A plataforma de Petróleo - Ledice Pereira




A plataforma de Petróleo

Ledice Pereira


Elza não cabia em si de felicidade. Os preparativos para o seu casamento estavam ficando de seu total agrado.

Não imaginava mais, aos trinta e cinco anos, e sendo cobrada por toda a família, encontrar a outra metade da laranja.

Conheceu Alfredo num dia chuvoso naquele restaurante, onde ela aguardava que a água desse uma trégua para poder chegar ao seu carro, estacionado a uns duzentos metros dali.

Ele fora tão simpático, oferecendo-se para levá-la até o veículo. Portava um enorme guarda-chuva que os protegera muito bem.

O sorriso dele a cativou de imediato. Nunca mais ele saíra de sua cabeça.

Passados alguns meses, reencontraram-se no mesmo restaurante e o envolvimento dos dois aconteceu.

Elza mal podia acreditar que estivesse vivendo aquele momento. A cerimônia, a festa, a viagem para a Grécia. Tudo aconteceu tão de repente. Beliscava-se para ter a certeza de que não se tratava apenas de um sonho.

Ele contara-lhe que seus pais e o único irmão haviam morrido, que trabalhava como engenheiro, embarcado numa Plataforma de Petróleo por um período de até três meses, após o que, tinha um período livre de quinze dias. 

Ela estava tão apaixonada por aquele homem charmoso que parecia adivinhar cada um de seus desejos, que achou que tiraria de letra lidar com as ausências. Procuraria compensá-las nos períodos em que ele estivesse em casa. Seriam inúmeras Luas de Mel.

Em cada uma dessas ocasiões, preparava-se para recebê-lo. Estocava a geladeira com tudo que sabia agradar o maridinho, os queijos de sua preferência, os frios. Preparava tortas e conservas que o fizessem salivar. Armazenava na adega, os vinhos preferidos dele, brancos e rosés.

Ele chegava sempre com um enorme buquê de flores. Vinha com o rosto queimado de sol que o tornava mais atraente.

Eram dias inteiros dedicados ao amor, à comilança, a matar a saudade.

Naqueles poucos dias, tinham que tirar o atraso. Alfredo era um amante insaciável.

No segundo ano de casados, Elza já estava sentindo que aquilo não era vida para ela. Sentia-se muito só. Deixava de comparecer a vários eventos de amigos por falta de companhia.

As amigas não se conformavam com aquela situação.

Alfredo não tinha rede social. Dizia que o trabalho não permitia. Tampouco podia atender o celular quando embarcado.

Mesmo questionada pela família e pelas amigas, Elza custou a abrir os olhos e enxergar que havia algo ali mal explicado que queria entender. Ela, que sempre fora antenada, cheia de vida, atualizada com peças de teatro em cartaz, que assistia a todos os filmes que chegavam aos cinemas, passara a depender das migalhas que recebia dele nos poucos dias que ficavam juntos. Aquilo não era vida para ninguém.

Estava decidida. Não ficaria mais passiva, vendo o tempo passar. Seria a mulher que sempre fora. Ligou para Vera, sua melhor amiga e subdelegada próxima dali, dividiu com ela suas desconfianças, pediu indicação de algum detetive ou investigador que a ajudasse a clarear as ideias.

Vera indicou Lenita, detetive brilhante, que há pouco havia assumido o cargo de investigadora na mesma delegacia. 

Assim que foi apresentada à Lenita, sentiu que estava em boas mãos e no caminho certo.

Na próxima visita, Alfredo logo percebeu certa mudança na mulher, que o recebeu de forma mais distante, sem quitutes, dando preferência a idas aos restaurantes, já que seus dias eram muito monótonos e solitários.

Ela notou o desconforto do marido em se mostrar ao lado dela. Teve a certeza de que ele escondia algum segredo, entrava rapidamente no restaurante, olhando para todos os lados.  Tentou obter algumas respostas sobre o trabalho. Ele esquivava-se de responder, mudando bruscamente de assunto. 

Lenita avançava em suas descobertas. A primeira delas, que ele não trabalhava em nenhuma Plataforma de petróleo.

Quem seria aquele homem e o que faria para ganhar a vida, já que insistira em mantê-la, exigindo que ela não trabalhasse, dedicando-se apenas às coisas da casa.

O delegado foi inteirado. A investigação tomou uma outra dimensão. Elza poderia estar sendo vítima de um louco, um traficante, um espião, um malfeitor. Todas as possibilidades foram levantadas. A casa passou a ser monitorada vinte e quatro horas por dia, câmeras foram instaladas. 

