Berlim 50 anos - Ises de Almeida Abrahamsohn



Berlim 50 anos
Ises de Almeida Abrahamsohn

Ilse  estava lendo no seu quarto quando o genro a chamou:

Rápido venha, D. Ilse, venha ver  o noticiário, caiu o muro! Caiu o muro de Berlim.  

Ilse  caminhou devagar apoiada na bengala  até a sala de televisão. - “Enfim, aconteceu - pensou - os jornalistas já previam há tempo e, hoje mesmo, o correspondente confirmou que era  coisa de dias”. 

A velha senhora movia-se devagar ao longo do corredor. O joelho e as artroses  tolheram-lhe  a agilidade.   Quase oitenta anos. Também, o que esperar? Estava grata  ao destino  que  o cérebro continuasse  alerta. Também os olhos  azuis haviam perdido brilho mas ainda lhe serviam bem para  a sua maior distração: ler . Primeiro, pela manhã, o jornal: o Estadão, que mesmo nos tempos difíceis não deixara de assinar. Dizia que lá encontrava o português bem escrito, nos editoriais  e  nas noticias que seguia nas áreas  internacional e  economia.  À tarde após a sesta, era a vez dos livros.  Tinha predileção por romances históricos,  mas sem desprezar  a literatura clássica e contemporânea em inglês ou português.  Tinha lido a maior parte dos clássicos e, quando estava entre - livros , como dizia, recorria a Shakespeare  e  ao velho testamento - “ Os grandes dramas e  enredos estão lá, dizia ao neto adolescente”.

No geral, Ilse desdenhava a TV, com exceção do noticiário  ou  de algum raro  programa  da TV cultura.  Dizia  que  o imaginário da leitura  era muito mais rico do que  as  novelas, pobres de linguagem  e  de  atuação.

Chegou sem dificuldades até  o quarto  onde ficava a TV e onde já estavam todos,  hipnotizados    pelas imagens que se sucediam acompanhadas pelos comentários do narrador entusiasmado. Era   a noite de 9 de novembro de 1989.  Na tela,  a euforia do povo, os jovens escalando o muro  ou sentados ao alto com as pernas balançando. Pessoas se abraçavam aqui e ali.  Multidões encasacadas  e alegres caminhavam  na noite fria pelas avenidas e ruas, cruzavam  a chamada faixa mortal  rente ao muro e  se espremiam para  passar pelos checkpoints.  Guardas da DDR  ou  RDA – República Democrática  (que piada)  Alemã  com seus uniformes verdes e botas altas  olhavam incrédulos  e temerosos  sem saber o que fazer ou direção tomar. Alguns mais corajosos  avançavam em meio ao povo para, eles também,  chegarem ao lado ocidental.  As câmaras de filmagem  mostravam  os vários pontos do muro e as pontes Oberbaum  e Glienicke  repletas de  pessoas.

O neto de quinze anos entusiasmado perguntou:

E então vovó, reconhece os lugares que estão mostrando?  Você viveu uma época em Berlim, não é? Agora, poderia voltar lá para visitar.

Meu querido neto, estou contente porque o muro caiu. Minha prima Ruth poderá enfim se reunir com  o irmão e viver a sua velhice com maior conforto no lado ocidental . Muitas outras famílias poderão enfim se reunir. Mas eu não tenho nenhum desejo de lá voltar. Algum dia você poderá ler a minha história e entenderá  as razões.

Levantou-se  e,  com semblante pensativo,   se afastou  antes do fim do noticiário.

Na sua poltrona, voltou ao livro, mas não conseguiu retomar a leitura. Pensou como detestava Berlim.   A guerra já havia começado e ela não conseguia a autorização  para voltar ao Brasil onde moravam seus pais. Precisavam do seu trabalho para o esforço de guerra, era a desculpa que lhe davam. Petições e horas de espera por entrevistas que resultavam em negativas. O seu dossiê não ajudava muito. Nunca demonstrara maior  simpatia  pelo partido.  A fuga para a Suécia de seu tio Friedman, advogado de renome, casado com a irmã de sua mãe, constava  na sua ficha, como lhe era às vezes  lembrado .  Claro que tinha fugido!  Há quatro anos, em 35, ainda conseguira  sair  ou  teria sido preso. Estavam a salvo em alguma pequena cidade  do interior .

