HERDEIROS! - Mario Tibiriçá



HERDEIROS!
Mario Tibiriçá

Quase sempre os herdeiros têm   pretensões  iguais entre sí, e foi o que aconteceu com meu vizinho Júlio  desde que  sua mulher  faleceu.

Júlio e eu estudamos  juntos  e  por mera coincidência viemos a nos reencontrar já casados e com filhos.  
            
Encontrava sempre com Júlio,  no  dia a dia e ficava muito    interessado nas peripécias   de   meu amigo,  no lidar com seus  filhos, sabidamente irresponsáveis.   
                                           
Ele  tinha  dois rapazes  e uma moça, adultos com mais de 23 anos, mas que não tinham  boa índole. 
                     
Num determinado dia  do ultimo mês, recebi um telefonema do amigo informando que sua mulher Léia, havia  tido um enfarte e estava  a beira  da morte, o  que  viria acontecer  alguns dias depois . Júlio  não é aquela pessoa que  poderíamos chamar  de   esperta, embora se  considerasse o “ rei da cocada preta “, sendo na verdade, um grande “banana”.                                                                                                                                   

Por outro lado, tão logo a mulher faleceu, novo telefonema dele pedindo minha atenção para  ajuda-lo  quanto a inventário e trâmites legais em andamento, já como   amigo e advogado. Sem testamento pensava distribuir entre os filhos, os bens e salvar  para si algum  usufruto. Gentilmente declinei de tal ajuda, deixando claro que  era especializado em advocacia  comercial, mas indicaria um colega competente para ajuda-lo, não deixando de   adverti-lo  para não  “ viajar na maionese” e que procurasse  até com prejuízo, sair da “salada de frutas” que a família representava. Recomendei ainda que procurasse acalmar  seu “ docinho de coco” linda garota  muito próxima e conhecida  como  “ manteiga derretida” sempre pronta e emocionar corações emotivos.  Insisti  que esperasse que  todo “ o abacaxi estivesse doce”.                                                                  

Passados alguns meses  recebi  convite de Julio, agradecendo meu  apoio  e indicação,    e  informando seu  casamento com o “ docinho de coco”, já integrada na  fortuna  e  na  família, esperando  que dali  para a frente a  vida passaria a ser “Mamão com açúcar”.

Pátria Educadora - José Vicente J. de Camargo



Pátria Educadora
José Vicente J. de Camargo    

− Traste! Não serve pra nada! Dia todo se balançando nessa bendita rede de papo pro ar. Até pra se balançar pede auxílio, me tirando dos afazeres da casa. Mas essa moleza vai acabar. Arrumo a minha trouxa e ponho o pé na estrada. Quero mais é distância desse parasita sanguessuga...

Enquanto falava, os olhos de Nhá Tica, qual cascavel no bote, lançavam faíscas de raiva na direção do companheiro estatelado na rede rota de algodão, pito na boca e canequinha de pinga na mão.

─ Cala a boca mulhé! Tu tens mais é de agradecer a Padinho Cícero de ter cabra macho na tua rede. Cair na estrada pro ôce é ir direto pra zona da Ritinha, se é que ela vai te aceitar. Senão rodar de boleia em boleia apanhando de caminhoneiro... Retrucava Detinho do seu ninho aconchegante já pensando na preguiça de buscar a garrafa de pinga sem a ajuda da amasia raivosa.

Ao contrário da companheira, seu olhar era calmo, semi-adormecido pela aguardente, contrastando com a audição apurada em sintonia com o mínimo ruído da mula trazendo a branquinha que trocara por meia dúzia de pescado, durante sua passagem pelo armazém do Teodoro, na volta da pescaria do rio, onde a sorte lhe enchera o balaio de bons peixes.

Detinho é o representante típico da miscigenação dos sertões brasileiros!

Trabalhar pra que? Mandioca e banana afloram na natureza só exigindo o esforço de uma roçadinha de vez em quando pra livrá-las das ervas daninhas e das formigas. Lambaris, piaus e tilápias se fisgam no riacho que corta os costões do vale com vara de bambu, isca de minhoca a vontade e seiva de raspa de mandioca fermentada. Nas idas e vindas ao rio, ou nas roçadinhas da semana, vez ou outra surge um tatú espantado ou um lagarto sonolento que baleia, de faro apurado em tudo que se meche ─ de preferência preás ─ não deixa escapar.