O homem passou a ser seguido e investigado.

Coincidentemente, as vindas dele ficaram mais espaçadas, o que deixava Elza aliviada.

Lenita não sossegou enquanto não levantou todas as hipóteses. 

Descobriu que o verdadeiro nome do sujeito era Anselmo. Alfredo era o nome de seu irmão gêmeo, engenheiro já falecido, de cuja identidade ele se apossara por estar sendo procurado por fraudes cometidas contra o patrimônio público no sul do país.

Anselmo, ao contrário do irmão, nunca se formou, tendo vivido de aplicar golpes aqui e ali, até ser desmascarado e denunciado, sendo obrigado a fugir para São Paulo, onde morava o único irmão que lutava contra um câncer terminal. A piora no quadro de saúde de Alfredo, o fez interná-lo no Hospital das Clínicas, aproveitando o momento para   fazer a troca de documentos.

Com a identidade do irmão, no princípio, o novo Alfredo até tentou encontrar um emprego decente mas não tinha experiência em nenhuma área. Acabou por conhecer uma socialite que por ele se apaixonou e, em troca de prazeres, passou a sustentá-lo.

Filha solteira de militar falecido, não podia casar-se para não perder a vultosa pensão que recebia. A fulana costumava fazer cruzeiros de quinze dias com um grupo de amigas abastadas que não permitia a presença de homens. Ele dizia aproveitar esses períodos para visitar os velhos pais que viviam no Nordeste.

As conclusões de Lenita Fragoso, levaram a Polícia Federal ao endereço da socialite, em tempo de impedir Anselmo, vulgo Alfredo, que se preparava para colocar a mala no carro, que provavelmente o levaria à casa de Elza.

Apreendido seu notebook, celular e documentos, o impostor foi levado, algemado, à sede da PF para tomada de depoimento e prisão preventiva. 

Ele ainda tentou pedir que ligassem para a mulher, mas soube, por Lenita, que acompanhou a operação, que Elza, ciente de todas as falcatruas, a começar pela falsa identidade, entrara com o pedido de anulação do casamento.

As lágrimas de Anselmo/Alfredo foram ignoradas pelo grupo de policiais. 

Soube, posteriormente, que a socialite havia se recusado a tomar conhecimento de sua prisão, para evitar que seu nome fosse envolvido ao dele. Até porque, na última  viagem, ela encontrara um novo “affair”.

 


A plataforma - Isabella Brancher

 


A plataforma

Isabella Brancher


Priscila cresceu em um lar acolhedor; seus pais trocavam sempre gestos amáveis entre si, e seus irmãos mais velhos eram igualmente carinhosos. A filha caçula, crescida nesse ambiente rodeada de atenção, sonhava casar-se com alguém que a fizesse sentir-se valiosa e importante.

Em uma festa na casa de um primo mais velho, conheceu Francisco, engenheiro formado por uma ótima faculdade. Alto e elegante, com um olhar sedutor, ele atraiu os olhares de várias moças na festa.

Com o tempo, foram se envolvendo. Francisco chegava um dia com um maço de flores; alguns dias depois, trazia chocolates. Aos poucos, foi conquistando a atenção e o coração de Priscila. Os pais faziam reverências ao futuro genro, e os irmãos já o consideravam um irmão. Todos sabiam da vida dele na plataforma de petróleo, e isso lhe rendia um mérito adicional: submeter-se ao sacrifício de ficar tanto tempo longe de casa. Francisco havia escolhido o trabalho embarcado por estar sozinho no mundo: com os pais falecidos pouco antes do término da faculdade, a vida na plataforma lhe pareceu um caminho natural.

Escolheram comprar uma casa na rua acima da dos pais dela. O pai de Priscila, já aposentado, encarregou-se da reforma e deixou tudo conforme os gostos da filha. As cores escolhidas enchiam a casa com o sonho de transformar aquele espaço em um lar tão confortável quanto o de sua infância e juventude. A Francisco coube apenas financiar o projeto.

A data do casamento se aproximava, e com ela os preparativos. Na festa, com o salão cheio, Priscila percorria as mesas iluminando o ambiente. Ao final, seguiram para a tão sonhada lua de mel na Europa.

Priscila ficou impressionada com a habilidade de Francisco para lidar com os trâmites nos diferentes aeroportos, o que a fez admirá-lo ainda mais. Visitaram vários países que ela só conhecia dos filmes.

