, quando o bate-papo foi interrompido com a chegada de uma “perua” empetecada:

− Cuidado com essa “piranha”! É a maior enroladora do pedaço...

− Se manda daqui sua “velha coroca”, seu tempo de uva já era! – Reage Doquinha!

Juca, dando uma de apaziguador gostosão, interfere:

− Calma, calma... levo as duas! Mas, tem que ser pelo preço de uma.

− Ah! O meninão tá afim de um “misto quente”? Tudo bem, o freguês é quem manda! Mas, nesse caso o pagamento é adiantado!   − Avisa a dupla assanhada...

Vislumbrando uma tarde inesquecível e no “aperto” em que se encontrava, Juca topa a parada e paga.

As duas mulheres confabulam.  Doquinha volta-se para Juca e diz que elas vão buscar “vitamina” pra turbinar o “fuzuê”. Cada uma conhece um “fornecedor” diferente. Vão escolher o mais barato.

− Vai indo e aluga um o quarto que logo estaremos lá. Vai se preparando queridão, que a tarde será longa! – Avisa a mulata, toda dengosa!

Depois desse dia, nunca mais Juca voltou ao Boteco! Lá, ficou conhecido como “Mortadela”. O que está esperando as duas fatias do pão até hoje.

Texto solo a partir do conto DOQUINHA DA SÉ, criação coletiva de
Carlos Cedano / José Vicente / Jeremias Moreira



A cidade se transforma e transforma as pessoas. - Maria Amélia Favale

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A cidade se transforma e transforma as pessoas. 
Maria Amélia Favale

Tenho uma foto nas mãos onde aparece da Avenida São João, é de 1860. Se não houvesse uma legenda, eu jamais conseguiria reconhecê-la. 

Lembro muito bem da ladeira que ainda hoje é tão íngreme quanto antigamente.

O prédio dos Correios e Telégrafos, construção tão preservada!

No entanto, vejo com tristeza que não aconteceu o mesmo com o Hotel Itália Brazil com "z", engolido pela história da cidade. Em seu lugar a família Martinelli  levantou o Edifício Martinelli, que está até hoje em funcionamento, e é turisticamente visitado. A história ganhou outra história com ele.

A ladeira do Anhangabaú era constituída por humildes casebres. Atualmente são hotéis, prédios, muitas lojas e intenso movimento de pedestres. É o caminho de  comunicação com o centro, Avenida Brigadeiro Tobias, Largo Paissandu, etc...  

A cidade se transforma e transforma as pessoas. 

A CAÇA - Mario Augusto Machado Pinto



A CAÇA
(Título original: ONDE?)
MÁRIO AUGUSTO MACHADO PINTO.

A vida de advogado criminalista é cheia de surpresas. Afora as próprias da vida, há as que nos proporcionam consulentes e futuros constituintes. Aqueles com a “esperteza matreira”, estes pela transformação do anjo inicial em verdadeiro componente de Caixa de Pandora (que na verdade era um jarro), mas tudo bem. As surpresas fazem parte obrigatória do nosso cardápio diuturno. Como diria o Acácio: durma-se com um barulho desses!

Hoje recebi um rapaz do interior. Enquanto entra na minha sala, observo, pelo jeitão é do campo, da lavoura, trabalho manual, um pouco acanhado, roupa amarfanhada, botinas de couro cru de cor beije, rosto com sobrancelhas arqueadas, olhos tristes, barbicha crescida, cabelos compridos revoltos, orelhas de abano. Surpresa: nariz grego, ruga marca de vida, boca caída formando lábios grossos e dentes bem brancos. A surpresa são os dentes: tem-nos todos.

Cumprimenta com um forte aperto da mão grande e calosa. Diz chamar-se Rui, sobrenome Ronco, e está procurando se informar das leis pra uma coisa que quase fez, mas que vai tentar de novo. Depende da lei, claro.

Respondendo ao cumprimento digo para ficar à vontade e pergunto do que se trata.