Vieram-lhe à mente os dois anos seguintes   até  escapar  daquela cidade. Dois anos de sirenes, bombardeios e de racionamento. O pior eram as corridas para os abrigos antiaéreos em meio ao black-out

Não queria relembrar  e instintivamente apertou bem os olhos  como se assim pudesse expulsar  aquelas  visões   da  retina. 

”Eu,  como todos  naquela área,   já dormia  meio vestida, com casaco e sapatos ao lado e a sacola para pernoitar no abrigo. Vejo-me  correndo ao longo do corrimão pelos dois lances da  escada   escura até chegar à porta da rua. Vultos como eu, ao longo das calçadas com crianças chorando, outros apoiando velhos trôpegos na direção do abrigo a dois quarteirões.  As sirenes tocando e já se ouvia o explodir das bombas  e ao longe algum clarão de incêndio.  O túnel do abrigo, superlotado e malcheiroso. Cheiro  de mofo, de fumo estagnado , de gente  mal lavada e suada e,  principalmente ,  o cheiro de medo. Quantas vezes  os detritos de bombas próximas  haviam bloqueado  as  saídas   de algum  abrigo !  As  mães tentavam  acalmar os pequenos  e discussões irrompiam por um nada.  Muitos fumavam, o que tornava o ar mais irrespirável. Diziam que lhes acalmava os nervos ....  Ainda bem que nunca fumei; os preciosos cigarros da ração me rendiam gramas a mais de manteiga e pão no mercado negro. Quando  achei  que nunca conseguiria sair  de Berlim,  veio  a autorização para  sair do país, por avião , até Barcelona , de onde eu poderia chegar de trem até  Portugal.  Por várias noites me preparei, vestida com as  roupas que conseguira enfiar umas sobre as outras sob  um casaco grosso e  com minha maleta de mão com o essencial  e meia dúzia de fotografias.  O  avião era um bimotor para 5 passageiros que deveria  voar à noite para escapar à detecção dos radares . Depois soube tratar-se de um Siebel, desenvolvido apenas para viagens curtas.  Chovia forte e eu era sacudida  em todas a direções.  Havia apenas mais dois passageiros além  de mim; éramos  três desconhecidos,   calados e encolhidos tentando  em vão  não vomitar.  O cheiro se misturava aos do combustível  e da borracha  aquecida.

Lembro-me  de sair  do avião  meio tonta  e  por sorte, graças  ao  meu  português,  consegui chegar  até  a gare e  comprar   passagem  até Lisboa  onde me aguardavam. Uma semana depois,  soube que o  prédio onde eu morava  tinha virado cinzas. “

Ilse  abriu os olhos,  no relógio da estante  não haviam passado mais que três minutos  desde que voltara ao quarto.  

Levantou os olhos e viu o jovem hesitante  parado à porta.

 — Vó , desculpe, não queria reavivar as suas lembranças tristes! 

— Não tem nada meu neto. Apenas  digo que, apesar da bagunça, para mim o Brasil é o melhor país. Não voltaria a morar na Europa!


Ossos do ofício - Jeremias Moreira



OSSOS DO OFÍCIO
Jeremias Moreira

Na quinta feira o Tocha e o Leco me desafiaram para uma partida de sinuca. Só mesmo dois otários como eles arriscarem-se a jogar contra mim. Mas, tudo bem! A grana é deles e não tenho nada a lamentar quando surge uma baba como essa. Marcamos para a manhã do dia seguinte, no bar do Arnoni, onde tem seis mesas de bilhar. As melhores da cidade.

Acordei tarde, perdi a hora e saí em disparada. Quando passava pela casa do Dr. Bernardo, vi que a família saia de viagem. Notei que o Sportge estava atolado de bagagem. Sinal de que passariam o final de semana fora.

Registrei num relance, mas não era assunto para a ocasião. Dentro de instantes me ocuparia em depenar dois patos.