Ao voltarem para casa, era hora de organizar os presentes e arrumar os armários, e vez por outra ela parava para lembrar as lindas passagens da viagem. Pouco a pouco, a casa foi se transformando no lar tão sonhado.

Várias noites jantaram à luz de velas, beberam um bom vinho e adormeceram envolvidos pela paixão que os alimentava.

Finalmente chegou o dia em que ele teria de retornar à plataforma. Fez a mala e despediram-se num longo e profundo abraço. Francisco prometeu que ligaria diariamente. Cumpriu a promessa, sempre por vídeo, pois assim amenizava as saudades que ambos sentiam. Naquela última semana, porém, por duas noites seguidas, as chamadas foram apenas por voz.

Na tarde seguinte, ao visitar a mãe, comentou:

— Francisco tem sido muito atencioso: pergunta sobre o meu dia, conta como é a vida na plataforma, tudo como esperado. Mas ontem fiquei preocupada. Pela segunda vez nesta semana, ele não abriu a câmera. Disse que não podia, mas não explicou o porquê.

— Vai ver que estava no quarto com um colega que não estava adequadamente trajado — disse a mãe e acrescentou: — Você foi àquela entrevista de emprego que tinha agendada?

Continuaram conversando amenidades até a chegada do pai, quando Priscila decidiu voltar para casa. Francisco chegaria em dois dias, e ela queria terminar uma almofada que estava bordando.

O domingo amanheceu, e Priscila foi esperar Francisco no portão. Aquela havia sido a primeira vez, depois de casada, que ficara sozinha com ele embarcado.

Francisco desceu do carro e a beijou, e um calor preencheu rapidamente o corpo de ambos. Ao entrar em casa, desfez a mala de imediato, guardando seus pertences nos lugares destinados.

Priscila havia preparado uma programação para o tempo em que ele ficaria em casa. Seriam duas semanas, e ela queria aproveitar ao máximo a companhia dele. Francisco, por sua vez, aproveitou para pôr em ordem algumas tarefas da casa e reservou um jantar no restaurante que sempre frequentavam.

No meio da semana, saiu cedo: pretendia comprar um cachorro para Priscila. Sabia que ela procurava emprego para se ocupar, mas considerou que uma companhia de quatro patas amenizaria os dias em que ele estivesse embarcado. Foi a um canil de cães pequenos que conhecia na Lapa e passou algum tempo observando os filhotes. Tinha jeito com animais e logo se encantou com um filhote muito saltitante e sorridente. Na hora de ir embora, o maltês não soltava a sua calça. Sem resistir à doçura do animal, levou-o para casa. Ao ver aquela bolinha de pelos branca e saltitante, Priscila abriu um sorriso largo e logo o batizou de Pipoca.

Pipoca completava a casa. Ainda sem filhos, trazia o barulho necessário e ocupava boa parte do tempo livre de Priscila, que não havia encontrado trabalho fora de casa.

Numa noite dessas duas semanas, foram jantar no restaurante de culinária japonesa de que Priscila havia se tornado fã depois de ser apresentada por Francisco. Como de costume, ele fez a reserva. Ao chegarem, o maître veio ao encontro do casal e disse:

— Boa noite, Sr. Joaquim, a sua mesa está pronta.

— Joaquim? Creio que o senhor se confundiu. Meu nome é Francisco.

Sem tecer nenhum comentário adicional, o maître os conduziu à mesa, e o jantar seguiu como de costume. Priscila ainda comentou:

— Estranho ele ter trocado o seu nome, dada a quantidade de vezes que viemos aqui.

— Deve estar cansado e confundiu os nomes. Percebeu que o outro também é um clássico nome português? — respondeu ele, e riu levemente.

Voltaram para casa felizes e bem alimentados. No caminho, ela já pensava na falta que sentiria de Francisco, pois uma nova temporada embarcado começaria dali a dois dias. A noite que antecedeu a despedida foi regada a momentos de paixão e volúpia. Ao acordar, ela pôs as mãos no ventre, certa de que não eram mais apenas um casal.

Essa segunda partida, menos traumática que a anterior, chamou a atenção de Priscila para um detalhe: Francisco tinha um segundo celular na mão. Ela nunca havia reparado nisso. Minutos antes de entrar no táxi, ele atendeu o aparelho e respondeu monossilabicamente às perguntas feitas do outro lado da linha.

Dessa vez, o período na plataforma seria de quatro semanas. Como na viagem anterior, levou consigo apenas uma maleta e saiu vestido com um terno preto. Ela se perguntou: por que um terno preto? E por que uma mala tão pequena?

