As caixas douradas - Isabella Brancher

 



As caixas douradas

Isabella Brancher


Minha mãe era uma pessoa que vivia cheia de compromissos. Trabalhava em uma empresa multinacional, e só adulta entendi, de fato, o que ela fazia. Cuidava de nós e da casa e ainda gostava bastante de fazer trabalhos manuais. Lembro claramente que, quando éramos pequenos, ela fazia nossos casacos de lã. As agulhas de tricô faziam parte do cenário enquanto brincávamos. Com os anos, o tricô foi dando lugar a outras coisas: bordado, cerâmica, aquarela. Chegava do escritório de blazer e salto e, meia hora depois, estava de avental, com tinta no cabelo.

Em casa, era uma mulher daquelas que se admira. Gostava de manter a casa florida e repleta de pessoas. Todo começo de abril, papai trazia flores e as arrumava em um vaso perto da janela. Sinto que nós a decepcionamos um pouco, pois teria gostado que tivéssemos trazido mais nossos amigos para a nossa casa. Aos domingos, logo cedo já a víamos na cozinha, e, assim que nos levantávamos, ela, sorrindo, nos dava alguma tarefa. Ao meio-dia, a mesa já estava farta de risadas e histórias, sempre regada com um bom vinho.

Ela também tinha seus mistérios. Perdi a conta das tardes em que a vi sentada na varanda do seu quarto, observando o que guardava em duas caixas de metal dourado. Em geral, era ao pôr do sol. Imagino que a luminosidade rosada do momento trouxesse lembranças que a levassem para aquelas caixas. Havia um pouco de tudo ali. Coisas aparentemente sem nenhum valor, mas que refletiam episódios mágicos do passado. Ela pegava um objeto, virava-o, olhava de novo. Muitas vezes nem ouvia nosso chamado. Parecia conversar com seus pensamentos. Nunca nos atrevemos a questionar esses seus momentos.

Algumas semanas após a sua morte, comecei a organizar os seus pertences. Encontrei as caixas douradas, ambas amarradas com uma fita nas cores da bandeira da França. Abri uma delas e encontrei um pequeno caderno amarelado repleto de poemas. Era sua caligrafia com os erros de ortografia vindos de quem falava quatro idiomas latinos. Li até a luz da janela dar a vez ao abajur. Percebi que lia em voz baixa, temendo que ela pudesse me ouvir. Dormi com o caderno aberto sobre o meu peito.

No dia seguinte, movida por uma curiosidade incansável, voltei ao seu quarto e abri a segunda caixa. Havia cartas do meu pai de quando ele fazia pós-graduação no exterior. Cartas de amigas, de primos, de um tal Carlos, mas a pilha mais grossa, presa por um elástico já ressecado, era a de Nuno. Comecei lendo as cartas de papai. Suas cartas eram como um diário. Contavam os experimentos do dia, os livros que comprara, e terminavam sempre do mesmo modo: saudades, beijinhos. Depois comecei a ler as de Nuno. As cartas traziam frases como: “A tarde vai caindo devagar e deixando o céu rosado como naquele dia em que nos entrelaçamos sem fim. É nessa hora, quando essa luz se intensifica, que mais penso em você.”

Quem teria sido esse Nuno?  O nome não me despertava qualquer lembrança. Mamãe nunca havia comentado uma palavra sequer sobre ele. Mamãe falava de antigas amigas, de colegas da faculdade, de primos espalhados pelo mundo. Nuno, onde estaria? O que faria? Continuei a ler as suas cartas: em cada uma surgia uma revelação. As cartas foram me entregando o que ele não precisava explicar a quem já sabia. Numa, ele contava que a mãe dele ainda cantava em português enquanto cozinhava. Lembrei-me da minha avó ouvindo notícias em italiano diante da massa fresca. Em outra, as tardes depois das aulas na orla de Barcelona eram cuidadosamente descritas. As longas caminhadas imaginando o apartamento com varanda para o poente. Onde viveriam? Na França, onde passaram a infância, ou no Brasil, para onde mamãe se mudara a trabalho depois da faculdade em Barcelona?

Perdi a hora e, quase na penumbra, li a última carta. Nela, Nuno contava os dias: já tinha a passagem e prometia que, na chegada, a levaria para ver o poente da varanda nova. As cartas de Nuno, incluindo essa última, de 29 de março, eram todas anteriores às cartas de papai, e essa informação adicional me tirou o fôlego. O que teria acontecido? Com as mãos trêmulas, tateando, peguei o telefone e liguei para papai. Sem imaginar como meu pai reagiria, achei melhor identificar Nuno como um amigo de mamãe.

— Você conhece um tal de Nuno, amigo de mamãe de longa data? — Perguntei logo após ele dizer “alô”

— Sim. — Ele pigarreou e ficou alguns segundos em silêncio, como quem revê uma lembrança antiga. — Nuno foi um namorado que sua mãe teve antes de me conhecer.

Para alguns segundos e continua: — Ele faleceu em um acidente de carro no dia 8 de abril, antes de chegar ao Brasil. E por isso, todo dia 8 de abril, eu lhe trazia um maço de flores.

Por alguns segundos fiquei muda do outro lado da linha. 

— Filha? Está aí? — Perguntou papai. 

— Sim, pai. Obrigada! Beijos

Desliguei. Fui até a varanda e acendi a luz. Lembrei das flores colocadas por papai todo começo de abril no vaso perto da janela. Sempre supus que fosse uma mania dele. Juntando os objetos na caixa, folheei o caderno e percebi vários poemas escritos no dia 8 de abril.


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