Portanto comida pra encher o bucho está às mãos sem cansar as costas, braços e pernas, e muito menos a cuca.

Ambições? Já ouviu falar nos desafios de viola, mas não entendeu bem o que a marvada é. Talvez por não saber ler nem escrever, só rabiscar o nome em letras tortas...

Família? Só sabe que tem pai, mãe e irmãos. Mas como nunca teve uma, pois foi criado num asilo de órfãos onde abrir a boca pra perguntar ou reclamar era apanhar de cinturão de coro, não sabe precisar como é viver numa...

Cidadania? Não tem conhecimento que bicho é esse. Sabe de ouvir e ser perguntado que existe um tal de RG e CPF, mas com esses trens nunca se meteu...

Seu mundo é do tamanho do alcance da visão onde vive, sem a curiosidade de querer saber oque se esconde atrás da serra ou depois da curva do rio.

Sua vida é o arrastar diário do acordar no clarão do dia e do deitar no entrar da noite. Indiferente se tem ou não saia que lhe satisfaça os instintos ou que lhe encha o saco com sentimentos desconhecidos.

É ele o culpado pelo seu assim ser sem beira nem eira? Ou vítima que não recebeu dos governantes responsáveis os princípios básicos da civilização?

E a pátria educadora onde entra nessa história?

Os milhões de Detinhos há muito aguardam uma resposta!

Se não a receberem logo, acalentados pela branquinha e incentivados por terceiros de propósitos ocultos, se levantarão das redes poluídas e retornarão aos gritos de unidos vêm plácidas do Ipiranga para um novo grito de independência. Desta vez, reforçados pelas redes sociais, seus reclamos vingarão.

Saber oque virá depois necessita de muita imaginação e muito samba no pé... E pra piorar:


“Fundir a cuca não é pra brasileiro”...

O Moita - Vera Lambiasi

O moita                                                                                           
Vera Lambiasi

Clóvis frequentava, religiosamente às quintas, a reunião de condomínio.
De expressão amuada, mais ouvia que falava.

Exalava respeito, em suas formas arredondadas pelo tempo.

Contava com 60, embora seu modo de vida aparentasse mais.

Não opinava sobre resoluções corriqueiras no prédio.

Quem limpava o quê não era do seu interesse, desde que estivesse no orçamento mensal.

Este era o seu real motivo de participação.

À cada proposta de obra, ou gastança supérflua, sua mãozona se levantava contra.

Tudo pela economia do condomínio, bradava seu vozeirão.

De tão pão-duro, Clóvis foi eleito síndico, pela maioria pouco interessada de moradores.

Especialista em reuniões, de seu passado como auditor, punha-se à cabeceira da encerada mesa, distribuía as pautas, dava as ordens, e destratava a secretária.

O bonachão começava a escancarar suas intenções.

Fazia com que todos os funcionários trabalhassem muito, a baixo custo, e culpava a situação do país.

Os proprietários dos apartamentos se desdobravam em ideias para reduzir o consumo de água, luz, gás, até de sacos de lixo.

Clóvis, nesta altura, era tido como um gênio da administração.

Sua autoridade mão-de-vaca espalhava-se pelo bairro.

Outros síndicos começaram a caminhar juntos em seu trajeto de austeridade.

O pátio comum foi ficando cada vez mais limpo!

E vazio...

As crianças já não brincavam, para não sujar.

A piscina estava seca, e coberta.

A sauna, trancada.

Aparelhos de ginástica, enferrujando.

O preguiçoso Clóvis dormia, comia, e dava ordens pelo interfone ao servil porteiro.

A vida feliz em sonho de condomínio esvaia-se dos residentes.

Apartamentos colocados à venda, iam sendo arrematados a ninharia pelo esperto Clóvis.

Ao cabo de um ano, adquiriu todas as 24 unidades.

Colocou todas para alugar, inclusive a sua.


E partiu para um novo condomínio, com falhas de administração.


A LUA BRANCA - M.Luiza de C.Malina


A LUA BRANCA
M.Luiza de C.Malina

Ela abriu a porta da noite. Agigantou-se no secular vestido branco de gaze.  Mariposas silenciosas, na dança ondular da luz que as provoca, desfalecem exauridas.