Naquela tarde, comentou com a mãe:

— Mãe, acho que estou grávida!

A mãe, parando de mexer o bolo, virou-se e perguntou:

— Fez o teste de gravidez?

— Ainda não. Preciso esperar algumas semanas, mas, assim que chegarmos ao final do mês, vou fazê-lo.

— Melhor deixar isso entre nós, para o caso de ser alarme falso.

— Certo, faz sentido — concordou Priscila.

Passados alguns dias, Priscila foi passear no centro no fim de semana para trocar alguns presentes que havia ganhado. Na loja, uma mulher com um menino de uns cinco anos chamou a sua atenção. Repetidas vezes, ela pedia à criança:

— Francisco, não mexe aí, pode quebrar…

A agitação do menino despertou em Priscila um interesse súbito, e ela passou a acompanhar a cena, que se repetia. Ao seguir a mãe e o filho, incomodou-se com a semelhança que viu entre o menino e o seu Francisco.

Dirigiu-se ao estacionamento pensando naquela criança que tanto lembrava o marido. Será que estava com tantas saudades a ponto de vê-lo em outras pessoas? Durante o caminho, preocupou-se em não errar o trajeto, pois iria encontrar uma amiga antiga e não queria se atrasar.

Na confeitaria, conversaram a tarde toda. Priscila comentou com a amiga algumas coisas que a preocupavam no relacionamento. A amiga a confortou, dizendo que os filhos completariam a casa na ausência dele e que, com o passar dos anos, aquilo ficaria cada vez mais normal e tolerável. Depois, Priscila contou do cãozinho Pipoca e de como se divertia com ele. Despediram-se, e ela voltou para casa pensando em tudo o que haviam conversado.

Dias depois, Francisco chegou. Dessa vez, teria um mês de folga. Felizes com o mês que tinham pela frente, celebraram. Francisco cumpriu o ritual de sempre: chegou, esvaziou a mala e guardou tudo nos seus lugares. Priscila então perguntou sobre o segundo celular, com o qual ele havia atendido aquela ligação antes de embarcar no mês anterior. Francisco desconversou, dizendo que era de um colega de trabalho que ficara com ele por engano, e que o colega ligava para ter certeza de que ele não se esqueceria de devolvê-lo.

Na manhã seguinte, o pequeno maltês, impaciente com uma obra na rua, latia sem parar. Francisco, já irritado, gritou bruscamente:

— Pepé! Quieto!

— Você chamou o cachorro de Pepé? O nome dele é Pipoca — corrigiu Priscila.

— Quando eu era criança, tive um cachorro chamado Pepé. Devo ter me confundido!

Francisco voltou à leitura do jornal matinal, e ela foi terminar o que havia começado na cozinha. Foi então que ouviu o telefone dele tocar e, atenta, fechou a torneira. Da sala, vinham apenas respostas curtas e murmúrios.

Minutos depois, Francisco avisou que teria de voltar imediatamente à plataforma: havia ocorrido um problema sério, e precisavam de todos os engenheiros disponíveis. Subiu ao quarto e preparou a mala. Um carro já o esperava no portão. Beijou a esposa apressadamente e saiu.

Voltou dois dias depois, no meio da madrugada. Ao descer para o café, Priscila surpreendeu-se com o que viu: ele largado no sofá, apenas sem os sapatos, e a mala semiaberta ao lado. Sem pensar, puxou a mala e começou a mexer nela, tirando os objetos. Primeiro, um saco com duas camisas sujas; depois, um envelope que, ao ser levado até a mesa, deixou cair uma fotografia. Ela olhou atentamente: nela estavam uma mulher, duas crianças e um pequeno cachorro. No verso, estava escrito apenas “saudades” e uma data anterior ao casamento deles. O coração de Priscila disparou. Aquilo explicava tudo. Colocou a fotografia de volta no envelope e o envelope na mala. Ao fazê-lo, com as mãos trêmulas, esbarrou na mala, e o barulho acordou Francisco.

Ainda sonolento, ele perguntou:

— O que você está fazendo? Por favor, não mexa nas minhas coisas. Deixe que desfaço a minha mala.

— Desculpe — respondeu ela, gaguejando levemente. — Queria te ajudar.

Ele se levantou bruscamente, tomou a mala nas mãos e disse, secamente:

— Não precisa fazer isso, obrigado!