A resposta é impactante: “se trata de matar o assassino da minha mãe” - diz. Assim. Ponto.

Há aquele silêncio de cachorro louco e ele, tomando a dianteira, fala que vai contar o porquê, mas resumindo porque a estória é longa. E contou:

Ele e sua mãe moravam na colônia da Fazenda Brinquinho, no Cariri. Seu pai devia estar por aí em algum lugar. Trabalhavam muito, sempre desde as seis da manhã para ganhar mais. Cada um ia pra um lado da roça que é longe. Certo dia cortou o dedão do pé e voltava mais cedo pra casa quando escutou gritos e urros de gente. Correu praquele lado e viu a mãe numa cruz posta de lado braços e pernas amarrados e um homem ajeitando as calças, saindo dela. Correu pra lá, no olho tudo virou sangue, levou um tiro no braço – ó a marca – caiu, mas viu o homem: o Brigito. Subindo no cavalo gritou pra ele: Alice é muito boa. Cai fora moleque! E sumiu, nunca ninguém mais viu.

Comentou: “não precisava ser do Cariri pra entender o que tinha que fazer, né? Lavar a honra dos Roco com o sangue do Brigito. Entende doutor? Pois é.”

Deixou tudo e seguiu os passos dele até aqui nesta cidade. Viu e sabe donde mora e trabalha. Perguntou:

Agora me diga doutor: se eu matar ele, o que me acontece?

Expliquei salientando que seria julgado e poderia sair condenado ou inocente. Apontei alguns detalhes. Enquanto falava observava o comportamento do Rui “felino observando o entorno de sua presa”.

Depois de um pouco pensar disse:

—  Doutor, entendi quase tudo e acho que vou correr o risco. Afinal o Sr. me foi muito recomendado. Preciso saber duas coisas: a primeira é quanto vai me custar. O Sr. já viu, né, não sou rico.

Expliquei o quanto custariam despesas judiciais, meus honorários e como deveriam ser  pagos. Ele concordou, mas disse que ainda precisava saber a segunda coisa. Disse-lhe que podia perguntar.

E, muito sério, falando baixinho perguntou:


— Onde compro a espingarda pra matar o Brigito?

São Paulo de Piratininga - José Vicente J. de Camargo


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São Paulo de Piratininga
José Vicente J. de Camargo


Ele terminara mais cedo  o serviço no escritório. Estava indo pegar o metro para casa, quando algo, como uma voz chamando, faz girar sua cabeça e vê a igrejinha do Pátio do Colégio no centro antigo da cidade. Várias pessoas circulando, outras em pé olhando ou batendo papo, nenhuma feição conhecida. Mas, esse minuto de parada teve para refletir que estava no local onde a cidade foi fundada há mais de quatrocentos e cinquenta anos pelos Jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta. E aquela voz que ouvira há pouco, parecia agora chamá-lo para entrar no edifício histórico a sua frente, hoje museu.

Sempre passava por ali, mas nunca com tempo de visitá-lo. Hoje iria satisfazer a vontade.

Ao caminhar para a porta de entrada, já se sentia na colina que os jesuítas escolheram, por razões defensivas, para erguer um barracão em taipa de pilão coberto de sapé como moradia e capela, onde seriam acolhidos os primeiros índios para a catequese, hoje tão criticada pelos estudiosos como um erro sociocultural.
No hall de entrada, vários painéis com textos e fotos expõem a evolução da cidade desde a fundação. Lê-se que não longe dali, na catedral da Sé, está a tumba do cacique Tibiriçá, dos índios Tamoios, que apoiou e defendeu a missão jesuítica, dos ataques de tribos inimigas e dos portugueses em busca de mãos escravas.

A São Paulo de então, denominada assim por ter sido fundada com uma missa no dia da conversão de São Paulo ao cristianismo, 25 de Janeiro, era cercada por brejos, ribeirões, várzeas alagadiças e outras colinas.

