As plantinhas de seu Candinho
Carla Di Sessa
Cecília olhou em volta e pensou que a casa era grande demais para quem vivia sozinha. Três dormitórios, duas salas, para quê? Mas tinha se apaixonado por aquela casa branca de janelas de madeira e com um jardim que, no momento, era puro mato, mas tinha muito potencial. E ela também gostara do fato de a cidade ser pequena, fora de qualquer rota turística, com clima agradável e baixo custo de vida.
Havia ido parar ali quando se perdeu enquanto fazia uma trilha. Era hora do almoço, sabia disso graças à posição do sol e aos roncos de seu estômago. Começou a procurar um restaurante, uma padaria, um boteco, qualquer lugar onde pudesse comer alguma coisa. Ao virar uma esquina, havia avistado a casa: branca, janelas de madeira, um jardim que parecia uma selva, aninhada na rua sem saída e protegida por frondosas árvores. E o melhor: havia uma placa de VENDE-SE pendurada no portão.
Tinha se mudado naquele dia e estava exausta após tantas arrumações. O imóvel que estivera desocupado por anos precisava de muitos reparos. Algumas janelas não se mantinham fechadas, pois as travas estavam quebradas, as torneiras pingavam sem parar e a eletricidade, ainda precária, fazia as lâmpadas oscilarem entre o claro e o escuro. “Amanhã vejo tudo isso.”
Olhou para a cama, já arrumada com lençóis, colchão e travesseiros novos. Parecia confortável e irresistível. Cecília não tinha forças nem para divagar. Deitou-se e logo pegou no sono.
Acordou na manhã seguinte com o corpo dolorido, mas com a alma cheia de otimismo. Foi para a cozinha, antecipando o prazer de preparar e tomar um café bem quente, enquanto decidia por onde continuar a organização de suas coisas.
O jardineiro viria para livrá-la da selva que deveria ser um jardim. O eletricista combinou de aparecer depois do almoço para assegurar que a fiação não pegasse fogo, e o encanador viria no dia seguinte para acabar com a sinfonia dos encanamentos.
O dia passou confuso, com o entra e sai de pessoas carregando escadas e ferramentas. Ao cair da tarde, os trabalhadores foram embora e ela finalmente podia admirar sua cerca e seu portão, até então escondidos atrás de plantas. A iluminação da casa estava mais estável e a troca das lâmpadas velhas por novas havia ajudado a tirar o clima de boate de quinta categoria que pairava nos ambientes.
Resolveu tomar um banho para encerrar o dia. Os encanamentos ainda gemiam e resmungavam, mas no dia seguinte o encanador com certeza daria um jeito naquilo.
Banho tomado, colocou o jantar no micro-ondas para esquentar e, enquanto esperava, ficou admirando o trabalho do jardineiro pela janela da cozinha. Tudo limpinho, a terra nova à espera das plantas que ia escolher com o jardineiro dali alguns dias. Cecilia notou que perto do portão havia uma planta. Será que o jardineiro não havia visto? Por que tinha deixado aquela plantinha ali?
Amanhã, Cecilia pensou, amanhã vejo isso.
No dia seguinte, ao preparar o café, Cecilia olhou pela janela da cozinha procurando a planta e lá estava ela. Mas, agora, com a luz do dia, Cecília reconheceu aquelas folhas que pareciam uma mão aberta com os dedos espalmados.
— Mas será possível? Murmurou para si mesma e foi telefonar para o jardineiro.
Quando ele chegou, Cecília perguntou a origem da planta.
— Era do seu Candinho, ele explicou, tinha um monte, ele adorava as plantinhas dele. Tirei todas, mas essa eu quis deixar de lembrança. A senhora não vai mandar cortar, vai?
O jardineiro a observava, esperançoso. E continuou:
— Ninguém liga, todo mundo gostava das plantinhas do seu Candinho.
Posso imaginar, pensou Cecília.
— Se a senhora preferir, posso mudá-la para trás da casa.
— É ilegal, o senhor sabe, né?
— Ilegal?
— É, vai dizer que o senhor não sabia.
— Seu Candinho nunca disse nada disso. Sabe, aqui na cidade todo mundo é da paz…
Com certeza, pensou Cecília.