Francisco subiu com a mala para o quarto e começou a organizar tudo. Perguntou-se se Priscila teria visto a foto ou os outros objetos. Agora não era o momento de se lamentar; precisava se manter calmo.

As semanas seguintes transcorreram sem muitas surpresas, mas Priscila remoía a fotografia, e isso a incomodava demais. Temia que ele fosse agressivo por ela mexer em suas coisas. A imagem voltava com tanta constância que, numa noite, enquanto preparava o jantar, ela não se conteve e perguntou de súbito ao marido:

— Vi uma foto em um envelope na sua mala outro dia. Uma foto de uma mulher com duas crianças. Quem são?

O marido riu baixinho, levantou-se, aproximou-se e a beijou suavemente no pescoço.

— Você ficou com ciúmes? — disse, com ironia.

— Não, não fiquei. Só queria saber quem são — respondeu ela, tentando manter um ar de superioridade.

— É uma prima distante. Não a vejo há anos — disse Francisco.

Priscila se calou e voltou a se concentrar no jantar, embora estivesse dividida entre a possibilidade de ele ter outra família e a de a foto ser mesmo de uma prima distante. Esses questionamentos iam e vinham, deixando-a cada dia mais intrigada.

A temporada em casa estava mais longa que de costume. Priscila começou a ter enjoos e já estava mais convencida de que não estava mais sozinha no próprio corpo. Certa manhã, saiu para fazer compras e aproveitou para passar na farmácia. Em casa, fez o teste, que confirmou o seu pressentimento. Aproveitando que o marido estava em casa, preparou um jantar com a comida preferida dele, em especial a sobremesa. Ao terminarem, estendeu-lhe uma caixinha comprida e disse:

— Abra, tenho uma surpresa para você!

Ele a olhou sem entender, abriu a caixa e viu um teste de gravidez com resultado positivo. Com a face levemente pálida, perguntou:

— É o que estou pensando? Você está grávida?

Priscila acenou que sim com a cabeça, e o rosto dele se abriu num sorriso largo. Levantou-se rapidamente e a abraçou com todo o seu amor.

— Você não imagina como essa notícia me deixa feliz. Isso é tudo o que eu sempre quis com você. Eu te amo muito!

Priscila retribuiu o abraço e sorriu, embora, no íntimo, ainda guardasse várias dúvidas sobre Francisco.

Nos dias seguintes, discutiram como decorariam o quarto do bebê, como ele a acompanharia nas consultas e como se organizaria na plataforma para estar em terra no momento do nascimento. Foram à primeira consulta, e tudo caminhava a contento. Priscila havia mantido o segredo, como a mãe recomendara, mas já estava com oito semanas de gravidez.

No dia seguinte, Francisco embarcou para uma nova temporada. Priscila foi visitar a mãe para contar a novidade e começou a se programar para a chegada do bebê. Ao voltar para casa, percebeu o crachá de Francisco caído no chão. Pensou que ele poderia lhe fazer falta e decidiu ligar para a empresa. A atendente repetiu a informação pela terceira vez:

— Senhora, não temos nenhum engenheiro com esse nome.

Priscila permaneceu em silêncio. Sentiu os dedos afrouxarem ao redor do telefone. A voz da atendente continuava falando, mas as palavras chegavam distantes, como se viessem do fundo de um túnel.

Não havia Francisco. Não naquela empresa. Não naquela plataforma.

O marido com quem dividira a cama, os sonhos e os planos para o filho que carregava no ventre simplesmente não existia.

Quando a ligação terminou, ela continuou sentada à mesa da cozinha sem perceber que chorava. Os pensamentos se atropelavam. Uma pergunta dava lugar a outra antes mesmo que a primeira pudesse ser respondida. Nada fazia sentido. Joaquim. O segundo celular. A fotografia. A empresa. Tudo parecia se encaixar e, ao mesmo tempo, tornar o mundo incompreensível. Pela primeira vez desde que o conhecera, não se perguntava onde Francisco estava. Perguntava-se quem ele era.

Decidiu esperar a volta dele: dessa vez, esclareceria todas as suas dúvidas. Não disse nada à mãe e aguardou, com paciência, a chegada do marido.

Francisco chegou, e ela o deixou cumprir a rotina de sempre: desfazer a mala, tomar um banho bom e demorado, recostar-se no sofá. Só então se sentou ao lado dele na sala. Sua boca tremia levemente; tentava conter a emoção, mas não podia continuar naquela incerteza. Olhou firmemente para o marido e disse:

— Liguei para a sua empresa e disseram que não existe nenhum engenheiro com o seu nome trabalhando lá.