Dito e feito! A manhã não poderia ser mais proveitosa. Adotei a técnica engana migué. Vez ou outra você perde uma. Isso deixa os trouxas entusiasmados e eles vêm com tudo. Nessa hora a gente dá o bote.  E assim vai levando. Quando os patetas se deram conta, eu já tinha ganhado uma boa grana.  

Cumprida essa primeira tarefa do dia, voltei a focar na viagem do médico e na casa que estaria vazia por alguns dias.

O Dr Bernardo é muito bacana. Tratou da erisipela bolhosa, que tive na perna, e nem me cobrou. Isso me fez pensar um pouco se não era sacanagem invadir a casa dele. Porém, se trata de assunto de trabalho e não dá pra misturar com amizade. Minha conduta é profissional! Deu moleza, vou na goela! Coerente, tomei a decisão! À noite entraria na casa!

Não deu outra. Esperei escurecer e pulei o muro, evitei a fiação do alarme e fui direto ao vitrô da copa, que sempre são os mais fáceis.

Esgueirei-me pelo vão estreito e num zás-trás estava dentro.

Percebi que o estômago roncava de fome, então fiz uma visita à geladeira. Havia um pedaço de uma torta de frango e uma travessa com manjar de laranja, pela metade. Acabei com os dois.

Satisfeito fui para sala. Peguei algumas peças de prata e uma montanha de CDs. Coloquei tudo dentro de uma mochila.

Eu deveria me dar por satisfeito e ir embora. Porém, quando é muita  moleza fica difícil a cabeça não entende que é hora de parar.

Resolvi conhecer a casa. Muito bacana. Fiquei de queixo caído com os quartos. Bonitos demais e cada um com seu banheiro. A suíte do casal era maior que a minha casa. E a cama então? Supermacia!

Resolvi tirar uma soneca. Foi o maior erro. Acordei com vozes que vinham da parte de baixo.

Ferrado no sono e não percebi que amanhecera.

E lá estava a Rita, a empregada, que chegara para a faxina e trouxera o filho. Um negrão peso pesado, que eu conheço aqui do pedaço. Seu nome é Valdir, mas é conhecido como Cachorro Louco, de tão esquentado!

Ela percebeu a louça suja sobre a bancada e depois viu o vitrô aberto e deu o alerta:

− Meu Deus! Entrou ladrão na casa!

Pego de surpresa, fiquei sem ação. O quarto ficava no andar superior. Se eu pulasse poderia me estrepar todo por causa da altura. Também não queria enfrentar o Valdir.  Estava vacilando e o tempo jogando contra.

Indeciso, ouvi o ruído da maçaneta, a porta abrindo e a figura do negrão ocupando todo o vão do batente.

O Valdir me encarou com cara de “vou te estrangular”. Eu olhei para ele com cara de cachorro na chuva e fiz a única coisa que me ocorreu. Um sinal apontando a mochila.

Lentamente ele virou-se, viu a mochila e refletiu um pouco. Virou-se para mim, estendeu uma mão espalmada. Com a outra, como se fosse uma faca, bateu duas vezes na estendida.

Concordei na hora!

Ele gritou para a mãe:

 Ninguém aqui em cima! Os gatunos já deram no pé faz tempo!

Desceu e levou a mãe consigo para olhar nos fundos da casa.

Era a deixa! Aproveitei e me mandei pela porta da frente!

Mais tarde nos encontramos e o Valdir quis a parte dele em dinheiro.

— Vai ter que esperar eu vender ou aceitar duzentas pilas, que é o que tenho agora!

— Aceito os duzentos!

 Ô soneca cara! Ainda bem que ele optou por receber adiantado, senão ia me custar metade do butim. Mas fazer o quê? Toda profissão tem seus contratempos.

São os chamados “ossos do ofício”!    


DA ESQUERDA PARA O DIREITO - Oswaldo U. Lopes



DA ESQUERDA PARA O DIREITO
Oswaldo U. Lopes

       Jose Roberto era jovem, quase na média, um pouco mais a esquerda talvez. Um pouco mais irrequieto. De um pouco mais a um pouco mais, fora parar na ponta da curva de Gauss e dali para a clandestinidade e a luta armada.