O mar se acalmou, para apreciar o êxtase da luz, no quebrar das borbulhas espumantes sobre as marolas, deliciando-se embriagado.

Ela o hipnotizou. Não percebeu o quanto se distanciava da amada que, no clarear do dia ainda o mantinha preso. Não percebeu o quanto e rapidamente recuou. Não percebeu que no dia seguinte, atordoado lá estava o mar de olhar fixo na boca da lua que o engolia.

Esquecido tal qual um copo vazio deixado na varanda. Assim estava.

O arroxeado céu matinal deu seu sinal mais cedo. Aos poucos, o murmurinho e o silêncio da maré baixa, chamou atenção dos caminhantes. Casos estranhos aconteceram na noite, igualados a um torpor, uma ausência de pensamentos, uma calmaria.

No preguiçoso café da manhã os comentários se colidiam:

- Curioso - comentou Úrsula - não ouvi os cães à noite.

- Tampouco eu, que implico com as buzinas dos carros – riu-se Rolf, acordei cedo.

- Bem, como sempre me transformei em koala. Dormi profundamente. Mas olhem que estranho, o jardim amanheceu florido, a grama me parece mais verde!

- Vou tirar isto a limpo, vou espiar o pomar – Debora levanta-se, surpresa olha pela janela as árvores sazonais repletas de frutos - soltou a voz surpresa:

- Vocês não vão acreditar! Com certeza foi o efeito da Lua Branca, o pomar está repleto de frutas.

- Ótimo teremos limão para a caipirinha.

- É cedo para isso, vamos caminhar – incentivou Erico – vejam isso lá adiante!
As pessoas chegavam à ilha com água pelos pés.

- Inacreditável! - Rolf reclamava que estava difícil pisar na areia, que seu ondulado mais se parecia às incômodas caixas de ovos. Naquele trecho, as águas, na pressa do recuo, deixaram suas marcas para trás.

- Trezentos e quarenta e cinco passos, para ter água nos pés! Registrou Erico.

Assim caminharam até a ilha admirando com certa curiosidade melancólica, as mornas águas translúcidas que os acarinhavam no lento vai e vem ao calcanhar. O vento sul batia  trazendo o aroma calmo do denso mato amanhecido,  o cheiro das algas e conchas desusadas.

 - O mundo podia ser assim, sem poluição – alguém comentou entre o burburinho abafado dos turistas.

Nenhuma necessidade de resposta.  Até mesmo os insetos estavam ausentes. Onde teria ido parar aquelas insuportáveis baratas d´água e os minúsculos peixes entra as pedras?

O branco da ausência predominava sobre os sentidos.

A Lua Branca insensível escondia-se  entre nuvens translúcidas que nada sombreavam.  Esquecera-se dormitando entre o mar azul e o azul do céu.
Dois meses se passaram. Úrsula encontra-se com Debora:

- Tenho uma surpresa para você!

- Eu também, e que surpresa Amiga, diga você primeiro.

- Estou gravidíssima!

- Hahaha... Eu também!

Será que foi o efeito da Lua Branca?

O outro - Carlos Cedano




O OUTRO
Carlos Cedano


Raul ligou de manhã cedo para Marcio e contou tinha acabado o namoro de três anos com a Deise, e que passados só dois dias ela já estava namorando outro! Como pode? - Disse desmanchando-se de tristeza, quase chorando.

            — O que, que posso fazer Raul? Você está com um belo abacaxi e vai ter que resolver!

            — Fala com ela, por favor, ela não pode fazer isso comigo, estou pirando!

            — Não adianta Raul, o melhor é partir para outra, dar a volta por cima. Esquece, cara!

Dois dias depois Raul ligou novamente e insistiu com Marcio:

            — Não adianta Marcio! Não consigo esquecê-la, você tem que me ajudar convencê-la voltar pra mim, que sou o homem de sua vida. Se você e a Raquel falam com ela acho que isso vai facilitar, por favor!

            — Deixa de falar besteira Raul, pelo que sei, ela já estava a fim do outro cara, você dormiu no ponto! Com tanta mulher bonita por aí não entendo esse sofrimento. Liga pra Martha ou Julieta, que estão dando sopa! Ah Raul, não me liga mais pra falar disso!