— Vá lá, por enquanto ela fica nos fundos, até eu decidir o que vou fazer com ela.
— Certa, dona Cecília. Então, já que essa fica, posso trazer as outras?
— Que outras?
— As que levei embora, mas não tive coragem de dar cabo delas.
— Se eu disser que não, alguém vai vir aqui me pressionar para mudar de ideia? Perguntou Cecília, imaginando uma quadrilha ávida pela sua plantação.
E acrescentou:
— Estou achando tudo isso muito esquisito, para dizer o mínimo.
— Imagina, dona Cecília, são só umas plantinhas. O resto do jardim a sra. faz do jeito que quiser.
— Sei… Continua sendo ilegal, a polícia vem aqui, descobre tudo e lá vou eu, presa e tentando explicar que são só as plantinhas queridas do seu Candinho.
— Presa? Por causa das plantinhas do seu Candinho?
Cecília viu o encanador chegando e disse ao jardineiro que depois continuariam a conversa. Ele se afastou, murmurando baixinho que “as dona da cidade grande são tudo exagerada… Presa, tem cabimento?”
Foco, pensou Cecília, uma coisa de cada vez, e foi receber o encanador com sua equipe, que haviam parado para apreciar a “plantinha de seu Candinho”.
Parece que elas eram famosas mesmo… pensou Cecília.
Após tudo acertado com eles, ela passou um café para que tomassem antes de começar o serviço. Aproveitou para também chamar o jardineiro, mas ele havia sumido. Será que se ofendeu?
O encanador achou vários problemas hidráulicos na casa e anunciou que precisava quebrar algumas paredes para descobrir o estado dos encanamentos. Cecília respirou fundo e autorizou, fazer o quê? E a sinfonia de marteladas começou; não havia um espaço sequer na casa onde pudesse se esconder da barulheira, então Cecília foi para o lado de fora. Admirando o espaço do seu jardim, começou a imaginar quais plantas colocaria perto da casa, quais junto à cerca e perto do portão. Bem, onde estava a plantinha do seu Candinho?
Cecília se aproximou e olhou a planta: nunca havia visto um exemplar ao vivo, mas o formato das folhas era bem conhecido.
Ouviu um carro ao longe e logo uma viatura da polícia virou a esquina e parou em frente à sua casa.
Mas, já? A notícia já tinha chegado aos ouvidos do delegado? Pensou Cecília.
O delegado desceu do carro e a saudou.
— Boa tarde!
— Boa tarde. Aconteceu alguma coisa?
— Seu jardineiro foi me ver agora há pouco e me contou uma história interessante.
O dedo-duro! Pensou Cecília.
E, alto para o delegado, ela falou:
— Olhe seu…
— Edgar, delegado Edgar.
— Então, delegado, não sei o que ele contou para o senhor, mas as plantinhas eram de seu Candinho e o jardineiro está insistindo para eu continuar com elas aqui no meu jardim. Eu disse ser ilegal, mas ele não deu muita bola, não.
— A senhora poderia me mostrar a tal planta?
— Claro, é aquela lá, ao lado do portão.
O delegado andou até a planta, seguido de perto por Cecília. Examinou o caule, as folhas, deu uma risadinha e disse:
— Essa com certeza é uma das plantinhas do seu Candinho. É uma Cleome ou planta-aranha. Parece uma Cannabis Sativa e, por isso, seu Candinho adorava ter uma porção delas pelo jardim para enganar os desavisados.
— Ah, mesmo? Disse Cecília, sorrindo sem graça.
— Pode deixar seu jardineiro plantar sem susto — disse o delegado, achando graça na expressão no rosto de Cecília. Não precisa ficar assim, ele continuou, a senhora não é a primeira a se confundir.
— Cecília.
— Como?
— Sem a senhora, só Cecília. Delegado, aceita um café ao som de marretas?
— Com prazer, disse o delegado, sorrindo.
Cecília se casou com Edgar algum tempo depois. A festa foi no jardim da casa e o buquê da noiva foi disputadíssimo: além da promessa de casamento próximo, ele também era feito com as folhas das plantinhas de seu Candinho. Os convidados de fora acharam aquilo bem exótico e queriam levar para casa o souvenir da festa. Coisa de quem ainda não conhece todos os detalhes da história de seu Candinho e suas plantinhas…
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