        Era estudante de medicina e nesse vai e vem acabou se formando e fazendo residência de cirurgia. Não tinha índole para segurar armas, participava ou na logística ou no que sabia mais, assistência aos feridos.

        Desenvolvera uma capacidade fantástica de tratar, operar e curar gente nas piores condições que nem em guerra se veem. Foi pego pela repressão e pego com raiva. O Dr. Danilo, seu codinome, era conhecido da ditadura pelo excelente tratamento que proporcionava aos guerrilheiros.

        Foi judiado, torturado, não pelas informações que podia fornecer, eram poucas e mutantes como seus algozes sabiam. Endereços, codinomes, pontos de acolhimento eram voláteis por natureza. Foi torturado para deixar de ser besta e deixara!! Depois que fora julgado pela Justiça Militar, ficara preso por quatro  longos anos, ao fim estava de ânimo alquebrado e vocação partida.

        Quando saiu, o trem já tinha passado. Velhos colegas tinham se arrumado na vida. Embora respeitassem o que fizera, não encontrava acolhida profissional. Tentou aqui e acola e descobriu que as portas estavam cerradas. O aparato militar, o sistema como chamavam, fazia de tudo para marginalizá-lo, e marginalizado estava.

        Vai de aqui, vai de acolá, ouviu falar de um povoado na Amazônia, Jacareacanga, beira do rio, milicos  da FAB, médico nenhum, quer dizer, um, velho e doente que a morte qualquer dia iria aposentar.

Resolveu ir, era do jeito que imaginara, pois imaginara o pior. Hospital pequeno, mal equipado com dois auxiliares técnicos e um porteiro. No fundo uma pequena casa, quarto, sala, cozinha e banheiro. Instalou-se, conversou uma vez com o Dr. Estefânio que agradeceu aos céus e resolveu morrer perto do irmão em Porto Velho.

Dez anos são passados, o Hospital não cresceu muito, mas está limpo e equipado. O major da FAB comandante do destacamento local é visita frequente. O material ou medicamento que pede lhe são entregues no máximo em uma semana.
Da guerrilha trouxera a medicina de guerra. Operava  e salvava mais gente do que a memória conta. Praticava até obstetrícia, mesmo sendo especialidade particularmente detestada. Era raro dar outro destino ao doente, embarcando-o para um centro maior.

Era respeitado a mais não poder. Não podia acreditar que os da Aeronáutica lhe prestavam continência a começar pelo major cuja mulher ele salvara num parto prematuro e delicado. Há muita fantasia na Amazônia, o fato é que voar nem sempre é fácil, chove muito e as condições meteorológicas não são sempre convidativas. Tem pouco brigadeiro voando por lá, porque o céu nem sempre é deles.

Interrompiam reunião de vereadores para saudá-lo, queriam porque queriam elegê-lo para a câmara, para a prefeitura ou para qualquer coisa que quisesse.

Não fosse amigo do padre que tivera vida parecida, e teria sido eleito Jesus Cristo com direito a ressureição e procissão. O amigo fora um dos famosos padres de passeata.

Ninguém se conformava que ainda morasse no Hospital, embora a casa tivesse agora um segundo andar e três parabólicas diferentes.

Era respeitado até pelos índios que traziam, pelo rio, seus doentes, de longas distâncias. Fizera sugestões e trabalhos que culminaram em um verdadeiro oásis em que a febre amarela e a malária ficaram de fora.

Ainda era inquieto, ainda era amargo, mas muito amado, herói local intocável para quem não havia feriado nem dia santo. Tinha certeza de que o major conhecia sua ficha e suas antigas ideias, mas batia-lhe continência em respeito a seu presente e seus trabalhos.


No aqui e agora isso lhe bastava. Da esquerda guardava saudosa memória embora estivesse fazendo pelo sofrido povo, mais do que faria se tivesse ganhado a antiga parada.