Marcio desligou,  e olhou para a porta do banheiro de onde, nesse momento, saía uma moça apressada e falando:

            — Meu Deus! Perdi hora, estou muito atrasada! A gente se vê esta noite Marcio?

            — Sim meu amor, te espero à mesma hora, ok?

            — Ok, então até mais meu querido.


            — Até mais Deise.

Tralhas e Muquifos - Suzana da Cunha Lima


Tralhas e Muquifos
Suzana da Cunha Lima

Eu só estava observando meu companheiro entrar com o carrinho cheio de tralhas, restos mortais  de sua extinta firma. Eram pastas, pranchetas, isopor, pilhas de prospectos, e um monte de miudezas que a gente nem sabe se um dia vai precisar.  E com isso, o quarto de empregada virou depósito,  e o de hóspedes, inabitável para um ser humano.

Foi quando surgiu, sabe-se lá de onde, minha amiga de longa data,  Jussara.  Sentou-se ao meu lado, olhou aquela azáfama e perguntou baixinho:

— Está revivendo os velhos tempos, amiga?

Aí meu pensamento voou para longe, para os primeiros anos do casamento. Meu marido  era o Rei das Tralhas.  “Quem tem um, não tem nenhum” dizia – dizia. E era um tal de comprar coisas em duplicatas e triplicatas e encafuar no pequeno apartamento que alugamos logo que casamos. Onde? Ele não se apertava.

Num minuto, entrava no cômodo e seu olhar de engenheiro media mentalmente a parede, calculando quantas prateleiras comportaria. E assim pensado, melhor feito.  Quando me dei conta,, o teto do corredor foi rebaixado e  ele montou uma pequena oficina eletrônica no nosso quarto de dormir, e entupiu de prateleiras, fios e gambiarras. Não tive chance nem clima para estrear meus lindos jogos bordados, nem tampouco montar uma cena erótica com meus belos negligeés.  Onde colocaria o abajur lilás e o gato de louça?

Por pouco não avançou no quarto dos meninos, que a tempo salvei das famigeradas prateleiras que, em segundos, se encheriam de tantas coisas inúteis, “que a gente podia precisar algum dia”.

Mas, santa inocência! Ele, habilidoso como era, acabou fazendo uma gambiarra do quarto/oficina para a sala, para aumentar o volume da vitrola recém-adquirida.  E de gambiarra em gambiarra, vi-me recebendo visitas e fazendo as refeições num emaranhado de fios e aparelhinhos que continham os controles dos diversos eletrônicos que foram se  espalhando pelo apartamento.  Muito antes de surgir o controle de Tv portátil, ele já havia inventado o seu, que controlava o volume e mudava de canal.
Quando mudamos para uma casa maior, nossa mudança era motivo de surpresa para as transportadoras.: Afinal, isto é uma mudança de uma família ou de uma fábrica?

Na casa foi mais fácil reservar um espaço para seus inúmeros hobbies, com fronteiras bem definidas, que eu defendia ferozmente contra a mínima invasão. Pois, ao ver espaço, surgiam outras necessidades:  montou  uma oficina eletrônica, uma mecânica (com torno e tudo) uma de marcenaria e caldeiraria, além de estúdio para revelar fotos.  E em quase todas as paredes havia prateleiras, nenhuma vazia ou subutilizada. Tudo com material de primeira, e bem organizadas.

Porém,  não contente com isso, vislumbrou um espaço entre nossa casa e o muro do vizinho. Um metro e meio, talvez.  Encheu de prateleira e aquilo virou um muquifo. Depósito dos inservíveis, e mais tarde, local ideal para proliferar baratas e ratos. Um horror!

— Calculo que ali foram enterradas muitas viagens ao exterior e uma casa própria, pelo menos – comentou Jussara que a tudo tinha acompanhado.

— Com certeza! – disse contrafeita – Mas, naquele tempo, eu achava que isso era a coisa mais importante. O chefe da casa, o grande provedor, que trabalhava duro o dia inteiro, engolindo sapos e batráquios, o grande guerreiro devia chegar ao seu castelo e ser tratado como rei.

