CORRENTINHO
Yara Mourão
— Tem a montanha que circunda a cidade, lá pelas bandas das fazendas do Sinhozinho Tenório; tem o vale todinho cheio de sempre-vivas e que abre espaço para esse tantinho de água doce que é o rio Correntinho. Está aí todo o retrato da nossa cidadezinha, sossegada e adormecida nesse canto das Minas Gerais.
Assim, D. Esperança começava todo dia sua palestra aos viajantes que se amontoavam na porta da igreja, querendo conhecer a cidade. Ela era a sacristã que Don Geraldo abrigava carinhosamente, orgulhosa de sua terra e de seus costumes.
Entre um queijo e broinhas de fubá, o café na sacristia era também a hora de conversas com o padre, o dono da quitanda e sua mulher, D. Esperança, e Tonho, o jovem motorista do micro-ônibus.
Eis que um dia Don Geraldo trouxe a novidade: um plano para agitar a cidade, com eventos esportivos e culturais!
Dona Esperança se abespinhou feito gata n'água fria!
— Uai, gente! Pode isso, não! Vai juntar um tanto de povo desnorteado, zanzando pra cima e pra baixo, fazendo um furdúncio aqui em Correntinho!
Mas Tonho logo se animou, achando que, enfim, algo interessante podia acontecer naquele finzinho de mundo. Até mesmo se prontificou para organizar um arrasta-pé na praça em frente à igreja.
D. Esperança não aceitava essa novidade. Resolveu chamar Don Geraldo às falas:
— Meu filho, você me escute, porque fui eu que te batizei e pedi a Deus por sua proteção e discernimento! Olhe bem o que esse trem todo vai causar a Correntinho! Pode isso, não! Gente de todo esse mundão detrás da cidade, vai invadir nosso pedacinho de terra e acabar com o sossego do povo daqui. Isso é um desatino!
Don Geraldo até se comoveu. Mas o progresso tinha que chegar ali, doesse a quem doesse. Não, ele não ia desistir; espalhou seu plano pelo povoado, falando nas missas, nas visitas às casas dos fiéis. Dizia sempre que era preciso modernizar os pensamentos e adoçar o coração.
Até que a ideia vingou e um tanto de entusiastas pôs mãos à obra e se dedicou à realização da Festa Popular de Correntinho.
Foi assim, da noite pro dia.
D. Esperança se amofinou. Rezou pra todos os seus santos, falou com suas comadres. Mas, mineirinha que era, deu um jeito para se sair bem no meio daquela história toda.
O fato é que ela andava um tantinho em falta com as contas e o gerente do banco já estava indócil. Lembrou do que Don Geraldo dizia: ”Era preciso modernizar os pensamentos e adoçar o coração.” Por isso, explicou ao padre seu plano econômico-cristão:
— Don Geraldo, estou modernizando os pensamentos, por isso vou ter de concordar com esse trem todo; vou até trabalhar para o bom resultado de toda essa festa. Ficarei na frente da praça, vestida de domingo, cobrando uma entrada baratinha de quem for chegando. Quem for de Correntinho paga meia; quem for de fora paga inteira. A Igreja vai ter uma parte boa para a água benta, que não é cara; o senhor, Don Geraldo, pode ficar com uma partezinha também pra dar a esmola pros pobres, que são bem poucos por aqui, e eu, pelo meu trabalho na festa, fico com um tantão maior, pra adoçar meu coração! Uai, gente, isso tá bom demais da conta, né, não?
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