Água mole em pedra dura... - José Vicente J. de Camargo



Água mole em pedra dura...
José Vicente J. de Camargo

Bene pôs o dedo no gatilho. Tinha os olhos fixos no açude – dava até pra chamar de poço – trazia o coração esmagado qual mandioca no pilão de farinha, as costas arcadas pelos anos de árduo trabalho naquela terra bruta, na lida dos animais, no recrutamento da peãozada, no controle cansativo dos boias frias, debaixo de sol causticante encrustando a pele. Preferia ser cego, não ter a desgraça de ver a terra contorcida, entrecortada por trincas, pedras ao léu e moitas de capim espinhento que nem carrapato se acomoda.

Mas não fora sempre assim...

Era uma beleza de dar gosto! O pasto verde dava conforto aos olhos, sossegava a alma, se sentia no bolso o volume das notas, o tilintar das moedas com a venda da colheita farta. A família ao redor da mesa, curtia a variedade de pratos de sabores refinados, feitos por Nha Dita, cozinheira de mão cheia, guardadora a sete chaves do segredo dos temperos. Os saraus de domingo a noite, embalados pelas sanfonas, cavaquinhos, violões e até flauta de sopro, levava o nome da fazenda Santa Rita aos quatro cantos da comarca – sem falar na festa do Divino que Dona Guiomar fez questão de trazer, no carro de boi, seu piano alemão. Tudo pra dar mais importância à festa daquele ano, que ele, Patrono, oferecera ao município. Três dias de festas, quatro bois abatidos, aguardente da mais pura cana destilada dias seguidos no alambique de cobre do compadre Teodoro, foguetório de muito brilho e cores trazidos diretamente da capital. Não houve outra igual. Nenhuma outra fazenda realizou festão igual ao da de Santa Rita. Ficou pra história...

Talvez até pudesse acontecer, se o destino assim quisesse, de um outro Patrono tirar-lhe o cetro e a coroa de melhor festeiro da região, se não fosse a desgraça da seca chegar, anos a fio, a corroer aos poucos o verdão dos campos, o amarelão do milharal, a gordura vistosa da criação, sugando a água dos córregos como uma esponja pegajosa até derrubar ao chão, agora amaldiçoado, a carcaça dos animais. A família se fora, expulsa pelo calor sem tréguas, pela água insalubre, pelas pragas peçonhentas que buscam a sombra da Casa Grande e trazem consigo as febres, as diarreias, as inflamações das coronárias. Com ela foram os demais serviçais, pé na estrada, em busca de outras paragens mais humanas, de sonhos possíveis de um dia acontecerem.

Mas ele se sente atado à terra que o viu nascer e crescer, não se acostumará em outra, um peixe fora d’água, não sobreviveria...

Então um estampido fura o ar quente, levando consigo o protesto de uma alma depressiva pela força desigual da natureza implacável...

Davi contra Golias!

Mas por que desistiu? Por que não invocaste o Divino?

Onde ficou a força dos antepassados transmitida de geração em geração? O viver até a última gota de sangue? Até o último pingo de suor? A fé de poder tirar água da pedra?

A perseverança traz o prêmio da conquista...

Há brasas debaixo das cinzas...

A terra, protagonista da história, se repete em ciclos.
Adormece, morre contorcida, mas se revigora nas entranhas e, explodindo, renasce germinando o ar.

A chuva voltou, os córregos correram, o verde brotou...

Nha Dita preparou o feijão tropeiro nos segredos dos seus temperos...



Uma nova oportunidade - Ledice Pereira



Uma nova oportunidade
Ledice Pereira

Ernesto era um jovem de classe média. Vivia num bairro em São Paulo com o pai, a madrasta e cinco irmãos. Seus avós maternos moravam na casa ao lado pra onde ele corria sempre. Gostava de lá ficar ao lado do  avô Antônio, marceneiro conceituado no bairro que lhe ensinava sua arte.

Não conhecera a mãe, que morrera de parto quando ele nasceu. Antônio o protegia, pois sabia que o neto não se dava bem com a madrasta e os irmãos.

Apesar de matriculado na Escola Estadual do bairro, o menino faltava muito e andava com uma garotada que preferia vagar por ali em busca de aventuras.

Embora inteligente, as más companhias faziam-no pender para outro caminho.

Com vinte anos ainda cursava o ensino médio. Faltava tanto às aulas que acabava repetindo o ano.