— Ah, isso ele era mesmo – concordou  minha amiga – A casa girava em volta dos desejos dele e ponto final.

Voltei-me para ela, pensativa:

— Era a coisa mais natural para mim, desde que eu tivesse meu lugarzinho também. Eu não tinha todos aqueles interesses dele, bastava um lugarzinho para colocar a máquina de escrever, sempre gostei muito de escrever.

— Porém, mais tarde, você aprendeu a filmar e editar, até chegar seu computador e o  equipamento de edição – completou Jussara - Você arrumava tudo num lugar que chamava de escritório e fez belos trabalhos de edição, todos aqueles Natais e aniversários, tudo registrado.

— Sabe amiga, refletindo sobre aqueles tempos, que nem tão distantes são, fico pensando o que faz uma pessoa estar sempre acumulando coisas. Medo que falte? E que falte numa  hora, num domingo ou feriado com o comércio fechado? Não sei não.

— Acho que podemos fazer uma analogia com coisas mal resolvidas ou problemas que não sabemos resolver.  Vamos deixando nas prateleiras da cabeça, abarrotando o cérebro de pensamentos que, no final, não levam  a nada. A vida é dinâmica, as pessoas também, tudo está sempre mudando, se reagrupando, se desfazendo, se reconstruindo, não é? Concluiu Jussara:

— Então é besteira acumular. Sempre é.  O problema que parece insolúvel naquele momento, daqui a algum tempo se resolve por si ou passa a não ter mais importância.

Olhei meu companheiro que acabara de tomar banho e estava todo garboso e cheiroso, pronto para sairmos  para um restaurante.

— Não se preocupe não, meu bem, 90%  deste material vai para a caçamba amanhã. E agora vamos saborear aquela truta com amêndoas que você gosta tanto. Você estava falando com alguém?

Pisquei cúmplice parta Jussara, minha amiga imaginária de tantos anos.


— Estava resmungando, preocupada com estas tralhas. Que bom que já deu um destino para elas.

GABRIEL, O OPORTUNISTA. - Oswaldo U. Lopes


GABRIEL, O OPORTUNISTA.
Oswaldo U. Lopes

         Gabriel era jovem, completara 21 anos e tinha muitas ideias na cabeça. Nenhuma delas incluía faculdade, curso superior ou trabalho. Como muitos de sua geração e de sua classe, média alta, era individualista e pensava mais em si do que no mundo a sua volta.

         Tinha planos e se preparara com certo cuidado para eles. Concluíra o colegial meio que a duras penas, mas falava inglês como poucos, conversava bem e era alegre contador de casos e aventuras. O plano maior era viajar e conhecer o mundo. Talvez a família tivesse condições de ajudar, mas impunha seu preço, concluir um curso superior e preparar-se para a vida. Negativo, não era o que Gabriel desejava agora, pelo que munido de passaporte decidiu partir como diziam, nu com a mão no bolso.

         Já tinha ouvido falar que o melhor jeito de começar era empregando-se em um navio desses luxuosos que fazem cruzeiros norte-sul e leste-oeste. A companhia, dona do navio, cuidaria de seus vistos, entradas e saídas. Com seu modo brincalhão e falando um bom inglês, não foi difícil encontrar trabalho num desses navios bem grandes, Linha C.

         Lá se foi rumo ao norte com várias paradas pelo caminho, no próprio Brasil e no Caribe. O trabalho não era muito difícil, camareiro, arrumava cabines e corredores. Pela sua pouca experiência ficou trabalhando nas cabines menos pomposas, onde viajavam os de classe média, em geral marinheiros de primeira viagem. De pesado só o transporte de malas quando alguma das cabines chegava a seu destino, como aconteceu em Miami, por exemplo.

         Chegaram a Nova York para uma parada de alguns dias, a embarcação ainda deveria subir mais e aportar no Canadá. Gabriel achou que de barco já estava bom e desceu. Haviam lhe dito que pela Nova Inglaterra, Maine, New Hampshire era muito fácil andar,  inclusive entrar e sair do Canadá. Como não era rota frequente de hispânicos a vigilância era meio frouxa. Não deu outra! Trabalhando em motéis, restaurantes de beira de estrada, foi se aventurando. Já  era outono e as cores da Nova Inglaterra, bonitas demais. Andou pelo lago Chapelain, andou perto do Rio São Lourenço, entrou e saiu do Canadá um montão de vezes até que deu com os costados num hotel muito grande num lugar chamado Bretton Woods em New Hampshire.

