Gotas de Amor
Yara Mourão
As horas quietas são cheias de ruídos que a memória guarda no fundo da nossa essência. É quando os silêncios mais antigos afloram, impiedosos, imprecisos, mas tão carregados da vida que passou.
Era nesses momentos que Helena se recolhia na penumbra de suas lembranças e, entre doçuras e amarguras, criava suas cartas de amor endereçadas ao universo paralelo de sua vida real.
Havia tempos a filha de Helena se dera conta dessas mensagens de amor. Ela achou uma caixinha decorada que a mãe guardava como um tesouro, cheia de delicados papéis escritos à mão; havia neles também notícias, comentários, indagações sem respostas, que alguém, do outro lado desse mundo, receberia quase diariamente.
Helena abraçava aquela lembrança querida desde que o acaso desviou os rumos de dois corações apaixonados, e a história mudou o que o amor havia traçado.
As mensagens começavam sempre assim: “Meu muito querido”. E eram sempre alegres, otimistas, que, apesar de não esperarem por respostas, terminavam em agradáveis cumprimentos. Continham confissões de amor eterno, mas também os fatos dos dias das pessoas, quem chegava, quem havia dito o quê, a roupa nova, a chuva que não parava e também o que acontecia na escola dos filhos, as notas, as faltas…
O além se incumbia de registrar tudo e, às vezes, parece que até respondia, à sua maneira, fazendo cessar a chuva, melhorando as notas dos meninos, predizendo notícias.
Rute se deleitava com muitas dessas mensagens de Helena, que nem suspeitava que a filha sabia disso tudo.
Um dia ela notou que sua mãe passou a escrever mais sucintamente, quase lacônica. Foi rareando seu recolhimento, seus escritos.
Um dia, quando viu a notícia mais estranha em uma das cartas, Rute entristeceu; era assim: “Meu muito querido, breve nos encontraremos.”
Seguiu-se um tempo sem nenhuma mensagem, até que Helena enviou ao universo sua última gota de amor: “Meu muito querido, hoje parto em paz. Você está ai?”
Foi quando Rute compreendeu, se recolheu e deixou o tempo se encarregar da vida, da saudade e do amor que não acaba nem depois da morte.

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