O pai desistira dele.

Ele é um homem, sabe o que faz. – dizia ele ao sogro quando este dizia que o pai devia chamar-lhe a atenção.

E o avô ficava muito triste de ver o caminho errado trilhado pelo neto.

Ernesto não conseguiu se formar. Abandonou a escola no sétimo ano do ensino médio.

Fez alguns bicos aqui e ali e aprendeu a fazer pequenos furtos com aqueles que se diziam seus amigos.

Aparecia em casa com celular novo, dinheiro, óculos escuros de marca e, quando interpelado pelo pai, dizia que ganhara de um amigo.

Até que o pai, sem nenhuma psicologia e instigado pela mulher, resolveu botá-lo pra fora de casa.

Antônio ainda tentou argumentar que isso não iria ajudar nada, mas o que ouviu é que não devia se meter.

— O pai sou eu e sou eu quem decide o que é bom pra ele.

Ernesto passou a viver na casa de amigos, às vezes dormia na rua, furtava pra poder comer e se vestir, até que lhe chamaram pra participar de um assalto.

Ele teria que praticá-lo sozinho. Seria a prova de fogo pra ver se seria aceito no grupo.

E Ernesto topou. Invadiu a casa bem na hora que a filha da dona da casa saía para a Faculdade. Rendeu todos que ali estavam e, ameaçando  atirar com a arma que empunhava, reuniu objetos de valor colocando-os numa sacola: dinheiro, dólares, celulares e joias que a família foi recolhendo e entregando.

Não escondera o rosto e, apesar de achar que tinha se saído bem naquela primeira experiência, em menos de uma semana foi detido, reconhecido e preso.

Os falsos amigos nem apareceram. E ele sem família, amargou dois longos anos, encarcerado.

Apenas o avô o visitou naquele período. A avó era uma pessoa doente. O pai não quis vê-lo mais.

Na prisão pensava em como poderia ter sido sua vida.

“Minha revolta com a vida só me fez parar no tempo. Tive a oportunidade de estudar, de ter uma profissão, mas eu me sentia responsável pela morte da minha mãe. E, de certa forma, eu percebia que meus irmãos também me culpavam e meu pai nunca me perdoou por tê-la ‘matado’. Isso talvez tenha influenciado no caminho que segui.”

Um dia teve  oportunidade de sair no Natal, em razão de seu bom comportamento, tendo sido informado de que o avô estava internado com uma doença grave. No entanto, não tendo pra onde ir, saiu sem rumo e pegou carona no primeiro caminhão que passou. E foi mudando de carona até que chegou a Santa Cruz do Arari, no Pará, um município com menos de dez mil habitantes,  e lá ele ficou.

Recebido pelo padre João,  num dia em que a chuva caía a cântaros, foi fazendo amizades, ajudando nas tarefas da igreja, e botando em prática o que aprendera com seu avô Antônio, grande marceneiro.

A vida ensinara que o caminho a tomar deveria ser outro, diferente daquele que havia escolhido.

Padre João, que simpatizara com ele, ensinou-o a comportar-se,  arrumou-lhe moradia, roupas e trabalho.

E ali, naquele lugarzinho perdido no mapa, Ernesto, agora William Pereira, traçou uma nova história de vida.

Ninguém imaginaria que aquele homem bom, trabalhador, caprichoso em tudo que fabricava, sobretudo bom marceneiro, tinha um passado tão nebuloso.


A vida lhe dera uma nova oportunidade que ele aproveitou.

Tsunami brasileiro - Ises de Almeida Abrahamsohn


Tsunami brasileiro
Ises de Almeida Abrahamsohn

Restava apenas uma parte da cozinha do que fora um dia sua casa. O torno destroçado emergia do barro seco a duas centenas de metros. João pisava com cuidado a crosta seca sobre a  espessa camada  de  lodo.  Os olhos marejados não acreditavam no que viam. Uma vida inteira arrasada por uma avassaladora torrente de lama. Havia um grito sufocado dentro dele, um pedido de socorro que somente Deus poderia atender.