         O Hotel chamava-se Mount Washington Hotel e ele achou curioso encontrar no saguão uma caixa, com tampa de vidro que continha inúmeras bandeiras entre elas a do Brasil. Uma placa aludia ao fato de ali ter-se realizado em julho de 1944, a conferência que deu origem ao FMI e ao BIRD, com representantes de muitos países, inclusive da Rússia. Gabriel tinha uma vaga ideia de datas e de guerras e aquilo lembrava a Segunda Guerra Mundial. Lembrava também de seu pai que quando jovem, era de uma geração mais participativa e costumava frequentar passeatas cujo mote era sempre: FORA FMI!

         Bem, às vezes viajar era mais instrutivo do que livros e salas de aula. O hotel era muito grande, mas não estava lotado.  Gabriel que trabalhava de camareiro e garçom logo reparou numa senhora de idade incerta, entre os 55 e os 65 anos, que também reparou nele. Mrs. Charlotte Louise Edwards. Tinha dinheiro em penca e o poder que o dinheiro confere. Logo, logo Gabriel era o camareiro pessoal e o único garçom a servi-la.

Não é difícil imaginar o resto, Gabriel era oportunista e agarrou a chance de imediato. Foi transformado em secretário particular e agora o dinheiro cuidava de seu passaporte. Mrs. Charlotte tinha um maravilhoso apartamento em Londres e ele agora era o secretário pessoal dela. Tinha por ela mais respeito do que pela própria família e começou a fazer cursos na London School of Economics. Escreveu para a família contando onde estava e o que esta estudando, para grande surpresa de todos, e omitiu é claro a dama inglesa.  Charlotte não era exigente e até admitia certas escapadas de Gabriel nas baladas londrinas.


         Bem, a história não termina aqui, mas o futuro é confuso e nublado. A diferença de idade é cruel, Gabriel era secretário e amante de Charlotte o que era muito conveniente no momento, mas e depois? O oportunismo de Gabriel dizia-lhe para aproveitar o agora sem pensar muito para frente, embora a frente estivesse quase ali...

APEGO - Jeremias Moreira

FONTE: Contrary Magazine


APEGO
Jeremias Moreira

Encontrei no livro que folheava uma das grandes verdades do Budismo: ”o sofrimento é causado pelo apego”.

Escarrapachado na poltrona de veludo desgastado, o corpo de um lado, as pernas pendendo para outro, o rosto aquecido por um sol pontiagudo que penetrava pela janela aberta, refleti sobre o sentido dessas palavras.

O livro escorreu pela mão e desabou no piso. Vivia dias angustiantes. Lembranças fincadas como alicerces em minha memória não me deixavam. Era como se cenas de nossa convivência se repetissem em minha mente num filme colado em anel infindável. Quase todas, reminiscências da minha infância.

Porque isso agora, se durante nosso longo afastamento nunca pensei nele? Quando reatamos, há coisa de um mês, não sei se para recuperar o tempo perdido, nossa amizade e nosso amor voltaram ainda mais fortes. E, eu me transmutava ora no garotinho que procura o aconchego no colo paterno, ora no irmão solidário, ora no pai protetor. Benê me ligava vezes sem fim para se queixar das dores insuportáveis que sentia. Eu corria a seu encontro e me deparava com ele perdido, exilado na dor, escorado nas sobras.

− Não quero ser um morto vivo. – dizia. − Se eu chegar a esse ponto você sabe o que fazer. Promete?

Não podia prometer o que não era capaz.

Não foi necessário. Meu pai deixou este mundo alguns dias depois.


Sua partida encheu minha vida com um grande vazio.

NUM RESTAURANTE CHINÊS - Carlos Cedano



NUM RESTAURANTE CHINÊS
Carlos Cedano

Um sábado voltando da compra semanal com minha mulher, passamos em frente de um restaurante chinês recentemente inaugurado. Tinha ouvido comentários favoráveis  por parte de amigos que consideravam a variedade de pratos bem elaborados e saborosos, , inéditos alguns deles, e com preços honestos! Propus almoçarmos aí,  e ela aceitou na hora!

