Cara Metade - Sergio Dalla Vecchia

 

Cara Metade

Sergio Dalla Vecchia


No auge dos seus 40 anos, Antony um cidadão norte-americano acabou conhecendo a brasileira Paula no Hard Rock Café, durante o torneio de tênis Miami Open. A atração foi imediata, a cara metade que ele tanto buscava estava ali, sorrindo, exibindo um belo corpo dinamizado pelo esvoaçar dos cabelos castanhos.  Daí em diante, assistiram aos jogos juntos e aproveitaram as atrações turísticas da cidade.

Foi uma semana encantadora para o casal. Carinhos e brincadeirinhas não faltavam. 

Tudo ótimo até que as férias acabaram e Paula teve que retornar ao Brasil com direito a uma despedida chorosa no aeroporto internacional de Miami.

Foi uma paixão súbita e bonita de se ver. 

Ela embarcou levando o coração dele na bagagem.

O casal trocou muitas mensagens, fotos, selfies e longas conversas em vídeo pelo WhatsApp.

Antony estava se soltando aos poucos de sua timidez e ao mesmo tempo criando coragem para visitar Paula no Brasil. Tudo pelo amor!

Esse dia chegou e o ansioso Antony desembarcou em São Paulo.

Foi muito bem recebido pela família, mas o abraço apertado de Paula no desembarque do aeroporto de Guarulhos ratificou a paixão dos dois.

Foram direto para a casa na Vila Mariana. Ele, tímido e inseguro por não falar português, se esforçava ao máximo para se comunicar, enquanto Paula usava seu inglês básico. Mas tudo era novidade e se faziam entender.

Paula, entusiasmada, previa mostrar as atrações turísticas de São Paulo e até mais adiante as do Brasil.

Ele continuava não entendendo quase nada do que os pais dela falavam em português. Mas não suficiente para desestabilizar a extrema alegria de todos. Até tomaram a liberdade de chamá-lo de Tonho, tamanha a intimidade.

Ele pretendia ficar apenas por uns dias para matar a saudade da namorada e conhecer a família.

No entanto, cada ponto turístico da cidade de São Paulo a ele apresentado, o fazia deslumbrar-se com o povo, costumes e história dos brasileiros.

Agora Tonho já arranhava algumas palavras em português. Mas o que soltou de vez sua língua, seus pés e a cintura foi conhecer a escola de samba Mocidade Camisa Verde e Branco, na Barra Funda.

O casal sambou até o esgotamento físico, hidratados com muita cerveja, alegrando-se com o colorido das fantasias e nos pés a cadência contagiante do samba.

Enfim, Tonho voltou aos EUA, resolveu pendências, comunicou os pais que iria se casar e assim que pode retornou ao Brasil. 

Já em terras brasileiras e núpcias consumadas, foram residir em Miami por uns tempos.

Radiantes, eles programaram viagens para o Carnaval em São Paulo, Rio de Janeiro, depois Salvador e tantos outros destinos. Sempre com samba nos pés.

Após um ano, Tonho dominou o português, sambou com ritmo, Paula desenvolveu o inglês, tingiu os cabelos de loiro e passou a usar todas as grifes famosas expostas em Miami.

Entretanto, não se pode prever o futuro do casal. Pois não se sabe por quanto tempo os pés deles aguentarão sambar, o Tonho se lembrar que é Antony e que Paula volte os cabelos para a sua cor natural castanha e que não resista à saudade da feijoada, do arroz, feijão, bife e batatas fritas.


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