Assim como ele, outros moradores de  Bento Rodrigues, distrito rural de Mariana - cidade  histórica brasileira,  buscavam  corpos soterrados, e pertences  nas ruínas  de suas casas.  As silhuetas das pessoas curvadas a esquadrinhar  aquela  árida paisagem marciana moviam-se em um balé macabro. O rastro de destruição da lama tóxica  se estendeu por quatrocentos quilômetros,  cruzando Estados, ao longo dos rios até o oceano, cobrindo o solo fértil e asfixiando os seres vivos.  

João perdera tudo: moradia, a oficina de serralheria e a caminhonete  de entregas.  Do entorno, nada restara de reconhecível. Até o riacho que cortava o vale sumira. João desesperançou.

Mas,  apesar de tudo, ainda se considerava afortunado.  Sua família  tinha escapado, como que por milagre,  do tsunami de lama. Ainda lhe sobrara  um fiapo de energia. Seria cada um por si. Iria refazer a vida.  Procuraria algum lugar bem longe dali. Nos olhares da mulher  e das filhas  João reencontrou a esperança, o único bem que ainda lhes restava.


VIDA PARA SER VIVIDA. - Oswaldo U. Lopes



VIDA PARA SER VIVIDA.
Oswaldo U. Lopes

Eulália mora sozinha, não vive sozinha. Parece jogo de palavras, mas é um jogo da vida. A Fazenda São Carlos era da família fazia muito tempo e com o crescimento de Jaú, ficara as portas e depois, claro, dentro da cidade.

Houvera loteamentos, repartições e ela herdara o núcleo principal com cinco alqueires a sua volta. A casa antiga estava totalmente conservada. Era linda! Varandão, quarto de hospedes dando na varanda e capela na extremidade. E que capela! Quando era aberta para visitação da população em geral e isso ocorria no Natal e na Pascoa, o deslumbramento era completo. Tinha o tamanho de uma pequena igreja, com altares laterais e santos barrocos de extraordinária qualidade.

Por que não vivia sozinha embora morasse sozinha? Viúva com mais de setenta anos, rica, muito rica, tinha três filhos que a visitavam com frequência, um deles morava até perto, dentro da cidade. A filha e o genro, em outra fazenda que tinha ate uma usina de açúcar. Economicamente não dependiam dela e como ela era moderninha se comunicavam sempre pelo Skype, Whatsapp e outros truques.

Às vezes parecia que D. Eulália não tinha passado. A presença de Inez, uma negra idosa, mas ainda altiva e bela como que punha um toque antigo na história. Inez havia trabalhado para a mãe de Eulália e era calada e reservada. Com ela Eulália trocava apenas monossílabos que valiam por centenas de palavras.

A casa era conservada na perfeição e era deslumbrante no seu conjunto, mobília, louças, tapeçarias, quartos, janelas, cortinas tudo preso ao passado, mas conservado para o futuro.

Havia lembranças no ar, mas não havia cheiro de naftalina ou alfazema. Um sentimento de antigo que não amordaça ou afoga o presente nem enclausura o futuro. Não era fácil de compreender, tudo que tinha na casa era digno de um museu, mas ela não era um museu, havia vida, muita vida nos seu interior. Era como que se as toalhas pedissem para ir à mesa e os talheres aguardassem com ansiedade seu lugar nos jantares ou banquetes.

Dito assim, o edifício pareceria um recanto delicioso, não fosse pela sala trancada. Só D. Eulália e Inez tinham a chave. No dia a dia era Inez quem cuidava dela e a mantinha arejada. Era sombria e escura, cortinas pesadas de cor carmim ocultavam janelas altas, nas paredes estantes com livros, muitos livros.

Eulália raramente entrava nela, não precisava, bastava passar pela porta para que as lembranças lhe assomassem a cabeça.

Era a menor de três irmãos, raspa de tacho, temporã, sapeca, corria pela fazenda toda sem limite. Gostava muito da Inez que vez e outra a carregava no colo. Criança ainda num mundo adulto e circunspecto. Era frequente que se escondesse atrás das pesadas cortinas daquela sala que era chamada de biblioteca e onde seus pais passavam invariavelmente as tardes.