Entramos no pequeno e acolhedor restaurante decorado com bom gosto, com muitas cores e delicados desenhos de personagens orientais. Fomos recebidos por uma senhora que, embora não falasse nossa língua, com enorme sorriso e gestos delicados soube nos dar as boas-vindas!

O ambiente já estava invadido por aromas onde se misturavam o cheiro de gengibre, peixes, pó de sete sabores, e outras especiarias que não soubemos reconhecer, mas todos insinuavam o delicioso sabor dos pratos sendo consumidos com entusiasmo pelos fregueses!

Fizemos nosso pedido, e enquanto esperávamos vimos cinco crianças que alegremente falavam em chinês sendo acompanhadas por uma moça que os levou até uma sala reservada, elas entraram e a moça fechou a cortina. Escutávamos a algazarra e as risadas das crianças, daí a pouco entrou uma senhora, que parecia ser a mãe, botou ordem no pedaço, falou pra elas alguma coisa que as entusiasmou redobrando os gritos e risos de alegria. A senhora impôs nova ordem de silencio, e saiu.

Nosso pedido chegou e começamos a saborear lentamente essa sinfonia de sabores, quando de repente da sala reservada para crianças ouviam-se  gritos de alegria. Deve ser algum quitute especial que os deixa tão contentes e excitados, comentou minha mulher. Mas, ficamos curiosos e fomos dar uma espiada, e com surpresa vimos o motivo da enorme alegria!


As crianças engoliam com entusiasmo e voracidade algo que inicialmente não identificamos, nisso um dos meninos com o sorriso estampado no rosto e com jeito de cúmplice me olhou, sorriu e mostrou o motivo da felicidade gastronômica: era uma enorme fatia de pizza de mozzarella e calabresa! Ficamos surpresos e logo rimos!

MEU TIO COTA - Jeremias Moreira


MEU TIO COTA
Jeremias Moreira

Meu tio Cota foi um pouco de doce na vida amarga da minha infância! 

Apesar de ser o mais velho dos irmãos, era meu pai quem liderava a família e tocava os negócios. Vendo agora, com a compreensão dos anos, acho que era um fardo muito grande para meu pai. Ele vivia tenso, preocupado e sempre queria tudo certinho. Ao contrário, tio Cota era cabeça fresca, vivia o momento da melhor maneira que pudesse. Morava num sitio, próximo a Guariroba, onde passei deliciosas férias. Sempre via meus primos e minha tia envolvidos com os afazeres do sítio enquanto tio Cota passava o dia, na varanda, esparramado na rede. Nunca o vi repreender um filho. Na mesa ao jantar, meus primos relatavam os acontecimentos do dia e a conversa corria como entre amigos: franca e calma. Muitas vezes desejei ser seu filho. Com seu jeito indolente, tio Cota era cativante.

Certo dia meu pai foi procurado por um agiota, o Deodato. O homem estava tenso, enfezado. Contou que emprestara dinheiro ao meu tio há mais de um ano e que ele se fazia de morto.  Quando cobrado, dizia que no próximo mês acertaria.

Desacorçoado, o agiota estava a caminho do sitio. Queria receber tudo o que lhe era devido. E estava indo armado para qualquer eventualidade.

Estressado como sempre e prevendo o pior, meu pai sentiu um nó no estômago. Pediu calma ao homem e ponderou que se o Cota não saldasse a dívida, que voltasse e ele veria o que poderia fazer.

Os dias se passaram e nada do Deodato voltar. Meu pai também não ouviu nenhum rumor de violência. Mesmo assim continuou com a comichão que sentia quando preocupado.

Um dia encontrou-se com o homem na rua:
— E aí, Deodato, como foi sua conversa com o Cota?
— Ah, nem te conto, o Cota me recebeu muito bem. Fez a mulher preparar um almoção daqueles... e... coitado! O Cota está passando certa dificuldade, sabe! Até emprestei mais um dinheirinho pra ele!
Esse era meu tio Cota! 

