MEUS OITENTA
Antonia Marchesin Gonçalves
Quando jovem, enxergávamos as pessoas com setenta como sendo bem velhas. Estou casada com o mesmo homem, numa convivência de sessenta e um anos, entre namoro e casamento, lógico, entre altos e baixos, como todo casal saudável.
Após uma turbulência bem grande, agora estamos tentando resgatar o encanto que quase se esvaiu. Estamos superando os sufocos, dia a dia.
E, aí, chego aos oitenta!
Para mim, uma data marcante. Vamos fazer uma bela festa? — propôs o marido, convidando amigos e parentes, que não são tantos, pois não tenho mais os pais, nem meu irmão mais velho e nem minha irmã caçula.
O meu núcleo familiar do início, quando de minha chegada ao Brasil, quando éramos cinco, agora sobrou apenas eu. E os parentes de sangue mais próximos (tios e primos) todos vivem na Itália.
Voltando aos oitenta, este ano resolvi comemorar viajando com o marido para a Inglaterra, especialmente Londres. Pensei que esse dinheiro que seria gasto em festa preferia gastá-lo aproveitando essa cidade que admiro muito. Seria um retorno, pois já a conhecia.
Comuniquei à família, que estava com a certeza da festa, que meu presente era a viagem. Todos concordaram e apoiaram. Adoro essa viagem para observar as pessoas locais, seus costumes, suas atitudes no dia a dia, sendo que sempre tem umas mais pitorescas que outras. Nessa tivemos várias; três delas vou contar para não esquecer.
Três mulheres: a primeira, nós estávamos esperando um táxi quando vejo um casal de mãos dadas, aparentavam seus quase sessenta. Ela, mais alta, o segurava como uma criança puxando, igual a um filho, indo na frente e ele sendo levado. Ela falava o tempo todo com pressa no comando; deduzi estarem atrasados para algum compromisso. Um dia fomos almoçar num pub e o gerente era italiano. Conversamos e, a dada altura, perguntei se era casado com inglesa e aí, para a minha surpresa, ele respondeu que nunca casaria com inglesa, pois eram muito mandonas. Aí entendi aquele casal.
Passei a observar os casais no hotel; estava lotado de casais aposentados e era feriado nacional na segunda, e muitos emendaram para passear na capital. Reparei que eles se vestiam melhor, elas, a maioria, com roupas de domingo para missa, e da mesma forma via-se nelas atitudes de comando, principalmente no café da manhã; elas faziam o prato deles.
O segundo casal, com um filho adulto, já no restaurante da sala VIP no aeroporto. Sentaram os três com o cardápio nas mãos e me pareceu que o filho queria algo do cardápio, talvez fosse caro e a mãe chamou atenção do rapaz, que imediatamente ele fechou e o largou e nada pediu. A partir daí, só ela falava, enquanto o casal comia um prato de saladas, ele, hambúrguer com batatas fritas.
O terceiro foi o que mais me impressionou na sala VIP. Nós já tínhamos almoçado, estávamos à espera do voo e, à nossa frente, havia outro casal perto dos sessenta e tantos, comendo de tudo. Ela retirava os copos e pratos e levava no carrinho de recolher, mesmo havendo o funcionário que fazia o serviço. Sentava-se novamente, limpava a mesa enquanto o marido pegava nova leva de frutas, sacos de salgadinhos e latas de suco, que eram colocados dentro de uma sacola grande dela. Comiam e bebiam, e ela limpava a mesa. O mais impressionante é que até o chão em volta da mesa limpava; eram ingleses, foi muito bizarro.
Fomos a vários pubs, sempre a pé, conhecendo os bairros. Chegava a hora de almoçar; entrávamos no que mais nos agradava. Lógico que fizemos o sacrifício de tomar as várias e deliciosas cervejas locais. Onde houvesse muitos clientes, era um bom sinal. Em especial, voltamos uma ou duas vezes, bem frequentado, e, segundo o atendente, existia há quase trezentos anos. Era aconchegante, restaurado, mantendo a originalidade. Me encantei com um espelho original todo decorado.
Descobrimos igrejas medievais e chegamos a assistir à missa de domingo em uma delas. Encontramos uma mais contemporânea que emanava uma espiritualidade dentro dela; havia muita paz.
Uma coisa pitoresca: havia muitas flores decorando as entradas dos bares e lojas, nos postes da rua e nas varandas e portas das casas, por ser início de outono. Estranhei e, curiosa, passei a mão num ramalhete e descobri que a grande maioria era falsa; poucos eram naturais.
Conhecemos também Canden, o bairro das embaixadas, com grandes casas todas brancas e hasteadas as bandeiras dos seus países. Também havia ruas e moradias de pequenos prédios, as entradas com degraus na calçada, típicas da arquitetura inglesa. E algumas com segurança de ternos pretos, guardando, andando de uma esquina a outra, sempre em frente a pequenos parques do outro lado da rua, com espaços ao meio com cadeiras para tomar sol ou leitura; era o bairro nobre.
Outro amor que tenho são as livrarias; encantam-me os livros e o cheiro deles. Encontramos uma livraria enorme com três andares de livros do mundo inteiro; lá comprei vários exemplares. Um sobre os vinte anos da primeira-ministra Margaret Thatcher. Outro com muitas fotos sobre os setenta anos do reinado da rainha Elizabeth II. Um livro em italiano, um romance de Marina Marazza chamado (La moglíe di Dante) A mulher de Dante, que chamou minha atenção pelo comentário de Gemma Donati que diz: “Uma donna non vive nell´ombra, conquista La luce. (Uma mulher não vive na sombra, conquista a luz). E o último, um mais vendido no país e nos Estados Unidos, um Best-seller com o autógrafo da Patti Smith (Bread of Angels) a Memoir em português Pão dos anjos, a história da minha vida. Este já tem à venda na Amazon.
Outra livraria menor, quando entramos, tinha um escritor se preparando para o lançamento do seu livro, já antecipando o autógrafo antes dos convidados chegarem, com duas secretárias lhe ajudando. Concluí que ele deveria esperar um número grande de amigos e fãs, interessados em sua obra.
Fomos também jantar em vários restaurantes renomados, bem cotados pela mídia especializada. O ápice em restaurante foi o do meu aniversário. Era o Ritz, um duas estrelas Michelin, só com reserva, e claro que conseguimos. Traje obrigatório: gravata, que tivemos que comprar uma. Verdadeiro luxo, desde a decoração, os espaços que eram vários, o atendimento, todos de fraque, a comida deliciosa, mas não para matar a fome, regados ao bom vinho Pino Grigio do Veneto, com música ao vivo, pianista e depois um pequeno conjunto tocando músicas clássicas e pista de dança. Aproveitamos para desenferrujar, culminando com um espaço especial para fumar charutos com atendimento personificado.
Foram duas semanas sem stress, sem correria, com a temperatura agradável, só dois dias de chuva, um foi no Soro com a sua feira de antiguidades, que adoro, e a rua principal de Notting Hill, lotada de gente, principalmente turistas.
Foram duas semanas incríveis com o marido.
Ah, ganhei um cartão carinhoso de uma garçonete do café da manhã do hotel, que era muito grande, com muitos corredores, antigo, reformado. Tão grande que demoramos dois dias para aprender a não se perder.
Mas isso não vai apagar as queridas e lindas lembranças do meu aniversário de oitenta anos.
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