Ele a olhou, cobriu o rosto com as mãos e baixou a cabeça, como se pensasse no que responder. Sem saber o que dizer, calou-se.

Um longo silêncio se instalou na sala. As paredes pareciam se aproximar, e o ar ficou rarefeito.

O silêncio dele só aumentou a fúria de Priscila, que, num rompante, levantou-se e disse em voz alta:

— Você tem outra família, eu sei! Vi a foto! Preciso de respostas, você me deve uma explicação — continuou, com as lágrimas molhando o rosto.

Francisco, sem encontrar saída, pediu que ela se sentasse e disse:

— Vou te contar tudo, mas, por favor, prometa que vai ficar calma. Eu te amo mais que tudo nesta vida, não posso te perder.

Ela o olhou fixamente, esperando que uma luz iluminasse aquela sala ainda opressora.

— Uso alguns nomes falsos por causa do trabalho que faço. O segundo celular é para o meu chefe entrar em contato comigo em situações especiais; as conversas nesse aparelho não podem ser rastreadas, pois usamos um canal privado. A fotografia é da família do meu parceiro, que morreu em um evento decorrente de um erro meu. Pepé é o cachorro deles. Durante muito tempo, antes de nos conhecermos, eu frequentei bastante essa família; eu era muito amigo do meu parceiro. A morte dele me levou a uma depressão importante, mas eu precisava ser forte para ajudar a viúva e as crianças, e assim segui em frente. Apaixonei-me por você no momento em que te vi na festa do seu primo. Decidi me mudar para cá para ficar mais perto de você, e isso me distanciou deles. A foto foi ela quem mandou, para o endereço do escritório, num pedido discreto de que eu os visitasse, o que acabei fazendo em uma das minhas saídas.

Priscila tentava assimilar todas as informações cuspidas por Francisco. Sentia-se ainda muito confusa e, em silêncio, parecia decodificar tudo e reorientar seus pensamentos. Passados alguns minutos, perguntou:

— Mas, afinal, para onde você vai quando desaparece por semanas?

Francisco permaneceu em silêncio.

— Me responde!

— Você realmente quer saber?

— Quero.

— Talvez, depois que eu te contar, você nunca mais consiga olhar para mim da mesma forma.

— Você trabalha para quem? — perguntou ela, cada vez mais irritada.

— Para pessoas que podem pagar.

— Para fazer o quê?

Com o rosto fortemente enrubescido, ele baixou os olhos e disse:

— Resolver problemas.

— Que tipo de problemas? — perguntou Priscila.

— Pessoas.

Priscila permaneceu calada, quieta, construindo e organizando as informações na mente, até que tudo se clareou:

— Meu Deus, você está dizendo…

— Sim — confirmou Francisco.

— Você mata pessoas!

Francisco não precisava responder, mas acrescentou:

— Eu queria te contar.

— Mentira! — retrucou.

— Não! Eu queria. Todos os dias eu queria.

— Então por que não contou?

— Porque eu sabia que perderia você. E você é a única parte da minha vida que é realmente verdadeira.


CAFÉ COM BISCOITOS - Carla Di Sessa

 



CAFÉ COM BISCOITOS

Carla Di Sessa


Os irmãos Cardoso haviam se reunido naquela tarde a pedido de Clara, a mais velha, pois queria prestar contas das coisas da mãe deles, falecida há algumas semanas. Embora contasse com a anuência deles para decidir sobre os legados da mãe, Clara havia topado com algo que precisava dividir com os irmãos. 

Ela os cumprimentou rapidamente quando chegaram. Sem conseguir esperar mais logo entrou na razão pela qual os havia convocado para aquela reunião mostrando a eles uma caixa antiga de biscoitos que havia encontrado no armário do quarto dos pais. Dentro havia um maço de envelopes amarrados com uma fita desbotada pelo passar do tempo. Quarenta e oito cartas escritas uma vez por ano, sempre na mesma data, 5 de abril, e que não haviam chegado ao seu destinatário, um tal de Benício, que ninguém nunca ouvira falar até então.

Paulo e Luis, os gêmeos, começaram a ler em silencio alguns trechos e Clara mostrou a Cecília, a caçula, a primeira daquelas cartas.

— Olha a data, foi no ano em que a mamãe conheceu o papai. 

As cartas relatavam fatos da vida da mãe deles, como o casamento, a chegada dos filhos mas, principalmente, falavam de saudades, de amor e de lembranças guardadas com carinho.