A humilde missão jesuítica prosperou, transformou-se num colégio e deu origem a megalópole de hoje. Relatos de visitantes da segunda metade do século dezenove descrevem a surpresa com o grande número de igrejas, cujas torres quebram a sinuosa monotonia do horizonte:

“As ruas são estreitas, tortuosas, mal calçadas, mal iluminadas, com casas baixas quase todas de um mesmo tipo monótono e desgracioso. Cinquenta mil habitantes na sua maioria funcionários, soldados e estudantes a povoam sem animá-la”.

Num dos pinéis expostos, vê-se uma foto ilustrativa de um casarão de dois pisos, tendo o de cima uma fileira de janelões cada um abrindo para um pequeno alpendre ornado por um quadril de ferro fundido. No piso térreo, grandes portas abertas para a calçada indicam ser ali um comercio. Aproxima-se e lê: “Rua São Bento – 1865. Foto de Militão Augusto de Azevedo, fotógrafo pioneiro da cidade”. Encostado à soleira de uma das portas está um jovem bem trajado, de chapéu, casaca e cachimbo na boca, mirando a calçada em frente, onde uma charrete, atrelada a um belo baio, está à espera de seu condutor.

Novamente algo o força a ler a etiqueta de identificação: Rua São Bento...
Pensa, reflete, esforça a memória...

Sim, esse era o nome da rua! Da história que meu pai contava que seu bisavô, meu tataravô, imigrante português da região do Douro, tinha um palacete com um armazém de secos e molhados no piso de baixo. Começou vendendo banha de porco num carrinho de mão. Prosperou, ficou rico. O que mais me marcava nessa história é que ele se apaixonou loucamente por uma moçoila de quinze anos com quem se casou. A chamava de “Dona Alma” tal a afinidade que tinha com ela. Ela morreu no parto do seu décimo filho. Ele, não aguentando a falta de sua alma gêmea, entrou em profunda depressão, vindo a falecer logo depois. Meu pai utilizava esse destino “de amor e morte” para justificar porque não nascera rico. É que o tutor da família, nomeado pelo seu bisavô no leito de morte, não tinha nenhum timbre comercial para dar sequência ao próspero comercio do armazém. E o sustento da numerosa prole até a maioridade, sugou toda a fortuna acumulada...

Ele volta a mirar a foto de longe, de perto, de vários ângulos, a procura de detalhes. Foca na imagem do homem na soleira da porta. Será ele? No que estaria pensando ou aguardando? Talvez que sua alma gêmea terminasse a toalete para irem passear de charrete pelo então centro histórico formado pelas das ruas Direita, São Bento, da Imperatriz – hoje 15 de Novembro – passando pela Praça da Sé, pelo largo São Francisco – esse não creio, dado aos estudantes saindo da faculdade de Direito ali instalada e que poderiam lançar olhares de admiração à sua querida consorte. Certamente não passaria também pela Rua Tabatinguera, onde costumava dar suas escapadas para visitar as polacas quando sua esposa estava de resguardo. E se o tempo estivesse agradável, não deixaria de mostrar o solar da Marquesa de Santos – Domitila de Castro e Neves – com a qual D. Pedro I alimentou por vários anos os cochichos amorosos da corte, e o Hotel Itália onde o poeta-estudante Castro Alves curtia a boemia em ardentes noites de amor.

Uma voz silenciosa, vindo por trás, lhe tira a concentração imaginativa:

− Senhor! O museu está fechando...

No metrô, em direção a casa, recapitula o acontecido. Será que aquela força repentina que sentiu, atraindo-o para o museu, para a foto, era um “chamado” do seu tataravô? Teria algum significado? Ele não acredita em espiritismo ou nas ditas “forças da mente”, mas também não tem motivos para não crer, já que muitas pessoas as estudam com afinco.

Neste momento se lembra que há três meses terminara o namoro com Miriam. Eles se amavam, mas havia muitas incompatibilidades entre eles. Eram muito diferentes. Desde então procura alguém que seja mais compatível, mais compreensível com ele:

Uma alma gêmea”? Seria esse o conselho que seu avô tão distante queria lhe dar...?

