CAFÉ COM BISCOITOS - Carla Di Sessa

 



CAFÉ COM BISCOITOS

Carla Di Sessa


Os irmãos Cardoso haviam se reunido naquela tarde a pedido de Clara, a mais velha, pois queria prestar contas das coisas da mãe deles, falecida há algumas semanas. Embora contasse com a anuência deles para decidir sobre os legados da mãe, Clara havia topado com algo que precisava dividir com os irmãos. 

Ela os cumprimentou rapidamente quando chegaram. Sem conseguir esperar mais logo entrou na razão pela qual os havia convocado para aquela reunião mostrando a eles uma caixa antiga de biscoitos que havia encontrado no armário do quarto dos pais. Dentro havia um maço de envelopes amarrados com uma fita desbotada pelo passar do tempo. Quarenta e oito cartas escritas uma vez por ano, sempre na mesma data, 5 de abril, e que não haviam chegado ao seu destinatário, um tal de Benício, que ninguém nunca ouvira falar até então.

Paulo e Luis, os gêmeos, começaram a ler em silencio alguns trechos e Clara mostrou a Cecília, a caçula, a primeira daquelas cartas.

— Olha a data, foi no ano em que a mamãe conheceu o papai. 

As cartas relatavam fatos da vida da mãe deles, como o casamento, a chegada dos filhos mas, principalmente, falavam de saudades, de amor e de lembranças guardadas com carinho.

A mãe havia acalentado em seu coração um amor da juventude. Cuidou dele secretamente enquanto se casava com outro homem e formava com este uma família. Os quatro irmãos estavam desconcertados. Dentro daquela caixa de biscoitos estava uma mulher que não conheciam. Surgiu a dúvida: o pai deles sabia? Desconfiava? Preferiu olhar para o outro lado e preservar a família?

— Agora cai bem um café, né? Disse Clara levantando-se e fazendo um gesto para Cecília acompanhá-la.

Na cozinha começaram a conversar.

— Clara, disse Cecília, será que foi o vovô que não deixou a mamãe se casar com esse tal de Benício? 

— Acho mais fácil a família do tal Benício ter interferido. Você sabe que o vovô nunca deixou faltar nada em casa, mas também não sobrava nada.

— Verdade… será que a família dele era muito rica, descobriu que ambos estavam de caso e o mandaram estudar em outro país? 

— Pobre mamãe… abandonada pelo seu amor.

— Pois é, só lhe restaram as cartas.

— Que nunca enviou. Mas, por que a família dele surtaria a ponto de mandar o rapaz para outro país? A família do vovô não era nem importante nem rica, mas também não eram pobretões ignorantes.

— Só se… e se… ela estivesse grávida?

— Não, imagine, que ideia… será?

— Pode ser, sabe como é, primeiro amor, primeira paixão, primeiro…

— A mamãe? Nunca a vi nem dar um selinho no papai…

— Pode ser que no papai não, mas no Benício…

— Clara…Clara! Clara! Disse Cecília com os olhos arregalados, se ela estava grávida então você…

— Meu Deus! Posso ser a filha dela com o Benício!

— Você é a mais velha, então…

— Mas todo mundo diz que sou a cara do papai…

— Verdade. Uma Cardoso legítima.

— Ela pode ter tido um filho e dado para adoção.

— E ela ia ter coragem de fazer isso?

— Ué, pode ser que ela mesma não, mas o vovô sim.

— Então temos um irmão…

— Ou irmã.

— Que história maluca…

— O café está pronto, gritou Clara avisando os irmãos que ainda estavam na sala, entretidos com as cartas. Os quatro ficaram conversando na cozinha por algum tempo depois do café até Paulo perguntar:

— E agora? Vamos fazer algo a respeito?

— Lógico, respondeu Clara, precisamos achar esse Benício e perguntar se ele sabe o paradeiro do filho ou filha que ele teve com a mamãe.

— Como é que é? Disse Luís, não tem nada nas cartas a esse respeito.

— É, mas está mais do que subentendido, disse Cecília.  Pode ser que a mamãe estivesse grávida dele e, por isso, a família do Benício, que não queria o namoro, muito menos o casamento, o mandou para fora do país. Sem saída, mamãe teve a criança e a deu para adoção.

— O que mais vocês tomaram além do café? Perguntou Luís.

Clara ignorou o irmão e acrescentou:

— Pode ser até que o tal Benício tenha morrido no estrangeiro e nunca ficou sabendo do que aconteceu.

— Nesse caso, disse Cecília pensativa, todos que sabiam desse filho ou filha já faleceram. Vai ser complicado achar a família desse Benício e mais complicado ainda saber o paradeiro da criança.

— Verdade, concordou Clara. Essa história ficou escondida por 48 anos, melhor que continue assim.

 — Melhor deixar para lá. Faz tanto tempo, né? Disse Cecília em tom de quem encerra o assunto.

Paulo e Luís ficaram olhando as irmãs como se fossem duas malucas. Mas, o assunto perdera gás por si só e então acharam melhor deixar quieto. Vai tentar entender o que se passa pela cabeça de uma mulher… haja vista a mãe deles: 48 anos escrevendo cartas que nunca enviou e guardando tudo em uma lata de biscoitos no fundo do armário. Tenha dó!



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