Sobrevivendo - Carlos Cedano



SOBREVIVENDO
Carlos Cedano

É admirável a habilidade de algumas pessoas para conquistar a simpatia e confiança das outras. Era o caso de Marco Antônio. Quando chegava ao serviço, normalmente atrasado, seu sorriso parecia invadir o ambiente e comportava-se como se fosse o dono do pedaço!

Sua rotina diária era conhecida: passeava com calma entre as mesas dos colegas recontando as noticias dos jornais e da TV que ganhavam um sabor especial quando narradas por ele! Logo depois subia um andar para ver a encantadora Amélia por quem estava apaixonado, porem ela não correspondia. Marco Antônio não desistia, mas Amélia só o suportava – dizia − por ser ele muito divertido. Nosso colega almoçava do meio dia até às quinze horas e “enrolava” no restante do dia.

Às segundas-feiras eram sempre dias especiais. Esse dia contava suas extraordinárias aventuras de fim de semana, sempre cheias de detalhes e de situações engraçadas que nos fazia rir a todos e admirar sua imaginação e criatividade.  Exagerava? Sim, todos sabiam, mas as pessoas relevavam isso.  Estavam hipnotizadas!

E o trabalho? Nosso amigo tinha habilidade para “jogar areia” nos olhos dos colegas, não se conhecia um relatório que tivesse elaborado salvo os poucos memorandos de caráter administrativo que a secretária Maria José redigia, e ele se limitava a assina-los! Ela sim era apaixonada por Marco Antônio, mas era seu segredo!

O seu Garcia, o chefe da área, tinha sua sala a uma distancia relativamente afastada e como bom burocrata, se seus pedidos de informes e relatórios fossem atendidos no prazo certo, tudo estava bem!

As coisas continuaram assim por um bom tempo até que um dia seu Garcia convocou para uma reunião o pessoal na sua sala. O motivo?  Comunicar que, após cinco anos sem aumento salarial, o Presidente da empresa pública tinha conseguido do Governador um aumento real de vinte por cento. Foi uma alegria generalizada em toda a empresa. Mas existia uma condição, o Governador exigia um corte de pessoal equivalente ao aumento concedido. Foi um pega pra capar!

Após do impacto inicial da proposta e com as cabeças mais frias e calmas, vieram as reflexões e ponderações sobre funcionários. Discutia-se reservadamente qual ou quais eram os funcionários que poderiam ser “sacrificados”. O debate corria solto, nomes iam surgindo com as decorrentes discordâncias cada vez mais acirradas e apaixonadas. A consequência foi o racha do grupo em dois, ambos radicalmente contrários.

Confidencialmente Maria José contou pra Marco Antônio que seu nome já tinha sido cogitado para a degola. Muitos colegas já aceitavam que ela era, em verdade, um parasita! Você precisa fazer algo Marcão - disse a secretaria - e rápido!

Quando uma semana depois o seu Garcia convocou para uma nova reunião onde comunicaria as decisões visando cumprir as diretrizes do Governador, todos ficaram muito surpresos. Quem estava sentado ao lado de seu Garcia? Sim, era o próprio Marco Antônio que assim, ganhava um status de funcionário diferenciado!

O chefe comunicou que dois funcionários seriam demitidos e que já tinham sido comunicados. Quando anunciou os nomes dos afastados, nenhuma reação nem favorável nem contra, seu Garcia aproveitou para pedir licença e se retirou na companhia de Marco Antônio, pareciam satisfeitos com o resultado da reunião!

Nessa noite num restaurante francês, Maria José e Marco Antônio jantavam e comentavam o “acontecimento do dia”. A secretária, com um sorriso de alegria e admiração, lhe perguntou:

         — Como você conseguiu essa façanha Marco Antônio?

         — Não foi difícil gatinha, após que você conseguiu que seu Garcia me recebesse em privado, expliquei pra ele a situação existente na área, disse-lhe que sua decisão deveria ser equilibrada sem ofender nenhum dos dois grupos em luta! Antes de mais nada deveria garantir a governabilidade da área sob seu comando.

         — E dai...? Perguntou Maria José.

         — Sugeri que demitisse os mais antissociais de cada grupo. Ele concordou e me pediu nomes. O restante da história você conhece!

         — Você e terrível meu amigo, admiro seu talento para sobreviver no meio da tempestade!

Ambos levantaram suas taças e brindaram!