A mãe havia acalentado em seu coração um amor da juventude. Cuidou dele secretamente enquanto se casava com outro homem e formava com este uma família. Os quatro irmãos estavam desconcertados. Dentro daquela caixa de biscoitos estava uma mulher que não conheciam. Surgiu a dúvida: o pai deles sabia? Desconfiava? Preferiu olhar para o outro lado e preservar a família?

— Agora cai bem um café, né? Disse Clara levantando-se e fazendo um gesto para Cecília acompanhá-la.

Na cozinha começaram a conversar.

— Clara, disse Cecília, será que foi o vovô que não deixou a mamãe se casar com esse tal de Benício? 

— Acho mais fácil a família do tal Benício ter interferido. Você sabe que o vovô nunca deixou faltar nada em casa, mas também não sobrava nada.

— Verdade… será que a família dele era muito rica, descobriu que ambos estavam de caso e o mandaram estudar em outro país? 

— Pobre mamãe… abandonada pelo seu amor.

— Pois é, só lhe restaram as cartas.

— Que nunca enviou. Mas, por que a família dele surtaria a ponto de mandar o rapaz para outro país? A família do vovô não era nem importante nem rica, mas também não eram pobretões ignorantes.

— Só se… e se… ela estivesse grávida?

— Não, imagine, que ideia… será?

— Pode ser, sabe como é, primeiro amor, primeira paixão, primeiro…

— A mamãe? Nunca a vi nem dar um selinho no papai…

— Pode ser que no papai não, mas no Benício…

— Clara…Clara! Clara! Disse Cecília com os olhos arregalados, se ela estava grávida então você…

— Meu Deus! Posso ser a filha dela com o Benício!

— Você é a mais velha, então…

— Mas todo mundo diz que sou a cara do papai…

— Verdade. Uma Cardoso legítima.

— Ela pode ter tido um filho e dado para adoção.

— E ela ia ter coragem de fazer isso?

— Ué, pode ser que ela mesma não, mas o vovô sim.

— Então temos um irmão…

— Ou irmã.

— Que história maluca…

— O café está pronto, gritou Clara avisando os irmãos que ainda estavam na sala, entretidos com as cartas. Os quatro ficaram conversando na cozinha por algum tempo depois do café até Paulo perguntar:

— E agora? Vamos fazer algo a respeito?

— Lógico, respondeu Clara, precisamos achar esse Benício e perguntar se ele sabe o paradeiro do filho ou filha que ele teve com a mamãe.

— Como é que é? Disse Luís, não tem nada nas cartas a esse respeito.

— É, mas está mais do que subentendido, disse Cecília.  Pode ser que a mamãe estivesse grávida dele e, por isso, a família do Benício, que não queria o namoro, muito menos o casamento, o mandou para fora do país. Sem saída, mamãe teve a criança e a deu para adoção.

— O que mais vocês tomaram além do café? Perguntou Luís.

Clara ignorou o irmão e acrescentou:

— Pode ser até que o tal Benício tenha morrido no estrangeiro e nunca ficou sabendo do que aconteceu.

— Nesse caso, disse Cecília pensativa, todos que sabiam desse filho ou filha já faleceram. Vai ser complicado achar a família desse Benício e mais complicado ainda saber o paradeiro da criança.

— Verdade, concordou Clara. Essa história ficou escondida por 48 anos, melhor que continue assim.

 — Melhor deixar para lá. Faz tanto tempo, né? Disse Cecília em tom de quem encerra o assunto.

Paulo e Luís ficaram olhando as irmãs como se fossem duas malucas. Mas, o assunto perdera gás por si só e então acharam melhor deixar quieto. Vai tentar entender o que se passa pela cabeça de uma mulher… haja vista a mãe deles: 48 anos escrevendo cartas que nunca enviou e guardando tudo em uma lata de biscoitos no fundo do armário. Tenha dó!



CARTAS NA MESA - Ledice Pereira

 




CARTAS NA MESA

Ledice Pereira


Aquela curva fechada não estava nos planos de Magda. Viu a sinalização em cima do trecho que virava para a esquerda a noventa graus. A batida foi indefensável. Magda ficou ali desacordada, enquanto carros paravam e ligavam para o resgate que demorou a chegar.

Ainda foi levada ao hospital mais próximo, aonde chegou sem vida. A equipe médica não pode fazer nada. A morte encefálica foi constatada.

