CORRENTINHO
Carla Di Sessa
Imagine um lugar onde o vento passa vagaroso entre as folhas das árvores, espalhando a preguiça de todas as horas. Um lugar onde o sol passeia sem pressa pelo céu, requentando a vida. Imagine que um compasso moroso arrasta os pensamentos de tal maneira que o tempo se torna elástico e viver é quase um bocejo. Desse jeito, devagar e silenciosa, a vida escorre em Correntinho.
Mas, todos os anos, essa sonolência é dispersada com a chegada do projeto VIVA CORRENTINHO, evento que acaba por atrair até a população das cidades vizinhas. Durante uma semana, há shows, apresentações teatrais e de gastronomia, feira de artesanato e de produtos orgânicos, entre outras atrações.
Mas, para algumas pessoas, é mais do que isso. Elas se soltam dos laços aconchegantes de uma vida suave, porém letárgica, e por uma semana se deixam levar por algo que as habita no fundo de suas almas.
Dona Hermínia se esquece do terço e de apoquentar o padre a respeito de temas adequados para os sermões. Notável dançarina de tango em sua juventude, ela abre sua casa à espera de casais, de qualquer tipo, desde que entusiasmados para aprender as nuances e o calor da dança porteña. E assim, D. Hermínia pinta os olhos e a boca, veste-se de cores vibrantes, coloca brincos, colares, pulseiras, abre seu melhor sorriso e celebra o amor em todas as suas formas.
Nessa época, Correntinho também recebe a visita muito comemorada de seu mais eminente filho, bispo Dom Geraldo. Afilhado e sobrinho de D. Hermínia, logo ao chegar vai saudar a tia. Em seguida, em sua casa, despe-se do título e das vestes eclesiásticas e volta a ser o grande amigo de pescarias e partidas de futebol. Também volta a ser o ex-amor que ainda lhe provoca suspiros, mas que ele mantém estritamente no nível platônico. Às vezes ele se pergunta o que poderia ter acontecido caso não tivesse ido embora e sente um arrependimento sutil resvalar em seu coração.
O açougueiro, seu Jorge, passa o avental imaculadamente branco e as facas afiadas para o ajudante e, por uma semana, desfila pelas ruas com roupas atléticas. Embora já tenha perdido de vista seus 50 anos, seu Jorge exibe uma excelente forma física conseguida com muito treino depois do expediente do açougue. Por onde passa, atrai a admiração tanto de homens como de mulheres. Isso causa uma certa tensão entre os casais, justamente o objetivo de Seu Jorge. Por uma semana, ele se sente um galã, o Cristiano Ronaldo de Correntinho.
Tia Docinho, a professora da escola Lisieux para meninas, aposenta o giz e os óculos e se transforma em La Divina Dulce. Monta uma barraca na praça central e lê a sorte da cidade em borra de café, folhas de chá e nas palmas das mãos. Uma comprida fila se forma em frente à barraca, onde homens e mulheres esperam, todos ansiosos em ouvir sobre o futuro. Também estão ali muitas de suas alunas, mas, para elas, La Divina Dulce evita falar de amor, casamento ou príncipe encantado. Prefere falar dos desejos que elas acham ser secretos, mas que Tia Docinho, com um sexto sentido afiado, percebe em suas alunas. Ela entende seus anseios e La Divina Dulce os desvenda para elas. Fala de lugares longínquos, de estudos em terras estrangeiras e em trazer de dentro de si a própria bússola. Discorre sobre possibilidades como se fossem sonho e destino. Torce para que ao menos algumas entendam a mensagem e acreditem em si próprias.