Adriana Frosoni
Todas as noites, ao fechar a janela do quarto, Augusto admirava o prédio em frente. Não era o mais alto da rua, mas tinha uma fachada de vidro que permanecia iluminada até tarde.
Ele ainda vivia na casa dos pais para guardar dinheiro e queria muito morar num prédio como aquele. Era negociante de carros usados, profissão que escolhera por ser bom de conversa, ter facilidade com números e, principalmente, porque não precisava estudar para fazer isso. Gostava de negociar, de perceber até onde alguém estava disposto a ceder e de sair de uma conversa com mais do que quando entrara. Com o tempo, porém, aquilo deixou de ser suficiente. Queria mais e, por isso, tornou-se corretor de imóveis.
Aprendeu depressa que os melhores negócios nem sempre apareciam nos anúncios. Muitas vezes, vinham de quem precisava vender antes que o banco tomasse a casa, pagar uma dívida ou simplesmente recomeçar em outro lugar. Augusto passou a procurar vendedores que tinham urgência em fechar o negócio e a usar isso como oportunidade.
No escritório, começou a agir da mesma maneira: um telefonema que deixava de repassar, uma informação que chegava tarde demais ao colega errado. Como ninguém parecia perceber, foi avançando. Passou a observar os colegas com o mesmo cuidado com que analisava um imóvel. Sabia quem estava endividado e quem não poderia se dar ao luxo de perder uma comissão. Certa vez, um colega estava prestes a fechar um negócio depois de semanas de negociação. Augusto levou ao gerente alguns documentos, levantou dúvidas e o negócio foi suspenso. Depois, ele entrou em cena para garantir a venda.
Com o tempo vieram a promoção, a sala própria e a placa na porta com seu nome. Enquanto isso, um a um, os colegas foram desaparecendo do quadro de vendas, até que Augusto percebeu que já não havia ninguém entre ele e o topo.
Começou, então, a pesquisar os proprietários do último andar do prédio que almejava. Ao longo dos anos, Augusto descobriu seus nomes, negócios, dívidas e os problemas que poderiam obrigá-los a vender. Até que encontrou um apartamento similar, cujo proprietário estava apertado e precisava vender depressa. Ele esperou o momento certo e fez sua proposta.
O contrato foi assinado numa tarde de chuva e, ao sair do cartório com a chave no bolso, Augusto ficou alguns segundos parado na calçada, olhando para ela. Era mais leve do que imaginava.
Naquela noite, subiu sozinho. Abriu a porta e entrou. A sala era espaçosa, as janelas ocupavam do chão ao teto e as luzes da cidade podiam ser vistas de cima. Augusto caminhou até o vidro e ficou ali por alguns minutos, olhando para a paisagem que durante anos havia imaginado para si.
Esperou sentir alguma coisa, mas não sentiu. Foi então que, do outro lado da avenida, percebeu um edifício mais alto recortando o céu. No topo, uma cobertura iluminada se destacava entre as demais. Augusto pegou o celular e pesquisou o endereço. Quando viu o preço, fechou a página, mas, depois de alguns segundos, tornou a abri-la. Sentou-se à mesa e começou a fazer planos.
Em quanto tempo conseguiria levantar aquele valor? Quem poderia ajudá-lo? E, principalmente, quem precisaria sair do caminho?
Ainda fazendo listas e contas mentalmente, ele voltou até a janela e olhou para a cidade. O apartamento que acabara de comprar já parecia baixo. Do outro lado, o edifício mais alto se impunha com a fachada iluminada, como se esperasse por ele. Agora sim ele sentiu, enquanto seu reflexo no vidro da janela mirava seu próximo alvo.
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