Avisada, a família dirigiu-se para o hospital, sem acreditar. Magda, cinquenta anos, tinha a vida pela frente. Gostava de viver, de viajar, de sair, de receber amigos. Era alegre. Como era possível acontecer isso, logo com ela. Estavam todos inconformados.

Reuniram-se numa sala do hospital, para resolver sobre a doação de órgãos. Ela sempre dissera que era uma doadora. 

Assinados os trâmites, o hospital tratou de providenciar a retirada e o envio dos órgãos para os lugares em que eram aguardados.  

O marido e os filhos estavam perplexos. O que teria acontecido. Magda dirigia bem, era extremamente cuidadosa. No outro carro, parece que todos haviam se salvado. Que fatalidade! 

Passado o velório, a semana, a missa de sétimo dia, cada um tentava assimilar a tragédia. Ela era muito presente. Era difícil continuar ali sem sua presença marcante.

Muito tempo se passou, sem que alguém tivesse a coragem de mexer no armário cheio de roupas que lembravam várias ocasiões. A escrivaninha continha papéis e papéis que deviam significar coisas importantes, mas ninguém queria botar a mão ali.

Meses e meses depois, Fred, um dos filhos, achou que precisavam organizar as coisas. Não poderia ficar tudo ali, sem que se desse um destino. 

As roupas foram doadas na igreja próxima. O duro era examinar os arquivos de contas pagas, de fotos, de documentos que ela guardava em pastas e que teriam que ser examinados para talvez serem jogados fora ou guardados para sempre. Richie juntou-se ao irmão. Era mais emotivo e tinha dificuldade para colocar a mão em coisas que lhe traziam tantas lembranças.  As esposas os ajudaram no que era possível.

Cris era muito organizada. Foi escolhida para verificar a importância dos objetos guardados. Yara ficou com as pastas de documentos.

Como todos tinham seus trabalhos, tiveram que reservar algumas noites e alguns fins de semanas sem compromisso.

Após meses, ao remexer uma das caixas, Cris encontrou um pacote de cartas, amareladas pelo tempo, amarradas com uma fita cor de rosa, com a letra de Magda. Curiosa, tirou uma para ler.

Era dirigida a um tal de Francisco. Parecia uma declaração na qual a sogra declarava seu eterno amor. Algumas palavras pareciam ter perdido algumas letras que fizeram Cris concluir haverem sido molhadas. Seriam lágrimas? 

Todas eram dirigidas ao mesmo indivíduo. Não havia carimbo, nem sinal de que tivessem sido entregues. 

Cris mostrou a Yara e ambas relutaram em revelar a descoberta aos seus maridos e ao sogro que, certamente, se sentiriam traídos. Observaram que se tratava sempre do mesmo dia e mês, embora os anos fossem diferentes. 

Clovis, o marido, não soube explicar quando lhe contaram a respeito. Aquela data correspondia ao dia e mês em que se conheceram. Os filhos ficaram surpresos e pensativos.

O assunto era sempre o mesmo. Um amor não correspondido mas que parecia mexer muito com ela. Havia sempre uma mágoa muito grande. Talvez ela necessitasse colocar no papel o que sentia para exorcizar aquele sentimento guardado.

Tentaram pesquisar, em vão, entre os velhos conhecidos, sobre a existência de algum Francisco. 

Ao chegar à última carta do monte, entretanto, deram com uma observação escrita em vermelho.

“Sempre imaginei alguém, que tivesse tido um amor impossível, mandando cartas para a suposta paixão. Inventei essas cartas para um Francisco qualquer, pois quem sabe ainda publicarei um livro com um título de ‘Cartas na mesa’, ‘Cartas não enviadas’, ‘Cartas que Francisco não recebeu’, ‘ou algum outro título’.

A emoção tomou conta de todos. Ela tinha uma vontade íntima, que escondera de todos. Clovis e os filhos, aliviados, resolveram publicar as cartas para satisfazer aquele desejo guardado.

Encaminharam para uma editora que fez a revisão e editou. Na noite do lançamento, todos os amigos da família foram convidados e compareceram em massa.

Foi uma noite de muita emoção em que Magda foi muito lembrada por sua personalidade marcante, sua simpatia, seu poder de agregar os amigos.

Apesar de sua vida ter sido ceifada antes de ter realizado tantas coisas, sua vontade foi satisfeita e o livro recebeu um dos títulos sugeridos por ela, Cartas na Mesa.

Clovis, os filhos e as noras, tiveram a certeza de que Magda, onde quer que estivesse, e eles pressentiram sua presença, devia estar contente com aquela homenagem póstuma.