Mas não seria muito monótono? Tudo igual, parecendo uma sombra? Para ele, que gosta de um cantinho só seu, seria irritante. E depois tantos filhos, a depressão profunda?


Não! Nos dias de hoje o melhor é escolher uma companheira que esteja no meio termo, sem riscos...

Doquinha da Sé - Jeremias Moreira - Carlos Cedano e José Vicente J. de Camargo

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Doquinha da Sé

Conto Coletivo elaborado em sala:
Jeremias Moreira
Carlos Cedano
José Vicente J. de Camargo


Juca saiu do escritório para um café no boteco do Manoel na Praça da Sé. No primeiro gole se encosta nele uma mulata bem dengosa, soltando um sorriso e um olhar convidativos. Ele, que estava “naquela” com a mulher há dias em viagem, pergunta:

− A dondoca como se chama?

Ela se aconchega mais e responde:

− Doca, para os íntimos, Doquinha...

E ele retruca:

− E a Doquinha tá afim do que?  

− De um drinque à meia-luz na pensão da esquina...

O bate-papo é interrompido com um tapinha no ombro de Juca por uma “perua” empetecada que alerta:

− Cuidado com essa “piranha”! É a maior enroladora do pedaço...

Doquinha reage:

− Se manda daqui sua “velha coroca”, seu tempo de uva já era...

Juca, dando uma de gostosão, interfere:

− Calma, levo as duas pelo preço de uma.

− Só pagando adiantado! Avisa a dupla assanhada...

Juca no “aperto” em que se encontrava, topa a parada e paga.

Doquinha e a amiga cochicham a ele que vão buscar “vitamina” pro “rola-rola” descer melhor. Cada uma conhece um “fornecedor” diferente. Vão escolher o mais barato.

− Enquanto isso, vai alugando o quarto que daqui a pouco estamos lá. Vai se preparando queridão, que a tarde será longa...

Depois desse dia, Juca evita o cafezinho do boteco. Sente-se mal diante dos comentários que ouve:


−Esse aí é o fulano que levou o “chapéu” das vigaristas. De galã gostosão passou a trouxa que pagou gato por lebre e assim mesmo não levou...

São Genaro - Sergio Dalla Vechia, Suzana da Cunha lima, e Maria Luiza C Malina


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São Genaro
Conto Coletivo elaborado em sala:
Sergio Dalla Vecchia, Suzana da Cunha Lima e Maria Luiza C Malina.

Conheço Genaro há muito tempo. Só frequenta o boteco do Chicão, sempre na mesma mesa e pedindo as mesmas coisas: primeiro, a cachaça, a boa, que ele sabe que o Chicão guarda a sete chaves, embaixo do balcão,  e depois, para acompanhar a linguiça calabresa bem apimentada, assada no álcool. Isso é para abrir o apetite, deixá-lo pronto para o principal, que, como sempre, era a costela no bafo, especialidade da casa, cujo cheiro era sentido ao longe.

Naquela tarde, estava seguindo o mesmo ritual,  quando, de repente, aparece à sua frente, uma mulher que jamais havia frequentado o bar: sensual, seios fartos, do tipo gostosona, num vestido vermelho curto e justo.

Pela primeira vez, Genaro distraiu-se do que comia, parou o garfo a caminho da boca, enquanto seus olhos grudaram naquele monumento.

Não reparou que ela estava acompanhada de um grandão, tipo lutador de UFC, encostado no balcão.  Nem deu tempo de ele dizer a gracinha que já estava na ponta da língua.  Tomou um amassa-brinco que fez rodar o garfo, a costela, e ele próprio caiu no chão, sem saber direito o que estava acontecendo.

Só reparou que o fortão achegou-se à mulheraça, abraçou-a apertado, deu-lhe um beijo comprido na boca e em seguida disse para ele, com ar de deboche:

— Esta mulher tem dono, seu babaca!