Naquela manhã entrara na biblioteca e se escondera atrás do cortinado e ficara olhando sua cunhada lendo numa bela poltrona.

Súbito, Luciano seu irmão mais velho adentrara. Descabelado, colete aberto, resfolegante aproximou-se de sua mulher e dizendo apenas:

- Vagabunda!

Desferiu-lhe dois tiros e sumiu.

Eulália soube depois, quando já não era criança que sua cunhada tivera um caso com o doutor novo na cidade. Começara como cliente e evoluíra para amante. Jau não tinha mistérios, história de corno era a alegria do povoado. Se, ainda por cima, fosse de alto coturno a alegria virava festa.

Aquele tempo a honra não era lavada m cartório, mas com sangue. Morto o médico Luciano voltara para a fazenda para terminar o serviço. Do assassino nunca mais se ouvira falar. Seus pais fizeram questão de manter a casa viva e arrumada como sempre, com exceção da biblioteca.

A irmã do meio se formou em medicina e foi fazer residência e especialização no Canada e nunca mais voltou.

Com a morte dos pais Eulália assumiu os negócios, acertou a herança com a irmã e enviava a ela regularmente quantias elevadas de dinheiro.

Casara, tivera filhos, enviuvara e seguia a vida, com exceção da biblioteca trancada e da pergunta vespertina:


-Por onde andaria Luciano?

SERIA WILLIAM UM HEROI? - Ledice Pereira

SERIA WILLIAM UM HEROI?
Ledice Pereira

William  tinha quarenta e três e era o exemplo da criançada. Ensinava-os a transformar madeira em móveis ou outros objetos. Tinha muita habilidade e uma paciência de Jó.

Vivia cercado de gente que o admirava.

Naquele lugarejo perdido no mapa não havia ninguém que não o conhecesse.

Morava numa casa sui generis, cujo colorido chamava a atenção de quem por ali passava. Paredes amarelas, venezianas verdes e portas pintadas de vermelho.

Árvores frutíferas cercavam-na e misturavam-se ao colorido das várias flores que a enfeitavam.

Ele abrigava ali  animais de todos os tipos. Alguns, ele recolhera das ruas, fazendo com que se tornassem seus companheiros: cachorros, gatos, tartarugas, coelhos, galinhas, patos. Sem contar com os peixes que habitavam o lago que circundava o terreno.

No quintal ele construíra um balanço, uma gangorra e um gira-gira com a ajuda da garotada que adorava brincar ali.

O padre o elegeu como personalidade local. Aquele que participava de todas as atividades, quermesses, corridas, passeios de bicicleta, bailes à fantasia, enfim.

Ninguém sabia como ele havia chegado ali. Os mais velhos diziam que chegara numa noite de tempestade e fora acolhido pelo pároco da época, já falecido.

“Nossa,  hoje faz quinze anos que cheguei aqui – pensou ele. Chovia tanto e meu sapato estava furado de tanto andar. Eu estava desesperado e faminto, procurando um abrigo. Foram tantas as caronas, em tantos caminhões que eu, sem destino, não tinha ideia de onde tinha vindo parar.
Pra mim o importante era ir o mais longe possível. Um lugar onde ninguém pudesse me encontrar.  
Naquele dia eu não imaginei que me fixaria aqui e que ganharia meu sustento com a arte ensinada pelo meu avô Antônio.”

Quem o conhecia mal poderia adivinhar que William (cujo nome verdadeiro era Ernesto Ferrari) era na verdade um fugitivo da Justiça.

Havia sido preso na juventude, acusado de invadir uma propriedade, roubar vários objetos e ameaçar uma família com uma arma.   Nunca ninguém soubera por que ele havia cometido esse delito.

Fora reconhecido, cumprira dois anos de pena e num indulto de Natal conseguira fugir.


E nunca mais ninguém soube dele em sua cidade.

A escrita influencia o pensamento - Nietzsche




Inventada máquina de escrever para auxiliar pessoas com dificuldade de visão, esta é uma das mais antigas máquinas de escrever. Foi comprada por Nietzsche, que era míope. O filósofo dizia que o instrumento de escrita influencia o pensamento, a maneira de escrever e o modo de pensar estão ligados.